Miley Cyrus: Uma artista atemporal

Do pop ao country, Miley Cyrus pode ser considerada uma das maiores e melhores vozes da atualidade na indústria. Consolidou sua carreira quando ainda era apenas uma adolescente, perdura no auge de seus 29 anos e faz sucesso entre millennials – geração y – e os novos jovens.

Recentemente, a Revista Forbes concedeu a cantora o destaque de pessoas com menos de trinta anos que revolucionam os negócios e transformam o mundo. De acordo com a Billboard, Cyrus foi anteriormente selecionada para fazer parte dessa listagem em 2014, mas foi convidada a retornar devido a uma série de realizações, que incluem: ter seis álbuns na parada dos cinco primeiros na Billboard 200 ao longo dos anos . A Happy Hippie Foundation da cantora, que apoia pessoas LGBTQIA+ e jovens em situação de risco, também foi levada em consideração em sua inclusão, assim como seus investimentos na FanMade e na empresa de produtos femininos Hers.

Ela é uma superestrela global graças à sua passagem como agente dupla na Disney, Hannah Montana, ao passar espetacularmente por algumas das fases mais emocionantes do pop sem seguir uma ‘receita de bolo’. A eliminação do passado, o momento da maioridade (Can’t Be Tamed de 2010); a era controversa do sexo-positivo e do apelo aos tablóides (Bangerz de 2013); a fase de trip-out psicodélica (experimento Her Dead Petz de 2015); o flerte enraizado e autêntico entre cantores e compositores (Younger Now de 2017) – no tempo que alguns artistas levam para lançar alguns singles e por fim a era mais rock n‘ roll da artista (Plastic Hearts de 2020).

Princesa da Disney

Miley representou uma das personagens mais icônicas na história da emissora Disney, Hannah Montana. Em 2006, quando tinha apenas 14 anos, a sitcom foi ao ar, durou quatro temporadas e mostrou a fama e estrelato de uma artista pop que vivia em meio de um grande dilema entre ser Miley Stewart, ao viver sua tranquila vida ao lado da família e amigos; e de ser Hannah Montana, o fenômeno mundial da música.

Nesse mesmo ano, Cyrus lançou seu primeiro CD, Hannah Montana com todas as músicas do seriado, que na época fez um grande sucesso e atingiu o primeiro lugar nas paradas da Billboard 200. Em 2007, estreou um álbum duplo, Hannah Montana 2 e Meet Miley Cyrus, que também alcançaram o #1 na revista semanal.

As músicas sempre mostraram uma evolução muito evidente. Life’s What You Make It é uma canção animada sobre não abaixar a cabeça, não se frustrar e seguir em diante com um sorriso no rosto. A autoajuda era um tema frequente, encontrado em canções como Make Some Noise ou até mesmo o primeiro single, Nobody’s Perfect. Já no segundo disco, que nos apresentaria Miley, o grande destaque fica para I Miss You, dedicada a seu falecido avô.

Em seguida, lançou o segundo álbum, Breakout (2008), que também ficou no topo das paradas, mas acabou que se tornou um período silencioso e sem lançamentos inéditos para a cantora. No ano seguinte, 2009, a Disney exibiu o filme da Hannah Montana, que serviu como uma espécie de ponte entre a segunda e a terceira temporada do seriado, e o lançamento da trilha sonora coincidiu com o lançamento do EP The Time Of Our Lives, que possui grandes sucessos como Party In The U.S.A. e When I Look At You.

A terceira temporada de Hannah Montana ganhou uma trilha sonora, e fez com que, apenas em 2009, Miley tivesse 3 álbuns lançados. Por mais que ela cantasse sobre a “vida dupla” vivida na ficção, era nítido que essa vida existia na realidade. Provavelmente a temporada mais triste da sitcom, onde os assuntos mais sérios eram retratados nas músicas, como em Mixed Up e Don’t Wanna Be Torn. Mesmo que o seriado continuasse um sucesso extremo, as vendas caíram para 1,2 milhões ao redor do mundo.

A partir disso, a fórmula da série começou a se perder e a artista também não parecia mais tão satisfeita com o posto de atriz, em decorrência disso, Hannah Montana foi renovada para uma última temporada, com uma nova casa, uma nova peruca e, principalmente, uma nova sonoridade. Nos álbuns anteriores, o pop e o rock eram os gêneros dominantes, mas nesse final da fase com um clima de despedida, entregou canções com influências eletrônicas e R&B, como I’ll Always Remember You e Ordinary Girl.

Hannah Montana completou 15 anos de estreia em março de 2021 e através das redes sociais, Miley Cyrus prestou uma homenagem sobre a importância da personagem em sua vida. No texto, a artista também relembra a perda de seu avô, que faleceu um mês antes da estreia, agradece seus companheiros de elenco, Emily Osment, Mitchel Musso e Jason Earles, ao dizer que os colegas de elenco viraram uma verdadeira família, que ela via com mais frequência do que sua própria família, e no final fala que a Hannah estará sempre em seu coração.

O perfil da Hannah Montana respondeu a carta da Miley Cyrus, que até então não havia conta da personagem no Twitter, mas ganhou um perfil oficial e verificado, que já foi desativado nos últimos dias. Sua primeira postagem foi um retweet na carta da cantora, que diz: “Muito bom ouvir de você, Miley. Só se passou uma década”, em alusão ao fim do seriado há 10 anos.

Miley mostra toda a importância do alter ego em sua vida: “Teve momentos em minha vida em que você carregou minha identidade em suas luvas do que eu conseguia segurar com minhas mãos quebradas” – escreveu a artista na carta para Hannah, que de acordo com ela se manteve firme ao seu lado durante todos esses anos e que nunca sairá dela, e finalizou com a frase de uma das músicas da série: “Você estará comigo a onde eu estiver!”.

Além disso, a cantora também fez uma festa de comemoração toda temática da Hannah. “Festa de Hannahversário”, escreveu Miley nas redes sociais, que usou um look personalizado inspirado na personagem e com decoração caprichada, com direito a máscaras e até um enorme bolo em formato de guitarra rosa.

A emancipação da cantora

Com a finalização de Hannah Montana, Cyrus lançou em 2010 o álbum de estúdio Can’t Be Tamed, e oficializou a separação da Disney. O trabalho foi diferente dos discos anteriores, que sempre se moldaram ao conservadorismo da companhia, mas na época, Miley estava mais madura e adulta. Além disso, o primeiro single – que leva o nome do álbum – explicita como a artista quer ser livre e fazer o que realmente gosta.

O vídeo apresenta uma Miley enjaulada em exibição de um museu de arte, soa como uma mistura entre I’m a Slave 4 U da Britney Spears e Paparazzi da Lady Gaga, o que exala um resultado surpreendente e talvez um pouco chocante. A cantora parece quebrar um tabu, mas sem a coragem de suas próprias convicções. 

O álbum se encontra em um tipo de limbo, aonde ela quer se dissociar da Hannah Montana, mas não parece ter uma direção. Com isso, a artista experimenta diferentes identidades, como na faixa de abertura Liberty Walk, aposta em um estilo antigo da Gaga, ou nos hinos de amor como Forgiveness and Love e My Heart Beats for Love. A Billboard declarou que ela fracassou como qualquer outra canção de adolescente cujo alcance artístico excede o seu domínio.

Apesar das críticas negativas e do desempenho mais baixo nos charts, o disco foi uma das estratégias mais inteligentes da carreira da cantora. Se ela conquistou espaço entre as grandes pop stars adultas, é porque um dia fez a transição necessária para que isso pudesse acontecer.

Bangerz e a verdadeira Miley

Diferente de Can’t Be Tamed, a era Bangerz mostra uma Miley mais decidida! Três anos atrás no álbum anterior, ela queria que soubessem que se libertava de sua imagem anterior, mas ainda não tinha um plano de backup verdadeiro. Agora, a artista estava igualmente rebelde mas no controle de sua música e imagem ao representar-se de modo único.

O primeiro single do álbum foi We Can’t Stop e era de se esperar que fosse uma música mais dançante e festiva, mas foi inesperado, com uma grande influência dos nomes com quem dividiu o estúdio, apostou em um mid-tempo bem diferente de tudo que já havia lançado e foi fortemente para o lado mais urbano. Não poderia ter sido mais inteligente, a música funcionou como um perfeito chiclete e foi o primeiro smash hit da cantora.

Miley soube manter o buzz ao seu favor. Wrecking Ball foi definida como o segundo single do disco e se não bastasse ser uma das melhores baladas lançadas na época, além de contar com um refrão mais que potente, ganhou um clipe dirigido pelo polêmico Terry Richardson. Afinal, é difícil esquecer a imagem da artista nua em uma bola de destruição.

Assim que o videoclipe foi lançado, choveram artigos com títulos do tipo “Miley Cyrus aparece nua e lambendo marreta em seu novo clipe e isso, por sua vez, despertou o falso conservadorismo de muita gente que achou a situação a coisa mais vulgar do mundo. Talvez, só não mais vulgar que a performance feita por ela semanas antes, no palco do VMA, aonde cantou com o Robin Thicke e dominou o palco com todas as suas ‘maluquices’ e muita sensualidade, de um jeito bem Miley, ao dançar, rebolar, que fez da MTV a sua zona pessoal. 

Desde a primeira faixa, Adore You, Cyrus detalha como andava sua vida no relacionamento com Liam Hemsworth, demonstra amor puro, que começa a passar por festas, curtições e diversões. As primeiras dúvidas e dores chegam no segundo single, traições e mágoas fazem o sofrimento se tornar insuportável, e em FU e Drive, trazem o final do namoro. Maybe You’re Right chega a aceitação e em Someone Else, a artista mostra o que todas as vertentes do relacionamento fizeram com ela.

Bangerz é uma verdadeira bagunça, e mesmo que em uma primeira olhada Miley possa não parecer, ela possui um dos timbres mais belos da música pop, com uma técnica vocal que a deixa superior a muitos artistas com mais extensão e uma criatividade musical, artística e midiática que a deixam sempre um passo a frente dos concorrentes.

Era Malibu

Foram 4 anos de diferença entre o Bangerz e o Younger Now – sem contar com um álbum nesse meio tempo, Miley Cyrus & Her Dead Petz – e não podíamos esperar que a Miley continuasse a mesma. O álbum de 2017 surpreendeu todos, não pelos mesmos motivos de Can’t Be Tamed e Bangerz, mas pela volta da cantora para uma era mais clean.

Younger Now ficou marcada por alguns acontecimentos em sua vida pessoal: a volta do relacionamento com Liam, sua decisão de parar de fumar maconha e o retorno para a música country. No primeiro single, Malibu, ela corre pelo campo e pela praia, segura balões coloridos e rola no chão abraçada com cachorrinhos.

Essa fase traz um ritmo folk e vibrante, muito mais próximo do country de suas raízes em Nashville do que do pop frenético das obras anteriores. Além disso, o visual da cantora é etéreo e ao mesmo tempo despojado, com pouca ou nenhuma maquiagem e raízes do cabelo bastante aparentes.

Diante toda confusão causada na época, Miley disse à revista Harper’s Bazaar: “Eu só quero que as pessoas vejam que essa sou eu agora. Não estou dizendo que não vinha sendo eu mesma. É só que eu tenho sido muitas pessoas, porque eu mudo muito. Ouço muitos comentários do tipo ‘queremos a Miley de volta’, mas você não pode me dizer quem é essa. Eu estou bem aqui”.

Entretanto, talvez a Cyrus de 2020 não concordaria tanto com a de 2017, já que a cantora afirmou que esse período de Younger Now é o único momento na carreira dela que não faz sentido: “Quando eu olho pela minha carreira, há um período de dois anos que realmente não faz sentido. Você provavelmente deve saber que isso aconteceu na era ‘Younger Now’, de ‘Malibu’. Eu acho que isso aconteceu, e acontece com muita gente, porque às vezes a gente se perde em outra pessoa”.

Um legado para a vida toda

Com o lançamento de Midnight Sky, o primeiro single do álbum Plastic Hearts, em agosto de 2020, o público foi capaz de enxergar a Miley com outros olhos. Obviamente mais adulta, com seus 27 anos, mas de uma forma mais madura e bem diferente do que ela apresentou no Bangerz em 2013, que fez o mundo parar de vê-la como uma estrela teen pela primeira vez.

Muitas piadas foram feitas nos últimos anos sobre ela ter ‘diversas personalidades’ em seus álbuns, ao explorar, por exemplo, o country no Younger Now, e um experimental que nem todo mundo entendeu direito no Miley Cyrus & Her Dead Petz. Mas a mistura do disco retrô com o vocal mais rock de Midnight Sky criou a expectativa de que teríamos uma verdadeira estrela do rock.

Ao longo dos últimos quase 15 anos, a cantora sempre fez questão de expressar seu amor pelo gênero: em todas as suas turnês colocava pelo menos um cover de grandes clássicos como I Love Rock ‘n’ Roll, de Joan JettCherry Bomb do The Runaways e até Landslide, do Fleetwood Mac, além de ter em seu álbum Can’t Be Tamed uma versão de Every Rose Has Its Thorn, do Poison. O novo álbum também possui dois covers que seguem o mesmo estilo, Heart of Glass, do Blondie, e Zombie, do The Cranberries.

Na abertura com WTF Do I Know, a guitarra proeminente no refrão e na ponte dão o tom – apesar de não definir o som – do que podemos esperar das próximas faixas. Enquanto as já conhecidas Midnight Sky e Prisoner, com Dua Lipa, trazem uma sonoridade um pouco mais disco e de sintetizadores oitentistas, faixas como Angels Like You e Never Be Me mostram não só um lado diferente musicalmente, mais lentas e focadas nos vocais, mas letras vulneráveis sobre sua dificuldade em ser uma pessoa confiável e leal em seus relacionamentos.

Além de Dua, Miley traz outras três participações mais do que especiais no álbum: Joan Jett em Bad Karma e Billy Idol em Night Crawling, dessa vez explorou os elementos de um bom rock clássico, nostálgico, mas inédito na medida certa, e Stevie Nicks, do Fleetwood Mac, em um remix de Midnight Sky com Edge of Seventeen.

Mas se engana quem acha que nessa obra recente, ela deixou suas outras facetas de lado. High, por exemplo, explora suas raízes country e lembra um pouco de seu trabalho no Younger Now, enquanto a produção mais diferente de Golden G String poderia ter saído direto do controverso Dead Petz.

Nas letras, Cyrus explora principalmente sua liberdade e fala sobre querer estar com uma pessoa por vontade e não por necessidade. Um tema interessante quando lembramos que em 2019 ela terminou seu relacionamento vai e volta de quase 10 anos com Liam Hemsworth apenas alguns meses depois de se casarem.

E se a Miley adolescente de G.N.O. cantava “vou dançar com outras pessoas e não quero pensar em você”, a artista 13 anos mais velha mostra que sua essência não mudou tanto quanto as pessoas imaginam, já que em Gimme What I Want canta: “Me dê o que eu quero ou eu darei para mim mesma”.

Por mais que Plastic Hearts surpreenda com a versatilidade das 12 faixas, é um álbum que não deveria existir. Em novembro de 2018, a casa de LA que Cyrus compartilhava com Liam foi destruída por um incêndio. Seis meses depois, em maio de 2019, a artista lançou um EP, She Is Coming, considerado o primeiro de uma série de EP de três partes. No final do ano, no entanto, ela e Hemsworth se divorciaram e as canções restantes foram consideradas perdidas no incêndio ou sucateadas, o assunto não era mais relevante.

“Bem quando eu pensei que o corpo do trabalho estava concluído, estava TODO apagado”, Miley publicou no Instagram quando anunciou Plastic Hearts: “A natureza fez o que agora vejo como um favor e destruiu o que eu não pude deixar para mim. Perdi minha casa em um incêndio, mas me vi nas cinzas”.

Miley Cyrus tem gerido a carreira de modo a sempre se recriar e faz com que sua marca pessoal e plataforma cresçam continuamente. De princesa da Disney e estrela adolescente à desconstrução e exploração de novas identidades, ela realizou mais transformações do que a maioria dos donos de negócios ousam fazer. É claro que nada é garantido e que experimentar é tomar riscos, e ela é tão conhecida pelas falhas quanto pelos acertos.

Ela é lembrada por contestar regras, ajudar pessoas em situação de rua, apoiar a comunidade LGBTQIA+ e levantar questões de gênero, mesmo quando as pessoas não entendem isso. Cyrus criou um espaço para a sua música e deixa uma mensagem para a indústria de que pode fazer qualquer coisa, se redescobrir, seja como pessoa, trabalhadora, ou em qualquer relacionamento. Miley, mais do que nunca, vive isso ao máximo, e por isso é uma grande estrela ainda em ascensão.

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