Tudo o que você precisa saber sobre a NYFW

Recordando da ilustre frase do editor de moda Candy Pratts Price no documentário The September Issue de 2009, “September is the January of fashion” (“setembro é o janeiro da moda”, em português). O documentário acompanha a redação da Vogue estadunidense durante o fechamento da edição do mês de Setembro, também conhecida por ser a edição mais importante do ano.

Durante esse mês, amantes, comentaristas e jornalistas de moda são bombardeados por novidades e coleções. As temporadas de Primavera-Verão acontecem em sequência durante todo o mês, começando pela NYFW – que este ano teve início no dia 7 de Setembro e terminou no dia 12. Neste artigo serão examinadas as coleções que ocorreram durante o evento, seguindo por ordem cronológica dos acontecimentos.

Imagens dos desfiles comentados da NYFW, todas as fotos retiradas do Vogue Runway.

 DIA 1 – 07 de Setembro;

Se o começo da temporada estabelece o tom das próximas semanas, apesar das poucas coleções, o primeiro dia da NYFW fez seu impacto inicial esperado. Desde Collina Strada e suas cores vibrantes, volumes contraditórios e o mais importante de toda a coleção – um dos castings mais inclusivos em algum tempo. A mensagem é clara: inclusão e diversidade são a base a moda de Nova Iorque. São relíquias não reconhecidas oficialmente, mas sabemos que sempre estiveram lá – do streetwear que foi para as passarelas, até a vitória na famosa Batalha de Versalhes – mesmo que por algumas (muitas) vezes esquecidas entre coleções.

Nada impede absolutamente ninguém de desfilar para a Strada – impedimentos físicos e estéticos não são o problema, as roupas são mostradas em corpos reais em situações reais. Temos modelos a vista, mas conseguimos perceber a versatilidade do casting bem apurado. Christian Siriano não passa muito longe num casting diversificado, mas em inovação em design e construção de coleção? Talvez.

Infelizmente foram apuradas diversas ‘semelhanças’ entre a coleção de Siriano e trabalhos prévios de outros designers. Mesmo assim não salvam a coleção: parece que se é desejado um grande momento de Siriano, o conceito das coleções é bom mas a junção da vestimenta em si é que normalmente não consegue traduzir o mesmo. São alguns vestidos individualmente bons, juntos numa coleção que não parece uniforme ou nem mesmo conversa entre si… Os próprios tecidos e técnicas do designer lembram um projeto de competição de reality show, não um grande momento de vestidos de baile na NYFW.

Imagens dos desfiles da esquerda para direita: Collina Strada e Christian Siriano fotos retiradas do Vogue Runway ou site oficial das marcas.

DIA 2 – 08 de Setembro;

O dia começa com a coleção de Ulla Johnson, um ar fresco, leve e boêmio no meio de Manhattan graças a elementos claros do design de Johnson – como florais, babados volumosos, bordados, tecidos fluídos em tons alegres e neutros. Já é uma característica visual da marca procurar apresentar coleções que refletem sua calma e a busca por um estado de paz.

Completamente diferente da coleção que a antecede, Willy Chavarria leva o conceito de ‘Maxi’ um pouco ao pé da letra com calças de cinturas altíssimas e camisas oversized. O importante de se analisar essa coleção é como o streetstyle de subculturas latinas – principalmente da cidade de Nova Iorque – que normalmente são associadas a falta de estilo ou refinamento foram uma das maiores inspirações para o designer que criou bombers acetinadas, jaquetas estilo motociclista, cintos com maxi fivelas e cores vibrantes.

Proenza Schouler tem um histórico de roupas descomplicadas e versáteis desde sua fundação em 2002 por Jack McCollough e Lazaro Hernandez, mas nesta temporada os maiores traços da coleção são “roupas alegres para voltar a sair para o mundo”, como disseram os designers para a jornalista Nicole Phelps. São roupas utilitárias facilmente vistas em armários do consumidor contemporâneo como blazers, trench coats, ternos e vestidos fluídos em cores vibrantes – afinal, ainda é uma coleção de primavera-verão – porém a habilidade desses elementos tão comuns de se destacarem de uma forma única é o verdadeiro e principal atributo da coleção.

Não muito diferente de um dos favoritos da semana, Peter Do apresenta uma coleção honrando a identidade criativa de sua marca, atribuindo silhuetas de alfaiataria tão fortes e reconhecidas de seu trabalho em conjunto com tecidos e texturas surpreendentes que trazem uma leveza e fluidez necessárias para sua coleção, além de valorizar suas raízes vietnamitas com uma releitura do tradicional ÁO DÀI.

Terminamos o forte dia com Prabal Gurung, que na temporada passada foi um dos poucos designers a embarcar completamente no tema de otimismo e uma saudades de glamour para o próximo ano. Nesta coleção, ele diminui um pouco esses elementos e olha novamente para a “garota americana”, pensando em como trazer um ar cosmopolita e de poder para a roupa em si, explorando silhuetas bem marcadas mas com uma ambiguidade de escolher cores majoritariamente vibrantes para a coleção.

Imagens dos desfiles da esquerda para direita: Ulla Johnson,Willy Chavarria, Peter Do, Proenza Schouler, Prabal Gurung fotos retiradas do Vogue Runway ou site oficial da marca.desfiles

DIA 3 – 09 de Setembro;

Gabriela Hearst é um novo grande nome de Nova Iorque. A uruguaia foi apontada como diretora criativa da Chloé e teve sua estreia durante a temporada passada. Existe uma linha clara entre o trabalho de sua marca autoral e na grife francesa. O jornalista Anders Christian Madsen fez um ponto claro em sua crítica: é como ver duas crianças diferentes de pais que você conhece crescerem diante de seus olhos – e uma analogia: Hearst nomeou sua coleção de estreia na grife de “Afrodite”, para complementar de uma forma diferente a coleção da marca autoral que chamou de “Atena”. Pode ser uma boa previsão para Paris daqui a algumas semanas…

Agora falando sobre a coleção desta temporada, elementos de alfaiataria clássica e cortes precisos ainda marcaram presença, mas o surpreendente foram os looks em crochet de tons vivos e formas diferenciadas produzidos em colaboração com as comunidades Navajo pelo Uruguai. Destoam das características sóbrias do trabalho de Hearst da melhor forma possível, trazendo um novo elemento e dimensão para a coleção.

Seguindo para o desfile mais oposto de todos: Moschino assinada por Jeremy Scott. Desde sua primeira coleção para a marca em 2014 é possível afirmar uma coisa: Ele ama um tema. Todas as coleções têm uma forte ideia central e são trabalhadas ironicamente ou não – já que ironia é uma das bases fundadoras da Moschino. Nesta temporada o tema são brinquedos e símbolos infantis com uma dicotomia de silhuetas ligadas a alfaiataria clássica, é uma ambiguidade quase engraçada que talvez seja uma dos maiores legados de Scott na marca.

Carolina Herrera celebra 40 anos e seu diretor criativo Wes Gordon não faz passar batido com uma homenagem emocionante a desfiles que fazem parte da história da marca, principalmente os da década de 80 quando a designer venezuelana começava sua carreira na moda. São referências claras mas traduzidas de uma forma despretensiosa sendo atraente para os consumidores jovens.

E terminamos o dia em um marco turístico de Nova Iorque, subindo alto para onde nenhum outro designer foi antes. LaQuan Smith é o primeiro designer a desfilar no Empire State Building, em live com o NYT Fashion o designer explica sua atitude de “Go Big or Go Home” e as roupas refletem este exato pensamento. A mulher de Smith é sensual e de personalidade forte, ela é quem veste as roupas – e não o contrário. De vestidos transparentes a plumas e cristais, nada passa em branco. É uma mistura cosmopolita e sensual de roupas para sair.

Imagens dos desfiles da esquerda para direita: Gabriela Hearst, Moschino, Carolina Herrera, LaQuan Smith fotos retiradas do Vogue Runway ou site oficial da marca.

DIA 4 – 10 de Setembro;

Michael Kors sabe exatamente para quem são suas coleções e entende como ninguém que identidade visual das roupas não é necessariamente sobre logos ou características visuais – são roupas bem feitas, com especialidade em conseguir incluir em apenas uma coleção ótimos momentos para o dia-a-dia da mulher contemporânea do designer e acompanhá-la até o traje de noite.

Stuart Vevers está provando cada vez mais seu valor com sua visão para a Coach. O sucesso de vendas das bolsas e suas campanhas de marketing são os maiores medidores disso e durante essa temporada ele decidiu homenagear uma das principais designers a participar da trajetória da marca – Bonnie Cashin, uma pioneira no sportswear norte-americano que fazia roupas descomplicadas, utilitárias e modernas para as mulheres independentes no pós-guerra. Com o legado de Cashin em mente, Vevers faz uma coleção marcada por influências diretas do sportswear, especialmente sobre a cena skatista dos anos 90, e referências claras da subcultura grunge da época são possíveis de observar.

Helmut Lang é uma marca com uma história tão forte que acaba impactando suas coleções recentes. Mesmo que Lang não tenha envolvimento com a marca desde 2005, o atual diretor criativo Thomas Cawson entende seus clientes – mas ainda não consegue traduzir para um grande momento da marca hoje e se situa muito no legado do designer na década de 90. Por mais que as roupas sejam bem feitas e estruturadas já faz algum tempo, até mesmo como a coleção foi fotografada lembra a marca em seu ápice.

Liberdade é a palavra que define a coleção de Eckhaus Latta, desde cortes estratégicos que deixam do torso aos mamilos a mostra até roupas que pareciam visualmente confortáveis nas modelos. É a liberdade de vestir o que quiser e ser quem quiser sem preocupar-se com reações externas, uma coleção ligada a discussões entre os conceitos de gênero discutidos principalmente entre a geração Z. Mike Eckhaus e Zoe Latta conseguiram entender o ponto central da conversa e ascender transformando isso em uma boa coleção.

Christian Cowan adora transformar seus desfiles em verdadeiras experiências – de Teddy Quinlivan jogando o casaco de forma bruta em cima da plateia em um conjunto roxo até grandes chapéus de plumas com mini vestidos colados, é tudo sobre comemorar, sobre reconectar-se com uma grande festa depois de tanto tempo. Mas se falarmos sobre as roupas em si, talvez fiquem um ou dois pontos faltando: Quinlivan é um designer experimental e com uma queda pelo erótico, e às vezes peca na construção de uma coleção estável. Tem muitos looks bons e muitos ruins na mesma leva, o que faz duvidar-se da intuição sobre gostar ou não da temporada.

Brandon Maxwell é um dos ‘tradicionais’ designers no evento, uma aparição indispensável para a volta presencial da NYFW. Contudo, enquanto as previsões ansiavam por uma coleção com modelos famosas e vestidos longos, lisos e bem ajustados, foi apresentado algo bem diferente. Em seus cinco anos de passarelas, Maxwell ainda não havia produzido um momento de estamparia. Agora, onde o designer se encontrou na posição criativa de stylist e criador, foi possível sentir a diferença entre suas roupas, entre texturas metálicas e vestidos fluídos com estampas psicodélicas. É uma faceta diferente de Brandon que até agora não era possível ver – mas é sempre revigorante um designer se aventurar em experimentações (mesmo que algumas delas não sejam sempre certeiras).

Imagens dos desfiles da esquerda para direita: Michael Kors, Coach, Helmut Lang, Eckhaus Latta, Christian Cowan e Brandon Maxwell fotos retiradas do Vogue Runway ou site oficial da marca.

DIA 5 – 11 De Setembro:

Começamos o dia com uma experiência física e espiritual em Rodarte – uma mistura de sentimentos, uma declaração das irmãs Kate e Laura Mulleavy sobre se encontrar espiritualmente e se aproximar da natureza, e também declararam a liberdade de seu espaço criativo confortável para impulsos diferentes de criação. Isso explica a coleção que tinha um pouco de tudo um pouco – dos vestidos de noite femininos pelos quais a marca é conhecida com rendas e franjas, um pouco de alfaiataria, estampas de cogumelos e terminando com uma série de vestidos leves de cores claras e modelos descalços. Realmente foi uma mistura de experiências.

O legado de Anna Sui gira em torno de ser uma das poucas designers que entende o balanço necessário entre a moda experimental e a moda de luxo utilitária. Se divertir e se expressar pela vestimenta parece ser um tema recorrente do evento por inteiro mas Anna Sui carrega esse patrimônio há anos, entregando agora uma coleção que consegue facilmente dialogar com gerações mais novas que procuram novas marcas para abraçarem e continuar uma conversa fixa com o seu próprio consumidor de anos, já que esses atributos sempre estiveram ligados a marca.

Falando em experiências, Thom Browne sempre entrega muito mais que um desfile: faz um show completo até mesmo quando estava limitado ao digital seu fashion film na Fall 2021 RTW – um dos mais interessantes e bem produzidos de toda a temporada. De repensar o que significam ternos e alfaiataria hoje, mas ainda mantendo uma precisão impecável em seus cortes e ajustes, pinturas de rosto que combinavam com enormes vestidos florais, vestidos com um relance de abdômen definido pintado, Browne não decepciona em entregar grandes experiências que unem a moda e a arte.

Imagens dos desfiles da esquerda para direita: Rodarte, Anna Sui, Thom Browne fotos retiradas do Vogue Runway ou site oficial da marca.

DIA 6 – 12 De Setembro;

Com a data do Met Gala se aproximando e a exibição do Costume Institute tomando forma, é uma decisão inteligente criar uma coleção com forte conexão e inspiração na história de uma das grandes designers americanas como Claire McCardell – principal inspiração de Tory Burch para sua coleção.

McCardell foi uma das pioneiras do sportswear, pensando na utilidade e versatilidade de suas roupas no cenário pós-guerra. A visão de Burch para a coleção foi justamente encontrar o equilíbrio de sua mulher cosmopolita e moderna (que nunca largou mão do seu charme boêmio) e a trajetória de McCardell. Das silhuetas precisas às estampas surpreendentes, a coleção foi bem executada em todos os sentidos da palavra.

Joseph Altuzarra volta para sua marca autoral depois de um hiatus desde 2017, quando embarcou em uma experiência transicional de designers mais estabelecidos que procuravam novas oportunidades no mercado internacional de Paris. Sua primeira coleção de volta para a marca foi um momento muito esperado.

A coleção foi descrita por ele como eclética com um toque de escapismo, uma ótima colocação – temos características claras do trabalho prévio do designer na silhueta e construção da roupa em si, mas os detalhes de styling, texturas e até estampas de tie-dye são adicionados às produções a fim de criar algo novo. É uma coleção jovem, boêmia e chique, de uma forma ambígua da palavra.

No pôr-do-sol final da NYFW com coleções que deixaram mais do que claro a ansiedade pela vontade de viver e se divertir com as roupas, a Staud fez literalmente uma enorme bola de Disco em seu desfile. Parecia uma grande festa: a designer Sarah Staudinger explicou para a jornalista Sarah Spellings que a Staud não se caracteriza como uma marca que deixa claro, no preto e no branco, suas tendências e referências da coleção. O mais importante para Staudinger seriam os momentos envolvidos no processo criativo, sentimentos que florescem desde na hora do rascunho da coleção até o animado desfile.

Com o tema da exibição do Costume Institute, os esforços do CFDA, uma NYFW cheia de novos talentos e nomes, fica bem claro que tem algum estímulo fiscal ou até mesmo sentimental para o revival da moda Americana – mas estamos prontos para isso? Apesar de alguns ótimos momentos, o evento foi morno, sem quebras de barreiras ou situações inesperados. Como fazer o revival da moda americana se mais da metade dos designers tem que se concentrar em pagar as contas no final do mês depois de um tempo conturbado é uma decisão complicada.

Mas fechamos a NYFW com um dos maiores nomes da cidade, o co-chair do CFDA: Tom Ford, que faz agora sua volta para às passarelas de Nova Iorque. Se a moda americana tem um rosto, é discutível que Tom Ford talvez seja ele. Ford mostra o otimismo máximo da melhora do cenário atual da melhor forma que pode; desenhando roupas prontas para festa.

Lantejoulas, lamê, cores vibrantes e silhuetas confortáveis se compararmos com o repertório antigo do designer, são peças para realmente serem tiradas da passarela e irem direto para algum clube exclusivo na cidade. É uma enorme representação de ansiedade em voltar a sair, se divertir e talvez o mais importante: retomar o fluxo de vendas.

Imagens dos desfiles da esquerda para direita: Tory Burch, Altuzarra, Staud e Tom Ford fotos retiradas do Vogue Runway ou site oficial da marca.

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