Decifrando Aläia de Azzedine à Pietter Mulier: os códigos, a história, o legado e o futuro

Uma das principais tendências que a Frenezi apontou para o Inverno 2022 foram os capuzes à la Aläia, desfilados por marcas como Dion Lee, Michael Kors e Rick Owens. Fluido e alongado, o elemento fez parte dos códigos clássicos da maison comandada por Azzedine Aläia, estilista-ícone turco que deixou para trás um legado de peso em 2017, quando faleceu.

Mas não é à toa que esse elemento apareceu repetidas vezes nas passarelas: em julho do ano passado, a Aläia nomeou o seu primeiro diretor criativo desde a morte de Azzedine. Pieter Mulier foi o nome escolhido para o cargo, e a reativação da marca parece ter trazido de volta o legado de Azzedine para os moodboards dos mais variados estilistas — dentre eles, os três citados anteriormente.

Inverno 2022 de Dion Lee, Michael Kors e Rick Owens / Imagem: [Reprodução/Vogue Runaway]

Desde então, Mulier já apresentou duas coleções e vestiu celebridades como Zendaya e Liya Kebede, sendo a última para a recente premiação dos Oscars 2022. Ele também é marido de ninguém menos que Mathiew Blazy, nome escolhido recentemente pela Bottega Veneta para suceder Daniel Lee e sua era dourada na marca. Blazy fez sua estreia na Bottega mês passado, com uma coleção aclamada tanto pelo público quanto pela crítica e onde Mulier estava sentado na primeira fila.

E como na moda qualquer pequeno buzz e movimentação é motivo de atenção, esse talvez seja o momento certo de destrinchar a estética e o legado de Azzedine — os capuzes desfiados por Rick Owens, Dion Lee e Michael Kors podem ser apenas a ponta do icerberg de uma série de referências futuras ao estilista por outros designers e de uma possível re-estabilização da Aläia como uma das principais marcas da temporada parisiense.

Abaixo, entenda a história, o legado e o futuro da maison.

História

Azzedine nasceu na Tunísia entre o início e o final do nosso século — ele costumava não revelar sua idade, por mais que saibamos que o estilista veio ao mundo em 1935 — e foi criado por sua avó, que foi quem inscreveu o neto na academia de Belas-Artes logo cedo aos 16 anos. O sonho do estilista era ser escultor, o que de fato viria a ser a sua profissão dentro da moda mais tarde — Azzedine pode até ser considerado um estilista, mas o título de “escultor da carne humana”, como classifica o biógrafo François Baudot, parece lhe servir melhor.

Azzedine Aläia fotografado por Jean-Baptiste Mondino / Imagem: [Reprodução/Fundação Aläia]

Isso porque Aläia manipulava os tecidos e as agulhas como ninguém, corrigindo “imperfeições” do corpo feminino e realçando suas belezas. De onde veio esta aptidão? Do mesmo lugar que lhe direcionou da Arte para a Moda: a clínica de Madame Pineau, a parteira de seu bairro.

Ela conservava em seu local de trabalho as revistas de moda que o designer apreciava, e Azzedine lhe servia de assistente: esquentava a água e carregava as toalhas. Foi durante os partos que Aläia aprendeu ainda jovem a cuidar do corpo das mulheres e respeitá-lo; e era durante os intervalos entre um e outro que o até então futuro escultor mergulhava nas revistas de Paris, admirando os belos vestidos e tendo a certeza de que era ao lado e para aquelas mulheres que ele gostaria de trabalhar.

Quando finalmente obteve a permissão de sua avó para ir a Paris, Azzedine se apresentou na maison Christian Dior, onde trabalhou por apenas 5 dias em decorrência de problemas com seus documentos legais — era época da Guerra da Argélia, a mesma que fez Saint Laurent sair da também mesma maison para servir ao exército.

Depois disso ele chegou a trabalhar duas estações para o estilista Guy Laroche, até se firmar em um endereço próprio na rua de Bellechasse. É lá que ele cultiva um clientela elegante e discreta e faz suas experimentações têxteis para enfim, em 1980, lançar suas primeiras coleções.

Códigos e filosofia

Entre infinitas assinaturas e códigos clássicos, talvez a principal característica do trabalho do designer não seja exatamente um modelo ou adereço em si — por mais que ele tenha vários — mas sim a impecabilidade de seus designs e a atemporalidade dos mesmos. Carlyne Cerf, stylist de carreira renomada conhecida por ter assinado a primeira capa de Anna Wintour para a Vogue Americana, foi quem melhor soube definir o estilo do estilista: “absolutamente nada dele sai de moda”.

Azzedine não estava interessado em tendências e muito menos no que seus colegas de profissão estavam fazendo. Ele era um perfeccionista nato, interessado em atingir o corte e a modelagem perfeitas e em desenvolver roupas pensadas no movimento dos corpos e na anatomia humana, com as costuras feitas de maneira a contornar o corpo. Tudo isso ele fazia se utilizando principalmente da cor preta e do couro, o que garantia sofisticação e atemporalidade aos looks.

Mesmo assim, alguns elementos são fortemente associados ao seu trabalho: os já mencionados capuzes fluidos e acoplados às peças, o body em lycra, o uso de tecidos elásticos, o zíper enquanto adorno, o drapeado em colmeia de abelha, o cinto-espartilho em couro recortado e a pele animal exótica são alguns exemplos.

Verão 1990, Verão 1992 e Inverno 1992 Aläia da esquerda para a direita / Imagem: [Reprodução/Vogue Runaway]

O inventor das supermodelos

Para Suzy Menkes, importante crítica e jornalista de moda, foi Aläia quem inventou as supermodelos antes de Gianni. É isso que ela diz em Aläia by Joe Mckenna’, documentário sobre o estilista produzido por um dos mais importantes e influentes stylists do mundo.

De fato, Aläia não só possuía todas as principais modelos da época em seus castings — dentre elas Linda Evangelista, Helena Christensen, Veronica Webb, Cindy Crawford e Naomi Campbell — como também mantinha uma relação de amizade e confiança com cada uma: saia para levá-las ao médico, cozinhava para elas e dava infinitos conselhos. Muito além de uma relação de musa e criador, Azzedine era como um pai para estas meninas.

Supermodelos posam vestidas de Aläia / Imagem: [Reprodução/Fundação Aläia]

Para Naomi essa relação era ainda mais intensa: o estilista praticamente adotou a supermodelo como filha, sendo chamado de “papa” até hoje por ela. Naomi morou com Azzedine durante anos, tendo o estilista como única figura paterna ao longo da vida — ela só veio a conhecer seu pai biológico aos 41 anos de idade.

Azzedine e o sistema

O legado de Azzedine vai muito além de seu talento, processo criativo e design: o estilista foi um dos únicos de sua época a contestar o sistema da Moda. Azzedine apresentava suas coleções fora do calendário oficial e com poucos convidados. Seus desfiles podiam levar horas para começar em razão do seu perfeccionismo – Aläia só deixava a modelo adentrar a passarela se o traje que ela vestia estivesse perfeitamente ajustado ao seu corpo.

Grace Coddington, famosa editora de moda e ex-braço direito de Anna Wintour, ressalta que muitas vezes o seu perfeccionismo resultava em coleções atrasadas e entregues nas estações erradas para as lojas: “…ele trocava o Inverno pelo Verão ou o Verão pelo Inverno, colocava as roupas nas lojas na hora errada. Mas tudo isso provavelmente por uma boa razão: ele não estava nunca satisfeito com o jeito que uma peça era finalizada, ele era extremamente focado no que fazia.”

Com o tempo a espera para seus desfiles foram ficando cada vez mais demoradas, e talvez este tenha sido o motivo de sua desavença com Anna Wintour, que é internacionalmente conhecida por ser extremamente pontual. “Anna comanda os negócios da moda muito bem, mas não a parte criativa. Eu posso falar em voz alta! Ela nunca fotografou o meu trabalho em 10 anos, mesmo eu sendo um dos designers mais vendidos nos EUA. A mulher americana me ama, eu não preciso do suporte dela! De qualquer maneira, quem vai lembrar de Anna Wintour na história da moda? Ninguém.” foi o que ele declarou de maneira polêmica em 2011 para Vogue Inglesa.

Verdade ou não, o fato é que isto só comprova o quanto o estilista ia na contramão do sistema como um todo: ele apresentava suas coleções no momento em que queria e batia de frente com um dos principais nomes do mercado pois tinha certeza de seu talento e contribuição criativa para a indústria — e era, acima de tudo, um devoto ao seu ofício.

A era Mulier

Mesmo com apenas duas coleções apresentadas até então, Pieter Mulier parece ter sido a escolha certa para dar continuação ao legado de Azzedine e inseri-lo no mundo contemporâneo. Antes de Mulier e após a morte de Aläia a marca continuou entregando coleções desenvolvidas por um time interno, porém feitas de maneira enxuta e com pouca informação de moda.

Ex-braço direito de Raf Simons na Calvin Klein 205W39NYC, Mulier parece saber unir bem o lado comercial com os códigos clássicos da casa e consequentemente mirar em uma audiência mais nova. Nas suas mãos os tradicionais cintos em couro recortado se tornaram braceletes, os capuzes fluidos tomaram forma de balaclavas e os recortes e costuras estratégicas de Azzedine foram adaptados a modelagens atuais, como as proporções midi, e materiais do momento, como o jeans e a pele fake. Ao que tudo indica, este é apenas o início do comeback da marca e da re-estabilização do legado de um dos maiores estilistas de todos os tempos.

Verão e Inverno 2022 da Aläia por Pieter Mulier / Imagem: [Reprodução/Vogue Runaway]

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3 comentários em “Decifrando Aläia de Azzedine à Pietter Mulier: os códigos, a história, o legado e o futuro

  1. o capuz da coperni 22 não é uma referencia ao alaia tb?

    amei o artigo! super informativo sobre a história do azzedine mas também mostrando seu papel como pai das supermodels dos anos 90! a relação dele com a naomi vale um artigo inteiro…

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