[Crítica] Matrix Resurrections: um apelo pela nostalgia

ALERTA DE SPOILER

A quarta e mais recente sequência da franquia de filmes Matrix, teve sua estreia mundial nos cinemas na última quarta (22). Keanu Reeves e Carrie-Anne Moss reprisam seus papéis icônicos como Neo e Trinity, além de haverem novas adições ao elenco compostas por Jonathan Groff, Christina Ricci, Neil Patrick Harris, entre outros. Em 1999, as irmãs Lilly e Lana Wachowski impactaram o gênero de ficção cientifica com o lançamento de Matrix. Recebendo excelente resposta de críticos, particularmente no que diz respeito aos efeitos visuais e cenas de ação, o filme conta uma história que, por si só, não é original, mas a forma inovadora como foi contada encantou a audiência de final do século 20, que via o mundo tecnológico evoluir cada vez mais rapidamente.

A história se passa vinte anos após os eventos da última sequência da franquia: Matrix Revolutions (2003). Neo vive sob a sua identidade original como Thomas A. Anderson em São Francisco e tem um terapeuta que o prescreve pílulas azuis para tratar visões anormais que ele tem ocasionalmente. Até que uma nova versão de Morpheus (Laurence Fishburne) o oferece mais uma vez a oportunidade de seguir o “Coelho Branco” e abrir a sua mente para a verdadeira realidade que gira em torno dele. Sem conseguir superar o original de 1999, mas ainda melhor avaliado do que o seu antecessor, o filme tem até o momento avaliação de 68% Rotten Tomatoes.

Confira o trailer:

Recapitulando…

Matrix (1999)

Neo vive uma vida dupla dentro do Matrix. Como Thomas A. Anderson ele segue as regras, cumpre as leis e paga seus impostos, mas como o hacker Neo ele é um criminoso virtual à procura de uma verdade que ele não sabe se existe, mas que o incomoda profundamente. Quando entra em contato com Morpheus que lhe apresenta a oportunidade de escolher como seguirá o seu caminho, tudo muda. Tomando a pílula azul, ele não se recordará de tê-lo conhecido e seguirá sua vida em ignorância, como se nada tivesse acontecido. Por outro lado, se ele escolher tomar a vermelha, a verdade sobre o Matrix será revelada.

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[Imagem: Reprodução/Warner Bros.]

Seguindo a segunda opção, Neo se depara com um futuro distópico onde centenas de humanos estão conectados a máquinas sem a sua consciência; ele é resgatado por Morpheus e sua equipe, e abordo do Nebuchadnezzar ajudam ele na sua reabilitação e a entender o que é essa nova realidade.

O Matrix é controlado por uma nova raça, uma evolução da Inteligência Artificial desenvolvida pelos seres humanos no início do século 21, mas que cresceu para além dos seus criadores. Quando se trava uma guerra entre ambas as raças, os humanos decidem queimar o céu, como uma tentativa de impedir o funcionamento das máquinas que são movidas à luz solar. 

Morpheus narrando esses acontecimentos para Neo, enaltece a ironia que está no fato de a humanidade, historicamente, necessitar de máquinas e novas tecnologias para sobreviver, uma vez que a própria humanidade agora está sendo usada como combustível de energia para as máquinas. Portanto, o Matrix é uma realidade falsa criada para manter a humanidade complacente com a sua posição de escrava neste novo mundo. Atualmente só resta um lugar inteiramente humano: Zion, que segundo um dos tripulantes do aerobarco Nebuchadnezzar é “a última cidade humana, o único lugar que nos restou”.

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[Imagem: Reprodução/Warner Bros.]

Morpheus acorda Neo por acreditar que ele é o Escolhido, que segundo a Oráculo (Gloria Foster), irá retornar para acabar com a guerra, destruir o Matrix e libertar a todos. O filme original da franquia se resume na jornada de herói de Neo, que lutando contra o Agente Smith (Hugo Weaving), reconhece o seu poder e seu papel como salvador da humanidade.

Matrix Reloaded (2003)

A continuação Matrix Reloaded, também escrito e dirigido pelas irmãs Wachowski, avança 6 meses na história de Neo, ele e Trinity são agora oficialmente um casal e continuam trabalhando ao lado de Morpheus e Link (Harold Perrineau Jr.), fica claro também que nos últimos 6 meses, com o auxílio do Escolhido eles libertaram mais pessoas do Matrix do que haviam conseguiram em anos. 

A pedido da capitã Niobe (Jada Pinkett Smith), o Nebuchadnezzar vai a Zion para uma reunião emergencial onde são informados do ataque de Sentinelas à cidade previsto em 72 horas, por conta disso o Comandante Lock (Harry Lennix) manda todos os barcos retornarem a Zion para se prepararem. Contra a vontade de Lock, Morpheus retorna ao Matrix para Neo poder encontrar a Oráculo. Enquanto isso Bane (Ian Bliss), um dos tripulantes do Caduceus, ainda dentro do Matrix, encontra o Agente Smith que toma conta do seu corpo e retorna ao mundo real. Depois de conversar com a Oráculo, Neo planeja ir a Fonte do Matrix, mas para isso precisa da ajuda do Chaveiro (Randall Duk Kim) que é prisioneiro na casa do programa Merovingian (Lambert Wilson).

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[Imagem: Reprodução/Warner Bros.]

Após inúmeras cenas de ação contra os aliados do Merovingian, eles conseguem libetar o Chaveiro e quando Neo finalmente consegue chegar à Fonte ele conhece o Arquiteto (Helmut Bakaitis), o criador do Matrix que revela que o Escolhido é na realidade uma anomalia criada para manter o controle dos seres humanos que se revoltam ao programa; já existiram 6 versões do Matrix e também 6 versões do Escolhido. Em todas elas o Escolhido é quem, segundo a Profecia, irá destruir o Matrix e libertar a humanidade, mas o Escolhido na verdade vai até a Fonte e lá deve escolher 16 mulheres e 7 homens para repopular Zion depois da sua destruição.

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[Imagem: Reprodução/Warner Bros.]

Em Matrix Reloaded, o protagonista tem presságios frequentes sobre a possível morte de Trinity, isso motiva Neo a fazer escolhas com base na emoção e não na razão. É exatamente isso que acontece quando o Arquiteto o faz escolher entre repopular Zion, ou salvar Trinity e o herói opta pela segunda opção. No retorno para o navio, Neo confessa a falha na Profecia e avisa que eles têm 24 horas para se preparar para a destruição da última cidade humana. 

Já no mundo real quando o Nebuchadnezzar é atacado e destruído pelos Sentinelas, Neo salva os companheiros e simultaneamente descobre uma nova habilidade, mas o esforço faz com que ele desmaie. Quando vemos ele novamente ele está em uma maca, abordo do barco Hammer, junto do corpo de Bane, que segundo os tripulantes foi o único sobrevivente encontrado no Caduceus, depois do massacre que aconteceu em Zion.

Matrix Revolutions (2003)

Seguindo imediatamente os acontecimentos do anterior, Matrix Revolutions começa com Morpheus procurando Neo dentro do Matrix pois seus sinais vitais não correspondem com o de uma pessoa em coma, mas sim os de uma pessoa conectada. Na verdade, Neo está preso em um tipo de limbo entre o Matrix e o mainframe, na estação de trem “Mobil Avenue”, onde ele conhece Sati (Tanveer K. Atwal) e sua família e o programa que controla a estação chamado Guarda-Freios (Bruce Spence), leal apenas ao Merovingian e por conta disso não deixa o protagonista sair de lá. Ao descobrir isso, com a ajuda da Oráculo (Mary Alice), Morpheus e Trinity vão atrás do Guarda-Freios que escapa, sem muita paciência eles vão até o Merovingian a mão armada obrigá-lo a soltar o Neo.

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[Imagem: Reprodução/Warner Bros.]

Com novas premonições sobre a Cidade das Máquinas, Neo conversa com a Oráculo que explica que uma conexão entre ele e a Fonte foi formada depois que ele foi a Fonte, e por conta disso ele tem suas habilidades dentro e fora do Matrix. Além disso ela deixa claro que Neo e o Agente Smith são dois lados da mesma moeda e que Smith está ficando cada vez mais forte e isso pode acabar destruindo, além do Matrix, a Fonte e a Cidade das Máquinas. 

Na sequência, Niobe permite que Neo e Trinity usem o Logos para ir até a Cidade das Maquinas, enquanto o resto da tripulação tenta retornar para a guerra em Zion. Antes de partirem o casal é emboscado por Smith no corpo de Bane, que cega Neo, mas acaba morrendo. Chegando na cidade o Logos tem problemas na aterrisagem que acabam matando Trinity e obrigando Neo a seguir sozinho.

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[Imagem: Reprodução/Warner Bros.]

Neo conhece Deus Ex-Machina, uma personificação das máquinas, e tenta negociar a paz. Ele avisa que o Smith está muito poderoso e cada vez mais fora de controle, mas que ele pode impedir que Smith destrua tudo desde que Deus Ex-Machina garanta o fim da guerra em Zion. As máquinas param de atacar enquanto Neo entra no Matrix para confrontar Smith. Eles lutam enquanto diversas versões do agente assistem e por um instante quando Neo parece estar derrotado, Smith comemora e possui o corpo do herói que se torna mais uma versão do antagonista e que confirma que finalmente tudo acabou, com um sorriso no rosto. Porém no mundo real o corpo de Neo sofre espasmos, quando absorve uma onda de energia a partir da conexão com o Matrix e, a começar pela mais nova versão do agente, todos os Smiths são destruídos de dentro para fora.

Sacrificando-se pela causa, Neo alcança o objetivo final do Escolhido; todos possuídos pelo agente dentro do Matrix voltam ao normal, em Zion os Sentinelas se afastam sinalizando o fim da guerra. Nos últimos instantes do filme, em conversa com a Oráculo o Arquiteto confirma que todos os humanos serão libertos.

Matrix Resurrections (2021)

Como é possível criar uma sequência de uma trilogia que aparenta estar completamente finalizada? 

O filme reorganiza os acontecimentos dos três últimos filmes e os justifica dizendo que compõem uma trilogia de games hiper realista criada pelo renomado designer de games Thomas Anderson. Dentro do Matrix, apesar de ter uma vida comum e confortável, Anderson precisa da ajuda do seu analista que prescreve pílulas azuis para lidar com as suas visões frequentes nas quais ele acredita ser Neo, o protagonista do seu jogo. Enquanto isso novos personagens são introduzidos quando Bugs (Jessica Henwick) encontra uma encarnação de Morpheus (Yahya Abdul-Mateen) e eles, junto da tripulação do Mnemosyne libertam Neo do Matrix, a partir daí eles descobrem que Trinity segue viva e presa ao Matrix e tentam resgatá-la também.

Matrix Resurrections não é nada além do que promete ser: uma adaptação de um universo já conhecido e amado para audiências de séc. XXI. Durante os 30 primeiros minutos do filme cenas da trilogia original recortam o novo enredo, uma maneira de pontuar semelhanças e de deixar claro para a audiência que o que aconteceu anteriormente não está sendo esquecido ou deixado de lado. Aliás o filme em si cresce muito pouco para além da sua origem, sendo um longa genérico de ação com uma narrativa extremamente humilde.

[Imagem: Reprodução/Warner Bros.]

Um ponto alto desse filme é que ele não se leva a sério como seus antecessores, inserindo um humor bem-vindo e confortante em tema com potencial para se tornar denso sobre a ambiguidade na coexistência entre a raça humana e digital. Ambiguidade na coexistência? Mas eles não passaram três filmes em guerra, e Neo teve que se sacrificar justamente para libertar a humanidade da sua escravidão? Pois é, de repente Lana tenta nos convencer que a melhor alternativa sempre foi se unir às máquinas por que só elas auxiliam na verdadeira evolução humana. Isso poderia ser abordado mais a fundo, mas não, Neo simplesmente aceita essa nova realidade e fica claro que nós devemos aceitar também. Isso é algo recorrente, cada vez que um novo fator implica na história já conhecida, algum personagem afirma que o que ele viveu não perdeu valor ou relevância, e que não foi nada à toa. 

Nesse caso a personagem que introduz essa nova maneira de pensar é Niobe que retorna para, em grande parte servir como mais um fator de nostalgia, mas também para se posicionar a favor da nova aliança entre as duas raças. Ela argumenta por exemplo, que antes não era possível cultivar nenhuma fruta ou vegetal em Zion, mas agora, com a ajuda de máquinas eles cultivam diversos alimentos. Ela e o Merovingian ambos retornam de uma maneira muito peculiar, com alterações físicas intensas que refletem na sua condição atual, eles trazem a memória dos personagens originais mas com uma nova caracterização que parece uma paródia e, no caso principalmente do Merovingian, serve apenas como alívio cômico.

O “fan service” sendo feito pela Lana Wachowski que dessa vez dirige o filme sem a sua irmã, é óbvio. A história original não é alterada, mas o que acontece imediatamente na sequência de Matrix Revolutions é adaptado à uma nova narrativa que se encaixe 20 anos depois, sem desvalorizar o passado. Neo novamente tendo que acordar como no filme de 1999, mas dessa vez com memória de tudo que fez serve como uma personificação dos fãs.

Além de uma introdução precária de diversas máquinas que ajudam os protagonistas no decorrer da narrativa, a equipe do Mnemosyne também sofre nessa adaptação. Tendo o foco em Neo e Trinity durante a maior parte do filme, os demais personagens demonstram pouco ou nenhum desenvolvimento e são rasos em personalidade e relacionamentos, eles servem como mais um veículo para o fã poder se consolar, atuando como uma representação generalizada de fãs que interagem com os protagonistas como seus ídolos.

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[Imagem: Reprodução/Warner Bros.]

O recurso primordial no audiovisual é o “mostre, não conte”, no qual basicamente o diretor reconhece a inteligência do espectador e permite a ele um certo nível de interpretação. Lana prefere ignorar esse recurso durante praticamente todo o filme, nos momentos já mencionados em que ela quer indicar referências diretas à sua filmografia, e nos momentos em que o filme sente necessidade de eliminar qualquer sutileza e praticamente quebrar a quarta parede para consolar os fãs e justificar o que está acontecendo.

Apesar disso outro ponto alto é a inovação visual do filme, cenas icônicas como o primeiro treino de Kung-Fu de Neo no primeiro filme são adaptadas para uma audiência de 2021 com maiores expectativas e menor capacidade de atenção, solidificando a nostalgia em um presente mais pirotécnico.

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[GIF: Reprodução/Giphy]

Em um determinado momento a nova encarnação de Morpheus diz a Neo “nada conforta a ansiedade como um pouco de nostalgia”, o filme todo poderia ser resumido apenas nessa frase. Desde cenas diretas da trilogia original até personagens que retornam como caricaturas das originais, Matrix Resurrections não um filme que precisava existir, mas ele não fere o legado da trilogia original e cumpre o que promete: nostalgia.

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