BTS e a xenofobia da indústria ocidental

Há anos o grupo que liderou a popularização do K-Pop no mundo, o BTS, tem tomado proporções absurdas nas redes sociais e na mídia. É quase impossível  nunca ter visto nenhum produto dos artistas, uma hashtag no Twitter nos últimos tempos ou ouvido alguma música do grupo por aí. Porém, apesar de seu talento e do esforço dos fãs de darem boa visibilidade aos ídolos, com uma simples pesquisa por seu nome no Google você será recebido por uma enxurrada de notícias sobre o racismo e a xenofobia que a banda têm sofrido.

Composta por RM, Suga, J-Hope, V, Jin, Jimin e Jungkook, BTS apresenta atualmente o estilo de música Korean Pop. Ainda que o grupo seja oriundo de uma pequena gravadora, se tornou precursor da fama global do K-Pop, sendo o primeiro a receber diversos prêmios pelo globo (além de, aos poucos, garantir seu espaço no cenário ocidental).

O grupo se apresentou ao mundo em 2010, mas seu debut definitivo foi apenas em 2013 com o lançamento do clipe de No More Dream, que juntamente a outras canções garantiu o início do seu sucesso no continente asiático. Mas foi em 2016 que o início do seu sucesso internacional se deu, quando o segundo álbum de estúdio, Wings, começou a receber o destaque que lhe rendeu uma posição na Billboard 200.

Dispondo de um repertório de faixas que exaltam a autoestima de seus fãs e garantindo que a música seja um espaço de conforto, o septeto conquistou o coração de uma legião de todas as idades. Seu esforço os rendeu quebras incontáveis de recordes, uma discografia muito bem avaliada e reconhecimento mundial. A marca deixada por eles é incontestável, mas a indústria ocidental já conhecida por diversos preconceitos não deixou de atingir os jovens.

Por que o BTS é um alvo?

Photo of BTS.
[Imagem; Big Hit Music]

Sabe-se que tudo o que é diferente causa estranhamento, o que, em si, não é um problema, mas sim a forma como se reage a ele. A indústria da música é marcada por padronizações, e  ao representar na mídia apenas um tipo de figura, muitos crescem não vendo espaço para si em lugares como a música.

Como temos visto, aos poucos a inclusão de artistas anteriormente fugindo daquele padrão têm se mostrado felizmente presente. Porém, por mais que haja essa certa inserção, os preconceitos que mantinham essas pessoas fora dos holofotes, hoje as oprime publicamente. A surpresa causada por ver pessoas que sempre existiram sendo elas mesmas, mas não eram retratados na grande mídia mundial, quando não resulta em aceitação, resulta em ódio.

Nativos da Coreia do Sul, um país asiático, os integrantes do BTS têm sido submetidos a diversos ataques. Asiáticos foram, por muito tempo, apresentados sob perspectivas pejorativas repletas de estereótipos reproduzidos até hoje. O contexto histórico envolvendo o continente asiático marcou infinitamente a trajetória de uma representação midiática racista e xenofóbica que, agora, em muito atinge aos grupos de K-Pop. Infelizmente, esse cenário  preconceituoso não ficou para trás e essas questões ainda estão presentes absurdamente nessa  indústria musical.

Xenofobia e racismo na mídia

Sabemos como os canais midiáticos têm uma importância absurda na opinião pública e sua influência, ainda mais dos meios de comunicação comum como rádio e TV, alcança milhões de pessoas. Externar preconceitos em um espaço de grande alcance é colaborar com ele e normalizá-lo, por isso, figuras públicas devem assumir responsabilidade por comentários e ações criminosas. Contudo, a responsabilidade atribuída não impede infinitas situações assim.

Em março desse ano, Matthias Matuschik, um locutor alemão disse ao vivo em seu programa: “Esses idiotas se gabam por terem feito cover de Fix You, do Coldplay, que eu respondo: isso é uma blasfêmia, e olha que sou ateu! Isso é ofensivo. Por isso, vocês passarão suas férias na Coreia do Norte pelos próximos 20 anos!”, enquanto emitia sons de vômito ao falar sobre o cover. Além de associar os componentes e sua música a um vírus que seria ‘eliminado’ em breve. O motivo da indignação do locutor foi o cover feito pelo grupo no MTV Unplugged, onde artistas apresentam canções em versão acústica. A cantora Halsey, amiga dos integrantes, se manifestou deixando clara sua indignação e demonstrando apoio aos amigos.

Outro caso marcante foi em abril, no programa chileno Mi Barrio, um mês após o ocorrido na rádio alemã. Uma paródia considerada racista e repleta de estereótipos foi ao ar na TV aberta do país sob a justificativa de ser apenas comédia. Tendo em vista a reação de repulsa, fizeram um post no instagram no qual não se desculparam pela ação e só agradeceram pelas críticas e comentários positivos, logo, não houve atribuição de responsabilidade.

Preconceito e segregação nas premiações ocidentais

BTS no VMA 2019 [Reprodução/Twitter]

O BTS já faz barulho há um bom tempo, mas considerando que os mais notáveis e populares prêmios da música são estadunidenses, eles não foram incluídos nas premiações antes de 2019, quando indicados a 4 categorias no VMA (Video Music Awards). Na mesma edição, houve o anúncio de uma nova categoria: Melhor K-pop. Os fãs, em contrapartida, não gostaram nada da ideia, pois limitaria a competição com artistas ocidentais. É importante lembrar que a crítica tem como base a premiação contar com o voto público e que o BTS é bastante conhecido por sua extensa fanbase.

A criação de categorias como Melhor Latino e Melhor K-pop tem como justificativa a inclusão, mas isolar essas pessoas em categorias que se baseiam em de onde vieram não dá visibilidade, mas segrega. As principais categorias seguem com nomes, em maioria, do eixo EUA x Canadá x Reino Unido.

BTS no Grammy 2020 [Imagem: Getty Images]

Outra polêmica com premiações ocidentais é envolvendo o Grammy, considerado o mais importante prêmio da música.

Ainda que o sucesso mundial do BTS não seja recente, algo que se destaca no primeiro momento em que o Grammy abre espaço para o septeto.  Em 2020, foi  lançada a  primeira música inteiramente em inglês do grupo, Dynamite. Marcado por não ser muito inclusivo, a participação dos integrantes apenas com essa faixa levanta questões como a exaltação de canções na língua nativa do Grammy e uma integração não muito satisfatória de diversidade de idiomas.

Na mesma edição, receberam a indicação de Best Pop/Duo, apresentada na pré-cerimônia, cujas ganhadoras foram Lady Gaga e Ariana Grande por Rain On Me. As críticas de fãs sobre o anúncio da categoria não ter sido ao vivo, também se estendem ao fato de que eles foram os penúltimos a se apresentarem. A questão da perda de audiência das edições ao longo dos anos foi associada à decisão de colocar a performance mais aguardada da noite para o fim da cerimônia como uma forma de manter a grande audiência gerada por um grupo global.

Como os integrantes reagem a tudo isso?

Ainda que submetidos a situações desagradáveis e serem destratados pela indústria nociva, apresentam uma visão consideravelmente positivista. Em entrevista à revista estadunidense Rolling Stone, RM disse: “Agora, claro, não há utopia. Existe um lado iluminado; sempre haverá um lado obscuro. A forma como nós pensamos é que tudo o que fazemos, e nossa própria existência, estão contribuindo para a esperança de deixar essa xenofobia, essas coisas negativas, para trás. Também temos esperança que as pessoas das minorias irão tirar alguma energia e força da nossa existência. Sim, há xenofobia, mas também existem pessoas muito receptivas… O fato de que nós alcançamos sucesso nos Estados Unidos é bastante significativo por si só.”

Demonstrando uma visão de resistência na sua fala ao representar os parceiros, RM reitera que a ascensão do grupo colabora com a esperança e a fé de minorias. Além de considerar o avanço à indústria estadunidense um progresso nos passos para conquistar visibilidade mundial e espaço para não tão somente fazer música, mas que esse ato tenha uma significância ainda maior.

Um comentário em “BTS e a xenofobia da indústria ocidental

  1. Recentemente teve uma entrevista deles na Billboard que foi estupidamente degradante (chegaram a questiona–los sobre comprar sua posição no chart e usar opinião de fãs de outros grupos do twitter de argumentação). É tão interessante ver uma matéria falando sobre o preconceito e a estereótipos que marcam a indústria. Parabéns pela escrita cativante, envolvente e educativa, Yas!

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