Fanatismo: quando o amor de fã sai do controle

Ser fã é dedicar o seu tempo para admirar uma pessoa, grupo, ideia ou até mesmo um objeto. O sentimento que move as pessoas é muito difícil de decifrar e colocar em palavras. Muitas delas concentram suas vidas em torno de seus ídolos, seja criando fãs-clubes, fazendo mutirão de votação nas redes sociais ou acampando por meses nas filas dos shows e nas portas dos hotéis.

Os fãs amam o artista de forma intensa e o consideram uma pessoa próxima, assim os transformando em sinônimo de refúgio ou recompensa. Mas é preciso ter cuidado, há uma linha tênue entre amor e obsessão que pode ser cruzada com muita facilidade. Quando há o abandono da sua individualidade em prol de um artista, essa relação não se torna mais saudável. 

O fanatismo vem desse conceito, quando um limite é cruzado se desperta um estado psicológico de fervor excessivo, irracional e persistente por qualquer pessoa ou tema. Esse estado é perigoso e pode levar simples fãs a pessoas doentes e perigosas.

Outro ponto importante é que as celebridades e artistas, apesar de serem pessoas públicas, não estão a disposição a todo tempo de seus admiradores. Quando há a invasão desse espaço de privacidade, casos de assédio podem surgir. Ninguém pode tentar encostar e agarrar seu ídolo, só porque ele é seu ídolo. Esse é um dos limites frágeis que tornam o simples amor de fã em obsessão.

Desde os anos 60, quando se fala em fanatismo por estrelas da música, uma personalidade logo vem à cabeça: Elvis Presley. O artista sempre carregava hordas de fãs ao seu redor e sua casa, batizada de Graceland, atraia milhares de adoradores de seu trabalho. 

O filme Elvis (2022) de Baz Luhrmann representou em diversas cenas como era o caos provocado pelos fãs, seja em sua primeira apresentação até uma das últimas, dezenas de mulheres gritavam e enlouqueciam pela maneira que Presley dançava e cantava.

Trecho do filme Elvis (2022). [Imagem: Reprodução]

Outro fenômeno da música que provocou o frenesi entre os fãs foi a banda Beatles. Durante suas turnês mundiais que contaram com 18 países, 116 cidades e 250 shows, havia milhares de garotas gritando por eles. Em muitos momentos, os gritos delas chegaram a se sobrepor ao as vozes do quarteto, que na época não contava com equipamentos que amplificam suas vozes tão bem quanto acontece com as bandas atuais. 

A loucura foi tão grande que foi apelidada pela imprensa de Beatlemania, definida com a histeria e gritos agudos dos fãs, tanto em shows quanto durante as viagens do grupo. Há rumores, que os Beatles tipicamente viajavam para esses shows de carro blindado e a banda chegou a adotar clipes promocionais para seus singles para evitar as dificuldades de fazer aparições pessoais em programas de televisão na época.

Fenômeno conhecido como Beatlemania. [Imagem: Reprodução]

John Lennon, um dos integrantes da banda, chegou a se envolver em uma das maiores polêmicas de sua carreira na época. Quando durante uma entrevista ao jornal britânico Evening Standard, o músico disse: “Nós somos mais populares do que Jesus neste momento”. A afirmação, apesar de fazer sentido pela Beatlemania, provocou a ira das comunidades cristãs e até algumas estações de rádio mais tradicionais dos Estados Unidos pararam de tocar músicas dos Beatles.

Infelizmente, Lennon acabou sendo assassinado em 8 de dezembro de 1980 por um fã obcecado. O homem identificado como Mark Chapman, apesar de gostar dos Beatles, teria ficado indignado com as letras de canções como God e Imagine, principalmente por conta das relações feitas com a religião, onde o artista afirmava não crer em Jesus e na Bíblia.

No dia do atentado, o fã chegou a pedir um autógrafo para John Lennon antes de cometer o assassinato. O criminoso foi condenado a uma sentença de pelo menos 20 anos até prisão perpétua e teve todas as oportunidades para pedir sua liberdade negadas.

Memorial em homenagem a John Lennon em Nova York. [Imagem: Reprodução/Globo]

Nas décadas seguintes, muitas agitações de fãs foram comparadas com a Beatlemania, especialmente de boy bands como o One Direction, banda formada no reality show musical The X Factor, em 2010. O grupo que surgiu na época das redes sociais, foi um instante sucesso e quebrou vários recordes, colocando os singles nas paradas de sucesso.

O quinteto original era seguido por admiradores onde quer que fossem, fazendo com que alguns integrantes da banda tivessem dificuldade em lidar com a fama. Na maioria das vezes, tinham que evitar sair dos hotéis em turnês e ficavam trancados a maior parte em suas suítes privadas.

Em 2015, um dos integrantes do One Direction, Zayn Malik, anunciou sua saída da banda e acendeu um importante alerta para os limites da dependência emocional dos fãs. As directioners, como são chamadas as amantes da boy band, colocaram no Trending Topics mundial do Twitter a hashtagcut4zayn”

Os admiradores mais fanáticos se mutilaram e postaram fotos nas redes sociais para chamar a atenção do artista, pedindo desesperadamente o retorno de Zayn ao grupo. A reação extrema desses fãs foi motivo de preocupação de familiares e especialistas, que colocam os adolescentes como um público muito vulnerável quando são obcecados por alguma celebridade.

Directioners é o nome do fandom da boy band, One Direction. [Imagem: Reprodução/Vox]

Na mesma época em que One Direction foi um fenômeno, o cantor canadense, Justin Bieber, também chamava atenção por suas inseparáveis fangirls. A histeria ganhou até o nome de Bieber Fever, caracterizado por ser o estado em que os fãs ficavam obcecados pelo jovem artista.

Atualmente, os conhecidos por seus fãs enlouquecidos são os grupos de K-Pop. Graças a internet e às redes sociais, o ritmo coreano começou a fazer sucesso em todo o mundo e conquistou um verdadeiro exército de fãs para suas turnês. Em premiações, shows lotados e em fancams nas redes sociais, você pode encontrar algum apaixonado pelos grupos BTS, BLACKPINK, EXO, Twice e NCT.

ARMY é o nome do fandom do grupo BTS. [Imagem: Reprodução]

É cada vez mais comum ver essa cultura de fanatismo crescer entre os fandoms, mas é preciso ter cuidado pois esse comportamento pode ter “tendências viciantes” e “ações de perseguição”. A todo tempo os fanáticos por um artista tentam provar sua devoção às celebridades sem se lembrar que os famosos podem errar, como qualquer um, e isso causa um desequilíbrio nos fãs por isso.

Antigamente, era mais difícil para o fã acessar o artista, mas isso mudou com as mídias sociais. Essas plataformas podem se tornar barris de pólvora para a radicalização e fazer com que admiradores ultrapassem os limites. É saudável ser fã, desde que o carinho e admiração pelo artista e seu trabalho não prejudiquem a sua individualidade e rotina para tornarem-se uma dependência.

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