O destaque das mulheres na música

A história das artes envolve uma breve participação feminina. Ofuscadas pelo forçado protagonismo masculino, sua integração na música ainda nos dias atuais é pequena quando considerada a dimensão da indústria musical e as áreas de atuação que uma mulher, potencialmente, poderia ocupar.

Quando nos palcos, as que detém os holofotes ainda precisam suportar as pressões externas e internas em constante busca de atingi-las por todos os lados, enquanto aquelas que preferem os bastidores mal são estimadas para qualquer vestígio de participação. De uma maneira ou de outra, a indústria musical se mostra carregada de um sexismo prejudicial à integralização feminina no cenário.

Mulheres e (quase) um século de música

Como processo de industrialização, o acúmulo de pessoas responsável pela urbanização transformou a maneira de difusão da cultura, ou seja, também da música. É nesse cenário do século XX, que os principais gêneros musicais surgem e começam a se propagar. Acompanhe os destaques femininos entre os anos de 1930 e 2020 e a evolução musical.

1930 a 1949

Billie Holiday, na época, se consolidava como uma das vozes do jazz. Com um timbre inigualável, Holiday é um inspiração até os dias de hoje e sua arte, atemporal.

Na mesma década, Carmem Miranda, símbolo da música brasileira, lançava a famosa canção O que é que a baiana tem? (1939), perpassada por gerações.

Com a virada da década, o jazz recebeu mais uma lenda com o nascimento da memorável Ella Fitzgerald, premiada e condecorada. Aretha Franklin igualmente desempenhou um papel de suma importância através da música, o que acarretou em honrarias à sua arte e um lugar definitivo na narrativa do R&B e do jazz, além de, é claro, na música Gospel.

1960 a 1979

A carreira de Maria Bethânia, tesouro nacional da Música Popular Brasileira (MPB), iniciou em 1965. Um selo de sua consagração veio com as obras musicais Cheiro de Amor (1979), e com As Canções Que Você Fez Para Mim (1993).

No Brasil dos anos 60, com o surgimento da Tropicália, um movimento cultural importante para a arte nacional, Gal Costa surgiu como mais um patrimônio da MPB. Sua canção de maior visibilidade, Baby, foi lançada em 1969. Posteriormente, deu vida ao embalo Lágrimas Negras, de 1974.

Os Mutantes, banda com destaque de Rita Lee, considerada rainha do rock nacional, se formou em 1966 e, mais tarde, Lee optou pela carreira solo. Hoje, a artista também faz parte da história da música brasileira.

Janis Joplin surgiu no cenário no rock nos anos 60 e, após uma década intensa de trajetória próspera no sucesso, faleceu. Joplin deixou o álbum Pearl (1971), lançado postumamente, que, até hoje, é um fenômeno em nome de seu legado.

A genial e insuperável Elis Regina se consagrava, na era, com Águas de Março, ao lado de Tom Jobim. Em 1976, eterniza sua voz na obra musical Como Nossos Pais.

O grupo suéco ABBA, cujas vocalistas eram Agnetha Fältskog e Anni-Frid Lyngstad, se preparava para lançar músicas que jamais saíram de moda e, no presente, transcenderam à validade do tempo e conquistaram uma nova geração sob o efeito das vozes únicas da dupla feminina.

1980 a 1999

Uma enorme efervescência tomava conta da indústria musical da época. A gloriosa canção Girls Just Wanna Have Fun (1983) ofereceu a Cindy Lauper um lugar na memória do pop, bem como com Total Eclipse Of The Heart, do mesmo ano, de Bonnie Tyler.

Madonna, a rainha do pop, nascia na música com seu álbum homônimo de estreia (1983). No ano seguinte, lançou Like a Virgin (1984), um dos maiores feitos de sua carreira. A artista liderou o gênero pop e revolucionou a indústria ao apresentar uma percepção da feminilidade atrelada à liberdade sexual.

No Brasil, Daniela Mercury lançava O Canto Dessa Cidade (1992), cuja canção que dá nome ao álbum foi transformada em um fragmento histórico da cultura brasileira, e parte integral do carnaval nacional. Em 1994, Cássia Eller, em seu terceiro álbum de estúdio, com seu próprio nome, soltou a voz na canção originalmente de Cazuza, Malandragem, e conquistou a nação. Em 1999, um pedaço de sua genialidade, a canção O Segundo Sol, nasceu e foi herdada pelas gerações que se seguiram.

Nos anos 90, Mariah Carey fez seu debute com um álbum homônimo, mas alcançaria sucesso apenas mais tarde. Dentre suas canções de maior relevância, está All I Want For Christmas (1994), que se tornou um clássico do natal e alcança o topo das paradas anualmente no mês de dezembro.

As Spice Girls, em 1996, lançaram Wannabe, trilha sonora da vida de adolescentes da entrada do século. Os anos 90 foi responsável por uma alteração no cenário da música que inseriu, em maior grau, as mulheres, com ênfase no contexto da cultura pop. Alguns exemplos são Vogue (1990), da Madonna, My Heart Will Go On (1997), de Celine Dion, If You Had My Love (1999), de Jennifer Lopez, e Genie In a Bottle (1999), de Christina Aguilera.

As Destiny’s Child, grupo composto por Beyoncé, Kelly Rowland e Michelle Williams, alcançaram o sucesso com as canções Say My Name (1999) e Bills, Bills, Bills (1999). Britney Spears, com suas músicas voltadas para o público adolescente, foi um fenômeno entre os jovens. A junção entre os sucessos …Baby One More Time (1999) e Oops!… I Did It Again (2000), seu estilo característico e uma atitude única, Britney fez história.

2000 a 2009

A virada do século, com um mundo ainda mais integrado e a ascensão definitiva da internet, a cultura iniciou o processo de adoção uma difusão com alcance global. Houve o surgimento de nomes atualmente familiares, como Avril Lavigne, Pink, Pitty, Fergie, Kelly Clarkson e Alicia Keys. As mulheres, agora com um espaço maior, dominavam, principalmente, a cultura pop.

Rihanna debutou com um álbum de estúdio, Music of the Sun, em 2005, no qual explorava uma junção de diversos gêneros de sua influência pessoal como artista. O dance-pop produzido por ela reforçou um espaço no novo cenário cultural.

Lady Gaga, com seu estilo excêntrico, conquistou admiradores pela originalidade. O álbum de estúdio, The Fame (2008), foi o bastante para servir como indicador do símbolo que Gaga se tornaria para a música global.

Uma das vozes mais potentes da geração, Adele debutou com o disco 19 (2008). As incontáveis quebras de recordes, canções emocionantes e voz inigualável levaram-na com consistência por mais de uma década de carreira inabalável.

Fora das Destiny’s Child, Beyoncé iniciou a carreira solo sem conhecimento do poder que teria no futuro. A lista de canções marcantes é interminável, porém ela se destaca pela nova abordagem artística na década seguinte, ao tornar sua arte diretamente política. Com letras carregadas de significado, a artista introduziu questões indispensáveis sobre gênero e raça em suas canções, com ênfase na obra Lemonade (2016). Ainda, se tornou a artista geral com maior quantidade de Grammys vencidos (28).

2010 a 2020

Se os anos 2000 funcionaram como uma adaptação ao conceito virtual, a década dos anos 10 marcaram a transformação do digital como uma extensão da realidade. Logo, uma integralização ainda mais agressiva e uma facilidade abrupta de difundir informações e culturas. Os nomes de destaque foram Nicki Minaj, Katy Perry, Ariana Grande, Miley Cyrus e Demi Lovato, com ênfase, ainda, na cultura pop. No Brasil, Paula Fernandes, Anavitória, Ludmilla e Iza embalaram a década com suas músicas.

Anitta, hoje lançada internacionalmente, iniciou a carreira em 2010. O primeiro sucesso veio com Meiga e Abusada (2012), seguido por Show das Poderosas (2013). Atualmente, Anitta possui canções em outras duas línguas e é requisitada por premiações pelo mundo.

Com o segundo álbum de estúdio, Fearless (2008), no gênero country, Taylor Swift conquistou o prêmio de Álbum do Ano no Grammy de 2009. Ao transitar para o pop, venceu novamente a categoria em 2015 com 1989 (2014). Mais tarde, em 2021, conquistou pela terceira vez um gramofone na categoria, novamente em um estilo musical distinto, com o álbum alternativo folklore (2020). Dessa forma, Swift se consagrou como a única artista feminina a obter a honraria três vezes, além de em três gêneros divergentes. Seu impacto cultural na década a rendeu o prêmio Woman of the Decade pela Billboard.

Outro destaque foi a artista Lana Del Rey, que dominou a música indie alternativa no início da década e colaborou com uma popularização do gênero ao um público mais extenso. Seus grandes sucessos Summertime Sadness, Video Games e Born To Die, dos disco Born To Die (2012), a tornaram uma das maiores cantoras do gênero. Del Rey recebeu seis nominações ao Grammy por seus trabalhos impecáveis.

A produção do espetáculo: mulheres dos bastidores

A indústria musical possui sua grandeza externada pelo glamour dos rostos bonitos, de vestidos de grife, as premiações marcantes e as festas intermináveis. Na superfície, é simples concentrar o olhar a esse fragmento raso e ainda mais comum que todo o brilho dos trajes debaixo dos holofotes de palcos em estádios esgotados ofusque a história de resistência carregada por todas as responsáveis por erguer esses cenários incandescentes.

Apesar de haver uma quantidade expressiva de artistas femininas que, hoje, dominam as principais paradas mundiais e que saem das cerimônias de premiação com os braços preenchidos por troféus, existe, igualmente, uma estrutura de inúmeras outras mulheres dentro do esquema que entregou o resultado final responsável pela estatueta. Ou ao menos deveria haver.

Professoras de música, compositoras, musicistas, maestrinas, pesquisadoras da música, críticas musicais, engenheiras de som, produtoras musicais, técnicas de som, backing vocals e muitas outras profissionais fazem parte do corpo responsável pelo produto final. A trilha sonora de um filme ou a canção ecoando nos fones de ouvido passam pelas mãos de colaboradoras que, incansavelmente, moldam desde as músicas menos conhecidas até as que entram para a história.

Conheça algumas das mulheres que não se abateram pelos números limitantes e ocuparam seus espaços na história:

Profissionais femininas e a exclusão da indústria

Dotadas de conhecimento na área, sua participação não está nem mesmo perto de ser majoritária no espaço. Divulgada em 2020, a pesquisa Inclusion in the Recording Studio realizada pela plataforma de streaming Spotify e pela USC Annenberg, da Universidade do Sul da Califórnia, apresentou dados entre 2012 e 2020 relacionados à atuação feminina na indústria musical.

Dentre os números, destacam-se as artistas como compreendidas pela parcela de 21.6% do todo, compositoras como 12,6% e as produtoras como surpreendentes 2,6%. Isso significa que 79,4% dos artistas, 87,4% dos compositores e 97,4% dos produtores são homens. Ainda, ao realizar intersecções que permitem expandir o entendimento dessa problemática, mulheres racializadas encontram ainda mais dificuldade de inserção nesse espaço, independentemente de em qual segmento escolham atuar.

Após avanços significativos sobre a compreensão do papel social da mulher e a série de revoluções que têm marcado seu pensamento em relação à posição no coletivo, é possível ainda enxergar com clareza as disparidades de gênero na indústria musical. 

A história continua

No documentário Miss Americana (2018), Taylor Swift disse: “As artistas femininas que eu conheço se reinventaram vinte vezes mais que os artistas masculinos. Elas precisam ou perdem seus empregos. Constantemente tendo que reinventar. Constantemente encontrando novas facetas de si mesmas que as pessoas achem brilhantes”. As profissionais que se desdobram para conseguirem algum lugar ao sol exemplificam o esforço para não serem descartadas nesse ambiente. 

Nociva, excludente e seletiva, toda a estrutura cultural demonstra sem sutileza sua predileção pela figura masculina para a ocupação de cargos de autoridade. A indústria musical apresenta vigorosamente como, seja sobre o palco, seja nos bastidores, as mulheres não são permitidas ou como devem ser apagadas da narrativa da história. Felizmente, esse contexto tem sido desfeito e, cada vez mais, as mulheres da música recorrem àquelas que as antecederam para compreenderem como reafirmar seu espaço. Dessa forma, a história fará parte do presente e do futuro como referência para recuperar o vigor necessário para continuar a produzir arte acima de tudo.

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