Mica: os bastidores do brilho da indústria da beleza

Lábios carnudos, pele aveludada e rosto simétrico são atributos de dar inveja à Geração Z nos dias de hoje. O segmento da beleza é uma das áreas mais exploradas de criação de conteúdo da internet – um exemplo disso são as inúmeras trends nos aplicativos de compartilhamentos de vídeo, como Instagram e TikTok. A influência das blogueiras no ramo também aumenta significativamente o consumo dos itens de maquiagem e skincare.

O grande sucesso da indústria da beleza é capaz de ‘maquiar’ as atrocidades que acontecem durante a produção do brilho e do glamour de cada produto.

Um dos ingredientes mais presentes nos iluminadores, sombras e brilhos labiais é a mica, um mineral escamoso natural, muito comum na Índia. Mas, antes que a mica seja processada e acabe em produtos de beleza, ela precisa ser extraída. O que muitos não sabem é que, na maior parte das vezes, os responsáveis por extraí-la do solo são as crianças.

Apesar do fato de que a mineração da mica representa sérias ameaças à saúde e segurança das crianças, as famílias dependem de sua extração para obter renda. A maioria das comunidades que vivem nas proximidades das minas de mica estão presas em um ciclo interminável de pobreza, exploração e abuso, no qual todos os dias são uma luta para sobreviver. Muitas famílias vivem à beira da fome, portanto não é incomum que as crianças abandonem a escola e se envolvam no trabalho infantil.

Estima-se que 22.000 crianças de até quatro anos trabalham em minas de mica em Jharkhand e Bihar e, devido à natureza ilegal e secreta do trabalho infantil, os números exatos são desconhecidos. A maioria das crianças que trabalham nas minas ganha cinquenta rúpias por dia, o equivalente a cerca de setenta centavos. Por outro lado, os atacadistas podem ganhar mais de mil dólares por 1 kg de mica de boa qualidade. Isso ilustra a escala de exploração e horrendas violações dos direitos humanos que ocorrem nas jazidas.

Trabalho infantil nas minas de mica em Madagáscar. Foto: Jan Joseph Stok, Terre des Hommes
Trabalho infantil nas minas de mica em Madagáscar. Foto: Jan Joseph Stok, Terre des Hommes.

A mineração ilegal de mica está associada a vários perigos para a saúde e segurança das crianças. A exposição constante à poeira pode causar doenças respiratórias e passar horas cavando o solo com as mãos desprotegidas coloca-os em risco de infecções e cortes de pele. Além disso, as minas frequentemente desabam, ameaçando a vida das crianças.

Quando os poços de mineração desabam, as crianças ficam presas sob as rochas e, com os locais sem supervisão, não há como obter ajuda adequada a tempo. As famílias vivem com medo constante de perder seus filhos e, como a mineração não é regulamentada, elas não têm direito a qualquer indenização em caso de acidentes. Trabalhar em minas ilegais também torna as crianças vulneráveis ao abuso sexual e físico ou ao tráfico de pessoas.

“Corri até a mina e vi minha filha deitada ali. Havia uma grande pedra em cima dela, e ela já estava morta”, conta uma mãe arrasada. A mulher é mãe de uma menina que perdeu a vida por conta do desabamento de um túnel numa mina. Ainda assim, a mãe acrescenta que como eles não têm outras opções, o resto da família, incluindo sua segunda filha, continuou a trabalhar no local após o acontecimento doloroso.

A Reuters, maior agência de notícias do mundo, informou que o governo de Jharkhand quer legalizar o setor, mas o processo está se arrastando. Se mais regulamentos fossem implementados, a mineração de mica criaria mais oportunidades de emprego para os moradores, dando-lhes melhores salários e diminuindo a necessidade de envolvimento das crianças. Por sua vez, as crianças teriam uma chance de um futuro que não envolva a sua própria exploração.

Para ajudar a acabar com o ciclo de abuso na mineração, algumas empresas de beleza têm explorado o uso da substância sintética. À primeira vista, parece uma solução sustentável: como a mica sintética é feita em laboratório, não há necessidade de trabalho infantil. Na realidade, porém, sua cadeia de suprimentos nem sempre é transparente e não há garantia de que o tipo alternativo do material seja totalmente livre de trabalho infantil.

Além disso, pode-se pensar que, como usuários finais que compram cosméticos de mica, nos tornamos responsáveis por contribuir para o trabalho infantil. Embora certamente haja alguma verdade nisso, na Índia, a vida de comunidades inteiras gira em torno da extração de mica. Portanto, abandonar completamente esses produtos significaria privar as famílias de sua única atividade geradora de renda.

Por mais explorador que seja o trabalho na mineração, ele permite que milhares de famílias sobrevivam. Sem a mica, a pobreza e o sofrimento em Bihar e Jharkhand atingiriam níveis inimagináveis. Portanto, em vez de apenas boicotar produtos que contenham mica, devemos intensificar os esforços para que sejam estabelecidos uma cadeia de abastecimento limpa, regulamentos para as minas de mica e uma remuneração justa para que as crianças não tenham que trabalhar.

Fonte: Fairplanet/Tradução e Adaptação por Louize Lima

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