[Crítica] ‘QVVJFA?’: Baco Exu do Blues versa sobre o amor do homem negro

Baco Exu do Blues lançou na última semana Quantas Vezes Você Já Foi Amado?, seu terceiro álbum de estúdio depois dos grandes sucessos Esú (2017) e Bluesman (2018).

O disco conta com 12 faixas que falam sobre a fragilidade do homem negro se permitir amar e ser amado. Baco expõe dores, memórias e amores na luta contra o racismo estruturado na sociedade brasileira e contra as heranças culturais de um mundo machista.

Produzido por Marcelo de Lamare, a obra apresenta beats criados por Dactes, JLZ e Nansy Silvvz em torno dos gêneros R&B, soul e blues, que são muito utilizados na música negra norte-americana. Além disso, é possível perceber uma sonoridade bem próxima a de grandes artistas como o The Weeknd, mas com um belo toque de música brasileira, usando samples de Gal Costa e Vinícius de Moraes. Também possui uma influência das raízes africanas, principalmente religiosas, que o cantor carrega até em seu nome artístico.

Sinto Tanta Raiva… dá o start no álbum com trechos instrumentais evocativos do jazz e fala sobre as nuances de como receber e dar afeto sendo um homem preto, especialmente nessa faixa introdutória, em que afirma: ‘Eu sinto tanta raiva que amar parece errado’. A solidão do homem negro, muitas vezes é menos discutida – inclusive foi tema do filme ganhador do Oscar, Moonlight (2016) – e que enfrenta o adicional da cultura da masculinidade tóxica, que ensina os homens a não expressarem seus sentimentos.

Em Dois Amores, Baco explora um espaço mais religioso com a Umbanda, onde utiliza um ponto de Pomba-Gira para complementar sua canção, e faz uma interpolação – uso de uma melodia já existente com uma nova letra – de Streets da Doja Cat. Para quem acompanha o rapper por conta do hit Te Amo Desgraça (2017), o álbum QVVJFA fornece uma munição romântica e até mesmo sexual bem similar nas faixas Cigana 20 ligações. Além disso, em Mulheres Grandes, o artista traz uma visão mais sacana de si cantando que ‘mulheres grandes demais, com desejos gigantes, não servem para ser amantes’.

Samba in Paris, feat com a Gloria Groove, é a música mais ouvida do álbum até agora no YouTube, com mais de 530 mil visualizações, e esse destaque se deve a essa belíssima R&B envolvente com uma rima impecável da Gloria, fazendo com que seja o ápice do amor. E a sétima canção, Sei Partir, possui outra parceria, mas com Muse Maya, e mais uma interpolação, mas dessa vez do próprio Baco, com a música Kanye West da Bahia, uma parceria com Bibi Caetano e Deekapz.

Em Autoestima, Baco foge da dor enquanto procura o amor próprio que afirma ter sido roubado, e que demorou 25 anos para se achar bonito. Essa canção reflete o estereótipo de que o homem negro só é bonito quando possui um corpo definido, e isso possui uma relação direta com a mudança de visual recente do cantor.

A música de Baco Exu do Blues levanta questões relevantes que vêm sendo mais discutidas nos últimos anos. Os corpos negros sempre foram animalizados e objetificados, justamente porque a sociedade tardou a agregar valor a eles. As mulheres, por muitas vezes, eram vistas apenas como bons corpos para a reprodução e que não têm necessidade de afeto. Já os homens, eram aqueles bem-dotados. Ambos, hipersexualizados.

Dessa forma, apesar das mudanças em que a sociedade passou ultimamente com estudos e movimentos antirracistas, ainda prevalece um pensamento associado à valorização da comunidade negra que está atrelado às características físicas. Muitas pessoas ainda acreditam que para serem aceitos e considerados bonitos e desejáveis, é necessário ter um corpo dentro dos padrões estéticos e o mais próximo da branquitude, como pele mais clara, traços mais ‘delicados’ e cabelos com uma textura mais lisa.

A gordofobia dentro da comunidade negra se mostra como um problema ainda mais grave do que entre indivíduos brancos, já que os negros devem lidar também com o racismo. Com o lançamento do disco QVVJFA? e a repercussão das fotos de Baco, que mostra o cantor mais magro e musculoso, muitas pessoas começaram a ressaltar a beleza dele, o que já rendeu diversas críticas por parte de alguns internautas.

Lágrimas verte o medo de amar entre os ecos da voz de Gal Costa, sampleada de Lágrimas Negras (Jorge Mautner e Nelson Jacobina, 1974), e uma interpolação de outro clássico brasileiro, Malandragem da eterna Cássia Eller. O clímax do disco é na décima música, Inimigos, com um rap mais sombrio e agressivo, que relembra as obras anteriores do artista. Em seguida, o tema da falta de amor reverbera em Imortais e Fatais 2 – sequência da música original apresentada no álbum Esú – entre sample de versos do afro-samba Tempo De Amor na voz de Vinicius de Moraes (feat Baden Powell, 1966).

No arremate do álbum, o rap 4 da Manhã em Salvador jorra em rimas ágeis o ódio entranhado na jornada de Baco Exu do Blues em busca do amor, incluindo o amor-próprio. O disco ainda traz trechos de Batatinha e Originais do Samba, áudios de personalidades da música da Bahia como Ravi Lobo do Rap Nova Era, JF e Polêmico da Banda O Metrô e o ator Leandro Ramos.

Essa obra já conquistou feitos importantes para o cantor, onde superou a marca de 2 milhões de plays em menos de 24h no Spotify, e todas as 12 faixas na lista das 100 mais ouvidas na plataforma. Também foi reconhecido internacionalmente, onde conseguiu ser o quinto álbum mais ouvido nos lançamentos globais do Spotify e também ganhou destaque na mídia, como no HYPEBEAST:

Por fim, o artista usa de combustível a raiva, o romance e o sexo para a construção desse disco que conta a sua história e de todos os negros, com uma pauta de falta do afeto ou do amor, de si e do outro. Em entrevista ao JC, Diogo Moncorvo – nome de batismo – declara: ‘Quem representou o amor por muito tempo, quem fez ele ser válido ao longo da história, foram as pessoas brancas. Parece que esse amor que criaram não foi feito para negros, e isso é um pouco assustador’.

Baco Exu do Blues desenvolveu uma arte tão profunda, ao ponto de qualquer ouvinte se emocionar e se questionar: Quantas Vezes Você Já Foi Amado?

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