Viúva Negra e a sexualização das adaptações de quadrinhos no cinema

No dia 8 de julho, aconteceu o lançamento do filme Viúva Negra, filme solo da personagem protagonizada por Scarlett Johansson. O longa já atraiu polêmicas com o processo da atriz alegando quebra de contrato por parte da Disney, mas, outro aspecto do filme também merece atenção: o figurino. 

Desde sua primeira aparição no cinemas em 2010, no filme Homem de Ferro 2, Natasha Romanoff virou uma personagem querida pelos fãs de quadrinhos e filmes de super-heróis. A Viúva Negra permaneceu sendo a única integrante mulher da formação original dos Vingadores no Universo Cinemático Marvel até sua morte em Vingadores: o Ultimato (2018). A falta de representação feminina nesse meio foi notada pela Disney, que começou a tentar corrigir nos últimos anos. A mudança foi perceptível ao observar o tratamento da personagem nos últimos onze anos. 

Em seu primeiro filme, ela é vista apenas como algo a ser desejado, como o próprio Tony Stark diz depois de a ver pela primeira vez: “Eu quero uma”. Essa visão objetificada é totalmente refletida em seu figurino. Um macacão extremamente apertado certamente não é a opção mais óbvia para lutar, muito menos com o decote à mostra. O cabelo perfeitamente solto e cacheado e a bota de salto também não. 

Imagem de Divulgação / Marvel Studios

Apesar de grande parte da personalidade da heroína ser baseada no uso da sensualidade para manipulação, Scarlett Johansson contou esse ano, em entrevista para o site Collider: “Ela é tratada como um pedaço de algo, uma posse – como um pedaço do seu traseiro, na verdade”. A atriz também disse que seu pensamento era diferente na época do filme e que sua autoestima provavelmente era mensurada por esse tipo de comentário.

Ao longo de onze anos, Natasha passou por diversas mudanças de cabelo e algumas de figurino, mas nunca recebeu o desenvolvimento de personagem que merecia. Sua história nunca tinha sido aprofundada e ela era usada apenas como ponto de apoio nos enredos dos outros personagens masculinos, como em Capitão América 2: o Soldado Invernal. Agora, em 2021, com o seu filme solo esperado por muito tempo pelos fãs, a Viúva Negra pode, finalmente, ter o holofote que tanto precisava. 

Com Johansson na produção e Cate Shortland na direção, há uma narrativa focada na evolução da personagem de forma mais humanizada. Essa nova perspectiva é vista na mudança do macacão clássico da Viúva Negra por um branco com mais ênfase no conforto, assim como seu cabelo amarrado longe do rosto em tranças. 

Imagem de Divulgação / Marvel Studios

Para a Collider, Scarlett disse: “Eu tenho um entendimento muito mais evoluído de mim mesma hoje. Eu sou mais compreensiva comigo como mulher – provavelmente não o suficiente, mas me aceito melhor e tudo isso está relacionado ao afastamento dessa sexualização”.

Porém, infelizmente, não é apenas Natasha Romanoff que sofreu com a sexualização e falta de aprofundamento no cinema. A Mulher Maravilha, a Mulher Gato e a Arlequina também passaram por algumas representações carregadas por male gaze e, com o tempo, evoluíram conforme a indústria foi reconhecendo os danos dessa prática. Figurinos totalmente desconfortáveis e nem um pouco apropriado para lutas, peles à mostra vulneráveis, cabelos ao vento e botas de salto alto são parte do combo personagem-feminina-de-quadrinhos que, apesar de poder funcionar no papel, no cinema acaba parecendo absurdo e quase cômico. 

Perto da profundidade e cuidado com qual os homens no mundo dos quadrinhos recebem nas adaptações, é nítido o tratamento injusto e sexualizado que a Viúva Negra e outras heroínas receberam todos esses anos e que, só agora, começaram a ser notadas e discutidas. Quando o constante male gaze é presente no material original da adaptação (HQ’s com personagens – não só femininos – hiperssexualizados), fazer a cópia fiel nas telonas parece lógico para algumas pessoas.

 Porém, é preciso saber entender o que faz sentido manter e o que mudar. Grandes histórias, como essas escritas nos quadrinhos, por vezes precisam  ser ajustadas para conversar com o mundo atual, alcançar novos públicos e sobreviver.

Confira o trailer:

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