A leve excentricidade da beleza da Alta-Costura

Paris Couture Week: a mais trabalhosa, mas ao mesmo tempo, livre para os designers; a mais aguardada pelos críticos; dotadas dos desfiles mais desejados pelas influencers e, sem dúvidas, uma potência inigualável quando o assunto é lançamento de tendências seja na moda ou na beleza. Ao longo da última semana, mais especificamente dos dias 24 a 27 de janeiro, a cidade das luzes voltou a ser palco de mais um de seus grandes espetáculos anuais: a semana de moda de Alta-Costura que nos apresentou as coleções de Primavera/Verão 2022 das seletas casas que fazem parte da Chambre Syndicale de la Haute Couture

É indiscutível que nos desfiles desse segmento da moda, a atenção é sempre voltada à suntuosidade das criações, porém, como molduras de um quadro valioso para o autor, a beleza de cada apresentação é também criteriosamente pensada, de forma a contribuir para a grandiosidade que se espera do resultado. Sendo assim, pudemos ver que algumas casas buscaram por uma estética que nos trazia à memória a delicadeza que remete aos trabalhos manuais tão valorizados pela alta-costura, enquanto outras optaram pela excentricidade que exala das criações finalizadas. 

Na beleza da Fendi, assinada por Guido Palau e Peter Philips (hairstylist e makeup artist, respectivamente), recebemos uma extensão do que Kim Jones propôs ao criar a coleção: uma mistura entre passado, presente e futuro. Uma pele quase isenta de maquiagem, rememorando as estéticas de pureza associadas aos antigos tempos romanos, associada à dramaticidade e irreverência muito observadas hoje em dia e que, cada dia mais, se consolidam como apostas futuras, expressas por meio da aplicação de pontos de strass por todo o rosto das modelos. O cabelo vem limpo, sem grandes elaborações, deixando que o foco principal seja o mistério apresentado pelas criações e a excentricidade delicada da maquiagem. Em uma análise um pouco mais fantasiosa, pode-se dizer que essa junção estratégica de leveza e brilho criam justamente uma imagem de algo celeste, radiante e puro, associadas aos elementos espirituais de Roma e à esperança de um futuro mais leve que virá após o caos. Descrição essa que poderia ser facilmente aplicada a Antonio Grimaldi (por Maurizio Caruso Morale, Anna Maria Negri Brida e Maurizio Calabró) e Alexandre Vauthier (por Lisa Butler & Sam McKnight) também – ambas casas que também optaram pela beleza do “menos é mais”. 

Já no espetáculo de Giambattista Valli, com make por Helena Vasnier e cabelo por Lewis Ghewy, notamos um contraste da sutileza com a dramaticidade. Algumas modelos cruzaram a passarela de rosto praticamente limpo, isento, enquanto outras carregavam olhares marcados por delineados gráficos, vazados e extravagantes, criando um olhar desafiador e marcante. Essa fusão de estéticas gera uma dualidade, uma sensação de pré-liberdade e co-participação em quem vê: há a ideia de uma tela em branco, na qual a criatividade pode ser exercida e cada um, ao observar a produção, tem a chance de ser responsável por criar em sua própria imaginação a beleza ideal. Ademais, também existe a estética já previamente pensada e exposta, deixando claro que tudo foi inspirado por drama e deve ser combinado ao drama. Os cabelos seguem a mesma linha, alguns transmitem leveza, romantismo e são arrematados por laços, com um ar clássico, enquanto outros são volumosos e compridos, em uma estética que nos leva de volta aos penteados semi-presos da década de 1970. 

Na mesma linha de imagem de força e extravagância, não poderíamos deixar de comentar a beleza criativa, irreverente, e provocativa de Schiaparelli, com claras referências ao surrealismo característico da casa e perfeitamente transmitido pelas mãos de Pat McGrath na idealização da make e Guido Palau nos cabelos – que acendem um alerta para a crescente presença do uso de acessórios para os fios. Um flerte com o “extra” também acenou em Valentino (assinada por Pat McGrath & Guido Palau) que, por meio da aposta em olhares marcantes – resultantes de delineados mais espessos e até mesmo com a aplicação de penas (alguém mais se lembrou da coleção de couture de 2019?) em alguns looks – trouxe uma ousada elegância, complementadas por fios unidos em coques baixos e polidos – como perfeito arremate à coleção.

Por fim, em linhas gerais, vimos nas passarelas uma miscelânea de estéticas que passeiam com naturalidade entre o sutil e o excêntrico, o clássico e o dramático, o básico e o exagerado, mas sem jamais perder a inseparável sofisticação que, desde sempre, faz parte da história da alta-costura.

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