Tudo o que você precisa saber sobre a SPFW N52 

Francamente esse texto não foi um dos mais fáceis que já escrevi. Na verdade, acredito que foi um dos que mais me deixou em um limbo criativo. Levá-lo para o espectro de textos críticos impessoais, quais costumo escrever a cada temporada de moda para a Frenezi não faria sentido, afinal esta foi a minha primeira semana de moda cobrindo de perto — foi extremamente pessoal.

Voltando um pouco ao passado, minha relação com meu trabalho de jornalista de moda era complicada e mesmo sempre estudando muito e fazendo pesquisas, ainda tinha internamente uma grande síndrome de impostora. Na realidade, tirei o Instagram do privado e comecei a discutir sobre moda na plataforma em 2020, no começo da quarentena, o que eu não imaginava era que com a crescente popularidade do tiktok e as semanas de moda se adaptando para o digital que eu encontrei muitas pessoas que também estavam começando a falar sobre uma moda diferente, uma que eu acreditava.

É uma experiência meio irreal ver essas pessoas se juntando para um evento em função da moda nacional, fica bem claro quem realmente ama e se dedica a moda é uma das melhores experiências disso tudo foi poder sentir isso de perto. No começo de tudo tive medo de ter a mesma decepção que tive com as semanas de moda internacionais, aquele sentimento na moda de ‘voltar ao normal’ como se nada tivesse acontecido, como se os últimos anos de eventos traumáticos e aprendizados que trouxeram com eles não tivessem significado muita coisa, que a verdadeira ansiedade pós-pandêmica era diminuída apenas a voltar a sair e se divertir.

E até os primeiros desfiles do Projeto Sankofa esse era um medo que quase se tornou realidade, durante os anos presentes o SPFW foi denunciado por diversas práticas questionáveis, felizmente o pós-pandemia apresenta uma nova fase do evento e da moda nacional, uma fase que ouve e respeita jovens criativos, e principalmente da espaço para narrativas diferentes pois reconhece que são elas que constroem uma moda para se acreditar. Em outras palavras, estamos em um momento essencial da moda nacional contemporânea e estou ansiosa por ter o privilégio de acompanhar esse momento de perto.

Fotos retiradas dos sites oficiais do SPFW e FFW.

DIA 1 – 16 de Novembro:

 Abrimos a semana de moda de São Paulo com a ansiosamente esperada estreia no evento – Pedro Andrade, que contou com o cenário da Pinacoteca de São Paulo, em seu primeiro desfile presencial desde o lançamento oficial da marca em 2020. A marca é assinada pelos diretores criativos Pedro Andrade e Laura Kim, a dupla traz um novo significado para uma alfaiataria moderna, misturando elementos do streetwear e uma inspiração profunda em grandes artistas nacionais como Lina Bo Bardi e Oscar Niemeyer.

De regatas vazadas combinadas com calças de alfaiataria temos uma coleção concisa e muito bem executada, tanto no plano de qualidade material e precisão quanto na construção das roupas em si. Como na forma que a coleção foi estruturada passando de diversas inspirações e referências importantes que ajudaram ao desenvolvimento da mesma, da versão brasileira das famosas botas Tabi até uma apreciação pela arte e folclore nacional de uma forma nada óbvia e até versátil para seus consumidores, foi um dos melhores começos que poderia pedir iniciamos a semana com uma das melhores coleções da temporada.

Fotos retiradas dos sites oficiais do SPFW e FFW.

DIA 2 – 17 de Novembro:

No segundo dia já estávamos presencialmente acompanhando o evento, mas não vou mentir que meus sentimentos são divididos em torno desse dia específico. Começamos o segundo dia num passo um pouco mais lento do que o primeiro, e como dito anteriormente além de Pedro Andrade ter colocado as expectativas altas para os próximos também existia um medo da decepção eminente da ‘volta ao normal’ sem significar muita coisa, e como foi o primeiro dia presencial com muitos desfiles no evento em si alguns deixaram a desejar. A primeira coisa do evento foi a apresentação do projeto cria costura, a segunda foi o desfile da Torinno para a estreia de seu primeiro desfile feminino Luis Fiod traz para sua passarela um verdadeiro esquadrão de estrelas que incluíam Marlon Teixeira e Lais Ribeiro. A coleção apresenta uma visão clássica do streetwear com silhuetas mais estruturadas que abraçam o sangue esportivo da marca, com diferença de alguns tons neons e vibrantes que trouxeram nossa atenção.

Depois de Torinno as próximas apresentações até a noite eram majoritariamente digitais começando com Ronaldo Fraga, o estilista conta sua história através dos tecidos e cria arte com seus acessórios, com um ar esperançoso e positivo. Fraga apresenta momentos que fizeram parte da história brasileira, com uma coleção feita 100% de bases de jacquard em fios de algodão, seda, linho e viscose. E em um fashion film emocionante ele conta um pouco da história da indústria têxtil no Brasil. Um tema que deveria ser mais explorado tanto por sua riqueza histórica quanto pela importância do mesmo para nosso estado atual da moda nacional, mas parece que além das inspirações básicas nas riquezas naturais Ronaldo Fraga leva a um passo à frente em pensar nas ramificações sociais e no contexto histórico disso tudo.

Fábio Souza e Alexandre Herchcovitch trazem uma inspiração que já discutimos muito aqui na Frenezi, principalmente no texto especial de Halloween que conversamos sobre como os estilistas conseguem tirar suas inspirações do que não é tradicionalmente belo. A marca À La Garçonne Traz filmes de terror como inspiração bruta da coleção, mas fogem do óbvio e do gore, misturando elementos românticos com o sinistro, estampas de fotos dos filmes em camisetas brancas em conjunto com florais e jogos de texturas, os designers exploraram uma nova visão para o workwear com o upcycling.

Chegamos em uma das minhas coleções favoritas do dia, com um fashion film impecavelmente produzido a coleção ‘Uma noite e meia’ da marca Anacê apresenta peças com recortes e silhuetas sensuais em tricôs, é um clima de festa e provocação muito bem executado que vai além de saias mini e vestidos bordados, é uma exibição de desejo e vontades da nova geração, a sensualidade sendo repensada a forma que ‘voltamos ao normal’.

A Mnisis é a mais nova marca estreante na SPFW, ela trás em  sua coleção de forma nostálgica e brincalhona sem comprometimentos ou desejo de seriedade — uma visão romântica da infância.  Seu fashion film que apresenta a coleção é uma confirmação de que a visão aqui é uma carta de amor às lembranças de infância e a criança interior que vive em cada um de nós. Composta por camisas e  vestidos com plumas, peças em cores vibrantes e texturas interessantes, a despretensão é entregue em peso. 

Agora voltando para os desfiles presenciais tivemos uma das colaborações mais interessantes da semana, o SPFW N’GAME uma colaboração entre o evento e o jogo Free Fire borrou as linhas entre o real e o virtual, ao que parece os recentes diálogos sobre o metaverso nunca estiveram tão em pauta como agora. A edição marca a volta dos desfiles presenciais no Brasil e a parceria entre o SPFW e o jogo, como muitas marcas internacionais como Balenciaga e Gucci já se aventuraram, mostram como uma representação visual pode incluir o real e o virtual. Na passarela foram observados 20 das ‘skins’ que o jogador pode trocar e destrocar mais populares do jogo, trazendo a vida real para um universo exclusivamente virtual e uma apresentação muito bem organizada e bem feita.

Terminando o dia com o desfile da marca Lilly Sarti, as estilistas mesclam o passado com o presente e o futuro com estampas de pinturas rupestres e figuras de animais em tons terrosos mesclados com brilhos, silhuetas dramáticas e ousadas que carregam o desejo e vontade de festa após dois anos em uma pandemia global. As peças de alfaiataria em conjunto com o conforto com a festa são, sem dúvidas, vibrantes o suficiente para roubar os holofotes.

Fotos retiradas dos sites oficiais do SPFW e FFW.

DIA 3 – 18 de Novembro:

Depois de um ano conturbado para o evento, com denúncias de racismo e a adaptação para o meio digital, os primeiros desfiles do dia que pertenciam ao Projeto Sankofa deram o respiro necessário para os dias a diante. Aquele sentimento claustrofóbico de ansiedade pós-pandemia de voltar tudo ‘ao normal’ sem mesmo se questionar se esse normal funcionava foi destruído assim que o primeiro modelo de Meninos Rei apareceu na passarela.

E claro, ainda tivemos desfiles tradicionais e com o mesmo sentimento durante o evento, mas a mudança e impacto que os dois primeiros deste dia Meninos Rei e Ateliê Mão de Mãe provocaram foi emocionante, dando outros olhos para o evento em si.

A Primavera-Verão de Meninos Rei pode ser traduzida como uma carta de amor. Para quem? Para a Bahia, a África, as raízes familiares dos fundadores e a ideia de uma moda cada vez mais diversa e inclusiva, apresentando o casting mais diverso da temporada com modelos dos mais variados corpos possíveis, é um sentimento de inclusão, de amor e de inclusão que deram esse respiro necessário. Em modelagens oversized e cortes imaginados para criar peças únicas, com tecidos em cores gritantes vindos diretamente da África, a Meninos Rei de Céu e Junior Rocha entrega mais do que “apenas” roupas — a coleção é uma aula sobre respeito à própria ancestralidade.

No segundo desfile do Projeto Sankofa, Ateliê Mão de Mãe apresentou a coleção ‘Profundo’, inspirada pelo mar e motivos tropicais para a temporada que está por vir. Provando mais uma vez sua excelência, a dupla de diretores Vini e Patrick Fortuna criou peças trabalhadas em  crochê e técnicas artesanais numa paleta praiana, é uma demonstração clara de respeito pela qualidade do trabalho manual brasileiro, que lembram os perfumes do verão e da boa qualidade.

Um dos designers brasileiros mais reconhecidos, João Pimenta apresentou uma coleção que completa um ciclo de sua narrativa, durante a pandemia após duas coleções que refletiam sobre a pandemia o sufocamento e o escapismo que vieram com ela, ele apresenta uma contramão a sua estética base da marca. Com uma coleção de alfaiataria estruturada e muito bem ajustada, com uma paleta de cores em tons terrosos e monocromáticos. Porém ele não abre mão de seu próprio twist nas peças com mangas volumosas, lapelas desconstruídas mini saias masculinas com volumes estratégicos, é uma visão clássica do estilista em uma coleção um pouco mais adaptada ao dia-a-dia indicando o fechamento de uma fase conturbada, uma estratégia genial de atrair consumidores mais minimalistas a uma marca reconhecida por seu maximalismo, ainda é João Pimenta isso fica claro nas maquiagens com próteses para parecerem aliens ou nas mini bolsas de isqueiros de contas, mas é num novo contexto pós pandemia marcado pela preferência de peças coringa pelo consumidor em decorrência da crise econômica.

Não muito diferente do próximo desfile do dia Weider Silverio, desenvolve sua coleção com ângulos precisos e alfaiataria digna de livros de arquitetura se misturam ao bom humor e leveza, ele cria uma coleção fresca, que nos transmite tudo o que passamos meses esperando, looks versáteis e que testam o tempo com algumas tendências jovens incluídas como a cor rosa chiclete e o corset aparecem de uma forma mais sóbria mas bem executada para trazer nova vida a uma coleção cheia de sofisticação.

Terminamos o dia com Walério Araújo fazendo uma celebração de seus 30 anos de carreira, ele recorreu a fonte base da marca, que deram nome a seu legado no mercado, as baladas, sair a noite, toda a estética de grandes festas. Entre bordados e aplicações exercidas com maestria e uma alfaiataria bem editada com customizações inteligentes a coleção intitulada “Noite Ilustrada” foi uma homenagem à coluna de mesmo nome escrita pela jornalista Érika Palotina entre os anos 90 e 00, e foi a mesma a responsável por trazer ao mainstream nomes da cena noturna paulistana, entre eles, Walério. 

Com Drag Queens tomando a passarela, couros, vinyls e vestidos bordados de pérolas, Walério Araújo mostra claramente sua precisão em sua área favorita, as roupas de festa prontas para o próximo clube.

Fotos retiradas dos sites oficiais do SPFW e FFW.

DIA 4 – 19 de Novembro:

Começando o dia com Ponto firme em sua coleção intitulada ‘Um Bando’ e que inaugura o ateliê-escola-estúdio (para atender e capacitar mais pessoas), Gustavo Silveira, estilista frente à criação das peças da marca, se aventura em técnicas que o projeto conhece e trabalha muito bem: a tricotagem e o crochê, criando rendados belíssimos. A apresentação ainda conta com bonés feitos também a partir da técnica do crochê, casacos e camisas feitos a partir de materiais descartáveis e tons que remetem à brasilidade e seu tropicalismo.

A nova coleção apresentada por Fernanda Yamamoto em colaboração com membros da comunidade Yuba 一 grupo criado por imigrantes japoneses 一 nesta edição da SPFW carrega consigo as origens de Fernanda e de sua família, bem como suas relíquias. Tendo como base uma peça chave e fortemente tradicional no Japão, os quimonos são os grandes protagonistas da nova cápsula da marca de Yamamoto junto com vestidos antigos bordados em aplicação de seda e morin, que ainda englobam um toque de leveza, suavidade, sofisticação e muita elegância em toda a coleção. Como um todo, a série apresentada por Yamamoto comporta-se como uma viagem cultural em minutos aos telespectadores.

Voltando para o evento principal os desfiles começam com mais dois do Projeto Sankofa Naya Violeta e Santa Resistência, marcas que apesar de seu desenvolvimento jovem tem uma grande apreciação pelo trabalho manual. Começando por Naya Violeta que foi marcada principalmente pela celebração à ancestralidade, a coleção exposta pela estilista comemora as diferentes raízes que existem no país, uma celebração animada com cores vibrantes marcando um otimismo e uma esperança por dias melhores.

No segundo desfile do Sankofa o Santa Resistência  sua coleção intitulada ‘Jóias do Recôncavo’, a coleção liderada por Mônica Sampaio busca abordar a pluralidade da moda afro em suas peças, de forma a representar o espaço interiorano brasileiro. A coleção, que é traduzida em peças com uma diversidade de cores vibrantes, contemplada especialmente pela bagagem cultural brasileira em cada estampa e tom apresentados, bem como pelos modelos que dão atitude às peças confeccionadas pela marca. Um outro ponto muito marcante na coleção da Santa Resistência é a forte presença das memórias afetivas da estilista pelo Recôncavo Baiano local de origem de sua família, firmada pela apresentação ilustre do Olodum, um grupo musical de muita tradição na Bahia, na trilha sonora do desfile.

Agora passando para um das principais coleções da temporada com Misci em sua história de amor e paixão pela cultura nacional, o diretor criativo Airon Martin relembrou um marco na cultura popular brasileira – o Boteco de Rua – juntando a estética popular brasileira com a qualidade a alfaiataria de sua marca mesclando a tradição com um marco nacional, um show de brasilidade elevado à máxima potência.

A Misci pode ser uma das novas grandes marcas estabelecidas brasileiras, com uma alfaiataria bem construída, acessórios pontuais que já se provaram ser um sucesso de vendas entre um grande público o que pode estabelecer bem uma marca em conjunto com uma sincera paixão pela cultura brasileira e suas várias diversidades, um storytelling necessário. Misci pode ser descrita como uma alfaiataria mais comercial, com produtos e acessórios que claramente tem o objetivo de atingir um grande público, 

Com sua nova coleção intitulada ‘De Volta para a Casa’ e apresentada de forma digital, a LED celebra a abertura de sua loja física, a Casa Led, em Belo Horizonte. Reunida em peças vívidas e alegres, a coleção exposta por Celio Dias, o responsável pela parte criativa da marca, conversa de forma eficaz com o momento vivido pela LED de celebração. As peças foram desenvolvidas especialmente em tecidos de algodão, seda e viscose, alinhando-se com o tecido tecnológico, contando também com a presença do crochê.

Igor Dadona mergulhou de cabeça nos reflexos da pandemia à humanidade. Em sua nova coleção ‘House Couture’ de Outono/Inverno para a marca, ele busca reproduzir de maneira singular como o período pandêmico tem afetado a vivência social e o quê ela tem representado. Contrastando entre o universo sombrio e o otimismo, Igor simboliza o passado, reproduzido pela atmosfera sombria e caótica herdadas pelo coronavírus e o presente, caminhando pelo futuro expresso pelos tons mais alegres e otimistas, que buscam sinalizar a chegada de dias e momentos melhores.

O ano de 2020 foi marcado por incertezas e medo para os designers independentes, tendo sua primeira loja física inaugurada a pouco menos de um mês parece que Rafaella Caniello, a diretora criativa da marca Neriage, conseguiu atravessar águas turbulentas com sucesso. Esse comportamento fica visível mesmo quando analisamos sua mais recente coleção para a marca intitulada “Argos”. A coleção carrega todos os traços reconhecíveis da marca como plissados, drapeados e silhuetas flutuantes, ao contrário de seu trabalho prévio, parece que a designer encontrou seu equilíbrio perfeito entre suas grandes ideias e expectativas criativas e o comercial. Em uma coleção quase monocromática em branco, preto e vermelho promovendo a atenção principalmente as diferentes texturas, recortes e modelagens em suas roupas somando tudo isso com um conceito ligado à libertação de paradigmas e ideais instaurados na forma do ‘saber-conhecer humano’.

O recifense André Namitala é o diretor criativo e fundador da Handred, que sempre foi uma marca muito mais ligada à moda comercial do que moda de passarela conceitual, por isso que foi uma grande surpresa quando vimos a coleção de estreia para a SPFW desta temporada. A primeira vez que ele se aprofunda de verdade no significado da moda como arte e com um mini documentário exibido antes do desfile fica claro o paralelo entre artista e a marca, e sua nova fase na moda. 

As roupas podemos observar uma apreciação e homenagem a suas raízes pernambucanas com estampas de aju, rendas, tecidos e bordados em linho e em organza de seda, tirando as coleção completamente branca, o que foi outra surpresa vindo da Handred, tudo ficou completo com o show de Lia de Itamaracá durante a apresentação. 

Fotos retiradas dos sites oficiais do SPFW e FFW.

DIA 5 – 20 de Novembro.

Começamos o dia com uma apresentação um tanto agridoce, a estreia da marca do humorista brasileiro Carlinhos Maia na SPFW, tirando os designs sem inspiração, esforço ou aquele sentimento prévio de já te vi antes, parece que máscaras são uma coisa do passado principalmente para os convidados da marca. Com o susto da cena, o fundador e organizador do SPFW, Paulo Borges, pegou o microfone e fez um apelo para que colocassem suas máscaras para a apresentação começar.

Agora em ares completamente diferentes e voltando aos desfiles no evento principal, começamos a tarde com mais uma apresentação do Projeto Sankofa, com Silvério e sua alfaiataria precisa e criativa, e AZ Marias com uma apresentação que faz reverência ao trabalho manual. Mas foi Milie Lab que conta com a direção criativa de Milena Nascimento, não fez um desfile, fez um verdadeiro show e manifesto.

Dia 20 de Novembro é comemorada o dia da consciência negra, com poesias e um discurso de arrepiar Milena deixa bem claro para cada um ali presente que valoriza o funk e a cultura periférica, ela representa de forma clara as dores e dificuldades de ocupar espaços como uma marca preta e periférica.

É sempre emocionante quando um designer apresenta uma coleção que faz uma ligação direta com sua trajetória pessoal, também foi possível observar essa sensibilidade em Angela brito que em seus seis meses que voltou sua casa de infância no Cabo Verde devido às restrições da quarentena, se viu revisitando álbuns e fotos de família, se ligando fortemente a essas fotos tiradas por seu pai um amante da fotografia.

As mesmas fotos estampam sua coleção para esta edição do evento, com uma alfaiataria leve, com sobreposições que remetiam a algo leve e natural com roupas de cores leves e mutadas, é uma lapidação de seu trabalho em qualidade de vestuário e emoções primárias que nos invadiram durante esse período.

A Apartamento 03 por Luiz Cláudio Silva é reconhecida por sua alfaiataria impecável e suas roupas precisas, com uma atenção a detalhes, cores e técnicas que têm. Sua mais nova coleção embarca no sentimento de Cura, pensando assim como Angela Brito no período da pandemia com respeito e consideração, uma luz no final do túnel após tempos de breu em que vivemos, segundo o estilista. Flores, folhas, estampas de escritas e poesias caracterizaram o uso das técnicas medicinais naturais, uma apreciação pelas técnicas manuais de confecção e tecidos preciosos, como as sedas plissadas, alfaiataria em linhos e acetato e cores iluminadas.

Acredite no seu axé! A coleção “Cores da Bahia” de Isaac Silva, em parceria com a Havaianas encerrou o quinto dia de SPFW numa apresentação multissensorial na qual a música, as roupas e a energia dos modelos transmitiam a celebração, a vida que Isaac queria transpassar. Com inspiração no Sol que marcou sua presença na estamparia, e claro nas vibrantes cores da Bahia.

Fotos retiradas dos sites oficiais do SPFW e FFW.

DIA 6 – 21 de Novembro

Fomos transportados para Niterói, no Rio de Janeiro, para encerrar essa São Paulo Fashion Week edição 52, Lenny Niemeyer toma o famoso caminho Niemeyer para o cenário de sua coleção, essa que celebra 30 anos da fundação da marca em grande estilo. Uma coleção fluida cheia de estampas e segundo a estilista, os prints foram inspirados em feixes de luz que atingem o fundo dos oceanos, referências ao futurismo corpos celestes e a botânica em modelagens pensadas para vestir diferentes tipos de corpos.

Parece que quase todos os planos foram cobertos por Niemeyer durante a coleção o terrestre, os oceanos e o espacial, todos se unindo em uma coleção harmônica e fluída com uma construção das roupas em si muito bem pensada, é a junção da natureza e do ciclo da vida com uma moda que pensa no mesmo.

Em suma, foi um privilégio enorme poder ver a maioria de todas as coleções de perto, sentir a atmosfera, a ansiedade, ouvir as conversas de canto e a frenesi de não saber sobre o próximo desfile foi uma experiência única que sempre vou levar comigo. Algumas marcas principalmente as presentes no Projeto Sankofa e as novas marcas independentes trouxeram diálogos importantes demais que espero que durem por muitas outras coleções, ouvir novos criativos talvez seja a saída do período sombrio do evento e renascer como um aliado, com uma perspectiva da moda que faz a diferença e se liga diretamente com a arte, posso afirmar que no mínimo é um tempo extremamente interessante para a moda nacional.

Fotos retiradas dos sites oficiais do SPFW e FFW.

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