Taylor Swift: A Indústria Musical

Você já deve ter ouvido que Taylor Swift “é a indústria musical”, mas muito provavelmente duvidou disso. Entretanto, apesar de todas polêmicas que envolvem a artista, seu nome não está em alta por conta de tais relações controversas, mas porque seu poder na indústria tem alcance global — até mesmo quando não é diretamente citada.

Com uma carreira que completou, recentemente, 15 anos, Taylor é consolidada, hoje, como uma das artistas mais relevantes do século. Infinitas honrarias, canções que não saem da cabeça e a presença de quem será lembrada eternamente dão a ela os títulos que carrega.

Entenda um pouco sobre a trajetória da miss americana e como ela se tornou não parte da indústria, mas a indústria em si.

Versatilidade marcante

Um dos pontos que mais deixam em evidência toda a trajetória de Taylor certamente é a versatilidade dos gêneros musicais pelos quais transita e das distintas eras de cada álbum. Ao colocar um ao lado do outro, é possível notar uma forte divergência entre eles, sem a perda da essência da artista.

Em Taylor Swift (2006), o gênero musical era expressivamente country. Ainda, um dos motivos da saída de Taylor da sua cidade natal em mudança para Nashville foi a tentativa de ser evidenciada como um artista country, quando tinha 15 anos de idade. Ao assinar o contrato com a gravadora Big Machine Records, lançou seu primeiro álbum de estúdio, integralmente no estilo de seu objetivo. Com cabelos cacheados e uma estética que marcava tal temática, a adolescente conquistou o primeiro lugar nas paradas country ao lado de grandes nomes do meio.

Em 2009, Taylor lançou seu segundo álbum, Fearless, que a deu o primeiro vislumbre de sucesso mundial com os singles You Belong With Me e Love Story. Hoje, eles contam com mais de um bilhão de visualizações, ao todo, na plataforma do Youtube. Dessa vez, a jovem recebeu destaque em importantes premiações da indústria musical ao vences os Grammys de Álbum do Ano e Melhor Álbum Country naquele ano.

Os visuais ainda se assemelham aos do primeiro álbum, mas é possível perceber que Swift se aproximava de se tornar um símbolo no meio. Atualmente, Fearless é a primeira regravação dentre seus seis primeiros álbuns.

Após o sucesso do disco, Speak Now (2010) veio com uma turnê quase teatral, sem rastros de trivialidade. O uso do batom vermelho, uma marca de da artista, ganhou relevância intensa nessa era.

O lançamento de Red (2012) sublinhou o início da transição de Taylor para o pop. Ainda que o álbum conte com muito do country de sua origem, tornou-se o último do gênero. Os singles We Are Never Getting Back Together, 22 e I Knew You Were Trouble, por exemplo, foram decisivos ao delinearem a presença dela no pop. Além disso, houve uma alteração significativa na estética visual, principalmente quanto a seu cabelo, que, a partir desse ponto, já não é mais cacheado.

A era 1989 traz o primeiro disco completamente pop da cantora. A maior parte das faixas esteve no repeat por todo o mundo, o que a posicionou no topo da indústria musical em 2015, especialmente. Em consequência, toda a estética remetia fortemente a de uma popstar. Roupas metálicas casavam com a sonoridade mais eletrônica e moderna desse novo conceito de artista, bem como o brilho, que a deixava dentro da imagem luxuosa de maior cantora do momento.

Sem dúvidas, a era que se seguiu foi uma das mais marcantes não por uma reinvenção, mas pelo nascimento de uma nova Taylor. Após todas as polêmicas que a envolveram em 2016, o comeback de 2017 trouxe sua versão de quem não deixa nada passar em branco. Não somente nas letras das músicas, na estética de roupas e no visual dos clipes, Swift caprichou nas referências e respostas sobre todos os ataques. O álbum Reputation e sua turnê quebraram recordes e ofereceram uma perspectiva diferente da cantora.

Já em busca de oferecer sensações mais leves e calmas, à procura de reproduzir o momento romântico que presenciava, o álbum Lover (2019) é vivo, colorido e doce, completamente diferente de todo o visual e composição do Reputation, como irmãs de personalidades opostas. Mais uma vez, essa era extrai bastante do pop, porém ela chegou a arriscar um tom de jazz na canção False God.

Os álbuns evermore e folklore, ambos de 2020, trouxeram um cenário bastante próximo do cottagecore, em alta nos últimos anos. Canções alternativas, de folk e com certa presença raízes no country dominam os discos. Além de demonstrarem, mais uma vez, a versatilidade de Taylor, também vieram a evidenciá-la, fortemente, como uma compositora gigantesca.

Vale complementar que seu visual nas regravações de Fearless (Taylor’s Version) e Red (Taylor’s Version) trazem o contexto da época dos álbuns originais em casamento com quem a artista é agora, mais de dez anos depois.

Taylor vs Spotify e Apple Music

Atualmente, Taylor é uma das artistas mais ouvidas do mundo, principalmente nas plataformas de streaming —aquelas responsáveis por facilitarem o acesso do público ouvinte às músicas. Porém, apesar de muitas dessas plataformas serem pagas para o uso, o que é repassado para todos os que produzem o material final é mínimo. Essa foi a razão de, em 2014, Taylor Swift retirar toda a sua discografia da plataforma de streaming Spotify.

Para o The Wall Street Journal, Taylor escreveu: “Música é arte, e arte é importante e rara. Coisas raras e importantes são valiosas. Coisas valiosas devem ser pagas. É minha opinião que música não deveria ser gratuita, e a minha previsão é que os artistas individuais e suas gravadoras irão, algum dia, decidir qual é o valor de um álbum. Eu espero que eles não se subestimem ou menosprezem sua arte.”

Taylor Swift na 1989 Tour [Imagem: Getty Images]

No ano, a artista estava prestes a lançar seu primeiro álbum integralmente pop, 1989,  que a levaria ao auge de sua carreira. Em entrevista ao Yahoo! Music, Taylor comentou sobre o porquê da retirada dos seus álbuns da plataforma: “Tudo o que é novo, como o Spotify, me parece um pouco com um grande experimento. Eu não estou interessada em contribuir com o trabalho da minha vida a um experimento que não parece justo em compensar os compositores, produtores, artistas e os criadores dessa música. Apenas não concordo com perpetuar a percepção de que a música não possui valor e deveria ser gratuita.”

Após 3 anos, em 2017, voltou a disponibilizar suas produções no Spotify em agradecimento aos fãs pelo sucesso estrondoso de 1989. No entanto, a guerra contra o pagamento injusto pela música não se limitou ao Spotify, pois Taylor fez outra uma crítica pontual à Apple Music.

De volta a 2015, comunicou através de seu Tumblr oficial que o quinto álbum de estúdio não estaria na Apple Music. A motivação se deu por conta do período experimental concedido pela empresa para novos usuários, onde era possível ouvir música gratuitamente por 3 meses. A discordância de Taylor foi direcionada à Apple Music não pagar os artistas e seus colaboradores por esse período, fato considerado “chocante e decepcionante”, como escreveu em seu post.

Em resposta, a plataforma anunciou que mudaria sua política de compensação e começaria a pagar pelo período experimental.

Taylor reforçou, ainda em sua publicação, que esse ponto não é sobre ela, mas sim sobre novos artistas e bandas que não são pagos pelo seu trabalho, esforço e dinheiro investidos no que acreditam.

A reputação dela nunca esteve pior

Taylor Swift na Reputation Stadium Tour [Imagem: Getty Images]

Hoje, a cultura do cancelamento é muito comentada e difundida nas redes sociais. Com o crescimento da internet no dia a dia a fazer parte integral do mundo atual, a proporção das coisas é maior e pode ser estarrecedora para algumas pessoas… ou não.

Em 2016, uma onda de cancelamento atingiu a estrela do momento. Após conflitos iniciados no VMAs de 2009 entre Taylor e o rapper estadunidense Kanye West, o lançamento súbito do clipe Famous do cantor contava com uma boneca de cera nua da cantora e o trecho “Sinto que eu e Taylor ainda podemos fazer sexo. Por quê? Eu fiz aquela v**** famosa. Droga, eu fiz essa v**** famosa”.

À público, o artista afirmou que ela estava ciente da menção no single, porém foi desmentido pela equipe de Swift. A mesma reformulou o contexto ao dizer que ela não sabia do fragmento “eu fiz essa v**** famosa”, no qual o cantor a ofendia verbalmente.

Em resposta, a socialite e esposa do rapper, Kim Kardashian, publicou um vídeo nas redes no qual Kanye estava em ligação com Taylor e comentava sobre a música. Swift refutou, em publicação nas redes, ao declarar que a gravação não estava completa e que apenas gostaria de ser excluída da narrativa de conflitos na qual foi inserida contra a sua vontade em 2009.

A internet e a mídia se voltaram contra a artista, que desapareceu por um ano da vista pública. Durante sua exclusão da imprensa, Taylor estava no processo de composição de um novo álbum e a gravar o documentário Miss Americana (2019), da plataforma de streaming Netflix.

Sua volta ao estrelato se iniciou com o clipe de Look What You Made Me Do, em 2017. A partir do cenário conturbado, utilizou-se da imagem de mulher manipuladora e ardilosa construída em tom ostensivamente sexista pela mídia como forma de dar continuidade a seu legado, mas dessa vez, deu adeus à sua antiga versão e apresentou uma nova ao mundo.

A era Reputation foi marcada pela estética escura e de nuances vingativas, graficamente repleta de cobras, espinhos e papéis de jornal em alusão à participação negativa da imprensa no que chamou de “morte da sua reputação”. As composições, mais uma vez inteiramente pessoais, reforçavam como foi “jogada na fogueira” como uma bruxa na Inquisição – período histórico no qual pessoas, em massiva parte, mulheres, foram assassinadas em fogueiras pelo que instituições religiosas da época consideravam heresia.

Ainda que não se limite a esses pontos, pois possui faixas direcionadas ao seu atual parceiro, o ator Joe Alwyn, o contexto do Reputation é destacado pelo ar de revanche e renascimento das cinzas de uma reputação queimada.

Taylor transformou a imagem manchada e o “enterro” de sua reputação pública em uma publicidade que reforçou sua capacidade de reinvenção e a potência na indústria mundial. Com isso, o álbum foi responsável pelo retorno definitivo de seu sucesso após a pausa e a Reputation Stadium Tour se tornou a segunda turnê feminina mais lucrativa da história, onde Swift fica atrás apenas de Madonna.

Em Miss Americana, dirigido por Lana Wilson, é apresentada a narrativa de Taylor sobre todas as principais polêmicas nas quais esteve envolvida, as batalhas pessoais e familiares as quais precisou vencer, seu esforço incansável em busca de recuperar o que pensou ter perdido em 2016 e, posteriormente, em 2018, o preço alto que se paga pela fama e o momento em que encontra o amor, com seu atual parceiro.

É importante trazer que, em 2019, o vídeo integral da ligação de West a Swift foi vazado e comprovou a versão dos fatos da cantora, no qual foi clarificada sua não consciência sobre as ofensas verbais de Kanye e demonstrou desconforto sobre o contexto da canção.

Regravações: a luta pela sua arte

Ao longo da carreira, Taylor já se mostrou bastante alinhada aos direitos da arte que produz. A pessoalidade depositada nas composições e em tudo que ronda seu trabalho soa irremediavelmente significante, algo que torna sua batalha ainda mais completa em empenho.

Em 2019, um novo cenário tomou conta da menção de seu nome: a empresa Ithaca Holdings, do domínio de Scooter Braun, produtor e empresário com a qual Taylor possui inimizade, comprou a gravadora Big Machine Records – onde a artista gravou seus seis primeiros álbuns, desde Taylor Swift (2006) a Reputation (2017).

Ao tomar conhecimento do ocorrido, sua equipe buscou comprar novamente a discografia, porém o executivo exigiu que, se a vendesse, Taylor não poderia mais fazer alusões negativas a seu nome. Tais alusões estavam diretamente ligadas às acusações de Swift de bullying pela parte do empresário, além de alegar cooperação por parte de Braun com a situação de 2016, com Kanye West e Kim Kardashian.

Meio às turbulências contratuais e, em muito, pessoais, dois outros pontos decisivos vieram à tona. Para o American Music Awards de 2019, a cantora recebeu um comunicado de homenagem como Artista da Década. Para receber a honraria, Taylor planejava se apresentar com uma mistura de grandes sucessos da carreira, porém veio às redes anunciar que Braun e Scott Borchetta, fundador da antiga gravadora da artista, não a permitiram cantar canções dos seis primeiros álbuns pois seria uma maneira de regravá-las antes da permissão contratual — que apenas seria liberada a partir de 2020. Incluiu em seu depoimento que haveria permissão para a apresentação, mas deixariam, em sua palavras, somente: “Se eu concordar em não regravar versões imitando minhas músicas ano que vem (o que é algo que eu tenho tanto permissão para fazer quanto estou ansiosa para)”.

A gravadora desmentiu a informação, mas foi contrariada pela agente publicitária de Taylor, Tree Paine.

Performance de Taylor Swift no American Music Awards 2019 [Imagem: Reprodução/Instagram]

Em, seguida, no ano seguinte Taylor voltou a desabafar em seu Instagram sobre o lançamento de um álbum inédito, cujo conteúdo era uma apresentação de 2008 em uma rádio. Swift comentou que não aprovava o ato e que o lançamento era “de mau gosto, mas bastante transparente”.

Em face aos acontecimentos, Taylor e sua equipe foram informados de que a discografia voltou a ser vendida. Dessa vez, a negociação ocorreu entre o empresário e a companhia Shamrock Holding. O contrato estabelecido, por sua vez, garantia que Scooter ainda lucrasse com as obras da artista, o que não a agradou nem um pouco.

Em novembro de 2020, a decisão definitiva de regravação foi anunciada como uma forma de Taylor ser dona de sua própria arte construída por ela e todos os seus colaboradores. Apesar do esperado ser na ordem original de lançamentos, os fãs foram surpreendidos pela notícia de Fearless (Taylor’s Version) (Em tradução: Versão da Taylor) como a primeira regravação e que contaria com seis faixas extras. A seguir, o álbum anunciado foi Red (Taylor’s Version), disponibilizado sexta-feira (12) em todas as plataformas.

Ainda, a faixa All Too Well (10 Minute Version) (Taylor’s Version) (From The Vault), derivada da original All Too Well (Taylor’s Version), recebeu um curta-metragem estrelado por Sadie Sink e Dylan O’Brien. A produção dirigida, escrita e estrelada por Swift apresenta a história por detrás do track 5 de sua segunda regravação.

O talento em escrever narrativas

A indústria pop atual não conta com tantos cantores que compõem suas próprias músicas ou fazem parte desse processo, mas definitivamente esse não é o caso de Taylor Swift. Ela faz com que ouvir seus álbuns seja como ler sobre sua infância, sua família, seus amores fracassados, seu amor bem sucedido, seus amigos e as histórias que cria em sua mente. Talvez, um dos motivos para tamanha identificação com o que Taylor canta seja a transparência e a escrita sobre experiências reais, cotidianas. Mais do que qualquer coisa, sua música é como um espelho que reflete as coisas mais recorrentes da vida de cada um de seus ouvintes.

Entretanto, não é só o público que compartilha da opinião de que ela é uma ótima compositora. A NMPA (Nacional Music Publisher’s Association) a premiou com a Songwriter Icon Award, maior honraria dos compositores. Também ocupa um lugar, onde é a mais nova, na lista de melhores compositores de todos os tempos pela revista Rolling Stones, que evidencia a composição já comentada, All Too Well.

São muitas as críticas positivas e avaliações, sobretudo referentes à sua maneira de aproximar seus conflitos internos das de sua audiência. As suas narrativas, sejam verídicas e particulares ou folclores criados pela sua imaginação, como o triângulo amoroso de Betty, Augustine e James em folklore (2020), despertam sentimentos verídicos e apresentados com empatia por ela.

Afinal, por que Taylor Swift é a indústria musical?

Folklore: The Long Pond Studio Sessions [Imagem: TAS Rights Management]

Taylor não é um braço da indústria, mas a indústria em si. O seu poder é capaz de mover todas as estruturas de um espaço dominado por reproduções impessoais e sexismo absurdo.

Em sua vivência no meio musical, reforçou a importância indispensável de sua arte — e a de todos os outros artistas. Uma arte que deve ser compensada, respeitada e admirada. Os passos tomados durante sua trajetória demonstraram um amadurecimento que deve ser reconhecido e reverenciado.

Swift quebrou recordes de grandes nomes da indústria — e de si mesma — e se consolidou como imortal, longe de ser uma artista que se abate com a primeira queda. Inquebrável e imortal, Taylor não conhece o fracasso e nenhum de seus sinônimos. 

Apesar de todas as polêmicas, mostrou não ser definida por especulações e se pôs em defesa da sua integridade e orgulho, além da integridade e do orgulho de seu trabalho. A versão de si mostrada ao público com o decorrer dos anos, sem os óculos embaçados da mídia, e em seu documentário serviu para desmistificar a figura pública de pop star autocentrada que recebeu.

Talvez, os principais motivos para ela ser a indústria não se limitem à aparência padronizada — que, decerto, colaborou para o espaço que ocupa no meio — ou ao sucesso em números expressivos. Os motivos podem ter maior ligação à valorização imensurável que dá à arte e àqueles que a consomem. À sua maneira, sem tratar sua profissão como uma linha de produção musical, tudo o que é realizado tem consideração e dedicação de diversas pessoas. Taylor é a indústria porque tem poder e tem poder porque tudo o que faz é em respeito à arte.

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