A influência do booktok e do bookstagram para o estímulo à leitura

Segundo a pesquisa feita em conjunto pela Nielsen BookScan e o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), o mercado literário teve um salto de 38,2% entre os meses de janeiro e agosto deste ano e o mesmo período de 2020. Sendo o Brasil um país com pouco incentivo a literatura, isto marca um grande avanço neste setor.

A carência de programas públicos de incentivo a esse hábito resultou em 79% dos projetos sediados nas redes sociais, aponta o mapeamento feito pelo Itaú Cultural e a PUC-Rio. Ainda, de acordo com os registros, mais da metade desses projetos são de recursos próprios.

Nos últimos anos, tornou-se cada vez mais comum se deparar com um vídeo no Instagram ou no TikTok acerca de algum livro. De indicações a memes, os perfis literários têm tido, cada vez mais, um papel crucial nessa fomentação à leitura. Apesar desses perfis não serem novidade, as ferramentas de Reels e a For You trouxeram uma nova forma dos leitores se comunicarem e trocarem experiências entre si.

NA VISÃO DO CRIADOR DE CONTEÚDO

“Eu decidi montar um perfil literário porque eu queria conversar com mais pessoas sobre livros. Eu tenho uma irmã que lê também, mas ela tem 13 anos e eu tenho 22. Então eu queria conversar sobre dark romance, romance hot com quem também gostasse de ler e no TikTok eu encontrei isso. Na verdade, eu comecei sem imaginar seguidores e crescer, eu comecei a publicar ali como forma de diversão e daí cada vez mais as pessoas foram aparecendo”, contou Bruna Oliveira, produtora de conteúdo.

Bruna é do interior do Paraná e conta com mais de 40 mil seguidores no seu TikTok. Nele, a influenciadora fala principalmente de ebooks, mas também aborda livros físicos, além de, claro, vários memes super divertidos.

Ao ser perguntada sobre o seu poder de influência, Bruna diz que fica muito feliz em poder influenciar as pessoas nesse quesito e que acha isso maravilhoso.

“Quando me mandam mensagem falando que a lista de leitura delas só tem livros que eu indico, ou quando vão ler um livro entram no meu perfil pra ver se eu  já li e gostei, ou que voltaram a ler por causa de mim. Foi aos pouquinhos que eu fui tendo noção disso e hoje em dia tenho que estar tomando um pouquinho de cuidado quando eu vou falar de um livro. Quando eu estou lendo eu reflito bastante sobre qual nota dar, quais gatilhos tem pra poder avisar as pessoas porque eu sei que eu tenho essa influência e é maravilhoso influenciar as pessoas a ler, sabe? O Brasil é um país que lê tão pouco, então eu fico muito feliz de poder mudar isso.”

Na pesquisa sobre os hábitos culturais dos brasileiros, desenvolvida pelo Itaú Cultural e Datafolha, 40% dos entrevistados declararam ter lido livros digitais durante os anos de 2020 e 2021. Sobre isso, a influenciadora declarou:

“Eu sou uma grandíssima defensora do Kindle (risos). Eu leio muitos romances nacionais, então a maioria das autoras independentes publicam na amazon. Durante a pandemia cresceu muito a quantidade de leitores e o ebook facilita esse acesso porque ele é mais barato e quem não tem o dispositivo do Kindle pode usar o aplicativo de celular. Ele possibilita você ler mais por que sempre tem promoção de 1,99, então ele também abre caminho para essas pessoas lerem mais. A maioria das minhas seguidoras leem muito mais ebooks do que livros físicos. Tem seguidoras minhas que nem leem livros físicos.”

Entretanto, com o sucesso desses livros digitais, muitos acabam pirateando livros de autores nacionais independentes. Além de ser caracterizado como crime de direitos autorais, a prática prejudica muito tais autores.

“É muito difícil, sabe? É um assunto que me deixa muito irritada quando eu vou falar sobre porque eu conheço autoras independentes e tem algumas que passam 1 ano escrevendo um livro. Diagramação, capa, revisão, não é algo barato. Tem escritoras que gastam de mil a dois mil reais ou até mais para publicar um livro porque querem fazer algo muito bom. Recentemente teve uma que publicou às 20h, às 22h o livro já estava sendo pirateado em grupos. Tem grupos de leituras que a quantidade de leitores é maior do que na Amazon. As autoras ganham menos de 1 centavo por página lida, se o livro custa 2 reais elas ganham menos do que isso porque fica uma porcentagem na Amazon e o que é mais revoltante é que tem administradoras desses grupos que vendem os pdfs desses livros por 5/10 reais”, disse Bruna a respeito dessa situação.

Finalizando, ela ainda deixou uma crítica ao estigma associado a livros clássicos, o mercado literário e ao sistema educacional brasieiro.

“Ainda há um estigma das pessoas, por exemplo quem lê romance, fantasia, não é leitor. E isso é porque aqui acham que a gente tem que crescer lendo os clássicos, com 11 anos ler Machado de Assis e é impossível uma criança de 11 anos gostar Machado de Assis. Eu fui me interessar por ler quando eu já era mais velha. E também tem as questões dos valores, o mercado literário brasilierio é caro, mas depois que veio as redes, deu pra ver que tem outras formas de você conseguir ler, mostrar que tem livros muito mais legais que os clássicos. Na verdade é uma discussão enorme porque o sistema educacional brasileiro é muito difícil, é uma bola de neve que vai ficando cada vez maior  e chega num ponto que para conseguir reverter isso é uma mudança em vários âmbitos.”

NA VISÃO DO LEITOR

Jamile Oliveira, estudante de fisioterapia, tem 20 anos e é uma leitora e seguidora assídua de perfis literários, ela afirma não saber mensurar a importância deles para ela e que todos os livros que ela leu foram por indicação.

“Eu não consigo mensurar a importância que esses perfis têm pra mim, nesse ano, em meio a pandemia, o que me salvou de enlouquecer foi ler, era um costume que eu sempre tive mas com a correria da vida acabei diminuindo um pouco, aí veio o covid e o isolamento e me fez recuperar o costume de ler mais e o booktook e o bookstagram foram preciosos nesse momento, absolutamente todos os livros que eu li foram por alguma indicação de lá.

Ela ainda diz que a dinâmica que os livros são apresentados é o que a faz ir atrás deles.  “Inclusive houve uma trend no tiktok a era chamada fofoca literária que consistia no tiktoker contar uma história como se tivesse se passado com ele e no final revelar o nome do livro”, conta Jamile

NA VISÃO DO LOJISTA

Para Haynna, CEO da Bello Sebo, essas indicações e a procura dos leitores por ela cooperam para a venda de certos títulos.

“São considerados os livros hypados porque muita gente começa a comprar. Eu inclusive acompanho muito essa demanda na amazon, as vezes um livro fica em primeiro lugar na amazon essa semana porque um perfil literário indicou, então a influência que tem nesse meio é muito boa. Inclusive a gente já fez parceria com vários bookstagram, agora vamos começar também com booktok, isso influencia e muito desde os mais contemporâneos aos clássicos no mercado literário.”

Encontrar esses livros com mais hype em sebos comuns é mais difícil e isso acontece devido a faixa etária das pessoas que frequentam até a baixa procura por esses livros, sobre isso Haynna comentou.

“Aqui no Bello Sebo a gente preza muito os desapegos, as pessoas estão acostumadas a trocar/vender e como aqui na região não tem muitos sebos que não compram, só trocam, o pessoal gosta de vim aqui. Trabalhamos de uma forma honesta, pagamos aquilo que é justo e com isso a gente acaba recebendo uns títulos bem legais, também temos contato com muitos IGs literário e muitos recebem de editoras para resenha, então pra não acumular eles desapegam, por esse motivo temos muitos livro hypado.”

Ademais a CEO também informou a forma como o seu Sebo atua, diferente dos outros, a Bello Sebo conta também com uma loja online além da física em São Paulo. Com isso, Haynna buscou inovar nesse mercado.

“A gente procurou ser o diferencial, tanto no atendimento, como nas formas de envio porque hoje em dia os sebos que existem são de pessoas mais velhas que estão na administração e dai eu vim pra inovar, tanto que depois que a gente passou a alimentar mais as redes sociais, criar o site, muitos sebos se inspiraram na gente”, disse ela.

Haynna também diz que a forma como trabalham com compra, venda e troca é mais um diferencial do seu negócio.

“A gente trabalha com compra, venda e troca. A compra seria diretamente na loja física porque a gente ainda não tem possibilidade de comprar de outras regiões por conta do frete porque aí o preço do produto para revenda não vai compensar, fazemos uma avaliação dos preços que estão atualmente dos novos e seminovos e o valor você pode utilizar na loja para troca ou então a gente faz um pix do valor. Além da opção de trazer seus livros para trocar, aqui temos uma prateleira na loja física onde pega um livro e deixa outro no lugar e isso é pra incentivar a leitura do pessoal da região.”

Ao ser perguntada a respeito da importância dos sebos atualmente, vigente ao fechamento de várias livrarias no país, Haynna afirmou ser uma situação muito triste e que acredita que toda forma de incentivo a leitura é importante.


“Muita gente ainda tem um conceito de sebo de livro velho, mofado, sujo. Todos os nossos livros são higienizados principalmente agora com a Covid. Isso é muito triste porque eu mesma acabei fazendo amizade com muitos donos de sebo, inclusive um que ajudou muito a gente no começo, ele fechou e eu fiquei muito triste com aquilo porque os livros já não são valorizados no brasil, autor nacional não ganha nada e se a gente não valoriza essa literatura, não vai ser um estrangeiro que vai valorizar. Então isso me deixa muito triste quando uma livraria, um sebo fecham porque estão indo muitas histórias com ele. É o que eu sempre falo, livro não tem só uma história, o livro de sebo ele tem mais de uma, a de quem era o antigo dono e a dele mesmo. Então eu fico muito chateada quando vejo um perfil literário entrando em contato para oferecer um lote de livros porque não vai mais funcionar, eu acho que é muito importante qualquer forma de incentivo a literatura no Brasil principalmente”, finalizou.

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