[Resenha] ‘O Menino que Matou Meus Pais’ e ‘A Menina que Matou Os Pais’

O caso que chocou o Brasil em 2002, o  homicídio cometido por Suzane Von Richthofen, Daniel e Cristian Cravinhos, ganhou seu longa-metragem disponibilizado pela Amazon Prime, na sexta-feira do dia 24/09. A expectativa pelo filme começou com a divulgação de seu trailer em fevereiro de 2020, mas sua estreia foi adiada devido a pandemia, chegando às telas de casa somente em 2021.

É necessário pontuar que o longa-metragem foi escrito e produzido seguindo uma ordem narrativa, que leva em consideração os depoimentos dos autores do crime. Tal ordem é de extrema importância para a compreensão dos fatos.

 Inicialmente, segundo o roteirista Raphael Montes, o enredo reunia os pontos de vista de dois dos três autores do crime – Suzane e Daniel – em um só roteiro. Depois de muitas discussões o diretor Maurício Eça propõe a inovação de criar uma experiência narrativa ainda mais completa: cada ponto de vista ganhou seu próprio filme.

Mas qual a ordem correta dos filmes, para o entendimento da história? De acordo com Maurício Eça, deve-se começar a experiência pelo ‘O Menino que Matou Meus Pais’ e dar continuidade com ‘A Menina que Matou Os Pais’. 

A história ocorreu no início dos anos 2000, no Campo Belo, bairro de classe média alta na Zona Sul de São Paulo. Marísia, Manfred, Suzane e Andreas Von Richthofen formavam aparentemente uma família normal, bem reservada e extremamente culta e bem instruída. O casal, Marísia e Manfred, sempre proporcionaram as melhores oportunidades de estudo, conforto e lazer para Suzane e seu caçula.

Família Von Richthofen [Foto: Wikimedia Commons]

Andreas era muito interessado por aeromodelismo, e em 1999 conheceu seu professor, Daniel Cravinhos, que logo demonstrou interesse pela sua irmã mais velha. Pouco tempo depois, Suzane e Daniel começam um relacionamento que resultou em empréstimos, muito uso de drogas, descontentamento da família Richthofen em relação ao namoro e o eventual homicídio. 

Na fatídica noite do dia 31 de outubro de 2002, Suzane e Daniel deixam Andreas na LAN house Red Play e supostamente dirigem-se a um motel. Depois, Suzane busca Andreas e deixa Daniel em casa. Ao chegar na casa dos Von Richthofen, os irmãos encontram-na com sinais de invasão. Suzane liga para o namorado e para a polícia, que logo menos chega ao local, fazem a ronda e encontram mortos os pais da adolescente no quarto do casal localizado no segundo andar da residência. 

A filha mais velha não esboça nenhuma reação de sofrimento com a confirmação de morte dada pela polícia, fato que aguça as suspeitas das autoridades. Rapidamente, a casa foi interditada e o caso ficou mais “incomum” a cada nova pista, reação ou fala de Daniel e Suzane. 

Os investigadores começam a suspeitar de uma possível participação do jovem casal na autoria do crime. Depois de muitas apurações, a polícia chega até Cristian Cravinhos, irmão mais velho de Daniel, através de uma compra suspeita feita pelo jovem usando o dinheiro dos Von Richthofen. Cristian confessa sua participação no crime. Assim, as confissões vêm à tona e o casal descreve minuciosamente como planejaram o assassinato.

Manfred e Marísia foram golpeados na cabeça por Daniel e Cristian. A mãe de Suzane não morreu instantaneamente, pela surpresa dos irmãos Cravinhos, que finalizaram o assassinato, sufocando-a com toalhas molhadas. Finalizado o assassinato, a filha do casal se encarrega de montar uma cena de latrocínio para despistar as autoridades.

Irmãos Von Richthofen no enterro dos pais. [Foto: Flávio Grieger/ Folhapress/ Arquivo]

A cena inicial de ambos os filmes retrata a chegada da viatura de polícia à casa, e todo o enredo gira em torno dos momentos de tensão, jogos, e manipulação vividas pelo casal, que culminaram na tragédia. 

Os longas-metragens são repletos de saltos no espaço-tempo entre as memórias dos autores do crime e o dia do julgamento, que ocorreu 4 anos após o ocorrido. 

Quando é feita a análise de qualquer narrativa em que a personagem principal também é narradora precisamos prestar atenção nos mínimos detalhes da história para identificar as falhas da narrativa, já que o narrador é parcial, e isso não seria diferente na análise desses dois filmes. Tanto a versão de Suzane como a de Daniel possuem falhas e discordâncias por se tratarem do ponto de vista de dois agentes envolvidos emocionalmente no enredo.

Detalhes como figurino, cabelo e maquiagem do filme foram analisados em diversas entrevistas, reportagens e takes dos próprios depoimentos dos assassinos, e o resultado não deixou nada a desejar!

A forma como o figurino foi empregado na trajetória dos personagens traz uma cara nova aos envolvidos na história, sem necessariamente distorcer suas personalidades. Sabe-se que uma das táticas judiciais de Von Richthofen durante seu julgamento foram as roupas infantis e a fala mansa da acusada, e os figurinistas souberam trazer um “novo ar” de inocência para a personagem, sem perder a fidelidade ao que foi real.

A equipe de arte e figurino utiliza da semiótica, ciência que estuda os signos e simbologias para o processo de significação na natureza e cultura, em pequenos detalhes durante o longa. A toalha preta (em uma versão) e branca (em outra versão) que Daniel veste no pós-banho do seu aniversário, ou até mesmo o terço que Suzane usa durante seus depoimentos no dia do julgamento. 

Carla Diaz como Suzane em ‘O Menino que Matou Os Meus Pais’ (2021) [Foto: Reprodução/ Youtube]

A sincronia entre a luz e a trilha sonora em momentos de tensão nos dois filmes, principalmente nas cenas de uso de drogas da Suzane ou na cena em que Daniel e sua namorada planejam o homicídio em ‘A Menina que Matou Os Pais’ foi muito bem pensada pelo diretor de arte e fotografia.  

 A atuação, no entanto, deixou um pouco a desejar em certos momentos. Alguns maneirismos da atriz Carla Diaz, que interpreta a Suzane, foram muito bem estudados e analisados para incorporar o papel, principalmente nas cenas em que Von Richthofen dava seus depoimentos em julgamento. 

Já em outras cenas, a atuação peca pelo seu exagero nas atitudes e abordagens das personagens. Ao comparar ambos os filmes, certos atores se saíram melhor em uma versão do que em outra, como foi o caso do ator Leonardo Bittencourt (Daniel Cravinhos). Sua versão do assassino em ‘O Menino que Matou Meus Pais’ entregou mais verdade durante a performance do que no filme em sequência. 

Essa divisão do projeto, feita por pontos de vista diferentes, permite a interpretação de mesmos eventos através de uma narrativa em que o próprio narrador se isenta da culpa. Alguns ótimos exemplos disso são, por exemplo, a cena do parque em que na visão de Suzane, Daniel irrita-se com o serviço de um hotel barato; e em contrapartida na visão de Daniel, Suzane ironiza a pousada em que Daniel está hospedado pela condição financeira do rapaz.

Outro momento importante para a análise do filme, é quando em ‘A Menina que Matou Os Pais’, a protagonista chega aos prantos na casa de Cravinhos e para convencê-lo a entrar na empreitada de matar seus pais, alega que Manfred é um pai alcoólatra e abusivo. Já pelo ponto de vista de Suzane, a mesma afirma que naquele momento sem ter tido forças para enfrentar seus pais, ela aceitava tudo o que Daniel falava, e em suas próprias palavras finaliza dizendo que para ela era “Deus no céu e Daniel na Terra”.

Carla Diaz e Leonardo Bittencourt em ‘A Menina que Matou Os Pais’.
 [Foto: Reprodução/Youtube]

Logo no final dos dois longas-metragens, o público é surpreendido com a quebra da quarta parede dos dois protagonistas. Em seu ponto de vista Suzane alegou que pouco tempo antes da tragédia ela não conseguiu questionar o parceiro e simplesmente o obedeceu. Por outro lado, Daniel afirma que neste mesmo momento estava “totalmente perdido”, tentando assimilar o que estava acontecendo.

Notar a escolha de vocabulário dos personagens principais torna-se ainda mais significativo ao saber que Carla Diaz (Suzane Von Richthofen) e Leonardo Bittencourt (Daniel Cravinhos) foram proibidos de qualquer tipo de improvisação durante as gravações, segundo a atriz em entrevista dada ao AdoroCinema.  A estratégia narrativa foi justamente pensada para ser o mais fiel possível a cada palavra dita nos depoimentos.

A escolha dos roteiristas e do diretor de trazer à tona essas duas versões de um dos casos que mais aterrorizaram a população brasileira, foi uma proposta interessante, levando em consideração a popularidade do caso e as diversas versões contadas pela mídia e pelos investigadores da época. 

À medida que o filme avança, ele proporciona uma visão clara acerca dos jogos de manipulação que já ocorriam na vida desses personagens muito antes da própria tragédia acontecer. Entender que toda história possui dois lados da verdade torna essa experiência cinematográfica ainda mais intensa. 

É importante ressaltar que nenhum dos dois filmes resume a verdade sobre o caso na sua totalidade. Toda obra bibliográfica pode usar da “boa e velha” licença poética para engajar ainda mais os espectadores durante a trama, e com toda certeza esse projeto não foi a exceção. O resultado final soube trazer dois filmes isentos de uma opinião concreta sobre a quem recai a culpa e ainda soube não romantizar a atrocidade.

Ter a oportunidade de assistir um caso verídico num projeto cinematográfico feito com tanto estudo e apuração do ocorrido, é realmente uma experiência única. O filme soube trazer a oportunidade aos espectadores de formarem sua própria opinião sobre o ocorrido e fica o convite para vocês, amantes do cinema, a também se questionarem sobre como esses personagens deixaram que suas vidas chegassem a esse ponto.

Confira o trailer:

Trailer Oficial de ‘O Menino que Matou Meus Pais’ e ‘A Menina que Matou Os Pais’.

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