[CRÍTICA] ‘O Beco do Pesadelo’: A Reflexão de Del Toro Sobre os Limites da Ganância Humana

Após quatro anos do sucesso de seu último filme A Forma da Água (2018) o diretor mexicano Guillermo Del Toro volta à Holywood com um remake do filme de 1947 Nightmare Alley (aqui no Brasil com o nome O Beco das Almas Perdidas), e os fãs do diretor puderam checar em primeira mão a interpretação do mexicano sobre o clássico. 

Filme De Guillermo Del Toro Sobre O Beco Do Pesadelo Ganha Nova Data De  Lançamento - DESIGNE
Poster do filme de 1947 que no Brasil chegou com o título Beco das Almas Perdidas

A história, que trata-se de uma adaptação do livro homônimo de William Lindsay Gresham, segue Stanton Carlisle (Bradley Cooper) um jovem atormentado por um passado obscuro que se junta a um circo para trabalhar como ajudante. Sempre observador, prestativo e com certa pose de bom moço, Stan conquista seus colegas de circo, principalmente o casal de mentalistas Zeena (Toni Collette) e Pete (David Strathairn), que logo lhe passam todos os conhecimentos que utilizam em seu show de adivinhação baseado no charlatanismo. 

Apaixonado pela colega de circo, Molly (Rooney Mara), e almejando crescer na vida e proporcionar uma melhor condição à ele e sua amada, o ambicioso Stan logo percebe que os truques de Zeena e Pete podem ser utilizados a seu favor e convence Molly a sair do circo rumo a Nova York, onde passa a aplicar golpes como falso clarividente para a elite local. Sua cobiça aumenta quando conhece a psicanalista Lilith Ritter (Cate Blanchett), uma mulher tão ambiciosa quanto Stanton. Ambos começam a trabalhar juntos para aplicar um golpe em um magnata da cidade, até que as coisas começam a dar errado para o anti herói.  

O Beco do Pesadelo" assume clima de terror em novos trailers
Staton em um de seus shows de falsa clarividência / Imagem Divulgação

Um clássico conto de Ícaro, que narra a ascensão e queda de um personagem, O Beco do Pesadelo pode surpreender o espectador que chega aos cinemas esperando um terror fantasioso (devido ao nome do título), ao melhor estilo do diretor mexicano, mas se depara com um suspense noir dramático e reflexivo, que tem em seu cerne uma fábula sobre os limites da ganância humana ao trazer a história de um jovem atormentado, mas ganancioso e cego que toma escolhas duvidosas em busca da grandeza e de distanciar-se de um passado traumático. Del Toro (que co-escreveu o roteiro em parceria com Kim Morgan) traz em seu filme um verdadeiro conto moral sobre a personalidade humana de forma subjetiva, diferentemente do literalismo de suas outras obras, onde a monstruosidade humana era sempre mostrada na forma de criaturas e universos fantásticos. 

Apesar da surpresa pelo nome do título, o roteiro é um pouco previsível, sendo possível entender nos primeiros segundos que muitas das ações do protagonista se pautam em seu passado misterioso e profundo. E logo quando os primeiros passos do plano de Stan e os traços de sua personalidade passam a aparecer na tela torna-se previsível qual será o final de sua jornada. Fato que não é de todo ruim, já que é o caminho para sua ruína que prende o espectador e o atrai pelo absurdo da história.

Seu desenvolvimento é lento e gradual, repleto de contextualizações e ambientações, o que faz com que suas duas horas e meia de duração, divididas em três atos claros,  pareçam longuíssimas. Apesar da lentidão da trama e da extensa duração – desnecessariamente longo vale pontuar – O Beco do Pesadelo é um bom filme, mas que exige certa dose de paciência que talvez não seja do agrado de muitos espectadores acostumados aos filmes frenéticos e cheios de viradas rápidas de mesa dos heróis da Marvel. Uma jogada audaciosa do diretor mexicano e de sua equipe de produção, que optaram por trazer uma narrativa gradual em tempos de cinema frenético.

O elenco conta com, além de Bradley Cooper interpretando o protagonista, Cate Blanchett, Rooney Mara, Toni Collette, David Strathairn, Willem Dafoe, Richard Jenkins e outros nomes de peso. Bradley Cooper conquista entregando uma boa (apesar de não ser sua melhor) atuação para o vigarista sem escrúpulos, porém profundo, Stanton Carlisle e Cate Blanchett encarna de forma brilhante a personalização da figura de femme fatale – elemento importado das produções noir dos anos 40 – em sua doutora Lilith. A atriz domina as cenas e atrai os olhares na tela, apesar do protagonismo ultra centrado em Bradley Cooper, que atrapalha, de certa forma, o desenvolvimento de sua personagem e dos demais. A química entre ambos funciona e dá corpo à narrativa do segundo e terceiro atos. Willem Dafoe, ainda que apareça em pequenas participações, trás um excelente Cleim, já Rooney Mara e sua ingênua Molly não impressionam, talvez pelo fraco desenvolvimento da personagem.  

O Beco do Pesadelo' tem elenco rico e Del Toro de volta à sua boa forma -  26/01/2022 - Ilustrada - Folha
Rooney Mara e Bradley Cooper contracenando em O Beco do Pesadelo (2022) / Imagem Divulgação

Assim como seus demais longas, o filme segue a primazia pela direção de arte e fotografia, parte da assinatura do diretor e elemento que cria grandes expectativas em torno de suas obras. Guillermo Del Toro sempre foi conhecido por seus filmes esteticamente belos que flertam com o fantástico e preenchem o imaginário da audiência. O mexicano sempre foi excelente em contar histórias através de elementos imagéticos (como a cenografia, o figurino e a direção de arte como um todo) abusando dos recursos cinematográficos, e apesar de diferente, sem todo o exagero fantasioso clássico dos filmes do diretor, O Beco do Pesadelo não perde seu charme e o apelo estético característico de seus trabalhos. 

Del Toro é preciso, trazendo ao filme a atmosfera noir que pede a história através de jogos de câmeras, luz e sombra e ambiguidades que fazem alusão ao gênero, pincelando as cores da história com tons mais escuros de azul, dourado e leves acinzentados à medida que a trajetória de Stan muda de ambiente. 

As cenas iniciais do longa já trazem toda a atmosfera noir que perdura durante todo o filme, resultando em uma primeira impressão chocante à audiência que já está acostumada com a estética do diretor. Logo nos primeiros momentos o personagem de Bradley Cooper é rodeado por um cenário repleto de sombras e escuridão, de seu rosto pouco se vê, e Stan passa os primeiros minutos do longa sem dizer nenhuma palavra. É clara, a partir daí, a homenagem do diretor aos personagens masculinos clássicos de filmes do gênero: misteriosos e sombrios.

O figurino do filme, seguindo a premissa, entrega uma verdadeira ode aos clássicos noir dos anos 1940, sem perder a assinatura e identidade visual características de seus antigos trabalhos, principalmente nos figurinos de circo.

Staton Carlisle se veste como o clássico vigarista da década de 40, utilizando até mesmo o indispensável chapéu cobrindo parte de seu rosto. Já Cate Blanchett foi vestida como a própria femme fatale, com direito a vestidos pretos sensuais e batom vermelho.   

O Beco do Pesadelo” é uma produção sofisticada, mas com desenvolvimento  raso | Crítica
Bradley Cooper e Cate Blanchett como Stanton Carlisle e Lilith Ritter: homenagem ao cinema noir é vista também no figurino /Imagem Divulgação

Mesmo com tal mudança estética palpável, continua sendo um belíssimo filme aos olhos, ainda que o caráter fantástico do diretor esteja menos acentuado e mais diluído, aparecendo em poucos momentos da trama. É justamente nos primeiros momentos do longa, quando Carlisle ainda é um ajudante de circo, onde a assinatura visual do diretor mais aparece. As atrações apresentadas, os figurinos dos colegas de circo e toda a ambientação cenográfica se aproximam muito daquilo que vemos em seus antigos trabalhos.

Em um de seus primeiros momentos no circo, quando o “geek” (pessoa, geralmente usuária de drogas, que é capturada pelo circense para ser utilizada como atração) de Cleim (Willem Dafoe) foge de sua jaula e Stan, ajudando a caçá-lo, acaba por entrar em uma das atrações do circo é onde é possível enxergar aquilo que estamos acostumados a ver de Del Toro, ainda que permeado por uma atmosfera noir muito mais sombria.   

Bradley Cooper em cena da caçada ao “geek” em O Beco do Pesadelo (2022) /Imagem Divulgação

Em suma, O Beco do Pesadelo trata-se de um suspense e drama soturno ao melhor estilo noir e foge em partes das características que deram fama à Del Toro. Desta vez, o fantástico que ele sempre busca retratar não é tão presente – como se pode ver em suas criaturas em O Labirinto do Fauno (2006) e A Forma da Água – mas sim trata-se de uma abordagem mais realista e sutil do seu universo fantasioso. O diretor, no entanto, não perde o lado moral de contar as suas histórias, sempre trazendo à tela uma fábula que gera reflexão ao seu final, porém, desta vez, o filme possui um viés mais pessimista – seguindo a característica noir da trama – e um pouco mais escancarado e obscuro do que suas antigas histórias. 

O longa talvez não seja o melhor trabalho do diretor mexicano, mas é um de seus mais ambiciosos. Del Toro tentou sair de sua zona de conforto, e apesar de não ser brilhante, sua mais nova empreitada tem, no geral, um saldo positivo. 

Mesmo que cansativo e um pouco previsível O Beco do Pesadelo é um filme que vale a pena ser assistido. Até porque, fábulas morais que refletem sobre as facetas da personalidade humana são sempre bem vindas no cinema, e o longa de Del Toro endossa a importância de se utilizar de contos morais para propor a reflexão de até onde o mal caratismo humano pode chegar. E porque não fazer essa reflexão em um filme belo e primoroso que flerta com o fantasioso e o obscuro e que está nas mãos de um dos melhores diretores em atividade na atualidade? Só por esta razão, não há motivos para não vê-lo. 

Confira o trailer:

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