[Resenha] ‘The White Lotus’ e a sátira do privilégio branco

The White Lotus (2021) criada, escrita e dirigida por Mike White — roteirista de Escola do Rock (2003) e Freaks and Geeks (1999 – 2000) — rapidamente se tornou a série mais assistida da HBO Max e já foi renovada para a segunda temporada, que contará com um elenco completamente novo. O sucesso da série não é surpresa – a trama engloba um tema extremamente atual e o aborda de forma leve e satírica: o privilégio branco.

A narrativa segue hóspedes brancos de classe alta que se hospedam em um hotel de luxo no Havaí. Ao longo dos episódios, a dinâmica entre os clientes, empregadores e empregados é mostrada de forma clara e a história tem como centro da piada os hóspedes que constantemente fazem demandas estúpidas e mesquinhas; comentários de caráter tão duvidoso que beiram o cômico; e começam brigas que são, no mínimo, fúteis.

Diferente de séries como Gossip Girl (2021 – atualmente), The O.C. (2003 – 2007), Dynasty (2017 – atualmente) e Downton Abbey (2010 – 2015), The White Lotus não procura a redenção ou simpatia pela elite. Pelo contrário, a série os ridiculariza e deixa óbvia a forma como as ações e comentários do grupo são imensamente absurdos.

O elenco dos hóspedes conta com três grupos principais: a família Mossbacher, composta por Nicole (Connie Britton), Mark (Steve Zahn), Olivia (Sydney Sweeney), sua amiga Paula (Brittany O’Grady) e Quinn (Fred Hechinger); os recém casados Shane (Jake Lacey) e Rachel (Alexandra Daddario); e Tanya (Jennifer Coolidge) que foi para o resort para espalhar as cinzas de sua mãe no oceano. Enquanto isso, o elenco dos funcionários conta com Armond (Murray Bartlett), Belinda (Natasha Rothwell) e Dillon (Lukas Cage).

A trama envolvente é atingida pelas atuações brilhantes de todo o elenco, em especial, Alexandra Daddario que surpreende como uma jovem jornalista presa em um debate interno sobre seu recente casamento; e Murray Bartlett, que entrega uma performance impecável de um homem à beira da loucura.

White escreve a crítica social de forma natural, sem piadas forçadas, ações exageradas ou comentários distantes do que se pode encontrar em boa parte da elite branca da vida real. É a proximidade com a realidade que torna a série irresistível. Fica fácil para qualquer um ver semelhança entre os discursos que ocorrem em cena com coisas ditas na vida real, por mais absurdo que pareça ser no papel. Um exemplo disso é a cena que se passa em um dos jantares, onde a matriarca da família Mossbacher, Nicole, tenta defender que homens heterossexuais cisgêneros agora são a minoria e, por isso, merecem atenção, cuidado e mais oportunidades de trabalho.

A construção da narrativa, no entanto, não se mantém apenas no roteiro. Desde a vestimenta, com hóspedes carregando a tiracolo marcas como Goyard, Gucci, Valentino e Louis Vuitton enquanto os empregados trajam — na maior parte das cenas — o uniforme do hotel. A distinção entre as camadas sociais também é construída com os maneirismos e sotaques da elite: o exemplo mais claro é o personagem de Sydney Sweeney que carrega um pesado valley girl accent (“sotaque de garota do vale” na tradução livre, como os nortes-americanos intitulam o jeito de falar das garotas de classe alta ou classe média alta da região de Los Angeles e arredores).

Brittany O’Grady e Sydney Sweeney como Paula e Olivia. [Imagem: Divulgação/HBO]

Além de retratar a clara desconexão da elite estadunidense com o resto do mundo, Mike White captura outros arquétipos dessa mesma camada: a geração “desconstruída”. À medida que a série se desenvolve, a amizade de Paula e Olivia é explorada por ângulos um tanto inusitados. Paula tem na história o papel do olhar dos telespectadores e representa o que, muito provavelmente, a audiência estará pensando e sentindo.

A personagem de O’Grady originalmente não faz parte desse mundo e vai na viagem a convite de Olivia, que sente a necessidade de não ser como seus pais. Isso é convincente pela maior parte da trama até os episódios finais, nos quais o diretor traz uma mensagem um pouco desesperançosa: não importa o quanto tente, a sua família ainda é sua, e querendo ou não, você tem mais em comum com eles do que gostaria.

Ele mostra essa desesperança em outros aspectos do enredo, quando Tanya parece finalmente ter um arco de redenção, ele é quebrado pela aparição de um possível romance e as suas promessas de um negócio com Belinda caem por terra. Em resumo, o diretor lembra que quando dada a escolha, essas pessoas escolherão elas mesmas ou seus iguais.

Além da clara crítica social, The White Lotus traz a tona o conflito adolescente de se encontrar no mundo com Quinn, as dúvidas e incertezas do casamento com Rachel, a dificuldade em lidar com o passado com Mark, o difícil processo do luto com Tanya, o ganho de confiança com Paula, o problema de abuso de substâncias químicas com Armond e o preço que se paga por ser gentil demais em um mundo cruel com Belinda. A série se aproveita de todos os personagens e os traz à vida com personalidades tridimensionais, histórias do passado e tramas do presente, e faz isso sem deixar nenhuma ponta solta.

O pessimismo (ou melhor, realismo) reflete o momento atual e o jeito como as coisas são: apenas os ricos têm um final feliz. Do destino de Kai (Kekoa Kekumano) até Belinda, a elite sempre ganha, sai por cima ou tem uma chance de recomeçar enquanto os outros são deixados para traz para arrumar a bagunça causada por eles e seguir na esperança que um dia as coisas serão diferentes. A sensibilidade na hora de lidar com os hóspedes, não por serem clientes do hotel, mas sim por serem pessoas socialmente e economicamente relevantes, é algo citado pelos empregados diversas vezes durante a série.

O diretor ainda se aproveita da famosa coloração amarelada que estrela os filmes e séries hollywoodianas que se passam em qualquer lugar periférico. O uso das cores, em especial, transparece o clima quente e tropical havaiano. A teleportação para o paraíso também vem com a trilha sonora por Cristobal Tapia de Veer.

O apelo de The White Lotus é óbvio por ser uma série leve e objetiva, não procura ou cria tramas complicadas como Succession (2018 – atualmente). O assassinato que serve de gatilho para o começo da história é rapidamente revelado e explicado no final, já que a série não se trata de um mistério.

No dia 10 de agosto, a série foi oficialmente renovada para a segunda temporada. Em entrevista para TV Line, Mike White diz que gostaria que a continuação fosse em um hotel diferente com um novo elenco, “The White Lotus: Saint Tropez ou algo assim”, disse o diretor. Ele também disse que, logicamente, você não poderia ter todos os hóspedes nas mesmas férias novamente, mas cogita a ideia de trazer alguns personagens de volta em algum momento. “Poderia ser algo tipo o universo Marvel”, diz.

O novo elenco, data de lançamento e outros detalhes ainda não foram divulgados.

Confira o trailer:

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