A relação conturbada entre alguns cantores e seus empresários fora dos palcos: um universo de abusos e traições 

Por trás de grandes estrelas musicais, existem bons empresários, ou pelo menos é isso que se imagina. No entanto, nem sempre a premissa é verdadeira. Ícones musicais, como Elvis Presley e Britney Spears, não possuem em comum somente um talento inquestionável, ambos são apenas alguns exemplos de artistas que foram enganados por aqueles que, em tese, deveriam facilitar suas vidas e ajudar a lidar, da melhor forma possível, com suas carreiras.  

Os crimes cometidos por esses empresários vão desde abusos psicológicos, até roubo de uma parte significativa da fortuna de seus clientes. Talvez seja a ganância que os motive a agir de forma antiética e trair a confiança de seus artistas, mas às vezes, é apenas uma falta de caráter enraizada nesses indivíduos. 

Claro que não se pode atribuir, exclusivamente, os transtornos mentais de inúmeros famosos à indústria musical. Contudo, a garantia do bem-estar e a saúde deles, que deveriam ser o foco principal de seus empresários e gravadoras, são substituídos pela busca incessante do lucro e a produção massiva de obra-prima.  

Elvis Presley: a estrela que foi enganada desde o início  

A estreia do filme Elvis, protagonizado por Austin Butler, contou sobre a trajetória musical de Elvis Presley durante sua vida. A obra cinematográfica abordou, também, a relação dele com Tom Parker, interpretado por Tom Hanks, e como esse tirou proveito do artista ao longo dos anos

1955: Elvis Presley is taken over by manager Col.... | Sutori

                 Elvis Presley e seu empresário Tom Parker [Imagem: Reprodução/Sutori]

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O Rei do Rock é mais uma das inúmeras vítimas que tiveram suas carreiras sabotadas por conta do mau caráter de seu empresário. Em 1955, quando Elvis tinha apenas 20 anos e estava no início de sua carreira, seu caminho se cruzou com o de Tom, que viu no talento do cantor uma possibilidade de lucrar. Afinal, a voz de Presley era algo que não se via na indústria musical da época. 

No mesmo ano, Coronel Parker foi o responsável por conseguir fechar um contrato com a gravadora RCA Victor para Elvis, o que garantiu seu primeiro grande cachê após lançar o single Heartbreak Hotel, faturando cerca de 40 mil dólares.  Contudo, o rei não desfrutou plenamente de todo dinheiro que ele conquistou, afinal Tom achou conveniente abocanhar uma quantidade significativa do pagamento de seu cliente, sem avisá-lo, obviamente. 

                      Capa do single Heartbreak Hotel [Imagem: Reprodução/ ElvisRecords]

Ao longo dos anos, a fama de Elvis foi apenas crescendo. Em 1956, decidiu expandir sua carreira para a indústria cinematográfica e fez sua estreia brilhante no filme hollywoodiano Love Me Tender, uma obra que misturava o faroeste com um romance musical. Seu carisma aliado ao seu talento e sua beleza inigualável, foram a receita para que a fama de Presley rompesse fronteiras e se espalhasse mundialmente. 

               Poster do filme estrelado por Presley [Imagem: Reprodução/ Blog Dudu Hamilton]

Ao mesmo tempo que ele se tornava cada vez mais famoso, seu empresário o roubava cada vez mais. O cantor, aclamado internacionalmente, se apresentou fora dos Estados Unidos apenas três vezes. Isso era uma constante fonte de atrito entre ele e o Coronel, visto que turnês internacionais com a possibilidade de lucro de milhões de dólares eram frequentemente vetadas por Tom. 

Apenas anos depois, descobriram que Tom Parker não passava de uma identidade falsa criada pelo empresário, que imigrou ilegalmente da Holanda para os Estados Unidos. Andreas Cornelis – seu verdadeiro nome – não podia mais sair do país sem o risco de ser deportado, o que o impedia de ir em turnês internacionais de seu cliente.  

Parker foi o empresário de Elvis até a morte do artista em 1977. Alguns anos depois, ele foi alvo de processos e investigações que alegavam que havia se aproveitado financeiramente do artista. No final das contas, a justiça americana determinou que ele não teria os direitos legais sobre as obras do cantor. Em 1997, o ex-empresário foi vítima de um derrame cerebral onde ele não resistiu. 

A PRISÃO DE BRITNEY: VÍTIMA DO PRÓPRIO PAI 

A diva pop norte-americana Britney Spears, após um período turbulento durante sua carreira, teve por uma decisão judicial, desde suas finanças, avaliadas em 60 milhões de dólares na época, até as decisões dos mínimos detalhes de sua vida, entregues ao seu pai Jamie Spears, em 2008. A justificativa concedida pelas autoridades, foi que a artista estava passando por sérios transtornos mentais e era incapaz de agir de maneira segura consigo mesma e com aqueles que a rodeavam. 

                                   Britney Spears [Imagem: Reprodução/Slant Magazine]

Nos últimos anos, a cantora decidiu expor ao mundo os abusos com que conviveu por 13 anos. Os depoimentos são ainda mais fortes quando o fato de que seu próprio pai e o empresário Larry Rudolph, foram os responsáveis por cometê-los. As imposições feitas por Jamie e Rudolph, eram absurdas e iam de encontro com seus direitos básicos. Britney, ao longo de entrevistas, contou que foi forçada a tomar remédios psiquiátricos lítios contra sua vontade, além de ter tido seu corpo controlado por uma figura masculina inúmeras vezes. “Meu pai me proibiu de casar com meu namorado Sam e quando eu disse que queria remover o meu DIU para tentar ter outro filho isso também foi vetado”, disse.  

                      Britney Spears e Jamie Spears [Imagem: Reprodução/BBC News]

Por muito tempo, Britney Spears foi considerada uma mulher louca e incapaz de tomar suas próprias decisões. Claro que, em uma sociedade patriarcal e enraizada com estereótipos machistas, esse tipo de discurso é aceito facilmente por muitos. Afinal, é muito menos trabalhoso apenas colocá-la no quadro da loucura, do que buscar entender o que a levou a agir daquela maneira e tentar ajudá-la da forma correta, algo que seu pai foi incapaz de fazer.  

“Eles viam eu me trocar todos os dias, de manhã, à tarde e à noite. Eu não tinha uma porta que me desse privacidade no meu quarto… Eu não estou mentindo. Eu só quero a minha vida de volta. Já se passaram 13 anos, então chega. Já faz muito tempo desde que eu ganho meu próprio dinheiro. É meu desejo e meu sonho que isso tudo acabe sem que tenha que passar por testes. Estou com tanta raiva que é loucura. Eu mereço ter uma vida. Eu me sinto presa, me sinto intimidada e eu sinto que me deixaram de fora de tudo”, declarou Britney em entrevista à Verity

O documentário Framing Britney, produzido pelo The New York Times, trouxe à tona um pouco mais sobre a vida da cantora durante todos os anos de tutela indesejada e a misoginia instaurada no cerne da mídia mundial. Após sua estreia, o movimento #FreeBritney ganhou ainda mais força. A obra audiovisual expõe um lado da artista que os veículos de informação, convenientemente, optaram por não mostrar. O lado da mulher forte e independente, que se recusa a abaixar a cabeça para qualquer um, mesmo que essa pessoa seja seu pai. No final das contas, após muitos julgamentos, Britney conseguiu sua liberdade. A diva pop agora possui controle sobre suas finanças, e o mais importante, sobre si mesma. 

         Protestos pedindo pela liberdade da cantora [Imagem: Reprodução/Persona]

Não é apenas o luxo e o glamour que cercam as estrelas musicais. O estresse também é fator constante em suas vidas, o que piora quando ele é causado por empresários. Em 2019, Taylor Swift também foi vítima de um. Nesse caso, não o seu empresário, mas Scooter Braun, empresário de famosos como Justin Bieber e Ariana Grande, que comprou a gravadora Big Machine Label Group por cerca de 300 milhões de dólares, e como consequência dessa compra, adquiriu os diretos sobre todas as músicas da cantora pop até o álbum Reputation. 

Ariana Grande e Scooter Braun, o empresário que adquiriu os direitos das masters de Taylor Swift [Imagem: Reprodução/Instagram]

 Taylor ficou irritada, e com razão, com o fato de que ela não foi comunicada sobre a venda da primeira gravadora com que assinou contrato e com isso, não teve a oportunidade de comprar os direitos das masters de suas músicas de volta. “Ele sabia o que estava fazendo, os dois sabiam. Controlando uma mulher que não queria ser associada com eles. De modo perpétuo. Isso quer dizer para sempre”, afirma Taylor em depoimento publicado em suas redes sociais.

Além disso, a cantora ainda declarou que A mensagem que estão enviando a mim é bem clara. Basicamente, seja uma boa menina e cale a boca. Ou você será punida. Isso é ERRADO. Nenhum desses homens sequer se envolveu na composição dessas músicas”, acrescentou a cantora. 

Ela optou por não se incomodar com o papel de descontrolada que lhe foi imposto em meio a todas essas polêmicas. Taylor Swift, em uma jogada de mestre, decidiu que gravaria todos seus álbuns novamente e os lançaria com a gravadora Republic Records. A diferença é que dessa vez, os nomes das músicas são acompanhados por (Taylor´s Version), uma simples marca, mas que indica que a cantora possui todos os direitos sobre aquela canção. Fearless e Red são exemplos de discos que já foram regravados por ela.  

                  

            Segundo álbum regravado por Taylor [Imagem: Reprodução/Pinterest] 

Uma coisa é fato: existem muitos empresários dispostos a prejudicarem as carreiras de artistas musicais. Sejam eles seus próprios clientes ou não. O Rei do Rock, Britney Spears e Taylor Swift não foram os primeiros a serem enganados e, infelizmente, não serão os últimos. A realidade fora dos palcos diverge bastante do imaginário glamuroso que muitos têm em relação à vida desses artistas. O luxo e o dinheiro, em alguns casos, vem acompanhados de uma série de abusos e traições.

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