Como escrever tudo sobre nada

Já vou começar com a mais pura honestidade: não sei sobre o que escrever. Posso talvez te contar que já fui duas vezes na terapia essa semana e estou escrevendo isso em uma terça. Ou que passei o final de semana inteiro na cama. Mas, também, posso te contar que ganhei um sorvete de banana de graça. Ou que uma das minhas melhores amigas está vindo passar alguns dias em São Paulo. A vida é feita disso, né? Momentos felizes e tristes. 

O problema é que, ultimamente, tenho ficado presa em momentos tristes. O que me faz entrar no estado mental e físico de não querer nada. Não quero nada, não quero pensar em nada, não quero fazer nada. Não quero o hoje, não quero o amanhã. Minha terapeuta diz que tenho que começar a ver a vida por um funil – focar em uma coisa de cada vez. Só assim vou aprender a ver alguma coisa além do nada de novo. Estou agora no meu quarto. No que consigo focar? Para ser honesta, acho que não consigo focar em nada. Não quero, não acho que tenho força. Escrever esse texto já está sendo difícil. 

Decidi focar na minha parede. Eu gosto dela, é como uma pequena exposição da minha própria curadoria. Tenho orgulho dela. Estou falando da parede bem em cima da minha cama. Quero dizer, as duas. Decidi em algum ponto do ano passado que colocar a cama no canto do quarto, entre o encontro de duas paredes, é bem mais maduro do que só encostar a parte da cabeça em uma única parede. Faz sentido? Para mim faz. 

Bom, tenho 18 coisas coladas nelas. Bastante, né? Isso nasceu da minha aflição de dormir com um paredão totalmente em branco em cima de mim. Deve ter alguma explicação psicológica para isso. Vou perguntar para minha terapeuta quando for lá de novo (ainda vou ter mais sessões essa semana… A saúde mental claramente no fundo do barril). 

Vamos começar nas duas primeiras coisas coladas do lado esquerdo: um pôster de E.T. e um de Les Misérables. O de E.T. consegui na CCXP de 2019 aqui em São Paulo. Uma das últimas coisas que fiz naquele dia exaustivo (e divertido) foi ir à loja da Universal comprar um presente de aniversário para a minha tia. Acabei levando um monte de camisetas para ela, então me deram um pôster de graça. Tinha de E.T., Tubarão e De Volta Para o Futuro – escolhi E.T. Essa escolha foi feita a partir do meu gosto estético apenas porque esse filme não é o meu favorito dos três.

O de Les Misérables veio em um livro enorme que comprei sobre o musical. Sabe aqueles livros gigantes para colocar na mesa como enfeite? Um desses. O pôster é da produção original de Londres e é bem parecido com a capa da edição que tenho do livro do Victor Hugo. Passei a adolescência inteira beeeem viciada em Les Mis. Tipo ao ponto de saber o nome de todos os personagens secundários, ler fanfic, ter minhas passagens favoritas… Vergonhoso. Até hoje consigo fazer uma análise teórica sobre todos os estudantes revolucionários de Les Mis. 

Agora o primeiro pôster que colei na parede direita: um de Barbarella em japonês. Esse está colocado em cima do buraco da minha velha televisão (que quebrou e teve que ser tirada). Ao invés de comprar uma nova, taquei uma Jane Fonda gigante por cima. Comprei esse com a minha irmã em Londres já faz alguns anos. Estávamos no South Bank – provavelmente meu lugar predileto lá. Encontramos um cinema meio cult e fomos assistir uma sessão especial de Laranja Mecânica que estava em cartaz. Tive que pedir para um cara lindo que trabalhava na lojinha pegar esse pôster para a gente… Foi meio vergonhoso. 

As próximas coisas que colei nas paredes foram seis pôsteres miniatura que comprei na Augusta Discos. Estava lá para ver os LPs, mas acabei não comprando nenhum. Tinha acabado de comprar um monte de disco usado que nem tinha escutado ainda. Em um canto da loja tinha um stand cheio de impressões diversas. Escolhi os posters de Casablanca, Sabrina, Eles e Elas, Quando danço contigo, Siga a Marinha e O Pecado Mora ao Lado. Só percebi depois que tem dois filmes do Fred Astaire e do Humphrey Bogart. E, sim, são todos filmes antigos – tenho uma fascinação louca por eles. Não sei explicar direito o porquê, mas nada me acalma mais do que um filme em preto e branco. 

Estava na casa de campo da minha família, em Minas Gerais, quando encontrei as próximas duas coisas na parede. Lá é tão abarrotado de objetos e lembranças que parece até um museu… Falam que artista é bicho acumulador, né? Explica muita coisa. Em uma caixa, encontrei as trilhas sonoras de Mulholland Drive e Alta Fidelidade. Mesmo não possuindo um tocador de CD, senti a necessidade de levar para casa. E agora sei por que fiz isso: para colar os livretos na minha parede. 

O próximo pôster é provavelmente meu favorito: da tour de Rumours do Fleetwood Mac, que aconteceu em 1977. E esse achei no Mercado Livre! Olha, nem sei como explicar o quanto amo esse pôster. Só saiba que Fleetwood Mac é o meu artista mais escutado no Spotify… Entendeu o vício? É óbvio que colei ele bem no lugar em que deito a minha cabeça à noite. Não tinha outro melhor.

O pôster que completa a minha parede esquerda é um que encontrei em uma estante aqui em casa (lembra o que falei de artistas serem acumuladores?). É um livro da, pasmem, Getty Images. Sabe aquele banco de imagens que coloca uma marca d’água gigante bem no meio da foto? Pois é. Aparentemente alguém aqui em casa comprou um livro deles, e eu roubei a capa de papel e colei na minha parede. A foto não é exatamente agradável: é alguém tirando lixo do que imagino ser uma praia. Mas é esteticamente bonita e é isso que importa.

Na parede direita tem três pôsteres que comprei na Cinemateca de Paris. Pois é, bem chique. Eles são as mais novas aquisições da minha pequena exposição. Foi quase perigoso me deixar à solta na lojinha da Cinemateca. Sério, só não comprei todos os livros porque estavam em francês. Na área de posters me deixei dar um leve surto: passei horas indo e voltando entre todos que tinham lá para escolher os melhores. O primeiro que sabia que teria que levar é o de Os Irmãos Cara de Pau porque, para mim, o John Belushi e o Dan Aykroyd são dois dos melhores seres humanos de todos os tempos. Esse pôster era o último que tinha no estoque – me senti muito sortuda.

O segundo que comprei foi de Os Guarda-Chuvas de Amor. Queria de qualquer jeito levar um pôster de um musical do Jacques Demy e estava entre esse e Duas Garotas Românticas (que, para ser honesta, prefiro). Mesmo que ame os dois filmes, a escolha foi de novo baseada unicamente em gosto estético. Mas não poderia sair de lá sem um pôster de um filme francês, né?

O último pôster foi meio que uma compra compulsiva. É um de The Rocky Horror Picture Show. Qualquer pessoa que me conhece sabe como amo esse filme, mas ter um bocão vermelho colado na parede do meu quarto foi, inicialmente, uma ideia que descartei. Não é muito Feng shui, né? Estava pagando pelos outros dois quando decidi que queria sim o de Rocky Horror. Devo ter murmurado algum francês de merda e saí correndo para pegar o pôster. Agora, quando alguém entra no meu quarto, ele é a primeira coisa que se deparam. E quer saber a verdade? Não me arrependo nem por um segundo. 

Agora tem dois últimos detalhes na minha parede. O primeiro é outra coisa que comprei em Paris: um cartão postal com uma foto em preto e branco do Ryan Gosling em Drive. Porque quem vê qualquer coisa com a cara do Ryan Gosling e não compra? Esse aí está bem em cima do pôster de Fleetwood Mac. Prioridades. 

O último detalhe é a coisa mais especial das paredes. É um pequeno pedaço de pano com “e dá a volta por cima” bordado. Antes de falecer, minha mãe dormia com isso colado em cima da sua cama. É uma frase que acho importante escutar – principalmente agora. Dar a volta por cima de todo esse nada, desse sentimento de cativeiro que eu mesma criei dentro da minha cabeça. 

Tinha prometido a mim mesma que não ia acabar esse texto com alguma moral ou mensagem positiva. Acho que é porque meu cérebro não está me deixando ir para esse lado sem me sentir um lixo. Então vou parar por aqui. Até a próxima vez que quiser ler algumas bobagens mentais em prosa ou analisar minuciosamente uma parede.

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