[Crítica] Renaissance: os hinos de positividade iniciam uma nova era

O tão aguardado comeback da Beyoncé finalmente chegou! Renaissance, o sétimo álbum de estúdio da artista, foi lançado na última sexta-feira (29). O projeto, que é o primeiro ato de uma trilogia, vem sendo muito aguardado pelos fãs após um hiatus de 6 anos da cantora desde seu último disco solo, Lemonade.

Renaissance conta com 16 faixas e participações especiais de Beam, Grace Jones e Tems. Nas redes sociais, Beyoncé compartilhou o significado do projeto feito durante três anos na pandemia, onde a artista declarou na dedicatória do disco que foi uma época em que mais se achou criativa.

Criar este álbum me permitiu um lugar para sonhar e encontrar fuga durante um momento assustador para o mundo. Isso me permitiu sentir-me livre e aventureiro em uma época em que pouco mais estava se movendo. Minha intenção era criar um lugar seguro, um lugar sem julgamento”, contou a cantora.

O projeto tem doze produtores principais, A. G. Cook, Boi-1da, Guilty Beatz, Jahaan Sweet, Labrinth, The Neptunes, S1, Skrillex, Tate Kobang, The-Dream, Tricky Stewart e a própria Beyoncé. A masterização é feita por Colin Leonard e a mixagem assinada por Stuart White.

A primeira faixa do Renaissance é I’m That Girl, que usa o sample da música Still Pimpin de Tommy Wright III, Mac T-Dog e Princess Loko, lançada em 1994. A canção dançante inicia o álbum com uma mensagem bem simples do poder feminino. 

Nos versos, “It’s not the diamonds, It’s not the pearls, I’m that girl, It’s just that I’m that girl” (Não é os diamantes, não é as pérolas, eu sou aquela garota, é que eu sou aquela garota; em português) a artista exemplifica que não é necessário coisas de valor para lhe agregar poder.

Cozy é a segunda música do álbum e ela fala sobre estar confortável, sendo em ser quem você é, com seu próprio corpo e com sua cor. Com uma batida mais relaxada, a artista entrega novamente uma mensagem positiva para seus fãs. A canção usa como samples as faixas Get With U de Liddell Townsell e M.T.F. e Unique de Danube Dance e Kim Cooper.

Além disso, Cozy usa trechos do vídeo Bitch I’m Black da TS Madison, personalidade americana muito conhecida por ser a primeira mulher trans negra a produzir e apresentar um reality show.

Seguimos com Alien Superstar, uma faixa com batida eletrônica sensual e que se inicia com um sample da canção Moonraker do Foremost Poets, lançada em 1998. A música explora toda a sensualidade da artista e comunica com o público o poder de ser única ao som da faixa perfeita para se ouvir na pista de dança.

O destaque de Alien Superstar vai para a interpolação de I’m Too Sexy do grupo Right Said Fred no refrão da música, que destaca a genialidade da artista em usar uma canção muito conhecida de maneira tão revigorante. O sample de Unique de Danube Dance e Kim Cooper se repete e ao final da faixa é possível ouvir parte do discurso Black Theater da escritora e atriz Barbara Ann Teer.

Ensaio de divulgação do álbum Renaissance. [Imagem: Reprodução/Beyonce.com]

Cuff It é a quarta faixa, com sonoridade disco e synth funk (a mistura do uso de sintetizadores com a batida rítmica do funk), a música se desenvolve de maneira divertida e romântica. Essa é uma Beyoncé que só quer se divertir e não tem nada que irá prendê-la. A canção tem interpolação de Ooo La La La da Teena Marie e sample de Square Biz da mesma cantora.

A quinta música do álbum é Energy com participação de BEAM, cantor jamaicano e americano. A faixa com sonoridade dancehall e eletrônica, mistura as partes melódicas cantadas por Beyoncé e os versos de BEAM com o afrobeat. Na letra pode ser encontrar um incentivo para dançar e se divertir, mantendo sempre a energia alta.

Energy tem sample de Milkshake e Get Along With You da cantora Kelis e Explode de Big Freedia, que faz a transição com a próxima canção do disco. Seguimos com Break My Soul, lead single do álbum, que conta com o samples do hit dance dos anos 90, Show Me Love, da cantora Robin S. e novamente a canção Explode de Big Freedia, lançada em 2014. 

A música alcançou o 7° lugar na Billboard Hot 100 e permaneceu por 5 semanas no chart. Break My Soul que chegou para anunciar a volta da artista, agora na sonoridade dance-pop, se manteve na proposta de ser um hino de positividade em tempos confusos.

Capa alternativa do disco. [Imagem: Reprodução/Beyonce.com]

Church Girl é a sétima faixa do Renaissance, onde a artista explora nos versos da música sua religiosidade e suas raízes do sul dos Estados Unidos. Com batidas animadas do bounce é celebrado a liberdade em todos os seus sentidos. A canção usa os sample de Center of Thy Will das The Clark Sisters, Drag Rap dos The Showboys e interpolações de Where They At do DJ Jimi e Think (About It) da Lyn Collins.

Seguimos com Plastic Off The Sofa, a música mais lenta e R&B, mas sem abandonar o upbeat eletrônico. Nela, Beyoncé fala sobre amor e as qualidades de seu interesse romântico, podendo ser até uma faixa dedicada ao seu marido, Jay-Z. Pelo caráter mais intimista da música, os vocais da cantora se sobressaem e são o grande acerto de Plastic Off The Sofa.

A nona canção é Virgo’s Groove, um clássico disco com letra mais romântica  dedicada ao amor da vida da artista. Com vocais e melismas arrepiantes, por mais de seis minutos podemos ouvir Beyoncé brincar com sua técnica vocal em uma faixa mais tranquila e pop.

Move é a próxima canção com a participação de Grace Jones e Tems. A faixa tem influência do afrobeat e bounce e explora os dois significados do termo “move”, em inglês, que pode significar o ato de se mexer e dançar, ou de sair da frente e abrir espaço para alguém mais importante. 

Seguimos com Heated, uma música mais R&B que conta uma menção e homenagem a uma das pessoas que inspiraram o Renaissance, Uncle Johnny. Ele, que era sobrinho da mãe de Beyoncé, teve participação na criação da artista e no início da sua carreira ajudava a criar designs e vestidos para serem usados por ela.

Em 2019 no GLAAD Awards, a cantora também dedicou o prêmio ao tio que morreu por complicações do HIV nos anos 90. No encarte do disco, Beyoncé agradece e explica a importância de Johnny. “Ele foi minha ‘madrinha’ e a primeira pessoa a me expor a muita música e cultura que servem de inspiração para este álbum.”, declara a artista.

Foto que aparece no encarte do álbum com agradecimentos ao Uncle Johnny.  [Imagem: Reprodução/Beyonce.com]

A décima segunda canção é Thique, uma faixa mais pop e trap, mas sem perder a sonoridade eletrônica. Nos versos se encontram rimas sobre dinheiro e sensualidade, com a exaltação do corpo da artista.

O álbum segue com All Up In Your Mind, uma das músicas mais diferentes do projeto e que coloca a cantora no universo ainda não explorado por ela, o hyperpop. Com letra bem pop falando sobre amor, o destaque vai para os vocais e performance de Beyoncé que combinam muito com o gênero.

America Has a Problem mistura a sonoridade de sintetizadores com o rap e usa o sample de America Has a Problem (Cocaine) de Kilo Ali, lançada em 1990. A faixa, apesar do nome, não tem nenhuma crítica política e deixa espaço para a cantora rimar de maneira divertida e interessante.

A penúltima canção é Pure/Honey, a faixa que é dividida em duas fases e gêneros. Na primeira parte, Pure, a artista apresenta rimas rápidas acompanhadas de uma batida perfeita para as boates. Já na parte Honey, Beyoncé se envolve completamente no soul e funk seguidos de vocais de outro mundo. A música tem os samples de Cunty da Kevin Aviance, Miss Honey de Moi Renee e Feels Like de MikeQ e Kevin JZ Prodigy.

O álbum termina com Summer Renaissance, a faixa que tem no refrão uma interpolação de I Feel Love de Donna Summer, um clássico do disco dos anos 70. A música encerra o álbum mais experimental da carreira da artista como o fim de um sonho. Levando os ouvintes a outras camadas da voz de Beyoncé em um ritmo que ninguém esperava vê-la dominando.

[Imagem: Reprodução/Beyonce.com]

Horas após o lançamento, Renaissance alcançou o topo do Apple Music em mais de 100 países, se tornando o primeiro disco feminino a conseguir o feito em 2022. No Spotify, o projeto teve a maior estreia de um álbum de uma artista feminina na plataforma este ano, com mais de 43 milhões streams

De acordo com o Hits Daily Double, o álbum tem previsão de vender entre 275 e 315 mil unidades, colocando o Renaissance em primeiro lugar nas paradas musicais americanas. Se conseguir chegar ao topo, Beyoncé se tornará a primeira artista feminina a colocar um disco nessa posição em 2022.

No metacritic, o projeto está com nota 93, acumulando 15 avaliações positivas e superando a avaliação de seu álbum anterior, Lemonade, que tem a nota 92. Na review da revista Rolling Stones, a artista foi aclamada por sua habilidade de dar aos ouvintes novos hinos pop e as faixas lentas e sensuais que todos amam e esperam nos projetos da cantora. 

A faixa Virgo’s Groove ganhou o selo de ‘Melhor Nova Música’ do site Pitchfork, destacando a música disco-funk como uma das melhores na carreira da Beyoncé. Na crítica de Renaissance, o álbum conquistou a nota 9 e a atribuição de ‘Best New Music’, dando ênfase no disco como uma rica celebração da música das boates e seu espírito emancipatório.

Em geral, o novo álbum se reinventa do que esperávamos no futuro da discografia da cantora. Após Lemonade, um dos projetos mais pessoais da artista, Renaissance reúne diversão, leveza e sensualidade nas faixas. Beyoncé aposta em um novo gênero musical e o mistura com outros ritmos, tornando o disco uma extensão de sua personalidade.

O uso correto de samples também merece destaque, pois demonstra a habilidade da cantora em transformar as interpolações e trechos de outras músicas em algo tão original e criativo quando aparece em Renaissance. Quem imaginou que após a faixa Way 2 Sexy de Drake e Young Thug o refrão da música I’m Too Sexy poderia soar de fato sensual e não cafona com em Certified Lover Boy? Só com os vocais de Beyoncé mesmo.

E falando em voz, a produção vocal do álbum está entre um dos melhores da artista, levando o ritmo eletrônico do house e disco a outros níveis. As faixas são conectadas não só pela sonoridade coesa do projeto, mas também em belas transições que o colocam na estética de um DJ unindo músicas para uma pista de dança.

Renaissance se estabelece como o início de uma trilogia animada e empolgante. É impossível ouvir o projeto e não se sentir contaminado ao dançar e melhorar o humor de quem está ouvindo. Assim, o álbum mais experimental de Beyoncé cumpre a promessa de nos levar a um lugar de exploração e liberdade.

O Auto-Tune como ferramenta criativa na música

Desde a estreia do programa TVZ com a apresentação de Pedro Sampaio, o artista começou a sofrer críticas por suas performances com o uso da ferramenta de Auto-Tune que deixam sua voz mais robotizada. Em entrevista para a revista Rolling Stones, Pedro se abriu sobre como enxerga o uso do efeito.

Muita gente ainda demoniza o auto-tune, mas são pessoas que não entendem do que estão falando, porque ele é usado mundialmente e eu uso de forma escancarada desde o início da minha carreira, faz parte da estética da minha voz“, afirma o DJ e produtor.

O Auto-Tune nada mais é do que um plug-in comumente usado por produtores dentro do estúdio, criado em 1997, a ferramenta inicialmente tinha o propósito de corrigir a afinação de cantores e instrumentos musicais. Mas não demorou muito para que outros propósitos para o recurso surgissem, quando a ferramenta é usada de forma exagerada ela gera um efeito robótico na voz parecido com o uso de sintetizadores.

Um ano após o lançamento do auto-tune, a cantora americana Cher lançou uma das primeiras músicas comerciais em que é possível identificar o efeito mais robotizado. A faixa Believe foi pioneira em usar a ferramenta de maneira criativa e a distorção de voz que foi imitada por outros artistas ficou conhecida como o “Efeito Cher”.

O single da cantora americana atingiu o topo das paradas americanas e se tornou uma das canções mais vendidas fisicamente de todos os tempos, com mais de 11 milhões de cópias. Além disso, a técnica usada na faixa mudou a história da música pop e os gêneros do rap e trap.

Nos anos 2000, diversos artistas da cena hip-hop aderiram ao uso do auto-tune, o destaque entre eles foi o rapper norte-americano T-Pain. Com o lançamento de seu álbum de estreia, Rappa Ternt Sanga, em 2005, o artista ficou conhecido pelo seu uso da ferramenta e criou sua própria estética vocal única no cenário do rap.

Devido ao T-Pain, o auto-tune caiu nas graças de grandes artistas, como Snoop Dogg, Lil Wayne e Kanye West, que até dedicou o álbum 808s and Heartbreak para explorar o efeito. No pop, a cantora Britney Spears também usou a ferramenta para modular sua voz em seu álbum Blackout e a banda Black Eyed Peas investiu pesado no auto-tune na canção Boom Boom Pow para atingir uma sonoridade futurista.

Mas se engana quem pensa que o auto-tune foi bem recebido por todos os artistas e a maioria do público. Em 2009, o rapper Jay-Z lançou a faixa D.O.A (Death of Auto-Tune) criticando exatamente o uso exagerado da ferramenta e a popularização da técnica no hip-hop. No trecho “Get back to rap, you T-Pain’n too much” (Volte para o rap, vocês estão como o T-Pain demais; em português), o rapper chega a citar o artista que iniciou o movimento e critica quem usava o auto-tune de forma não criativa.

Além disso, muitas críticas se somam ao fato de que quem usa a ferramenta não sabe cantar. Por ser uma ferramenta de afinação, em teoria, qualquer pessoa poderia gravar uma canção e soar com vocais perfeitos. Nessa época, surge ainda mais uma valorização por cantores que não usavam a ferramenta e eram publicamente contra o auto-tune.

Christina Aguilera foi uma dessas pessoas e chegou a passear pelas ruas de Los Angeles com uma blusa escrito “Auto Tune is for pussies” (Auto Tune é para covardes, em português). Anos depois, em entrevista para a rádio SiriusXM, a cantora admitiu que a ferramenta poderia ser usada de forma criativa, tendo inclusive experimentado com o auto-tune em seu álbum futurista, Bionic.

Christina Aguilera usando blusa contra o uso de Auto-Tune. [Imagem: Reprodução/Reddit]

De maneira geral, o uso do auto-tune se consolidou uma prática geral na música quando se fala de afinação. A maioria das músicas mainstreams passam pelo plug-in, o que constrói na indústria da música pop a meta de vocais perfeitos e a minimização de qualquer erro natural.

Até porque é importante lembrar que em faixas gravadas, bem antes da criação do Auto-Tune, já existiam técnicas que mudavam e melhoravam sutilmente a voz dos artistas.The Beatles duplicavam seus vocais nas músicas para deixar a voz mais encorpada nas canções, John Lennon mudava seu timbre de voz natural ao diminuir a velocidade das gravações e reproduzi-las por um amplificador específico e  Elvis Presley usava o eco e delay ao seu favor nas músicas.

Os tais vocais “naturais” são dificilmente encontrados e não são sinônimo de sucesso. O uso do auto-tune não invalida talento de nenhum artista e há quem diga que com a menor preocupação de atingir notas extremamente perfeitas, sobra mais tempo para se dedicar a outros elementos da música ou na entrega de uma performance.

O que foi uma tentativa de T-Pain para soar diferente de outros rappers anos atrás, se tornou atualmente uma das técnicas mais usadas no trap, subgênero musical do hip-hop e rap. Os artistas que fazem parte do gênero,  usam o auto-tune para criar melodias e unir as rimas com partes mais cantadas.

Travis Scott em estúdio com o cantor James Blake. [Imagem: Reprodução]

Quavo, Future, Migos e Young Thug são alguns dos rappers que montaram suas estéticas vocais usando os efeitos da ferramenta. Os vocais do Travis Scott conhecidos por soarem bem robóticos ou como de algo de outro mundo unem o auto-tune com outras técnicas de delay, phasing e outros plug-ins que modulam a voz. Esses efeitos formam o estilo único do artista e caracterizam o gênero musical em que atuam.

É inegável afirmar que o Auto-Tune mudou o jeito de fazer música desde sua criação e popularização. Poucas invenções na indústria fonográfica foram tão icônicas e discutidas pelos artistas e público depois de tantos anos. Seja pelas críticas do caráter artificial trazidos pela afinação perfeita ou pelo seu uso exagerado na modulação vocal, a ferramenta encontrou novas maneiras de ser usada e ainda tem fãs no mundo dos cantores.

Se o auto-tune cair em desuso na próxima década, o que parece bem improvável, com toda certeza vai ter marcado uma geração de músicas nos anos 2000 e no hip-hop, assim como os teclados sintetizadores são lembrados nas canções dos anos 80 e até imitados atualmente.

[Crítica] ‘Twelve Carat Toothache’ mostra os altos e baixos de Post Malone

Na última sexta-feira (03), foi lançado o quarto álbum de estúdio do rapper Post Malone, intitulado Twelve Carat Toothache. O projeto conta com 14 faixas e participações especiais de Roddy Ricch, Doja Cat, Gunna, Fleet Foxes, The Kid LAROI e The Weeknd

Após três anos do seu último disco, Hollywood’s Bleeding, Malone volta com o álbum mais curto de sua carreira, mas nas palavras do mesmo, com menos faixas fillers que podem ser encontradas em seus projetos anteriores. Em entrevista à revista Billboard, o rapper afirma que as novas músicas falam mais sobre como ele está se sentindo no momento. “É sobre os altos e baixos, a desordem e essa bipolaridade de ser um artista hoje no mainstream”, conta Malone.

O disco conta com 8 produtores principais, Andrew Bolooki, Brian Lee, Charlie Handsome, Jasper Harris, Louis Bell, Omer Fedi, Watt e o próprio Post Malone. A masterização é feita por Mike Bozzi e a mixagem é assinada por Louis Bell e Manny Marroquin.

Capa e tracklist do álbum Twelve Carat Toothache. [Imagens: Reprodução/Genius]

A primeira faixa do disco é Reputation, sendo a música mais melancólica e que tem como elementos principais o piano acompanhado dos vocais de Malone. A canção que introduz o projeto discute sobre a reputação do rapper e, principalmente, sua relação com a fama. 

Em versos como “You’re the superstar, entertain us” (Você é o superstar, nós entretenha; em português), não fica claro se ao longo da música o desabafo é para os seus fãs ou um antigo amor. Mas mesmo assim, é possível ver que ele coloca toda a sua vulnerabilidade na música e acerta o tom para o resto do disco. 

Seguimos com Cooped Up com participação de Roddy Ricch, lançado como segundo single do álbum. A faixa mais hip-hop com refrão viciante segue o tema da fama e como o rapper se sente engaiolado nessa situação. Post Malone e Roddy Ricch já trabalharam anteriormente no remix da música Wow. Em Cooped Up, o verso de Roddy não impressiona, deixando o destaque para o refrão e ponte cantados por Post. 

A música atingiu a posição 29 em sua estréia na parada musical Billboard Hot 100 e permaneceu somente duas semanas no chart. O videoclipe de Cooped Up foi lançado em maio desse ano e tem como espaço principal apenas um cômodo em que Post Malone canta seus versos, evidenciando a ideia de se sentir enclausurado em sua vida de superstar.

A terceira música do disco é Lemon Tree, outra faixa mais vulnerável do artista. Acompanhada de violão, o rapper discute com a vida a falta de sorte que parece estar enfrentando. Nos trechos “Life is pretty sweet, I’m told; I guess I’m shit outta luck, growin’ a lemon tree” (A vida é bem doce, me disseram; Acho que estou sem sorte, cultivando um limoeiro, em português), Malone brinca com a ideia de como a vida deveria ser doce para ele, mas ultimamente ele se sente com a vida bem azeda.

Wrapped Around Your Finger é a quarta faixa com elementos mais pop e animados do disco. Nela o artista admite como estava completamente envolvido em um relacionamento do passado e expõe toda sua personalidade de apaixonado. Seguindo o álbum, passamos para I Like You (A Happier Song) com participação de Doja Cat

A música como diz o título é bem animada e com uma batida contagiante, e a repetição do refrão “I like You, I do” é daqueles de ficar grudado na cabeça por dias. A dinâmica dos dois artistas na música é bem legal, com cada um cantando de sua perspectiva nesse possível relacionamento apaixonado. I Like You (A Happier Song) começou a ser promovida nas rádios, seguido do lançamento do disco, e se caracteriza como o terceiro single da era.

A sexta faixa de Twelve Carat Toothache é I Cannot Be (A Sadder Song) com participação do rapper Gunna. A música que representa o oposto da anterior, fala sobre um relacionamento que a outra pessoa está atrasando e segurando o artista de maneira negativa. Apesar da letra mais triste, a faixa é um hip-hop animado com a cara do Post Malone.

Seguimos com Insane, a canção com orientações mais trap do projeto e que tem grandes chances de virar o próximo single. Nela o rapper rima sobre dinheiro e mulheres sem maiores preocupações em cima de uma batida rápida e viciante.

Love/Hate Letter To Alcohol é a oitava faixa do álbum e conta com a participação da banda Fleet Foxes. A música se inicia com um coro de vozes e como diz o título se desenrola em um desabafo da relação de amor e ódio com o álcool. Nela fica explícito os problemas que o artista tem com a bebida, mas essa ainda é a sua forma de encarar a tristeza. Em sua participação no Saturday Night Live em maio deste ano, a faixa ganhou sua primeira apresentação ao vivo.

Já a nona música do projeto é Wasting Angels com The Kid LAROI, a faixa mais lenta e com orientações pop, coloca os dois artistas para discutir a relação com a fama e reputação. Vale destacar como Malone e LAROI possuem similaridades vocais, fazendo até ouvintes atentos se questionarem quais são de fato os versos de cada um.

O álbum continua então com Euthanasia, que conta com o sample da música de 2003, Pink & Blue do OutKast. A faixa que faz uma referência clara a eutanásia, prática médica que consiste em abreviar a vida de um paciente em estado terminal ou que esteja sujeito a dores e intoleráveis sofrimentos físicos ou psíquicos. Em uma das músicas mais sombrias do projeto, Malone então fala sobre a ideia de sua própria morte e fantasia sobre uma morte indolor em que possa encontrar um coro de anjos.

When I’m Alone é a décima faixa do Twelve Carat Toothache, com a batida rápida da bateria acompanhada de guitarra e voz, essa música mistura pop e rock ao mesmo tempo. When I’m Alone então abre espaço para o rapper falar sobre sua infidelidade em um relacionamento anterior.

[Imagem: Reprodução/Billboard]

Depois de uma faixa mais animada, Post volta a uma música mais lenta e introspectiva. Waiting For A Miracle é novamente uma das canções que discute a morte de alguma maneira, seja no verso “And everything done for the dead after they’re dead, is for the living” (E tudo que é feito para os mortos após eles estarem mortos, é para os vivos; em português) ou quando fala sobre suicídio.

Mudando totalmente de estilo, a penúltima música do álbum, One Right Now, conta com a participação de The Weeknd. Lançada como primeiro single do projeto ainda em 2021, a canção tem clara influência do pop dos anos 80 com uso de sintetizadores. A faixa tem relação com os trabalhos mais recentes de The Weeknd, mas não necessariamente se encaixa no disco de Malone. One Right Now estreou na sexta posição na Billboard Hot 100 e ganhou um videoclipe no mesmo mês de lançamento.

O álbum encerra com New Recording 12, Jan 3 2020, uma gravação caseira e demo de parte da letra de Euthanasia. No áudio de 1 minuto e meio, é possível ouvir Malone cantando somente acompanhado de seu violão. Essa maneira de terminar o projeto com uma demo, evidencia que essas músicas mais sombrias e reflexivas do artista, foram de pensamentos recorrentes de Post Malone nos últimos anos.

Em relação a crítica especializada, o site metacritic atribuiu nota 66 ao álbum baseado em apenas seis reviews. Com maioria de resenhas positivas, as revistas Rolling Stone e NME destacam o sucesso do artista em compartilhar sua verdade, em um disco mais reflexivo que segue com a cara do artista.

Twelve Carat Toothache estreou no Spotify com mais de 30 milhões de streams e em comparação com seu antecessor Hollywood’s Bleeding, que fez 74 milhões em seu primeiro dia, o número parece desapontar. Já em relação às projeções de venda, a Hits Daily Double previu cerca de 115,000 a 130,000 mil unidades vendidas, quantidade também inferior ao disco anterior, mas que pode dar a possibilidade do terceiro número 1 de Post Malone na Billboard 200.

De fato, o lançamento de Twelve Carat Toothache não foi cercado de muita promoção e singles que fizessem muito barulho como os trabalhos anteriores de Malone. O projeto também sofreu alguns adiamentos, Post anunciou que estava trabalhando em um álbum novo durante live tributo a banda Nirvana ainda em 2020 e em 2021 seu empresário chegou a postar no Instagram que talvez teria dois discos do rapper naquele ano. Infelizmente, nenhum novo projeto ganhou um anúncio e em julho de 2021, o single Motley Crew foi lançado, mas a música não faz parte de Twelve Carat Toothache.

A menor quantidade de faixas é um fator que pode prejudicar o número de streams do disco, mas como citado anteriormente, a escolha do rapper foi selecionar o que considerava as melhores músicas para a edição final. O álbum foi claramente pensado como um todo, desde as temáticas das músicas que se cruzam a todo momento até as transições entre as faixas.

Twelve Carat Toothache talvez seja um dos discos mais tristes da carreira de Post Malone, nele é possível ver que mesmo após o sucesso do artista, ele prefere evidenciar seu sofrimento, vícios, problemas com drogas e álcool, e a relação ambígua com a fama. Para os fãs do rapper, o álbum provavelmente não decepcione, pois apesar dos assuntos mais sombrios, não se afasta da essência musical de Malone.

Cópia física do álbum novo de Post Malone. [Imagem: Reprodução/UMusic]

O destaque de Twelve Carat Toothache ainda vai para as faixas mais energéticas como Love/Hate Letter To Alcohol, Insane, Cooped Up e I Like You (A Happier Song), deixando algumas outras participações e músicas solos mais esquecidas. Pelas especulações e críticas, talvez o projeto não seja um grande sucesso nas paradas musicais e número de streams, mas essa não parece ter sido a intenção do artista.

Depois de algumas eras anteriores bem sucedidas e várias aparições no topo das paradas, Post Malone fez seu comeback inspirado em um relato super honesto sobre seus sentimentos e impressões sobre sua vida atual. Para isso, Twelve Carat Toothache cumpre seu papel e vale a pena pelo seu poder de reflexão. E o trabalho mais curto talvez indique que essa seja apenas uma das partes iniciais de seus lançamentos futuros.

Jack Harlow: a mistura de carisma e talento que o levaram ao topo

Se você está nas redes sociais, provavelmente já ouviu falar de Jack Harlow, seja pelas suas músicas virais ou pelo carisma do artista. O rapper que teve seu momento de ascensão em 2020, hoje vive seu melhor momento na carreira e com sua personalidade conquistadora não para de aparecer na mídia. Afinal, quem é Jack Harlow? E como ele se tornou uma das maiores promessas do cenário do rap americano?

Harlow nasceu em 1998 na cidade de Louisville, Kentucky. Desde seus 12 anos sempre foi apaixonado pelo hip-hop e com essa idade começou a gravar músicas no seu quarto, postando na plataforma SoundCloud para compartilhar com seus colegas. Na época, gravou algumas mixtapes com amigos sobre o nome de Mr. Harlow. Extra Credit foi um desses projetos que chegou a ser lançado independentemente, mas não pode ser mais encontrado em nenhum serviço de streaming.

Em 2015, o rapper lançou seu primeiro EP comercial, The Handsome Harlow, com a gravadora independente de Louisville, sonaBLAST! Records. Pelo sucesso de seus projetos durante o ensino médio, Jack ainda conseguiu esgotar alguns shows em espaços populares da sua cidade.

Já em 2016, um mês após se formar no ensino médio, o artista lançou outra mixtape, intitulada 18, pela gravadora e coletivo musical Private Garden Records, fundada por Jack Harlow e The Homies. O projeto com 8 faixas teve participações de Otis Junior e Nemo Achida e como singles, Never Woulda Known, featuring Johnny Spanish, e Ice Cream.

Capa da mixtape 18 de Jack Harlow. [Imagem: Reprodução/Amazon]

No ano seguinte, Harlow lançou dois singles, Routine e Dark Nigth, sendo o último acompanhado de um videoclipe por ser o lead single do álbum. Os lançamentos foram para mais uma de suas mixtapes, essa chamada de Gazebo. Para promover o projeto, o rapper chegou a fazer uma turnê que incluía 14 cidades dos Estados Unidos, chamada de Gazebo Tour.

Pensando no futuro da sua carreira, Jack Harlow então se mudou para Atlanta, onde conheceu seu conterrâneo KY Engineering e construiu uma relação de trabalho com ele. Foi a partir desse encontro que o artista pôde conhecer o DJ Drama, que ficou impressionado com o estilo único do rapper. Em agosto de 2018, Harlow anunciou a assinatura com a Atlantic Records através da gravadora de DJ Drama e Don Cannon, Generation Now.

Para celebrar a parceria, foi lançado o videoclipe de SUNDOWN, lead single do seu próximo projeto, a mixtape Loose. O disco com 13 faixas contou com a participação dos rappers CyHi the Prynce, K Camp, 2forwOyNE e Taylor. No final de 2018, o artista embarcou em uma turnê pela América do Norte chamada The Loose Tour. Com o sucesso do single, o álbum colocou Jack em um cenário de conhecimento nacional e conquistou a crítica. Loose chegou a ser indicada no BET Hip Hop Awards de 2019 na categoria de Melhor Mixtape.

Apesar de não serem singles, as faixas PICKYOURPHONEUP com participação do  K. Camp, CODY BANKS, SYLVIA featuring 2forwOyNE e DRIP DROP em parceria com Cyhi The Prynce, ganharam videoclipes no início de 2019.

Desde 2016, Harlow vinha lançando um projeto por ano, apostando em uma constância para atingir cada vez mais público. Em 2019 não foi diferente, lançou o lead single THRU THE NIGHT em parceria com o cantor Bryson Tiller. A faixa antecipou a nova mixtape do artista, intitulada Confetti.

Com 12 faixas e participações de 2forwOyNE and EST Gee, o projeto ainda contou com os singles não oficiais, HEAVY HITTER, GHOST, WARSAW com participação de 2forwOyNE, RIVER ROAD e WALK IN THE PARK

Com a chegada de 2020 mais lançamentos foram programados para o artista, mas dessa vez algo mudaria sua carreira. Em janeiro, era lançado o single WHATS POPPIN antecedendo o seu segundo EP, Sweet Action. O videoclipe, lançado junto a faixa, foi produzido por Cole Bennett do canal Lyrical Lemonade, que já trabalhou com gigantes da indústria, como Eminem e Juice WRLD.

WHATS POPPIN tornou-se o maior viral da rede social TikTok, sendo usada em diversas trends do aplicativo. Vale lembrar que no início de 2020 a rede social viveu um de seus maiores momentos de ascensão, impulsionando o nome de vários artistas, como Doja Cat e Megan Thee Stallion.

A versão original do single alcançou a 8° posição na Billboard Hot 100 e cinco meses depois, a canção ganhou um remix com a participação de DaBaby, Tory Lanez e Lil Wayne. Associada a grandes nomes, a música fez ainda mais sucesso atingindo o segundo lugar na parada musical da Billboard. Além disso, WHATS POPPIN foi indicada no Grammy Awards de 2021 na categoria, Melhor Performance Rap

Foi nesse momento que Harlow passou de um artista local em ascensão para um dos artistas revelação de 2020. No final do mesmo ano, o rapper anunciou o lead single, Tyler Herro, para o seu álbum de estreia intitulado Thats What All They Say. O primeiro single do projeto não se igualou ao sucesso anterior e apenas conseguiu a 34º posição na Billboard Hot 100.

Já o disco com 15 faixas contou com grandes figuras da indústria musical, como Lil Baby, Big Sean, Chris Brown, Adam Levine, Bryson Tiller, EST Gee e Static Major. As duas versões de WHATS POPPIN foram incluídas no projeto e o álbum no seu lançamento alcançou a 5° posição a Billboard 200, vendendo 51 mil cópias. Outros dois singles foram promovidos, Way Out com participação de Big Sean e Already Best Friends com Chris Brown.

Tentando se manter como figura presente no mainstream, Jack colaborou com artistas como G-Eazy, Eminem, Ty Dolla $ign, Saweetie e French Montana. Até que uma das suas participações se tornou seu próximo sucesso, a aclamada INDUSTRY BABY de Lil Nas X.

A canção atingiu o número 1 na Billboard Hot 100 em 2021, sendo essa a primeira vez de Jack Harlow no topo do chart. INDUSTRY BABY ganhou indicação no Grammy 2022 na categoria Melhor Performance de Rap Melódico e o verso de Jack foi considerado por muitos da crítica como um dos pontos altos da música.

No início de 2022, Harlow começou a preparar o caminho do lançamento de seu segundo álbum, Come Home The Kids Miss You. O lead single do disco, Nail Tech, alcançou a 18°posição na Billboard Hot 100 e ganhou reconhecimento de um dos maiores nomes do rap, Kanye West.

Em postagem já excluída do Instagram, Kanye elogiou o talento nas letras de Jack, dizendo que ele realmente consegue rimar e é um dos top 5 rappers atualmente. Harlow não escondeu sua felicidade no Twitter, já que West é um dos seus grandes ídolos e inspirações na música.

Tradução: “Isso aqui…é um dos melhores momentos de toda a minha vida…feliz que todos vocês puderam assistir da primeira fila … de repente todo o ódio não significa nada… imagine seu herói dizendo isso sobre você… Eu poderia chorar”

Os dois acabaram colaborando para o álbum de Kanye, Donda 2, em uma faixa chamada Louie Bag. Ela não pode ser encontrada em nenhum streaming convencional, já que só foi disponibilizada nos serviços da Stemplayer, dispositivo criado por West. Apesar disso, Harlow participou de uma das grandes performances ao vivo para promoção do disco, realizadas em um estádio em Miami.

Apresentação da música Louie Bag no estádio LoanDepot Park em Miami. [Imagem: Reprodução/Good Music]

Meses após o primeiro single de Come Home The Kids Miss You, Jack postou uma prévia em estúdio do que seria seu próximo hit viral. O vídeo que mostrava o refrão da canção First Class viralizou imediatamente nas redes sociais, principalmente, pelo uso do sample de Glamorous da cantora Fergie.

Uma semana depois a música foi lançada e estreou no primeiro lugar da Billboard Hot 100, sendo essa a segunda vez do artista no topo e sua primeira com uma canção solo. Aproveitando o momento de sucesso, Harlow finalmente lançou seu segundo álbum de estúdio com participações de Pharrell Williams, Drake, Justin Timberlake e Lil Wayne.

O projeto recebeu críticas mistas e no site do Metacritic ganhou nota 52, não impressionando a Pitchfork que deu a baixíssima nota de 2.9 e atribuiu o álbum como uma das declarações mais insípidas e vazias da história pop recente.

Dá para notar que Jack Harlow tem hits, conquistou as paradas musicais e seu talento no rap é inegável. Mas nem todos esses elementos justificam sua ascensão à fama nos últimos dois anos. Jack ganhou muitos admiradores por seu carisma e confiança, que o fizeram ser considerado um dos rappers mais bonitos do momento.

Talvez a primeira vez que você tenha visto Harlow foi quando partes da entrevista do artista com a comediante Amelia Dimoldenberg ganharam as redes sociais. No vídeo que simula um encontro entre os dois, ele exibiu sua personalidade paqueradora, cheio de brincadeiras e gestos românticos.

O público foi à loucura com esse lado do artista e, frequentemente, Jack aparece em vídeos flertando e desconcertando mulheres famosas. No tapete vermelho do BET Awards em 2021, ele viralizou em um vídeo cumprimentado a  rapper Saweetie e no Met Gala deste ano em entrevista com a youtuber Emma Chamberlain aconteceu o mesmo.

E parece que o carisma do rapper vai o levar até as telas do cinema, já que Harlow foi confirmado no elenco do reboot do clássico de 1992, Homens Brancos Não Sabem “Enterrar”. Na sua primeira audição para o filme, o artista conseguiu impressionar os diretores e executivos o suficiente para interpretar um dos protagonistas, o personagem Billy Hoyle.

Fica evidente que Jack Harlow construiu seu caminho na indústria musical com muita constância e lançamentos frequentes. Quando finalmente algo chegou ao mainstream, o artista soube que era seu momento. Ele parece ter um plano claro de como vai levar a vida da fama, sempre unindo seu carisma com seu trabalho. Essa mistura o tornou uma figura sólida em dois anos e o cenário parece bem promissor para o futuro.

Sleeper Hits: conheça algumas músicas que demoraram para estourar

Às vezes na indústria musical, existe um fenômeno chamado Sleeper hits, que são as músicas que se tornam um sucesso depois de anos ou meses que foram lançadas. Com a internet e as redes sociais, uma canção pode viralizar e crescer de maneira orgânica nas paradas musicais, vencendo um lançamento fracassado ou pouco investimento por parte do artista.

No Tik Tok, ocasionalmente uma música antiga vira uma trend no aplicativo. Foi o que aconteceu com a faixa Heat Waves da banda britânica Glass Animals. Lançada em junho de 2020, como single do álbum Dreamland, a canção quebrou o recorde de crescimento na parada musical Billboard Hot 100, chegando ao topo do chart em 59 semanas. 

Heat Waves chegou ao número 1 da Billboard Hot 100 em março de 2022 e permaneceu no topo por 5 semanas, quase dois anos após seu lançamento, e muito se deve à viralização do refrão da música no TikTok em 2021. Na Billboard Global 200 atingiu o topo e se manteve por 6 semanas na posição.

Outro hit antigo inesperado da rede social foi Beggin, versão cover da banda italiana Måneskin. Originalmente a canção foi lançada pela banda americana The Four Seasons em 1967 e ao longo dos anos ganhou várias regravações e remixes. Quando estava concorrendo no X Factor Itália, a banda Måneskin apresentou um cover da famosa música, que mais tarde integrou o EP de estreia Chosen em 2017. 

Em 2021, a banda ganhou o Eurovision, competição musical europeia, e algumas de suas músicas começaram a aparecer nas paradas musicais depois de 4 anos de lançamento. No Tiktok, Beggin foi uma das canções virais e chegou a atingir o terceiro lugar na Billboard Global 200. Além disso, alcançou o topo do chart de rádios Alternativo e Rock da Billboard, e ficou na 13° posição na Billboard Hot 100, sendo esse o debut da banda no chart.

Talvez um dos casos mais interessantes de Sleeper hits dos últimos anos foi da canção Truth Hurts da cantora Lizzo. Lançada oficialmente em 2017, a música não fez muito sucesso e não alcançou nenhuma parada musical. Mas o single, depois de dois anos, acabou virando uma trend nas redes sociais chamado #DNATest, em que brincando com alguns versos da música, os usuários podiam adaptar a letra com o que se identificavam.

Para ajudar ainda mais na viralização, a faixa apareceu no trailer do filme Alguém Especial da Netflix e foi cantada por uma das personagens, em uma das melhores e mais compartilhadas cenas do longa. Com isso, a canção foi adicionada na versão deluxe do álbum Cuz I Love You de Lizzo, lançado no início de 2019.

Truth Hurts atingiu o topo da Billboard Hot 100 e permaneceu por 7 semanas no primeiro lugar da parada musical, sendo essa a primeira faixa da artista a ter esse feito. Mesmo tendo sido lançada em 2017, a música foi elegível para o Grammy Awards de 2020. Sendo indicada em três categorias, Música do Ano, Gravação do Ano e Melhor Performance Pop Solo. Truth Hurts levou o gramofone em Best Pop Solo Performance.

Além disso, a canção foi incluída em listas importantes, como as 500 melhores músicas de todos os tempos definidas pela revista Rolling Stones e músicas que definiram uma década pela Billboard.

Lizzo no Grammy 2020 com suas vitórias em Melhor Performance Pop Solo, Melhor Performance de R&B Tradicional e Melhor Álbum Contemporâneo Urbano. [Imagem: Reprodução/Getty Images]

Quem diria que um dos maiores sucessos do início da carreira de Lady Gaga também foi um Sleeper hit? Just Dance, com participação de Colby O’Donis, foi lançada em abril de 2008 como lead single do álbum de estreia da cantora, The Fame. Mas mesmo com boa recepção da crítica, a faixa só atingiu o primeiro lugar do chart Billboard Hot 100 em janeiro de 2009, 9 meses desde o lançamento e permanecendo por 3 semanas no topo. 

O single foi indicado ao Grammy de 2009 na categoria de Melhor Gravação Dance e o crescimento orgânico da música em 22 semanas na Billboard Hot 100, pode ser facilmente atribuído ao sucesso que Just Dance foi obtendo nos clubes e baladas americanas.

 Poker Face, também de Lady Gaga, fez caminho semelhante. Lançada em setembro de 2008 como segundo single do The Fame, a música não teve desempenho comercial relevante na época. Mas com o sucesso de Just Dance, a faixa começou a subir nas paradas musicais. 

Após 4 meses de seu lançamento, Poker Face atingiu o topo da Billboard Hot 100 e na época a cantora se tornou a primeira artista em 10 anos a conseguir colocar seus dois primeiros singles em primeiro lugar no chart. A música recebeu indicações no Grammy Awards de 2010 nas categorias de Gravação do Ano e Música do Ano, e ganhou Melhor Gravação Dance.

Outro caso de Sleeper hit que aconteceu na década passada foi Sail da banda americana Awolnation. Sendo lançada pela primeira vez em 2010 no EP de estreia, Back From Earth, e depois incluída no primeiro álbum do grupo, Megalithic Symphony, em 2011. A faixa entrou na Billboard Hot 100 em setembro do mesmo ano, na 89ª posição, e após 20 semanas no chart saiu da parada musical.

Depois de dois anos, a faixa entrou novamente na Billboard Hot 100alcançando a posição 17 e permaneceu por 79 semanas entre as 100 músicas mais ouvidas dos Estados Unidos. Sail se tornou a terceira canção com mais semanas na Billboard Hot 100, atrás somente de Blinding Lights do The Weeknd com 90 semanas, e Radioactive do Imagine Dragons com 87 semanas.

A razão desse fenômeno depois de muito tempo foi pelo uso da música em diferentes propagandas, vídeos pela internet e programas televisivos. A faixa apareceu no trailer da série Vikings da History Channel, na trilha sonora de um vídeo de wingsuit que viralizou em 2011 que hoje conta com mais de 30 milhões de visualizações, em diversos vídeos da rede social Vine, no comercial da BMW e em séries e filmes como Os Desconectados, Meu Eterno Talvez, Fleabag e The Walking Dead.

Outro destaque fica para a canção Habits (Stay High) da cantora sueca Tove Lo. Inicialmente, a música foi lançada independentemente pela artista em 2013 com o nome apenas de Habits, sendo esse o seu segundo single lançado sem o apoio de uma gravadora. Depois de Tove Lo assinar com a Universal Music, a faixa foi relançada em dezembro do mesmo ano servindo com o segundo single do EP, Truth Serum, e como o lead single de seu álbum de estreia, Queen of the Clouds.

A música entrou nas paradas musicais em 2014, um ano após o relançamento, e alcançou a terceira posição na Billboard Hot 100. Um remix da canção foi lançado na metade de 2014 e impulsionou o hit nas paradas, no Youtube a versão do duo Hippie Sabotage é a com mais visualizações.

É interessante perceber a longevidade que algumas dessas músicas apresentaram. Independente da época que foram lançadas, o seu sucesso não estava atrelado a alguma fase da indústria musical, pelo contrário, pode-se dizer até que estavam à frente de seu tempo. 

Atualmente, com as redes sociais, um grande fenômeno na música pode surgir sem grande investimento e divulgação. O crescimento orgânico através dos fãs e viralização espontânea de algum vídeo que utilize a canção na internet pode ser o suficiente para marcar um hit em ascensão. 

Para os cantores e os fãs de música, é uma boa notícia que nenhuma faixa ou single esteja destinado ao fracasso imediato, e que só depende de um pouco de tempo para a descoberta de tais artistas. 

[Crítica] ‘Versions of Me’ aposta em vários estilos musicais, mas acerta em poucos

O tão aguardado álbum de Anitta, Versions of Me, foi finalmente lançado na última terça-feira (12). O seu quinto projeto de estúdio é o primeiro lançamento com a gravadora internacional Warner Records.

Depois de 3 anos após seu último disco com orientações mais internacionais, o Kisses, a cantora volta com suas múltiplas facetas e diferentes estilos musicais como funk carioca, reggaeton, trap, pop rock, pagodão baiano e R&B.

O álbum trilíngue conta com 15 faixas e participações especiais de Chencho Corleone, Ty Dolla $ign, Afro B, Khalid, Saweetie, YG, Papatinho, MC Kevin o Chris, Mr. Catra, Myke Towers e Cardi B. A produção executiva do projeto é assinada por Ryan Tedder e Anitta. Já a mixagem ficou nas mãos de Jaycen Joshua e a masterização por Chris Gehringer, Colin Leonard e Dave Kutch.

Capa e Tracklist oficial de Versions of Me [Imagens: Reprodução/Instagram]

Versions Of Me já começa com o maior hit internacional da carreira da Anitta, Envolver. O quarto single que explora a sonoridade do reggaeton foi lançado em 11 de novembro de 2021 e viralizou alguns meses depois nas redes sociais pela coreografia do videoclipe, conhecido como o desafio “El paso de Anitta”. 

A canção se tornou a primeira entrada solo de uma artista latina na primeira posição do Spotify Global. Na parada musical da Billboard Global 200 alcançou o segundo lugar e se manteve no Top 10 pela terceira semana seguida. Já na Billboard Hot 100, Envolver superou o recorde de Me Gusta e conseguiu a 70ª posição.

Algumas semanas depois do feito histórico na parada musical do Spotify, alguns portais de notícias brasileiros postaram matérias com uma possível acusação de fraude para atingir o primeiro lugar global. A denúncia estava baseada no compartilhamento de uma conta oficial de fãs da cantora que ensinava como criar mais de uma conta na plataforma de streaming e elaborar playlists em que Envolver tocaria várias vezes ao longo de horas.

Apesar dessa ser uma tática para driblar as exigências do Spotify e maximizar os streamings dos fãs, ela acaba sendo comum no fandom de diversos artistas. Os termos da plataforma não diferenciam o que seria uma manipulação ou apenas fãs ouvindo a música inúmeras vezes para ajudar o ídolo.

Em reportagem divulgada no portal de notícias G1, fica claro que os brasileiros ajudaram a canção atingir o número 1, principalmente por serem a maioria das reproduções nos três dias que a música ficou no topo. Mas a canção chegou no Top 10 Global sendo mais ouvida fora do país e continuaria entre as 10 mais ouvidas até no dia que bateu recordes.

Passando para a segunda faixa do disco temos Gata, uma parceria com o cantor porto riquenho Chencho Corleone, muito conhecido no ritmo reggaeton. A música usa o sample de Guatauba do Plan B, duo em que Chencho participava com o cantor Maldy. Gata talvez seja a próxima aposta do álbum depois do sucesso de Envolver por ser um reggaeton animado, com referência a um sucesso de 2002 e pela sua virada no final para o funk brasileiro.

Ensaio de divulgação do novo álbum de Anitta [Imagens: Reprodução/Instagram]

Seguimos com I’d Rather Have Sex que mostra um lado da cantora muito conhecido por falar abertamente de sua liberdade sexual. A faixa é uma mistura sexy de música eletrônica com funk e tem como sample Boys & Girls de Will.i.am e Pia Mia.

A quarta música é Gimme Your Number, uma parceria entre Anitta e Ty Dolla $ign. A faixa usa o sample de La Bamba de Ritchie Valens, o primeiro grande hit nos Estados Unidos cantado totalmente em espanhol. Lançado em 1958, La Bamba atingiu o Top 30 nas paradas musicais americanas e foi considerada uma união de sucesso entre a música tradicional latina e o rock. Gimme Your Number brinca trazendo o trap e o hip-hop para uma das melodias mais reconhecidas internacionalmente e ainda coloca Ty Dolla $ign para arriscar em alguns versos em espanhol.

Maria Elegante com participação do britânico Afro B é a quinta faixa com seus ritmos latinos e a influência do afrobeat. Misturando inglês e espanhol, a música tem melodia cativante e é uma das essenciais do álbum.

Já em Love You, vemos uma Anitta mais apaixonada e reflexiva. A balada mais pop fala sobre como é difícil deixar alguém e com toda certeza você continuará amando aquela certa pessoa. Mas como a cantora coloca todas as suas versões em jogo, continuamos o álbum com Boys Don’t Cry que fala daqueles homens chorões que não largam o pé da cantora.

A música foi o quinto single, lançado em 27 de janeiro deste ano. Com videoclipe dirigido por Anitta e Christian Breslauer cheios de referências cinematográficas, como os filmes Beetlejuice, Harry Potter, Titanic, O Quinto Elemento e A Noiva em Fuga. A faixa se destaca por ser um pop-rock com os famosos teclados sintetizadores e como single ganhou apresentação no The Tonight Show Starring Jimmy Fallon e performance no Lollapalooza Brasil 2022 com a cantora Miley Cyrus.

A faixa-título Versions of Me conversa muito com a anterior pelo uso de sintetizadores, mas dessa vez com orientações mais eletrônicas e pop. A letra fala sobre as diferentes versões da cantora em um relacionamento, tema recorrente nas músicas anteriores. Talvez essa faixa seja outra que deverá ser single ainda esse ano, pois sumariza muito bem o conceito do álbum e é a favorita da crítica.

Turn It Up é a nona faixa do álbum, misturando inglês e espanhol, sendo um pop mais calmo com uma letra de romance. Já Ur Baby com o cantor Khalid, nas palavras da cantora, é uma música mais romântica e R&B para ouvir quando se está apaixonado e pensando em alguém. A canção usa no início um sample de A Garden of Peace de Lonnie Liston Smith.

Seguimos o disco com Girl From Rio, talvez uma das músicas que mudou a carreira de Anitta no último ano, já que passou a ser conhecida internacionalmente. Vale lembrar que esse era o nome anterior ao álbum, mas após o sucesso de Envolver a cantora não viu necessidade em maiores apresentações de sua versão brasileira.

Lançado como segundo single do álbum em 29 de abril de 2021, a faixa conta com o icônico sample de Garota de Ipanema de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. O videoclipe alterna entre duas versões do Rio de Janeiro, a primeira sendo a reprodução da Praia de Ipanema com toques vintage, e a segunda são cenas do Piscinão de Ramos com a sua família.

Girl From Rio alcançou a 164° posição na Billboard Global 200 e ganhou apresentações no The Today Show, Jimmy Kimmel Live!, no intervalo do VMA 2021 e Miley’s New Year’s Eve Party.

Cenas das apresentações de Girl From Rio no VMA 2021 e Jimmy Kimmel Live! [Imagens: Reprodução]

Faking Love é o terceiro single de Versions of Me, lançado em 14 de outubro de 2021, com a participação da rapper americana Saweetie. O melody funk em inglês ganhou um videoclipe, coreografia e a primeira apresentação da artista no  The Late Late Show with James Corden

Que Rabão conta com a participação de YG, Kevin O Chris, produção do Papatinho e os vocais de Mr. Catra. Essa é a única faixa em português do álbum e carrega um significado muito especial. Com intenção de homenagear o funkeiro, a cantora decidiu doar sua parte dos lucros da canção para a família de Catra, que faleceu em 2018 por decorrência de um câncer.

A penúltima música do disco é Me Gusta, lançada como o primeiro single em 18 de setembro de 2020. A canção é uma parceria com a rapper americana Cardi B e do porto-riquenho Myke Towers. Misturando funk, pagodão baiano e pop latino, a faixa estreou na 91ª posição da Billboard Hot 100, sendo essa a primeira entrada de Anitta na parada musical. Na Billboard Global 200, atingiu o pico na posição 37 e se manteve no chart por 6 semanas. O videoclipe foi filmado em alguns lugares históricos de Salvador, na Bahia, e dirigido por Daniel Russel.

Love Me, Love Me foi a escolhida para encerrar o Versions of Me, o pop e R&B em inglês tem a melodia bem lenta e calma, explorando a temática do amor e relacionamentos novamente.

Nas primeiras 12 horas após o lançamento, o disco alcançou o Top 40 do Itunes nos Estados Unidos e apareceu no Top 10 em dez países, como Brasil, Portugal, Polônia, Peru, México e Nova Zelândia.

 No site Album of The Year, que reúne críticas especializadas, Versions of Me aparece com a nota 80, mas a nota é baseada em apenas duas resenhas do álbum. O site NME atribui 4 de 5 estrelas ao disco, apontando que é um projeto extremamente ambicioso que mistura power-pop, reggaeton e muito mais. Já a Rolling Stones cita o álbum como uma experiência global perfeita para uma pista de dança incansável.

O baixo número de críticas ao projeto aconteceu também com seu antecessor, Kisses. No site Album of The Year, o disco de 2019 ganhou nota 70 baseada em suas resenhas. Para Versions of Me entrar em sites como Metacritic e Pitchfork será necessário mais avaliações nas semanas seguintes.

Parte do ensaio que mostra as diferentes versões da cantora [Imagens: Reprodução/Instagram]

Em geral, o novo álbum de Anitta tenta nos mostrar várias versões da cantora, mas nada soa tão natural como a artista em ritmos latinos e bem brasileiros. Sua voz e personalidade se encaixam muito bem no espanhol e a prova disso é seu sucesso com a faixa Envolver. Gata, Maria Elegante e Me Gusta são outros exemplos de como a cantora se sente confortável no ritmo mais dançante.

Em contraponto, temos as faixas Boys Don’t Cry e Versions of Me. A duplinha do Synth-Pop são duas músicas incríveis e mostram realmente um lado novo da artista, mas não se encaixam nem um pouco com o resto do álbum. Elas existem em seu próprio mundo e talvez gostaríamos de ver Anitta no futuro explorando mais esse lado.

Love You, Turn it Up e Love Me, Love Me são as famosas faixas filler, que são totalmente dispensáveis e soam até parecidas por abordar sempre o mesmo tema de relacionamentos. As músicas mais pop-americano parecem muito pequenas e monótonas para a personalidade que conhecemos de Anitta

Que Rabão, a única faixa em português, é um presente aos brasileiros mas não faz sentido no projeto. Fica claro que a música foi produzida anos atrás para um álbum anterior e depois de tanto tempo ela soa datada e confusa. Provavelmente só permaneceu na tracklist pelas promessas aos fãs brasileiros e a homenagem ao funkeiro falecido.

As parcerias com Ty Dolla $ign e Khalid apresentam boa química com artistas nas faixas, mas foram mais empolgantes na expectativa do que no resultado. O sample de La Bamba tinha tudo para ser um dos mais interessantes, mas o hip-hop genérico definitivamente prejudica a música.

Apesar disso, é inegável reconhecer que algumas faixas têm grande potencial comercial e de viralização. Até porque as redes sociais movimentam muito o consumo da indústria musical e pautam como serão os novos projetos. Nesse ponto, talvez a cantora esteja certa em explorar ao máximo sua habilidade trilíngue e passear nos mais diferentes estilos. Mas para os fãs e crítica, a falta de coesão e conceito claro em quem é Anitta como artista, pode sim prejudicar seu desempenho no futuro.

Pushin P: entenda a gíria que ganhou as redes sociais

Você já deve ter visto em algum lugar o emoji azul 🅿️ na sua timeline, seja na legenda de um post do Instagram ou até no Twitter. Desde o lançamento do álbum DS4Ever, com o título alternativo de Drip Season 4Ever, o rapper Gunna vem tentando popularizar o termo “pushin P”. O significado é simples, ou a atitude é considerada “P” ou não é, o que significa que o termo é positivo. Se você está fazendo algo legal e bom, definitivamente está “pushin P” e se está sendo ruim e idiota, certamente não está sendo “P”.

Tradução: “Arriscar sua vida para alimentar sua família é 🅿️”
Tradução: “Ser leal é definitivamente 🅿️”

A explicação do termo parece complicada, por isso Gunna ficou semanas antes do lançamento do álbum colocando a frase em contexto nas suas redes sociais. O motivo é que Pushin P, também é o título de um dos singles do disco, sendo uma colaboração do rapper com Future e Young Thug. Apesar do artista ter popularizado o termo, há alegações de que ele já era usado em algumas partes do Sul dos Estados Unidos, como no estado do Texas.

O single alcançou o 7º lugar na Billboard Hot 100 e ficou quatro semanas consecutivas no top 10, se tornando a primeira entrada de Gunna na parada musical com uma música de estreia. No Top 10 dos Estados Unidos no Spotify, a faixa alcançou o segundo lugar e se manteve 8 semanas entre as músicas mais tocadas do país.

O videoclipe de Pushin P é também um grande exemplo de situações e atitudes que seriam consideradas “P”, contando com ambientes cercados de luxo e boates que encaixam nos versos do single.

Já o álbum DS4Ever, o quarto e último da série Drip Season de Gunna, alcançou o topo da Billboard 200, superando até The Weeknd e seu tão esperado projeto Dawn FM. Com 20 faixas, o projeto conta com uma lista de colaborações que incluem Drake, 21 Savage, Kodak Black, Lil Baby, Future, G Herbo, Nechie, Chris Brown, Young Thug, Roddy Rich, Yung Bleu e Chlöe.

No site de avaliações Metacritic, o álbum ganhou nota 51 e não impressionou os críticos. Mas a parceria com outros artistas e a popularização nas redes sociais de pushin p, foi o necessário para conseguir a Gunna o topo das paradas de álbuns na Billboard pela segunda vez consecutiva.

Capa do álbum DS4Ever, lançado em 7 de janeiro deste ano. [Imagem: Divulgação/Spotify]

A divulgação não parou depois do lançamento do álbum, o emoji azul com a letra “p” foi parar até no merchandising do rapper. Na loja oficial de Gunna é possível adquirir um boné da New Era por 55 dólares (R$ 278) e um casaco bordado com o símbolo por 88 dólares (R$ 445).

Até um teaser de um livro infantil com o tema de Pushin P o rapper mostrou pelos stories do Instagram. Com o nome 6 Things I do to be Pushing P, a promessa do projeto é mostrar 6 passos para as crianças atingirem o status considerado “P”. Criado por Brian “Bwrightous” Wright e ilustrado por Lavan Wright, a publicação tem promessa de ser lançada ainda esse ano.

Se engana quem pensa que não houve polêmica com a frase, infelizmente, o rapper acabou se envolvendo em um escândalo de fraude em uma criptomoeda. Em um tweet já apagado, Gunna teria divulgado uma moeda digital com o nome pushinpeth, inspirada no fenômeno Pushin P. Mas os fãs que se arriscaram no projeto se depararam com algo parecido a um golpe conhecido como “puxão de tapete”.

O que aconteceu foi que o valor da criptomoeda em poucas horas de lançamento caiu drasticamente a zero e os investidores acabaram perdendo muito dinheiro. Logo após o escândalo, o artista se pronunciou no Twitter novamente alegando que teve a conta hackeada e não estava envolvido em nenhum tipo de fraude. Apesar disso, o site da moeda Pushin Peth continua no ar e referencia o movimento pushin p e o rapper Gunna.

Tradução: “Aos meus seguidores e fãs! Eu não sabia nada sobre esse golpe “pushin peth”. Alguém hackeou meu Twitter e eu imediatamente apaguei o tweet! Eu nunca assinaria qualquer fraude ou golpes em particular ou publicamente! E eu sinto muito para qualquer um que foi enganado!”

Com insistência do artista nas redes sociais sobre o tema, a gíria “pushin 🅿️” acabou conquistando marcas famosas e até celebridades. A Nike e a IHOP, marca de restaurantes de panquecas, foram algumas das empresas que usaram o Twitter para se juntar à trend com o emoji em um trocadilho com as palavras que iniciam com a letra p. A Plataforma de streaming, Tidal, foi além e até mudou o nome e a capa do perfil do twitter, com uma imagem do logo da empresa, literalmente, empurrando a letra p.

Tradução: “Nós sempre estamos impulsionando 🅿️anquecas”
Tradução: “Nós tivemos uma reunião interna, e sem entrar em detalhes, nós estaremos impulsionado 🅿️ o ano todo.”
Mudança feita no Twitter oficial do Tidal.
[Imagem: Twitter/YoungStonerLife]

Para consolidar uma tendência na internet, é preciso que ela passe pelo menos por uma das Kardashians. Por sorte, Gunna pode ver Kim Kardashian adotando ao “pushin p” em uma de suas fotos de viagem na praia. Entrar na trend é fácil, a maioria das celebridades sutilmente soma o emoji azul a qualquer palavra iniciada com p. O rapper enfatiza o uso de palavras positivas, mas há aqueles que utilizam com qualquer termo para o trocadilho.

Oscar 2022: conheça os indicados a ‘Melhor Canção Original’

A 94ª cerimônia do Oscar, que acontecerá no dia 27 de março, anunciou há duas semanas os indicados de suas categorias. Depois de uma pré-lista cheia de promessas e apostas no mundo da música, finalmente é possível conhecer os nomeados para Melhor Canção Original.

O destaque da lista vai para a música No Time to Die de Billie Eilish e seu irmão, Finneas O’Connell, para o filme 007: Sem Tempo para Morrer. A faixa ganhou ano passado o Grammy de Melhor Música Escrita para Mídia Visual e garantiu também o Globo de Ouro em Melhor Canção Original. A canção favorita para o prêmio debutou em 16º lugar na Billboard Hot 100 e fez história ao alcançar o topo da parada musical britânica de singles

É interessante destacar que se caso Billie e Finneas ganhem o prêmio, será a terceira vez que uma música tema da franquia de James Bond leva uma estatueta na premiação. Em 2012, Skyfall de Adele ganhou a categoria e Sam Smith venceu com Writing ‘s On The Wall em 2015.

Outra indicação importante foi a música Be Alive de Beyoncé e DIXSON para o filme King Richard: Criando Campeãs. Essa foi a primeira nomeação dos artistas ao Oscar e se tornou histórica, pois após 25 anos de carreira, a artista foi indicada à premiação.

A canção é tocada nos créditos finais e a inspiração para a produção da faixa veio após Beyoncé assistir a uma exibição prévia do longa. Will Smith, protagonista da cinebiografia, contou à revista Entertainment Weekly que a cantora quis contribuir com uma música para o filme, pois a história das irmãs tenistas, Venus e Serena Williams, a inspirou por se assemelhar muito ao desenvolvimento da carreira da artista.

King Richard: Criando Campeãs conta a história de Richard Williams, pai e treinador de Venus e Serena Williams. [Imagem: Divulgação/Veja]

A terceira nomeação da categoria foi Dos Oruguitas escrita por Lin-Manuel Miranda e cantada por Sebastian Yatra para a animação Encanto. Miranda já foi indicado na categoria em 2017 por How Far I’ll Go do filme Moana e colaborou em algumas outras produções musicais dos estúdios Disney. A faixa de Encanto foi a primeira música totalmente escrita em espanhol pelo artista e conseguiu chegar a 36ª posição na Billboard Hot 100, sendo também a primeira entrada do cantor colombiano Sebastian Yatra na parada musical. 

O mais curioso da indicação de Dos Oruguitas é que, outra música da trilha sonora de Encanto acabou se tornando o maior sucesso de uma animação da The Walt Disney Company e não foi submetida a premiação. We Don’t Talk About Bruno, escrita também por Lin-Manuel Miranda e cantada pelo elenco do longa, alcançou o topo das paradas musicais da Billboard Hot 100 e Global 200, se mantendo estável há quatro semanas. 

O álbum da trilha sonora do filme está no Top 10 de álbuns globais no Spotify desde dezembro do ano passado e chegou ao primeiro lugar ainda em janeiro, se mantendo quatro semanas no topo. Já We Don’t Talk About Bruno aparece há cinco semanas no Top 10 de músicas globais da plataforma, alcançando a 8ª posição.

Lin-Manuel Miranda explicou à revista Rolling Stones o motivo da música não ter aparecido na premiação, e segundo o artista, ninguém da equipe podia prever que a trilha sonora seria tão popular e que We Don’t Talk About Bruno fosse a música de maior destaque da animação.

Além disso, Miranda afirmou que normalmente são enviados para a consideração do Oscar a canção que melhor exemplifica o espírito do filme e Dos Oruguitas apresenta a história principal do longa. Outra explicação plausível, é que todos os pré-indicados precisam ser enviados até 1º de novembro e na época a música sobre o personagem Bruno ainda não tinha virado um hit global.  

We Don’t Talk About Bruno se tornou a música da Disney com mais semanas no topo da Hot 100. [Imagem: Divulgação/Billboard]

A quarta nomeação de Melhor Canção Original ficou para Somehow You Dode Diane Warren para o filme Quatro Dias Com Ela. A música cantada por Reba McEntire, é a 13ª indicação da compositora e produtora Warren. Infelizmente, a artista nunca ganhou a categoria, mesmo estando presente em 5 edições seguidas nos últimos anos. 

A última indicação, e a mais polêmica, é Down to Joy de Van Morrison para o filme Belfast. Baseada em uma demo da música não lançada, Coming Down to Joy,a versão da trilha sonora do longa não pode ser encontrada em nenhuma plataforma de streaming. Isso porque, Morrison se mostrou contra o lockdown durante a pandemia do Covid-19 e até lançou músicas pedindo o fim da medida sanitária. A promoção da contribuição do artista na obra cinematográfica foi bem menor, exatamente por medo das polêmicas do cantor.

Cena do filme Belfast, que será lançado em março nos cinemas brasileiros. [Imagem: Divulgação/Folha de S.Paulo]

Como toda boa premiação, nem todos os favoritos do público e da crítica acabam sendo indicados. As três faixas consideradas esnobadas desta edição são Guns Go Bang de Kid Cudi e Jay Z para o filme Vingança & Castigo, Here I Am (Singing My Way Home) de Jennifer Hudson para a cinebiografia Respect: A História de Aretha Franklin e Just Look Up de Ariana Grande e Kid Cudi para o longa Não Olhe Para Cima

Apesar de terem sido indicadas em algumas outras premiações que servem de termômetro para o Oscar, as músicas acabaram não sendo lembradas pela a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas e só contribuíram para a divulgação dos respectivos filmes.

Artistas norte-americanos e o foco em projetos latinos

Não é novidade que o mercado de música latino vem crescendo nos últimos anos e vários artistas ascenderam para o topo das paradas musicais. Em 2019, de acordo com a revista Rolling Stones, a receita da música latina chegou a superar a indústria global de música dos Estados Unidos. 

Esse aumento é motivado principalmente pelo streaming, a maior aceitação de artistas latinos no mainstream e o crossover do mercado norte-americano com o da América Latina. Um exemplo disso, é a música Despacito lançada em 2017. O remix da faixa dos porto-riquenhos Luis Fonsi e Daddy Yankee com o artista canadense Justin Bieber possibilitou um sucesso ainda maior da música e assim quebrou recordes, ficando 16 semanas no topo da Hot 100 da Billboard naquele ano.

Nesse cenário, a América Latina se torna um mercado muito atraente para ser explorado e alguns cantores norte-americanos que tem raízes nesse espaço aproveitam o momento para lançar projetos em espanhol. Um exemplo disso, é o caso da cantora estadunidense Selena Gomez, que possui ascendência mexicana.

Em março de 2021, a artista lançou o seu primeiro EP em língua espanhola chamado Revelacíon. Com 7 faixas, o projeto conta com colaborações de Rauw Alejandro, Myke Towers e DJ Snake. A obra recebeu nota 83 no Metacritic – site americano que reúne críticas – e se tornou o álbum musical melhor avaliado da cantora. Quatro faixas do projeto entraram nas paradas da Billboard Hot Latin Songs, incluindo os três singles de divulgação De Una Vez, Baila Conmigo e Selfish Love.

Capa do EP Revelacíon de Selena Gomez lançado em 12 de maio de 2021.
[Imagem: Amazon/Divulgação]

Sendo bem recebido pela crítica, Revelación garantiu a Selena Gomez sua primeira indicação ao Grammy Awards 2022 na categoria de Melhor Álbum Pop Latino e o videoclipe De Una Vez foi também sua primeira indicação no Grammy Latino 2021 na categoria de Melhor Vídeo Musical Curto.

Já no ano de 2000, Christina Aguilera surpreendeu lançando como seu segundo álbum, um projeto também totalmente em espanhol. Chamado de Mi Reflejo, o disco em homenagem a cultura do seu pai equatoriano, inclui cinco regravações do seu primeiro álbum, Christina Aguilera, e seis canções inéditas. 

O projeto estreou no topo da Billboard Top Latin Album, permanecendo 19 semanas na liderança da parada musical e foi certificado 6 vezes platina nos EUA pela Associação Americana da Indústria de Gravação, vendendo mais de 360 mil unidades. A recepção da crítica teve avaliações mistas, no Metacritic o álbum só alcançou nota 56 e teve como singles principais Ven Conmigo (Solamente Tú), Pero Me Acuerdo de Ti e Falsas Esperanzas

Apesar das críticas, o disco de Aguilera ganhou três indicações ao Grammy Latino de 2001 nas categorias de Gravação do Ano por Pero Me Acuerdo de Ti, Melhor Performance Pop Vocal por Genio Atrapado e Melhor Álbum Vocal Pop Feminino, sendo vencedora nesta última categoria. No 43ª Grammy Awards, Mi Reflejo também teve uma indicação como Melhor Álbum Pop Latino, mas infelizmente não levou o prêmio para casa.

Capa do álbum Mi Reflejo de Christina Aguilera lançado em 12 de Setembro de 2000. [Imagem: Amazon/Divulgação]

Vinte dois anos após o primeiro lançamento de Christina Aguilera se aventurando na língua espanhola, a artista liberou em janeiro desse ano o EP La Fuerza. Com 6 faixas e participações de Becky G, Nicki Nicole, Nathy Peluso e Ozuna, o projeto é a primeira de três partes que vão constituir o nono álbum da cantora e seu segundo totalmente em espanhol. O primeiro single da nova era, Pa Mis Muchachas, foi uma colaboração feminina que celebra o poder da mulher, inclusive o título do EP faz referência ao poder feminino da mulher latina.

Os dois últimos singles foram Somos Nada e Santo, em parceria com o porto-riquenho Ozuna, grande nome no cenário do reggaeton. O EP fez sua estréia no segundo lugar da parada latina da Billboard Latin Pop Albums e foi aclamado pela revista Rolling Stones destacando o esforço na versatilidade das músicas e os grandes vocais de Aguilera. 

Cenas do videoclipe de Santo, parceria com Ozuna.
[Imagem: Youtube/ Divulgação]

A maior crítica do público em relação a projetos para o mercado latino desenvolvidos por artistas norte-americanos, é a questão de não serem considerados “latinos o suficiente” por algumas pessoas, já que assim como Selena Gomez, Christina Aguilera não fala fluentemente espanhol. Inclusive Gomez teve que contratar um treinador de idiomas para a produção do EP, para que assim pudesse aprender vocabulário e melhorar o sotaque. 

A preocupação surge de uma possível exploração da cultura latina e também da diferença de tratamento de artistas que dedicam inteiramente seu trabalho a América Latina e são ignorados pelas premiações e público, para aqueles que são americanos e só estão se aventurando em um novo mercado.

Apesar disso, muitos cantores continuam se arriscando no idioma, nem que seja apenas com colaborações ou regravações de hits para alcançar o mercado mais desejado da indústria musical. The Weekend, por exemplo, colaborou recentemente com Maluma no remix da faixa Hawái e com Rosalía em La Fama. E por incrível que pareça, até a Beyoncé já lançou em 2007 um EP de regravações em espanhol do seu segundo álbum B’Day

Assim, a tendência é que nos próximos anos essa mistura no pop americano-latino seja ainda mais frequente, principalmente, na era dos streamings que são o maior crescimento do setor na música latina.

Avanço da variante Ômicron altera o calendário de premiações

Nos Estados Unidos, uma nova onda de casos da Covid-19 parece ameaçar a estabilidade das premiações e tapetes vermelhos que estavam previstos para acontecer no início deste ano. Em uma tentativa de frear a contaminação, alguns dos eventos marcados precisaram ser adiados ou até cancelados. 

Uma das maiores premiações musicais do mundo, o Grammy Awards, foi um desses eventos. A cerimônia que estava prevista para o dia 31 de janeiro foi adiada para 3 de abril em um novo local em Las Vegas. “O 64º #GRAMMYs foi remarcado e agora será transmitido ao vivo a partir do @MGMGrand Garden Arena em Las Vegas no domingo, 3 de abril no canal @CBS! ✨🎶”.

Originalmente tweetado pela Recording Academy/GRAMMYs (@RecordingAcad) em janeiro 18, 2022.

Essa mudança no calendário das premiações é um reflexo do avanço da nova variante ômicron que vem batendo recorde de novos casos e aumentando o número de óbitos ao redor do mundo. A nova mutação do coronavírus foi descoberta na África do Sul, com seu primeiro caso confirmado em 9 de novembro de 2021. Atualmente, por seu alto poder de contágio, a variante já está presente em todos os continentes e levantou preocupação em vários países.

Em 3 de janeiro, os Estados Unidos registrou mais de um milhão de casos diários de Covid-19 pela primeira vez, quase o dobro das infecções relatadas uma semana antes. Seja pela flexibilização de medidas sanitárias ou as festas de fim de ano, os números de casos no país aumentaram drasticamente.

Segundo dados da agência de notícias Reuters, os EUA estão relatando 696.541 novas infecções em média por dia e lideram o número médio diário de novas mortes, sendo responsável por uma em cada 4 óbitos por Covid-19 em todo o mundo a cada dia. Desses novos casos, a variante ômicron já representa quase todas as infecções no território dos Estados Unidos.

Gráfico de casos e mortes diárias nos Estados Unidos no mês de janeiro.
[Imagem: Reuters]

Apesar disso, de acordo com dados do Our World in Data, a vacinação no país já alcançou 63,6% de pessoas vacinadas, com 535 mil doses aplicadas e 210 mil pessoas com esquema vacinal completo. A diminuição do intervalo da dose de reforço foi uma estratégia dos Estados Unidos para diminuir o surto de casos, e nessa semana, o número de infecções teve uma diminuição positiva

Este é um cenário que parece ser mais favorável e ideal para a realização de premiações e eventos nos próximos meses, mas é indispensável pensar na utilização de medidas contra a Covid-19.

No ano de 2021, a cerimônia do Grammy, que também teve a data adiada para março, aconteceu de maneira diferente: foi realizada no Centro de Convenções de Los Angeles, utilizando o espaço interior e exterior, com quatro palcos diferentes. Pela primeira vez na premiação, não havia público, algumas aparições foram virtuais e as performances foram divididas em ao vivo e pré gravadas. Com equipe reduzida, todos os artistas e seus convidados foram testados e seguiram a recomendação de utilizar a máscara na maior parte do evento.

Já na edição latina do Grammy, que aconteceu em Las Vegas, o cenário da pandemia era de maior normalidade. Assim, a cerimônia foi realizada sem muitas limitações e com duas únicas exigências: o comprovante de vacinação e o teste negativo do Covid-19. O uso da máscara ainda era obrigatório no backstage, mas os artistas tiveram liberdade em suas apresentações ao vivo.

Outras duas grandes premiações da música: o MTV Video Music Awards e o American Music Awards, realizadas no final de 2021, ocorreram de forma semelhante. Nas arenas havia o público normal, comprovante de vacinação e o uso de máscara ainda eram uma obrigatoriedade, mas os artistas e outras celebridades não tinham necessidade rigorosa em estar de máscara nas áreas do evento. Mesmo com uma maior liberdade, ainda houveram artistas que não se sentiram confortáveis em comparecer às premiações. Um dos casos, foi o da cantora neozelandesa Lorde, que desistiu da sua apresentação no VMAs pois as restrições contra o covid não permitiriam a performance idealizada por ela.

No calendário de premiações do primeiro trimestre deste ano, houveram algumas mudanças além do Grammy. O Globo de Ouro, que escolhe os melhores profissionais do cinema e televisão, não teve público, tapete vermelho e nem transmissão ao vivo. Os vencedores das categorias eram anunciados no site oficial do evento. Já o Critics Choice Awards, que reconhece as melhores realizações cinematográficas, teve sua data adiada de 09 de janeiro para o dia 13 de março. O Oscar fez uma decisão parecida, adiando a cerimônia honorária em homenagem a carreira de artistas para outra data ainda não definida.

A instabilidade da pandemia ainda requer adaptações do calendário de eventos, principalmente porque os organizadores esperam fazer um evento incrível e com poucas limitações sem deixar de prezar pela saúde e segurança dos envolvidos. A previsão é que o Grammy e outras premiações adiadas aconteçam de maneira parecida com as do final do ano passado, já que a aplicação da dose de reforço da vacina tem diminuído o número de casos.