Por que ainda nos importamos como Shakespeare?

Texto por Victor Haruo

Uma homenagem ao Grande Mestre

406 anos se passaram entre sua morte e os dias de hoje, porém, sua relevância permanece presente no século XXI. O alcance dos sonetos do dramaturgo é de uma extensão incalculável, com pessoas do mundo todo, de todas as esferas, que leram e assistiram suas peças, ou acompanharam suas adaptações para as telas do cinema e televisão.

Todos os dias contactamos sua poesia; os teatros se enchem com suas performances, os acadêmicos ainda analisam seus textos e sonetos, leitores criam páginas com as mais prolíficas notas de rodapé espalhadas pelo tempo. Obstante sua contribuição como intérprete da condição humana, ele também é patrono da língua inglesa como a conhecemos; a produção literária Shakespeariana inclui a criação de mais de 1700 palavras, utilizadas até hoje. É algo incrível como uma pessoa possa ter tamanha influência em uma língua. O que Shakespeare nos ensinou é que o sucesso advém da criatividade, jogando com a linguagem e encontrando novos meios de comunicação. Shakespeare foi “redescoberto”  no Romantismo do século XIX, inspiração para aqueles grandes romancistas e poetas do fin de siècle como Victor Hugo, Verlaine, Rimbaud, Balzac, Flaubert, Dumas, entre outros.

 Sua dramaturgia é de suma importância na história artística da humanidade, com seus ecos ressoando inclusive — ainda atualmente — também, na arte brasileira. O teatro shakespeariano atracou nas terras brasileiras em 1835, por meio de apresentações de companhias estrangeiras. Todas as peças encenadas eram de traduções portuguesas feitas do francês ou do italiano, geralmente as pátrias dos atores. Alguns escritores brasileiros traduziram o dramaturgo para o português, como Machado de Assis, Álvares de Azevedo e Olavo Bilac. O próprio Machado  revolucionou a literatura brasileira devido, também, à importantíssima contribuição dramática da influência Shakespeariana aos seus romances. Por consequência, não foi pouca a sua influência na nossa literatura tupiniquim, incluindo nesta lista praticamente todos os nomes que encabeçaram o milieu da alta produção literária brasileira no século XIX até a transição do século XX.

Desde então, não há como falar em literatura transformadora, sem incluir Shakespeare como pedra fundamental. Quem de nós não conhece a famosa indagação do príncipe Hamlet: “Ser ou não ser? Eis a questão”.

Esse é o diálogo mais declamado por todos os atores, no palco ou nas telas de cinema. Suas obras são mais atuais que as obras de qualquer outro dramaturgo, escritor ou cineasta contemporâneo,  já que seus versos penetraram profundamente na essência dos temas arquetípicos que permeiam toda a existência humana, onipresentes em quaisquer sociedades, e preenchendo todos os corações humanos, como vingança, orgulho, adultério, amor,  cobiça, magia, poder, sonhos, anjos e fantasmas. Atualmente, em um mundo de mudanças incessantes, onde todos os referenciais existenciais perderam suas bases, tais temas são, talvez, mais relevantes do que nunca.

Aqui está uma seleção de 2 títulos para despertar o interesse daqueles que buscam um ponto de partida:

1 – Hamlet: é a obra de Shakespeare que mais ganhou destaque. A tragédia é baseada num príncipe que busca vingar a morte de seu pai, com uma densa narrativa reflexiva sobre conflitos de família, amores, loucura e sanidade, filosofia, poder, moralidade e todas as circunstâncias da condição humana. O que define a legitimidade do nosso propósito? Os fins justificam os meios? Qual o ponto de tensão entre Direito e Dever? O que acontece quando nossos fantasmas ganham corpo e movimento?

Othello, 1951. Adaptação cinematográfica.

2 – Otelo: a peça estreou em 1604 e levou para os palcos um casamento inter-racial – assunto polêmico para a época!  É uma das mais comoventes tragédias shakespearianas. Por tratar de temas universais – como ciúme, traição, amor, inveja e racismo, ela pode ser ponto de partida para diversas reflexões e interpretações. Hoje em dia, a nossa sociedade é menos preconceituosa? A cor da pele e a nacionalidade de uma pessoa são motivos para exaltá-la ou diminuí-la? É possível listar formas veladas de preconceito comuns no dia a dia? No mundo atual, qual é o peso da aparência? Levamos muito a sério a opinião dos outros a nosso respeito? As postagens nas redes sociais transmitem a imagem do que realmente somos?

Todos os dramas da vida humana desfilam por seus versos como modelos da existência mais básica do que chamamos de humanidade. Munidas com um simbolismo profundo, as palavras de abertura do monólogo de Hamlet são um ótimo argumento para o debate de por que o trabalho de Shakespeare continua a ressoar em cada geração. Além disso, contribuem para a questão de por que ler os clássicos ainda é algo de suma importância. Em uma época de estímulos instantâneos, onde a arte tornou-se indissociável do mero entretenimento, todo e qualquer prazer contemplativo torna-se difícil de cultivar. Em uma época de estímulos de recompensas imediatas, colher os frutos de uma aventura dentro das florestas literatura, é algo  que demanda vontade e esforço.

Porém, tais aventuras valem cada página. Ler ou não Ler? Eis a Questão.

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