Reggaeton e cultura latina: da censura e marginalização ao reconhecimento mundial

A região latina, que compreende os países do continente Americano cujas línguas faladas estão entre o português, o espanhol e o francês — chamadas línguas românicas ou latinas —, é marcada por grande resistência frente ao contexto histórico da colonização. Por isso, a arte é usada como uma das principais ferramentas de denuncia a quaisquer tipos de repressões. A música não poderia ficar de fora.

Tal região é mãe de distintos gêneros, como tango, salsa e samba, por exemplo, mas o que tomou grande proporção nos últimos anos foi o reggaeton. Ele ganhou evidência mundial e foi popularizado mundo afora, até mesmo com artistas não-latinos a produzir canções nesse ritmo. Seu peso cultural pôde, ainda, entregar uma nova imagem da cultura latina que, em muito, é estereotipada pelo globo.

É ao considerar o espaço que conquistou, que conhecer sua origem com o relevante peso histórico se torna importante. Compreenda melhor toda a linha temporal que deu início ao seu sucesso e à força no cenário da indústria mundial.

Origem do Reggaeton

O Reggaeton está nas rádios, nas festas, nas feiras de rua, nas comemorações em família e, agora, nas principais premiações de música mundiais. Mas, apesar de seu sucesso repentino, tem uma história de grande valor com o significado de resistência que persiste até hoje.

O ritmo foi originalmente criado no Panamá, mas se desenvolveu em Porto Rico, ilha caribenha hoje pertencente aos Estados Unidos. Para poder entender o nascimento do reggaeton, é importante ter conhecimento de que, antes, a ilha costumava ser território espanhol por conta da colonização das Américas, mas desde 1898, após a derrota do país europeu na batalha Hispano-Americana, tornou-se terra de domínio estadunidense. Esse ponto transforma toda a história de Porto Rico em uma luta para permanecer de pé apesar da trajetória conturbada, pois as raízes de sua colonização fizeram da ilha latina, o que marca a marginalização de seu povo.

Foi em um cenário de instabilidade político-econômica, que a migração dos porto-riquenhos aos Estados Unidos ajudou a levar o hip-hop para terras caribenhas, ponto chave para a criação desse novo ritmo.

Devido a enorme influência de países latinos, a junção do Reggae, de origem jamaicana, e do Hip-hop, de berço estadunidense, ambos criados por volta dos anos 70, que nasceu o Reggaeton. Na época, tinha o nome de “Underground”,  o que rotulava sua imagem a um conteúdo considerado de baixa qualidade, vulgar e sexista.

O underground tinha origem de lugares de vulnerabilidade social e econômica. O espaço, apesar de todas as negativas associações feitas, era direcionado à criação de uma arte que servisse de denúncia ao racismo, à violência policial e à pobreza. Justamente por se estabelecer em um cenário desfavorável em meios sociais, a educação era prejudicada, logo, as letras eram baseadas unicamente nas vivências de seus cantores e compositores, e não havia meio de prolongá-las às perspectivas sociais da educação formal.

Ainda, por conta do conteúdo carregado nas canções — com ênfase na linguagem sexual, violência e menção a drogas ilícitas — havia reprovação intensa do governo, mas a tentativa de censura apenas gerou publicidade.

Um enorme marco na apresentação mundial do reggaeton foi, sem dúvida, com o lançamento épico de Gasolina, de Daddy Yankee, em 2004. Porém, alguns anos depois, o começou a perder a força, até ser resgatado por artistas colombianos, como J Balvin, e tomar gigantesca força em 2017.

O reconhecimento global

Karol G pasa la mejor noche de su vida al lado de J Balvin ¿Y Anuel AA?
Karol G e J Balvin [Imagem: Reprodução/Instagram]

Após uma trajetória marcada pela censura, restrição de domínio ao perfil masculino no cenário, a resistência da arte e a perda de sua força, uma nova geração de artistas resgatou o ritmo.

Na Colômbia, J Balvin em muito foi responsável por intensificar o retorno de um Reggaeton mais comercial. Seu primeiro sucesso, 6 AM (2014), em parceria com Farruko, conta hoje com mais de um bilhão de visualizações. Em 2016, lançou os hits Mi Gente e Ginza — cujo remix conta com a participação da cantora brasileira Anitta.

Foi em 2017, com a parceria entre Luis Fonsi e Daddy Yankee (de volta aos holofotes), que surgiu Despacito. O videoclipe da música é o segundo mais assistido de todo o Youtube com mais de sete bilhões de visualizações. O remix com Justin Bieber foi outro sucesso absoluto, até mesmo nas principais premiações de música.

Com o estouro do gênero, muitos artistas grandes da indústria iniciaram colaborações com artistas latinos ou lançaram suas próprias músicas. Além de Bieber, Cardi B, Nicki Minaj, Billie Elish e Ed Sheeran, por exemplo, estão entre remixes e canções originais estreadas no ritmo.

Hoje, o Reggaeton levou ao mundo um pouco da cultura latina e deu espaço e visibilidade a artistas do meio através da oportunidade de crescer junto à sua própria história.

Pioneiros do gênero

Victor Cabrera e Francisco Saldanã, os Lucy Tunes, respectivamente [Imagem: Jean Baptiste Lacroix/Getty Images]

Para falar sobre um gênero com raízes tão fortes, não se pode deixar de mencionar aqueles que foram responsáveis por sua resistência apesar dos anos. Conheça alguns dos principais nomes do Reggaeton e sua história na cultura porto-riquenha:

Vico C e Many Montes foram responsáveis pela busca de desfazer a visão pejorativa que se tinha daquela música em seu início. Outro nome de peso que tem presença até hoje é Daddy Yankee, ele teve influência, como mencionado, na democratização do ritmo. Além dele, Dom Omar, Wisin y Yandel, Tempo, Hector “El Father” e Nicki Jam, por exemplo, entregaram canções que estruturam a base do reggaeton.

Porém, é importante dar ênfase ao trabalho de produção feito por Francisco Saldanã e Victor Cabrera, conhecidos como Luny Tunes. Foram eles os responsáveis pelos álbuns Mas Flow (2003) e Mas Flow Dos (2005), que colaboraram com a sustentação da era de ouro do estilo. 

Mulheres no reggaeton

Marcado por uma história de sexismo e repleto de denúncias externas à sexualização das mulheres latinas — que, historicamente, já são bastante objetificadas e sofrem com estereótipos — o reggaeton teve seu cenário fortemente alterado desde que recebeu reconhecimento mundial nos anos 10.

Não se pode duvidar que essa mudança foi positiva, porém a sexualização feminina nos clipes ainda tem caráter consideravelmente incisivo e desfavorável às mulheres que o representam.

No início, poucas figuras femininas possuíam algum espaço nesse monopólio masculino. Nomes como Ivy Queen, La Sista, as participantes do La Factoria e Glory se destacam. Conheça as principais latinas que conquistaram seu trono na indústria:

Ivy Queen

Conhecida como “A rainha do reggaeton”, foi uma das primeiras do gênero, apesar de ter iniciado no rap. Brilhante, a artista teve três de seus álbuns certificados com ouro e diversas canções ocuparam lugares nas principais paradas da música latina. Destacam-se, entre os hits, Yo Quiero Bailar (2003) e La Vida Es Así (2010).

La Sista

A cantora porto-riquenha se lançou na música aos dezenove anos. Em 2006, lançou seu primeiro álbum, Majestad Negroide. No Reggaeton, também foi uma das primeiras mulheres a conquistar seu espaço.

Glory

Pode ser que, de nome, você não a conheça, mas ela esteve entre os responsáveis pelo triunfo do reggaeton em 2004 com Gasolina ao lado de Daddy Yankee. Esteve, ainda, envolvida no projeto Mas Flow, produzido pelos Luny Tunes e Noruega, juntamente a outros titãs do gênero. 

La Factoria

O grupo de origem panamense era liderado por Demphra, que colaborou com o fator marcante do triunfo ao lado de seus companheiros Marlen Romero, Johanna Mendoza, Edgardo Miranda e Pablo Maestre. Dentre seus maiores hits, está Perdoname (2007) com Eddy Love.

Becky G

Com descendência mexicana, Becky G nasceu nos Estados Unidos e iniciou sua carreira no pop. Seu primeiro grande hit esteve na cabeça de todos os jovens em 2014, quando Shower saiu. A canção de 2016, Can’t Stop Dancing, já possuía bastante influência de suas raízes, mas a trajetória no idioma espanhol começou com Sola (2016). A conquista no reggaeton foi garantido com Mayores (2017) com Bad Bunny, cujo clipe possui mais de dois bilhões de visualizações.

Natti Natasha

A cantora dominicana estudou música desde muito nova e assinou contrato com Orfanato Music Group, um nome de peso no reggaeton, em 2010. Sua primeira canção de sucesso, Dutty Love, foi em parceria com Don Omar, também bastante relevante no gênero. Tal parceria teve como resultado o reconhecimento em prêmios internacionais como o Billboard Music Awards. Em seus trabalhos mais recentes, destaca-se Criminal (2017) ao lado de Ozuna.

Karol G

A colombiana iniciou sua carreira no X Factor de seu país. O primeiro sucesso da carreira foi o feat Ahora Me Llama (2017) com Bad Bunny. A fama se concretizou quando colaborou com a rapper Nicki Minaj para a canção Tusa (2019).

Sexismo, falta de representatividade e apropriação

É comum que arte incite diversas polêmicas e com o Reggaeton não podia ser diferente. Contudo, suas polêmicas tem relação com contextos sociais que precisam ser revistos.

Sexismo marcado na objetificação e na exclusão

A princípio, o espaço do gênero era imensamente direcionado à participação quase que exclusiva de personalidades masculinas. La Sista, Glory e Ivy Queen eram os nomes femininos que melhor se destacavam. Entretanto, além de toda a carga excludente das mulheres no meio, quando possuíam espaço nos clipes, eram absurdamente sexualizadas.

Em contexto histórico, a mulher latina foi infligida a diversas violências raciais e de gênero. A objetificação reforçada dentro do reggaeton, seja nas composições ou nas representações visuais, em muito tem tom prejudicial às latinas. Ainda, as mulheres racializadas têm maior vulnerabilidade ao sexismo, com ênfase na sexualização agressiva.

Atualmente, pode-se dizer que a abertura de espaço às mulheres exprimiu a sensação de que, em suas próprias carreiras, decidem os limites de como preferem aparecer ao público. Porém, os artistas masculinos mais recentes prosseguem o reforço de usar o corpo feminino como objeto de desejo e a essência feminina como conquista oferecida pelos luxos do dinheiro e do sucesso.

A exemplo, o clipe Felices los 4 (2017), do colombiano Maluma, conta com 1,7 bilhão de visualizações no Youtube. Nas cenas, é perceptível que a atriz principal, em grande parte da duração do vídeo, usa roupas íntimas ou está nua, além da representação dela como uma espécie de troféu ao cantor. Já em Dákiti (2020), de Bad Bunny e Jhay Cortez, com mais de 950 milhões de visualizações, as imagens se dividem entre uma série de mulheres em biquinis, com ângulos a evidenciarem partes dos corpos das atrizes. Por outro lado, todos os homens no vídeo estão inteiramente vestidos.

Ao que é notável, o caráter sexista duramente criticado durante o crescimento do ritmo se perdeu em partes, mas há um enorme caminho para desestruturar essa idealização do corpo feminino latino.

Falta de representatividade que reforça o apagamento

A América Latina é uma região multiétnica. Grande parte dos países apresenta características históricas responsáveis pela miscigenação. Assim, além da xenofobia, pessoas negras de origem latina estão submetidas a violências raciais constantes. Por isso, o reggaeton, em sua criação, também servia, como comentado, como uma maneira de denunciar a realidade do racismo vivido no dia a dia.

Ao receber os holofotes em seu alcance mundial na última década, manteve o espaço para a apresentação, principalmente, de artistas brancos. São poucos os reggaetoneros negros que hoje têm espaço, como Ozuna e Rauw Alejandro.

A relação de presença de mulheres negras no cenário de hoje é mínima. Glory, La Sista, Demphra e Joisy Love — ambas as últimas de La Factoria — são algumas das mulheres negras que abriram espaço à presença feminina no reggaeton moderno, mas que não são mais representadas em um ambiente predominantemente embranquecido, bem como toda a diversidade racial existente na região não é refletida em como a cultura latina tem sido demonstrada ao mundo.

Apropriação

Desde que a proporção do reggaeton se expandiu a nível global, o epicentro da indústria musical começou a investir em remixes com artistas estadunidenses e ingleses e, posteriormente, parcerias e canções solo. Não há novidade no fato da indústria produzir canções de mainstream a partir de ritmos popularizados no momento, como tem feito com a volta do pop anos 90 e como fará com o próximo a surgir.

A polêmica de apropriação se deu quando artistas não-latinos começaram a ganhar prêmios dedicados à música latina e ocupar o espaço na música que deveria ser uma forma de reparação por meio da cultura. Com a cultura e o povo marginalizados, conseguir alcance mundial apesar das restrições impostas pelo meio musical é de extrema importância para desfazer as amarras do passado sem perdê-lo de vista.

Um exemplo, dentre as diversas vezes nas quais houve esse apagamento, ocorreu esse ano no MTV Video Music Awards, um dos prêmios mais aguardados do ano, no qual Rosalía, artista espanhola, e Billie Eilish, artista estadunidense, ambas sem nenhuma descendência latina, venceram na categoria de Melhor Clipe Latino. Todos os outros concorrentes ou eram artistas latinos solo ou estavam em parceria com artistas latinos. Como o VMA é baseado em voto popular, a vitória das duas cantoras foi menos insatisfatória que a indicação, já que os fãs votam em seus artistas favoritos de qualquer maneira. Portanto, a bancada do VMA indicar Rosalía e Billie gerou enorme descontentamento pois a visibilidade dos cantores que melhor se encaixam nesse prêmio foi ofuscada. A espanhola também recebeu diversos prêmios no Grammy Latino e esteve envolvida em polêmicas sobre outras acusações de apropriação pelo ritmo flamenco, de raízes ciganas.

A importância de manter a cultura viva e ressignificar o passado

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A porta da bandeira, em San Juan, Porto Rico [Imagem: J Amil Santiago/Unsplash]

O passado de países latinos é refletido em cada espaço do contexto atual, seja na política, na economia, na influência cultural externa ou nos comportamentos sociais. Apesar de todas as heranças deixadas pelo período de domínio de colonizadores serem marcantes hoje, cada um pôde buscar a construção de sua própria identidade através da arte, que é capaz de moldar uma sociedade.

Preservar o Reggaeton é garantir que cada pessoa responsável pelo seu desenvolvimento não se perca com influências externas à cultura latina, algo que muitas vezes pode alterar completamente o que havia no início. Reforçar suas raízes é manter viva a memória e deixar claro seu passado como forma de aprender com ele e reconhecer o que pode ser mudado sem que a origem deixe de existir.

Todas as mudanças de inclusão que agora marcam o gênero foram necessárias para que a representação de sua parte do continente fosse um pouco mais justa. Porém, não há maneira de deixar de lado que a passagem dos anos e a inserção de novas personalidades no meio também reforçou como, apesar das Américas serem fortemente miscigenadas, essa diversidade não representar, através da cultura, a realidade em sua totalidade. Para usar o reggaeton como ferramenta de resistência em chegar à nata da indústria e influenciar, também é necessário que ele mostre o máximo possível de onde vem ou criará nova face de exclusão ao elevar uns com base no esquecimento de tantos outros.

Ainda que tenha muito o que crescer em melhorias de pontos sociais, a força que conquistou hoje monta o palco para desconstruir estereótipos futuramente e dar oportunidades aos artistas e até a seu público. Da censura e marginalização aos mais importantes palcos da indústria musical e filmes de Hollywood, o reggaeton conquistou o mundo e está apenas no começo.

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