Os virais do TikTok são o futuro da indústria musical?

Os novos hits do aplicativo são vazios e artificiais, será que ele vai mudar a maneira de fazer música?

Que o TikTok é um dos aplicativos mais usados hoje em dia não é novidade. A fama do aplicativo começou quando a empresa chinesa ByteDance comprou o Musical.ly, antiga plataforma com a mesma configuração do atual, em que os usuários faziam lipsync (como se fosse uma dublagem, sincronizando a música com os movimentos labiais) e transições com a câmera. Como o perfil desses usuários do app se manteve ativo, muita gente voltou a usar as mesmas contas no TikTok e a fama só foi crescendo.

Ele entrou em ascensão com a pandemia do COVID-19, que no isolamento fez os jovens buscarem outros meios de compartilhar suas vidas e fazer novas conexões. Alguns hits como Old Town Road e Say So começaram a viralizar no TikTok antes mesmo de qualquer outra plataforma, o que chamou mais a atenção do público e aumentou o número de streams nessas músicas. Esse artifício foi usado por muitos artistas, como Doja Cat, Pedro Sampaio e Megan Thee Stallion que aproveitaram a rapidez do aplicativo em levar conteúdo e começaram a usá-lo para alavancar suas canções.

Esses hits renderam muitas dancinhas e trends virais, que para quem usa o TikTok é impossível não saber a coreografia. Além disso, ele também abriu portas para muitos artistas desconhecidos ou até conhecidos com pouca influência na indústria musical, como Marina Sena, que ficou popular por Por Supuesto e Måneskin, banda italiana vencedora do The X-Factor Itália em 2016, que viralizou pelo cover de Beggin. No TikTok, os dois foram motivos de trends muito famosas que os levaram ao Rock in Rio 2022.

Mesmo com a procura do aplicativo por alguns cantores para aumentar o engajamento em suas músicas, outros se incomodaram com essa problemática de ter que criar músicas “para” o app. Muitos se pronunciaram sobre a cobrança das gravadoras por músicas que venham a viralizar no TikTok. Halsey foi uma das primeiras a falar sobre isso em um vídeo que postou no aplicativo. Nele, a cantora diz que mesmo estando há oito anos na indústria, sua gravadora só a deixaria lançar uma música a menos que conseguisse um vídeo viral usando-a.

Partes do vídeo publicado por Halsey no TikToK
Imagem: [Reprodução/TikTok Halsey]

Curiosamente esse vídeo viralizou e a música foi lançada nas plataformas. Muitos internautas comentaram que esse poderia ter sido um “viral do antiviral”. Essa expressão ficou famosa depois que um artigo publicado pelo site americano Jezebel, em que a autora do texto, Gabrielle Bruney crítica Halsey e outros artistas de denunciar seus empresários e gravadoras, mas conseguirem exatamente o que eles querem: “Esses astros deveriam ser premiados por atacarem os executivos enquanto aparentemente conseguem exatamente o que esses executivos queriam”.

No Brasil, a mesma coisa acontece. Os artistas começaram a lançar músicas propositalmente para o aplicativo, que acompanhadas de dancinhas viralizam muito rápido. O mais influente nessa “corrida” pelos hits foi Zé Felipe. Casado com a influencer Virginia Fonseca, ele lança a música com coreografia e ela posta todo dia um TikTok ou stories do Instagram dançando o novo hit. É um plano infalível.

O problema em torno disso é que muitos artistas começaram a entregar músicas sem conteúdo, com poucas palavras, refrões repetitivos e letras pobres, com muitos palavrões e obscenidades, o que foi muito criticado por uma parte dos usuários que pensaram no real objetivo da música na sociedade. A conexão que a canção deve proporcionar ao público foi se perdendo e elas estão se tornando cada vez mais superficiais.

Além da artificialidade das letras, as danças também surgiram com passos pouco criativos e normalmente com os mesmos movimentos em todas as coreografias, o que pode mostrar uma falta de repertório que a plataforma levou a essa arte. Há quem pense que o app pode ajudar a descobrir talentos, mas o que ele mostrou até agora foi a falta deles na vida real.

Muitos clipes como os de No Chão Novinha,  Build a B*tch e Chama Neném lançados recentemente para as músicas virais, tiveram a participação de tiktokers e poucos dançarinos, o que tira espaço daqueles que dedicam sua vida a isso. Mesmo que alguns deles tenham saído de academias renomadas de dança, eles já alcançaram o sucesso nessa área e poderiam ajudar quem também deseja crescer com a dança. 

Adele se pronunciou sobre isso à Apple Music, e se questionou: “Quem vai fazer música para a minha geração?”. Prestes a lançar o álbum 30, em 2021, a cantora comentou sobre os pedidos de sua gravadora para produzir músicas para o TikTok e respondeu considerando o público de outra geração e que não, necessariamente, está na plataforma: “Prefiro atingir pessoas que estão a meu nível em termos de tempo que passamos na Terra e outras coisas que passamos. Não quero adolescentes de 12 anos ouvindo este álbum. Ele é muito profundo”. 

O comentário de Adele mostra uma frustração diante a perda de identidade das músicas atualmente. Talvez essa questão dos virais do TikTok mostre que a indústria musical está a caminho de se desmanchar e perder seu conceito inicial de ser uma prática cultural que expressa os sentimentos através dos sons.

Antes tratada apenas como uma experiência, a música hoje é usada para várias outras atividades, o que foi majoritariamente influenciado pelo TikTok. Agora, só o tempo pode dizer se os virais do TikTok vão se tornar propulsores da indústria musical, já que a música é a essência do aplicativo, ou se ele vai mudar a maneira de fazer música.

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