A nostalgia e os anos 2000 (re)conquistando as passarelas

Calças cintura baixa, tops, flip phones, óculos com lentes coloridas, sandálias plataformas e a ilustre (ou não tão ilustre assim) presença dos jeans são alguns dos elementos mais significativos e mais remanescentes da estética Y2K, cada vez mais ganhando — novamente — espaço no cenário atual do mundo da Moda, além de fisgar o coração dos diretores criativos e trazê-los, mais uma vez, para dentro das passarelas.  

Para quem não considera-se familiarizado com o termo ou está vendo-o pela primeira vez, o uso da hashtag #Y2K, ou somente a sigla ‘Y2K’ em si, trata-se de uma ”nova’’ tendência das redes sociais em que os usuários buscam compartilhar — ou reviver — tendências dos anos 2000, dando assim, o significado de Year 2000, ou em tradução livre, simplesmente anos 2000. 

A trend popularizou-se especialmente após internautas do mundo todo compartilharem em suas contas no TikTok suas recriações dos looks de personalidades como Paris Hilton, Britney Spears (especialmente a icônica aparição de Spears ao lado de Justin Timberlake no red carpet do VMA de 2001, em um look all-jeans), Christina Aguilera, Beyoncé, Spice Girls, até mesmo os uniformes e looks do seriado mexicano Rebelde (2004 – 2006), em especial os looks de Mia Colucci, que contribuiram bastante à popularização do termo, trazendo à tona tendências que a maioria de nós já possui total conhecimento sobre, e como filhos da década — ou seja, nascidos entre o período de transição entre a década de 1990 e dos anos 2000 —, cresceu sobre os cuidados da moda desta época. 

Britney Spears e Justin Timberlake no Red Carpet do Video Music Awars (VMA), no Metropolitan Opera House, Nova York, em 6 de setembro 2001. [Imagem: Jeffrey Mayer/ Getty Images]

Christina Aguilera (X-Tina) posando no Red Carpet do Video Music Awards (VMA), no Radio City Music Wall, Nova York, em 29 de agosto de 2002. [imagem: Michel Bourquard/ Alamy]

Assim, ao ter em mente a importância e o poder das redes sociais — em especial o Instagram, e agora o TikTok — no cotidiano de diversos setores industriais, incluindo o setor modista, é claro dizer que a popularização de tendências na internet contribui, e muito, para que esta veiculação também ocorra dentro da moda e acabe se tornando parte dela. 

A volta da estética dos anos 2000 ao mundo contemporâneo marca o retorno de uma das eras mais plurais da moda em termos de estilos, expressos por uma variedade de tendências em uma mesma década, além de sua longevidade que foi comprovada por sua relevância e fama nos dias atuais. 

Se a estética mais comentada na década passada — compreendida entre 2010 e 2020 — era a dos anos de 1990 e sua melancólica fase exemplificada especialmente pela estética ‘Heroin Chic’, esta caracterizada por pele clara ou pálida, olheiras, cheekbones, cabelos com aspectos de oleosos, valorização da extrema magreza, uso de drogas e cocaína e representada especialmente pela supermodelo britânic Kate Moss no início da década, além de muito comentada entre os fashionistas como uma fase ”bizarra” da moda. 

Ao que parece, os diretores criativos do mundo moderno ouviram os pedidos de ”Bring that back again!’’ dos amantes internautas dos anos 2000 e, a partir disso, a década atual tem buscado reviver as principais tendências da época pode ser considerada bastante sucessiva quanto a tal. 

Ao observar os editoriais de moda nas edições de Setembro deste ano (a edição de Setembro é sempre a mais importante do ano), principalmente das revistas Vogue US e Vogue Rússia é possível observar como a tendência já saiu das passarelas e migrou até mesmo para o mercado editorial. 

Alguns desfiles particulares da temporada anterior deixam claro o quanto a estética das criações têm tomado inspiração da tendência nascida nas redes sociais, a presença de referenciais a década de 2000 é inquestionável, como por exemplo na marca italiana Blumarine na diretoria criativa de Nicola Brognano desde sua coleção de Outono/Inverno 2021 ele mostrou com excelência como trazer uma tendência nascida do digital para a moda de luxo. Suas coleções seguem com a estética como a Resort 2022 e a mais nova coleção de Primavera Verão 2022 que foi apresentada no dia 24 de Setembro, durante a Semana de Moda de Milão. 

Alguns dos looks expostos por Nicola Brognano para a coleção de Primavera/Verão 2022. [Imagem: Alessandro Lucioni / Gorunway.com]
Diferentes reproduções do ‘top de borboleta’, da esquerda para a direita: Mariah Carey no red carpet de um show dedicado à Diana Ross em 2000 (design por Emanuel Ungaro); Olivia Rodrigo utilizando uma recriação da ‘Depop’ e Saweetie utilizando uma criação da Sequin em seu aniversário.

Entre minissaias e blusas cortadas, outra marca que demonstra  o poder do fenômeno digital é na mais recente coleção da Miu Miu de Primavera/Verão 2022, que foi apresentada no dia 05 de outubro durante a Semana de Moda de Paris. 

A coleção que foi assinada por Miuccia Prada foi aclamada pelos amantes de moda e marcada pelo renascer de uma das características mais fortes do Y2K — minissaias com comprimentos mínimos e cinturas baixas — mas não foi a única a abusar dos comprimentos minis em sua coleção, muitas grandes marcas seguiram a mesma linha como Acne Studios (Paris Fashion Week), Calvin Luo (Paris Fashion Week), Missoni (Milan Fashion Week) e Chopova Lowena (Milan Fashion Week) que direta ou indiretamente olharam para o sentimento nostálgico da década de 2000.

Alguns dos looks apresentados por Miuccia Prada para a Miu Miu, para a coleção de Primavera/Verão 2022. [Imagem: Filippo Fior / Gorunway.com

Fora das passarelas o cenário não é tão diferente. Personalidades como a modelo Bella Hadid e a cantora Dua Lipa (que são grandes influenciadoras contemporâneas no quesito ”tudo o que eu uso vira moda”), já adotaram diversas tendências do decênio compreendido entre  2000 e 2010, especialmente os trends bastante populares entre a metade da década. 

É corriqueiro que, a cada saída às ruas, elas entregam um novo outfit nostálgico que logo vira o assunto (ou looks) mais comentado e repostado nas redes sociais por um longo período de tempo. As cantoras Meghan Thee Stallion e Lizzo também são outras personalidades que parecem ter adorado reviver a década e, sempre que podem, usam e abusam do glamour dos anos 2000 em suas aparições. 

Bella Hadid e Dua Lipa fotografadas em NoHo, Nova York, em 19 de setembro de 2021. [Imagem: Gotham/Getty Images]
Bella Hadid nas ruas de Nova York. Aqui ela revive a tendência da saia midi jeans em uma lavagem mais clara. [Imagem: Gotham/Getty Images]
Em uma postagem em seu instagram, Dua desbloqueou diversas memórias dos anos 2000: o cropped rosa, a cintura à mostra, cinto combinado com peça superior e acessórios coloridos. [Imagem: Dua Lipa/ Reprodução Instagram]

No entanto, apesar de ser uma década que contém tendências e peças bem marcantes, uma das razões pela qual as marcas tendem a adotar a referência a década em suas criações pode estar atribuída à forte necessidade de fazer com que suas marcas sejam mais exploradas e adquiridas pelo público mais jovem, o que garantiria lucros e asseguraria o hype de suas casas criativas. 

É perceptível que algumas casas busquem preservar sua identidade criativa com tendências voltadas ao público mais maduro, porém, como qualquer outro nicho, a indústria da Moda passa por processos de rotações de caminhos, ou seja, para manter-se, é necessário que a mesma se adapte ao mundo ”moderno’’ e, convenhamos, as novas perspectivas buscam atentar-se mais ao mundo do marketing do que à realidade vívida, de fato.

Você provavelmente já deve ter ouvido por aí que ‘tempo é dinheiro’, mas quando o assunto é o mundo fashion, o mais correto a se dizer é: marketing é dinheiro; o que implica em dizer que se a estratégia de marketing de uma marca for bem produzida e executada, assim será a marca, também bem sucedida e lucrativa. Ou seja, o que significaria adotar as tendências que estão na ‘’moda’’ – seja entre influenciadores digitais, ou seja entre a comunidade da moda das redes sociais — como forma de dar continuidade à sua relevância, bem como uma maneira eficaz de garantir e assegurar seus fins lucrativos. 

Um outro ponto a ser relacionado pelo fortíssimo comeback da moda dos anos 2000 aos editoriais e passarelas também pode ser atribuído à presença de designers e diretores criativos mais ‘’jovens’’ frente às marcas e produções editoriais, que acabam por trazer suas raízes e referências estéticas às suas criações, especialmente, para dentro das passarelas. 

O retorno das tendências dos anos 2000 ainda rompe com as barreiras ‘’instauradas’’ pela influência dos anos de 1990. Se a década de 1990 era marcadas por peças mais confortáveis, minimalistas, e de fato ”reclusas’’ — representada pelo uso de calças mom e da estética grunge, por exemplo — a estética dos anos 2000 quebra totalmente estes paradigmas, expressado pela forte referência à extravagância, ao glamour e principalmente ao maximalismo — marcado pelo princípio de ”quanto mais, melhor”, adicionando mais personalidade e vida à composição de algum look, contrariando totalmente a estética passada. 

O momento nostálgico no qual nos encontramos atualmente não reflete somente nas peças de roupas ou acessórios. Acontece que, assim como o início da década de 2020, marcado por um período de recessões e, acima de tudo, pela pandemia do coronavírus deflagrada mundialmente, que provocou e agravou crises políticas e econômicas em diversas nações, além de crises sanitárias. 

Os anos 2000 não foram tão diferentes. Tiveram diversos altos e baixos, como a ”grande depressão“ ou crise financeira compreendida entre 2007 e 2008, que chegou ao fim somente em 2009 — mas que continua influenciando a economia de vários países até hoje — além da pandemia causada pelo H1N1 que afetou mais de 200 países entre 2009 e 2010 que, inclusive, ainda estavam saindo ou se recuperando da grave crise monetária desencadeada nos anos anteriores. Semelhanças? 

Há uma interessante explicação para tudo isso: a influência da conjuntura social no estilo. Ou melhor dizendo, a moda anda conforme a sociedade atual esteja caminhando, ou seja, a volta das tendências dos anos 2000 pode estar diretamente associada ao período — praticamente de semelhanças — no qual estamos vivendo atualmente.

Se por um lado as décadas de 1970 e 1980 valorizavam o uso de sapatos e saltos mais baixos, que pudessem representar a estabilidade e o momento vanguardista, em que a situação parecia estar andando em direção ao progresso, as décadas de 2000 e 2020 parecem buscar o lado contrário e reproduzir sua passagem marcada por instabilidades e índices inflacionários em seus sapatos altíssimos em plataformas. 

Dentro dessa teoria sociológica, parece que seremos contemplados pela glamourização, plataformas e maximalismo dos anos 2000 por um bom tempo, uma vez que, apesar do fim da pandemia, as problemáticas recorrentes e deixadas por ela perdurarão por um longo período, especialmente pelo decréscimo do mercado financeiro e crises políticas, que acabam por influenciar diretamente todos os setores econômicos, inclusive as indústria têxtil e da moda. 

Além disso, as antigas previsões de que ao longo de 2021 a moda estaria optando por tendências mais futuristas terão que se retardar um pouco e aguardar para que quando ocorra o otimismo de ser a ”estrela do show“, de fato, a moda possa novamente deliberar sobre um conceito vanguardista e de avanços, assim como a estética futurista. 

Se você alguma vez já se encantou por algum look usado pelo quarteto de Sex and the City (1998 – 2004) e por sua protagonista Carrie Bradshaw, ou por algum dos looks utilizados por Paris Hilton, Britney Spears, Jennifer Lopez, X-Tina, Fergie, Ashley Tisdale, Victoria Beckham, ou qualquer look inusitado que tenha saído diretamente do ”forninho’’ dos anos 2000 e já quis reproduzi-los, mas deixou de fazê-lo por achar que estaria ”fora de moda” ou vestindo-se de maneira ”estranha’’, talvez este seja o momento perfeito para tirar as peças do seu guarda-roupa e arriscar pelas ruas!

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