Olivia Colman em "A Filha Perdida" (2021) [Imagem: Reprodução/Netflix}

“A Filha Perdida” é um retrato do lado oculto e sufocado da maternidade

Ao longo da evolução histórica das relações humanas, a maternidade tomou uma forma de caráter utópico. As mães foram moldadas em cânones e tiveram suas vidas fragmentadas entre os períodos de antes de seus filhos e depois deles. É nesse cenário de perda de identidade que muitas delas passam seu tempo caminhando em uma linha tênue entre quem costumavam ser e em quem os espectadores do show da vida em sociedade esperam que sejam na nova realidade.

Dentro desse imaginário, a autora italiana Elena Ferrante aprofunda a narrativa de A Filha Perdida (2006), que recentemente recebeu uma adaptação homônima pela Netflix, estrelada por Olivia Colman e Dakota Johnson, com direção de estreia de Maggie Gyllenhaal.

Publicado no Brasil em 2016 pela editora Intrínseca e traduzido por Marcello Lino, a história acompanha as férias de Leda, uma professora universitária de quarenta e oito anos. Ao que encara como um escape das obrigações cotidianas, a mulher passa seus primeiros dias assentada em uma praia da costa italiana sendo acompanhada por livros e algum trabalho.

Leda mora em Florença, mas é nascida em Nápoles. Lá, vivia com mãe e irmã em um relacionamento arisco e desagradável repleto de abusos psicológicos que são relevados pela personagem durante em relatos casuais. Ao partir de seu passado, abandonou os costumes originários da região, aos quais demonstra desprezo profundo, e que buscou afastar da criação das filhas, Marta e Bianca.

Durante sua estadia em repouso, com suas visitas à praia, a protagonista é surpreendida pela presença de uma família cujos hábitos em muito são carregados pelos traços napolitanos. Tal presença é responsável pela volta repentina de memórias da infância que se misturam com as de sua vida adulta enquanto mãe em exercício integral. Ali, na beira da água, Leda é impactada pela visão de três figuras de destaque na família: uma jovem mãe, Nina, sua filha, Elena, e a boneca da criança, Neni.

A rotina da personagem, anteriormente preenchida pela ocupação literária, toma forma diante da substituição direcionada à apreciação dos atos que possuem o envolvimento de Nina, Elena e Neni. Na mulher, enxerga as características socialmente requeridas para uma mãe: jovem, bonita e, aparentemente, feliz em ser mãe, como se sua única tarefa fosse coexistir à vida da filha.

As cenas da relação entre mãe e filha se tornam um pano de fundo para o resgate intenso de memórias que levam o leitor à compreensão de quem é Leda agora, quem foi como filha e quem foi como mãe. Em diversas passagens, a personagem retoma momentos sobre sua infância conturbada que não são, por ela, interpretados como traumas que se espelharam na criação de suas filhas. Sua leitura das ocorrências é transposta de maneira fria e objetiva, de modo a não serem reconhecidas com a carga emocional negativa que, de fato, possuem, algo esclarecido pela fala despretensiosa.

Em determinado momento, a menina, Elena, e sua boneca se perdem na praia, o que ocasiona euforia em suas buscas. De prontidão, Leda se voluntaria à procura da criança e a reencontra, mas não à boneca. O motivo pelo qual a perda de Neni não ter retorno é revelada quando a protagonista retira o brinquedo da bolsa ao chegar em casa e se vê sozinha.

Ilustração de Mara Cerri para o livro “Uma Noite na Praia”, de Elena Ferrante [Imagem: Reprodução/Intrínseca]

Quase que de maneira involuntária e irreflexiva, Leda rouba a boneca, mas sem saber o porquê. No trecho “As coisas mais difíceis de falar são as que nós mesmos não conseguimos entender” (p. 6), há a apresentação de uma ideia sucinta sobre a irracionalidade da ação e sua dificuldade que culmina na não devolução imediata do brinquedo à Elena e Nina.

Leda, enquanto pratica a busca pelo entendimento de sua atitude, decide cuidar de Neni. Limpa-a, compra roupas novas, penteia seus cabelos e, consequentemente, retoma o fluxo de memória para o momento onde entregou sua boneca de infância à filha mais velha, Bianca, e reagiu com repulsa ao ver que a criança não cuidou da maneira que Leda consideraria a correta a ser. Durante sua relação com Neni, busca ser o mais delicada e atenciosa possível, quase como uma maneira de reparação à mãe e à filha que foi.

“Eu mesma estava brincando naquele momento, uma mãe não é nada além de uma filha que brinca (…).” (p. 22)

Em suas memórias, divaga pela criação de Marta e Bianca. Abdicou consideravelmente de sua carreira em prol da criação das duas meninas, e demonstra ter sentido que sugavam toda a sua vitalidade e talento. Apesar de enfatizar seu amor pelas duas, não consegue escapar da espiral nociva que a recorda das exigências intermináveis da maternidade que lhe rendiam respostas de ingratidão e desgaste físico-emocional.

“O corpo de uma mulher faz mil coisas diferentes, dá duro, corre, estuda, fantasia, inventa, se esgota e, enquanto isso, os seios crescem, os lábios do sexo incham, a carne pulsa com uma vida redonda que é sua, a sua vida, mas que empurra você para longe, não lhe dá atenção, embora habite sua barriga, alegre e pesada, desfrutada como um impulso voraz e, todavia, repulsiva como o enxerto de um inseto venenoso em uma veia. Sua vida quer se tornar a de outro.” (p. 45)

Leda não devolve a boneca a Nina, apesar de se encontrar com a mulher diversas vezes pela cidade e observar seu sofrimento que é ocasionado pelo sofrimento da filha e sua saudade da boneca. Permanece a observá-la como um retrato da maternidade que não foi o seu, mas por outro lado, Nina apresenta uma perspectiva de Leda de caráter sábio e confiável. O fato se decorre diante de uma conversa entre ambas, ao lado de Rosária, a cunhada grávida de Nina, na qual descobrem um fato sobre a protagonista: ela abandonou as filhas.

Após uma epifania causada por acontecimentos decisivos, Leda conhece um professor universitário e o segue. Deixa as duas filhas e o marido e retorna três anos depois.

“Às vezes, precisamos fugir para não morrer”, é o que diz a Nina quando confessa o abandono. Seu cansaço e a necessidade de recuperar a liberdade anterior à maternidade são o que diz justificar sua partida.

“Queria sentir a mim mesma de forma cada vez mais intensa, os meus méritos, a autonomia das minhas qualidades.” (p. 123)

Com o decorrer da narrativa, Leda reforça inúmeras vezes seu descontentamento com a vida de mãe, que entra em conflito com o amor pelas suas filhas — e, ainda, com o fato de não gostar de quem as meninas são. Sente falta de quem ela era antes, mas reconhece que não há meio de deixar voltar àquele espaço de tempo, pois a visão que têm dela agora é a de mãe e nada além; como aquela que carrega os fardos e obrigatoriedade de não demonstrar a realidade ambígua do que vive.

“Que bobagem pensar que é possível falar de si mesmo aos filhos antes que eles tenham pelo menos cinquenta anos. Querer ser vista por eles como uma pessoa e não como uma função.” (p. 98)

Através de uma trajetória intensa e nua, Elena Ferrante disseca os contornos realistas da maternidade, sem dar importância ao desconforto que possa causar no leitor. A personagem principal da trama é descascada camada por camada em toda a sua complexidade como mãe, filha e espectadora da relação mãe-e-filha alheia. Os retornos incontroláveis às memórias colocam Leda de volta à perspectiva de juventude, enquanto exercia o papel de mãe: atitudes equivocadas, distantes de qualquer rastro de racionalidade e que, decerto, foram responsáveis por afastar as duas meninas da mãe, reforçam a perda de rumo e de identidade.

É traçado um paralelo entre Nina que perde Elena na praia; Leda que perde Bianca, quando mais nova, no mesmo cenário; E então, Elena, que perde Neni. O ciclo se repete. Talvez Leda acredite que possa ser uma mãe melhor à boneca que Elena. Talvez acredite que possa ser uma mãe melhor à boneca que foi para as próprias filhas.

Ela se aproxima de Nina. Consegue enxergá-la fora da bolha de mãe utópica que havia criado nos dias de observação na praia. É quando entende: Nina ama Elena, mas está igualmente cansada, só não possui permissão para externar tal cansaço. As gerações mudam, mas o peso e a cobrança permanecem os mesmos. As mães, ao se tornarem mães, são destituídas de qualquer ligação com a humanidade e seu papel se torna, quase que unicamente, coexistir ao restante; jamais para ela.

“Nina, por sua vez, não tinha nenhuma das defesas que eu ergui antes da ruptura. E, nesse meio-tempo, o mundo não havia melhorado nem um pouco; pelo contrário, tornara-se mais cruel com as mulheres.” (p. 166)

Após a conclusão desse fragmento da vida de Leda, que marcou a dela, de Nina e Elena para sempre, demonstra alguma satisfação ao falar com as filhas pelo telefone. Ao perguntarem “Mamãe, o que você anda fazendo, não liga mais para a gente? Pode pelo menos nos dizer se está viva ou morta?”, e então Leda responder “Estou morta, mas bem”, há espaço para uma interpretação que contemple a compreensão de que, apesar de já não ter mais a capacidade de voltar a ser quem costumava, naquele tempo remoto antes de se tornar mãe, está tudo bem.

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