Por Trás do DNA: Ludovic de Saint Sernin

São raros os novos designers que conseguem em pouco tempo firmar uma identidade de marca madura e capaz de penetrar o imaginário do público e da moda. Entretanto, esta parece ser uma tarefa fácil para Ludovic de Saint Sernin, de marca homônima, que em pouquíssimo tempo já conquistou críticos aclamados da indústria e vestiu celebridades que vão desde Manu Rios até Bruna Marquezine. 

Finalista do prêmio LVMH de 2018 – que na época ele havia desfilado apenas 2 coleções – e vencedor do ANDAM prize do mesmo ano, Ludovic possui um trabalho que dialoga sobre o feminino a partir do masculino, criando roupas agênero que são pensadas na contramão do que a indústria sempre acompanhou: as peças são criadas com claras referências ao vestuário feminino, porém adaptadas ao masculino de maneira chic e provocadora. 

Retrato de Ludovic De Saint Sernin pelo site Business Of Fashion.

A elegância e a delicadeza de seu trabalho são capazes de camuflar o choque que muitas vezes o seu design causa, construindo assim imagens potentes que rompem com o binarismo de gênero da maneira menos caricata e tradicional possível: fugindo dos vestidos e das saias midi de alfaiataria plissada e adotando mini saias e cuecas slip bordadas por inteiro em cristais swarovskis, além de modelagens justas que fogem do clássico oversized muitas vezes associado ao agênero. 

História

Nascido em Bruxelas e criado na Costa do Marfim, Ludovic se mudou para a França com oito anos de idade. Já naquela época Ludovic adorava desenhar, mas a profissão de designer era algo ainda distante tendo em vista a carreira de seus parentes, que seguiram na área de direito e política.

Mas, mesmo assim, Ludovic decidiu legitimar a sua paixão e se formou em Design de Moda pela prestigiada Duperré Paris. Foi durante a faculdade que ele trabalhou para marcas como Dior e Saint Laurent, até enfim chegar à Balmain, onde ele ficou até 2016. 

Na Balmain, Ludovic era responsável pela área de pesquisa têxtil e de aviamentos e ornamentações, o que o aproximou do mundo da alta costura e possibilitou o desenvolvimento de uma linguagem detalhista e preciosamente rica que ele mais tarde incorporaria em sua marca homônima.

Ao perceber os rumos estéticos que a Balmain estava tomando e por não se identificar com esses, Ludovic deixou a casa em 2016 para fundar a sua própria marca. Mas engana-se quem pensa que a saída de Ludovic significou o rompimento total com a maison –  Olivier Rousteing, diretor criativo a frente da casa desde 2011, está sempre na primeira fila de todos os desfiles de Ludovic e não poupa elogios ao colega: “Ele é extremamente talentoso, extremamente generoso e extremamente humilde. Um trabalhador duro que atinge ótimos resultados. Eu admirava a sua vontade e sua habilidade de criar e esquecer as horas.”

Coleções e criações

A primeira coleção da marca, apresentada em Janeiro de 2018,  possui caráter experimental e apresenta diversos testes de modelagens e adornos que futuramente se tornaram assinaturas clássicas da label. Os recortes no centro-frente das cuecas e calças aparecem conectados por botões de pressão, dando assim os primeiros sinais da  icônica amarração em cadarço que viria a aparecer em futuras coleções. O mesmo acontece com as blusas-regata feitas a partir de recortes de couro e anéis de metal, que criam um visual à la Paco Rabanne e revelam uma modelagem mais “soltinha“, que mais adiante é atingida através do uso de malhas metálicas.

Imagem retiradas do Vogue Runway.
Imagem retiradas do Vogue Runway.

É a partir da segunda coleção apresentada por Ludovic que já vemos sinais da Ludovic de Saint Sernin que conhecemos hoje. Isso é um fato admirável, já que muitas vezes um designer necessita de 4, 5 ou 6 coleções para estabelecer a sua estética e encontrar a própria voz.

As famosas calças e cuecas com amarrações frontais e laterais em cadarço surgem, inspiradas em ninguém menos que Christina Aguilera – mais precisamente em seu look usado na capa do álbum “Stripped”. Essas são peças especialmente importantes para a label, já que se tornaram hits de venda da marca e acompanham todas as coleções desfiladas até então. O conjuntinho-pijama em linho é também introduzido nessa apresentação, juntamente com as peças adornadas com ilhós em metal e as bolsas em formato de sacolinha mini. 

Outro fator importante é o casting, que dessa vez inclui mulheres desfilando com peças feitas especialmente para elas, como os tops com a famosa amarração de cadarço. Ludovic sempre deixou claro que sua marca vestia todos – mesmo com apenas meninos desfilando na primeira coleção – mas com a inserção de mulheres no casting ele passa a desenvolver peças especialmente para essas.

Imagens retiradas do Vogue Runway
Imagens retiradas do Vogue Runway.

O que é interessante notar é que o número de modelos mulheres desfilando é sempre menor do que o número de homens em todas as suas apresentações, o que revela e confirma o fato da marca ter seus pilares fincados no vestuário masculino, independentemente da “feminilidade” das peças.

É na estação seguinte, a de outono 2019, que Ludovic atinge a maturidade estética que conhecemos hoje e finca a marca de vez no mood sexy-glam-minimal-chic que tanto amamos. A coleção é a mais “limpa” desde as duas primeiras apresentadas pelo estilista e carrega modelagens e conceitos que são explorados e revividos de maneira constante em futuras coleções.

É dela que saem as primeiras peças em cristais, que aparecem em um vestido de correntes vestido pela modelo Teddy Quinlivan e também em regatas e tops de malha metálica, além, é claro, da icônica cueca slip totalmente coberta em swarovskis, que se tornou um momento viral no Instagram. Sobre a coleção, Ludovic declarou: “Essa é a hora dos meninos terem seu movimento glam também, além, é claro, da liberdade de usarem o que quiserem!”

Imagens retiradas do Vogue Runway.
Imagens retiradas do Vogue Runway.

O glam passa então a estar presente nas coleções da marca através principalmente do uso de cristais e malhas metálicas. O ápice do uso desses materiais é a recente coleção de outono 2021, composta principalmente por tops e saias super brilhosos. O mais interessante é a maneira como Ludovic se apropria dessas matérias primas, que são comumente associadas ao vestuário feminino, e cria imagens delicadas e extremamente potentes ao mesmo tempo.

Fotos promocionais da marca.

Os momentos virais da marca também continuam, e é na temporada de primavera 2020 que a famosa saia-toalha é desfilada – gerando diversos memes entre a comunidade fashion e levando a internet à loucura. Este é um desfile muito importante para a label, já que marca a entrada oficial da Ludovic De Saint Sernin na semana de moda masculina – com a bênção de Rick Owens e Olivier Rousteing sentados na primeira fila. A tão falada toalha não se passava de um tricô confeccionado com materiais nobres, o que revela uma certa herança da época de Balmain do estilista. 

Podemos observar também na coleção de primavera 2020 o uso da bandagem em tops masculinos, algo que vem desde a temporada anterior e permanece até a primavera de 2021. O trabalho com bandagem é uma homenagem de Ludovic ao estilista Hervé Léger, internacionalmente conhecido por seus vestidos no mesmo material que moldam o corpo e as curvas das mulheres. O uso de bandagem talvez seja o aspecto do trabalho de Ludovic que mais represente a sua essência: ele foi capaz de transformar os modelos ultra sexy e femininos de Leger, vestidos nos anos 90 por supermodelos como Cindy Crawford, sinônimo de sex appeal, em peças masculinas extremamente interessantes e disruptivas.

Imagens retiradas do Vogue Runway.
Imagens retiradas do Vogue Runway.

Entre looks icônicos e diversos momentos de pura sex energy nas passarelas, Ludovic De Saint Sernin apresentou sua última coleção em outubro deste ano – com direito a Bruna Marquezine na primeira fileira, vestindo total look Ludovic de Saint Sernin outono 2021.

A coleção, que é a oitava apresentada pelo estilista, impressiona pelo trabalho artesanal de algumas peça também chamam a atenção os vestidos em cristais, que aparecem tanto no formato rede de peixe quanto em malhas metálicas. O visual é completamente sexy e chic, assim como tudo que Ludovic cria sem tiras de couro, que aparecem em versões tanto para homens quanto para mulheres: mais Ludovic, impossível.

Também tivemos a presença de conjuntos de linho — material pouco usado pelo estilista até hoje — com um afastamento do ”tecido de praia” para cortes sexy a lá Xtina, confirmando a identidade visual da marca. Em suma, a coleção traduz com maestria o DNA da marca.

Imagens retiradas do Vogue Runway.
Imagens retiradas do Vogue Runway.
Imagens retiradas do Vogue Runway.

Heranças

É normal encontrarmos heranças de estilistas e marcas da vanguarda no trabalho de novos talentos. É interessante pensar os reflexos destes no agora, e como o legado deixado por tais nomes pode ter pavimentado o caminho para novos criativos da indústria surgirem e novas estéticas proliferarem.

No caso de Ludovic, percebemos heranças do já citado Hervé Leger, mas há algo maior que é intrínseco no seu trabalho e na filosofia de sua marca que diz respeito ao jogo masculino X feminino — algo que herda referências de nomes como Helmut Lang e Jean Paul Gaultier, além da marca de Lingerie masculina Shirtology, popular em Paris nos anos 90.

O famoso minimalismo de Lang aparece nas cartelas e nos recortes estratégicos de Ludovic, revelando um equilíbrio estético potente entre o sexy e o casual. É interessantíssima a maneira como Ludovic consegue fazer do loungewear algo chic e elegante mesmo utilizando cores sóbrias — algo que ele alcança justamente através das fendas e da modelagem justa das peças.

A ideia de brincar com o diálogo entre masculino e feminino é algo que Jean Paul Gaultier costumava fazer muito nos anos de 1990. A diferença entre ele e Ludovic é que o primeiro buscava estilizar o homem a partir de trajes femininos já prontos, enquanto o segundo adaptou a linguagem feminina para o vestuário do homem — produzindo assim peças esteticamente novas e visualmente mais interessantes.

Conseguimos também observar heranças da marca parisiense Shirtology no trabalho do designer. A label, que ficou popular principalmente entre a comunidade gay nos anos 90, pode ser considerada precursora das cuecas slips criativas e do loungewear que Ludovic desfila hoje. A grande diferença é a maneira como Ludovic trabalha o sexy (elevando-o à máxima elegância) e, é claro, o seu casting.

Helmut Lang X Ludovic De Saint Sernin. Imagens retiradas dos arquivos da marca e Vogue Runway.
Shirtology X Ludovic De Saint Sernin. Imagens retiradas do arquivo da marca e Vogue Runway.

Comunidade

Não somente a maturidade estética e o firmamento de uma identidade de marca potente — adquiridas em tão pouco tempo — impressionam no trabalho de Ludovic. Com praticamente três anos e meio de história, a Ludovic de Saint Sernin já foi capaz de construir uma comunidade em torno da marca, composta por clientes que não só compram como traduzem a estética e o lifestyle da label, engajando a etiqueta no Instagram através de fotos autorais.

Tudo isso começou em 2018, logo após Ludovic se assumir gay. Na época ele criou o perfil @ludovidesaintserninX no Instagram, em referência ao famoso portfólio “X” do fotógrafo Robert Maplethorpe, com o intuito de postar uma curadoria de imagens que celebram sexo, amor e liberdade.

Mas tudo mudou em 2019, logo após a sua estreia na semana de moda masculina de Paris. Lembra do icônico look-toalha que gerou diversos memes entre a comunidade fashion? Ludovic começou a receber em suas DMs fotos de homens recriando o look em casa com suas próprias toalhas — pronto, nascia aí o #ludovicdesaintserninXchallenge.

Colagem de fotos que estavam disponíveis no Instagram @ludovidesaintserninX.

Com temas dos mais variados, que vão desde fotos na praia até cliques em edredons brancos, os seguidores do perfil são convidados a submeter suas fotos autorais para o desafio. Essa brincadeira acabou gerando um buzz enorme para a label, e estima-se que o engajamento da marca tenha crescido exponencialmente de maio do ano passado até abril deste ano, elevando a etiqueta em 36% na lista de performance em mídias sociais da Luxury Fashion EMV Index.

A conta, entretanto, encontra-se atualmente suspensa pelo Instagram, que considera o conteúdo — que celebra a liberdade sexual e o amor — “impróprio”.

Pandemia

Se para a maioria dos designers e marcas a pandemia impactou os negócios negativamente, com Ludovic aconteceu, surpreendentemente, o contrário. Em entrevista à Vogue, ele revelou: “[a pandemia] Impactou nossos negócios da melhor maneira possível. Nós tomamos conta de tudo; literalmente fotografamos toda a coleção na minha casa pelo meu Iphone, no meu namorado, e vendeu muito bem. Esse foi o ponto de partida para a coleção de primavera 2021; agradecer a minha comunidade por basicamente salvar a marca de encerrar as atividades. Eles realmente nos inspiraram a seguir fortes.”

Não é preciso mencionar novamente o quanto a maturidade dessa marca de três anos e meio impressiona. Ludovic possui o combo completo: identidade, assinaturas clássicas, designs potentes, talento e uma comunidade engajada. O que o aguarda no futuro? Uma colaboração com o PornHub, a maior plataforma de filmes pornôs gratuitos do mundo e que possui uma audiência diária de 22 milhões de pessoas. 

Se sexo foi o tema que mais apareceu na última semana de moda e é algo intrínseco no DNA da marca, não há a menor dúvida de que a coleção será mais um sucesso da label. Esse é, definitivamente, o match perfeito.

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