Miu Miu: uma ode ao mundo pós-pandemia

Fundada em 1992 por Miuccia Prada, a marca ‘Miu Miu’, nome este escolhido carinhosamente em homenagem à fundadora da casa — apelido atribuído-lhe na infância por seus familiares — comporta-se desde sua primeira exposição (lançada oficialmente em 1995) como uma carta ao público juvenil, especialmente por suas demasiadas referências às tendências e adesões jovens da época.

A irmã caçula da Prada e a segunda metade de Miuccia — assim por ela amorosamente denominada — ela surge em contraste aos designs extremamente minimalistas e desenhos sofisticados trabalhados pela estilista na marca irmã. A Prada embarca em uma pegada mais clássica, buscando conquistar a mulher madura moderna, a Miu Miu surge como uma aventura mais extrema e divertida aos olhos dos entusiastas de moda, atraindo as jovens determinadas e extremamente cool.

Desde a sua primeira coleção de Primavera/Verão exposta em 1995 na Semana de Moda de Nova York (New York Fashion Week), a marca de origem italiana nos contempla com o seu objetivo principal: demonstrar toda a jovialidade interior de Miuccia. Além disso, a apresentação conta com a ilustre presença das principais supermodelos da época, o que foi crucial para que a casa pudesse atrair os olhares do público imediatamente.

A coleção seguinte de Outono/Inverno 1995 proporciona uma mesma atmosfera da inaugural da marca, entretanto, com a adição de alguns elementos que refletem um pouco mais a ousadia da casa italiana. Esta conta com a aparição de botinhas e sapatos inspirados nos filmes western, plataformas e tamancos em couro e píton. 

Ao passar dos anos, o espírito avant-garde e estilo provocativo estiveram presentes em todas as coleções lançadas pela marca italiana.

Seja por referências ao verde-militar, pelas famigeradas jaquetas tirolesas ou pela mulher guerreira, poderosa e orgulhosa sobre tamancos, tons soturnos e casacos esquimós, a essência militante de Miuccia sempre fez parte do DNA de sua segunda filha Miu Miu, o que obviamente não poderia diferir em suas coleções mais atuais, expostas no contexto pandêmico.

Dentre elas, destacam-se principalmente as coleções de Primavera/Verão (Spring/Summer) 2022 e Outono/Inverno (Fall/Winter) 2022, lançadas recentemente, e que também podem ser apontadas como o auge da casa, especialmente pela proposta apresentada em tempos tão sombrios quanto a pandemia.

Alguns detalhes das coleções de Primavera/Verão e Outono/Inverno 2022 da Miu Miu. [Imagens: Vogue Runway]

Em um rápido giro ao passado, o mundo foi surpreendido entre dezembro de 2019 e início de janeiro de 2020 com o anúncio do surgimento de um novo vírus, identificado posteriormente como o novo coronavírus (Covid-19). O que de início não deveria passar por um momento quinzenal de reclusão, perdurou por mais de 18 meses e tem assombrado alguns países até hoje — que passaram a reportar novos casos da doença em larga escala, como a China e a Coreia do Norte, por exemplo.

Neste contexto, diversos setores foram amplamente afetados pelas medidas restritivas aplicadas a diversos países mundiais. As restrições afetaram assiduamente inclusive o setor da moda, que precisou suspender os seus desfiles presenciais, além de passar a instigar a criatividade de diversas marcas e diretores-criativos da categoria — seja com suas criações ou com o modo de exposição de suas novas coleções. A tarefa obviamente não foi fácil, mas diversos designers conseguiram entregar coleções com histórias costuradas ao contexto atual vivenciado pela população global.

Enquanto a sociedade aguardava ansiosamente pelo retorno à vida comum — mesmo que gradativamente — visto que os números de casos e mortes passaram a diminuir efetivamente em demasiadas nações, inclusive no continente europeu, em Abril do ano passado (2021) éramos novamente surpreendidos por uma nova ameaça advinda do Coronavírus. A ascensão da variante delta coincidentemente alinhou-se com uma publicação do siteThe Business of Fashionem que declarava que: ”o Sexo está de volta. Os consumidores estão prontos?”.

Isso porque algumas marcas e personalidades importantes estavam investindo em peças e coleções que reviviam a pegada sexy do início dos anos 2000 e amostravam bastante a pele — tendências como a cintura baixa e cropped estiveram a todo vapor no último ano —, o que ia em contramão com a situação aterrorizante atual.

Em outubro do mesmo ano outro portal de grande renome na indústria jornalística publicava algo semelhante. O britânico ‘The Guardian‘, pouco antes do estado de alerta à variante Ômicron, recomendou aos seus leitores que abandonassem suas peças aconchegantes, pois era o ”momento de vestir-se de maneira sexy”.

No mesmo mês, quatro dias após a publicação da matéria, a Miu Miu parece ter entendido o recado, mesmo sem ter lido o que estava sendo proposto pelo portal e com toda a coleção preparada meses antes.

Amplamente tietada e compartilhada por todos os veículos renomados do mundo fashion e também por membros da comunidade modista, a coleção de Primavera-Verão 2022 (lançada em 5 de Outubro de 2021) da Miu Miu funciona como uma eclosão aos sentimentos dos jovens em seus “vinte e poucos anos” que tiveram a sua liberdade festiva interrompida pelo distanciamento social, desencadeado pela pandemia em decorrência ao coronavírus (Covid-19).

Enquanto o lazer e os IRL (in real life) moments foram substituídos pelo home office e os encontros passaram a ser realizados por videoconferência, esta coleção em específico nos induz a alguns questionamentos, dentre eles: o modo como lidamos com nossas normas e valores, além da maneira como determinamos o nosso dress-code.

Inspirada especialmente na rebelião e espírito vanguardista do público juvenil, principalmente pelo recorte das peças que relembram os uniformes escolares/universitários cortados, a apresentação da coleção de Primavera da Miu Miu é marcada pela presença de símbolos que retomam as referências aos gloriosos anos 2000 — anos estes de glamour e fortemente característico pela expressividade e mistura de detalhes e elementos nas vestimentas —, como as mini-skirts, peças em cintura baixa, e especialmente, amostra da pele.

Enquanto as notícias que circulavam eram totalmente assombrosas, o que acontecia nas passarelas reforçava a teoria social de: quanto mais caóticos são os tempos, mais a moda gosta de brincar com o tamanho das peças.

Peças da coleção de Primavera-Verão da Miu Miu. [Imagem: The New York Times]

E essa aposta atual da Miu Miu investe em uma atmosfera completamente ‘sexy’, reafirmando também as propostas do The Business of Fashion e do The Guardian. Além disso, a coleção ainda proporciona o recorte das principais tendências que deverão perdurar nas próximas coleções e criações da Miu Miu e também de outras marcas, especialmente no período conhecido como pós-pandêmico, em que as atividades agora retornam ao seu modo normal — na medida do possível — e a sociedade se vê livre para festejar e celebrar a vida novamente.

Enquanto a coleção de Primavera/Verão brinca com as amostras e alusões ao ciclo glamoroso dos Y2K e explora o modo ”sexy sem ser vulgar”, a coleção seguinte, Outono/Inverno 2022, exposta em 8 de março deste ano (2022), apesar de dar continuidade ao storytelling e ainda apresentar referências da apresentação passada, aborda questionamentos um tanto quanto pertinentes ao momento atual — se analisarmos mais profundamente — vivenciado globalmente, além de se concentrar como um novo state of mind no contexto da moda.

Em um mergulho aos arquivos e memórias de sua infância, Miuccia Prada apresenta uma coleção consistente com as suas paixões. Os 53 looks apresentados nesta coletânea caracterizam uma postura menos workaholic, aprofundada nos estúdios de balé e sua atmosfera e se apega nas diversões, aventuras e universo esportivo — paixões que perseguem a fundadora da casa desde sua infância sendo polidas durante toda a trajetória de Miuccia, inclusive dentro da Prada. Casacos e blazers oversized, peças mais finas e composições sobrepondo lingeries deram espaço à mulher mais feroz, determinada e sensual, demonstrando o ”amadurecimento” da menininha Miu Miu.

E se este amadurecimento ainda estiver encaixado com o autoconhecimento e desenvolvimento pessoais? Afinal, o período exaustivo e sombrio da pandemia contribuiu para podermos olhar mais gentilmente ao nosso interior e também permitiu que pudéssemos nos redescobrir — entre paixões ou gostos mais singelos —, além de auxiliar na busca e descobrimento de novos hobbies e fontes de diversão.

Tópicos como diversidade de gênero e peças genderless & andróginas também se fizeram presentes na última coleção exposta pela marca, simbolizando a preocupação da casa com os assuntos mais atuais.

Outro ponto que ainda fica evidente nesta coleção desenhada por Miuccia para a Miu Miu é a escolha de peças que conseguem expressar o conforto e delimitar o occasionwear — servidas especialmente para diferentes ocasiões —, o que casa-se perfeitamente com os resquícios do pior momento da pandemia, em que a maioria da população tem buscado explorar vestimentas mais confortáveis para adaptar-se ao modelo work from home. Além disso, nestes dois trabalhos recentes para a Miu Miu, Miuccia Prada nos influência a explorar outros horizontes e hábitos (atividades bem comuns durante os meses em isolamento): sejam eles esportistas, noturnos ou mais reclusos.

Portanto, a mensagem que fica em ambas as coleções mais recentes da Miu Miu é extremamente clara: a geração precisa aproveitar a fase mais destemida e repleta de liberdade. Afinal, o período pós-pandemia jamais será idêntico aos anos anteriores e nem mesmo nossa rotina será semelhante ao que um dia foi habitual.

O jogo de opostos entre as duas coleções — festividades para a Primavera-Verão 2022 e calmaria e postura menos workaholic para a coleção de Outono-Inverno — alinha-se perfeitamente ao momento pré-pandemia e o que vem a ser o seu pós.

Enquanto anteriormente vivíamos no modo acelerado, para o eventual pós, Miu Miu & CIA nos provoca a reflexão em balancear os nossos extremos e instiga-nos a viver em um modo mais desacelerado, sem perder o glam da noite. E não existe maneira melhor de misturar os dois mundos senão à la Miu Miu.

E quem melhor que Miuccia Prada para traduzir este sentimento?

‘’Talvez a Miu Miu é o que eu gostaria de ser, mas não consigo ser realmente. Porque se trata da minha parte mais transgressiva, mais extravagante e irônica. Às vezes acontece que dedico mais tempo à Miu Miu: deve existir sem dúvida uma implicação psicanalítica nisso’’ — trecho retirado do livro ‘Vita Prada’ de Gian Luigi Paracchini (páginas 87 e 88).

Confira os desfiles das coleções mencionadas na íntegra:

Desfile completo da coleção de Primavera/Verão 2022 da Miu Miu. [Reprodução: Miu Miu/ YouTube]
Desfile completo da coleção de Outono/Inverno 2022 da Miu Miu. [Reprodução: Miu Miu/ YouTube]

Por trás do DNA: Demna Gvasalia

Balenciaga não é o nome do momento à toa. A marca, que possui anos de história, tradição e sofisticação, agora conta com uma direção criativa e direção de marketing praticamente perfeitos. 

A presença de nomes como Kanye West & Kim Kardashian 一 agora o famigerado ex-casal ‘Kimye’ 一, Rihanna e Cardi B pode acabar por exercer um encargo fundamental para a promoção da marca. No entanto, outro nome pode ser fortemente associado ao sucesso e patamar esplêndidos nos quais a casa Balenciaga fora elevada e este é: Demna Gvasalia. 

Natural da cidade de Sucumi, capital da Abecásia (uma república independente dentro da Geórgia), o estilista de 41 anos agora reposiciona a maison em seu parâmetro de ousadia, ironia e duramente real e cru.

Com seus designs extremamente sólidos e inovadores, Gvasalia tem, de forma extremamente sucessiva, voltado os olhos do mundo da moda 一 quase que exclusivamente 一 à Balenciaga. 

[Imagem retirada do site da Vogue USl]

História

Demna Gvasalia nasceu em 26 de março de 1981 na cidade de Sucumi (ou Sukhumi), na república 一 naquela época 一 soviética da Geórgia em uma família inserida nos costumes ortodoxos georgianos. 

Diferentemente de outros designers que despertam sua paixão pelo universo da moda e desfrutam-na ainda na adolescência, Demna presenciou uma juventude até então conturbada. 

Apesar de adorar criar vestimentas desde os seus 8 anos, aos 12 ele fugiu de seu país em decorrência ao momento em que atravessava a Geórgia: uma árdua guerra civil consistida em conflitos inter-étnicos e intra-nacionais perante o violento Golpe de Estado por parte de militares (entre o final do ano de 1991 e início de janeiro de 1992) contra o primeiro Presidente democraticamente eleito, Zviad Gamsakhurdia. 

Dentro deste contexto de conflitos, de 2001 por diante o estilista e sua família se mudaram para a cidade de Düsseldorf, na Alemanha. Antes de ingressar no mundo da moda e do design, Demna Gvasalia cursou Economia Internacional durante 4 anos na Universidade Estadual de Tbilissi (Ivane Javakhishvili Tbilisi State University), na capital da Geórgia, com a intenção de trabalhar como banqueiro. Anos mais tarde, insatisfeito com sua posição profissional e buscando aflorar seus instintos criativos, em 2006 Demna ingressou em um curso de mestrado em Design de Moda na Academia Real de Belas Artes de Antuérpia (Royal Academy of Fine Arts), na Bélgica.

Enquanto buscava o título de mestre em Design de Moda, Gvasalia colaborou com o também designer Walter Van Beirendonck 一 na época, professor da Academia 一 ainda em 2006 para suas coleções masculinas. Dali por diante o currículo de Gvasalia no universo da moda passou a tomar outro rumo. 

Três anos mais tarde, em 2009, o georgiano se juntou à Maison Martin Margiela, em que o artista era responsável pela criação das coleções femininas até 2013, ano este em que Demna foi indicado como designer sênior para as coleções femininas de ready-to-wear na Louis Vuitton 一 inicialmente comandada por Marc Jacobs e brevemente apresentada sob os cuidados de Nicholas Ghesquière.

O tempo que Demna passou na Margiela foi fundamental no processo de criação e descobrimento de sua identidade como um designer, além de moldar o estilo pessoal do artista. 

Sendo assim, um ano após deixar o cargo na grife, o artista optou por aclimar e expor o seu talento de outra forma: fundando sua própria marca, denominada Vetements.

Lookbook da coleção de Outono/Inverno 2015 (terceira coleção da marca). [Imagens: Vogue Runway]

VETEMENTS

Para expandir e explorar o seu lado artístico, em 2014 Demna lançou sua própria marca, a Vetements, ao lado de seu irmão Guram Gvasalia e em colaboração com um grupo pequeno de 7 amigos e colegas de classe na Academia Real de Belas Artes belga 一 inicialmente optando por atuarem de maneira anônima 一, que geralmente exibiam suas criações em pequenos clubes gays na cidade de Paris, na França. 

A primeira coleção feminina de ready-to-wear da marca foi lançada durante a Semana de Moda de Paris ainda em 2014 na Galerie Bernard Jordan, na capital francesa. 

Durante seu trabalho como co-fundador e especialmente diretor-criativo da Vetements, Demna explorou firmemente a força do streetwear na moda embalada a um mundo extremamente ‘cool’ que contrastava bastante com as outras marcas que uniam e buscavam excepcionalmente a sofisticação, luxo e riqueza de detalhes em suas apresentações durante a semana de moda. 

Além disso, durante sua estada frente à criação das peças, Demna ainda mergulhou no cenário cult juvenil 一 um dos elementos responsáveis pela explosão da marca entre os amantes desta faixa etária 一, unindo a praticidade do dia-a-dia ao mercado de estratégia e business, o que Gvasalia também conseguiu sempre fazer muito bem.

Outro ponto que reforça a genialidade de Demna como um líder na marca foi, sem dúvidas, a virada de chave quanto a identidade da Vetements.

Abrigando fortes referências ao seu passado na Geórgia soviética e suas heranças maternas 一 oriundas da Rússia 一, elementos como vestidos floridos, babushkas, moletons estampando o símbolo do Partido Comunista, dentre outros, sempre foram fundamentais na composição das peças da Vetements.

A estética do grupo abraçara o universo antifashion (antimoda em tradução livre), estética que contradiz a moda convencional e opta pelo simples substituindo a extravagância e o maximalismo. 

Ou seja, embora fosse ‘’contra’’ o que a maioria das marcas atendia durante as semanas de moda, os desenhos de peças oversizeds, espontâneos, portando silhuetas enormes além de tendências hardcores  e desconstrutivas do Leste Europeu conquistaram o público e a crítica aclamada da moda, responsáveis ainda por solidificarem a marca como representante fiel da realidade das roupas. 

Ademais, outro fator primordial no impulsionamento do espírito vanguardista, livre e vívido de Demna enquanto diretor-criativo foi a escolha de seu casting. Durante os anos que colaborou com a Vetements 一 seja como co-fundador ou diretor de criação 一, o estilista buscou por personagens não-modelos e menos convencionais para capturarem precisamente o objetivo buscado por Demna e sua marca: pessoas reais vestindo peças que condizem com o mundo real e com o seu modo de viver e aventurar-se no cotidiano.

Não é à toa, que a marca elevou o seu nível entre sua segunda e terceira coleções. Neste breve período a marca fora apontada como a semifinalista em 2015 do prêmio de ‘Novo Designer de Moda’ da LVMH, um dos principais conglomerados de luxo do mundo.

Apesar do reconhecimento, Demna não limitou sua genialidade e garantiu que na ilustre coleção de Outono/Inverno de 2015, a marca coletiva pudesse avançar um novo passo através do envio de modelos para o famoso clube gay de Paris, o ‘Le Depot’, em peças que reproduziam polos de bombeiros, além de moletons grandes e casacos oversized que atendiam precisamente os gostos dos telespectadores, tais quais Jared Leto e Kanye West.

A busca pela criação de uma moda subversiva ao lado de um talento revolucionário, real e genial foram aspectos fundamentais para que também em 2015 Demna Gvasalia chamasse a atenção da Balenciaga e, como o próprio presidente da Kering 一 conglomerado de luxo que engloba a Balenciaga 一, François-Henri Pinault destacou, Demna Gvasalia era uma ‘’força poderosa no mundo criativo de hoje’’ e, sendo assim, fora convidado para ocupar o cargo de diretor-criativo da casa. 

Durante seu trabalho como diretor-criativo duplo 一 Demna era responsável pelas criações da Vetements e da Balenciaga 一, o estilista conquistou em março de 2017 o prêmio do CFDA (Council of Fashion Designers of America) por seus afazeres em ambas as marcas. Dois anos mais tarde, em 2019, o designer surpreendeu a todos com o anúncio de sua saída da direção-criativa da Vetements. 

Em suas próprias palavras, o estilista disse começar a Vetements por estar entediado com a moda e, contra todas as probabilidades, a moda mudou uma vez e para sempre desde que a Vetements apareceu e também abriu uma nova porta para muitos. 

‘’Então, sinto que cumpri minha missão de conceitualista e inovador de design nesta marca excepcional e a Vetements amadureceu em uma empresa que pode evoluir sua herança criativa para um novo capítulo por conta própria’’, concluiu Demna. 

Encerrando assim sua estadia na marca que fundara com seu irmão, Gvasalia, a partir deste momento, contribuiu para elevar a Balenciaga ao status imperioso que se encontra agora.

BALENCIAGA

Após sua nomeação como diretor-criativo da marca 一 logo após a saída de Alexander Wang 一, Demna Gvasalia deu início a um trabalho mais que extraordinário.

Ainda compromissado com suas heranças voltadas ao streetwear e um estilo mais casual, agora como responsável pela criação da Balenciaga o estilista buscou retomar as influências deixadas por Cristóbal Balenciaga, entretanto, de uma maneira que não fugisse de sua própria estética moderna e vanguardista. 

Em seu debut, mais precisamente marcado pela apresentação da coleção de Outono/Inverno de 2016 da maison, Demna explorou inicialmente peças que remontam a estética política-parlamentar, ou seja, unindo o poder feminino 一 que metaforicamente poderia ser associado ao poder no mundo político 一, de modo que pudesse ainda representar as características de Cristóbal e da casa de maneira excepcional e sucinta. 

Conforme a coleção era apresentada, o designer conseguiu expor o ápice e as características de seu DNA: peças que operam muito bem no streetwear costuradas entre sua estética e, de maneira totalmente especial, com os atributos de Balenciaga, incluindo ainda influências de sua juventude soviética na Geórgia em suas criações. 

Ainda que a coleção a seguir (Pré-Outono de 2016) não fosse totalmente assinada por Gvasalia devido ao momento de transição entre sua chegada e a partida de Wang, era possível detectar algumas de suas características 一 herdadas especialmente de seu tempo de trabalho com sua antiga marca, a Vetements.

Dentre elas: botas de salto agulha que seguiam até as coxas, o xadrez Vichy de arquivo em pequenos florais de preto, o moletom com capuz fotografado no modelo perfil para simular a silhueta específica da Balenciaga e as linhas fluidas de um vestido longo e volumoso estampado com flores, inegavelmente seguindo os estilos Vetements.

Na coleção seguinte – primavera/verão de 2017 masculina – Demna expõe de maneira única o quanto tem feito e estudado as lições de casa. Desde sua chegada na maison, o artista parece provar ser mais que possível tomar as rédeas de uma casa de modo metricamente perfeito sem perder suas origens ou, neste caso, sem perder as referências originais da marca.

E assim o fez. Em um perceptível mergulho aos arquivos da Balenciaga, Gvasalia finalizou um dos casacos iniciados 一 e nunca finalizados por Cristóbal durante sua gestão na maison 一 pelo fundador da casa, abrindo o desfile com a presença ilustre desta peça em um tributo altruísta com criações ainda assim tão únicas e sofisticadas. O resultado obviamente foi inesperado, resultando em uma coleção repleta de peças desenhadas em ombros largos, shorts justos e brogues pesados.

A coleção de Outono/Inverno 2017 também deu o que falar, assim como praticamente todas as coleções expostas por Gvasalia.

Para esta temporada, o estilista desfrutou de inspirações no candidato democrata Bernie Sanders, utilizando referências do estilo clássico e esportivo, bem como casual. Demna redesenhou o logo da campanha de Sanders de forma que combinasse com o logo da Balenciaga apresentado em seus shows. A apresentação foi recebida de forma bastante otimista e com um bom-humor por parte do ‘muso inspirador’ da coleção, que chegou inclusive a ser notícia em um canal jornalístico tradicional norte-americano, a CNN.

Nas coleções que seguiram, o uso de collants de spandex e saltos completamente provocantes fizeram parte do cenário de desenvolvimento e ousadia do designer. Criações como o sapato-meia (speed sock), o Triple S, crocs de plataforma (platform-sole Crocs), bolsas de couro da IKEA e ternos de baile de formatura satíricos conquistaram as massas ambientadas em diferentes posições, ainda expondo os clichês por trás do elitismo presente na moda. 

Em meio a este processo entre sua chegada e sua caminhada ao topo dos holofotes como diretor-criativo da casa, Demna conseguiu posicionar a Balenciaga como uma moda altamente corporativa além de colocá-la como a marca mais legal e bem-humorada do mundo através de seus designs extremamente revolucionários, precisos e criativos.

O universo de streetwear, apesar de predominar em praticamente todas as coleções de Demna para a Balenciaga 一 e embora este estilo pareça perpetuar entre criações mais simplistas 一, agora se expressa de uma maneira ainda mais sofisticada e compromissada com a entrega de um trabalho mais clássico e luxuoso entrelaçando as assinaturas de Gvasalia e Cristóbal, alinhadas à demanda da casa Balenciaga. 

E engana-se ainda quem imagina que a genialidade e criatividade de Demna são circundadas apenas nos limites das passarelas. Fora delas, a mente criativa do estilista aflora-se durante o modo de apresentação e exposição de suas coleções. Os cenários são escolhidos de maneira demasiadamente especial. 

As coleções de Pré-outono 2019, de Resort 2020 e Pré-outono 2020 mergulham entre a sofisticação de peças em streetwear 一 contempladas com criações overziseds e trench-coats mais clássicos 一 expostas de forma que se assimilassem com candids casuais de pessoas encontradas nas ruas ambientadas em diferentes atmosferas.

Enquanto isso, a coleção de Resort de 2021 nos fascina com o modo em que é exposta: a apresentação e fotografia das peças foi montada de maneira que captasse um pouco do mercado de e-commerce. 

O showroom da coleção consistiu em um sistema de informações virtuais que disponibilizavam algumas informações da composição da peça, os materiais das roupas e seus acessórios, além dos IDs que facilitariam na busca do produto.

O excentrismo de Demna ficou ainda mais evidente com a coleção Resort 2022. Nela o estilista entregou uma apresentação marcada por críticas pontuais à indústria da moda. ‘Os Clones’, assim intitulada a coleção da casa, em primeiro momento aparenta ser bastante comum e seguir com os padrões de inovações do conjunto Demna x Balenciaga. Entretanto, partindo de uma análise mais profunda é possível identificar qual o storytelling pretendido pelo diretor-criativo. 

A live de apresentação da coleção se inicia com um pequeno texto nos convidando a refletir o modo como vivemos, relacionado às ilusões criadas especialmente a partir da tecnologia, que não mais nos permite identificar o que é real ou ilusório. O uso proposital da tecnologia nos 45 looks apresentados, incrivelmente compostos pelo rosto de Eliza Douglas, uma amiga próxima de Demna, também nos permite fazer uma reflexão acerca do comportamento social.  

No aspecto estético, as assinaturas de Demna Gvasalia não ficaram de fora da coleção Resort 2022. Nela foram captadas fortes referências às mulheres russas, fazendo grande menção às suas raízes soviéticas através da aparição das botas grandes, peças oversized, lenços, babushkas e um visual mais pesado.

A mais recente coleção da casa, pré-Outono 2022, filmada pelo renomado Harmony Korine e exposta em formato de polaroides, assume uma das principais influências e características do design de Demna: os anos 90. 

Na apresentação desta temporada, Gvasalia rebobina o relógio para a época pré-bombardeio da internet e pós-grunge, minimalista, desconstruída e com forte marco da estética de guerrilha e em que a única cor permitida era a sua cor favorita 一 o preto. 

‘’Os anos 90 foram a década em que percebi que adorava a moda’’, declarou Demna Gvasalia em uma entrevista para a Vogue Runway. 

Lookbook acima com algumas das peças expostas na coleção Pé-outono 2022. [Imagens: Vogue France e Vogue Runway].

BALENCIAGA COUTURE

Apesar de inúmeros feitos e criações simbólicas para a casa, o triunfo à la Demna Gvasalia para a Balenciaga foi a coleção desenvolvida para a alta-costura. A exposição de Outono 2021 Couture foi a primeira exposição da marca para esta categoria desde 1967 一 quando Cristóbal Balenciaga deixou a marca. 

O que parecia ser um teste de alto risco para sua carreira, visto que a última coleção voltada à confecção de peças para alta-costura foi criada por Cristóbal, acabou sendo o apogeu do prestígio de seu trabalho perante a crítica renomada e entre o público do mundo da moda. 

A coleção criada e exposta por Demna provou que o artista sabe sim para o que veio e o quanto consegue unir as características originais de Cristóbal e Balenciaga com suas referências próprias. Enquanto homenageava o arquiteto da alta-costura, Demna expôs de maneira exemplar suas ideias revolucionárias sobre o século atual. 

Em uma coleção que reúne artigos de luxo, elegância, nobreza e muita sofisticação, os membros da moda 一 entre jornalistas e o público geral 一 pararam para testemunhar a história novamente sendo feita na Balenciaga na 10 Avenue Georges V naquele 7 de julho de 2021, mesmo após quase 54 anos desde a exposição da última coleção de Alta-Costura da maison. 

Em 63 peças reunidas majoritariamente na cor preta, Demna apresentou uma coleção de alta-costura sóbria, com a presença de uma alfaiataria rigorosa e potente, bordados floridos, vestimentas expansivas e um drama expresso por suas golas mais recuadas. Além disso, a assinatura de Gvasalia esteve mais que presente durante a apresentação de sua coleção, contendo camisas grandes 一 que acompanham Demna por praticamente toda a sua trajetória no mercado da moda 一, roupas de banho e jeans utilitários, o que também retoma as influências do streetwear na jornada de criação do estilista. 

Neste trabalho foi possível acompanhar e absorver toda a genialidade e curiosidade do artista, marcados exclusivamente por sua autenticidade quanto à criação de seu trabalho, o que, claro, levou-o a conquistar o cargo de diretor-criativo da Balenciaga.

Sua engenhosidade e determinação foram imprescindíveis na caminhada de Demna ao reconhecimento e patamar nos quais o designer encontra-se atualmente e a prova disto pode ser facilmente encontrada nos detalhes de suas criações e no talento e amor que Demna Gvasalia coloca em suas peças.  

PANDEMIA E ESTRATÉGIAS DE MARKETING

Daniel Lee, ex-diretor-criativo da Bottega Veneta, pode ter sido uma grande referência em rebranding e estratégias de marketing/business da marca italiana. Entretanto, também neste tópico, Demna Gvasalia não fica muito atrás. 

Apesar do período de inseguranças e inúmeras incertezas 一 sem exceção do mercado de moda e design 一 desencadeadas pela pandemia em decorrência ao surgimento do novo coronavírus (Covid-19), a instabilidade no comércio de vendas pode não ter sido uma preocupação para a equipe Balenciaga. 

Enquanto diversas marcas buscavam demasiadas opções de rebrandings e novas estratégias para alavancarem as vendas de suas marcas 一 especialmente após a implantação de restrições que impediam a ocorrência de desfiles presenciais 一, a Balenciaga comandada por Demna fazia o uso inteligente de memes e redes sociais para divulgarem a marca de forma que a atenção pudesse estar na maison. 

Além disso, o posicionamento de Demna quanto a não-alienação de tópicos sociais, políticos e especialmente ambientais também foram cruciais para que o faturamento da marca pudesse superar o marco de USD 1 bilhão (R$ 5,2 bilhões) de vendas anuais desde quando o designer assumiu a casa, em 2015.

Outro detalhe que pesa bastante na trajetória de Demna Gvasalia é estar rodeado de personalidades ‘certas’ em hora e lugar também certos. 

Cercado de artistas e personagens influentes na indústria, seja na moda e/ou musical, dentre outras, como Cardi B 一 que em algumas de suas músicas reverenciou a marca 一, Rihanna, Justin Bieber, Elliot Page e o agora ex-casal Kim Kardashian e Kanye West, as estratégias de marketing da marca parecem fluir de maneira totalmente espontânea e orgânica.

No cenário caótico marcado pela pandemia em que o mundo atravessava, Demna se reinventou novamente elevando a marca ao universo do metaverso e da tecnologia. Embarcando nesta nova experiência perante a ausência dos desfiles físicos, o estilista criou uma exposição totalmente voltada ao design de jogos. A coleção em questão é a de Outono de 2021, exposta no contexto de uma terceira-possível-quarta-onda da Covid no continente europeu. 

Desta forma, enquanto os outros designers buscavam por alternativas para se ajustarem aos novos padrões da realidade da moda virtual, Demna Gvasalia, junto à Balenciaga, juntou-se em uma parceria com a Epic Games 一 empresa responsável pelo desenvolvimento do jogo Fortnite 一, para criar um videogame que pudesse expor sua mais nova coleção de outono. 

Já em 2021, Demna conquistou mais uma nova parceria impecável. Em meio aos rumores de divórcio, o casal Kanye e Kim Kardashian foram fiéis à Balenciaga no último ano. 

Enquanto construía o seu novo projeto, intitulado ‘DONDA’, Kanye contou com a participação de um gênio para colaborar nas veias criativas deste novo trabalho. Sendo assim, Gvasalia dirigiu duas das listening parties do Donda, ocorridas no Mercedes-Benz Stadium 一 um estádio tradicional e multi-propósito localizado na cidade de Atlanta, cidade natal de Kanye. 

Em meio a esta colaboração, Demna estava prestes a lançar sua coleção de alta-costura, o que colocaria os holofotes em seu trabalho artesanal. 

O que surpreendeu a todos, de fato, foi a aparição de Kim Kardashian 一 agora ex-esposa de Kanye 一 em uma das audições do projeto do ex-marido, assegurada em Chicago no dia 26 de agosto de 2021, vestindo o notório vestido de noiva da grife Balenciaga. O vestido em questão faz parte da nova coleção de Alta-Costura da Balenciaga, assinada por Demna Gvasalia após 53 anos desde o último lançamento da marca nesta categoria. 

Esta não foi a única vez em que Kim utilizava um modelo Balenciaga. Durante o último ano foi praticamente impossível flagrar Kim Kardashian com uma peça que não fosse da Balenciaga ou assinada por seu amigo Demna Gvasalia. A relação entre os dois parece ter estreitado ainda mais após o anúncio da rainha do clã Kardashian-Jenner como new face da marca. 

Durante o Met Gala 一 evento anual de angariação de fundos a benefício do Metropolitan Museum of Art 一 em setembro de 2021, a grife espanhola governou brilhantemente o tapete vermelho (red carpet) do Met. A maison vestiu diversas celebridades naquela noite como Rihanna e Kim Kardashian, em especial a socialite que roubou a cena ao aparecer no evento vestindo um modelo totalmente coberto assinado pela Balenciaga ao lado de Demna. Neste período, a marca ainda cimentou uma parceria com o Fortnite que possibilitava o uso de looks exclusivos em seus jogadores. 

Kim Kardashian ao lado de Demna Gvasalia no último Met Gala, em setembro de 2021. [Imagens: Vogue us]

A força e fidelidade deste trio 一 Demna, Kanye e Kim 一 icônico foram recompensadas em forma de número: neste intervalo, o Lyst Index apontou a marca como a mais procurada no primeiro trimestre de 2021. A maison, que antes ocupava a quinta posição no ranking, agora ocupa o primeiro lugar 一 substituindo a tradicional Gucci 一 com as buscas reportando um aumento de cerca de 505%. 

Já em outubro de 2021, a indústria da moda se surpreendeu novamente com outro feito inovador de Demna Gvasalia. Para divulgar a nova coleção de Primavera/Verão 2022, o estilista optou por utilizar como abertura de seu desfile um episódio de 10 minutos da animação ‘Os Simpsons’. Nele, os convidados vestiam os looks da nova coleção da marca, rompendo assim as barreiras virtuais e reais. A apresentação foi uma aposta do diretor-criativo em criar um momento de alto senso de humor e trazer uma de suas animações favoritas para uma de suas paixões, o design. 

A plateia do espetáculo apresentado pela família Simpsons contava com a famigerada diretora-chefe da Vogue Americana, Anna Wintour, Kanye e Kim Kardashian, Lewis Hamilton, Offset, Elliot Page, dentre outros nomes.

Outra cartada de Demna para a Balenciaga foi o anúncio de Kim Kardashian 一 uma grande amante da marca e influenciadora na indústria da moda 一 como o rosto da grife. O anúncio foi feito no início de fevereiro, 3, com Kim estrelando a nova campanha da marca fotografada em sua casa minimalista em Calabasas, na Califórnia. 

[Reprodução: Instagram]

O efeito deste anúncio foi mais que positivo: nas 24 horas desde o lançamento da campanha, a busca pela marca aumentou em cerca de 54%, enquanto a busca pela ‘Le Cagole’ 一 bolsa em que a Kardashian posa na campanha 一 reportou um crescimento de 22% nas buscas.

A parceria Demna x Kanye West também rendeu novos frutos. Também em fevereiro deste ano, 2022, Kanye e Balenciaga juntaram-se para a ‘Yeezy Gap Engineered by Balenciaga’. A coleção, exposta em um lookbook de 25 peças é apresentada paralelamente ao lançamento do ‘Donda 2’, novo álbum musical do artista. Os looks seguem a mesma pegada dos últimos outfits usados por Kanye em suas últimas aparições em público. A collab entre Kanye e Balenciaga foram acordadas com a validade prevista para expirar somente em 2032 e possibilita a compra de produtos Yeezy e Balenciaga nos valores de produto Gap.

No início de 2022 o mundo entrou em modo alerta em meio à possibilidade de uma guerra envolvendo a Rússia e a Ucrânia. Apesar da atmosfera extremamente tensa, os líderes globais e civis, especialmente das regiões envolvidas, anseiavam que a situação pudesse se destrinchar em esferas mais diplomáticas, o que infelizmente não aconteceu.

Em fevereiro a notícia que a Rússia estaria invadindo a Ucrânia estava circulando nos principais veículos de informação do mundo. Enquanto um lado da Europa buscava saídas de sobrevivência, o outro assistia os desfiles das Semanas de Moda acontecerem normalmente.

Alguns estilistas, diante do que se passava no continente europeu, buscaram levar a situação urgente aos seus desfiles e passarelas. Este foi o caso de Demna Gvasalia. O garoto que aos 12 anos teve que fugir de casa por conta da guerra instaurada em seu país natal, agora novamente vivenciava esta mesma situação, mesmo que a quilômetros de distância da Ucrânia e da Geórgia, seu país de origem.

Em uma exposição totalmente dramática e carregada de sentimentalismo, a coleção de Outono/Inverno 2022 da Balenciaga, mesmo que elaborada há meses de antecedência, consegue traduzir o momento sombrio vivenciado pela civilização ucraniana nos últimos dois meses.

”Pessoalmente, eu tenho sacrificado demais por conta da guerra. Essa última semana trouxe todas as memórias que eu e minha mãe colocamos em uma caixa e nunca mais olhamos. Nós nunca superamos isso”, essas foram as palavras de Demna a Vogue sobre o porquê de seguir adiante o desfile da Balenciaga.

”É o mesmo agressor, talvez até os mesmos aviões que eles usaram conosco. Quem sabe? E olhar para isso me fez pensar por um tempo: o que estamos fazendo aqui, com a moda? Devo cancelar? Mas não, eu decidi que devemos resistir”, acrescentou o designer.

Desde que se juntou à grife espanhola em 2015, o estilista georgiano demonstra a sua sensibilidade, o seu talento, criatividade, essências, dentre outros aspectos, de forma praticamente invejável. 

Ter um nome como o de Demna Gvasalia por trás da criação e em parte administração da marca é, sem dúvidas, um sinônimo super preciso de sucesso. 

Em um momento de inseguranças e dúvidas para a economia e indústria modista, o talento, criatividade e inovação de Gvasalia falaram mais alto, enquanto em momentos de ‘’estabilidade’’ 一 a exemplo de quando ele se juntou à marca e no contexto pré-pandemia 一 a genialidade e as raízes locais de Demna sobressaíram-se sobre aquilo considerado usual e levaram-no à ascensão, tornando-se um dos principais designers da década e da história da casa Balenciaga. 


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O impacto financeiro do período natalino no mercado da moda

Esta talvez seja a época mais aguardada do ano, seja por jovens e crianças que escrevem centenas de cartas ao ‘’bom velhinho’’ ou seja por quem economiza o ano inteiro para 一 neste período 一 conquistar ou adquirir aquele item que tem estado na lista de desejos por longos meses. No entanto, além de sua importância religiosa, os festejos de Natal operam inclusive como um dos principais feriados àqueles que circulam e atuam dentro do mercado lojista, dentre eles, o ramo da moda. 

Imagem retirada do Pinterest.

Historicamente, acredita-se que o Natal tenha suas origens enraizadas nos festejos pagãos realizados no período da Antiguidade. Nesta data (25), os romanos celebravam a chegada do inverno 一 ou solstício de inverno 一 e adoravam ao Deus do Sol (natalis invicti Solis), além de realizarem festividades que compreendiam em celebrar o conceito de renovação. Entretanto, ao longo dos anos, o feriado de Natal, solenizado anualmente em 25 de Dezembro, passou a ser popularmente conhecido e designado como uma data religiosa cristã, que busca celebrar o nascimento do menino Jesus. 

Este ciclo, que para o Cristianismo tem uma duração de cerca de 12 dias, ao longo dos anos e conforme a globalização ganhasse força e representasse a grande expansão do mercado econômico, político e industrial a nível mundial, passou a ser fortemente atribuído a um período festivo, marcado pela época de largada da temporada de fim de ano 一 que além da celebração do Natal também compreende o feriado de Ano Novo, realizado anualmente no último dia de Dezembro (31) e do ano 一 e a englobar o início do período de férias, assimilado a um dos fatores excepcionais para o aumento do consumo e movimentação do mercado referentes a estas datas. 

Imagem retirada do Pinterest.

Dentre os mercados beneficiados pela movimentação de capital nesta época está o setor da moda, que inclui áreas como a consultoria de imagem, figurinismo, ilustração de moda, marketing e produção de moda, além do famigerado estilismo (design) de moda 一 uma das principais, senão a principal área da moda, responsável pelo desempenho da criação e desenhos de peças e acessórios para o consumo pessoal. Isto porque, além de seu significado literal de nascimento e celebração, o período de Natal ainda assinala uma atmosfera de grande otimismo para o mercado, pois é apontado como o período de maior compra entre os clientes. 

Todavia, apesar do otimismo marcado pelas celebrações de fim de ano, a realização de eventos como a Black Friday 一 sinalizada como uma data que pretende reunir produtos em ações promocionais, com o intuito de atrair mais consumidores 一 e o próprio marketing digital das empresas são cruciais para que no período compreendido entre os últimos meses ‘’úteis’’ do ano haja um aumento significativo no consumo. Nesta última etapa do ano é mais que comum encontrar anúncios e propagandas apresentando produtos com preços reduzidos e ainda incorporados em excelentes estratégias de marketing, que além de atraírem aos consumidores conseguem alcançar seu objetivo pretendido: a compra. No Brasil, por conta destes descontos promocionais, o faturamento deve aumentar em 18% no ano de 2021 e alcançar cerca de R$ 6,1 bilhões, segundo um balanço realizado pela Neotrust. O número sinalizado inclui o setor de varejo de moda.

Imagem retirada do Unsplash.

No setor internacional o cenário não é diferente, visto que o consumo cresce gradativamente nesta data que compreende a realização de eventos como a Black Friday. Somente nos Estados Unidos 一 local de origem da promoção do evento 一, a data consiste como abertura da maior temporada de consumo do país, em que o faturamento às vezes chega a circular entre os US$ 617 bilhões. 

Voltando ao cenário brasileiro, em uma pesquisa realizada pela Associação Brasileira do Varejo Têxtil (ABVTEX) em dezembro de 2020, o cenário comprova o quanto a época é a mais aguardada para o varejo de moda. No balanço apresentado, cerca de 67% das empresas associadas reportaram um maior desempenho no mês de novembro 一 antecedente ao mês natalino 一 em suas lojas físicas, se comparadas ao mês anterior (outubro). Em totalidade, cerca de 25% das associadas não identificaram uma piora ou melhora, enquanto 8% registrou uma piora no cenário de vendas. Segundo o diretor-executivo da Associação, Edmundo Lima, as roupas, calçados e acessórios ocupam o topo entre os itens mais procurados pelos clientes antes do Natal.

Imagem retirada do Unsplash.

Contudo, apesar deste intervalo 一 compreendido entre as datas referentes aos feriados de fim de ano 一 simbolizar o aumento no giro capital e no mercado financeiro da moda, a indústria tem passado por maus bocados durante os últimos 18 meses, em decorrência da pandemia causada pelo novo coronavírus (Covid-19). Por conta da existência de demasiadas restrições, todas as lojas tiveram que fechar suas portas provisoriamente para o atendimento presencial de seus clientes. Porém, o fechamento dos espaços físicos não foi o único problema encontrado pelos donos, diretores criativos e empresários do ramo da moda. O ‘The State of Fashion 2021’, um relatório realizado pela McKinsey em parceria com o Business of Fashion (BoF), sugeriu que o lucro do setor (moda) possivelmente decaiu cerca de 93% somente no ano de 2020, após um aumento de 4% em 2019. 

The State Of Fashion 2021 – BOF.

Ainda que a porcentagem seja assustadora, o impacto da pandemia especialmente no setor da moda serviu como uma desaceleração que possibilitou que diversas marcas e empresas pudessem reformular todo o seu modelo de negócios, desde o processo de criação, estratégias de marketing digital e rebranding 一 ato de ressignificar a imagem de uma empresa 一 que pudessem alavancar as vendas das companhias em tempos tão sombrios. Ou seja, a fase reclusa foi fundamental para impulsionar as marcas a se reconectarem com o presente e repensarem sua distribuição nos meios digitais, que vieram a emplacar de maneira significativa no ano anterior à ocorrência da pandemia (2019). 

Colagem com o logo da Bottega Veneta e a conta do Instagram não achada mais da marca.

Partindo deste princípio e considerando principalmente o momento atual em que a sociedade atravessa globalmente, é importante frisar a importância e relevância do otimismo atribuídas ao período natalino, visto que esta época é apontada como a de maior crescimento no faturamento da indústria e setores da moda e uma vez que, através do futuro incerto e inseguranças 一 projetadas pela pandemia 一 tendem a perdurar no mercado por pelo menos mais alguns meses, talvez este momento de flexibilização das medidas restritivas neste período que insere os festejos do Natal, seja a brecha fundamental pela qual o mercado financeiro possa respirar, ao menos por alguns dias, do baque e lapso causados pelo momento pandêmico. 

Imagem retirada do Pinterest.

Modo CTRL C + CTRL V: as cópias e imitações sempre foram um problema na moda?

Entenda como a prática do plágio e réplicas, que uma vez foram ‘comuns’ têm influenciado o comportamento da indústria da moda no contexto atual

CONCEITO: CÓPIA X PLÁGIO

A cópia se define como uma reprodução 一 seja de uma obra de arte ou de um singelo objeto  一 mas sem a alteração de sua composição real e original, o que difere-a do ato de plágio, que geralmente costumam haver alterações do produto originário, sem a existência de uma creditação ao mesmo, apropriando-se do trabalho do criador da obra. De maneira mais clara, as cópias frequentemente podem ser chamadas de ‘produto pirata’, falsificações ou ‘réplica barata’, com claríssimas intenções de serem repassadas aos compradores como o produto original em questão, enquanto o plágio configura-se como o crime em si, cometido da maneira mais clara e exposta possível. 

Neste contexto, é válido destacar que a problemática envolvendo esse termo tem sido muito recorrente e bastante discutido entre a comunidade da moda, sendo a área de direto de moda uma em maior ascensão, além de ser uma temática tão antiga quanto a própria história da moda, configurando grandes marcas e designers como alguns dos principais praticantes de tal prática, ou vítimas da situação. 

CONTEXTO HISTÓRICO

Em 1868 nascia a Câmara Sindical de Confecção e Costura para Senhoras e Meninas (Chambre Syndicale de La Confection et de La Couture pour Dames et Fillettes), pelo então conhecido como “pai da alta-costura’’ Charles Frederick Worth, dez anos após criar seu primeiro negócio, a Casa Worth (1858), em Paris, na França. Por ser pioneiro em adotar as etiquetas, um dos principais objetivos da Câmara Sindical criada por Worth era impedir a ideia 一 ou qualquer intenção 一 de cópias de modelos exclusivos.

Além de monitorar o que deve entrar para a sala de produções de alta-costura, a Câmara Sindical 一 hoje com o nome modificado para Federação da Alta Costura e da Moda (Fédération de la Haute Couture et de la Mode) 一 ainda promove estratégias de formação, crescimento e, especialmente proteção do setor da moda, assim, estabelecendo o calendário não somente dos desfiles de alta-costura. mas também os de pronto-para-vestir, além dos femininos (womenswear) e masculinos (menswear).

Imagem para ilustrar alguns dos exemplos de modelos de alta-costura (haute couture).

Alguns anos mais tarde, o costureiro Paul Poiret, antigo funcionário da Casa Worth, decidiu fundar em 1910 um sindicato separado do sindicato anteriormente fundado por Worth, a Câmara Sindical da Costura Parisiense (Chambre Syndicale de la Couture Parisienne), como uma maneira de aderir ‘destaque’ e proteção às produções francesas, ou, como dito por Poiret o 一 savoir-faire, ou ‘’saber fazer’’ francês. 

O PLÁGIO NA MODA INTERNACIONAL

Ao longo dos últimos anos, e muito tempo após as criações das Câmaras Sindicais, algumas marcas, que até então estavam 一 ou ainda estão 一 inseridas como membros permanentes ou correspondentes viram-se encurraladas ao serem ‘’flagradas’’ por supostas práticas de cópias ou ‘inspirações’ que excederam o seu limite inspiracional.

Com o rápido fluxo globacional e graças aos enormes avanços tecnológicos que possibilitaram uma comunicação rápida e efetiva, especialmente quando o assunto é direcionado às redes sociais, é válido salientar o quão eficientes elas têm sido quanto à detecção de supostos ‘’casos claros’’ de plágio no mundo da moda, visto que grande parte das acusações na maioria das vezes são feitas por membros da comunidade modista, senão pelos próprios designers que utilizam as plataformas digitais para denunciarem uma possível prática de plagiação. 

Recentemente, Maria Grazia Chiuri, diretora criativa da marca francesa Christian Dior, apresentou a mais nova coleção da casa exposta na Semana de Moda de Paris (PFW), em 28 de setembro de 2021, e novamente, o nome da marca tornou-se um dos assuntos mais comentados entre o público amante de moda. No entanto, aparentemente o nome da casa não estava entre os assuntos mais comentados por uma boa apresentação de uma coleção agradável e fervorosa, mas por uma possível semelhança, apontada por alguns internautas, com algumas das produções de Raf Simons para a Prada, na qual Raf atua como co-diretor criativo desde abril de 2020.  

Confira alguns dos tweets abaixo:

Confira ainda os desfiles completos para comparação:

Desfile completo da coleção de Primavera/Verão 2022 da Dior assinada por Maria Grazia Chiuri. [Reprodução: Dior/ YouTube]
Desfile completo da coleção Primavera/Verão 2021 da Prada assinada por Raf Simons. [Reprodução: Prada/ YouTube]

Semanas antes, na Semana de Moda de Nova York (NYFW), o estilista indiano-americano Naeem Khan, que detém uma marca em seu nome e também é conhecido por vestir personalidades como Michelle Obama, apresentou em 09 de setembro de 2021 sua nova coleção de Primavera/Verão 2022 e os internautas só comentavam sobre uma coisa: uma suposta prática de plágio em alguns dos looks apresentados por Naeem, com peças já expostas por outros designers, em especial por marcas italianas, tais como Valentino, Versace, Etro, e até mesmo a não mais tão aclamada Dolce & Gabbana, ou D&G.

Confira os tweets abaixo:

Em especial à Dior, esta não seria a primeira vez que a marca francesa é acusada de silhuetas similares. No ano de 2018, a Dior foi acusada por Orijit Sen, co-fundador da marca e designer independente, de plagiar uma de suas estampas 一 de sua marca nomeada de ‘The People Tree’ 一, após Sonam Kapoor, uma atriz e filantropa indiana, estampar a edição de janeiro da Elle Índia com um vestido vermelho, com as estampas dos ‘iogues’, desenhadas por Orijit há 18 anos atrás. O vestido em questão estreou nas passarelas como parte de um dos desfiles de Maria Grazia para a Dior, mais especificamente, para a coleção de Resort de 2018. 

À esquerda, estampa fabricada por Orijit para sua marca ‘The People Tree’; à direita, vestido confeccionado pela Dior, assinado por Maria Grazia, para a coleção ‘Resort 2018’. [Imagem: Scroll In]

Em uma entrevista para o jornal indiano Deccan Chronicle, Orijit disse que escreveu uma carta para a Christian Dior, buscando uma explicação para o comportamento deles. Eles têm que nos fornecer um relato claro da criação do design.

‘’Não é prático para nós patentear tantos projetos. Legalmente, os direitos autorais pertencem ao criador. Se digo que é meu design e não tenho direitos autorais, tenho que ser capaz de provar que sou o criador’’, afirmou Orijit. O designer ainda acrescenta: ‘’É um grande golpe para os artesãos e pessoas que trabalham com designers indianos. Embora eu seja o único a agir, sinto que estou a agir em nome de todos os artesãos e artesãs. É o seu sustento que é afetado por esse tipo de plágio flagrante’’. 

Apesar da enorme repercussão, as acusações, fortalecidas por uma campanha nas redes sociais, demandada principalmente pelo perfil do Diet Prada (@diet_prada), resultaram em um acordo amigável entre as duas marcas.

Em agosto de 2020 o designer belga Walter Van Beirendonck acusou Louis Vuitton, mais precisamente o seu diretor criativo, Virgil Abloh, de copiar suas criações. A coleção em questão era a última coleção masculina (menswear), que fora apresentada em Xangai em 6 de agosto do mesmo ano. Através do Twitter, Kanye West, amigo e ex-parceiro criativo de Virgil, defendeu-o das acusações de Walter. Kanye escreveu: ‘’Virgil pode fazer o que quiser’’. Em suma, West acrescentou: ‘’Você sabe como tem sido difícil para nós sermos reconhecidos?’’

À esquerda, peça confeccionada por Walter Van Beirendonck para sua coleção de Outono/ Inverno 2016; à direita, peça assinada por Virgil para a coleção de Primavera/Verão Menswear 2021 da Louis Vuitton. [Imagens: Vogue Runway]

No dia seguinte ao desfile (07), Van Beirendonck, que também é o chefe do departamento de moda da Academia Real de Belas Artes de Antuérpia (Royal Academy of Fine Arts Antwerp), postou uma imagem de um de seus próprios designs 一 uma camisa estampando a frase ‘I HATE FASHION COPYCATS’, em tradução livre, ‘Eu odeio copycats (copiadores) da moda’. 

Em uma entrevista para a revista belga Knack Weekend, ainda no dia 07 de agosto, Walter reconheceu: ‘’Copiar não é novidade. Faz parte da moda. Mas não assim. Não nesse nível, com seus orçamentos, suas equipes, suas possibilidades’’, no trecho, ele referiu-se à Louis Vuitton, que é uma das marcas de luxo mais importantes do mundo. 

Van Beirendonck ainda continuou: ‘’É muito claro que Virgil Abloh não é um designer’’. ‘’Ele não tem linguagem própria, nenhuma visão. Ele não consegue criar algo de sua própria temporada após temporada e isso é doloroso’’, acrescentou Walter. 

Atualmente, tanto o tweet de Kanye quanto a coleção de Virgil para a Louis Vuitton encontram-se indisponíveis nas plataformas Twitter (tweet de Kanye) e Vogue Runway (plataforma da Vogue que costuma postar imagens e detalhes sobre as coleções lançadas por designers em diferentes temporadas).

Em 2019, a conta Diet Prada 一 conhecido por compartilhar marcas que supostamente cometem cópias e plagiam outras marcas no Instagram 一 iniciou uma outra campanha que também envolvia o nome de Virgil. Após apresentar sua coleção masculina (menswear) de Outono/Inverno 2019 para a sua marca Off-White, algumas das peças apresentadas por Abloh rapidamente foram espalhadas pelas redes sociais por uma razão em especial: uma possível acusação de plágio. A problemática em questão surgiu após o perfil Diet Prada apontar semelhanças entre as peças apresentadas por Virgil e criações anteriormente expostas por uma marca independente de Cologne (com a coleção apresentada em Manchester), a COLRS (@colrsbaby). 

Confira a publicação abaixo:

Em fevereiro de 2014 o designer italiano Roberto Cavalli acusava 一 novamente 一 o estilista norte-americano Michael Kors de copiar os seus trabalhos. Cavalli comentou ao site Haute Living: ’O Michael Kors copia tudo! É, de fato, um escândalo, e ninguém tem coragem de falar sobre o assunto. De verdade, não é justo’’. 

Em um outro momento, em dezembro de 2013, Cavalli ainda atribui a Kors o título de ‘’maior copiador do mundo’’ em uma matéria polêmica ao site Style.com. Ainda em 2013, Cavalli mencionou ao FFW que um designer brasileiro também ousou copiá-lo, mas não expôs nenhum nome. 

Em outubro de 2018, o aposentado designer francês Thierry Mugler utilizou o seu instagram para acusar Olivier Rousteing, diretor criativo da francesa Balmain, de plágio em sua coleção de Primavera/Verão de 2019. Através de seus stories 一 recurso da rede instagram para compartilhamento de mídias 一, Mugler fez diversas comparações da coleção apresentada por Olivier com suas criações passadas. 

Esta não foi a primeira vez em que Olivier e a Balmain foram acusados de cópia. Muito se foi falado sobre uma possível semelhança entre um terno branco de sua coleção de Primavera/Verão 2015 e um modelo de terno 一 também em tom branco 一 apresentado na coleção de Primavera/Verão 1997 da Givenchy por Alexander McQueen, diretor criativo da marca na época.

Em 2011, Christian Louboutin, designer francês de calçados de luxo, entrou com uma ação contra Yves Saint Laurent por alegar que o uso do solado vermelho (marca registrada de Louboutin) nas criações da YSL para a coleção de inverno lembrava sua marca. Uma das afetadas 一 mesmo que indiretamente 一 fora a marca brasileira Carmen Steffens, que já havia utilizado o solado vermelho em alguns de seus sapatos. Em 2008, 3 anos antes ao ocorrido, Christian havia registrado sua criação como marca registrada no United States Patent and Trademark Office (USPTO) – Escritório de Patentes e Marcas Registradas dos Estados Unidos. 

À esquerda, sapatos assinados por Christian Louboutin; à direita, sapatos confeccionados pela Yves Saint Laurent.

PLÁGIO NA MODA NACIONAL

Em Novembro de 2020, a marca de acessórios independente brasileira assinada por Alexandre Pavão compartilhou em sua conta na plataforma no Instagram as semelhanças entre seu trabalho autoral e manual com a coleção recém-lançada da época da marca Schutz, a reação do público foi extremamente positiva e acabou trazendo a marca para um plano principal de mídia, o trabalho de Pavão falou por si mesmo e deixou inúmeros amantes de moda apaixonados por seu trabalho se tornando uma das marcas mais especiais e conhecidas da moda brasileira moderna.

Em 12 de julho de 2018 a marca de Silvia Ulson (SU) foi acusada de supostamente plagiar a coleção de uma grife americana após sua apresentação no Miami Swim Week.  John Adele, representante da marca Bfyne, contou ao site Fashion Week Online que as peças apresentadas pela marca da designer brasileira eram uma ‘’réplica da coleção Sahara’’. Adele ainda afirmou que a brasileira desconhecia a origem do padrão de estampas 一 estampa dashiki, de origem africana 一 utilizado nas peças. 

Na imagem da esquerda, confecção da Bfyne. Na imagem da direita, peça apresentada por Silvia Ulson na Miami Swim Week. [Imagem: Twiter]

No contexto jurídico dos casos citados acima, praticamente todos poderiam tratar-se de uma perspectiva de plágio, ou seja, as conjunturas enquadrariam-se como circunstâncias de uma suposta cópia, mesmo que seja parcialmente, em que o estimado plagiador apresenta o seu trabalho sem creditar a inspiração ou fonte original deste ofício, o que poderia vir a ser considerado como um crime. Mas, para isso, uma outra discussão entraria em debate: os direitos autorais. 

FASHION LAW: DIREITOS AUTORAIS

A partir dos diversos avanços nos setores econômicos e comerciais 一 com o setor modista incluso 一, além da rápida disseminação de informações por meio dos veículos comunicativos, a moda tem alcançado um elevado grau de relevância e, devido a isto, a participação jurídica tem sido cada vez mais presente neste ramo, especialmente para preservar os direitos que circulam nesta área.

Os estudos do Direito da Moda (Fashion Law) surgiram em 2006 nos Estados Unidos pela professora de Direito da Fordham University, (Nova York), Susan Scafidi. Pioneira no uso do termo, Susan lecionava a disciplina que buscava tratar sobre a falta 一 ou quase ausência 一 de proteção legal das criações na indústria da moda. A partir de então, diversos outros países também adotaram os estudos de Scafidi, o que garantiu ao instituto uma visibilidade fundamental.

[Imagem: Fashion Bubbles]

O Brasil foi um dos pioneiros a aplicar os estudos de Susan. Em 2011 o Direito da Moda passou a ser disseminado, o que contribuiu para que diversos advogados passassem a interessar-se pela temática e especializar-se na área, o que foi fundamental através do apoio crucial da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e também da Associação Brasileira de Advogados (ABA).

Os direitos autorais funcionam como uma forma de proteção aos trabalhos originais dos designers (ou marcas) criativos, enquanto as marcas registradas protegem os elementos que distinguem uma marca da outra, como o logotipo, por exemplo. Sob a lei de direitos autorais, os tribunais norte-americanos oferecem uma proteção escassa aos designers de moda. Nos Estados Unidos, o pré-requisito para peças de roupas com proteção por direitos autorais é ter o desenho registrado pelo autor da criação. 

Em uma entrevista concedida à Frenezi, Anna Luiza Marques, integrante do grupo de estudos Fashion Law FAAP (@fashionlawfaap) 一 composto por mais 7 integrantes além de Anna e da orientadora e docente da FAAP, Ana Paula Prado 一, pontuou alguns pontos cruciais para o entendimento do funcionamento do Fashion Law e dos direitos autorais. Questionada sobre como o Fashion Law poderia ser introduzido 一 de maneira mais clara e objetiva 一 ao público ‘leigo’ no que se diz respeito ao mundo do Direito da Moda, Anna respondeu:

‘’O intuito da criação do nosso Instagram foi justamente este: trazer conhecimento sobre o Fashion Law de forma simples, sem complexidades ou ‘termos difíceis’ que o Direito possui. Na prática, primeiramente, é importante fazer uma breve introdução sobre o Fashion Law: o que é, sua origem, propósito e atuação no Brasil.’’

Anna conta que quando o projeto surgiu, o foco era debater e estudar a falta de proteção das criações na indústria da moda, em termos do direito autoral e da propriedade intelectual. Posteriormente o Fashion Law cresceu e hoje abrange praticamente quase todas as áreas do direito.

Considerando o Brasil, Anna pontuou que no Brasil não há uma legislação específica que trata dos direitos autorais na área da moda. A alternativa viável e utilizada nos tribunais é a aplicação da legislação já existente sobre direitos autorais, no caso das indústrias da moda, para assim solucioná-los. Marques acredita que o problema não seja nem a questão da Lei em si, diz que ela é suficiente, pois mesmo quando não há a proteção pelo direito autoral e pela Propriedade Intelectual, existe a proteção pela repressão à concorrência desleal. Então, por exemplo, mesmo se uma marca não possuir seu design registrado no INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial), ela pode pleitear seus direitos pela concorrência desleal. “O problema (no Brasil) é cultural. A cultura da pirataria 一 que infelizmente em nosso país é grande, na falta de fiscalização e na falta de incentivo dentro do mercado de moda brasileiro. Traduzindo, a moda no Brasil é muito pouco valorizada”, acrescenta.

Anna complementa que um dos grandes motivos do consumidor optar por um produto imitado é seu preço mais acessível. Assim, ele acredita que pode usufruir do status social gerado por uma marca famosa, ainda que o produto não seja autêntico. “Ele quer características e valores das marcas originais por um preço baixo 一 apesar de saberem que não terão a qualidade de um produto original. Existem diversas medidas e campanhas que podem e devem ser reforçadas para combater esse tipo de situação”, diz.

Assim, surge a indagação sobre o papel e ações de uma indústria que surgiu há pouco tempo mas acaba por exercer uma grande influência e impactos no que diz respeito às práticas de cópias 一 ou pirataria 一 na indústria da moda: as companhias de Fast Fashion, que falaremos sobre posteriormente.

PLÁGIO TUTELADO / DIREITO AUTORAL / PROPRIEDADE INTELECTUAL / PROPRIEDADE INDUSTRIAL

Para conseguir um melhor e mais aprofudado entendimento sobre o assunto, é necessário identificar prontamente os significados atribuídos às expressões acima dentro da área do Direito de Moda 一 ou Fashion Law.

Em uma explicação breve e concisa, Anna atribuiu os significados dos termos citados acima. Segundo ela, o tutelado é sinônimo de protegido, isso quer dizer que o plágio é protegido pelo direito autoral e pela propriedade intelectual. O direito autoral protege o autor e sua obra intelectual, já a propriedade intelectual permite a exclusão deste comportamento aproveitador e inadequado por terceiros sobre as criações, concedendo aos criadores o controle de uso e da distribuição de suas criações. A Propriedade Industrial é o conjunto de proteções de direitos sobre as criações industriais: o direito autoral protege a ideia, já o direito industrial protege a invenção que é resultante da ideia.’

‘’A Lei de Propriedade Industrial é quem regula os direitos e obrigações relativos à propriedade industrial. E o INPI (Instituto Nacional de Propriedade Industrial) é o órgão que regularmente concede os registros referentes à propriedade industrial no Brasil.”, diz. Ela ainda explica que o registro não é obrigatório, mas é importante, pois com ele o Estado garante direitos caso a marca/produto/design/patente seja registrada. Como mencionado anteriormente 一 mesmo quando não cabe proteção por meio do direito autoral e da propriedade intelectual, sempre existe a proteção por meio da repressão à concorrência desleal, para aquela criação que não está protegida em lei. Em relação à inspiração x plágio, tuteladas pelo direito autoral, Anna explica que no plágio se tem a intenção de se passar pelo produto original, já a inspiração se aproxima do plágio, mas nela o fornecedor não tem a intenção de se passar pelo original.

Em um outro ponto da entrevista conversamos acerca de alguns dos supostos casos concretos de plágio mencionados anteriormente na matéria, dentre eles o caso envolvendo o estilista Naeem Khan e as produções de designers italianos, Anna reforçou algo já citado anteriormente: uma possível realização de uma perícia para identificar a suposta prática de plágio. Em sua resposta, ela pontuou que: “Aparentemente são muito similares (as criações expostas por Naeem e as anteriormente expostas por outros designers), e parecem plágio. Mas acreditamos na necessidade de perícia para que fosse constatado.’’

Um outro caso bastante comentado neste meio foi a situação envolvendo Christian Louboutin e a marca Yves Saint Laurent, também mencionados na matéria. Nesta conjuntura, Anna destacou que a disputa do YSL x Louboutin é o que muitos dizem ter dado a origem propriamente dita ao Direito da Moda. “Direitos autorais, Propriedade Intelectual, Marcas e Patentes são questões complexas e que se deve ter muito cuidado ao analisar. Algumas jurisdições têm uma proteção por um tempo determinado”. Explica que no Brasil, por exemplo, a proteção autoral dá o direito de proteção durante a vida do autor 一 mais 70 anos. Conta também que se discute muito neste ramo se essa proteção não seria excessiva e incompatível com a estrutura da indústria da moda. “É por isso que muitas vezes saber quem teve acesso primeiro, quem começou com aquilo primeiro, é muito difícil. Por exemplo, é normal vermos designs de peças que fizeram sucesso nos anos 60 voltarem a aparecer nos dias de hoje”, conta.

‘’É importante separar as coisas. Um suéter de gola alta preto de lã 一 eles existem em diversas coleções, diversas lojas. O que vai diferenciar um do outro são detalhes, é por isso que em muitos casos necessita-se de perícia’’, acrescentou Anna.

Um outro questionamento que existe em relação a estes casos é a existência de acordos judiciais entre marcas que uma vez já enfrentaram-se nos tribunais e/ou foram alvos de processos uma da outra. Questionada sobre uma possível ação da Justiça em relevar alguns casos de prática de plágio, Anna comenta que não acredita que a justiça releve, mas que sim toma cuidado ao proferir decisões deste caráter para que não sejam cometidas injustiças.

Uma outra questão também bastante pertinente nestes casos de práticas de imitação consiste na possibilidade de os estilistas 一 ou marcas 一 não registrarem suas criações em que acreditam serem originárias daquele autor em questão, uma vez que frequentemente marcas e designers acusam uns aos outros de copiarem seus trabalhos. “Em relação ao registro, ele não é obrigatório. Muitas marcas só registram depois que surgem problemas. Ele é interessante, mas mesmo quando não se tem ele, é possível pleitear os direitos pela concorrência desleal. Portanto, não possuí-lo não é um obstáculo para proteger suas criações”, explica.

INSPIRAÇÃO X CÓPIA

Um outro tópico que acaba por existir e acontecer no mundo da arte 一 neste caso em especial, no mundo da moda 一 é a constante prática de inspirações. Ou seja, muitos artistas (estilistas) utilizam outras peças como base e inspiram-se no trabalho dos autores escolhidos em questão para criarem suas peças autorais. No entanto, pode ocorrer deste costume ultrapassar o seu limite. Para melhor entendimento sobre este debate no âmbito jurídico, a entrevistada explicou que é relativo.

Conta que muitas vezes é difícil de identificar, e é necessário uma perícia especializada para diferenciarmos a inspiração da cópia. Mas diz que, geralmente, as inspirações têm graus. Quando o grau é alto, facilmente percebe-se que há muito mais que uma inspiração ali. Já se é considerada mínima e resulta em excludente de plágio, há a verdadeira inspiração, aquela que é uma homenagem ao produto original. Mas como disse anteriormente: no plágio se tem a intenção de se passar pelo produto original.

FAST FASHION: A ARTE DO PLÁGIO

O Fast Fashion consiste na acessibilidade aos produtos ‘’desejados’’ para ajudar-nos a obter a aparência (ou look) que tanto queremos, especialmente aqueles inspirados em designs famosos de grandes marcas. Em sentido mais literal, o fast fashion 一 ou moda rápida em tradução livre 一 é a produção de peças em rápida escala de tempo, além do barateamento da mão de obra. Marcas como Zara, H&M, Fashion Nova, Forever 21 e Shein podem ser caracterizadas como marcas de fast fashion.

Essa prática só foi possível após a Revolução Industrial (1760-1840) e mais especificamente em 1790, através do grande avanço tecnológico que garantiu o surgimento da indústria, tendo como uma das invenções as máquinas de costura, que possibilitaram a produção de peças de roupas em maior quantidade e velocidade, além de consolidar o processo da formação do sistema capitalista.

O conceito de Fast Fashion somente passou a ser usado a partir da década de 1990 quando, de fato, passou a haver o barateamento da matéria-prima (commodities) e da mão de obra no setor têxtil.

Após a popularização e forte uso da prática de fabricação rápida, o setor modista passou a ocupar o lugar de segunda indústria mais poluente do mundo, graças ao descarte exacerbado de roupas e tecidos sintéticos, que são derivados de combustíveis fósseis 一 altamente prejudiciais ao meio ambiente 一, além da utilização de tintas de baixíssima qualidade. 

No entanto, este parece não ser o único problema desencadeado pelas produções do modelo fast fashion. Dentro do mundo da moda, as marcas de fabricação rápida são frequentemente acusadas de cópias. 

As acusações são frequentes por conta da velocidade em que as tendências que tornam-se populares na internet 一 ou em eventos 一 são rapidamente encontradas nos sites de fast fashion. E este talvez seja o motivo pelo qual esse setor tenha ganhado tanta visibilidade e popularidade, além de um crescimento incalculável.

Imagem ilustrativa. [Crédito: Digitale Têxtil]

Questionada sobre a contribuição do universo do Fast Fashion para práticas de plágio, além de ser uma possível contribuinte ao crescimento excepcional do Fashion Law, Anna acrescentou que a indústria Fast Fashion com certeza é um dos facilitadores deste esquema de plágio. “Na tradução literal, significa ‘moda rápida’, o tal lema da ‘maior quantidade e velocidade”, explica. Seu objetivo não é trazer qualidade e valor para as peças, e sim produtos simples e acessíveis ao público com um ponto econômico de preço. Este modelo de negócio tem a produção em primeiro lugar. Sendo assim, não providencia uma apresentação ao público, imprensa e compradores por meio de Fashion Week. “Isso porque o designer da Fast Fashion olha para as tendências das grifes ao invés de gastar meses criando um conceito. Lançam produtos que lembram a alta costura, porém com menor durabilidade e custo baixo ao consumidor. Não há pesquisa de material, nem complexidades na confecção, tudo é terceirizado e simplificado, permitindo que seja reduzido o tempo de industrialização, resultando no baixo preço e em larga quantidade dos produtos”, acrescenta.

Como citado anteriormente, Anna reforçou que a indústria de Fast Fashion traz diversos problemas sociais, ambientais e econômicos para o mundo 一 tornando-se, portanto, não só um fato, mas um fato jurídico, pois é um acontecimento que gera consequências jurídicas. Logo, os impactos trazidos por este modelo de negócio contribuem e fazem com que o Fashion Law entre em ação. Na prática, além da questão de plágio tutelado pelo direito autoral e pela propriedade intelectual, podemos também verificar situações que normalmente aparecem como criminais, ligadas à reputação corporativa destas empresas. É o caso dos crimes ambientais, da exploração laboral (escravidão) verificada nas fábricas — como já aconteceu com a Zara, por exemplo.

‘’Durante a pandemia o consumidor evoluiu sua forma de pensar para algo mais consciente. Isto está fazendo com que as fast fashions repensem um pouco no seu modelo de negócio, para se adaptarem a este ‘novo mercado’ que está surgindo’’, acrescentou Anna.

ACUSAÇÕES DE PLÁGIO NA INDÚSTRIA FAST FASHION

Recentemente, em agosto deste ano, a estilista norte-americana e independente Bailey Prado acusou a empresa varejista Shein de ter copiado cerca de 45 criações autorais suas. As peças, que em seu site geralmente costumam custar entre $95 (R$ 536,75) e $300 (R$ 1.695), estão custando cerca de $20 (R$ 113) no site da Shein.  Através de seu Instagram, Bailey escreveu em uma postagem:

‘’A forma que a @sheinofficial copiou toda a minha vida… Há mais de 20 designers meus que foram diretamente copiados. Não é novidade que eles estão fazendo isso novamente, contudo, dê-me meu dinheiro! E sejam melhores na execução lol. Mas, na verdade, o que será necessário para que as empresas de fast fashion parem de roubar pequenos estilistas. Eu passo tanto tempo em minha vida desenhando e fazendo tudo artesanalmente. @sheinofficial acabou.’’

Confira o post na íntegra:

Prado ainda utilizou a plataforma de seu instagram para novamente chamar a atenção da Shein por ter copiado suas criações. Na outra postagem, Bailey escreveu:

‘’Então a @sheinofficial decidiu retirar 10 dos designs que eu postei mas decidiram manter os outros 35 que eu não reclamei publicamente. Eles viram o problema, mas em vez de me contatar ou retirarem todos os designs, eles decidiram ignorá-lo. Então, eu continuarei postando. Cerca de 45 criações roubadas. Eu havia me convencido de que não era nada demais, mas agora minhas criações, que têm sido minha vida pelos últimos 3 anos, serão vendidas para os milhares de consumidores da Shein sem que eles sequer saibam quem eu sou. Parece que não há consequências para as companhias de fast fashion, eu quase esqueci o quão horrível é eles roubarem as criações de designers pequenos, porque acontece com tanta frequência. Tudo o que eu posso fazer é esperar que as pessoas sejam informadas a continuar a pensar sobre as origens de nossas roupas.’’

Confira a postagem na íntegra:

Em 25 de novembro de 2019 foi a vez da Versace acusar a marca Fashion Nova de plágio. A queixa surgiu após a marca 一 conhecida por suas criações rápidas e sexys, além de supostas réplicas rápidas de outras marcas 一 lançar vestidos que, segundo a casa italiana Versace, eram cópias e estariam violando os seus direitos autorais, marcas registradas e vestidos comerciais. Em seu processo, a Versace aponta casos em que a aparência dos vestidos da Fashion Nova imitam seus modelos originais, incluindo o famoso ‘Jungle Pattern’ utilizado por JLo no Grammy Awards de 2000, o design preto e dourado ‘Barocco-57’ e seu design colorido ‘Pop Hearts’. Dentre as comparações apontadas pela marca de agora Michael Kors, estão: os decotes, as estampas e a pena com corte alto. Apesar das queixas e repercussão do caso, ambas as marcas optaram por um acordo amigável dias antes do julgamento.

MAS E ENTÃO… AS CÓPIAS SEMPRE FORAM UM PROBLEMA DENTRO DA INDÚSTRIA DA MODA?

Quem passou a acompanhar a indústria da moda nos últimos anos 一 ou até mesmo recentemente 一 este assunto pode não ser uma novidade. Como os casos citados anteriormente, foram diversas as vezes em que os entusiastas de moda surpreenderam-se com múltiplas outras coleções que continham inspirações ou, de alguma forma, chamavam-nas de quase uma cópia escancarada de criações e coleções passadas de outros designers. No entanto, apesar de tais aparições hoje serem consideradas um choque ‘surpreendente’, mas especialmente poderem ser consideradas uma prática de plágio, é necessário esclarecer que: copiar, ou melhor, inspirar-se em um outro designer e, de maneira mais específica, recriar e utilizar sua criação como ‘’base’’, e ainda conseguir créditos por tal, mesmo que indiretamente, antigamente era mais comum do que se imagina.

O período em questão que as marcas eram livres e supostamente ‘’acobertadas’’ pelos sindicatos franceses tratam-se das emergentes 1960-1970, década que antecedeu a famigerada ‘Batalha de Versalhes’ (1973), que mudou a história da moda e com adicional, contribuiu para que a problemática acerca de supostas cópias e imitações pudessem tomar um outro rumo.

David J Mahoney, Halston, Liza Minelli & Marisa Berenson antes da ‘Batalha de Versalhes’ iniciar. [Imagem: Getty Images]

Neste período, o mundo passava por diversas transformações e obstáculos urgentes, tais como períodos recessivos e de desaceleração, principalmente na economia, recorrentes ao fim da Segunda Guerra Mundial e início da Guerra Fria, em adição a Guerra do Vietnã, questões acerca do apertheid 一 em tradução livre designando a segregação racial, fortemente presente nos Estados Unidos 一 o surgimento do movimento punk, que se divergia com o movimento hippie e movimentos culturais, a exemplo do ‘Black is Power’, que buscavam igualdade racial e fim da segregação, além da ascensão do Movimento Feminista, que cresceu após o advento da pílula anticoncepcional, o que permitiu às mulheres uma libertação, mesmo que ainda mínima, dos conceitos patriarcais acerca do comportamento sexual, que antes era somente restrito às relações monogâmicas e, especialmente, matrimoniais.

A partir disso, as mulheres saíram às ruas em busca da reivindicação de seus direitos, um deles o uso de calças, que, na época, era restrito somente ao gênero masculino.

[Imagem: Alain Dejea-Sygma/ Getty Images]

E o mundo da moda não foi excluído e muito menos isento dessas transformações e adventos. Neste contexto, diversos designers em ascensão e que buscavam emergir na indústria nesta época apoiaram o movimento feminista e adotaram a produção de calças femininas 一 a exemplo do designer francês Yves Saint Laurent 一 que foi um dos pioneiros na produção e apresentação de calças e smokings femininos em seus desfiles, além da adoção por parte de vários designers em trends como minissaias, uso de cortes geométricos e simétricos, blusas sem gola, peças contendo um estilo mais espacial, cores mais fluorescentes e metálicas, e o início da forte presença de roupas andrógenas e unissex, ou seja, a ideia da roupa sem ‘gênero’.

Uma parte da Batalha de Versalhes. [Imagem: W Magazine]

Como o consumo da moda, na época fortemente marcado pelas coleções de alta costura ao lado do engatinho das roupas prontas (prêt-à-porter ou ready-to-wear), naquele momento era totalmente às rédeas e um patrimônio da França e da sociedade elitista que mais consumia as peças, os designers norte-americanos, que buscavam seu momento de glória dentro da moda, costumavam ser grandes praticantes de cópias de criações parisienses. Nesta época (1960-1970), empresas de enorme prestígio como Bergdorf Goodman, Bonwit Teller, Lord & Taylor, Ohrbach’s e a Saks Fifth Avenue eram experts em vender cópias ao invés de produções originais, assim como os designers estadunidenses, o que naquela época era super comum e praticado às claras. 

A ação de cópia era tão corriqueira que frequentemente era possível encontrar na renomada Vogue propagandas como ‘’Imitações de Paris – para os Estados Unidos’’. 

Nestas campanhas geralmente estavam inseridas diversas imagens que apresentavam as criações originais de designers de alto prestígio e de alta costura, como Christian Dior, Guy Laroche, Nina Ricci e Pierre Cardin. Além disso, as fotos continham legendas explicativas direcionando os leitores e consumidores onde exatamente encontrar tais imitações e como eram suas composições.

Apesar das imitações serem praticadas com bastante frequência, existia uma contradição entre a ação das empresas, os designers estadunidenses e o seu anseio: as campanhas realizadas em Washington para que seus modelos e criações originais pudessem receber proteção de direitos autorais. Enquanto isso, os sindicatos de moda franceses aprovaram o esquema das cópias pelo singelo motivo de o método gerar lucros absurdos para os seus membros, além de firmar sua influência dentro do mercado modista.

Dentro deste programa, as empresas e designers norte-americanos compravam algo como uma ‘parcela’, que consistia em assegurar a cautela e evitar prejuízos às peças, além de moldes e tecidos de ótima qualidade utilizados pelos costureiros.

Assim, após a apresentação das peças em um mini desfile 一 semelhantes aos desfiles de alta-costura 一 para as freguesias de alta aquisição, as clientes escolhiam os modelos e faziam as mudanças e ajustes necessários, para que no final a peça pudesse levar a etiqueta da empresa ou designer, como se fosse uma colaboração entre eles e um dos designers franceses.

Por outro lado, a francesa Chanel buscava a todo o momento assegurar que suas peças não vazassem, a fim de não ser uma dos alvos de cópias e imitações norte-americanas. Desse modo, pelo espalho instantâneo das imagens de suas coleções nas redes, a marca chegou a proibir a participação de veículos midiáticos online em seus desfiles, além de processar fotógrafos que ousavam postar, de forma não autorizada, as fotos de suas criações.

Contudo, dois processos fundamentais culminaram no fim da prática das imitações: a Batalha de Versalhes, acontecida na França em 28 de Novembro de 1973, e a ‘perda’ de território da França na moda. Os designers franceses, que saíram um tanto quanto ‘’derrotados’’ do evento, tiveram que buscar diversas outras saídas para não perderem a relevância para os norte-americanos naquela época. 

Ao longo do final da década de 1970 e do decênio de 1980, a França 一 mais precisamente Paris 一 deixou de ser a ditadora exclusiva da moda, o que de fato influenciou os caminhos que a indústria passaria a tomar dali por diante. Conforme mais designers passaram a surgir, a prática do esquema de cópias passou a ser considerado algo ultrapassado e até mesmo ‘’perigoso’’, e os artistas deixaram o seu ‘ego’ falar mais alto.

No decorrer da década de 1980, a moda também passou a expressar-se por outros caminhos mais progressistas e, assim, os designers criativos buscaram lutar para conseguir seu espaço dentro da indústria modista, além da tão sonhada relevância e solidificação no mercado, de maneira que seus modelos não mais fossem advindos de uma mera imitação das casas francesas, mas sim de uma produção original, com o toque de modernidade e revolução pela qual a década atravessava naquele momento, como forma de sobressaírem-se 一 não mais por suas habilidades em reproduzir as imitações e sim por seu talento nas criações 一, além de saírem de vez da sombra dos estilistas franceses. 

Assim, compreendendo o ambiente narcisista e de egos inflados presentes na indústria da moda, os designers franceses, que até o momento eram considerados como grandes protagonistas da cena 一 em especial no quesito das criações 一, tiveram que também optar pelo espírito vanguardista para que assim os estilistas estadunidenses, conhecidos na época como meros emergentes, não pudessem roubar toda a plateia conquistada pelos franceses.

Deste modo, pode-se afirmar que, é quase concreto afirmar que a partir de então as cópias passaram a ser consideradas um grande problema dentro do cenário modista, e não mais uma colaboração ou parceria entre norte-americanos e franceses que, à medida que os estadunidenses avançavam e conquistavam espaço dentro da moda, não queriam jamais serem ofuscados por quem acabara de chegar com suas ideias e criações revolucionárias.

Portanto, se hoje os artistas buscam reivindicar pela originalidade de seus trabalhos, é fundamental frisar a necessidade de uma breve ‘’guerra fria’’ entre franceses e estadunidenses 一 principalmente 一 para que as cópias e imitações passassem a ser consideradas um crime gravíssimo de plágio, chegando a custar a credibilidade dos diretores criativos como estilistas criativos, a integridade da marca, além de uma possível indenização aos afetados pelas cópias.

A nostalgia e os anos 2000 (re)conquistando as passarelas

Calças cintura baixa, tops, flip phones, óculos com lentes coloridas, sandálias plataformas e a ilustre (ou não tão ilustre assim) presença dos jeans são alguns dos elementos mais significativos e mais remanescentes da estética Y2K, cada vez mais ganhando — novamente — espaço no cenário atual do mundo da Moda, além de fisgar o coração dos diretores criativos e trazê-los, mais uma vez, para dentro das passarelas.  

Para quem não considera-se familiarizado com o termo ou está vendo-o pela primeira vez, o uso da hashtag #Y2K, ou somente a sigla ‘Y2K’ em si, trata-se de uma ”nova’’ tendência das redes sociais em que os usuários buscam compartilhar — ou reviver — tendências dos anos 2000, dando assim, o significado de Year 2000, ou em tradução livre, simplesmente anos 2000. 

A trend popularizou-se especialmente após internautas do mundo todo compartilharem em suas contas no TikTok suas recriações dos looks de personalidades como Paris Hilton, Britney Spears (especialmente a icônica aparição de Spears ao lado de Justin Timberlake no red carpet do VMA de 2001, em um look all-jeans), Christina Aguilera, Beyoncé, Spice Girls, até mesmo os uniformes e looks do seriado mexicano Rebelde (2004 – 2006), em especial os looks de Mia Colucci, que contribuiram bastante à popularização do termo, trazendo à tona tendências que a maioria de nós já possui total conhecimento sobre, e como filhos da década — ou seja, nascidos entre o período de transição entre a década de 1990 e dos anos 2000 —, cresceu sobre os cuidados da moda desta época. 

Britney Spears e Justin Timberlake no Red Carpet do Video Music Awars (VMA), no Metropolitan Opera House, Nova York, em 6 de setembro 2001. [Imagem: Jeffrey Mayer/ Getty Images]

Christina Aguilera (X-Tina) posando no Red Carpet do Video Music Awards (VMA), no Radio City Music Wall, Nova York, em 29 de agosto de 2002. [imagem: Michel Bourquard/ Alamy]

Assim, ao ter em mente a importância e o poder das redes sociais — em especial o Instagram, e agora o TikTok — no cotidiano de diversos setores industriais, incluindo o setor modista, é claro dizer que a popularização de tendências na internet contribui, e muito, para que esta veiculação também ocorra dentro da moda e acabe se tornando parte dela. 

A volta da estética dos anos 2000 ao mundo contemporâneo marca o retorno de uma das eras mais plurais da moda em termos de estilos, expressos por uma variedade de tendências em uma mesma década, além de sua longevidade que foi comprovada por sua relevância e fama nos dias atuais. 

Se a estética mais comentada na década passada — compreendida entre 2010 e 2020 — era a dos anos de 1990 e sua melancólica fase exemplificada especialmente pela estética ‘Heroin Chic’, esta caracterizada por pele clara ou pálida, olheiras, cheekbones, cabelos com aspectos de oleosos, valorização da extrema magreza, uso de drogas e cocaína e representada especialmente pela supermodelo britânic Kate Moss no início da década, além de muito comentada entre os fashionistas como uma fase ”bizarra” da moda. 

Ao que parece, os diretores criativos do mundo moderno ouviram os pedidos de ”Bring that back again!’’ dos amantes internautas dos anos 2000 e, a partir disso, a década atual tem buscado reviver as principais tendências da época pode ser considerada bastante sucessiva quanto a tal. 

Ao observar os editoriais de moda nas edições de Setembro deste ano (a edição de Setembro é sempre a mais importante do ano), principalmente das revistas Vogue US e Vogue Rússia é possível observar como a tendência já saiu das passarelas e migrou até mesmo para o mercado editorial. 

Alguns desfiles particulares da temporada anterior deixam claro o quanto a estética das criações têm tomado inspiração da tendência nascida nas redes sociais, a presença de referenciais a década de 2000 é inquestionável, como por exemplo na marca italiana Blumarine na diretoria criativa de Nicola Brognano desde sua coleção de Outono/Inverno 2021 ele mostrou com excelência como trazer uma tendência nascida do digital para a moda de luxo. Suas coleções seguem com a estética como a Resort 2022 e a mais nova coleção de Primavera Verão 2022 que foi apresentada no dia 24 de Setembro, durante a Semana de Moda de Milão. 

Alguns dos looks expostos por Nicola Brognano para a coleção de Primavera/Verão 2022. [Imagem: Alessandro Lucioni / Gorunway.com]
Diferentes reproduções do ‘top de borboleta’, da esquerda para a direita: Mariah Carey no red carpet de um show dedicado à Diana Ross em 2000 (design por Emanuel Ungaro); Olivia Rodrigo utilizando uma recriação da ‘Depop’ e Saweetie utilizando uma criação da Sequin em seu aniversário.

Entre minissaias e blusas cortadas, outra marca que demonstra  o poder do fenômeno digital é na mais recente coleção da Miu Miu de Primavera/Verão 2022, que foi apresentada no dia 05 de outubro durante a Semana de Moda de Paris. 

A coleção que foi assinada por Miuccia Prada foi aclamada pelos amantes de moda e marcada pelo renascer de uma das características mais fortes do Y2K — minissaias com comprimentos mínimos e cinturas baixas — mas não foi a única a abusar dos comprimentos minis em sua coleção, muitas grandes marcas seguiram a mesma linha como Acne Studios (Paris Fashion Week), Calvin Luo (Paris Fashion Week), Missoni (Milan Fashion Week) e Chopova Lowena (Milan Fashion Week) que direta ou indiretamente olharam para o sentimento nostálgico da década de 2000.

Alguns dos looks apresentados por Miuccia Prada para a Miu Miu, para a coleção de Primavera/Verão 2022. [Imagem: Filippo Fior / Gorunway.com

Fora das passarelas o cenário não é tão diferente. Personalidades como a modelo Bella Hadid e a cantora Dua Lipa (que são grandes influenciadoras contemporâneas no quesito ”tudo o que eu uso vira moda”), já adotaram diversas tendências do decênio compreendido entre  2000 e 2010, especialmente os trends bastante populares entre a metade da década. 

É corriqueiro que, a cada saída às ruas, elas entregam um novo outfit nostálgico que logo vira o assunto (ou looks) mais comentado e repostado nas redes sociais por um longo período de tempo. As cantoras Meghan Thee Stallion e Lizzo também são outras personalidades que parecem ter adorado reviver a década e, sempre que podem, usam e abusam do glamour dos anos 2000 em suas aparições. 

Bella Hadid e Dua Lipa fotografadas em NoHo, Nova York, em 19 de setembro de 2021. [Imagem: Gotham/Getty Images]
Bella Hadid nas ruas de Nova York. Aqui ela revive a tendência da saia midi jeans em uma lavagem mais clara. [Imagem: Gotham/Getty Images]
Em uma postagem em seu instagram, Dua desbloqueou diversas memórias dos anos 2000: o cropped rosa, a cintura à mostra, cinto combinado com peça superior e acessórios coloridos. [Imagem: Dua Lipa/ Reprodução Instagram]

No entanto, apesar de ser uma década que contém tendências e peças bem marcantes, uma das razões pela qual as marcas tendem a adotar a referência a década em suas criações pode estar atribuída à forte necessidade de fazer com que suas marcas sejam mais exploradas e adquiridas pelo público mais jovem, o que garantiria lucros e asseguraria o hype de suas casas criativas. 

É perceptível que algumas casas busquem preservar sua identidade criativa com tendências voltadas ao público mais maduro, porém, como qualquer outro nicho, a indústria da Moda passa por processos de rotações de caminhos, ou seja, para manter-se, é necessário que a mesma se adapte ao mundo ”moderno’’ e, convenhamos, as novas perspectivas buscam atentar-se mais ao mundo do marketing do que à realidade vívida, de fato.

Você provavelmente já deve ter ouvido por aí que ‘tempo é dinheiro’, mas quando o assunto é o mundo fashion, o mais correto a se dizer é: marketing é dinheiro; o que implica em dizer que se a estratégia de marketing de uma marca for bem produzida e executada, assim será a marca, também bem sucedida e lucrativa. Ou seja, o que significaria adotar as tendências que estão na ‘’moda’’ – seja entre influenciadores digitais, ou seja entre a comunidade da moda das redes sociais — como forma de dar continuidade à sua relevância, bem como uma maneira eficaz de garantir e assegurar seus fins lucrativos. 

Um outro ponto a ser relacionado pelo fortíssimo comeback da moda dos anos 2000 aos editoriais e passarelas também pode ser atribuído à presença de designers e diretores criativos mais ‘’jovens’’ frente às marcas e produções editoriais, que acabam por trazer suas raízes e referências estéticas às suas criações, especialmente, para dentro das passarelas. 

O retorno das tendências dos anos 2000 ainda rompe com as barreiras ‘’instauradas’’ pela influência dos anos de 1990. Se a década de 1990 era marcadas por peças mais confortáveis, minimalistas, e de fato ”reclusas’’ — representada pelo uso de calças mom e da estética grunge, por exemplo — a estética dos anos 2000 quebra totalmente estes paradigmas, expressado pela forte referência à extravagância, ao glamour e principalmente ao maximalismo — marcado pelo princípio de ”quanto mais, melhor”, adicionando mais personalidade e vida à composição de algum look, contrariando totalmente a estética passada. 

O momento nostálgico no qual nos encontramos atualmente não reflete somente nas peças de roupas ou acessórios. Acontece que, assim como o início da década de 2020, marcado por um período de recessões e, acima de tudo, pela pandemia do coronavírus deflagrada mundialmente, que provocou e agravou crises políticas e econômicas em diversas nações, além de crises sanitárias. 

Os anos 2000 não foram tão diferentes. Tiveram diversos altos e baixos, como a ”grande depressão“ ou crise financeira compreendida entre 2007 e 2008, que chegou ao fim somente em 2009 — mas que continua influenciando a economia de vários países até hoje — além da pandemia causada pelo H1N1 que afetou mais de 200 países entre 2009 e 2010 que, inclusive, ainda estavam saindo ou se recuperando da grave crise monetária desencadeada nos anos anteriores. Semelhanças? 

Há uma interessante explicação para tudo isso: a influência da conjuntura social no estilo. Ou melhor dizendo, a moda anda conforme a sociedade atual esteja caminhando, ou seja, a volta das tendências dos anos 2000 pode estar diretamente associada ao período — praticamente de semelhanças — no qual estamos vivendo atualmente.

Se por um lado as décadas de 1970 e 1980 valorizavam o uso de sapatos e saltos mais baixos, que pudessem representar a estabilidade e o momento vanguardista, em que a situação parecia estar andando em direção ao progresso, as décadas de 2000 e 2020 parecem buscar o lado contrário e reproduzir sua passagem marcada por instabilidades e índices inflacionários em seus sapatos altíssimos em plataformas. 

Dentro dessa teoria sociológica, parece que seremos contemplados pela glamourização, plataformas e maximalismo dos anos 2000 por um bom tempo, uma vez que, apesar do fim da pandemia, as problemáticas recorrentes e deixadas por ela perdurarão por um longo período, especialmente pelo decréscimo do mercado financeiro e crises políticas, que acabam por influenciar diretamente todos os setores econômicos, inclusive as indústria têxtil e da moda. 

Além disso, as antigas previsões de que ao longo de 2021 a moda estaria optando por tendências mais futuristas terão que se retardar um pouco e aguardar para que quando ocorra o otimismo de ser a ”estrela do show“, de fato, a moda possa novamente deliberar sobre um conceito vanguardista e de avanços, assim como a estética futurista. 

Se você alguma vez já se encantou por algum look usado pelo quarteto de Sex and the City (1998 – 2004) e por sua protagonista Carrie Bradshaw, ou por algum dos looks utilizados por Paris Hilton, Britney Spears, Jennifer Lopez, X-Tina, Fergie, Ashley Tisdale, Victoria Beckham, ou qualquer look inusitado que tenha saído diretamente do ”forninho’’ dos anos 2000 e já quis reproduzi-los, mas deixou de fazê-lo por achar que estaria ”fora de moda” ou vestindo-se de maneira ”estranha’’, talvez este seja o momento perfeito para tirar as peças do seu guarda-roupa e arriscar pelas ruas!

Os 10 anos de Olivier Rousteing frente à Balmain

De ‘menino prodígio’ a diretor criativo da Balmain, a apresentação da nova coleção Primavera/Verão 2022, que reúne grandes nomes da última geração de supermodelos (Naomi Campbell, Carla Bruni, Lara Stone, Mila Jovovitch, Natasha Poly, Natalia Vodianova), celebra os 10 anos desde que Olivier Rousteing, estilista francês e atual diretor criativo da marca, juntou-se à casa. 

Dono de um talento indiscutível, especialmente quando o assunto é a produção de corsets de couros, Rousteing também é dono de um feito incrível dentro da indústria da moda: o designer mais jovem a tornar-se diretor criativo de uma marca francesa – na época, tinha apenas 25 anos – além de ser o único negro e gay a ocupar tal cargo em uma casa local. 

Apesar de ser uma referência quando o assunto é sucesso, sua caminhada para atingir uma carreira brilhante foi extremamente oposta, marcada por uma trajetória árdua e dolorosa. Aos 7 dias de vida, Olivier foi deixado em um orfanato e adotado por um casal aos 5 meses.

A partir de então, Rousteing protagoniza uma vida repleta de superações, principalmente voltadas a temas como homofobia e racismo, os quais critica publicamente. No entanto, o racismo e a homofobia não impediram de alcançar o patamar no qual o designer se encontra atualmente. Olivier se formou na renomada École Supérieure des Arts et Techniques de la Mode, em Paris, e conseguiu sua primeira oportunidade de trabalho no ramo da moda como assistente na Roberto Cavalli, uma grande marca italiana. 

Em 2009, iniciou-se sua história com a Balmain. Lá, foi escalado para trabalhar ao lado de seu mentor, e então diretor criativo da marca, Christophe Decarnin. Após o anúncio da saída de Decarnin, o nome de Olivier foi o mais cotado para assumir o cargo, e assim aconteceu.

Desde sua nomeação, Rousteing tem ministrado perfeitamente a junção entre o luxo da Balmain e sua contemporaneidade, marcada por seu espírito juvenil — que tem conquistado os jovens de todo o mundo, trazendo-os para o encanto do mundo glamoroso da Balmain —, além de firmar sua relação com as celebridades, que regularmente são vistas utilizando suas criações, tais como: Beyoncé, grande amiga de Olivier e responsável pela narração do desfile de Spring/Summer 22, ocorrido nesta quarta-feira (29); o clã Kardashian-Jenner; Naomi Campbell; as irmãs Hadid; a atriz Zendaya (que foi o nome da noite no Venice Film Festival), dentre outras. 

Na caminhada frente à Balmain , Olivier reúne em seu currículo como diretor criativo alguns desfiles inesquecíveis, entre eles:

Balmain Spring/Summer 2022 Ready-to-Wear: celebra uma década do artista como diretor da casa.

Confira o desfile completo:

Winter Haute Couture 2020: primeiro desfile após o início da pandemia, ocorrido no rio Sena.

Balmain Spring/Summer 2020 Ready-to-Wear: coleção que ressoava as referências e identidade de raça de Olivier após a descoberta de suas origens (documentada em Wonder Boy, dirigido por Anissa Bonnefont e lançado em 2019 pela Netflix.

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Balmain Winter Haute Couture 2019: re-estreia da Balmain e estreia de Olivier nas produções de alta-costura.

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Balmain Festival 2020: Olivier inovou ao utilizar referências de festivais como Coachella e Lollapalooza para apresentar a coleção masculina de verão, o evento obteve sucesso e passou a ser algo recorrente.

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