As seis histórias de sucesso de Hollywood

Desde o início da pandemia de coronavírus, o streaming virou o porto seguro dos fãs de audiovisual que encontraram as salas de cinema fechadas durante vários meses. Portanto, os estúdios e distribuidoras precisarão correr atrás de resgatar o patamar de bilheterias observado antes do período de quarentena, se readaptando à realidade trazida pelo contexto pandêmico. À medida que a indústria cinematográfica está cada vez mais se esforçando para monetizar o vício em conteúdo, um necessário questionamento surge: o que faz um filme ser um sucesso?

Segundo o renomado sociólogo Zygmunt Bauman, vivemos tempos líquidos, em que tudo se dissipa rapidamente. Sendo assim, ao mesmo tempo em que um filme está fazendo sucesso hoje, outro estará fazendo um sucesso ainda maior na semana que vem. Há anos, Hollywood conta as mesmas seis histórias para garantir isso e (quase) ninguém percebeu.

Em 1928, o teórico russo Vladimir Propp publicou o ensaio Morfologia do Conto Maravilhoso, no qual distinguiu 31 funções narrativas básicas que são usadas para contar as tramas que conhecemos. Propp analisou que os motivos são variáveis, mas a sua estrutura é constante. Dessa forma, o teórico se dedicou a designar as estruturas narrativas e chegou a conclusões que são conceituadas até hoje. 

Contudo, em 2019, o jornal El País resgatou o estudo de Propp e chegou à conclusão que, de maneira superficial, essas 31 características podem ser reduzidas a seis fórmulas de histórias que Hollywood repete inúmeras vezes, a fim de obter o máximo de lucro, são elas: Histórias de Ícaro, Histórias de Orfeu, Histórias de Cinderela, Viagens iniciáticas (ou a forja do herói), O objeto mágico (ou a busca do herói) e Rapaz conhece moça (ou ‘sujeito’ mágico).

Em “Histórias de Ícaro”, há a ascensão e a queda de um personagem relevante, assim como Ícaro, filho do arquiteto Dédalo. No famoso mito grego, cobiçando aproveitar cada vez mais o sentimento de liberdade e ignorando os gritos de repreensão do pai, Ítalo voou para muito perto do Sol e caiu no mar quando o calor derreteu a cera que mantinha suas asas de plumas junto ao seu corpo. Nesse tipo de filme, o herói recusa suas virtudes e é castigado com uma queda metafórica. Por isso, muitas histórias assim são fábulas morais contadas, principalmente, para ensinar a importância da humildade e conformismo. Cidadão Kane (1941) e Soberba (1942) são clássicas histórias de Ícaro. Touro Indomável (1980), Scarface (1983), O Grande Gatsby (2013) e o premiado Era uma Vez em… Hollywood (2019) também seguem a mesma fórmula.

Leonardo DiCaprio, Brad Pitt e Quentin Tarantino posam para divulgação de Era Uma Vez Em… Hollywood (2019) [Imagem: Reprodução/Twitter]

Nas “Histórias de Orfeu”, há viagens de ida e volta ao “inferno”, assim como fez o poeta Orfeu da mitologia trácia, filho do deus Apolo e da musa Calíope. Desse modo, diferentemente de Ícaro, essas histórias costumam narrar finais melancólicos, em que o personagem, atordoado pela experiência vivida, retorna para casa mais triste ou após uma perda difícil de suportar, sem necessariamente desembocar no fracasso do herói. Rastros de Ódio (1956), Taxi Driver – Motorista de Táxi (1976), O Franco Atirador (1978), Apocalypse Now (1979), Platoon (1986), O Silêncio dos Inocentes (1991) e A Lista de Schindler (1993) são histórias de Orfeu.

Anthony Hopkins rouba a cena em O Silêncio dos Inocentes (1991) [Imagem: Divulgação/Orion Pictures]

Já nas “Histórias de Cinderela”, há um personagem relevante que abandona suas origens humildes em busca da grandeza. O herói (ou heroína, uma vez que diversas dessas histórias apresentam uma protagonista feminina) enfrenta obstáculos humilhantes e os supera sem comprometer suas virtudes, conquistando uma merecida recompensa ao final, que é o amor, o sucesso ou a felicidade, de alguma forma. O objetivo é passar ao espectador a mensagem de que a bondade, no fim, sempre prevalece, já que o herói da trama sempre espelha, essencialmente, as virtudes do ser humano. Uma Linda Mulher (1990), Jerry Maguire: A Grande Virada (1996), Encontro de Amor (2002), À Procura da Felicidade (2006), Quem Quer Ser Um Milionário? (2008), A Rede Social (2010), Annie (2014), a famosa série de filmes Jogos Vorazes (2012, 2013, 2014 e 2015) e a esmagadora maioria dos melodramas mais adorados do cinema são alguns exemplos.

Katniss Everdeen, a protagonista vivida por Jennifer Lawrence, participa de um reality show macabro para salvar sua irmã caçula [Imagem: Reprodução/Variety]

Em “Viagens iniciáticas”, os personagens, maioritariamente jovens, se encontram desorientados em um momento existencial e precisam de uma aventura transformadora, como se apenas isso pudesse lhes ajudar em uma crise de identidade. Infelizmente, muitas viagens iniciáticas acabam em tragédia. A maioria dos road movies como Thelma & Louise (1991), Pequena Miss Sunshine (2006) e Na Natureza Selvagem (2007) se encaixam aqui. Juventude Transviada (1955), Easy Rider (1969), No Decurso do Tempo (1976), Conta Comigo (1986), Sideways – Entre Umas e Outras (2004) e Viagem a Darjeeling (2007) são mais alguns filmes desse tipo.

Natalie Wood e James Dean em Juventude Transviada (1955) [Imagem: Reprodução/IMDb]

A narrativa “O objeto mágico” também é reconhecida como a fórmula que narra a jornada do herói, na qual o personagem foge do ordinário e segue em busca do extraordinário. Em histórias assim, o personagem está sossegadamente vivendo sua vida medíocre até o momento em que algo intrigante – geralmente ao encontrar um objeto mágico – o desvia desse torpor para iniciar uma aventura que irá mudar sua trajetória. O Mágico de Oz (1939), Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida (1981), Os Goonies (1985), A Princesa Prometida (1987) e a trilogia O Senhor dos Anéis (2001, 2002, e 2003) são alguns filmes que reproduzem essa fórmula. 

Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida estreou nos Estados Unidos em 12 de junho de 1981 [Imagem: Divulgação/Lucasfilm]

E, por último, em “Rapaz conhece moça”, vemos histórias em que há um encontro casual entre dois personagens, mas que, em seguida, em razão de um terceiro elemento, como um sequestro, uma viagem, um desentendimento ou até mesmo a formação de um triângulo amoroso, acontece um desencontro ou uma separação. Essa separação obriga o protagonista a partir em busca de reencontrar e recuperar o seu amor. Essa fórmula também é reconhecida como a fórmula blockbuster de Hollywood e incorpora elementos da viagem iniciática e das histórias de Cinderela. É aqui que se encaixa diversas comédias românticas. Aconteceu Naquela Noite (1934), Levada da Breca (1938), A Loja da Esquina (1940) e seu remake Mens@gem para Você (1998), Harry e Sally – Feitos Um para o Outro (1989), Amizade Colorida (2011), Amor a Toda Prova (2011), O Lado Bom da Vida (2012) e Simplesmente Acontece (2014) são alguns filmes que podemos citar.

 Ryan Gosling e Emma Stone em Amor a Toda Prova (2011) [Imagem: Reprodução/Everett Collection]

O cinema desistiu há muito tempo de ser uma expressão meramente cultural e artística para se transformar em um mercado muitíssimo lucrativo. Hoje, desfrutamos de várias produções cinematográficas incríveis de assuntos diversificados, desde filmes de ação que aceleram o nosso coração a filmes de romance que nos fazem chorar como se fôssemos crianças, e é intrigante pensar que já assistimos uma série de tramas básicas que se repetiram incontáveis vezes no decorrer dos anos sem se dar conta. A popular expressão “não há nada novo sob o sol” realmente faz todo o sentido, mas o mais surpreendente é que ainda assim o cinema continua a ser mágico ao produzir essas estruturas narrativas que, quando bem feitas, as tornam memoráveis.

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