Do meu diário: Manhattan, NY

10/12/21

No aeroporto indo para Nova York. Só escrever isso parece loucura. Não sei exatamente o que pensar ou sentir. Vou tentar ser uma nova pessoa lá. Talvez tentar confiar mais nas minhas escolhas. Escrever isso me assustou. Eu tenho medo de mim. O que as pessoas vão achar?

11/12/21

Estou feliz! Estou muito feliz. Comi um cookie chamado “Ginger Rogers” e vi um musical da Broadway com a minha amiga. Foi tudo tão lindo! Uau. 

Vi Hadestown, um musical sobre o mito grego de Orfeu e Eurídice. Não sabia muito da peça e não sabia o que esperar… E, meu deus, foi lindo! O que mais me fascina sobre teatro é que só aquelas pessoas dentro daquele espaço estão vivendo aquilo. Mesmo que a peça fique lá por um tempo, toda noite é diferente. Naquele momento, estávamos todos presenciando algo único. Acho isso uma coisa bonita para se pensar.

12/12/21

Sentada num cafezinho no Soho. Isso é surreal. Que realidade é essa? Não pode ser a minha. Está frio e maravilhoso.

12/12/21 – mais tarde

Agora tô no Balthazar. Secretamente (ou não) tentando encontrar alguma celebridade. É cedo demais para beber? Eles me deram uma taça de espumante de graça. E, bom, pedi o drink da casa. Fico surpresa que não pedem a minha identidade. Para mim, pareço um garotinho vitoriano com obesidade mórbida de doze anos. Para eles, aparentemente, tenho cara de uma adulta que merece um espumante de graça.

Me colocaram em uma mesa perto do banheiro, que é o lugar perfeito para ver celebridades. Acho. Celebridades cagam, né?

13/12/21

Hoje andei, andei, andei. E percebi o quão bom é estar sozinha em Nova York. Quero dizer… não machuca, sabe? Em qualquer outro lugar, meu coração estaria ardendo. Aqui ele fica aquecido. Como se esse lugar estivesse abraçando-o. Estou parecendo louca, né? Desculpa.

Quero dizer, não louca, mas RIDÍCULA e BREGA e CLICHÊ. Mas o sentimento é genuíno. Por que isso é tão clichê, né? Por que Nova York acolhe os solitários? Deve ser a quantidade de coisa para fazer. E a quantidade de pessoas. EU ESTOU MUITO FELIZ SOZINHA EM NOVA YORK.

14/12/21 ♡

Nada de especial sobre essa data. Só estou sentindo uma paz que não sentia faz tempo. Estou sentada em um banco no High Line. O sol está batendo no meu rosto. Tem um senhor de chapéu num banco ao meu lado também escrevendo. Eu estou bem. Tudo o que vem na minha cabeça é que poderia me acostumar com essa sensação. 

Sinto que faço parte de um todo, entende? Mesmo que seja só por alguns dias, faço parte do todo que é Nova York. Eu me sinto tão bem.

Um outro senhor aleatório acabou de passar por mim e me desejar bom dia. Posso estar iludida, mas tudo é tão mágico. É como se eu estivesse em um cenário de um filme. Imagine a próxima cena como se fizesse parte de um filme independente:

Ontem achei uma loja de discos em Greenwich. Já era meio tarde e eu estava começando a voltar para o hotel (eram cinquenta minutos de caminhada). Eu tinha comido bem em um restaurante italiano – me deram espumante de graça de novo! Acho que deveria ser por volta das 21h, então não tinha nada além de restaurantes e barzinhos abertos.

De repente, eu me deparo com o que posso só descrever com um sebo caótico e estufado de discos ao meio do cenário bucólico e charmoso de Greenwich Village. Era definitivamente algo chamativo.

Ao mesmo tempo que a loja se destacava, ela parecia estar perfeitamente situada – como se tivessem colocado ela ali para eu encontrá-la naquele exato momento. Já faz um tempo que estou na missão impossível que é encontrar um LP de Clouds, da Joni Mitchell. Parecia que aquele cantinho seria o meu pote de ouro.

Entrei na loja. Infelizmente, não me lembro qual era a música que estava tocando. O que me lembro é do barbudo sentado atrás do caixa. Ele devia ter uns 60 anos e usava uma jaqueta de couro. Sem brincadeira, parecia ter acabado de sair de uma reunião de uma gangue de motoqueiros. Ele balançava a cabeça no ritmo da música e nem olhou para a minha cara. Achei, de certa forma, algo digno de se fazer com uma cliente que entra em sua loja de discos às nove da noite numa segunda. É o tipo de clientela que não quer papo. Pelo menos, foi isso que imaginei na hora. 

Entrar numa loja de LPs pode ser uma situação meio desconfortável no começo. Qual é a etiqueta? Você vai direto para o que precisa ou olha tudo? Tem tanta coisa aqui. O que eu estava procurando mesmo? Ah, Joni Mitchell, isso. 

Outra coisa sobre esse tipo de estabelecimento: por mais amarrotado que seja, é tudo beeeem organizado. Você encontra tudo separado por gênero e artista. Então foi fácil encontrar onde a Joni estava. 

Eeeeeee… Não tinha Clouds. Aliás, não tinha nem Blue ou Hejira ou Ladies of the Canyon ou Song to a Seagull. Tinha só uns álbuns ao vivo e coletâneas. Um pouco decepcionante, se eu for ser honesta. Mas não ia deixar isso me abalar! Poxa, olha o lugar que encontrei. Um buraco com um monte de sujeito estranho que ama música. Estava me sentindo em High Fidelity!

Lá fui eu ficar zanzando a loja até o barbudo de jaqueta me expulsar de lá.  Depois de algum tempo, uns três jovens entraram na loja falando bem alto sobre os Beatles. Os três usavam roupas meio alternativas e se comportavam de maneira errática e espalhafatosa. Eles sorriram para mim enquanto passavam direto para alguma fileira de discos. Percebi que os três trabalhavam lá quando o barbudo os reprimiu pelo atraso.

Eles começaram a cavar entre os LPs enquanto discutiam qual Beatle tinha a melhor carreira solo. Parece até que eu estou inventando, mas juro que, na minha frente, havia três caras que pareciam sair direto de uma banda grunge dos anos setenta brigando como crianças. 

O de cabelo longo percebeu que eu estava observando e perguntou se precisava de alguma ajuda. Eu não precisava, mas queria fazer parte da narrativa deles. Por isso, perguntei sobre Clouds da Joni Mitchell. Vai ver algum deles sabia de um esconderijo secreto na loja. Honestamente, eu só queria que eles me enturmassem e o barbudo me contratasse e eu vivesse uma história digna de um filme alternativo dentro daquela loja. Nova York me faz sonhar alto. 

O cabeludo me levou para aquela mesma sessão da Joni. Ele claramente não sabia tanto dela quanto sabia dos Beatles, então ficou me mostrando cada um e perguntando se era Clouds. Bom, como já falei, não tinha. Agradeci e nos distanciamos.

E é isso. Foi simples, nada especial. Os jovens e o barbudo provavelmente nem se lembram mais de mim. Não fui chamada para trabalhar lá ou qualquer coisa do gênero. Talvez se tivesse entrado na discussão dos Beatles… Enfim, isso pouco importa. Para mim, foi especial. É engraçado a quantidade de importância que podemos colocar em momentos pequenos.
No final, saí com um souvenir da minha experiência High Fidelity: o meu álbum predileto do Simon & Garfunkel, Parsley, Sage, Rosemary and Thyme. Fui abraçada com esse disco todos os cinquenta minutos de caminhada daquele buraco cinematográfico até o meu hotel.

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