Como será o final do ano para os brasileiros que perderam entes queridos para a Covid-19?

Ninguém sabe a resposta. Aliás, parte da “naturalização” dos mais de 600.000 mortos pela doença, são mais que um gatilho para a população, ainda mais para aqueles que perderam amigos e família.

O caloroso retorno das atividades presenciais — o famoso “novo normal”, não aquece o suficiente os corações dos familiares das vítimas. A estudante de psicologia, Julia Bonomo, destrincha este processo e diz que, primeiramente, é preciso que o luto seja vivido e não reprimido.

“Não é saudável esconder certos tipos de sentimentos, eles precisam ser externados, além disso, o luto é um processo necessário que aflora o amadurecimento e autoconhecimento. A psiquiatra suíço-americana Elisabeth Kübler-Ross em seu livro “Sobre a Morte e o Morrer” de 1969, descreve cinco estágios do luto, são eles:

1o – negação
2o – raiva.
3o – barganha
4o – depressão
5o – aceitação”

Julia ainda ressalta: “Apesar de cada indivíduo ter seu tempo de viver o luto, ele tem inicio meio e fim, se o processo da depressão se prolongar e não chegar o estágio da aceitação ou houver muita dificuldade de se adaptar a nova realidade é importante buscar ajuda psicológica. Esse estado é chamado luto patológico, ele ignora todas as etapas que necessitam ser vividas, nele o processo de luto não termina e isso acaba interferindo negativamente na vida e nas atividades diárias da pessoa.”

Para Butler, as diferentes formas de viver o luto também demonstram as desigualdades sociais — enquanto algumas pessoas têm amplo direito de serem enlutadas, outras não o têm e, por isso, as suas mortes seriam mais naturalizadas.

É possível pensar que a morte de uma pessoa não é somente um acontecimento clínico, mas também algo que diz respeito à política e à ética, já que o modo de tratar essas perdas varia a depender de quem morreu, diz Carla Rodrigues, professora de Filosofia na UFRJ ao Estadão.

O luto no contexto da Covid ainda traz uma peculiaridade que, para a mesma, se assemelha à de uma situação de guerra. A experiência de perder sucessivamente um ou diversos entes queridos, como aconteceu com algumas famílias, gera situações muito específicas e diferentes do normal.

Luiz Carlos Azedo, jornalista do Correio Braziliense, em sua coluna relata que, o luto ocorre porque a perda física do ente querido não elimina o afeto. É uma ausência de difícil aceitação no tempo em que ocorre, porque o amor sobrevive. Isso gera uma negação, que se manifesta de forma silenciosa, muitas vezes, como fuga da realidade; num segundo momento, vem a revolta, muitas vezes inconsciente e inexplicável. Leva tempo para que as pessoas superem a depressão subsequentemente e aceitem a perda, para que a vida plena se restabeleça. Mas não existe esquecimento. Aceitar não é deixar de sentir. O luto se torna um marco na vida pessoal. A resiliência diante da morte também gera simpatia ou engajamento em movimentos que sejam antítese da sua causa. Na pandemia, a naturalização das mortes pode ser também uma fase de um luto coletivo. Muito mais amplo e profundo.

A entrevistada, Julia Bonomo, sugere algumas maneiras saudáveis de lidar com o luto.
• Não se cobre pelo tempo tirado para viver o luto, dê tempo a si mesmo
• Ignorar a dor pode trazer consequências piores no futuro, portanto não menospreze
seus sentimentos
• Se ocasionalmente você se sentir confortável, passe seu tempo com amigos e familiares, caso contrário, não há problema em se distanciar um pouco e garantir sua privacidade. Mas nunca deixe, mesmo que aos poucos, de tentar voltar a rotina, procure hobbies novos, se exercite e ocupe sua mente com coisas que goste.

Na pandemia, a AVICO Brasil foi criada, para dar apoio emocional às pessoas que ainda
não conseguem sair do luto.

“Alguns desejam apenas compartilhar a dor enquanto outros pedem apoio para lutar judicialmente por direitos — seja porque perderam seus empregos após curar-se da doença, por não conseguirem provar suas sequelas para alcançar uma licença pelo INSS ou porque perderam parentes que eram as principais fontes de renda e que agora correm até risco de despejo por não conseguirem pagar o financiamento de casa”, diz Paola, assistente social em entrevista ao El País.

“A associação foi fundada em 08 de abril de 2021, na cidade de Porto Alegre/RS, a partir da indignação de dois defensores dos Direitos Humanos, Gustavo Bernardes e Paola Falceta, com a ineficiência e negligência do Estado diante das múltiplas consequências da pandemia de covid-19 na vida dos brasileiros.

Promover debates e discussões sobre o enfrentamento à pandemia da Covid-19 e suas consequências físicas e emocionais; Promover e defender a saúde pública, o Sistema Único de Saúde (SUS) e o Sistema Único de Assistência Social (SUAS); Promover e defender a Política Nacional de Imunização (PNI); Apoiar a pesquisa e o desenvolvimento de ações de enfrentamento a Covid-19; Promover o apoio jurídico e psicossocial para as vítimas (sobreviventes) e familiares de vítimas da Covid-19, através dos grupos de apoio”, segundo a história da empresa, disponível no site.

Por fim, para Mariel Corrêa de Oliveira, os atravessamentos causados pela pandemia podem implicar diretamente nos mediadores do luto podendo interferir de forma negativa nas tarefas do mesmo, trazendo assim implicações para a saúde mental dos indivíduos enlutados e a atenção primária à saúde, por sua atuação territorial, bem como por suas características essenciais de acesso aberto e cuidado longitudinal. Considerando que nesse
contexto aumentam suas possibilidades, entendendo esse luto como um processo mais intenso e duradouro, pois “em pandemia temos o processo de luto sofrendo atravessamentos, com desdobramentos que potencializam o risco de agravar os sofrimentos psíquicos individuais e coletivos” (Fiocruz, 2020, p.2).

[…] Entender que todos estamos vivenciando um luto coletivo e como podemos agir com respeito aos nossos próprios sentimentos e com a dor do outro é de extrema importância para que possamos enfrentar melhor o sofrimento que a pandemia vem produzindo, como o luto abordado neste ensaio.

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