[Crítica] ‘Mr. Morale & the Big Steppers’ é um patrimônio histórico feito por Kendrick Lamar

Mais do que um álbum, Mr. Morale & the Big Steppers é um conceito. Além das faixas, a mais nova composição de Kendrick Lamar, em hiato desde 2017, traz uma viagem ao seu lírico interno. Com 18 faixas, o disco se torna uma espécie de diálogo com o ouvinte, que por cerca de uma hora se vê nos pensamentos do artista.

Algo que chama atenção é que, diferente de nomes consagrados do rap internacional (como Kanye West), Kendrick não fez nenhuma parceria com algum outro grande artista para impulsionar as canções, mas adotou feats com pessoas próximas a ele — incluindo seu primo Baby Keem.

A unicidade que cerca todo o álbum já se apresenta na imagem de capa, divulgada dias antes do lançamento (que aconteceu no último dia 13 de maio): Lamar aparece junto a sua filha de dois anos e sua esposa, Whitney Alford, que está com um recém-nascido no colo — o que levanta a hipótese de que a família cresceu. Além disso, o cantor está com uma coroa que supostamente simula a coroa de Jesus Cristo. Outro símbolo que ganha notoriedade é uma pistola, escondida na parte de trás de sua cintura.

Grande parte dos elementos da capa são desvendados conforme as faixas avançam. Kendrick traduz com uma singularidade de flows em cada música abordagens como saúde mental, paternidade, críticas a negacionistas e anti-vacinas, solidão do homem preto, hipocrisia dos falsos cristãos — o que é observado na coroa de jesus como referência — e por fim, homofobia.

Lamar é o único artista de hip–hop a ganhar um Prêmio Pulitzer, conquistado pela letra de DAMN. O disco é um sucesso até os dias atuais, mesmo após cinco anos de seu lançamento. Mr. Morale & the Big Steppers traz uma receita parecida, mas com ingredientes muito mais avançados.

Sobre as faixas:

O primeiro título, United in Grief, abre com um verso que diz “espero que você encontre alguma paz de espírito nesta vida”. É como uma metáfora sobre a imersão psicológica trazida por todo o álbum. Pode se traduzir como uma forma onde o artista fala sobre “lutar com seus demônios internos”, em uma busca pelo seu bem-estar pessoal. Muito se diz sobre emoções sufocadas —  talvez pela fama e a difícil trilha —, além de conflitos familiares. Kendrick abre o coração e fala sobre como  o dinheiro é algo supérfluo quando você não encontra paz interior, visto muito no verso “o que é um rapper com jóias”, enquanto lista diversos conflitos que a fama e o luxo não curaram. Portanto, é um  jeito de abrir o álbum e já prender a atenção do ouvinte.

N95 faz uma referência direta à questão da pandemia e uma crítica aos negacionistas. Assuntos  sobre o pânico causado pelas mortes — que por diversas vezes eram anuladas e vistas como exagero por aqueles que não eram atingidos ou não acreditavam — foram discutidos. Uma análise dura e atual, muito bem traduzida pelo rapper.

Wordwide Stepper é, sem dúvidas, uma das faixas com os versos mais impactantes. Um grito de revolta ao racismo. A parte mais dura e mais sincera é quando ele faz uma alusão à sua filha e ao fato de estar preocupado com os perigos do lado de fora de sua casa, devido ao que ele chama de “genética”. Outro assunto pautado é a violência racial, visto no verso “nos consideram assassinos“. Além dessa pauta, também traz uma crítica à questão da religião e da hipocrisia das classes mais altas e de tradicionais instituições mundiais, como a igreja. 

 8 bilhões de pessoas na terra, assassinos silenciosos

Organizações sem fins lucrativos, pastores e a igreja, os bandidos e assaltante

A corporação Hollywood na escola, ensinando filosofias

Ou você morre, ou vai pra prisão, psicologia assassina

Essa sinceridade trouxe em palavras um grito de revolta que muitos não têm coragem de falar, o que faz a composição incrível e arriscada; e que  também alude às referências vistas na capa do disco. 

Die Hard fala novamente sobre o eu lírico do artista. Kendrick conta que precisou desenvolver toda sua força durante a trajetória, que não pode sucumbir a fraqueza e sempre buscou driblar as dificuldades impostas por toda a sua vida. Ele relembra seu passado, em uma viagem na qual o ouvinte embarca junto e entra na mente do artista — além de falar sobre arrependimentos, família e lutas internas.

[Imagem: Reprodução/Complex]

Father Time, como o nome já diz, fala sobre paternidade e os famosos daddy issues, que podem ser simplificados como “problemas paternos” — relacionados a alienação, solidão e tudo que vem junto com a ausência de um pai ou figura que o represente. Lamar viaja para suas memórias de infância e distância do pai, mostrando como isso o afetou. Junto a isso, traz a discussão referente à solidão do homem negro, onde narra que por toda a vida teve que esconder como isso o afetava e sempre se mostrar como forte. 

A visão da sua imagem como um pai, citado tanto em algumas músicas quanto na capa do álbum, como uma forma de fugir de algo que sentiu falta durante toda a sua vida. Um tema atual e muito debatido, ele expõe uma fragilidade pessoal que contorna a imagem que, quem vê de fora desconhece. Outro destaque nessa música foi a citação à Drake e Kanye West, passando pela briga entre os dois e a forma como se resolveram.

Rich e Rich Spirit conversam bem entre si. Foi de extrema inteligência que, quando na composição do disco, foram colocadas em sequência. Na primeira, descreve seu passado e as dificuldades enfrentadas, traz os “veteranos”, aqueles que já possuem dinheiro e ostentam na soberba, expondo como pessoas assim se comportam, sempre com uma visão pejorativa. Já a segunda, cita uma versão mais atual: novamente fala sobre sua filha, mas além da questão relacionada ao dinheiro e ao que a fama lhe trouxe, traz a questão de “espírito” e do sentimento de liberdade. 

We cry together é uma das letras mais fracas — quando comparada às outras. Não que seja ruim, a sonoridade é de fato boa, mas não é tão profunda como as outras músicas. O que talvez chame mais atenção é a exposição das pessoas que aderem pautas sociais, mas não cumprem, o que ele descreve como “falsas feministas”. Se assemelha à uma discussão de casal, o que a torna interessante. Os ataques pessoais se transformam em uma crítica total ao sistema.

[Imagem: Reprodução/Youtube]

Purple Hearts traz, mais uma vez, referências bíblicas: cita o fruto proibido numa metáfora, como se várias de suas dificuldades surgissem em torno de um objeto em específico. Não tão forte comparada às outras, mas com um flow intenso que atrai.

Crown fala da sua relação com a fama e sobre ser idolatrado. O próprio título se refere a isso, a tradução “coroa” alude a questão de ser um “rei” — alguém que ocupa um alto patamar na hierarquia musical e do Rap. Mas, diferentemente de muitos nomes do gênero, Kendrick não preza pela ostentação e sim por expor o lado negativo da fama e da idolatria. 

Eles te idolatram e louvam seu nome no país todo. Batem os pés e balançam a cabeça confirmando. Prometam que vão deixar a música tocando. É isso que eu chamo de amor. Mas chegará a hora de não estar lá quando alguém precisar de você.

Silent Hill faz referência ao jogo de terror que leva o mesmo nome, uma tirada bem pensada. Novamente com um conflito interno sendo discutido, o interessante na faixa é que, mesmo que o tema seja algo comum em diversas composições do álbum, sempre é abordado com novos pontos de vista. 

Savior fala sobre “salvar” ou “ser salvador”. Uma das músicas mais explosivas, responde a uma questão levantada em N95: “O que diabos é cultura de cancelamento?”. Uma canção se conecta a outra, e assim, é criada uma narrativa que se completa e torna tudo mais subjetivo.

Auntie Diaries retrata questões relacionadas a LGBTfobia, ao citar a narrativa de uma tia transgênero e a forma pela qual tal conceito foi compreendido e desmistificado pelo cantor quando passou a entender melhor e rompeu certos tabus que carregou por toda a vida.

Mr. Morale leva o nome do álbum. Fala de Lil Uzi, Oprah e muitas outras personalidades. Em um mix de suas próprias histórias e narrativas alheias — ao citar, por exemplo, o pai de Uzi —, Kendrick retrata a vida de pessoas de seu círculo pessoal.

E por fim, Mirror fecha o disco. A música faz uma analogia à Lamar olhando para si mesmo, com todas as suas forças e fraquezas. Sobre autoestima e a questão de se priorizar também, mas junto a isso, traz uma certa auto-piedade ao se sentir culpado por pensar em se pôr em primeiro lugar.

Kendrick Lamar falou sobre família, relações tóxicas e propôs muitas viagens introspectivas, em um disco quase todo baseado em si e em suas vivências, mas que conversa com certeza com temas comuns à várias pessoas. Sem medo de expor duras críticas, revela diversos aspectos sociais aos quais muitos artistas se limitam, o que torna o álbum uma verdadeira obra de arte, sem defeitos e sem papas na língua. 

Talvez o que o torna mais interessante seja a capacidade de conversar debates importantes, e também relacionar com pontos pessoais — principalmente colocando em um dos  grandes focos a paternidade, onde cita sua história com seu pai, mas seu ponto de vista como progenitor também.

Em menos de uma semana de lançamento, Kendrick mostrou como o impacto foi grande e que, mesmo com o hiato, evoluiu em sua criatividade e em suas composições. Em diversos países, está em primeiro lugar na Apple. Já no Spotify, está no Top 18 Global. Aclamado, o rapper recebeu grandes elogios da crítica especializada e o álbum Mr. Morale & The Big Steppers estreou no Metacritic com uma média de 100.

Com toda certeza, é um trabalho digno de Grammy.

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