[RESENHA] “Conversa Entre Amigos” e os romances modernos

Apesar de Sally Rooney ter ganhado maior notoriedade com Pessoas Normais (2018), especialmente diante da premiada minissérie homônima de 2020, seu primeiro romance foi, na verdade, Conversa Entre Amigos (2017). Com ele, a autora irlandesa iniciou seu processo para o firmamento na literatura jovem moderna ao discutir vínculos interpessoais atravessados por interferências, como as relações de poder e falhas na comunicação. Chegou a ser considerada o fenômeno literário da (última) década pelo jornal britânico The Guardian e se tornou um sucesso editorial por todo o mundo.

Pôster da adaptação de Conversa Entre Amigos para uma minissérie pela Hulu.

O romance de lançamento na ficção de Rooney seleciona um fragmento da vida da jovem Frances, universitária da Trinity College, e recém introduzida na casa dos vinte anos. A obra é narrada em primeira pessoa, o que já mostra sua divergência em relação a Pessoas Normais e a mais recente obra, Belo Mundo, Onde Você Está (2021). A escolha dos narradores, fundamentalmente, influencia na imagem que o leitor constrói dos personagens dos três livros, que nos dois últimos de Rooney podem ser semelhantes, mas que com Conversa Entre Amigos, não.

Publicada no Brasil pela editora Alfaguara e traduzida por Débora Landsberg, a obra recebeu adaptação pela Hulu como uma minissérie de doze episódios — mesmo formato de Normal People. Com direção de Lenny Abrahamson, será protagonizada por Alison Oliver como Frances, Joe Alwyn como Nicki, Sasha Lane como Bobbi, e Jemima Kirke como Melissa. 

Sob os céus de Dublin, a jovem Frances vive sua vida consideravelmente tediosa. Não possui nada que a faça ser extraordinária, muito menos aspirações que a destaquem em relação às outras pessoas. Quando ao lado de Bobbi, sua melhor amiga e ex-namorada, sente-se apagada por sua personalidade subversiva, enérgica e vigorosa em manifestação. São uma espécie não tão característica de opostos, mais ligado à forma como se relacionam consigo mesmas, como indivíduos, e com o restante do mundo.

Após um namoro que não muito se desenvolveu com o fim do ensino médio, as duas terminam, mas continuam amigas. Passam a frequentar a mesma faculdade e dividir o mesmo ofício com apresentações de declamações poéticas juntas em eventos pela cidade. Enquanto Frances se dedica à escrita, Bobbi traz sua presença dramática para as elevar o tom das performances.

É dessa forma que a dupla conhece a fotógrafa e jornalista de 37 anos, Melissa. Uma daquelas mulheres que se evidencia com espontaneidade, sem muito esforço. Tem como aliados apenas seu carisma, talento, elegância e, é claro, um marido troféu, que, nesse caso, é o ator de média fama, Nick Conway, com 32. 

Melissa tem interesse em escrever uma matéria sobre as jovens poetas, então as leva a jantares e comparece às suas apresentações para que possam se conhecer melhor. Frances não gosta tanto de Melissa e sente que é imune aos encantos de seu perfil imponente, apesar de ser o contrário com Bobbi, que é encantada pela mulher. Enquanto isso, por detrás do emparelhamento decorrente dos traços comuns entre as duas e seus flertes, a protagonista se encontra no caráter tímido, com uma nuance de covardia, do marido da jornalista.

Ante um casamento em ruínas, Frances surge quase como o ser celestial pronto para resgatar Nick de si mesmo, de seu passado e da vida infeliz que tem vivido, através da relação extraconjugal construída às escondidas. De certa forma, é uma via de mão dupla, pois a universitária carrega tantos traumas e devaneios melancólicos quanto o ator.

O quarteto protagoniza uma narrativa que isola esse pedaço de suas vidas, ou seja, não se enquadra tão bem no modelo de início-meio-fim clássico. Esse é um padrão de Rooney e não agrada a todos os leitores pela constância em finais considerados “em aberto”. O objetivo não é dar finais amarrados e sim deixar clara a existência de uma vida acontecendo depois da última página. 

Uma coisa sobre a estreia da autora é que ela traz os personagens mais amargos, irritantes, irreverentes e contraditórios, mas que isso ainda não significa que sejam pessoas ruins — apesar do adultério, das mentiras e todo o restante. 

Também é preciso considerar que todos são vistos sob a perspectiva de Frances — que é denunciada como alguém que enxerga aqueles que ama como especiais —, logo, existe uma tendência a se apegar mais aos personagens com os quais ela tem um envolvimento mais harmônico, como Nick e Bobbi. E, por outro lado, desenvolver alguma aspereza ligada à Melissa. Porém, outras coisas colaboram com a ideia de que talvez o perspectivismo de Frances não seja de grande relevância à narrativa, como o fato de ela fantasiar Bobbi com alguma devoção, já que implora para ser desejada e amada por ela, mas a parceira ainda ser uma personagem egocentrada e não tão engajada como imagina.

Ou seja, mesmo que a percepção de Frances sobre Bobbi seja preenchida por idealizações românticas de quem gostaria que ela fosse — e de quem Frances gostaria de ser —, nem por isso ela se torna tragável. Ainda, a carência de simpatia com Melissa, que possui uma personalidade intensamente semelhante a da dupla da protagonista, não é bem recebida pela narradora. Há o envolvimento de diversos fatores, mas além de ser casada com o homem por quem Frances está apaixonada, há, igualmente, o desejo de ter sua estabilidade econômica.

Alison Oliver como Frances em Conversa Entre Amigos (2022) [Imagem: Divulgação]

Os pais de Frances são separados e vivem numa área remota da cidade. O pai a marcou eternamente com o alcoolismo invasivo à sua infância, enquanto a mãe se torna colaboradora até os dias atuais com os pedidos incisivos de que a jovem perdoe o pai. Para a filha, até o uso dessa palavra que remete a algum tipo de afeição exprime um valor que não pode ser atribuído nesse caso. E, não obstante, essa atribulação familiar é fortalecida pela situação financeira delicada, cujo entendimento não alcança nenhuma figura do trio central da obra. A condição de assimilação sobre a classe socioeconômica deixa Frances sempre à margem dos outros, independentemente de qual seja o grau de intimidade pairando entre eles no momento.

Os personagens da autora, adicionando os protagonistas de seus dois outros romances, trazem debates semelhantes sobre o capitalismo e como ele é corrosivo, mas que soam consideravelmente superficiais ao serem usualmente pautadas pelos personagens ricos que são diretamente beneficiados pelo sistema e não buscam mover as engrenagens noutra direção, a não ser deixar que as palavras críticas morram nas conversas de bar. Bobbi é uma delas, mas ainda que Melissa não seja tão sugestiva quando os tópicos surgem, Frances permanece cultivando um ressentimento acumulado à porção de questões externas interferentes nesse todo — pois ela ainda faz parte disso, mesmo que não tome partido. A própria manifesta sua alegação de que talvez o que faça com que Frances realmente não goste dela seja, na verdade, a identificação por serem mulheres que buscam algum poder para suprir a imponência a qual foram infringidas durante a fase de amadurecimento, mas que tal busca por isso em Nick, como um homem que se mostra omisso, vulnerável e conformado, era infundada.

A relação tempestuosa de Nick e Frances é repleta de oscilações. Todo o contexto no qual estão inseridos e a maneira como iniciaram sua história já, objetivamente, mostrava que ela jamais poderia ser linear. A verdade é que, nesse caso, parece que Nick encontra em Frances muito do que passou a sentir falta em Melissa e que Frances encontra em Nick muito do que passou a sentir falta em Bobbi, porém essa falta é reflexo de suas perspectivas pessoais sobre o que querem de alguém, e não necessariamente o que realmente “faltava” em suas parceiras. Mas, por mais que eles deem vida a um amor nascido daquela paixão, prosseguem preservando o mesmo sentimento pelas pessoas com quem estiveram antes. Dessa forma, acabam num impasse que não deveria ser um, pois a narrativa faz o que promete e os guia à pergunta principal: é preciso amar só uma pessoa e se dedicar isoladamente a ela?

Ao todo, Rooney busca abordar os relacionamentos modernos que não se encaixam no modelo tradicional de que o amor deve funcionar de modo restritivo, de caráter possessivo e limitante; no qual esse amor só pode ser depositado numa só pessoa, o que não é o caso, porque Frances ama Nick, mas também ama Bobbi. E, na mesma linha, Nick ama Frances, mas ele também ama Melissa. Os sentimentos existentes entre eles não são enfraquecidos por terem mais de um direcionamento, mas são reanimados e reforçados. Porém, há um caminho para que Nick e Frances compreendam isso; que possam ter alguma percepção ampliada de quem eles podem ser um para o outro e quem podem ser para aqueles que já estavam em suas vidas antes de se conhecerem.

Conversa Entre Amigos, no panorama geral de um romance de estreia, tem a potência necessária para apresentar a voz de Sally Rooney na literatura atual, como foi feito. Embora não supere o ilustre Pessoas Normais — e nem mesmo Belo Mundo, Onde Você Está consegue esse feito —, deixa clara a habilidade da autora em escrever jovens mulheres modernas passíveis de identificação: elas têm tendências autodestrutivas, desvios de caráter e estão completamente perdidas em si mesmas e no mundo, especialmente porque que não sabem como comunicar seus sentimentos — já que raramente conseguem reconhecê-los ou dar nome a eles.

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