Taylor Swift para The Witch Collection do álbum Evermore (2020)

A música nas entrelinhas

“A arte existe porque a vida não basta”, disse o escritor brasileiro Ferreira Gullar. Sua reflexão leva ao sentido de que a vida sem arte é insustentável; um caminho à dormência. Talvez seja por isso que os artistas buscam fazer combinações delas entre si, a fim potencializar sua capacidade de transformar a realidade em um ambiente não apenas suportável, mas igualmente prazeroso.

As artes solitárias sustentam-se muito bem, mas unidas são mais poderosas. A música apenas como música, por si só, tem sua imensa influência, porém unida a outra expressão artística pode mudar absolutamente tudo, seja atada ao cinema, à fotografia, à dança ou à literatura. Juntas, todas elas são capazes de guiar uma pessoa ao imensurável e modificar completamente perspectivas e sentimentos.

Música e literatura, por exemplo, aparecem em diversas narrativas e composições entre elas. São parte de ambos os universos, ao transitar por suas entrelinhas como forma de intensificarem seus sentidos. Não se pode negar que possuem um objetivo em comum: alcançar o emocional do público. Emoções sensibilizadas e manipuladas, expostas ao toque do artista para te fazer sentir o que é necessário. Por terem tanto em comum, é importante reconhecer que uma influencia a outra de diversas maneiras… e ainda bem!

Influência mútua

Apesar da música e da literatura não serem artes pela metade, quando diretamente conectadas, complementam-se. A música, já apresenta muito da literatura em suas composições, além do fato de que diversos cantores são reconhecidos no meio literário.

Em 2016, o músico Bob Dylan recebeu o Nobel da Literatura. Popular no mundo da música, o recebimento do maior prêmio do meio literário exaltou esse elo e o fortificou. Já em 2019, Chico Buarque, patrimônio da música brasileira, foi homenageado com a maior honraria da literatura em língua portuguesa, o Prêmio Camões. Para compreender a magnitude dessa atribuição, autores como José Saramago, Jorge Amado e Lygia Fagundes Telles, primeira mulher brasileira indicada ao Nobel da Literatura, são alguns dos nomes consagrados pelo prêmio.

Tais contemplações da literatura, ao premiarem personalidades da música, apenas reforçam o que é impossível negar: tudo é melhor quando as artes se mesclam. Porém, essa dupla já caminha de mãos dadas há um bom tempo. Desde a Grécia Antiga, a poesia lírica era aclamada. Caracterizada por apresentações de pessoas que recitavam poemas em forma de canto e acompanhadas por instrumentos em segundo plano, essa maneira de expressão persiste até os dias atuais. 

Seu casamento tomou novas formas de se difundir, seja através de livros ficcionais com temáticas musicais, seja com as influências da literatura ou nas canções de grandes artistas pelo mundo.

Música nos livros

Ao reconhecer como há intervenção significativa de ambos os lados, a literatura em muito tem explorado o cenário musical para desenvolver narrativas interessantes. A seguir, conheça alguns livros cuja trama se desenvolve em meio à música:

Daisy Jones & The Six (2019)

Da mesma autora do extraordinário Os Sete Maridos de Evelyn Hugo (2018), Taylor Jenkins Reid, a obra Daisy Jones & The Six (2019) se tornou best-seller e está prestes a ganhar uma série pela Amazon Prime, já em produção.

A narrativa é desenrolada ao redor de uma famosa banda dos anos 70, aquela que dá nome ao livro. Todos queriam ser como eles: astros do rock. Queriam ter o sucesso, a personalidade e a sorte que eles tinham.. Isso até sua separação misteriosa em 1979. Por fim, quebram o silêncio sobre o fim súbito somente muitos anos depois, em uma série de entrevistas que constituem o decorrer da história.

Você irá mergulhar tão profundamente nas vidas de Daisy, Billy, Graham, Karen, Warren, Eddie e Pete, que irá acreditar que eles são reais.

Na Hora da Virada (2019)

O segundo livro de Angie Thomas, a mesma autora de O Ódio Que Você Semeia (2017), conta a história da jovem Brianna, apelidada de Bri. Seu pai era um astro do rap, cujo falecimento acarretou em um peso enorme à menina, que sonha em ser uma rapper grandiosa.

Contudo, a arte precisa ser deixada de lado por um tempo quando enfrenta situações financeiras comprometedoras e, para extravasar, deposita toda a frustração em uma música que viraliza e se torna um mártir à garota.

Não só com um forte elo com a música, que faz parte da vida de Bri e de suas aspirações para o futuro, Angie Thomas aborda, em Na Hora da Virada, questões indispensáveis sobre raça que precisam ser debatidas.

Gota D’Água (1975)

Essa obra é puramente composta por intertextualidades. A princípio, a peça escrita por Chico Buarque e Paulo Pontes como um musical foi adaptada da criação de Eurípides, Medeia. Repleta de canções marcantes na carreira de Chico, foi transformada em um livro de mesmo título publicado ainda em 1975, no ano de estreia da peça.

Os autores contam com a musicalidade para a fluidez de sua narrativa para apresentar, a princípio, a angústia de Joana, moradora da Vila do Meio-Dia e mãe de duas crianças. A mulher é abandonada por Jasão, homem de origem humilde que faz fama ao emplacar seu samba Gota D’água em todas as rádios. O sambista se envolve em um noivado com Alma, filha de Creonte, o homem rico a quem pertence a vila repleta de pessoas humildes que lutam para pagar suas prestações injustas.

Gota D’água veio ao mundo durante a época do Regime Militar, momento histórico marcado por censura. O livro desenvolve críticas à economia do país, principalmente relacionado ao aumento considerável da desigualdade social que o Brasil enfrentava arduamente no período. Paulo Pontes e Chico Buarque entregam tudo isso ao unir o teatro, a literatura e a música em forma de protesto.

O Fantasma da Ópera (1909)

O Fantasma da Ópera (1909) é um clássico da literatura mundial, escrito pelo jornalista francês Gaston Leroux. É também conhecido por sua adaptação para Broadway por Andrew Lloyd Webber e Richard Stilgoe, em 1988, que foi premiada diversas vezes pelo Tony Awards, maior honraria do teatro.

Posteriormente, o romance voltou a ser adaptado em 2004, mas desta vez para as telas de cinema. O filme homônimo não passou despercebido e foi indicado a três categorias do Oscar de 2005.

O enredo do livro se destrincha diante de Christine Daaé, uma jovem que ocupa o lugar da prima-dona, Carlotta, após rumores de um fantasma que assombra a Ópera de Paris.

Em sua noite de estreia, um antigo amigo de Christine, Raoul, ouve-a cantar em uma apresentação e se recorda de todas as emoções vividas. Contudo, o envolvimento de Daaé e Raoul sofre um abalo quando o fantasma se mostra amargo e ciumento sobre a relação do casal.

Se Eu Ficar (2009)

Aqui os clichês também têm vez! Por isso, um queridinho do mundo do romance não pode ficar de fora. O livro Se Eu Ficar (2009), da autora best-seller Gayle Forman, recebeu uma adaptação cinematográfica cinco anos após sua publicação, em 2013.

A trama conta a história de Mia Hall, uma adolescente que sonha em entrar para Juilliard School para estudar violoncelo, sua paixão desde criança. Em meio à sua luta por seu sonho, a jovem conhece Adam, vocalista de uma banda com gênero musical distinto bastante divergente do de Hall, com quem inicia um namoro.

O ponto principal da narrativa é o estado de Mia que, após sofrer uma acidente de carro juntamente aos pais e ao irmão, permanece em coma. Durante esse período, mergulha em memórias sobre sua vida e as pessoas que ama, o que leva o leitor a conhecer um pouco da trajetória da violoncelista, seu amor pela música e sua batalha para permanecer viva.

Livros nas músicas

Assim como a música tem uma grande influência sobre a literatura, o oposto acontece com ainda mais frequência. Muitos artistas musicais buscam inspiração nas páginas de um bom livro para colocar suas obras no mundo.

A seguir, algumas canções associadas a livros ou escritores:

hope is a dangerous thing for a woman like me to have, Lana Del Rey

Em seu álbum Norman F****** Rockwell (2019), Lana Del Rey trouxe a faixa hope is a dangerous thing for a woman like me to have que, apesar de não fazer citação direta a uma obra, exalta a ilustre poetisa, cronista e romancista estadunidense, Sylvia Plath, autora de A Redoma de Vidro (1963).

Em uma publicação de seu instagram, Lana contou que o nome da música seria o mesmo da poetisa, porém, após o lançamento do álbum, a faixa contava com um título diferente.

Além disso, a musicalidade melancólica em muito se assemelha com tom da escrita de Sylvia, cujos escritos são reconhecidos pela linguagem estarrecedora que traduzia sua depressão. Em 1963, aos 30 anos, Sylvia Plath cometeu suicídio, e suas obras se tornaram um marco na literatura moderna que ecoam debates acerca da saúde mental e, inclusive, de papéis de gênero, até os dias atuais.

This Is Why We Can’t Have Nice Things e happines, Taylor Swift

É difícil elencar somente duas músicas de Taylor Swift quando o assunto é literatura, já que suas composições estão sempre repletas de referências literárias. New Romantics, do álbum 1989 (2014), faz referência ao livro A Letra Escarlate (1850), de Nathaniel Hawthorne, por exemplo. O livro Rebecca (1938), de Daphne du Maurier, inspirou a artista a compor duas canções: no body, no crime, em parceria com a irmãs Haim, e tolerate it, ambas do mesmo álbum, evermore (2020).

Em This Is Why We Can’t Have Nice Things, faixa do disco Reputation (2017), Taylor faz referência a Jay Gatsby, protagonista do livro O Grande Gatsby (1925), de F. Scott Fitzgerald. Swift usa alusões ao relacionar o momento em sida vida, no qual vivia  em festas como as dadas por Gatsby, ao momento em que precisou trancar os portões, exatamente da mesma maneira que o protagonista faz durante o clímax do livro.

Por outro lado, na canção happiness, de seu já mencionado álbum evermore, há adaptações de trechos do mesmo livro. Taylor compõe ao usar algumas das citações de Daisy Buchanan, o par romântico de Jay Gatsby.

1984 e Big Brother, David Bowie

Com inspiração no romance distópico de George Orwell, 1984 (1949), David Bowie escreveu as canções 1984 e Big Brother para seu álbum Diamond Dogs (1974).

1984 faz referência direta ao título do livro de Orwell, e fala sobre uma sociedade ditatorial que vive sob vigilância contínua e transforma os seres humanos em robôs que reagem automaticamente a ordens, como no livro. Já Big Brother leva o nome de um dos personagens do romance. O Grande Irmão é como chamam o líder por detrás do Partido Interno, aquele que controla a sociedade criada por George.

Geni e o Zepelim, Chico Buarque

Novamente, Chico Buarque na lista da combinação entre música e literatura, coisa que faz muito bem. Dessa vez, com Geni e o Zepelim, canção escrita para a peça Ópera do Malandro (1978).

A faixa possui ligação com o conto Bola de sebo (1880), do escritor francês de Guy de Maupassant. Sua narrativa, apresentada por Chico, representa uma crítica à hipocrisia da sociedade e a maneira com a qual as pessoas tratam umas às outras com base nos seus interesses próprios. Além disso, se popularizou recentemente após a interpretação da atriz e cantora Letícia Sabatella em 2011.

Another Brick On The Wall, Pink Floyd

A memorável canção Another Brick On The Wall, da banda Pink Floyd, é uma crítica ao sistema educacional que permeia até a atualidade. Do disco The Wall (1979), ela expõe a maneira com a qual os alunos são tratados como itens materiais em uma linha de produção, a fim de censurá-los e padronizá-los.

A inspiração da composição veio do poema Mending Wall (1914), do poeta estadunidense Robert Frost. Ambos os escritos fundamentam suas mensagens em metáforas ao redor da construção de um muro e, ainda que com distintos objetivos, os recados são altamente intensos.

Além disso, em seu álbum Animals (1977), anterior ao The Wall, também se basearam na literatura com o livro A Revolução dos Bichos (1945), do já comentado autor, George Orwell. Ambas as obras contém críticas políticas claras, especialmente ao sistema socioeconômico capitalista. Para isso, concentram-se, mais uma vez, no uso de metáforas e comparações.

***Flawless, Beyoncé ft. Chimamanda Ngozi Adichie

Você se recorda da frase “Feminist: the person who believes in the social, olitical, and economic equality of the sexes“ (Em tradução: “feminista: a pessoa que acredita na vida social, igualdade política e econômica entre os sexos”)? Ela viralizou quando, na edição platina do marcante álbum Beyoncé (2013), a cantora uniu a música à literatura ao concretizar uma parceria extraordinária com a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, autora de Americanah (2013) e Hibisco Roxo (2003).

Essa versão de ***Flawless aborda a exaltação da feminilidade e da autoestima da mulher frente à sociedade patriarcal. Ngozi Adichie apresenta uma interpolação do discurso de Nós Deveríamos ser Todos Feministas, apresentado no TEDx Talks em 2012, e posteriormente deu origem ao livro Sejamos Todos Feministas (2014). As artistas exploram o conceito de feminismo e usam sua voz para, através da música e da literatura, difundirem a luta das mulheres em busca de igualdade e respeito.

A arte é o que basta

Sylvia Plath em Paris, 1956 [Imagem: Gordon Lameyer]

Há enorme conforto em se sentar em uma tarde e encontrar seu lugar no mundo dentro das páginas amareladas de um livro. Da mesma forma, a música é como uma consolação para dias difíceis. Colocar os fones de ouvido e emergir como se o mundo externo a si não tivesse mais sentido ou necessidade de existir. Juntas, são capazes de criar um ambiente que o faça encarar o fato de que a arte é o que basta. Ler livros sobre música ou ouvir músicas sobre livros, elas estão entrelaçadas como uma maneira de fazer a vida bastar. Isso é o suficiente.

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