O cinema brasileiro: dos primórdios à atualidade

Em 125 anos de história, o cinema brasileiro sofreu mudanças significativas e percorreu uma grande trajetória que até hoje está em constante progresso. Desde o início, o contexto socioeconômico, cultural e político nacional interferem na produção e estrutura cinematográfica brasileira, que faz com que a história do audiovisual seja separada em diversos períodos, tais como o domínio de Hollywood, o Cinema Novo, o Cinema Marginal, a crise da década de 80, a Retomada e a Pós-Retomada.

Contudo, no Brasil, comentários como “o cinema brasileiro é muito ruim, o internacional é melhor” e “filmes nacionais só têm palavrão, cenas de sexo e violência” são comuns. Você com certeza já ouviu frases do tipo, e sabe-se que, infelizmente, isso contribui para a disseminação de uma implicância com o cinema brasileiro entre o público, uma vez que tais julgamentos carregam preconceitos infundados.

A sétima arte no Brasil se desenvolveu tardiamente e enfrentou inúmeros impasses no caminho. Em 1950, os custos de produção eram altíssimos, já em 1968, a forte repressão da censura dos militares se tornou o problema. Hoje, produzir peças audiovisuais muitas vezes ainda é complicado, em razão da ausência de incentivos. Porém, mesmo com adversidades, o cinema produzido no país foi e continua sendo rico e grandioso, e é possível assegurar isso por várias nomeações e vitórias que brasileiros conquistaram em premiações do mundo inteiro, que contradiz os comentários preconceituosos comumente propagados pelo público. O que será que houve, então, para tamanha implicância?

Os primórdios do cinema brasileiro

O cinema surgiu no Brasil em julho de 1896, quando na cidade maravilhosa, o Rio de Janeiro, aconteceu a primeira sessão de cinema no país, organizada por Henri Paillie, um exibidor itinerante belga. No momento, Henri exibiu uma série de filmes curtos que mostravam somente imagens de cidades europeias.

Em 19 de junho de 1898, os irmãos italianos Paschoal e Affonso Segreto realizaram gravações na Baía de Guanabara. O curta-metragem Vista da Baía de Guanabara é considerado o primeiro filme nacional da história, embora não haja registros da obra. Por causa disso, nessa data é comemorado o Dia do Cinema Brasileiro.

Os irmãos Segreto e mais cineastas da época, em razão do escasso fornecimento de energia elétrica no país, enfrentaram muitos problemas para realizarem suas exibições. Nesse período, a maior parte dos filmes exibidos eram estrangeiros e os brasileiros eram principalmente documentais – todos em preto e branco e mudos. Foi somente em 1907, com a melhoria no sistema energético do país, que o mercado cinematográfico progrediu.

Em 1908, com o curta-metragem que é considerado o primeiro filme nacional de ficção, Os Estranguladores, de Francisco Marzullo e Antônio Leal, produções ficcionais começaram a ganhar visibilidade. E, em 1914, o primeiro longa-metragem foi exibido, O Crime dos Banhados, dirigido por Francisco Santos. Os filmes “cantados”, nos quais atores realizavam dublagens ao vivo, também fizeram sucesso nesse tempo.

O domínio de Hollywood

A Primeira Guerra Mundial, que começou em 1914 e durou até 1918, causou diversas consequências na indústria cinematográfica, tais como uma brusca mudança no mercado, o que desencadeou uma crise no cinema brasileiro. Desse modo, produções de Hollywood dominaram as sessões de cinema, na mesma medida em que as produções da Europa reduziram consideravelmente, e fez também com que os filmes nacionais fossem marginalizados.

À custa da consequente intermissão das produções hollywoodianas, o público brasileiro se acomodou com o clássico estilo dos filmes de Hollywood com narrativas que seguem uma sequência: início, meio e fim, sobretudo com finais felizes.

Por isso, em março de 1930, a Cinédia surgiu como o primeiro grande estúdio de cinema do Brasil. Nesse mesmo período, com avanços tecnológicos, a inserção de som nas produções se tornou possível. Assim, o estúdio começou a investir na produção de comédias musicais que seguiam o caráter hollywoodiano, como Alô, Alô, Carnaval (1936), dirigido por Ademar Gonzaga, que fez sucesso com a memorável Carmem Miranda como protagonista.

Entretanto, a Cinédia e demais produtoras que surgiram naquele momento não conseguiram se desenvolver no mercado nacional, visto que as produções estrangeiras só cresciam, mas, no final das contas, o cinema brasileiro resistiu novamente. Em 1949, o estúdio Vera Cruz foi criado, e se tornou um grande marco da industrialização do nosso cinema. Produzido no estúdio Vera Cruz, O Cangaceiro (1953), de Lima Barreto, foi o primeiro longa-metragem brasileiro a ganhar o prêmio internacional no Festival de Cannes.

As chanchadas, um novo gênero de comédia musical de baixo orçamento, encheram as sessões de cinema na década de 1940 até 1960 e eternizaram humoristas como Grande Otelo, Oscarito e Anselmo Duarte. Embora as chanchadas agradassem o público e retomassem a identidade brasileira, não agradavam a crítica. No fim dos anos 60, a pornochanchada despontou, explorava o erotismo – não a pornografia – e trazia filmes nacionais com muita malícia e humor.

Milton Ribeiro e Alberto Ruschel como Capitão Galdino e Teodoro em O Cangaceiro (1953) [Imagem: Reprodução/Twitter]

Cinema Novo

O Cinema Novo nasceu em reação à extrema desigualdade social no Brasil e foi um movimento de vanguarda que buscou representar o país inteiramente, sem a recorrente estética hollywoodiana. O cineasta Nelson Pereira dos Santos foi o precursor do Cinema Novo, estreou com Rio, 40 Graus em 1955, porém o movimento se firmou somente nos anos 60.

O Cinema Novo tinha como propósito relatar temáticas populares e induzir críticas sociais e políticas, à procura do realismo e com a pretensão de cessar a alienação causada pela comédia das chanchadas e pornochanchadas.

Nesse período, o baiano Glauber Rocha produziu obras que marcaram não só o Cinema Novo, mas o cinema mundial, como Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), Terra em Transe (1967) e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1968). Vidas Secas (1963), dirigido por Nelson Pereira dos Santos, e Os Fuzis (1964), dirigido por Ruy Guerra, também marcaram o movimento.

Cinema Marginal

Em 1969, durante a ditadura militar, a criação da Embrafilme (Empresa Brasileira de Filmes) marcou a história do cinema brasileiro, recebeu assistência do rigoroso governo vigente para financiar filmes que estivessem de acordo com as premissas do regime. Desse modo, produzir filmes que induziam críticas como no Cinema Novo se tornou perigoso.

Com isso, o Cinema Marginal surgiu como um movimento de contracultura que também ficou conhecido por “udigrúdi”. Os cineastas desse movimento criaram a chamada “estética do lixo”, recusaram quaisquer narrativas já existentes e usaram do humor e do grotesco para produzir representações alegóricas sobre o estado do Brasil.

A crise da década de 80

Em 1980, os videocassetes chegaram no Brasil e se popularizaram, o que desencadeou uma crise no mercado cinematográfico. Além de que, nesse tempo, o país estava passando por uma crise econômica pós-ditadura. Nesse momento, a Embrafilme se concebeu como principal financiadora da indústria do cinema e chegou a ser considerada a mais importante empresa pública cinematográfica da América Latina.

Porém, a Embrafilme também recebeu críticas. No fim dos anos 80, uma forte campanha contra a empresa a acusou de desperdício e má administração. E, em 1990, com o início do governo de Fernando Collor, em razão da contenção de gastos, o presidente acabou com a produtora, com o Ministério da Cultura, com o Conselho Nacional de Cinema, com a Fundação do Cinema Brasileiro e com leis que providenciavam mais incentivos à produção brasileira.

Retomada

Em 1992, com o impeachment de Collor, Itamar Franco assumiu a presidência e a história do audiovisual brasileiro começou a mudar novamente. O governo Itamar Franco não só trouxe de volta o Ministério da Cultura, mas criou a Secretaria para o Desenvolvimento do Audiovisual, que desenvolveu a Lei do Audiovisual.

Franco se livrou de tudo que estagnou a produção cinematográfica nacional para que o nosso cinema ganhasse mais uma chance, por causa disso o período é chamado de “Retomada”, que trouxe uma diversidade de gêneros. Carlota Joaquina, Princesa do Brazil (1995), de Carla Camurati, é o primeiro de muitos longas-metragens realizados por meio da Lei do Audiovisual. Entre 1992 e 2003, a produção brasileira ganhou reconhecimento em premiações importantes, como o Oscar. Em 1999, Central do Brasil (1998), dirigido por Walter Salles, recebeu uma nomeação de melhor filme estrangeiro e uma na categoria de melhor atriz, para Fernanda Montenegro. Em 2003, o filme Cidade de Deus (2002), dirigido por Fernando Meirelles, marcou o fim desse período. O filme de Meirelles foi indicado a quatro estatuetas no Oscar: melhor diretor, melhor roteiro adaptado, melhor direção de fotografia e melhor edição, além de ter ganhado o Globo de Ouro como melhor filme estrangeiro.

Fernanda Montenegro e Vinícius de Oliveira como Dora e Josué em Central do Brasil (1998) [Imagem: Reprodução/Twitter]
Leandro Firmino como Zé Pequeno em Cidade de Deus (2002) [Imagem: Reprodução/STUDIOCANAL]

Pós-Retomada

A Pós-Retomada é o período atual, que começou em 2003. É nela que o cinema brasileiro segue sua caminhada de resistência, com um incrível crescimento e diversificação no setor audiovisual. Hoje, o cinema brasileiro está consolidado com inúmeros filmes “vendáveis” no mercado, com os de comédia se sobressaindo na cultura popular, tais como Se Eu Fosse Você (2006), De Pernas pro Ar (2010) e Minha Mãe é uma Peça (2013).

Contudo, na medida em que as comédias fazem muito sucesso comercialmente, produções independentes cada vez mais estão sendo reconhecidas nos festivais de cinema internacionais, como por exemplo O Som Ao Redor (2012), Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014), Que Horas Ela Volta? (2015), Aquarius (2016), As Boas Maneiras (2017) e Bacurau (2019).

Fábio Audi e Ghilherme Lobo como Gabriel e Leonardo em Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014) [Imagem: Reprodução/Vortex Cultural]
Regina Casé e Michel Joelsas como Val e Fabinho em Que Horas Ela Volta? (2015) [Imagem: Divulgação/Globo Filmes]

A cinematografia nacional é extremamente diversa e melindrosa, e ao observar o cinema como representação artística, o cinema nacional é extraordinário quando se trata de reproduzir realidades e desenvolver um pensamento crítico. O Brasil produziu obras magníficas, difíceis de serem conhecidas quando se ouve comentários negativos sem fundamento.

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