[Crítica] Dance Fever, de Florence + The Machine é um grito segurado há muito tempo

O quinto álbum da união entre Florence Welch e a banda The Machine está entre nós. O álbum foi muito esperado após o hiatus de 4 anos da banda inglesa indie rock desde o álbum High As Hope, de 2018. Lançado no dia 13 de maio, pela gravadora Polydor Records, as 14 faixas foram produzidas por Jack Antonoff, que fez parte de trabalhos recentes de Lana del Rey e Taylor Swift, e Dave Bayley, vocalista do grupo Glass Animals. Dance Fever é ensurdecedor, é notável o desespero e a vontade de se livrar dessas palavras e sentimentos, colocando para fora todas as emoções comprimidas em uma explosão de experiências instrumentais.

E quando é bom, é impossível não ser notado. A rainha das bruxas emplacou notas altíssimas e elogios da crítica, com nota 7.1 na Pitchfork, 9,4 dos usuários e 85 no Metacritic, o álbum vem para mostrar outros segmentos musicais da banda. Por mais que seja similar ao que foi entregue anteriormente, o novo trabalho revitaliza e traz novos elementos que tiram qualquer um – inclusive o grupo – de sua zona de conforto. Guitarras fortes substituem o tradicional piano e o uso de diferentes tons da voz de Florence são muito bem explorados.

O álbum – que foi escrito durante a pandemia – traz conflitos sobre imagem pública, a necessidade de estar em alta, o papel da mulher na sociedade (principalmente a obrigação patriarcal de se tornar mãe, esposa e dona de casa) e sentimentos sombrios e individuais. A narrativa de repressão divina sobre injustiça sobre os humanos e poder te deixa em dúvida sobre os reais sentimentos da artista, mas esta indecisão é uma forma honesta de mostrar ao seu público como funciona a mente humana, todos temos conflitos, isso não nos torna confusos, nos torna sujeitos, pessoas reais.

Artistas costumam ser desumanizados e até objetificados pela fama, mas continuam motivados pelo gosto pela profissão e pela música, sua arte. Dance Fever mostra a febre de dançar conforme seus sentimentos, mesmo não os entendendo, representado por uma linguagem poética, que aborda a luxúria, solidão, tristeza e medo em meio a acontecimentos que não somos capazes de controlar, como a pandemia e as ações divinas.

Essa febre de dançar vem do conceito de coreomania. Também chamado de dançonomia, foi um fenômeno social que ocorreu na Europa da Idade Média, tendo seu primeiro acontecimento em grande escala em Aquisgrano, na Alemanha, em 24 de junho de 1374. Rapidamente se alastrou pela Europa, contatando outros ataques nos Países Baixos, colônias, Metz e mais tarde em Estrasburgo, aparentemente na trilha de rotas de peregrinação entre os séculos XIV e XVIII.

Esse fenômeno consistia em grupos de pessoas, chegando até a centenas de uma só vez, que dançavam de forma ininterrupta e incontrolável publicamente até o cansaço extremo. Eles continuavam se movendo, mesmo exaustos e alucinando até espumar pela boca e desmaiar de cansaço. Por mais sombrio e bizarro que seja, é essa a sensação trazida pelo álbum, sentimento de urgência, sofrimento e descontentamento.

[Imagem: Divulgação]

Passando para as músicas, “King” abre o álbum exalando poder. Com instrumentais marcantes e estridentes, a faixa descreve um relacionamento em que o cônjuge quer ser superior à mulher, engrandecendo seus feitos e sempre agindo com seu “coração apodrecido”, acredita que a mulher deve ter filhos, se demonstrar sempre feliz e esconder sua ambição, a manipulando até que ela achasse que deveria acreditar nessa construção patriarcal.

A mulher, em contrapartida, rebate esse pensamento com afirmações de individualidade, descrevendo que sua personalidade é sombria, que o drama, mitologia e grandiosidade fazem parte dela. O refrão diz o que muitas mulheres gostariam de gritar, ela não é mãe, nem esposa, ela reina sobre si mesma e sua vida. É possível sentir a voz se tornando mais fraca e inquieta com o decorrer da música, demonstrando a dor real da composição.

Em ritmo mais acelerado e eclético, a segunda faixa “Free” traz a luta com doenças psicológicas, como essa condição toma poder sobre a pessoa todos os dias e o tempo todo, derrubando qualquer outro sentimento senão o de angústia, que talvez seria melhor estar sedada o tempo todo para não sentir essa avalanche constante. Também traz o drama de possuir essa condição e não ser respeitada por outros que estão ao redor, “’You’re too sensitive’, they said” (Eles dizem: “Você é muito sensível”, em português) é um trecho que ilustra perfeitamente a afirmação anterior. 

A música é quem libera a pessoa dessa angústia, pois quando sente o ritmo e dança conforme a música se sente livre, mas demonstra a indignação dessa ser a realidade, de não haver cura para sua doença “It is what it is” (é o que é, em português) e não tem como resolver.

Choreomania”, faixa intitulada a partir do fenômeno explicado anteriormente, traz um ritmo mais leve e jovial. Com um batuque constante e rápido, que lembra o tic toc de um relógio, começa como um desabafo sobre autoconhecimento. É possível interpretar que a batida no fundo se relaciona ao tempo passando e a jornada de busca a si mesmo traz indignação e pressa para conquistas que ainda não aconteceram e histórias que deveriam ser contadas, mas não foram vividas, com vozes que a pressionam a fazer escolhas e viver de maneira diferente. Como tudo é temporário, os padrões se tornam inúteis, pois podem mudar a partir da percepção de cada um dependendo do tempo em que estão vivendo e sua realidade.

A quarta faixa “Back in Town” é nostálgica, demonstra a intensidade das emoções ao retornar a sua cidade natal, viver no próprio mundo sem metas definidas, vivendo todos os dias sem perspectivas, a vida muda, mas o passado continua igual. Retornando a momentos de sua infância para reviver aquela felicidade, acabou ficando pela tristeza da nostalgia do passado. Relembrar momentos mais fáceis que não voltam mais e lidar com a mudança de sentimento e perspectiva sobre os acontecimentos, acreditou em algo por anos, mas, ao se lembrar, percebeu mais madura que não foi bem assim.

Em “Girls Against God” é retratada a insatisfação do tratamento divino com mulheres, o medo, as emoções à flor da pele, a passividade imposta desde a infância, ser tratada como pequenos animais de estimação e nunca como figuras de poder. Essa injustiça leva mulheres a se colocarem no lugar que o divino não as colocou e lutar por sua posição e reconhecimento.

Há uma reviravolta no último trecho da música, quando acontece uma troca de melodia para uma mais maléfica, com gargalhadas e som de passos, trazendo uma estética de terror, e afirma que como Deus não quis um acordo, ela conheceu o diabo e ele a prometeu um coração de ouro ou uma voz de ouro, deixando aberto para interpretações de que ela escolheu a voz, uma vez que suas músicas trazem melancolia e tristeza. Reforçou o canto da bruxa depois dessa!

Dream Girl Evil” fecha a primeira parte do álbum com um amor platônico, há alguém apaixonado pela versão dela que criou em sua cabeça e não quem ela realmente é. Ele a imagina como uma menina angelical e tradicional, embora ela seja assumidamente “evil” (má, em português), o que desapontou suas expectativas, mas ela não liga, até gosta da admiração, ela não é mãe de ninguém e não deve nada a esse homem, mesmo que ele queira que ela seja, ela não se desfaz da própria personalidade má por ninguém. Deu um fecho no macho que doeu daqui!

A intro “Prayer Factory” traz a resolução de abraçar seus medos e lutos, mas não aguenta mais a pressão de viver angustiada, precisa que alguém lhe dê uma chance, e talvez isso a tire dessa solidão e tristeza.

[Imagem: Twitter]

A faixa “Cassandra” fala sobre sonhos interrompidos, o futuro que foi lapidado desrespeitando suas próprias vontades, viver a vida que ela não quer, todas as pessoas criativas e artistas (representadas na música como “all the gods”, ou todos os deuses em português) foram domesticados e sua liberdade de escolha e expressão foi tirada. Tudo está sendo manipulado cegamente e o que ela conhecia não é mais o mesmo ou autorizado, censurando a liberdade de pessoas artísticas diminuídas a meras tarefas comuns.

Heaven is Here” é outra música de menos de 2 minutos que se difere das demais em questões rítmicas. Começando com um grito que lembra uma marcha, uma possível interpretação é que o céu está aqui pois ela é uma santidade e deixou o mundo desse jeito, por conta de sua melancolia.

Chegando a décima faixa intitulada “Daffodil”, a banda traz algo ainda mais diferente da sequência anterior. Ela é a escolhida divina, mesmo não sendo totalmente boa, ela possui poderes míticos e absorve a dor para tentar deixar o mundo melhor, mesmo sabendo que o futuro não é brilhante nem contente.

My Love” é o single absoluto do álbum. Com ritmo mais animado e leve, após tanta melancolia e solidão ela busca a salvação e felicidade, amor. O problema que encontra é não ter onde disseminar esse amor, não ter com quem compartilhar sua vida e sua felicidade.

Clipe “My Love” de Florence + The Machine

Em outra intro, a faixa “Restraint” possui apenas dois versos cantados em um tom de voz que divide opiniões, mais parecendo um arroto, sinceramente. Os versos abrem a interpretação que talvez as músicas esperançosas anteriores eram mentira, e ela estava perguntando se aprendeu a se limitar, se passou credibilidade posando de boazinha, não demonstrar suas emoções reais era o que tinha que ser feito. Confira os versos abaixo:

 “And have I learned restraint? Am I quiet enough for you yet?” 

(Eu já aprendi a contenção? Já estou quieta o suficiente para você?)

Depois do baque emocional da música anterior, quem procede é “The Bomb”, trazendo a temática de um amor que não aconteceu por briga de ego. Ambos gostam do que é difícil, pois se fosse fácil não seria tão interessante, ela sabe que não o ama, apenas gosta da bomba de sentimentos que a causa. O fato de não ter dado certo foi por conta da demonstração mínima de vulnerabilidade por parte dela, que o afastou. 

A música termina com um dos versos mais marcantes do álbum, “Sometimes you get the good, sometimes you get a song”, às vezes você tem um relacionamento bem sucedido, e às vezes você consegue mais uma música, no sentido triste e melancólico. É para pegar em qualquer recém solteiro.

Fechando a narrativa e a obra de arte, o álbum termina com “Morning Elvis”. O peso do mundo e a reação dela sobre os acontecimentos, pressão psicológica, pensamentos suicidas, fama desenfreada, depressão e tristeza que a trazem dores físicas. Ela pensa em desistir da música, mas a vontade de cantar é mais forte que ela, se poupa da dor da morte em troca de continuar cantando.

[Imagem: Pinterest]

O álbum como um todo traz muita reflexão, são emoções que muitos guardam dentro de si e Florence Welch gritou para quem quiser ouvir. A descoberta de sentimentos e o poder de colocá-los para fora torna a obra gigantesca, a novidade não somente na honestidade, mas melodicamente, a volta das guitarras fortes e diferentes tons de voz utilizados justamente para gerar incômodo, pois todo o sentimento trazido na letra é desconfortável.

Florence + The Machine é inigualável, não são músicas para escutar no caminho do trabalho ou no carro (a não ser em um dia de frio e melancólico, assim talvez encaixe com a vibe do momento), são para sentir e gritar sozinho em casa. Dance Fever é um monumento, que vem para reconstruir o cenário indie rock, que vive no mesmo tom há muito tempo.

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