Artificialmente natural

Quando o assunto é maquiagem, é quase impossível evitar a viagem nostálgica que leva as pessoas de volta às tendências do passado. Seja o visual pin-up dos anos 1950, marcado pelo delineado “gatinho” e batom vermelho, ou talvez as sobrancelhas finas, sombras cintilantes e lábios glossy dos anos 2000 (que, inclusive, é a nova febre, que surge em uma estética denominada de Y2k); uma rápida olhada para trás nos permite ver o quanto as ideias de “belo” mudaram com o passar do tempo.

Imagem: Reprodução Pinterest

Nesse sentido, ao observar a transição de ideais da última década (2010 – 2020) encontra-se uma mudança curiosa e quase extrema. Durante o início da década de 2010, o côncavo marcado, o blush bem rosado e o famoso batom snob (aquele rosa quase branco), eram o verdadeiro sucesso; pouco depois, por volta de 2014, surgiu a técnica cut-crease, que por meio de uma mistura de cores, criava uma produção carregada e marcante. Já em 2016, uma nova estética se tornou o desejo da vez e se estendeu até o fim da década: o famoso visual “Kardashian”. Nele, a festa de cores foi substituída por tons neutros e a marcação que antes acontecia nos olhos, foi transferida para a pele (que passou a ser carregada por meio do uso de base, corretivo, pó, contorno, blush e iluminador) e para os lábios, que passaram a ser contornados para criar uma verdadeira ilusão de ótica e simular um aumento de volume.

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No entanto, com a virada da década parece que também houve uma virada no padrão: surgiu a “make beauty” (maquiagem embelezadora, em tradução do inglês), que tem por base o contrário de tudo o que foi visto até então. Ela usa sim elementos artificiais, mas tudo com o intuito de criar imagens naturais. De acordo com Sabrina Ataide, maquiadora e especialista em maquiagem beauty, o conceito dessa nova “linha” é definido como sendo um conjunto de técnicas e estilo de maquiagem que evidenciam a beleza natural, respeitando os traços e a individualidade de cada um, “É embelezar sem transformar!”.

A expert ainda aponta que as demandas por esse tipo específico de produção mais leve e natural se deu de forma mais intensa nos últimos anos como reflexo dos tempos de pandemia “Acredito que a maquiagem é arte, e todo movimento artístico acompanha o comportamento social e de consumo. Nesses últimos anos, como reflexos de tempos de Covid-19, as pessoas têm se preocupado cada vez mais com sua saúde e bem-estar, o que as levou a se atentar mais às compras de beleza”. Dessa forma, em um cenário anteriormente dominado por grandes mudanças e um contexto em que quem conseguisse transformar mais era considerado o mais competente, Sabrina ressalta que essa mudança de preferências pode ter se dado pelos novos hábitos adquiridos. De acordo com ela, o uso de máscaras, por exemplo, contribuiu com o destaque dado aos olhos com o uso de técnicas como delineado “gatinho, holográfico e smokey eyes coloridos; além disso, a pele fresh se tornou preferência, justamente por ser mais leve e natural, o que vai totalmente “contra” o estilo Kardashian de maquiagem, que usava – e muito – de técnicas de contorno facial.

Se tratando dos motivos que podem ter levado o público à busca pela “leveza”, é inevitável pensar nisso como uma das repercussões das circunstâncias criadas pela pandemia. Os dias incertos serviram, para muitos, como um momento de reflexão e de (re)conexão consigo mesmos e com suas formas, belezas e traços naturais. As pessoas aprenderam a se enxergar novamente como são, sem o peso de se sentirem pressionadas a alterar quem são para se exporem ao mundo, e passaram a admirar isso também.

Assumir a desnecessidade de transformação funcionou como um escape, uma forma de liberdade em um período de restrições. Mesmo que a maquiagem embelezadora continue sendo um jeito de manipular a aparência, isso acontece de maneira mínima, justamente com a intenção que o próprio nome já carrega: apenas ressaltar o que já é belo. Para a maquiadora Sabrina, o porquê da afeição atual por esse tipo de visual se baseia no desejo de ter uma imagem saudável e que expresse a valorização do autocuidado: “O visual ‘limpo’ corresponde ao movimento de conscientização de autocuidado pós-pandemia, ou seja, as tendências de maquiagem se direcionaram a presentar um ‘ar saudável’ e bem cuidado. Então, hoje em dia, ter uma pele viçosa e com acabamentos mais naturais, que conferem um ar de saúde e elegância, transmite a mensagem de ‘estou em dia com meu autocuidado’”.

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Entretanto, ainda nos encontramos em um mundo extremamente globalizado, que cria tendências que se espalham tão rapidamente quanto um piscar de olhos, por isso não se pode descartar a possibilidade de que a busca por transformação retorne. Basta uma ligeira olhada para o crescimento da estética Y2K para sentir que há novos desejos à vista. Nessa lógica, Sabrina destaca que acredita que tudo é possível: “Quando eu penso em comportamento social, moda e estilo, acho que tudo é possível. Os comportamentos sociais são sempre cíclicos, então acredito que possam voltar sim, porém, de uma forma repaginada, até porque o marco deixado pela pandemia é irreversível.

Para mais, ela afirma que a nova tendência à naturalidade levou as pessoas a se interessarem pela composição e nocividade de alguns ingredientes utilizados na indústria de beleza, no entanto, se as marcas se mantiverem transparentes em relação à produção, uma nova mudança não seria um grande problema e finaliza: “Confesso que até gosto da ideia de mudar e inovar, afinal de contas, maquiagem é arte e expressão do indivíduo; não dá pra colocar em uma caixinha”.

Por fim, até mesmo a beleza e as maneiras de implementá-la representam momentos e movimentos da história, sendo a crescente valorização da make beauty um deles, pois como já foi mencionado, esse novo conceito tem relação com a busca por uma aparência naturalmente saudável que surgiu como reflexo da pandemia enfrentada recentemente. Dessa forma, seja mais intensamente, com a intenção de criar uma máscara e transformar o exterior, seja para apenas ressaltar a beleza inata de cada um, o uso de elementos artificiais, como a maquiagem, não deixa de ser uma ferramenta útil para traduzir o espírito do tempo vivido, sendo o atual o da exaltação do – artificialmente – natural.

O autocuidado em diferentes culturas

Os ideais de beleza ao redor do globo podem mudar, mas além de “o que” é considerado belo, a forma de atingir esse ideal também pode variar. Sejam os produtos utilizados, a ordem de aplicação deles ou a maneira de conduzir os rituais de skincare, quando o assunto diz respeito aos hábitos de beleza adotados em diferentes culturas, uma coisa é unânime: a diferença.

É claro que os hábitos têm a intenção de desenvolver ou preservar características que se encaixem nos padrões de beleza de cada sociedade, mas existem alguns que ultrapassam as barreiras culturais e se tornam verdadeiros fenômenos reproduzidos em todo o mundo. Podemos citar o caso da rotina de skincare de alguns países do continente asiático, como da Coreia do Sul e do Japão, chamadas de K-beauty (de “korean beauty”) e J-beauty (“japanese beauty”), respectivamente. O ideal desses países envolve peles quase imaculadas e muito bem cuidadas, que remetem à inocência e à elegância prezadas nessas regiões, por isso, os cuidados adotados por lá se tornaram uma febre internacional. 

No continente asiático, como já citado, a K-beauty faz referência à rotina de skincare adotada na Coreia do Sul. A mais famosa rotina que rodeou o mundo é composta por uma série de etapas que giram em torno de 10 passos. Começando pela dupla limpeza (que envolve a remoção das impurezas acumuladas ao longo do dia com óleo e com uma espuma de limpeza, respectivamente), passando pela técnica de camadas, chamada de layering, em que ocorre a aplicação de uma série de produtos como uma loção (que equivale ao que conhecemos como tônico), uma essência (um concentrado de ativos que trata a pele de acordo com a necessidade, seja ela hidratação, nutrição, clareamento, etc.) e, por fim, uma emulsão, que tem a função de hidratar e é tido como um “creme finalizador”. E ainda é importante mencionar que as áreas mais sensíveis, como a região dos olhos, recebem um cuidado especial, a fim de evitar olheiras, “bolsas” e rugas. Todas essas etapas contribuem para uma pele sempre impecável, iluminada e com aparência saudável.

Já na Europa, os cuidados existem, porém de forma mais simplificada e prática. A intenção da mulher europeia não é aparentar ser mais jovem do que é, mas sim ser a melhor versão de como se está. Uma pele sem manchas, bem hidratada e cuidada é mais do que bem-vinda, mas não sem expressões. Em entrevista concedida à Harper’s Bazaar e publicada no site da revista, a médica dermatologista Cinthia Sarkis, que viveu na Espanha por mais de uma década, afirmou que esse resultado de beleza europeia é atingido por meio de uma rotina baseada na filosofia já conhecida do “menos é mais”: “algumas visitas ao médico, uso adequado de fotoprotetor, tratamentos feitos esporadicamente em consultório e uso comedido dos cosméticos adequados”. Simples assim. Além disso, como já mencionado na matéria sobre os padrões de beleza em cada cultura, a beleza europeia tem por base a discrição, a valorização da casualidade, por isso é compreensível que os hábitos de beleza adotados por lá sigam a mesma linha.

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Quando as rotinas americanas são colocadas em questão, a influência estrangeira é notável nos hábitos relacionados à beauté. Ao mesmo tempo em que há uma grande disponibilidade de produtos para que se construa uma rotina tão complexa quanto a asiática, é possível observar também a preferência por produtos que reúnam vários ativos que proporcionem diversos cuidados de uma vez só, o que remete à praticidade adotada na Europa, fato que pode estar relacionado à vida acelerada, ao famoso “american way of life”. No entanto, um ponto que se destaca na rotina de cuidados vista nos países do continente americano é a alta taxa de adesão por procedimentos mais profundos e invasivos. Peelings, lasers, preenchimentos, aplicação de toxina botulínica, são constantes quando são feitos questionamentos no sentido de “como manter a beleza”.

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Enfim, da mesma forma como os ideais de beleza sofrem influência da cultura a que remetem, os hábitos adotados para chegar nesses ideais também são transmitidos por meio de crenças, costumes e perpetuados com base na confiança que se tem nos resultados. Uma boa rotina de cuidados vai muito além da escolha de produtos, ela também envolve e reproduz traços e heranças culturais.

Beleza cultural: a influência das características culturais nos ideais de beleza pelo mundo

Quando pensamos em cultura, as primeiras características que vêm à mente são idiomas falados, costumes de etiqueta, crenças, sistema educacional e marcos históricos. Porém, outro importante ponto que também se destaca na diferenciação entre culturas é a beleza, ou melhor, o que esse termo representa. Formatos de corpo, comprimento dos cabelos, estilo de maquiagem e até mesmo o sorriso, podem ser considerados características culturais de um grupo social e exercem influência direta nos ideais que definem o que é belo nas distintas culturas ao redor do globo. 

O gestor educacional Júlio César de Lima, graduado em Ciências Sociais pela Universidade Metodista de São Paulo responsável pela página Sociologia Cotidiana, pontua que cada sociedade possui sua cultura que vai se modificando ao longo do tempo a partir de contato com outras, em um processo ininterrupto. “No passado, o contato entre diferentes culturas era físico, através de imigrações, invasões, por exemplo. […] Atualmente, as chamadas mídias sociais vem acelerando ainda mais a difusão cultural.” Com base nesse raciocínio, ele dispõe que cada grupo cultural, cada povo e sociedade possui seu ideal de beleza, moda e costumes, no entanto, eles são fluidos e modificam-se muito rapidamente “Se o ideal de beleza é o estilo, padrão ou modelo socialmente definido como belo, ele existe em toda e qualquer sociedade, mas a questão é que ele é marcado pela fluidez.”.

Ademais, a busca pelo encaixe perfeito nos padrões de uma sociedade também podem ser resultantes da vontade de gerar um sentimento de pertencimento a um grupo específico, funcionando como uma forma de validação de valor social. Nesse sentido, Júlio César menciona: “O homem é um animal gregário, só existe porque vive em grupo. Com a chamada sociedade de consumo, a necessidade de se viver em grupo divide espaço com a necessidade de se sentir parte desse grupo. […] Fazer parte dele requer sim ser validado em alguns quesitos estabelecidos.”

Mesmo em países multiculturais, como o Brasil, sabemos que existem algumas características que são intrínsecas à construção social do que é belo. Porém, de um ponto de vista mais “macro”, podemos notar que determinados padrões são vistos de forma mais ampla nos diferentes continentes. 

Em se tratando das Américas, no Norte, como nos Estados Unidos, observamos que bustos volumosos, pele, cabelos e olhos claros são as características mais apreciadas nas mulheres, enquanto dos homens é esperado um físico atlético e uma barba bem cuidada, em um visual conhecido como “lumbersexual”. Já na região Central e Sul, peles bronzeadas, cabelos longos e corpo curvilíneo, o famoso “corpo violão”, formam o ideal estético feminino, ao passo que o masculino é composto pela pele também “beijada pelo sol”, cabelos escuros e um porte malhado, em uma mistura de casualidade elegante com um toque sensual. 

Nas terras europeias, continente em que a população tende a ser mais reservada e discreta no que tange ao comportamento, observamos que corpos esguios e um visual casual são as características gerais dos padrões de beleza que, todavia, podem sofrer pequenas alterações de país para país. Se estivermos falando sobre a França, pele bem cuidada, físico magro, cabelo levemente bagunçado e maquiagem leve são o combo apreciado – também compartilhado pela Inglaterra, com a diferença de que esta opta por um visual mais aristocrático e sério, menos despretensioso que o francês. Em se tratando da Itália, os padrões ficam levemente mais extravagantes, o corpo segue magro, mas o busto aumenta de tamanho, as pernas ficam mais torneadas, os cabelos ganham mechas e um comprimento maior; enquanto a Espanha preza por ares mais sexy, de pele morena, olhos e cabelos castanhos, corpos curvilíneos e bem torneados, enquanto, em contraponto, a beleza nórdica preza por peles alvas, cabelos bem claros e uma imagem quase etérea.   

O continente africano também conta com variações no ideal que o compõem, se observadas suas diferentes partes. Em se tratando da região sul, que sofreu grande influência da cultura europeia por conta da colonização, observamos um apreço por traços delicados, poucas curvas e um físico esguio, levemente malhado. O que vai de encontro ao observado em partes da África Ocidental, em localidades como a Mauritânia, em que os corpos volumosos são almejados por serem a representação de prosperidade financeira e disponibilidade de recursos. 

No continente asiático, onde a praticidade, discrição e agilidade são pontos fortes de sua cultura, o que é visto como belo possui traços finos, uma pele bem cuidada e clara, a união de características que, juntas, consigam formar uma imagem de inocência e leveza que são associadas à elegância. 

Porém, mesmo sendo tão discutidos e abordados com mais intensidade nos tempos atuais, o estabelecimento de ideais de beleza têm um histórico longo e notável. Os primeiros registros de uma espécie de padrão no tocante ao belo foram observados na Pré-História, quando o uso de garras e dentes de animais como adornos representava o poder masculino e a obesidade feminina era vista como sinônimo de prosperidade em recursos e símbolo de fertilidade. Posteriormente, na Grécia Antiga, onde muito se valorizava a questão da harmonia e equilíbrio, os corpos compostos por quadris largos e seios volumosos – que eram associados à fertilidade – além de um pele clara, uma aparência etérea e que transmitisse a ideia de saúde acabaram por ser interpretados como o ideal; enquanto no Egito Antigo (em que a aparência física era de grande importância), corpos esguios, pele bronzeada e ausência de pelos representavam a imagem almejada. Sob esse panorama, observa-se que mesmo com a passagem do tempo e a alteração de muitos pontos tidos como representantes do bela por motivos diversos, como os de cunho religioso e cultural, o que perdura até os dias de hoje é a constante mutação do que é compreendido como parâmetro. Dessa forma, com o entendimento de que as raízes dos padrões de beleza são profundas, ainda que disformes, o questionamento é: será possível vislumbrar uma sociedade livre desses ideais? Júlio César de Lima pontua que acredita ser improvável que isso aconteça. “Acredito ser improvável a existência de uma sociedade livre das amarras dos padrões de beleza e então, a discussão que cabe pode tomar outro rumo, como por exemplo, no campo da ética, que pode lançar reflexões sobre consequências para a saúde física, mental e até social dos excessos causados pela busca irrefletida por estar bonito, com o corpo ideal, com o cabelo da mocinha da novela […] Em resumo, continuaremos tentando estar belos, mas provados por questões sobre como estar belo de maneira mais racional.”

Por fim, em uma comparação meramente singela, podemos analisá-los como uma faca de dois gumes que corta um mesmo entendimento em duas questões, pois, o questionamento de um padrão pode representar o entendimento de que há outro “melhor” para ser colocado em seu lugar. Mesmo sendo rechaçados por muitas pessoas e transformados em pauta de discussões acaloradas ou, em outros casos, tendo sua existência negada dada a diversidade de ideais presentes nos diferentes continentes, os padrões de beleza reverberam para além do campo da estética, porque, como foi exposto, por meio deles conseguimos diferenciar momentos históricos, grupos sociais e até mesmo entendimentos culturais. Conseguimos, então, observar que a pluralidade da cultura faz com que o belo não seja uma afirmação, mas, sim, um eterno questionamento. 

O prazo de validade da beleza: por que as pessoas estão com medo de envelhecer?

Nas décadas de 1990 e 2000 muitos filmes de dramas adolescentes, apresentavam ao menos uma cena que retratava algum jovem desejando ser, ou ao menos aparentar ser, mais velho por algum motivo. Quem não se lembra do clássico De Repente 30 com Jennifer Garner e Mark Ruffalo? 

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Fosse pela autoridade, respeito, sabedoria e reverência que era concedida aos mais velhos ou simplesmente pelo fato de que “ser adulto” era associado à possibilidade de possuir mais liberdades, envelhecer era como se fosse um troféu. Um selo de experiência e competência. No entanto, o que se tem observado nos últimos anos, é uma tendência contrária, pautada no intuito de voltar no tempo com a aparência. É como se envelhecer tivesse deixado de ser o curso natural da vida e se transformado em uma doença a ser combatida. A comunidade passou a ser movida pelo desejo de ser como Benjamin Button.

Em um contexto marcado pela volatilidade, transformação constante e que preza muito a flexibilidade e a capacidade de adaptação, tudo o que é considerado antigo é associado a desatualização e, consequentemente, preterido e ignorado. A tendência pela exaltação da juventude pode ter como um de seus pilares o fato de que esta parcela da sociedade é, aparentemente, a detentora do conhecimento necessário para se compreender o mundo atual. No passado, envelhecer era o desejo, porque significava passar a saber e entender o que os mais novos não sabiam, porém, nos dias de hoje, qual seria o motivo de desejar isso sendo que são os mais jovens os conhecedores do funcionamento das tecnologias que imperam no mundo globalizado contemporâneo?

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Nesse sentido, o desejo por se manter jovem passou a nortear não apenas os comportamentos das pessoas (que tendem a ficar ligeiramente mais infantilizados com a intenção de parecer cool e descolado), mas a guiar suas escolhas em relação à sua estética também. A aparência é considerada a maior responsável por “denunciar” os anos de vivência e é o primeiro alvo de ataques quando se tenta desmoralizar e desconsiderar alguém com base na idade (prática denominada etarismo); por essa razão, à beleza passa-se a atribuir uma espécie de prazo de validade que faz com que as pessoas pensem que não serão mais aceitas, nem belas no mundo atual a partir do momento que atingirem uma idade mais “avançada”.

De acordo com a psicóloga Natália Tozo, as pessoas têm sentido tanto receio em envelhecer, porque a sociedade não valoriza o processo de envelhecimento, veem os idosos como pessoas que não são mais produtivas e não valorizam sua história e seus saber. “Com a tecnologia veio o acesso rápido ao consumismo e a ideia de padrão de beleza. A indústria veio com muitas novidades e promessas de uma imagem de que ficar mais jovem traz mais aceitação. […] Claro que se cuidar é importante e faz bem para o ser humano, mais nada em excesso é saudável nem para a mente, nem para o físico.”, ressalta a profissional.

Sendo assim, inicia-se uma busca intensa por maneiras que mantenham a imagem livre de rugas, linhas de expressão ou qualquer tipo de marca que possa “entregar a idade”. O investimento cada vez mais intenso na busca pelo corpo perfeito e a vontade de se inserir em um dos muitos padrões sociais, comportamentos esses que representam a manifestação do angústia em envelhecer: “o medo também vem acompanhado de sintomas de ansiedade com alteração do humor, intercalando dias mais eufóricos com dias mais deprimidos, excesso de cobrança pessoal, tensão e uma sensação de que ‘se eu não der conta, sou um fracasso”.

Seguindo esse ritmo, procedimentos invasivos e não invasivos, suplementos e até mesmo medicações para impedir que o corpo externe os sinais começam a ser frequentes nos planejamentos das pessoas. No entanto, é importante entender quais são, de fato, esses sinais e como tratá-los corretamente e dentro do necessário. A médica dermatologista, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), Dra. Amanda Vilela destaca que os primeiros sinais que indicam a chegada da idade se manifestam a partir dos 30 anos, quando a produção de colágeno começa a diminuir: “A partir dos 30 anos, diminuímos nossa produção intrínseca de colágeno e iniciamos o processo de degradação dos fibroblastos. […] Começamos a observar uma diminuição leve da espessura da pele, e as marcas de expressão também já se iniciam.”.

Todavia, o processo de envelhecimento, apesar de natural, pode ser feito com mais qualidade que, a dermatologista explica ser envelhecer com as suas características, mantendo os seus padrões e de uma forma natural, “É as pessoas te observarem e falarem: “Você está tão bem, igual a quando te conheci! O tempo só te faz bem!”. Dessa forma, alguns cuidados podem ser tomados para que o avanço da idade torne-se mais leve: “Primeiramente, ter um dermatologista de confiança, um especialista com olhos treinados, técnica e know-how para saber o que indicar é fundamental. Deve-se investir em procedimentos que estimulem colágeno como Ultraformer3, Bioestimuladores, fios de PDO e pontos de preenchimento com ácido hialurônico e a toxina botulínica!”, recomenda Dra. Amanda Vilela.

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É válido destacar que, apesar de existirem meios que permitam que o envelhecimento ocorra com mais qualidade e menos impacto, ele ainda assim é um acontecimento orgânico, inato, por isso, todo receio exagerado em relação a ele precisa ser questionada e observada com atenção. De acordo com a psicóloga Natalia, o tratamento dessas questões deve vir, especialmente, por meio da sociedade, que precisa mudar a mentalidade de que a felicidade é um sentimento próprio da juventude: “envelhecer é um processo natural e precisa começar a ser aceito e respeitado, principalmente por quem está nessa fase. A aceitação e o compromisso começam com o sujeito e o olhar dele para consigo mesmo, para que ele não deixe que o olhar do outro o defina […] Sua saúde mental precisa estar em equilíbrio com seu corpo”.

Por fim, é importante ressaltar que valorizar os mais velhos não significa desmerecer o conhecimento da juventude dos dias de hoje, apenas não deixar que as inseguranças fundamentadas em padrões distorcidos impeçam a sociedade de apreciar o avanço da idade e todas as experiências e aprendizados que cada etapa pode trazer. A beleza não possui um prazo de validade, mas sim estágios de maturidade que são resultado da constante transformação natural.

London Fashion Week: beauty eclética e experimental

A semana de moda de Londres, que teve início na sexta-feira (18 de fevereiro) e fim na terça (22), apresentou ao público as novas apostas e interpretações de diversos designers para a temporada de Outono/Inverno de 2022. Conhecida como a mais experimental das semanas de moda e favorita dos novos estilistas como porta de entrada para a apresentação de suas coleções, a mais recente LFW provou que todo o caráter eclético atribuído a ela vale não somente para as peças desfiladas, mas para as belezas que as complementam também.

Se tratando das makeups exibidas, observamos marcas insistentes da estética limpa e leve que tem imperado nas últimas temporadas na beleza de desfiles como Halpern e Erdem, que optaram por uma imagem limpa, básica, prezando pela naturalidade, sem contornos forçados ou iluminadores exagerados; parece que até o blush tão associado à famosa “carinha de saúde” foi deixado de lado, demonstrando de certa forma, uma mensagem de valorização de uma beleza voltada à praticidade.

No entanto, alguns traços de criatividade e disrupção puderam ser observados por meio de makes que trouxeram cor, luz, brilho e força em pontos estratégicos como forma de criar uma beleza sinestésica e envolvente, que representasse a forma como cada marca deseja se comunicar com o futuro. Matty Bovan nos apresentou olhares fortes, sublinhados por traços marcantes e pesados – trazendo uma vaga lembrança das marcações nos olhos feitas por guerreiros em filmes de ação – demonstrando uma visão focada, firme e determinada do por vir. Já em Simone Rocha, o mesmo olhar forte veio em forma de luz; em uma estética inegavelmente Euphoria like, os delineados que envolveram os olhos por completo eram feitos à base de muito brilho e pedrarias, demonstrando claramente uma visão de dias vindouros ricos, promissores e radiantes – uma verdadeira visão de milhões.

Já quando o assunto são os hairstyles, acende-se o alerta para os adereços capilares e penteados que nos levam a revisitar as épocas passadas, como os altíssimos “rabos-de-cavalo”, em uma vibe anos 80, vistos na passarela de Molly Goddard, ou os lenços brilhosos que cobriam toda a cabeça desfilados pela grife Erdem nos remetendo à estética hippie dos anos 70 – porém, dessa vez, confeccionados em muito brilho e paetês, o que pode ser interpretado como uma forma de ter pensamentos brilhantes em relação ao que nos aguarda – e até mesmo criando uma sutil lembrança dos casquetes da década de 1920, que foi marcada por uma imensa disrupção com padrões anteriormente vistos, o que também pode ser entendido como uma forma de romper com o cinzento e enlutado passado recente. Além disso, adereços, antes tão “desprezados” e vistos como comuns, receberam um novo status de “peças desejo”, como as – polêmicas – balaclavas que marcaram presença na passarela de Simone Rocha. Além disso, o famoso wet hair voltou a dar as caras como aposta de Nensi Dojaka, trazendo um ar de frescor para contrastar com as coleções voltadas para as estações mais frias.

Por fim, a semana de moda londrina seguiu mantendo sua característica de ser um ambiente experimental para o mundo da moda e da beleza, apresentando aos críticos, consumidores e todos os outros espectadores novas formas de revisitar o passado, associá-lo a tendências presentes, sem deixar de expressar desejos para o futuro.

A leve excentricidade da beleza da Alta-Costura

Paris Couture Week: a mais trabalhosa, mas ao mesmo tempo, livre para os designers; a mais aguardada pelos críticos; dotadas dos desfiles mais desejados pelas influencers e, sem dúvidas, uma potência inigualável quando o assunto é lançamento de tendências seja na moda ou na beleza. Ao longo da última semana, mais especificamente dos dias 24 a 27 de janeiro, a cidade das luzes voltou a ser palco de mais um de seus grandes espetáculos anuais: a semana de moda de Alta-Costura que nos apresentou as coleções de Primavera/Verão 2022 das seletas casas que fazem parte da Chambre Syndicale de la Haute Couture

É indiscutível que nos desfiles desse segmento da moda, a atenção é sempre voltada à suntuosidade das criações, porém, como molduras de um quadro valioso para o autor, a beleza de cada apresentação é também criteriosamente pensada, de forma a contribuir para a grandiosidade que se espera do resultado. Sendo assim, pudemos ver que algumas casas buscaram por uma estética que nos trazia à memória a delicadeza que remete aos trabalhos manuais tão valorizados pela alta-costura, enquanto outras optaram pela excentricidade que exala das criações finalizadas. 

Na beleza da Fendi, assinada por Guido Palau e Peter Philips (hairstylist e makeup artist, respectivamente), recebemos uma extensão do que Kim Jones propôs ao criar a coleção: uma mistura entre passado, presente e futuro. Uma pele quase isenta de maquiagem, rememorando as estéticas de pureza associadas aos antigos tempos romanos, associada à dramaticidade e irreverência muito observadas hoje em dia e que, cada dia mais, se consolidam como apostas futuras, expressas por meio da aplicação de pontos de strass por todo o rosto das modelos. O cabelo vem limpo, sem grandes elaborações, deixando que o foco principal seja o mistério apresentado pelas criações e a excentricidade delicada da maquiagem. Em uma análise um pouco mais fantasiosa, pode-se dizer que essa junção estratégica de leveza e brilho criam justamente uma imagem de algo celeste, radiante e puro, associadas aos elementos espirituais de Roma e à esperança de um futuro mais leve que virá após o caos. Descrição essa que poderia ser facilmente aplicada a Antonio Grimaldi (por Maurizio Caruso Morale, Anna Maria Negri Brida e Maurizio Calabró) e Alexandre Vauthier (por Lisa Butler & Sam McKnight) também – ambas casas que também optaram pela beleza do “menos é mais”. 

Já no espetáculo de Giambattista Valli, com make por Helena Vasnier e cabelo por Lewis Ghewy, notamos um contraste da sutileza com a dramaticidade. Algumas modelos cruzaram a passarela de rosto praticamente limpo, isento, enquanto outras carregavam olhares marcados por delineados gráficos, vazados e extravagantes, criando um olhar desafiador e marcante. Essa fusão de estéticas gera uma dualidade, uma sensação de pré-liberdade e co-participação em quem vê: há a ideia de uma tela em branco, na qual a criatividade pode ser exercida e cada um, ao observar a produção, tem a chance de ser responsável por criar em sua própria imaginação a beleza ideal. Ademais, também existe a estética já previamente pensada e exposta, deixando claro que tudo foi inspirado por drama e deve ser combinado ao drama. Os cabelos seguem a mesma linha, alguns transmitem leveza, romantismo e são arrematados por laços, com um ar clássico, enquanto outros são volumosos e compridos, em uma estética que nos leva de volta aos penteados semi-presos da década de 1970. 

Na mesma linha de imagem de força e extravagância, não poderíamos deixar de comentar a beleza criativa, irreverente, e provocativa de Schiaparelli, com claras referências ao surrealismo característico da casa e perfeitamente transmitido pelas mãos de Pat McGrath na idealização da make e Guido Palau nos cabelos – que acendem um alerta para a crescente presença do uso de acessórios para os fios. Um flerte com o “extra” também acenou em Valentino (assinada por Pat McGrath & Guido Palau) que, por meio da aposta em olhares marcantes – resultantes de delineados mais espessos e até mesmo com a aplicação de penas (alguém mais se lembrou da coleção de couture de 2019?) em alguns looks – trouxe uma ousada elegância, complementadas por fios unidos em coques baixos e polidos – como perfeito arremate à coleção.

Por fim, em linhas gerais, vimos nas passarelas uma miscelânea de estéticas que passeiam com naturalidade entre o sutil e o excêntrico, o clássico e o dramático, o básico e o exagerado, mas sem jamais perder a inseparável sofisticação que, desde sempre, faz parte da história da alta-costura.

Pretty Hurts: vale tudo para atingir um ideal inatingível?

[Imagem: Reprodução Hysteria]

Procedimentos estéticos, cirurgias invasivas, mudanças drásticas… tudo para chegar perto da perfeição. Mas que perfeição é essa? Quem a definiu? Como ela é? Nesse ciclo vicioso de mudanças e afastamentos das próprias características, as pessoas se distanciam cada vez mais de si mesmas e de sua essência. Na busca incansável pela “harmonização” externa, ocorre a “desarmonização” interna.

Em um mesmo universo em que se declara que a beleza é subjetiva, também são impostos diferentes ideais no que diz respeito a ela, causando uma metamorfose infinita de busca pela perfeição. Em uma comparação de diferentes momentos da história, podemos ver como o que é visto e chamado de “belo” pelas pessoas foi transformado ao longo do tempo: na Antiguidade (VIII a.C. a V d.C.), ter pele clara, quadris largos e lábios volumosos era o desejo geral; já nas décadas de 1990 e 2000, a estética “heroin chic”, difundida pelas supermodels da época, exaltava um corpo absurdamente magro, esguio, com a pele pálida e os cabelos lisos, tudo em torno de “quanto mais reto e menor, melhor”; e nos dias de hoje, encontra-se uma busca mista – e quase obcecada – por esses dois padrões.  

[Imagem: Reprodução Não me Kahlo]

Enquanto parte da sociedade deseja estar esguia e “seca”, outros querem cada vez mais volume, mais curvas e não se importam em gastar “rios de dinheiro” e embarcar nos mais diversos tipos de processos para conseguir isso, sem pensar nos limites e nem nos possíveis riscos. Por incrível que pareça, foi durante a pandemia, em meio a uma crise sanitária mundial que tirou a vida de muitos e fragilizou a saúde de outros tantos, que houve um salto na procura pela realização de procedimentos estéticos. De acordo com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), a procura por intervenções não cirúrgicas aumentou 390% desde o início da pandemia e, para alguns especialistas, isso se deve pelo fato das pessoas estarem em homeoffice e, por conseguinte, com mais tempo de planejar e observar o que pretendem mudar em seu corpo. 

Porém, os motivos que levam a essa incessante busca pelo encaixe perfeito no padrão imperfeito são muito mais profundos e sérios do que um simples desejo momentâneo. Nesse sentido, a psicóloga Gabriella Pontes aponta que há uma diversidade de fatores (psicológicos, genéticos e externos) que levam à uma insatisfação em relação à própria aparência e que podem desencadear transtornos de imagem, como padrões estéticos perpetuados na sociedade e comentários de terceiros no que diz respeito à fisionomia de alguém: “Essas insatisfações surgem a partir do momento em que ensinam a gente a não gostar do nosso corpo real e vendem algumas soluções ‘mágicas’. […] O problema é que nos é passado que só vamos ser felizes se tivermos aquele determinado corpo e a chave para essa felicidade é o poder de compra desses procedimentos.” E esse comportamento obsessivo por uma transformação notável não só para os outros , mas também para a própria pessoa , a fim de que ela se sinta diferente, pode ser um alerta para o início de um sério problema: a dismorfia corporal. Ainda de acordo com a psicóloga Gabriella, a dismorfia tem causas multifatoriais que envolvem questões genéticas, contextos socioculturais, discursos difundidos e incorporados ao longo da vida e se manifesta em alguns sinais que tendem a se agravar conforme as ocorrências de “situações gatilho” no cotidiano e, em muitos casos, o distúrbio sofrido por alguém é percebido por terceiros apenas quando já se encontra em patamares mais elevados: “[…] é muito comum que aconteça na adolescência, porque é o momento em que o jovem está lidando com a mudança do próprio corpo.” Sendo assim, é importante que os sinais e mudanças de comportamento não sejam ignorados a fim de que esse comportamento prejudicial não seja transformado em um hábito, e torne mudanças relativas à aparência em condições para determinados acontecimentos da vida e estabelecimento da própria felicidade, o que a profissional chamou de “pontos âncora”, que as pessoas costumam usar para se prender e perpetuar suas inseguranças, que podem trazer como consequência a falta de autoconfiança e a dificuldade em estabelecer relacionamentos e conexões estáveis e duradouras.

Outro ponto importante a ser mencionado é na mudança no perfil dos pacientes que chegam aos consultórios médicos e no desejo que eles expressam em relação à sua imagem. De acordo com a Dra. Amanda Vilela, médica dermatologista, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), as maiores queixas das pacientes que chegam ao consultório são relativas às rugas, ao sulco nasogeniano (o famoso “bigode chinês”) e à aparência flácida do rosto, o que costumam chamar de “derretimento da face”. Porém, segundo a especialista, atualmente, com o acesso facilitado às informações por meio da internet e das redes sociais, o foco têm sido direcionado cada vez mais à prevenção, justamente para evitar que as queixas apareçam: “As pessoas mais jovens começaram a entender a importância dos tratamentos preventivos.” Conforme explicado pela dermatologista, a partir dos 30 anos começamos a degradar a produção de nosso próprio colágeno e, por isso, é importante investir em procedimentos que promovam a melhora da qualidade da pele e estimulem uma redensificação da derme; “[…] as pessoas que se interessam por esse tipo de informação já vêm querendo tratar a qualidade da pele desde mais cedo, o que vai evitar futuras intervenções mais invasivas ou até mesmo cirúrgicas”. No entanto, a Dra. destacou que existem casos em que os pacientes desejam ir mais além, e nessas situações é necessário orientá-los quanto aos limites da naturalidade que, para ela, é primordial.

[Imagem: Reprodução RealSelf]

Ademais, essa coragem de se expor vai além da própria saúde: muitas pessoas decidem arriscar e comprometer parte de suas finanças e orçamentos para conseguir realizar as tão sonhadas intervenções. O interesse crescente pela realização destas, fez com que surgisse um novo ramo de financiamentos nas empresas: o consórcio para procedimentos estéticos. No site de uma das empresas que disponibilizam esse tipo de crédito, ainda há a equiparação de uma cirurgia plástica a “qualquer outro produto da categoria de serviços” como festas, reformas, viagens ou estudos, disponibilizando ainda a simulação de financiamentos, parcelas e juros sobre o valor final das intervenções. É claro que o planejamento orçamentário é importante nesses casos e deve, sim, se enquadrar nas condições do paciente, mas o que acende o alerta nestas situações é a banalização do tratamento e da referência a serviços que estão diretamente ligados à saúde física e, consequentemente, mental das pessoas.

[Imagem: Reprodução Metrópoles]

Nesse sentido, tal facilitação do acesso ao crédito para a realização de intervenções contribui para outro cenário que tem se tornado cada vez mais comum: o aumento de procedimentos estéticos entre os jovens que, de acordo com uma matéria publicada pelo Jornal da USP, cresceu em mais de 140%. Motivada pela insatisfação com a própria imagem, e a dificuldade de se encaixar nos – constantemente alterados – padrões difundidos nas redes sociais, a juventude contemporânea usa da coragem característica da idade para se arriscar em centros cirúrgicos e salas de clínicas. Essa mesma juventude é a que passa a adentrar o mercado de trabalho com cada vez mais fervor e, ao adquirir sua independência financeira, encontra sua oportunidade de satisfazer seus desejos momentâneos, causados por um número crescente de procedimentos disponíveis e condições financeiras favoráveis para realizá-los. 

Por fim, é importante destacar e esclarecer que a crítica não é em relação às intervenções estéticas e nem a seus adeptos, muito pelo contrário, mudanças são bem-vindas e, algumas vezes, necessárias, inclusive na área da beleza. O importante é cada um se sentir bem, feliz e confortável, e está tudo bem se, para isso, certas “alterações” queiram ser feitas. Porém, é imprescindível a lembrança de que a beleza é subjetiva e, por isso mesmo, ela se faz presente em cada um de nós da forma como somos, independentemente de qualquer padrão. Um antigo dizer popular menciona que “a beleza dói”, mas o que dói mais ainda é viver em função de tentar atingir um ideal inatingível.

Como é definida a beleza editorial

Um editorial de beleza vai muito além de uma simples fotografia de uma produção feita por um profissional. Por trás de cada campanha veiculada há uma extensa busca pelos ideais que desejam ser transmitidos por meio do ensaio fotográfico e uma longa pesquisa sobre qual é a melhor forma de externá-los. “O que queremos comunicar ao público? E como conseguiremos fazer isso?”, esses, geralmente, são os questionamentos que funcionam como pilares para a construção de um editorial com um propósito bem definido.

[Imagem: Reprodução Vogue Portugal] 

Sejam campanhas publicitárias de marcas de vestuário ou até mesmo àquelas específicas sobre o mercado de beleza, todo o conceito é pensado previamente. A relevância e adequação ao momento é avaliada e, assim, é definido um moodboard – ou quadro de inspiração – que servirá de guia para orientar os profissionais responsáveis por dar vida às ideias definidas. 

[Imagem: Reprodução @kaka.oliveira]

Para saber mais sobre os bastidores da produção editorial, entrevistamos a maquiadora Kaka Oliveira, que esclareceu alguns pontos sobre o trabalho dos profissionais da beleza durante uma campanha.

[Imagem: Reprodução Domestika] 

De acordo com a artista, o primeiro passo a ser dado na realização de um editorial é a montagem do moodboard, que na maioria das vezes já é previamente definido pela diretoria criativa da marca, que, posteriormente, convida um profissional que tenha um trabalho no estilo desejado e consiga entregar o resultado proposto. Depois disso, cabe à equipe de beleza executar o que foi apresentado, sendo raras as vezes em que tais profissionais participem desde o início da delineação da ideia. Porém, isso muda quando o editorial em questão é especificamente sobre beauty & make-up, pois como o foco principal é a beleza, a participação ativa e criativa dos profissionais da área é essencial, exigindo que estejam presentes desde a montagem do quadro de ideias até os retoques finais.

Ainda na etapa de busca por inspirações, existem dois caminhos que grande parte das pessoas pensam que são os únicos seguidos em uma produção: surfar nas tendências mais quentes do momento ou apresentar algo completamente novo e diferente do que já foi visto. No entanto, não é bem assim que funciona. Segundo Kaka, existe um ponto de equilíbrio entre esses dois extremos, “[…] estamos sempre ligados nas tendências, no que está acontecendo e está em alta, então é natural que a gente traga essas informações pro editorial ou campanha, mas sempre colocando isso com um pouco do nosso olhar pessoal e isso varia de acordo com cada profissional. […] Assim considero que seja uma mistura desses três pontos: do antigo, do novo e do olhar de cada profissional.” Deu pra perceber como a beleza é subjetiva até mesmo para quem define como ela vai ser?

[Vídeo: Reprodução Vogue Brasil]

Nesse sentido, em contraste com a subjetividade da beleza, vem a objetividade das escolhas das pessoas que vão compor o conceito de beleza definido. Como já foi dito, os profissionais da beleza que vão fazer trazer à vida as idealizações dispostas no moodboard são escolhidos com base na adequação de seu trabalho à proposta, e o mesmo acontece no momento de escolha das modelos. Elas são escolhidas de acordo com o conceito que se deseja transmitir e serão como a tela em branco para os artistas da beleza.  

[Imagem: Reprodução Vogue Brasil] 

Por fim, conseguimos perceber que existe um extenso percurso por trás da produção de um editorial e da chegada a um consenso no que diz respeito ao resultado final da produção. Do início da montagem do moodboard, passando pela escolha dos profissionais que irão assinar a beleza da obra até a definição da modelo que melhor se encaixa no conceito desejado, tudo é bem pensado, delimitado e baseado na mensagem que deseja ser transmitida por meio do grand finale do projeto. Ele não surge do nada e nem é montado ao longo do caminho; o conceito de um editorial é baseado em pesquisas de mercado, estudo de campo e identificação entre profissional e projeto.

O easy-chic com flertes criativos da beleza da PFW

Chegou ao fim nesta terça-feira (05) a temporada SS/2022 parisiense, que trouxe consigo momentos emocionantes e referências que refletem as expectativas e interpretações que a indústria tem para o futuro. Fechando o chamado “mês da moda” com chave de ouro, a semana de moda de Paris foi marcada por momentos paralelos: uma beleza básica, marcada pela leveza, sem perder a elegância inseparável que acompanha os ares franceses; com momentos de ousadia, affair com as cores e emoção. Talvez possamos arriscar dizer que foi uma miscelânea entre o “no make-up make-up” apresentado em Milão com relances das belezas “escapistas” de Nova York.

Seguindo, majoritariamente, uma linha com características easy-chic, o que mais se viu na fashion week parisiense foi uma beleza leve que parece ser fácil, despretensiosa e sem muito esforço para ser elaborada. Essa beleza é bem visível passarela da Loewe, assinada pela requisitadíssima dupla Pat McGrath e Guido Palau. A delicadeza e quase ausência de maquiagem e o cabelo moderno, desconectado, mas adornados pela cor representou o tributo da marca à sua expectativa para o cenário pós-pandêmico, livre de ansiedades e preocupações excessivas, deixando que nós sejamos nossa própria casa, nosso próprio padrão e nossa própria referência de beleza e conforto.

Loewe SS22 RTW.
[Imagem: Alessandro Viero]

Em meio a uma mensagem que parece trazer nuances de uma volta ao básico, houveram picos de ousadia que nos remeteram um pouco à estética colorida, alegre e disruptiva vista em NY. Os delineados, antes tão simétricos e quase milimetricamente calculados, apareceram em novos formatos, posições e um pouco menos próximos dos ideais de perfeição. Ao menos, foi isso o que vimos nas belezas propostas por Courréges e Rick Owens (de autoria de Anthony Preel & Joseph Pujalte e Daniel Sallstrom & Duffy, respectivamente) que levaram às passarelas a mistura perfeita entre a sutileza e força, quase como (re)apresentando tendências antigas de maneira reinventada. Bem parisiense, não? 

Este mesmo delineado ligado aos novos ideais de despretensão, trouxe junto uma nova provocação por meio do trabalho de Lucia Pieroni & Anthony Turner na grife Rochas, que ao nos incitar a traçar as famosas linhas abaixo dos olhos, também nos inspira a tentar enxergar o mundo de forma diferente e virar nossos planos de cabeça pra baixo, depois de sermos surpreendidos com uma pausa forçada e levados a refletir sobre a fugacidade da vida. Nesse mesmo sentido seguiram Kenneth Ize, embelezado por Fara Homidi & Yann Turch, responsável por iluminar os olhares com traços dourados que, filosoficamente, podem representar um olhar ambicioso e reluzente para o futuro, e Chloé – pelas mãos de Hannah Murray & James Pecis, que, em meio à onda de “no make-up make-up” looks, apresentou alguns olhares enfeitados com delineados extensos e coloridos, nos fazendo pensar em um futuro divertido e multifacetado. 

Pelo universo das cores e do drama também passaram Weinsanto e Dries Van Noten. A primeira casa – Weinsanto – de forma muito mais artística por meio do trabalho de Axelle Jérina & Kevin Jacotot, ilustrou um discurso que mostra que ainda existe espaço para um escapismo dramático em um futuro com ares etéreos. Já a segunda, – Dries – produzida por Lucy Bridge & Sam McKnight, instigou uma explosão à primeira vista; com tons vivos, olhos que carregam uma intensidade eletrizante, lábios pintados com as cores que irradiam alegria e cabelos que combinam assimetria e degradê, fazendo um paralelo aos tempos incertos há pouco vivenciados por todos nós. 

Na contramão das belezas que focaram no olhar dramático, se apresentaram as maisons que colocaram na boca toda sua emoção. A mesma pele leve e fresh foi combinada à rastros de cores em batons mais vivos, que ornamentaram os visuais propostos por Karin Westerlund & Duffy e vistos nas passarelas de Saint Laurent, que fez do batom vermelho a marca de força e sofisticação do desejo de imagem idealizado por Vaccarello; e a estética criada por Pat McGrath e Guido Palau para a Valentino que, assim como Chloé fez ao trazer destaque aos olhos, mesclou lábios contrastantes à beleza despojada.

Sendo assim, como dito no início desse texto, Paris refletiu a junção das visões de futuro apresentadas em Nova York e em Milão em uma bela e instigante miscelânea que demonstram as interpretações do futuro externadas na beleza, sem, contudo, deixar de lado sua distinção e requinte que, ao longo dos anos, tornaram-se sua marca registrada e fizeram da cidade das luzes a responsável pelo apagar das luzes do mês da moda.