Nicole Kidman e Ewan McGregor em Moulin Rouge (20010 [Imagem: Divulgação/Prime Video]

Trilha Sonora: A narrativa da música no cinema

Lá está você, na sala escura do cinema, rodeado por burburinhos de pessoas se acomodando para a exibição. A primeira coisa que provoca o silêncio dos murmúrios é o som de abertura do filme, que capta a atenção de todos em um aviso de que já vai começar. É naquele instante que se percebe que o clima de início é uma total atribuição da musicalidade.

Se você assistia animações musicais da Disney como O Rei Leão (1994) ou Toy Story (1994) na infância, sabe como suas canções fizeram esses filmes se tornarem atemporais. Até hoje, You’ve Got a Friend In Me e Hakuna Matata ecoam nas memórias e vivem em todos que assistiram os filmes enquanto crianças.

Eles são exemplos do poder que as trilhas sonoras têm de transformar totalmente as relações com o universo cinematográfico. Possuem responsabilidade por grande parte daquela sensação de proximidade que o espectador tem em relação ao filme e aos seus personagens. Assim, as soundtracks são selecionados ou até mesmo compostos para que sua experiência seja completa e, independentemente de em qual espaço você esteja assistindo, nada interfira no momento único que está presenciando.

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Uma breve história da música no cinema

Filmes são produções audiovisuais, o que significa que surgem da combinação entre áudio. Há mais de um século, quando o cinema ainda não era tão grande quanto hoje, não existia vínculo entre esses dois pontos.

Apresentado inicialmente em feiras abertas, as reproduções estavam expostas em meio a festivais multiculturais, ou seja, ninguém realmente estava absorto na narrativa como hoje, cuja realidade é de estarmos habituados a adentrar em salas totalmente preparadas, com o objetivo de assistir ao filme com atenção. Inclusive, as reproduções nem mesmo chegavam a possuir uma narrativa propriamente dita, o que, de fato, não exigia certo nível de concentração. Além disso, as obras eram completamente mudas.

Assim, com o desenvolvimento e crescimento da indústria cinematográfica, houve a necessidade de tornar o espectador imerso em um conceito narrativo posteriormente inserido no contexto da história do cinema. Como uma das táticas utilizadas para dar sentido àquela novidade, nasceu a ideia de fazer isso com o apoio da música.

Antes mesmo de sua exibição em salas de cinema, pianistas tocavam durante o desenrolar dos filmes, sendo eles os responsáveis por guiar a narrativa juntamente às imagens. Com os espaços específicos, a presença dos pianista se intensificou e desempenhou um papel essencial. Contudo, com o fim do cinema mudo no fim dos anos de 1920, diante de revoluções tecnológicas permitindo a sincronização de som e imagem, consequentemente a participação dos músicos deixou de ser requerida.

Mais a frente, com tal inovação na indústria, os cinemas gradativamente encontraram seus meios de transformar as narrativas no desejado. Dentro dessa ideia, não só diálogos audíveis foram inseridos, mas a música se consolidou como parte integral e indispensável.

O que há hoje em dia vem de um progresso significativo e da necessidade irremediável de se utilizar da banda musical como uma colaboradora que direciona o espectador ao objetivo daquela narrativa de distintas maneiras: acentua emoções, promove intensidade e age na submersão das pessoas dentro daquele contexto.

Uma melodia com tom misterioso oferece à cena a sensação de suspeita, bem como uma sonoridade que se apresenta com o intuito de causar medo e termina por provocar arrepios nervosos.

Para buscar exemplificar a marcação do tom inferido servindo para trazer enquadramento e pertinência, é cabível apresentar o longa Três Homens em Conflito (1966). A trilha composta por Ennio Morricone, consagrado compositor de Hollywood, é precisa ao delinear a entonação dos famosos filmes de “velho oeste”.

O impacto deixado por Morricone foi tão significativo, que até mesmo quem nunca chegou a assistir uma obra carregando a assinatura do compositor em sua trilha tem conhecimento de seu trabalho como um exemplo de canção memorável por conta, em principal, da canção The Good, The Bad and The Ugly.

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E se as trilhas sonoras não existissem?

Não está convencido de que a trilha sonora é um dos pontos mais importantes da construção de um filme? Então acredito que nunca tenha parado para pensar em como seria assistir uma produção cinematográfica sem música alguma.

A seguir, é possível compreender de que maneira uma das cenas mais célebres do cinema mundial, que fez e faz parte da infância de muitos ao redor do mundo, seria sem a canção tema. Assista a cena de The Circle Of Life sem a canção:

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Indo por uma outra vertente, também há a comparação de um filme que não é uma animação musical. Confira como certas cenas de Homem-Aranha (2002) seriam em a ausência de sua trilha:

Diferente, não? É inegável que, sem música, as cenas perdem a aderência do espectador. Além de, é claro, uma das coisas mais importantes: a magia. Há um sentido único em se sentar para assistir um filme, e a magia transmitida por eles faz parte do porquê de existir imensa paixão por esse universo.

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Nos bastidores das trilhas sonoras

Christine Baranski, Meryl Streep e Julie Walters, respectivamente, em Mamma Mia! (2008) [Imagem: Reprodução/Universal Pictures]

O filme como arte audiovisual é consideravelmente comum no dia a dia de muitos. Por isso, talvez alguns nunca tenham parado para pensar em quem seriam os responsáveis por selecionar cada música para cada momento. Essa responsabilidade usualmente é do chamado Supervisor Musical (também conhecido como Music Supervisor), cujo objetivo é unificar o contexto do filme ao objetivo da comunicação. Nas palavras do The Guild of Music Supervisors, o supervisor musical é “um profissional qualificado que analisa todos os aspectos musicais relacionados a filmes, televisão, publicidade, vídeo games e outras plataformas de mídias visuais emergentes, conforme necessário”.

O processo de seleção pode variar de diversas maneiras: No caso de musicais, as músicas podem ser originais, com todas ou a maioria das canções sendo compostas diretamente para o filme, como em La La Land (2017), o que viria a incluir outros profissionais como os compositores e produtores musicais, que exercem grandes papéis.

Quando no caso de musicais com canções não originais da obra, mas já existentes na indústria, como Mamma Mia (2008) da qual as faixas são sucessos da banda Abba, ou até mesmo Moulin Rouge (2001), de diversos artistas — apesar do longa apresentar, igualmente, uma canção original —, a seleção seria fruto da atuação quase que completa do supervisor musical, considerando intervenções do diretor da produção.

Leonardo DiCaprio em O Grande Gatsby (2013) [Imagem: Divulgação/Warner Bros]

Para trilhas sonoras de filmes que não do gênero musical, o mesmo esquema pode ocorrer. É mais comum que uma obra contenha canções já existentes e sejam selecionadas dependendo da ambientação das cenas, como em As Vantagens de Ser Invisível (2012) com Heroes, do David Bowie.

Por outro lado, múltiplas produções possuem uma música tema composta especialmente para ela. A popular trilha de Crepúsculo (2008) tem Decode, da banda Paramore, como canção tema da abertura da franquia, que chegou a ser indicada ao Grammy de Melhor Canção Escrita Para Filme em 2010. Enquanto isso, O Grande Gatsby (2013) conta com Young and Beautiful, da cantora Lana Del Rey, igualmente indicada ao prêmio supracitado, já no Grammy de 2014.

Se você tem interesse em saber um pouco mais sobre o que ocorre por detrás dos bastidores da escolha de trilhas sonoras, o documentário Into the Unknown: Making Frozen II, da Disney+, apresenta, em alguns de seus episódios, a demonstração do passo a passo do processo criativo e técnico da construção de uma trilha sonora.

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Trilhas sonoras marcantes do cinema

É claro que nós não poderíamos deixar de te levar a um passeio por algumas das trilhas mais marcantes da história do cinema. Pronto para uma dose de nostalgia?

Psicose (1960)

Assim que se ouve menção à produção, não há escapatória, senão seguir um caminho direto à cena do chuveiro em Psicose. As ricas composições de Bernard Herrmann não só marcaram a história do horror eternamente, mas colocaram sua criação entre as mais icônicas da trajetória do cinema mundial.

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O Poderoso Chefão (1972)

O Poderoso Chefão é uma obra aclamada pela crítica e sua trilha sonora não podia ser diferente. Constituída por doze faixas, as composições foram de atribuição do italiano Nino Rota, o responsável por transportar qualquer espectador de volta às cenas poderosas desse clássico.

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Star Wars (1977)

É inegável que a trilha sonora da franquia Star Wars ultrapassa a existência do filme para a qual foi criada, estando viva na memória até mesmo daqueles que nunca assistiram a nenhum dos filmes. Composta pelo ilustre John Williams — o mesmo que trouxe os soundtracks de Indiana Jones (1981), A Lista de Schindler (1993) e Harry Potter (2001) ao mundo —, ela foi vencedora do Oscar de Melhor Trilha Sonora Original em 1978 e esteve na décima posição da Hot 100 da Billboard dos Estados Unidos.

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O Guarda-Costas (1992)

Originalmente escrita por Dolly Parton, mas interpretada por Whitney Houston para o o longa O Guarda-Costas, I Will Always Love You faz igualmente parte do grupo de canções emocionantes e inesquecíveis.

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Titanic (1997)

Vencedor do Oscar de Melhor Canção Original em 1998, Titanic apresentou uma das trilhas sonoras mais memoráveis da trajetória cinematográfica mundial. Só de pensar na cena de Jack e Rose na proa do navio ao som de Celine Dion cantando My Heart Will Go On, somos levados a lugares profundos de nossa própria história com o cinema.

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Lisbela e o Prisioneiro (2003)

Se você achou que deixaríamos o cinema nacional de fora, aqui está uma das maiores produções do audiovisual brasileiro: Lisbela e o Prisioneiro. Essa trilha conta com canções ilustres como Espumas ao Vento, de Elza Soares, e Você Não Me Ensinou a Te Esquecer, de Caetano Veloso.

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Afinal, qual o objetivo de tudo isso?

A arte em si tem como objetivo tornar a vida menos densa e mais suportável. Assim, a ideia do cinema, como uma arte que une a escrita, a fotografia, a música e muitas outras esferas, é de te fazer mergulhar em novas perspectivas. Para isso, se utiliza de todos os sentidos que podem despertar o espectador. Essa união oferece um refúgio que, para garantir efetivação, precisa do mínimo de interferência possível. O recanto, quando concede a sensação de conforto e até mesmo um espaço lúdico, se utiliza da musicalidade para trazer algumas dessas características, que garantem a imersão.

O objetivo da música no cinema é não só promover seu mergulho intenso, mas também guiar seus sentidos e sentimentos ao objetivo principal. É nortear sua emoção a vacilar quando, por exemplo, ouvir Anne Hathaway cantando I Dreamed a Dream em Os Miseráveis (2012), ou entregar felicidade com as canções animadas de momentos célebres de comédias românticas populares. O ponto principal é te levar em uma viagem, geralmente inesperada, ao desconhecido; que você encare a face do velho e do novo de diversas formas.

Agora que você já sabe tanto sobre música nos filmes, não deixe de conferir a nossa playlist repleta de soundtracks incríveis! E se essa leitura te deixou curioso sobre o universo cinematográfico, tenho certeza de que vale a pena dar uma olhada no Manual do Cinéfilo.

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