Frenezi nas Semanas de Moda Masculina Milão e Paris 

Para inaugurar o novo ano no mundo da moda, a indústria apresenta a temporada de Moda Masculina Primavera/Verão 2022. 

Com um novo mundo próspero pós-pandemia, a indústria da moda esta se reestruturando e as temporadas presenciais voltando a todo vapor no hemisfério norte, algumas marcas como Prada e Fendi tiveram takes interessantes sobre a nova era da moda masculina, com micro shorts, botas e bordados incluídos. Vale ressaltar que a questão da semana de moda masculina é uma forma de organização das marcas e menos sobre a forma e estruturação das roupas separadamente.

Você pode encontrar o calendário oficial da Semana de Moda Masculina de Milão aqui e o calendário oficial da Semana de Moda Masculina de Paris aqui.

Confira a cobertura completa da Semana de Moda Masculina de Milão:

Desfile da Versace na semana de moda masculina (Reprodução/marca).

Fendi:

A Fendi parece ser uma das grandes novas potências do Menswear hoje, isso se dá exclusivamente a direção criativa assinada por Silvia Fendi, que começou com uma nova versão da vestimenta masculina da casa pelos seus olhos. Na última temporada primavera verão 2022, vimos a Fendi viralizar internacionalmente com seus terninhos de shorts e cropped em tons pastéis, os shorts parecem que vieram para ficar na coleção de primavera verão 2023 contando com a presença dos mesmos.

Quando perguntada como era sentir algo que saiu de um show da Fendi virando um statement de vestimenta no mundo inteiro pelo jornalista Luke Leitch: “Quando fizemos isso, foi muito bem recebido – e houve tantos comentários no Instagram. E era o momento de fazê-lo. Mas se você olhar para todos os nossos shows, sempre há algo que pode ser um pouco perturbador para alguns.”

O corte e atmosfera remetem ao último show de Silvia na temporada de ready-to-wear da marca, a cor azul e os cortes retos, alongados, mas que ao mesmo tempo transferiram uma leveza extraordinária para a passarela. Gabardinas e casacos longos com diferentes texturas, shorts combinados com camisas e estamparia inovadora, tudo amarrado perfeitamente na paleta de tons terrosos e azulados para a coleção.

A alfaiataria bem ajustada com um twist moderno, percebida principalmente no look 27 que vemos um casaco longo estilo gabardina com botões alinhados no mesmo tecido na frente, cortes simétricos em cada ombro, terminando com o melhor parte do show que são os casacos e blazers com pele á mostra por baixo – muito famoso no vestuário feminino mas poucas vezes demonstrado no menswear – para a alegria dos fãs da Gucci de Tom ford.

Não esquecendo que uma dos grandes momentos nos acessórios, que são o forte da diretora criativa, com diferentes representações dos tênis de verão, óculos escuros com uma pegada Mod dos anos 60, chapéus que compunham os looks, pingentes que saíam dos blazers e casacos, e bolsas, de todos os tipos, tamanhos e estilos. Uma bucket enorme com lona monogramada e estrutura em couro – look 25 – uma versão de uma bolsa clássica da Fendi feminina em jeans – look 19 – e para não perder o costume muitas bolsas de ombro, algumas incluindo franjas de tecido e jeans que davam texturas diferentes aos acessórios – look 26.

Versace:

A coleção Spring 2023 Menswear da marca foi planejada para atrair a atenção da Gen-Z para a casa (literalmente), através de peças que uniam silhuetas e modelagens modernas a tecidos, cores e estampas que remetiam à Versace dos anos 90, seguindo o legado de Gianni. As peças da linha Home, carregadas pelos modelos, celebravam a riqueza do design italiano, em uma referência à feira de móveis ‘Salone di Mobile’, considerada pelos milaneses, um dos eventos anuais mais divertidos da cidade, que, recentemente, teve sua data transferida de abril para junho – agora, próxima à Semana de Moda Masculina. 

Desfile da Versace (Reprodução/Vogue Runway).

  Pela passarela, desfilaram modelos cujos pais também marcaram a Versace runway, uma experiência passada entre gerações, afinal, a ‘herança’ foi um tema muito abordado na coleção – o que explica o styling moderno, através de peças em estilo vintage – como se um filho tivesse invadido o closet do pai – a presença dos objetos de decoração (que muitas vezes estão atrelados a um significativo valor sentimental para as famílias, sendo passados entre os entes) e, às inúmeras referências e homenagens às criações de Gianni Versace, irmão mais velho de Donatella, de quem ela “herdou” a direção criativa da marca.

Prada:

A tão admirada dupla com Raf Simons e Miuccia Prada trazem em todas as coleções que colaboram o desejo, o interesse em se aprofundar naquilo que está sendo apresentado. 

Desfile da Prada (Reprodução/Vogue Runway).

De primeira, os looks que chegam são em preto. Tendo uma única cor, o óbvio pode ser estabelecido. Mas não para Miuccia e Simons. As peças em couro apresentam detalhes únicos e um tanto quanto ‘estranhos’. São shorts curtos de alta resistência. Eles fazem match perfeito com as próximas peças workwear que chegam e compõem o look, como uma bolsa saco grande de couro. Um dos pontos cruciais e admirados da coleção, foi a apresentação de uma versão física do casaco, quadriculado em vermelho e branco, recebido em papel em forma de convite do desfile. Ele é uma terceira peça marcante em cima de peças de couro bem estabelecidas na combinação. 

Para quem recebeu looks all black em couro e ternos em preto como abertura dos primeiros designs do desfile, não imaginava que, em algum momento, viriam uma sequência de jeans lavados. Bem como trench coats em bege e alguns quadriculados. 

Uma coleção que transita em diferentes estéticas do homem moderno. Ele pode usar três estéticas da coleção num mesmo dia, essa é a transição da Prada.

Dior Men:

A coleção de verão 2023 de Kim Jones para a Dior masculina segue nos mesmos moldes de suas anteriores: o estilista desenvolveu um processo criativo que lhe permite criar coleções esteticamente diferentes porém com uma mesma base. Para isso, ele faz sempre uso de um tema visual por apresentação, além referências artísticas – muitas vezes colaborativas – específicas, que na maioria das vezes viram estampas e dão o tom da cartela de cores da apresentação (e também da direção de arte e cenário). Na coleção apresentada ontem (24/06) o tema escolhido por Jones foi a icônica casa de campo em Granville, França, de Christian Dior; e também a “Charleston Farmhouse”, moradia inglesa dos artistas Duncan Grant e Vanessa Bell, que é associada ao movimento Bloomsbury – tradicional grupo de intelectuais e artistas ingleses do começo do século XX que tinham o feminismo e a libertação sexual como pautas, dentre eles, Virginia Woolf.

Jones faz uso da casa de Dior enquanto cenário e se apropria dos jardins e das flores do local para criar roupas que tem um toque de uniforme de jardinagem. Aventais viram capas e blusas, galochas se transformam em coturnos com meias acopladas e bolsas e pochetes recebem cordas, desenhos e modelagens tradicionais de acessórios para jardinagem. Tudo é feito de maneira a homenagear o artista Duncan Grant, que tinha a atividade de cuidar do jardim como um de seus hobbies favoritos. A tradicional alfaiataria impecável de Jones é o que dá liga e forma a toda apresentação, construindo uma narrativa elegante e jovem através da desconstrução de calças e paletós e a implementação de estampas coloridas e detalhes irresistíveis – pense em broches de cristais e capas para Air Pods completamente bordadas, por exemplo.

Ao final, a tática do estilista é clara: ele se utiliza de um processo criativo poderoso de base que, ao mesmo tempo que se repete, é capaz de produzir peças-desejo que serão sucesso a cada nova coleção. Nada mal para um estilista que, agora já há três temporadas também à frente do feminino da Fendi, tem que desfilar 8 coleções ao ano.

Courrèges:

Desde sua estreia na marca retrô futurista em março de 2021, Nicolas Di Felice vem mostrando seu respeito e admiração pelo fundador da maison, Andrè Courrèges, em cada uma de suas coleções, e não seria diferente nesta temporada de Spring 2023 Menswear.

Com uma coleção minimalista, Di Felice ficou restrita à uma cartela de cores sucinta mas muito característica de Courrèges nos anos 60. Entre tons de branco, off white, caramelados, preto e azul oxford, o designer belga introduziu peças que exploram um corte sexy e até mesmo mais “feminino”, trazendo um ar de androginia em seus modelos para a coleção masculina desta primavera. 

O diretor criativo soube usar ao seu favor a fusão de silhuetas sensuais em corpos onde a pele dos modelos também se torna um acessório na avaliação do mapa de coleção de Di Felice. Peças em couro e vinil não podiam faltar em mais uma apresentação da marca, o jogo entre calças de alfaiataria e calças jeans com um corte mais despojado acompanhadas de t-shirts com a logo gráfica da maison e com recortes de acabamento. 

O ar retrô futurista faz o seu retorno principalmente nos acessórios de escolha do designer e nos acabamentos: pares de óculos escuros e espelhados, bonés arredondados em couro, calças e bermudas com duplo cós, tiras de nylon e de tecido plano em peças de alfaiataria.

A coleção traz consigo um frescor para o perfil do consumidor masculino da Courrèges, um frescor despojado de um homem que não pensa muito em qual look usar pela manhã, mas segue sua intuição e seu senso estético contemporâneo ao seu tempo mesmo trazendo detalhes e símbolos de moda que faziam sucesso nos anos 60.

Givenchy:

Modelos desfilaram sob névoa e água branca para a temporada de primavera/verão de 2023 em Menswear na Givenchy, sob a direção criativa de Matthew Williams, um designer que prometia novos rumos para a marca com sua chegada, sua expertise em acessórios inovadores e ligação direta com mestres do streetwear pareciam exatamente o rumo que levaria a tradicional casa de moda francesa para um sucesso de vendas jovial. Expectativa que foi rapidamente contrariada ao passo das temporadas, um começo de alfaiataria moderna, acessórios e styling interessantes com referências fortes de Alexander McQueen quando foi diretor criativo da marca em meados dos anos 90 e começo dos 2000, foram trocados por roupas retiradas e replicadas da era Tisci em 2010.

Desfile da Givenchy (Reprodução/marca).

A era de Ricardo Tisci como diretor criativo da Givenchy foi um dos grandes momentos de lucros na marca, com grandes logos e uma node ao gótico, sempre numa balança de elementos, Tisci trouxe a marca para a era digital. Williams tenta replicar desesperadamente o sucesso de vendas desde então, esquecendo-se que o seu grande forte como designer são inovações em acessórios e styling como um geral, contudo o que é possível observar da nova Givenchy do designer é uma obra sem espiritualidade, com logos estampados e monogramas por toda a passarela, roupas que facilmente encontramos na rua ou nas redes sociais.

O que parece é uma pressão astronômica do conglomerado de luxo dono da Givenchy para triplicar as vendas e restabelecer a marca no pós-pandemia, pressão que cai sob os ombros de um designer que mal tinha se estabelecido na marca, dito isso quando é analisado a coleção passada da marca pessoal de Williams, a ALYX parece a irmã jovem, inovadora, que mistura tendências atuais e alfaiataria contemporânea na medida certa. Seria muito bom ver esse espírito ser replicado na Givenchy.

Desfile da Givenchy (Reprodução/marca).

Sobre a coleção em si, grande parte se compõe de cores neutras com pontos vibrantes de cores neon entre os looks, com materiais diversos do cotidiano como moletom, couro, cargo e jeans, silhuetas despojadas que remetem realmente a uma pessoa comum – ou que você encontraria numa loja de departamentos – o que foi basicamente a inspiração do designer para a coleção, as pessoas ao seu redor e como elas se vestem, uma noção segundo ele moderna de olhar para tendências e moda. Com os ciclos da indústria cada vez mais rápidos, as grandes tendências não são mais ditadas pelos grandes estilistas parisienses e as revistas de moda, eles mais acompanham do que as criam ao passo desenfreado que a internet leva uma micro tendência ao ponto da exaustão.

“Sabe, acho que tudo sobre a marca é baseado na realidade. Eu podia ver esse cara, como ele parece, existindo na rua. E para mim, essa é uma abordagem realmente moderna da moda”, explica o designer para a jornalista Sarah Mower.

O ponto sobre Williams olhar para sua trajetória e interior como designer ao invés de tentar atingir o inatingível replicado, volta quando olhamos para o final da coleção, entre os looks 46 ao 50, vemos uma visão diferente de sua direção criativa, mais polida e atemporal mas sem desistir do twist moderno, uma das coisas inauguradas nesta temporada que também fez grande sentido foi o começo da linha de jóias masculinas.

Y/Project:

It’s all about jeans! Glenn Martens talvez seja um dos principais nomes das últimas edições das semanas de moda, e a cada edição ele nos prova o porquê, o que não seria diferente em sua temporada de Primavera/Verão 2023 para o calendário de menswear. Em sua assinatura completamente lúdica e inovativa, a coleção do designer para a Y/Project é contemplada em quase sua totalidade com a aparição dos famigerados jeans, além da presença ilustre dos brincos com a forma divertida do ‘’dedo do meio’’.

Desfile da Y/project (Reprodução/marca).

Além disso, as silhuetas da coleção foram apresentadas de maneira distorcida, de modo que desse espaço para a criação de novas silhuetas surpreendentes ornadas com gráficos, incluindo a impressão de um logotipo da famosa Torre Eiffel. A coleção ainda conta com a segunda parte da parceria de Glenn com Jean Paul Gaultier, com novas composições trompe l’oeil representadas durante a exposição. Outra contemplação nas passarelas do Y/Project foi o acompanhamento perfeito das botas de cano alto grandes com as peças apresentadas por Martens nesta edição, além dos tops brancos suspensos nos ombros com alças milimetricamente invisíveis e a incrível sustentação arquitetônica para unir os jeans, a alfaiataria e os maxis dos anos 2000. 

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