Conhecer no pretérito perfeito

Sabe qual é a conjugação mais solitária de todos os tempos? “Conhecer” no pretérito perfeito. Conhecia, conhecias, conhecia, conhecíamos, conhecíeis, conheciam. É como o final de uma história inacabada. É deixar parte da sua narrativa para atrás. É desconhecer o conhecido.

“Conhecer” no pretérito perfeito é doloroso e horrível. Você não quer aceitar que a pessoa na sua frente não é mais aquela que você conhecia; que a situação ou lugar que você se encontra não é o mesmo daquele que antes te confortava. Você se sente abandonado, como se o mundo todo tivesse continuado a andar e você estivesse paralisado no mesmo lugar. E o pior: ninguém está lá para te ajudar porque eles nem perceberam que você ficou para trás.  Esse é o sentimento de desconhecer o conhecido.

É a impossibilidade dentro da possibilidade. É a perda voluntária e involuntária ao mesmo tempo. Essa pessoa se afastou ou fui eu que não me esforcei o bastante? Esse lugar cresceu ou fui eu que diminuí? Por que é que diminui? Por que é que não estou me esforçando? Por que não estou crescendo e mudando junto? “Eu conhecia” é ficar constantemente questionando todas as escolhas que te levaram até o momento presente. 

Ao mesmo tempo, é aceitar que o que aconteceu é do passado. Aquilo ou aquele não faz mais parte de quem você é agora, e sim de uma história guardada em uma memória quase impalpável. E talvez o pior de tudo é ter que se acostumar com o “conhecia” – aceitar que aquele local (seja ele físico ou emocional) não vai ser mais frequentado, que aquela situação não vai se repetir mais uma vez, que você nunca vai se relacionar com aquela pessoa da mesma maneira. São milhares de pequenas mudanças acarretadas pelo ato de desconhecer o conhecido. 

Colagem por Cecília Young

É como esvaziar uma piscina. Ela está cheia de memórias, mas, no momento que todo o seu conteúdo é extraído, você não tem nada além de um buraco vazio e triste. Pular em uma piscina vazia vai te machucar, assim como perceber que o “conheço” passou para “conhecia”.  Encher a piscina de novo vai dar trabalho, mas você não tem outra opção. Não tem como nadar em nada por muito tempo. Você vai ter que abandonar o que conhecia ou conhecê-lo novamente, de uma maneira diferente. 

Do dia 30 de dezembro de 2021, sobre esse sentimento impossível:

“Hoje está foda. Foda de verdade. Acho que estou percebendo que o tempo está passando e que não estou conseguindo acompanhá-lo. E, se estou sendo honesta, não quero acompanhar. Estou exausta. Quero que a vida me deixe em paz, que ela simplesmente pare de me atormentar. Estou cansada de pedir isso. O tempo poderia parar e me deixar onde estou. Com quem estou. Como estou. Sei lá. Só me deixe em paz. Me deixe respirar um pouco e aproveitar o agora – está rápido demais.

Odeio fins de ano. Odeio começar de novo. Tenho medo. Quero ficar aqui no habitual, no velho. No que eu gosto e que gosta de mim. Não me faça sair daqui. E, pior que isso, não tire ninguém que eu ame daqui. Sinto que estão me deixando por escolha própria. Deixar no sentido de mudar. Estão todos entrando nessa onda de mudança enquanto estou afogada tentando chegar na superfície. Estão cada vez mais longe. Não culpo ninguém. Não posso culpar ninguém. Tenho que deixá-los me deixar. Dane-se se perco alguém que podia contar sempre. Posso ainda contar com eles de formas novas e diferentes. Novas e diferentes. Essas palavras me machucam.”

Escrevi isso quando percebi que várias coisas e pessoas que conhecia haviam se transformado em estranhos. Acho que esse deve ser um sentimento universal, não? Se sentir perdida por não conseguir se encontrar dentro da sua realidade. Conversar com alguém que era próximo e perceber que não existe mais assunto. Deitar-se na sua cama de infância e perceber que ela não é tão grande e confortável quanto era antes. Esse tipo de coisa. Ir do “conhecer” para o “conhecia”.

Pode ser argumentado que isso simplesmente faz parte do jogo da vida – coisas e pessoas mudam toda hora e não tem nada que possamos fazer sobre isso. Faz parte da vivência humana. Mas isso não quer dizer que não é dolorido, que não machuque perceber o que você perdeu durante o tempo. O que antes você amava e que agora nem reconhece mais. 

Não precisei contar nenhuma história para comunicar esse sentimento, né? Qualquer um que esteja lendo esse texto já passou por isso. Às vezes, o “conhecia” é menos dolorido. É descobrir que uma sorveteria que você adorava fechou. Às vezes, ele é um sufoco. É perceber que uma conexão com uma pessoa que você ama não existe mais. Ambas as situações são normais, por mais desconfortáveis que elas sejam. É preciso aprender que o sentimento passa, que novas coisas vão ser conhecidas e desconhecidas. Esse é o ciclo.

4 comentários em “Conhecer no pretérito perfeito

  1. Cara, esse texto veio na hora certa! Eu me mudei de casa ano passado. Morei no meu apartamento antigo dsd 2011, quando vim para salvador, mudar foi louco. Perceber que aqueles cenários onde eu cresci não serão mais os mesmos é louco. E a sensação de mudança é mais louca ainda. Em 2020 com a pandemia eu perdi uma pessoa importante(psicologicamente), e estar naquela casa de alguma maneira me lembrava a ele. Eu percebi que quando eu decorei meu quarto novo, eu consegui me desapegar de tudo que me lembrava a ele, ou me fazia me lembrar da minha versão que só existiu com ele e por causa dele. Em 2024 eu irei para Minas Gerais, um estado diferente, cidade diferente, vida diferente. Sair de Salvador me dá um frio na barriga e a possibilidade de ter que criar tudo novamente mais ainda. É louco. Viver é louco e ser mais ainda. Espero que eu consiga criar novos roteiros nessa nova vida. E de coração, obrigada pelo texto, abriu muito meus olhos. Às vezes no crescimento a gente tem que parar de conhecer, e perceber que isso faz parte.

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