Conheça um pouco mais sobre Baz Luhrmann, o diretor por trás de ‘Elvis’

Baz Luhrmann é considerado um dos cineastas mais inovadores em Hollywood atualmente, tendo sua carreira resumida em um curto repertório de filmes sempre visualmente extravagantes e estilísticamente emblemáticos.

Filho de uma professora de dança de salão e um administrador de posto de gasolina, Luhrmann nasceu em uma pequena zona rural no norte de New South Wales, Austrália, em 17 de setembro de 1962. Nasceu com o nome de Mark Anthony, porém é mais conhecido pelo seu pseudônimo originado de um apelido de infância.

Diretor, produtor e escritor, sua carreira no Cinema teve início em 1992 com Vem Dançar Comigo, o primeiro filme da sua trilogia Red Curtain (Cortina Vermelha), adaptação de uma produção teatral autoral, baseada em suas experiências de infância no mundo da dança de salão. O filme foi feito em colaboração com outros alunos da National Institute of Dramatic Art e supostamente aplaudido de pé por 15 minutos na sua estreia em Cannes.

Fonte: blu-ray.com

Também inclusos nessa trilogia estão: Romeo + Julieta (1996) e Moulin Rouge: Amor em Vermelho (2001). Esses filmes não se completam na narrativa e nem coexistem em um mesmo universo cinematográfico, mas se assemelham na maneira como a sua narrativa é conduzida; enredos relativamente simples envolvidos de tragédia, comédia e alguma temática teatral: dança, poesia e música. Luhrmann em entrevista com Geoff Andrew para o The Guardian:

“a Cortina Vermelha requer algumas noções básicas. Uma é que o público saiba como terminará quando começar, é fundamental que a história seja extremamente rasa e extremamente simples – isso é muito trabalho. Então, é colocada num mundo criado e intensificado. Depois há um meio – o mundo elevado de ‘Strictly Ballroom’, a praia de Verona. Há ainda outro dispositivo – dança ou pentâmero iâmbico ou canto, e que está lá para manter a audiência acordada e empenhada”.

A Trilogia da Cortina Vermelha

Poster de divulgação. Fonte: Festival de Cannes / IMDb

Vem Dançar Comigo (1992)

Vem Dançar Comigo (1992). Fonte: National Film and Sound Archive

Um dançarino rebelde e uma jovem de pé esquerdo se unem no amor e na dança para quebrar padrões convencionais e lutar pela liberdade artística.

Romeo+Julieta (1996)

Fonte: Everett Collection para Vogue

A clássica tragédia de William Shakespeare sobre dois jovens que amam em meio a tanto ódio, mas não resistem às suas consequências. Primeiro trabalho de Leonardo DiCaprio com Luhrmann, esse é um filme que envolve a poesia shakespeariana em anacronismos incrivelmente bizarros.

Moulin Rouge: Amor em Vermelho (2001)

Moulin Rouge: Amor em Vermelho (2001). Fonte MUBI

Estrelando Nicole Kidman e Ewan McGregor como um casal de artistas lutando pela verdade, beleza, liberdade e amor em uma Paris boêmia do final do século 19. Moulin Rouge fecha a trilogia com oito indicações ao Oscar, incluindo de Melhor Filme, além de garantir o Globo de Ouro de Melhor Filme, Melhor Atriz e Melhor Trilha Sonora.

Trajetória da sua Carreira

Como é comum com grandes diretores, Baz tem o costume de trabalhar múltiplas vezes com os mesmos atores. Com Kidman, por exemplo, colaborou no Nº 5 “Le Film”, um curta publicitário para o emblemático perfume da Chanel, e mais uma vez em um filme de 2004 chamado Austrália.

Chanel N° 5 “Le Film”. Fonte: MUBI

Em 2013 o diretor adaptou o clássico de F. Scott Fitzgerald trazendo às telonas O Grande Gatsby, estrelando Leonardo DiCaprio como o famigerado bilionário Jay Gatsby em uma Nova York eletrizante no auge dos anos 1920; repleto de anacronismos incluindo uma trilha sonora que mescla elementos do jazz da época com um som moderno composto por Jay-Z, Beyoncé e Lana Del Rey. Este filme arrecadou mais de 353 milhões de dólares ao redor do mundo, dois Oscars e elogios da neta de Fitzgerald, “Scott teria ficado orgulhoso”.

O Grande Gatsby. Fonte: Entertainment Weekly

Em 2016, Luhrmann colaborou com Stephen Adly Guirgis na criação da série The Get Down para a Netflix. A série é dividida em duas partes e conta a história das origens do hip-hop na década de 1970, com a ajuda de alguns dos artistas mais conhecidos da época, Nas, Kurtis Blow, DJ Kool Herc, entre outros que atuaram como produtores.A mais recente das suas obras, que tem recebido muito destaque da mídia, é a biopic de Elvis (2022). Estrelando Austin Butler como o “Rei do Rock”, bem como o incrível Tom Hanks e o irmão mais velho que todos amam odiar em Stranger Things, Dacre Montgomery.

Elvis (2022). Fonte: Claudia

Durante os seus 40 anos de carreira Baz Luhrmann desenvolveu um repertório curto, mas repleto de sucessos. Além de ter uma habilidade admirável para a direção, o australiano também envolve seus filmes de uma identidade artística que os torna clássicos instantâneos e imediatamente reconhecíveis.

Baz traz à sua audiência uma visão tão inovadora e verdadeiramente artística que, apesar de suas obras serem poucas, cada uma se torna uma quase eterna fonte de entretenimento. A história em si tem seu devido valor, mas a frenesi, energia e teatralidade caótica e constante que fazem seus filmes tão prazerosos de ver e rever, havendo sempre algo de novo para chamar a sua atenção.

Confira Elvis (2022), já nos cinemas!

Guia para o curso de Cinema 101: tudo o que você gostaria que te contassem sobre

O mercado de trabalho, especialmente na área artística, pode ser instável, por isso se quiser se formar na área é bom considerar o que o curso escolhido tem a oferecer. O curso superior em Cinema no Brasil não é muito popular, ainda assim existem três modalidades disponíveis para a graduação: Bacharelado, Licenciatura e Tecnólogo; vamos focar no primeiro por ser o mais completo.

Bastidores de O Iluminado (1980) [Reprodução Esquire]

Um Bacharelado ou uma Licenciatura em Cinema e Audiovisual duram em média 4 anos, já o Tecnólogo 2 a 3 anos. Todos abordam conhecimentos gerais da área como roteiro, preparo de equipamento, fotografia, som, direção, edição, distribuição, entre outros. 

No Bacharelado, são abordados diversos aspectos da produção audiovisual, possibilitando que cada aluno se encontre no seu setor de maior interesse; desde a pré-produção de um conteúdo, que envolve a elaboração do roteiro, storyboards e planejamento financeiro, até a distribuição e exibição da obra. Já a licenciatura trabalha os diversos aspectos da produção audiovisual, mas priorizando a capacitação de seus alunos para lecionar em projetos culturais, museus e escolas, no formato de cursos livres. Dependendo da instituição de ensino, existe também um enfoque na área de Comunicação Social, abrindo portas para matérias que analisam estética, filosofia, psicologia, política e história no Cinema.

Graduação Cinema e Audiovisual [Reprodução ESPM]

Durante o curso são ensinadas as mais variadas formas de se produção de conteúdo audiovisual, desde o longa-metragem live action até uma série animada em 2D, 3D e/ou stop motion. Algumas matérias comuns são:

  • Análise de Imagem 
  • Crítica de filme 
  • Teoria do Cinema
  • Cinema Brasileiro e Internacional 
  • Roteiro e Storyboard
  • Oficina de Câmera e Iluminação
  • Direção de Atores 
  • Direção de Produção
  • Animação
  • Comunicação e Mercado
  • Marketing 
  • Dramaturgia 
  • Sonoplastia e Trilha Sonora
  • Edição e Pós-Produção

Grande parte da grade curricular é composta por matérias práticas que visão desenvolver as habilidades do aluno, até serem utilizadas no Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), ou como em algumas instituições, em pequenas produções estimuladas no decorrer dos semestres. Para a conclusão da graduação a maioria das universidades exige também a realização de estágio supervisionado, cobrando um mínimo de por volta de 200 horas.

Graduação Cinema e Audiovisual [Reprodução ESPM]

O PROFISSIONAL

Algumas características muito importantes para o profissional (ou futuro profissional) da área são a criatividade, boa comunicação, comprometimento e responsabilidade com o cronograma do projeto, e claro, perseverança para a conclusão dos trabalhos mesmo que aconteçam imprevistos. 

Sempre existe aquela pessoa que sonha em crescer na área e acredita que não precisa da ajuda de ninguém, mas um filme não é feito por uma só pessoa, por isso é importante exercitar as suas habilidades para o trabalho em equipe, já que todo o processo de uma produção audiovisual tende a se estender por alguns meses e durante esse tempo você depende do seu time e ele de você. Falta de consideração pelos colegas e pelas suas responsabilidades pode criar uma má reputação para você no futuro, lembre-se de que as pessoas com quem você estuda podem se tornar futuros parceiros ou competidores, no Cinema as conexões são tudo!

Bastidores de O Grande Hotel Budapeste (2014) [Reprodução LiveMaster]

Outro fator importante é o seu repertório, é claro que o seu portfólio será desenvolvido durante os seus anos de formação e em diante, mas o repertório deve ser algo a se desenvolver mesmo antes do curso e continuamente na sua vida, pessoal ou profissional. Um conhecimento amplo das produções e dos grandes nomes da área não tem como te prejudicar, não é mesmo?

Bastidores de A Noiva Cadáver (2005) [Reprodução LiveMaster]

O MERCADO 

Não é fácil ser artista no Brasil, mas não é impossível, se o seu desejo é se tornar um diretor de Cinema, por exemplo, um bom curso te ensinará não só a preparar seus atores, equipamento e a iluminação, mas também como se comunicar com seus produtores e financiadores sobre as burocracias que englobam a produção do seu projeto. Licenciamento, direitos autorais, Classificação Indicativa e etc., enfim, tudo que diz respeito a uma produção cultural que precisa seguir os critérios do Ministério da Justiça. 

Normalmente produzidos em equipes menores e com baixo orçamento os filmes independentes sempre estiveram presente na nossa história, desde o Cinema Novo com obras de Glauber Rocha, até os dias de hoje. Essas obras seguem uma tendência mais autoral, e expressam temáticas do Brasil em novos ângulos. Os maiores desafios desse setor são o financiamento e a distribuição, já que o cinema nacional já é pouco valorizado e mesmo dentro dele, o grande dominador é o setor comercial. Por conta dessas dificuldades, o objetivo de grande parte dos cineastas é a competição em festivais que podem ser a única oportunidade que um filme terá de ser exibido na telona, além do fato de que nas amostras é possível fazer e fortalecer conexões que podem abrir mais portas. Para que isso aconteça deve-se inscrever seu projeto no festival desejado, levando em consideração o que a curadoria deseja.

Bastidores de Central do Brasil (1998) [Reprodução Palavras de Cinema]

Existem muitas possibilidades de festivais no nosso país, alguns exemplos são:

  • Festival de Cinema de Gramado
  • Festival de Brasília de Cinema Brasileiro 
  • Festival Internacional do Rio
  • Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

A indústria brasileira de audiovisual está se expandido principalmente por conta da verba pública proveniente de editais da Ancine e prefeituras, além de outros programas federais de incentivo que podem envolver Festivais Internacionais.

O profissional de Cinema pode trabalhar em produtoras institucionais, emissoras de televisão, agências de publicidade, produzindo filmes longa ou curta-metragem, séries, novelas e até documentários, ou em cinematecas e acervos de preservação cultural. Conseguindo atuar como roteirista, produtor, diretor, fotógrafo, sonoplasta, editor, animador, compositor, dublador, ou mesmo no que diz respeito a distribuição e divulgação de filmes como agente, programador, produtor executivo ou curador de festivais. 

Em termos numéricos, segundo o estudo de Emprego no Setor Audiovisual 2019 feito pela Ancine, os setores que apresentaram maior crescimento (em relação a atividade por estabelecimento) são os de Produção e Pós-Produção, Exibição Cinematográfica e é claro TV Aberta. Além disso o setor com maior número de empregos é a TV Aberta, chegando a 50.132 de um total de 88.053 na área. Sendo assim pode-se dizer que o setor televisivo possui grande impacto na indústria nacional, dito isso as plataformas de streaming garantiram uma relativa estabilidade de produção durante a pandemia e vem crescendo desde então, portanto não é impossível imaginar uma futura dominação desse setor já que mesmo a Globo que é a maior emissora da TV aberta brasileira vem tentando competir com outros pesos pesados dos streamings como Netflix e Amazon Prime.

Por ser um curso relativamente novo no Brasil, não existem tantas ofertas de cursos em comparação a uma formação mais tradicional como Administração, ainda assim cursar Cinema e Audiovisual pode trazer muitos benefícios e enriquecer o conhecimento na área. É importante se certificar de que o seu curso vai disponibilizar tudo aquilo que você acredita ser necessário para sua formação e seus objetivos.

Quem foi Edith Head?

Edith Head, nascida em 28 de outubro de 1897, foi uma das mais ilustres e influentes estilistas na história do cinema , ajudando a definir o estilo de uma Hollywood na sua Era de Ouro. Em  seu repertório, que se estende por cinco décadas e mais de 1000 filmes, dentre diversas conquistas, reúne o recorde de oito estatuetas no Oscar por Melhor Figurino.

Pré-Hollywood

Edith nasceu em São Bernardino, Califórnia, filha de pais judeus Max Posener e Anna E. Levy. O casamento de seus pais não sobreviveu e quando Anna voltou a se casar, dessa vez com o católico engenheiro de minas Frank Spare, Edith tornou-se adepta do catolicismo. Durante a infância, sua a família mudava-se frequentemente, à medida que os trabalhos de seu padrasto mudavam e por conta disso, mais tarde, Head só conseguia se recordar de um dos lugares onde viveu quando jovem, Searchlight, Nevada.

Apesar de ter se formado com honras em Letras na Universidade da Califórnia em 1919 e no ano seguinte conquistado um mestrado em Línguas Românticas da Universidade de Stanford, Edith sempre foi muito interessada em design.

Procurando aumentar o seu salário como professora na Bishop’s School, ela se ofereceu como professora de artes, mesmo sem ter domínio completo de suas capacidades artísticas. Para compensar por essa falta, Head frequentou a Otis Art Institute e a Chouinard Art College no período noturno.

[Imagem: Getty Images]

“You can have anything in life if you dress for it”

Incrivelmente, pouco tempo depois Edith Head foi contratada como sketch artist, a trabalhar sob Howard Greer, figurinista principal na Paramount Pictures, lá ela permaneceu durante 43 anos. Mais tarde ela admitiu ter pegado “emprestado” alguns dos desenhos dos seus colegas para sua entrevista de emprego.

No início ela produziu trajes para filmes mudos, mas já na década de 1930 ela era considerada uma das mais importantes figurinistas em Hollywood. A princípio Head foi ofuscada pelos estilistas principais do estúdio, Howard Greer e depois Travis Banton, entretanto Edith foi instrumental na conspiração contra Banton que por conta do seu alcoolismo foi demitido, assim ela foi de assistente para Designer Principal.

Durante o tempo em que trabalhou para a Paramount Studios, Edith Head chamou a atenção do público com um vestido de pele de visom para a Ginger Rogers em A Mulher Que Não Sabia Amar (1944), estimado em 35 milhões de dólares, que é considerado um dos figurinos mais caros já feitos.

[Imagem: Shutterstock]

Já em 1949, com a criação da categoria de Melhor Figurino no Oscar seu nome ficou ainda mais conhecido, a estilista alcançou mais de 30 indicações e ganhou oito delas, a começar por A Valsa do Imperador (1948).

Head era a favorita de muitas estrelas femininas da época como Tippie Hedren, Audrey Hepburn, Elizabeth Taylor, entre outros. Ela se destacava por manter ótimas relações com os atores que vestia, além de consultá-los extensivamente. Grace Kelly foi uma de suas parcerias favoritas, vestindo-a em quatro filmes diferentes, um dos seus looks icônicos é, por exemplo, o vestido azul em Ladrão de Casaca (1955) de Alfred Hitchcock.

[Imagem: Academy Film Archive]

Tornou-se uma personalidade reconhecível, por conta d seu estilo pessoal diferenciado e por sua personalidade sincera que inspirou a personagem Edna Moda de Os Incríveis (2004) e Os Incríveis 2 (2018). O visual de Edith era sempre simples e icônico. A estilista tinha uma preferência por óculos de armação grossa, tons neutros e peças conservadoras não apenas por se sentir bem, mas também para não tirar o foco de suas estrelas durante as provas de roupa.

[Gif: Tenor/Pixar]

Além de seus trabalhos principais, Edith ainda encontrou tempo em 1959 e 1967 para reaplicar o seu conhecimento em letras escrevendo os livros The Dress Doctor e How to Dress for Success, respectivamente.

Da Paramount para a Universal

Em 1967, possivelmente por influência de Alfred Hitchcock com já havia assinado as peças de 11 filmes, Edith Head iniciou um novo contrato com a Universal Studios trabalhou até seus últimos dias em 1981. 

Apesar de ainda ser muito admirada, a Hollywood dos anos 1940-50 já não era a mesma na década de 1970, Edith então passou a dar mais atenção a TV onde fez, por exemplo, o guarda roupa de Endora da série A Feiticeira.

Em 1974 a figurinista foi reconhecida por Hollywood e ganhou a sua estrela na calçada da fama. No mesmo ano ela recebeu seu último Oscar por seu trabalho em Golpe de Mestre (1973).

[Imagem: Everett]

Edith Head, não teve filhos e foi casada primeiramente com Charles Head, de 1925 até 1936, depois de se divorciar manteve o nome pelo qual ficou conhecida e só casou-se novamente em 1940 com Wiard Ihnen. Seu segundo casamento duraria até a morte dele em 1979. Até que quatro dias antes de seu aniversário e 24 de outubro de 1981 ela faleceu, vítima de uma doença na medula óssea.

[Imagem: Academy Film Archive]

Ainda que muito associada hoje em dia à personagem Edna Moda, Edith Head foi conhecida pela versatilidade de seus designs, entregando desde simplicidade e elegância até trajes excêntricos e chamativos, todos memoráveis na sua própria maneira. 

A queridinha das queridinhas de Hollywood é capaz de trabalhar até com os atores mais temperamentais. A “rainha dos figurinos” segue sendo um exemplo até os dias de hoje, não apenas por sua visão artística, mas por sua total determinação pelo sucesso e uma capacidade empática que permitia simultaneamente a expressividade nos seus designs, segurança aos seus atores e confiança dos seus diretores.

[Crítica] Matrix Resurrections: um apelo pela nostalgia

ALERTA DE SPOILER

A quarta e mais recente sequência da franquia de filmes Matrix, teve sua estreia mundial nos cinemas na última quarta (22). Keanu Reeves e Carrie-Anne Moss reprisam seus papéis icônicos como Neo e Trinity, além de haverem novas adições ao elenco compostas por Jonathan Groff, Christina Ricci, Neil Patrick Harris, entre outros. Em 1999, as irmãs Lilly e Lana Wachowski impactaram o gênero de ficção cientifica com o lançamento de Matrix. Recebendo excelente resposta de críticos, particularmente no que diz respeito aos efeitos visuais e cenas de ação, o filme conta uma história que, por si só, não é original, mas a forma inovadora como foi contada encantou a audiência de final do século 20, que via o mundo tecnológico evoluir cada vez mais rapidamente.

A história se passa vinte anos após os eventos da última sequência da franquia: Matrix Revolutions (2003). Neo vive sob a sua identidade original como Thomas A. Anderson em São Francisco e tem um terapeuta que o prescreve pílulas azuis para tratar visões anormais que ele tem ocasionalmente. Até que uma nova versão de Morpheus (Laurence Fishburne) o oferece mais uma vez a oportunidade de seguir o “Coelho Branco” e abrir a sua mente para a verdadeira realidade que gira em torno dele. Sem conseguir superar o original de 1999, mas ainda melhor avaliado do que o seu antecessor, o filme tem até o momento avaliação de 68% Rotten Tomatoes.

Confira o trailer:

Recapitulando…

Matrix (1999)

Neo vive uma vida dupla dentro do Matrix. Como Thomas A. Anderson ele segue as regras, cumpre as leis e paga seus impostos, mas como o hacker Neo ele é um criminoso virtual à procura de uma verdade que ele não sabe se existe, mas que o incomoda profundamente. Quando entra em contato com Morpheus que lhe apresenta a oportunidade de escolher como seguirá o seu caminho, tudo muda. Tomando a pílula azul, ele não se recordará de tê-lo conhecido e seguirá sua vida em ignorância, como se nada tivesse acontecido. Por outro lado, se ele escolher tomar a vermelha, a verdade sobre o Matrix será revelada.

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[Imagem: Reprodução/Warner Bros.]

Seguindo a segunda opção, Neo se depara com um futuro distópico onde centenas de humanos estão conectados a máquinas sem a sua consciência; ele é resgatado por Morpheus e sua equipe, e abordo do Nebuchadnezzar ajudam ele na sua reabilitação e a entender o que é essa nova realidade.

O Matrix é controlado por uma nova raça, uma evolução da Inteligência Artificial desenvolvida pelos seres humanos no início do século 21, mas que cresceu para além dos seus criadores. Quando se trava uma guerra entre ambas as raças, os humanos decidem queimar o céu, como uma tentativa de impedir o funcionamento das máquinas que são movidas à luz solar. 

Morpheus narrando esses acontecimentos para Neo, enaltece a ironia que está no fato de a humanidade, historicamente, necessitar de máquinas e novas tecnologias para sobreviver, uma vez que a própria humanidade agora está sendo usada como combustível de energia para as máquinas. Portanto, o Matrix é uma realidade falsa criada para manter a humanidade complacente com a sua posição de escrava neste novo mundo. Atualmente só resta um lugar inteiramente humano: Zion, que segundo um dos tripulantes do aerobarco Nebuchadnezzar é “a última cidade humana, o único lugar que nos restou”.

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[Imagem: Reprodução/Warner Bros.]

Morpheus acorda Neo por acreditar que ele é o Escolhido, que segundo a Oráculo (Gloria Foster), irá retornar para acabar com a guerra, destruir o Matrix e libertar a todos. O filme original da franquia se resume na jornada de herói de Neo, que lutando contra o Agente Smith (Hugo Weaving), reconhece o seu poder e seu papel como salvador da humanidade.

Matrix Reloaded (2003)

A continuação Matrix Reloaded, também escrito e dirigido pelas irmãs Wachowski, avança 6 meses na história de Neo, ele e Trinity são agora oficialmente um casal e continuam trabalhando ao lado de Morpheus e Link (Harold Perrineau Jr.), fica claro também que nos últimos 6 meses, com o auxílio do Escolhido eles libertaram mais pessoas do Matrix do que haviam conseguiram em anos. 

A pedido da capitã Niobe (Jada Pinkett Smith), o Nebuchadnezzar vai a Zion para uma reunião emergencial onde são informados do ataque de Sentinelas à cidade previsto em 72 horas, por conta disso o Comandante Lock (Harry Lennix) manda todos os barcos retornarem a Zion para se prepararem. Contra a vontade de Lock, Morpheus retorna ao Matrix para Neo poder encontrar a Oráculo. Enquanto isso Bane (Ian Bliss), um dos tripulantes do Caduceus, ainda dentro do Matrix, encontra o Agente Smith que toma conta do seu corpo e retorna ao mundo real. Depois de conversar com a Oráculo, Neo planeja ir a Fonte do Matrix, mas para isso precisa da ajuda do Chaveiro (Randall Duk Kim) que é prisioneiro na casa do programa Merovingian (Lambert Wilson).

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[Imagem: Reprodução/Warner Bros.]

Após inúmeras cenas de ação contra os aliados do Merovingian, eles conseguem libetar o Chaveiro e quando Neo finalmente consegue chegar à Fonte ele conhece o Arquiteto (Helmut Bakaitis), o criador do Matrix que revela que o Escolhido é na realidade uma anomalia criada para manter o controle dos seres humanos que se revoltam ao programa; já existiram 6 versões do Matrix e também 6 versões do Escolhido. Em todas elas o Escolhido é quem, segundo a Profecia, irá destruir o Matrix e libertar a humanidade, mas o Escolhido na verdade vai até a Fonte e lá deve escolher 16 mulheres e 7 homens para repopular Zion depois da sua destruição.

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[Imagem: Reprodução/Warner Bros.]

Em Matrix Reloaded, o protagonista tem presságios frequentes sobre a possível morte de Trinity, isso motiva Neo a fazer escolhas com base na emoção e não na razão. É exatamente isso que acontece quando o Arquiteto o faz escolher entre repopular Zion, ou salvar Trinity e o herói opta pela segunda opção. No retorno para o navio, Neo confessa a falha na Profecia e avisa que eles têm 24 horas para se preparar para a destruição da última cidade humana. 

Já no mundo real quando o Nebuchadnezzar é atacado e destruído pelos Sentinelas, Neo salva os companheiros e simultaneamente descobre uma nova habilidade, mas o esforço faz com que ele desmaie. Quando vemos ele novamente ele está em uma maca, abordo do barco Hammer, junto do corpo de Bane, que segundo os tripulantes foi o único sobrevivente encontrado no Caduceus, depois do massacre que aconteceu em Zion.

Matrix Revolutions (2003)

Seguindo imediatamente os acontecimentos do anterior, Matrix Revolutions começa com Morpheus procurando Neo dentro do Matrix pois seus sinais vitais não correspondem com o de uma pessoa em coma, mas sim os de uma pessoa conectada. Na verdade, Neo está preso em um tipo de limbo entre o Matrix e o mainframe, na estação de trem “Mobil Avenue”, onde ele conhece Sati (Tanveer K. Atwal) e sua família e o programa que controla a estação chamado Guarda-Freios (Bruce Spence), leal apenas ao Merovingian e por conta disso não deixa o protagonista sair de lá. Ao descobrir isso, com a ajuda da Oráculo (Mary Alice), Morpheus e Trinity vão atrás do Guarda-Freios que escapa, sem muita paciência eles vão até o Merovingian a mão armada obrigá-lo a soltar o Neo.

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[Imagem: Reprodução/Warner Bros.]

Com novas premonições sobre a Cidade das Máquinas, Neo conversa com a Oráculo que explica que uma conexão entre ele e a Fonte foi formada depois que ele foi a Fonte, e por conta disso ele tem suas habilidades dentro e fora do Matrix. Além disso ela deixa claro que Neo e o Agente Smith são dois lados da mesma moeda e que Smith está ficando cada vez mais forte e isso pode acabar destruindo, além do Matrix, a Fonte e a Cidade das Máquinas. 

Na sequência, Niobe permite que Neo e Trinity usem o Logos para ir até a Cidade das Maquinas, enquanto o resto da tripulação tenta retornar para a guerra em Zion. Antes de partirem o casal é emboscado por Smith no corpo de Bane, que cega Neo, mas acaba morrendo. Chegando na cidade o Logos tem problemas na aterrisagem que acabam matando Trinity e obrigando Neo a seguir sozinho.

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[Imagem: Reprodução/Warner Bros.]

Neo conhece Deus Ex-Machina, uma personificação das máquinas, e tenta negociar a paz. Ele avisa que o Smith está muito poderoso e cada vez mais fora de controle, mas que ele pode impedir que Smith destrua tudo desde que Deus Ex-Machina garanta o fim da guerra em Zion. As máquinas param de atacar enquanto Neo entra no Matrix para confrontar Smith. Eles lutam enquanto diversas versões do agente assistem e por um instante quando Neo parece estar derrotado, Smith comemora e possui o corpo do herói que se torna mais uma versão do antagonista e que confirma que finalmente tudo acabou, com um sorriso no rosto. Porém no mundo real o corpo de Neo sofre espasmos, quando absorve uma onda de energia a partir da conexão com o Matrix e, a começar pela mais nova versão do agente, todos os Smiths são destruídos de dentro para fora.

Sacrificando-se pela causa, Neo alcança o objetivo final do Escolhido; todos possuídos pelo agente dentro do Matrix voltam ao normal, em Zion os Sentinelas se afastam sinalizando o fim da guerra. Nos últimos instantes do filme, em conversa com a Oráculo o Arquiteto confirma que todos os humanos serão libertos.

Matrix Resurrections (2021)

Como é possível criar uma sequência de uma trilogia que aparenta estar completamente finalizada? 

O filme reorganiza os acontecimentos dos três últimos filmes e os justifica dizendo que compõem uma trilogia de games hiper realista criada pelo renomado designer de games Thomas Anderson. Dentro do Matrix, apesar de ter uma vida comum e confortável, Anderson precisa da ajuda do seu analista que prescreve pílulas azuis para lidar com as suas visões frequentes nas quais ele acredita ser Neo, o protagonista do seu jogo. Enquanto isso novos personagens são introduzidos quando Bugs (Jessica Henwick) encontra uma encarnação de Morpheus (Yahya Abdul-Mateen) e eles, junto da tripulação do Mnemosyne libertam Neo do Matrix, a partir daí eles descobrem que Trinity segue viva e presa ao Matrix e tentam resgatá-la também.

Matrix Resurrections não é nada além do que promete ser: uma adaptação de um universo já conhecido e amado para audiências de séc. XXI. Durante os 30 primeiros minutos do filme cenas da trilogia original recortam o novo enredo, uma maneira de pontuar semelhanças e de deixar claro para a audiência que o que aconteceu anteriormente não está sendo esquecido ou deixado de lado. Aliás o filme em si cresce muito pouco para além da sua origem, sendo um longa genérico de ação com uma narrativa extremamente humilde.

[Imagem: Reprodução/Warner Bros.]

Um ponto alto desse filme é que ele não se leva a sério como seus antecessores, inserindo um humor bem-vindo e confortante em tema com potencial para se tornar denso sobre a ambiguidade na coexistência entre a raça humana e digital. Ambiguidade na coexistência? Mas eles não passaram três filmes em guerra, e Neo teve que se sacrificar justamente para libertar a humanidade da sua escravidão? Pois é, de repente Lana tenta nos convencer que a melhor alternativa sempre foi se unir às máquinas por que só elas auxiliam na verdadeira evolução humana. Isso poderia ser abordado mais a fundo, mas não, Neo simplesmente aceita essa nova realidade e fica claro que nós devemos aceitar também. Isso é algo recorrente, cada vez que um novo fator implica na história já conhecida, algum personagem afirma que o que ele viveu não perdeu valor ou relevância, e que não foi nada à toa. 

Nesse caso a personagem que introduz essa nova maneira de pensar é Niobe que retorna para, em grande parte servir como mais um fator de nostalgia, mas também para se posicionar a favor da nova aliança entre as duas raças. Ela argumenta por exemplo, que antes não era possível cultivar nenhuma fruta ou vegetal em Zion, mas agora, com a ajuda de máquinas eles cultivam diversos alimentos. Ela e o Merovingian ambos retornam de uma maneira muito peculiar, com alterações físicas intensas que refletem na sua condição atual, eles trazem a memória dos personagens originais mas com uma nova caracterização que parece uma paródia e, no caso principalmente do Merovingian, serve apenas como alívio cômico.

O “fan service” sendo feito pela Lana Wachowski que dessa vez dirige o filme sem a sua irmã, é óbvio. A história original não é alterada, mas o que acontece imediatamente na sequência de Matrix Revolutions é adaptado à uma nova narrativa que se encaixe 20 anos depois, sem desvalorizar o passado. Neo novamente tendo que acordar como no filme de 1999, mas dessa vez com memória de tudo que fez serve como uma personificação dos fãs.

Além de uma introdução precária de diversas máquinas que ajudam os protagonistas no decorrer da narrativa, a equipe do Mnemosyne também sofre nessa adaptação. Tendo o foco em Neo e Trinity durante a maior parte do filme, os demais personagens demonstram pouco ou nenhum desenvolvimento e são rasos em personalidade e relacionamentos, eles servem como mais um veículo para o fã poder se consolar, atuando como uma representação generalizada de fãs que interagem com os protagonistas como seus ídolos.

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[Imagem: Reprodução/Warner Bros.]

O recurso primordial no audiovisual é o “mostre, não conte”, no qual basicamente o diretor reconhece a inteligência do espectador e permite a ele um certo nível de interpretação. Lana prefere ignorar esse recurso durante praticamente todo o filme, nos momentos já mencionados em que ela quer indicar referências diretas à sua filmografia, e nos momentos em que o filme sente necessidade de eliminar qualquer sutileza e praticamente quebrar a quarta parede para consolar os fãs e justificar o que está acontecendo.

Apesar disso outro ponto alto é a inovação visual do filme, cenas icônicas como o primeiro treino de Kung-Fu de Neo no primeiro filme são adaptadas para uma audiência de 2021 com maiores expectativas e menor capacidade de atenção, solidificando a nostalgia em um presente mais pirotécnico.

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[GIF: Reprodução/Giphy]

Em um determinado momento a nova encarnação de Morpheus diz a Neo “nada conforta a ansiedade como um pouco de nostalgia”, o filme todo poderia ser resumido apenas nessa frase. Desde cenas diretas da trilogia original até personagens que retornam como caricaturas das originais, Matrix Resurrections não um filme que precisava existir, mas ele não fere o legado da trilogia original e cumpre o que promete: nostalgia.