Hitlerismo esotérico: entenda o que é o movimento seguido peloautor de atentado contra Cristina Kirchner


Na última semana, o mundo assistiu as imagens do atentado contra a vice-presidente argentina, Cristina Kirchner. As cenas mostravam um homem se aproximando da vice com uma arma apontada diretamente para seu rosto. Ele tentou atirar duas vezes, mas a arma falhou. Ao fugir, foi pego por apoiadores de Cristina que estavam em frente à sua casa protestando contra o pedido de prisão feito pelo Ministério Público argentino, acusando-a de desviar dinheiro público. A namorada do atirador também foi presa, por suspeita de envolvimento no atentado.


A imprensa argentina não demorou para divulgar o nome do responsável pelo atentado: Fernando André Sabag Montiel, de 35 anos. Cidadão brasileiro, filho de pai chileno e mãe argentina, Fernando mora na Argentina desde 1993. Na primeira imagem do atirador divulgada pela imprensa, um detalhe chamou a atenção: uma tatuagem no cotovelo de um sol negro, símbolo nazista conhecido mundialmente por ter sido usado pelo Batalhão Azov, agrupamento neonazista da Ucrânia. Grupos neonazistas de caráter contracultura como o Misatropic Division já utilizavam o símbolo há anos em diversos países europeus.


Segundo a Revista Fórum, a jornalista Letícia Oliveira, que pesquisa justamente o crescimento de grupos de extrema direita no Brasil, encontrou os perfis de Sabag Montiel nas redes sociais. No Facebook e Instagram as contas não mostraram qualquer interesse na política brasileira, mas as suas fotos e curtidas revelaram que ele se alinha ideologicamente com o que pesquisadores da extrema-direita conhecem como “hitlerismo esotérico”. Tatuagens, símbolos e referências que ligam o autor do atentado frustrado a grupos neonazistas ativos no país vizinho, foram encontrados nas redes sociais pela jornalista.

Tudo indica que Fernando está ligado a uma linha do hitlerismo esotérico criada pelo esotérico e escritor argentino Luis Felipe Cires Moyano Roca.

Letícia explicou que esse tipo de hitlerismo ocultista não está atrelado ao nazismo histórico (que envolve a ascensão e a duração regime nazista e fascista), mas que foi resgatado por neonazistas do pós-guerra uma vez que, ao mesmo tempo que funciona como resgate de um suposto “passado idílico”, também se apropria e dialoga com interesses típicos da cultura Pop com o intuito de se propagar entre fãs. Basta olhar para o quanto esses temas vêm sendo explorados nos últimos anos, sobretudo em séries de grandes plataformas ou em pequenos canais do Youtube: fantasmas, alienígenas e portais interdimensionais.


É comum o uso da simbologia por grupos neonazistas que se aproximam de visões místicas e esotéricas inspiradas na mitologia hindu – sobretudo nas histórias que tratam das origens da suposta “raça ariana”. Há uma aproximação com o famoso Tradicionalismo de Julius Evola que serviu de base filosófica para o nazifascismo no século XX e hoje alenta pensadores como o russo Aleksander Dugin e o ex-trumpista Steve Bannon, além, é claro, de apresentar semelhanças e aproximações com o falecido brasileiro Olavo de Carvalho.


Nazismo crescente


Na América Latina, criaram-se condições políticas favoráveis para o surgimento de movimentos fascistas no período compreendido entre as duas Guerras Mundiais na maioria dos países. Conforme Hélgio Trindade, a principal questão não diz respeito à existência da presença fascista na América Latina, mas sim à extensão de suas manifestações. Em outras palavras, o problema seria distinguir as imitações, dos movimentos autênticos.

Resultado de uma longa história de atuação da extrema-direita, a Argentina é atualmente o país latino-americano com a maior quantidade de sites neofascistas na internet. Com o crescimento desses grupos nos países vizinhos, o Brasil não fica para trás. Um mapa elaborado pela antropóloga Adriana Dias apontou que as células de grupos neonazistas cresceram 270,6% no Brasil entre janeiro de 2019 e maio de 2021, e se espalharam por todas as
regiões do país, impulsionadas pelos discursos de ódio e extremistas contra as minorias representativas, amparados pela falta de punição.


A pesquisadora afirma que, no ano de 2022 existem 530 núcleos extremistas no país, que reúnem até 10
mil pessoas. Para especialistas e estudiosos que se dedicam a investigar o discurso de ódio no Brasil, a falta de leis claras contra práticas abomináveis, como a apologia ao nazismo e outras intolerâncias, é o principal obstáculo para que estes crimes deixem de acontecer no país.


Queima de arquivo


O celular do autor de atentado contra a vice-presidente da Argentina, Cristina Kirchner, pode se tornar uma prova inútil. Segundo o jornal Clarín, ao desbloquear o aparelho, especialistas encontraram a mensagem
“redefinição de fábrica” – o que indica que o telefone voltou a ter as configurações originais e perdeu os dados armazenados. Com isso, a Justiça da Argentina está analisando se o aparelho pode ser enviado aos Estados Unidos para ser submetido a uma tecnologia superior e, assim, recuperar as informações.


Segundo o jornal, a Polícia Federal argentina tentou desbloquear o celular com um software, mas
não conseguiu. Então, encaminharam o telefone para a PSA (Polícia de Segurança
Aeroportuária). Até ser entregue, o aparelho da marca Samsung, teria ficado em um cofre, em
modo avião. Na PSA, o telefone foi conectado mais uma vez a um computador, mas com um
sistema mais moderno do que os usados até então. Foi quando apareceu a mensagem de
“redefinição de fábrica”.


Fontes consultadas pelo portal argentino Infobae disseram que o telefone foi recebido pela PSA
“dentro de um envelope aberto” e o aparelho não estava mais em modo avião.


O suspeito tem antecedentes


Em março de 2021, Fernando Andrés Sabag Montiel, de 35 anos, foi processado por contravenção. Ele foi preso por portar uma faca de 35 centímetros. Na ocasião, ele teria sido abordado pela polícia da cidade de La Paternal, na região metropolitana de Buenos Aires, por dirigir um carro sem placa.


O suspeito disse ser o dono do veículo e afirmou ter perdido a placa em uma batida de trânsito dias antes. Durante a revista, os policiais pediram que Sabag Montiel abrisse a porta do passageiro. Ao cumprir a determinação, a arma branca caiu. O brasileiro afirmou que o objeto era para sua defesa pessoal. A infração foi registrada e ele foi liberado.

O suspeito trabalha como motorista de aplicativo e tem um Chevrolet Prisma registrado em seu nome (o mesmo modelo que consta no processo). O brasileiro vive na Argentina desde 1993.

As informações são do Clarín, citando como fonte o ministro da Segurança, Aníbal Fernández.


FONTE: Ponte Jornalismo, Revista Fórum, UOL, G1, Poder360.


REFERÊNCIAS: A Serpente na rede: extrema-direita, neofascismo e internet na Argentina por
Fábio Chang de Almeida.

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