Donda e o retorno de Kanye West

Depois de muita espera, finalmente temos o 10º álbum solo do rapper Kanye West. Lançado no último domingo de agosto, Donda é o maior trabalho do artista até hoje: ao todo são 27 músicas, dando a obra praticamente 2 horas de duração.

O nome é em homenagem a Donda West, mãe de Kanye, que faleceu em 2007. Além do título, algumas faixas trazem a voz dela. O rapper também retrata temas como a ex-esposa, Kim Kardashian, a constante ideia de ser perseguido, e claro, Deus. É válido ressaltar as influências dos trabalhos passados, desde 808s & Heartbreak até The Life of Pablo, já que possuía alguns traps. Outras faixas apresentam uma temática mais gospel, relembrando os dois últimos álbuns de West, Jesus Is King e Jesus Is Born. O novo disco também é um destaque por contar com participações especiais como Jay-Z, com o qual possui um álbum colaborativo, Watch The Throne; Stalone; Travis Scott; The Weeknd; Roddy Ricch e muitos outros.

6 das 27 faixas de Donda obtiveram um maior destaque por parte do público, consagrando-as aos primeiros lugares do Top 10 no Spotify Global. Jail ficou em segundo lugar e pode ser considerada o início da narrativa. Nela, West se encontra no meio de uma crise, ficando fora de controle enquanto seu casamento se desintegra e sua imagem pública desmorona mais uma vez. Além disso, Jay-Z e Francis and the Lights fazem parte da canção.

Em seguida estão as músicas Hurricane, Off The Grid e Ok Ok pt 2, com as participações (respectivamente) de The Weeknd e Lil Baby; Fivio Foreing e Playboi Carti; e Rooga e Shenseea. No quinto lugar, God Breathed, feat com o Vory, Kanye implora aos ouvintes para que depositem sua confiança em Deus, e seu título possivelmente faz referência a passagem da bíblia 2 Timóteo 3:16 – 17 em que diz: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e é útil para ensinar, repreender, corrigir e treinar na justiça”.

A última canção, Praise God, ficou em sexto lugar e foi criada em colaboração com Travis Scott e Baby Keem. O disco também dominou o Top 10 do Spotify USA, e de acordo com o Chart Data, em apenas 24 horas de lançamento obteve 100 milhões de streams, sendo considerado a segunda maior estreia de um álbum no Spotify, ficando atrás apenas de Drake com Scorpion.

Mas o que está fazendo de Donda um sucesso para além de um ótimo disco?

Imagem da primeira Listening Party de Donda.
Reprodução/Instagram

Para divulgar o álbum, Kanye organizou três eventos – as chamadas “listening parties” (shows para divulgar as faixas do álbum) que movimentaram a internet desde o fim de julho. O primeiro show ocorreu em Atlanta, Georgia, e deu o que falar: assim que Kanye entrou no campo vazio – de balaclava e vestido de vermelho da cabeça aos pés – os fãs notaram que o rapper não performaria as músicas da forma tradicional. Todas as canções apresentadas (o álbum não foi tocado na íntegra na data) foram emitidas por caixas de som, não cantadas, com Kanye sendo também um espectador do show que dançava e se emocionava no meio do estádio. Para muitos, o primeiro evento seria uma metáfora para partes difíceis de sua vida, a quebra de sua reputação e os momentos baixos e solitários de sua carreira.

Na segunda apresentação, os temas foram as frustrações, a raiva e o medo. Seus problemas com a política, os paparazzis e o público foram colocados por meio da moda – coletes a prova de balas com recortes semelhantes a espinhos, mais balaclavas e um comportamento que por vezes parecia paranóico. A estética se assemelhava muito a uma prisão, trazendo a ideia do confinamento mental pelo qual West passou durante um longo período. Por isso, o cantor se mostra mais próximo de Deus e da religião, sendo carregado ao céu no fim do show.

Para o terceiro e último show, Ye concentrou seu foco no que parece ser seu norte de vida: sua família, Deus e o amor, colocando-os acima de seu ego. Sendo considerada a listening party mais importante, o evento tinha como cenário uma casa semelhante a uma igreja (e também a sua casa de infância) no centro do palco. Ao longo da apresentação e com o passar das músicas, novos elementos foram surgindo: os polêmicos artistas DaBaby e Marilyn Manson, colocados como pecadores assim como Kanye; um incêndio que mata o rapper e queima a casa, fazendo-o se desprender de sua infância, de sua mãe e de seu passado de pecado; e seu renascimento como um novo homem, no qual West retira a balaclava que usou durante todos os momentos e se encontra com sua ex-esposa Kim Kardashian – vestida de noiva da última alta costura da Balenciaga, a tão misteriosa noiva fantasma – para simbolizar uma nova vida.

O encontro entre Kim e Kanye ao fim do show
Reprodução/Apple Music

Para muitos, a trajetória se assemelha a famosa Divina Comédia de Dante Alighieri, passando pelo Inferno e pelo Purgatório para finalmente chegar ao Paraíso. A primeira fase nos entregou um álbum não finalizado e um Kanye West solitário, perdido e escondido por trás de sua máscara. A segunda nos apresentava um purgatório mental, com músicas mais pesadas e o rapper batalhando contra seu ego, ódio e a paranóia que o perseguiu durante anos para no fim ascender ao Paraíso, no qual renasce como um novo homem sem pecados, retira sua máscara social e encontra Deus, representado por sua ex-exposa.

A participação polêmica de DaBaby e Marilyn Manson

Além de um longo storytelling, a atmosfera que envolve o álbum também tem gerado polêmica pelo envolvimento de Kanye com alguns artistas já fortemente criticados pelo público como Marilyn Manson, cantor acusado por diversas mulheres por agressões sexuais e abuso e o rapper DaBaby, que recentemente teve falas homofóbicas. Além deles, há no álbum participações como a do rapper Chris Brown, condenado por agredir a cantora e sua ex-namorada Rihanna em 2009 e acusado de violência contra diversas outras mulheres.

Kanye, DaBaby e Marilyn Manson
Reprodução/Twitter

Ainda na questão das polêmicas, West teve um desentendimento com sua gravadora, que lançou o álbum sem sua autorização na madrugada do dia 29. O cantor utilizou sua conta no Instagram para se pronunciar, com uma mensagem que dizia “A Universal soltou meu álbum sem a minha aprovação e eles bloquearam Jail pt 2 de estar no álbum”. A música referida seria uma parceria com DaBaby e Manson e mesmo sem ser lançada, recebeu críticas do público. “Um predador sexual e um homofóbico? Por que ele está se associando com essas pessoas ?! A única razão que posso pensar é que Kanye é um lixo absoluto também”, diziam algumas das mensagens dos seguidores.

Não bastasse os eventos e as polêmicas envolvidas, Kanye também desenvolveu através da sua empresa Yeezy Tech em parceria com a Kano, empresa britânica de eletrônicos, o Donda Stem Player, um dispositivo que custa 200 dólares (aproximadamente R$1.050,00). O aparelho possibilita que os fãs personalizem as músicas do rapper em tempo real, ou seja: você pode controlar os vocais, a bateria, o baixo e os samples, isolar as peças, adicionar efeitos e dividir as músicas em partes. Além disso, mesmo que seja um artefato promocional lançado em paralelo ao álbum Donda, o Stem Player pode receber e remixar outras músicas já que possui 8GB de armazenamento.

São diversas as opiniões sobre Donda. Para alguns, o lançamento já tem o posto de melhor trabalho da carreira de Kanye West, enquanto para outros é mais um dos que deveriam acabar no limbo das obras anunciadas mas não publicadas do artista. Ainda assim, é inegável e quase consenso geral que o álbum vai além de seu papel como homenagem fúnebre – é também uma profunda análise do imaginário e da mente de um homem excêntrico. Gostando ou não, Kanye permanece no hall de gênios da indústria musical. 

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