Frenezi na Semana de Moda de Outono/Inverno de Nova Iorque

Para inaugurar a temporada de Outono/Inverno 2022, que acontece durante os meses de fevereiro e março entre as principais cidades das semanas de moda internacionais — Nova Iorque, Londres, Milão e Paris — começamos a semana de moda de Nova Iorque com um respiro gelado da cidade, ainda se recuperando do inverno.

De corsets de couro em Dion Lee até as saias exuberantes em Carolina Herrera, abordaremos um pouco neste texto sobre a maioria dos desfiles da semana de Nova Iorque, com seus designers independentes e marcas jovens que já roubaram o coração da indústria e seus amantes.

Você pode encontrar o calendário oficial da Semana de Moda de Outono Inverno de Nova Iorque aqui.

Foto retirada da conta no Instagram da marca Christian Siriano.

Confira a cobertura completa da Semana de Outono/Inverno em Nova Iorque:

DIA 1

Começando por uma das primeiras apresentações do primeiro dia da NYFW com a coleção de Outono/inverno 2022 apresentada por Christian Juul Nielsen para a Herve Leger, o designer entrega peças que conversam perfeitamente com o agora e que certamente serão um sucesso de vendas. É uma coleção pouco criativa em termos de design, porém às vezes as marcas precisam apostar em peças mais comerciais por razões óbvias.

Todos os 24 looks são monocromáticos e em conjuntinho, feitos em cores que variam entre rosa pink, preto, verde ácido e marrom arroxeado. A modelagem das peças é toda mais justa em decorrência da bandagem, técnica pela qual Hervé Leger ficou internacionalmente conhecido.

Saias lápis fazem conjunto com tops com recortes e são estilizadas com luvas, assim como todos os outros looks da coleção, que recebem o acessório na mesma cor do conjuntinho. Destaque também para os vestidos longos e blusas justas com recortes e franjas, que com certeza serão os hits de venda desta coleção. É uma apresentação extremamente assertiva, mas que peca apenas em um aspecto: das 21 modelos fotografadas para o lookbook, apenas 1 é negra.

Fotos retiradas para a montagem do Vogue Runway.

O Outono/Inverno de Proenza Schouler vem na contramão de outras marcas: enquanto todos buscam  as roupas pós-pandêmicas, para curtir a vida; ou o conforto do ‘loungewear’; a coleção criada pela marca é para  o “agora”.

O corpo quase totalmente coberto na maioria dos looks nos recorda dos dias de lockdown, mas de forma sofisticada. Conjuntos de blazer e calça, casacos e saias somadas a blusas de manga infinita e gola alta, sempre com silhuetas amplas são reconstruídos pelo corset, marca registrada de Proenza, mas que surge de forma revisitada para evitar a redundância que vimos em tantas outras casas. Nessa coleção, o item aparece em forma de tecidos grossos amarrados por todo o abdômen e quadris.

Além da alfaiataria pesada e dos tecidos articulados quase como armaduras para enfrentar o atual momento, houve espaço para a fluidez. Vestidos em cores vibrantes  — em contraste com os tons básicos mostrados no resto dos looks — marcaram ponto, sempre em materiais leves. 

É interessante pensar em como os estilistas utilizaram, em cada uma das peças, diferentes técnicas para alcançar a silhueta marcada: alguns vestidos tiveram suas cinturas acentuadas por meio de “falhas” no tingimento das estampas; outros, com cintos e corsets feitos de tecido. O look 28 (ao lado) fez uso de amarrações e franzidos.

A repetição de técnicas ou de cores não é um problema aqui — a coleção passa longe de ser entediante e sabe buscar com maestria as tendências do momento sem perder a essência original. 

A persona de Proenza Schouler por Lazaro Hernandez e Jack McCollough (diretores criativos da marca) se  mostra novamente elegante, antenada e independente de opiniões e comportamentos alheios. 

Foto retirada do Vogue Runway do desfile de Proenza Schouler.

Miley Cyrus, Lady Gaga, Lil Nas X e Lizzo: estas são apenas algumas das celebridades que amam Christian Cowan e já desfilaram alguns de seus modelos por aí. O estilista britânico de 25 anos é o favorito de famosos que buscam um visual glam e festivo sem erros, fazendo sempre o uso de muita cor, brilho e aplicações.

Sua estreia na NYFW em 2018 dividiu opiniões entre a crítica: muitos acharam o trabalho do jovem designer extremamente carregado, enquanto outros defenderam a sua estética opulente e a compararam ao trabalho de Jeremy Scott.

De fato as primeiras coleções de Cowan pecavam na edição final dos looks e no equilíbrio certo das aplicações e cores utilizadas pelo estilista. Mas, com o tempo, seu trabalho foi sendo refinado e atingiu o ápice na temporada passada, quando Cowan apresentou um dos melhores desfiles da NYFW.

Mas, infelizmente, o designer parece ter andado algumas casinhas para trás com seu Outono/Inverno 2022 apresentado ontem (12/11) em Nova Iorque. A coleção, que tem como inspiração trajes clássicos de gala, insiste nos mesmos erros do início da carreira do designer: a edição final dos looks é bagunçada, as aplicações de brilhos e paetês ultrapassam o limite e o line up final é dividido por seções em que os looks não conversam entre si.

Um dos looks apresentados pelo estilista combina um vestido drapeado com cauda em cetim lilás e uma jaqueta puffer rosa chiclete com aplicações em cristais e recorte nos braços. Já outro é composto por um vestido confeccionado em veludo preto com busto e alça em paetê roxo, em uma modelagem que claramente não valoriza e nem se adapta ao busto feminino. 

Foto retirada do Vogue Runway do desfile de Christian Cowan.

Entre looks ultra carregados e extravagantes como estes, Cowan apresentou vestidos e peças em corte de alfaiataria, produzidas em tecidos fluidos com estampas abstratas que fogem completamente da narrativa da coleção e causam certo estranhamento no line up final. 

O destaque ficou por conta de apenas um look: o final. Um vestido preto em tafetá com saia volumosa, recorte na barriga e aplicações em cristais exala a energia party girl meets old hollywood e nos faz lembrar exatamente o que amamos no trabalho do designer e desejamos ver daqui pra frente. Maddy Perez, certamente, escolheria este modelo para seu baile de formatura.

Fotos retiradas para a montagem do Vogue Runway.

A dosagem errada de glam e fantasia, a má distribuição dos looks e da paleta de cores no line up e a presença de peças que fogem da narrativa da apresentação são alguns deles. Acompanhe no carrossel o review completo.

A coleção construída por Mark Thomas e Thomas Cawson para a Helmut Lang dialoga perfeitamente com uma audiência mais jovem que busca peças minimalistas e fáceis de usar.

Os códigos de Lang aparecem na paleta de cores, composta majoritariamente por preto, e nas texturas – que vão desde a renda, passando pela seda e chegando à pele de carneiro colorido. A coleção apresenta uma boa leva de peças de alfaiataria, que são desconstruídas através de recortes e faixas no maior estilo Lang possível.

No geral a coleção é puramente comercial, assim como a maioria das já apresentadas pela dupla. A verdade é que, desde o desligamento de Helmut da moda há 15 anos atrás, a marca tem produzido coleções pouco importantes e significativas.

O legado de Lang parece ainda permanecer vivo nas mãos de Thomas Cawson, diretor criativo à frente da marca. A prova disso vai para além da cartela de cores minimalista da coleção apresentada ontem (11/02) : Cawson parece utilizar a alfaiataria como base, e desconstruí-la para a contemporaneidade, fazendo uso de texturas como pele de carneiro tingida e criando assim desejo para o consumidor mais jovem.

DIA 2

Começando o segundo dia com uma marca brasileira, a PatBo, a qual ao homenagear a terra natal, Patrícia Bonaldi em seu segundo desfile físico para NYFW se aventura profundamente no mundo do trabalho manual. A coleção toda foi confeccionada por profissionais que fazem parte da escola de bordadeiras da designer mineira em Uberlândia, sua cidade natal.

Bonaldi teve seu foco centrado muito mais nas texturas das superfícies dos tecidos, do que em estampas corridas como em coleções passadas. Ela se manteve fiel ao DNA da sua marca apresentando, mais uma vez, as franjas e os bordados que deram fama ao seu nome. 

Foto retirada do Instagram da marca PatBo.

Um elemento novo para a marca mineira na passarela, em comparação com o último desfile,  foi o foco em materiais brilhantes, como strass, pedrarias em geral e até mesmo tecidos brilhantes, como o veludo molhado. 

Logo no início do desfile a temática da juventude e da sensualidade é apresentado como um guia para compreender todo o resto da coleção. O primeiro look apresenta um maiô inteiro bordado de strass coberto por um longo sobretudo branco de inverno, já no segundo look jeans ornamento por strass revela ter sido uma mistura condizente entre o jovial e o sensual. 

A passarela foi marcada pela sensualidade dos looks, tanto nas silhuetas como nos tantos recortes nas modelagens dos maiôs, vestidos, saias e top croppeds. Além disso, a presença de materiais e peças mais quentes como casacos, croppeds de manga longa em veludo e blazers foi discutido pontualmente pela própria designer para desmistificar a crença de que “brasileiros não sabem pensar na moda invernal”.

Fotos retiradas para a montagem do Vogue Runway.

A brasileira em pouco tempo soube cativar a atenção da moda internacional e é possível enxergar a influência disso em sua assinatura, principalmente nesta última coleção. Ainda é preciso que a marca se desprenda de certos elementos, mas tendo em vista todo o seu caminho percorrido até aqui, é inegável a grande promessa que PatBo é para a moda brasileira no cenário internacional.

Se Jason Wu tinha o objetivo de explorar ao máximo a feminilidade com todas as suas facetas, ele certamente conseguiu na sua mais recente coleção de Outono/Inverno 2022 apresentada fisicamente na NYFW neste sábado (12).

Segundo notas do próprio designer, toda a atmosfera do desfile teve o intuito de resgatar o glamour dos anos 50 e homenagear aspectos da alta-costura estadunidense, além disso toda a coleção também foi uma homenagem ao companheiro de rotina de Wu, seu gatinho Jinxy, que veio a falecer recentemente.

Wu mostra ser possível explorar de diversas maneiras a temática floral, que já é familiar para os fãs de seu trabalho. Os motivos florais foram apresentados ao longo dos looks com certa discrição, sua presença se fez em estampas abstratas que remetem a silhuetas das flores e em bordados e rendas. 

O flerte com o uso de diferentes silhuetas do designer taiwanês foi equilibrado, explorando de tudo um pouco. Vestidos de bainhas curtas, outras longas, saias bolha e saias midi; casacos puffer de superfície acolchoada, enquanto houveram vestidos de cetim e chiffon que exploravam a cintura marcada ou não. 

Numa tentativa de se aventurar em novos matizes. Que se afasta dos verdes e amarelos vividos apresentados na sua coleção de Primavera/Verão 2022 e explora a feminilidade encontrada no rosa pink, vermelho e roxo; e a sensualidade embutida no preto, branco e marrom hickory.

O desfile se encerra com o vestido preto de número 37, em camadas e com uma cintura bem marcada, uma tentativa de fechar a passarela com a sensualidade discreta que o vestido passa. Mesmo assim sua finalização passou aquele desejo “por mais”, por querer ver mais trabalhos seguindo a temática explorada. 

O desfile de Outono/Inverno da Elena Velez, é uma celebração às diferentes formas de feminilidade; traz a força, o desejo por liberdade, a confiança e a sensualidade, que, sob a perspectiva da estilista, sintetizam o feminino.

Velez trouxe também, referências a questões impostas, pela sociedade, às mulheres, como a maternidade e a pressão estética. A simbologia maternal, abre espaço para homenagear a mãe da designer, que inspirou a coleção – capitã de navio e mãe solo, sua realidade fugia do que é descrito como adequado e feminino.

O embate entre o discreto e o extravagante descreve bem a apresentação da coleção de Outono/Inverno 2022 de Christian Siriano.

A apresentação física ocorreu no coração de Nova Iorque, no andar do Concourse do Empire State Building na noite de ontem (12). Os convidados da primeira fileira contaram com confidentes fiéis de Siriano, como a atriz Dre Barrymore, a famosa drag queen Aquaria, além da sua clientela habitual.

Nomeada de “Matrix Vitoriana”, segundo notas do desfile, Siriano – como qualquer outro designer contemporâneo a ele – teve como objetivo exprimir a angústia de tempos tão tensos como os de hoje.

Durante o curso na passarela, é muito ‘pontual’ essas referências do designer estadunidense. Peças em látex que remetem à rigidez de tempos futurísticos e distantes como o mundo de Matrix e o tule resgatando a delicadeza de vestidos de gala de tempos passados, tempos Vitorianos.

O designer logo de cara apresenta uma cartela de cores bem limitada, os azuis e pretos tiveram o maior destaque durante o desfile.

Foi interessante observar o trabalho de silhuetas do designer nos diferentes tecidos. Formas simples nos vestidos com silhueta de linha “I” no veludo molhado, e figuras mais experimentais em um dos tecidos mais norte-americano que se pode pensar, o Jeans.

Após anos sendo admirado por suas formas extravagantes, dessa vez os looks que rou-

baram a cena são justamente os mais discretos da coleção.

As estampas tiveram uma aparição um tanto desconexa ao longo da apresentação. Ter uma comunicação coerente entre as peças de uma passarela é de extrema importância, justamente para exprimir, sem sombra de dúvidas, a mensagem do estilista.

Estampas xadrez, florais, rendas bordadas, tules e chiffon com aplicações de lantejoulas e os veludos tiveram sua parcela de destaque na passarela.

Christian Siriano capta várias das diversas tendências de consumo dos últimos anos, como: os espartilhos, blazers de silhuetas rígidas, luvas, brilhos e rendas – que se acentuaram muito nessa última temporada de moda. Tal jogo de marketing pode se tornar proveitoso pelo ponto de vista comercial, mas ao final do desfile, a mistura de tantas informações como essas pode resultar num trabalho um tanto confuso.

Dessa vez, numa tentativa de querer explorar duas temáticas tão distintas – Matrix e a era vitoriana – em combinações não tão óbvias, a coleção final de Siriano precisou harmonizar com mais eficácia as ideias que o inspiraram.

Fotos retiradas para a montagem do Vogue Runway.

Com um desfile um pouco mais íntimo do que de costume, Brandon Maxwell sendo o penúltimo designer da noite de ontem (12), apresentou sua coleção de Outono/Inverno 2022 na NYFW.

Brandon Maxwell leva consigo os admiradores de seu trabalho de volta ao tempo de sua juventude, ao nascimento de seu amor pela moda tendo como mentora sua avó, que sofre de Alzheimer. Do início ao fim, o desfile transparece uma nova faceta de Maxwell, uma versão do estilista mais delicada e até angelical.

Diferente de suas coleções passadas, o designer estadunidense faz uso da simplicidade para explorar materiais já familiares aos norte-americanos, como o jeans, as rendas e a camurça – muito presente nos acessórios da coleção. A dança entre tecidos pesados e leves durante a apresentação soube equilibrar os looks de inverno, que não necessariamente precisam descrever uma estação rigorosa.

O jovem Maxwell durante sua infância costumava brincar com os xales e joias da avó e sua irmã era seu manequim preferido para explorar sua criatividade; seus looks refletem essa brincadeira infantil com um tom agora mais adulto do designer. Peças em cetim, chenille, renda, tecidos acolchoados, tricô, couro trabalham essas nuances entre o reto e o volumoso.

Toda a coleção é um retrato da vida de Brandon Maxwell, desde sua infância e a forma como a sua avó o influenciou até a abertura da sua própria boutique no Texas.

“Quando decidimos fazer um show, eu queria fazer algo que, se fosse meu último, fosse um suporte de livros do qual eu me orgulhasse”, disse o designer de 37 anos.

Uma coleção tão pessoal como a de Maxwell, revela o potencial criativo do estilista, um designer capaz de entregar looks glamourosos, como sempre fez, mas também que enxerga em sua trajetória pessoal aspectos da simplicidade que podem encantar igualmente o seu consumidor. 

O desfile foi iniciado e encerrado pela modelo Karlie Kloss. No look final, o vestido de gala com estampas florais estabelece a conexão íntima entre um neto e sua avó, as flores foram reproduzidas de uma pintura feita pelo avô de Maxwell em homenagem à esposa. Tendo como um toque final, uma echarpe acolchoada e ornamentada por plumas, que resgatam perfeitamente o primeiro contato do estilista com a moda e o olhar amoroso de um neto.

DIA 3

Atualizando as definições de ‘boho chic’, Ulla Johnson resgatou o estilo hippie e setentista, dando a ele uma nova roupagem, através de silhuetas e tecidos que marcaram os anos 90. As esculturas do artista Alma Allen – que fizeram parte da composição do cenário – foram fonte de inspiração para os tons acobreados e para as peças metalizadas. 

A produção artesanal é característica de Johnson, a coleção foi 100% feita à mão, em Miami, com processos de lavagem e acabamentos sustentáveis. O crochê e a camurça, vieram em propostas femininas, contudo imponentes; por meio da estamparia, Ulla homenageou o continente americano, unindo tradição e modernidade. 

Através de suas coleções temáticas, Piotrek Panszczyk, diretor criativo da AREA, já nos transportou para diversos cenários, mas curiosamente, o mais característico da marca, ainda não tinha sido abordado. Focada em peças com aplicação de pedrarias, bordados e recortes sensuais, a Area é sempre associada à festas, boates e, à vida noturna em geral. Apresentar o óbvio poderia soar cliché, mas Panszczyk sempre nos surpreende.

Inspirada pelo universo das showgirls, a coleção homenageou Zizi Jeanmarie e Josephine Baker, ícones dos anos 20, que marcaram o glamour Deco, trouxe também, o brilho das dançarinas de Las Vegas e, o ar divertido e misterioso do carnaval brasileiro – que inclusive, esteve presente na trilha sonora.

Mais do que apenas rostos bonitos, a coleção Spring 2022 da Area exalta a determinação feminina – Panszczyc reforça que abre espaço para uma discussão política, ao analisar o retrato social das showgirls e suas manifestações artísticas.

Fotos retiradas para a montagem do Vogue Runway.

Os bordados foram desenvolvidos em conjunto com artesãos indianos, enquanto headpieces e outros acessórios faciais, foram criados em Roma. Mais uma vez, a marca deu um show de criatividade e irreverência, através de peças extravagantes e perfeitamente executadas.

A coleção contou com looks mais conceituais, em relação à anterior, o que marca uma nova fase para a Area, com uma imagem mais estabelecida, possibilitando assim, uma maior afinidade com a alta-costura.

A marca fundada em 2016, por Catherine Holstein, mantém sua essência, repleta de peças em couro, jeans, alfaiataria e cashmere, em produções ousadas, com toque refinado e acabamentos impecáveis. 

Na coleção Outono-inverno, abusou desta ousadia característica, numa proposta industrial, jovem e sexy – surpreendentemente, sem saltos altos, um grande diferencial. 

Mais uma vez, a estética futurista é apresentada na fashion week, marcada pelos tecidos metalizados, transparências, aparência molhada e, até mesmo, pelas franjas, que acompanham uma padronagem de linhas desconstruídas; já as modelagens oversized, foram substituídas por peças que, propositalmente, parecem ajustadas. 

A coleção de Outono/Inverno 2022 de Eckhaus Latta encerrou a noite e comemorou o marco de uma década da grife no mercado. Com um dos desfiles mais marcantes até o momento, Mike Eckhaus e Zoe Latta se mantêm firmes em suas assinaturas que transformou a marca em uma das marcas independentes mais potentes da NYFW.

Do início ao fim do desfile, os recortes e as modelagens “desconstruídas” das roupas foram o alicerce de toda apresentação. A dupla de designers reafirma mais uma vez sua criatividade em torno da escolha de materiais, em conjunto, com o recorte e a forma que estes são trabalhados, resultando em silhuetas singulares da marca.

“Não queríamos ser nostálgicos ou retrospectivos, mas queríamos trazer de volta as coisas que amamos das nossas primeiras coleções, especialmente o trabalho manual”, disse Eckhaus e Latta. 

Peças de malhas e couro recortadas e construídas de maneira instintiva, calças jeans desfiadas de cima a baixo, os tules; todos trabalhados de maneira que refletissem integralmente a assinatura dos fundadores da marca. A atenção às texturas das superfícies de cada peça foi provavelmente o ponto alto da coleção. O brilho também teve sua parcela de presença durante o desfile, em peças de lantejoulas, strass, fios brilhantes que entrelaçam as malhas e no brilho natural das peças de couro à luz do ambiente.

Toda a coleção da marca prova que é possível reproduzir constantemente a estética indie alternativa da dupla com qualquer cartela de cor, e dessa vez não foi diferente, o uso do rosa pink, em conjunto com os tons terrosos, cinzas e pretos não deixa de revelar a alma indie da coleção.

Fotos retiradas para a montagem do Vogue Runway.

O desfile soube tomar a responsabilidade de deixar os espectadores da NYFW encantados, ao mesmo tempo que reafirma as características da própria marca, que as fizeram se tornar uma potência na moda independente nova-iorquina.

Inspirado por sua recente viagem à Escócia, Joseph Altuzarra trouxe o estilo navy às passarelas, fazendo referência à uma lenda local – na narrativa, um marinheiro é seduzido por sereias e, transformado em uma criatura marinha; os estágios desta mutação podem ser percebidos ao longo da coleção: composições mais pesadas e estruturadas, com ar militar, são apresentadas no início; em seguida, as peças tie dye em malha, simbolizam a sedução; por fim, lantejoulas que lembram escamas, aparecem gradualmente, até que tomam conta dos looks por completo, marcando o fim da transformação.

A coleção de Outono/Inverno resgatou tópicos da temporada passada, com releituras nada óbvias; o tie dye, que marcou a Primavera da marca, apareceu com novos padrões e em diferentes tecidos, como malhas e cashmeres. Já o estilo militar, foi retomado de coleções apresentadas há mais de uma década; Altuzarra conta que o reconhecimento destas modelagens, por antigos clientes, traz uma sensação nostálgica, como se pudesse observar o passado da marca.

Para o futuro, Joseph investe também numa nova linha, denominada “Altu”, onde traz um abrangente olhar genderful – não confundir com genderless, como ele costuma frizar.

DIA 4 

A temporada de Outono/Inverno da marca, apresentada por Wes Gordon (diretor-criativo), reflete a sensibilidade, leveza e sutileza, que são registros da Carolina Herrera em seus 40 anos de existência. A coleção simboliza o romantismo 一 carregado por seus vestidos fluidos e clássicos 一 unido ao poder feminino e exuberância, contemplados com um toque de alfaiataria clássica fabricada em ondas ondulantes. A energia da imagem feminina proposta por Gordon reúne a energia, o drama e o jogo de cores, que fazem da coleção um show de sofisticação e linearidade. 

Fotos retiradas para a montagem do Vogue Runway.

Haoran Lin e Siying Qu 一 co-fundadores e responsáveis pela direção criativa da Private Policy 一 embarcaram nas influências do estilo urbano e esportivo para a coleção de Outono/Inverno 2022 da marca. Para esta temporada, a dupla confeccionou peças indispensáveis no guarda-roupa nova-iorquino: trench coats, moletons, alfaiataria e vestidos em seda. Além disso, embalados pela necessidade e seu compromisso com os tópicos social e sustentável, as vestimentas da coleção contaram com um tecido oriundo dos jornais bem como a reutilização de tique-taques (utilizados em diferentes formas) para adicionar personalidade à maioria dos looks expostos pela marca.

Fascinada pelo universo noturno e seu ‘glam’, Alexandra O’Neill fez da mais nova coleção de Outono/Inverno 2022 da Markarian uma exposição típica de uma noite de gala. Inspirada nas capitais cosmopolitas e sua vida noturna 一 fazendo jus inclusive à capital nova-iorquina 一, Alexandra não poupou a adição de brilhos e plumas à suas criações. A exposição ainda conta com peças em seda e renda e acessórios inspirados nas famigeradas e clássicas décadas de 1910 e 1920.

O streetswear é, sem sombra de dúvidas, a assinatura da Coach. Para esta temporada, Stuart Vevers 一 atual diretor-criativo da casa 一 explanou uma proposta ainda mais inspirada no estilo urbano. Ambientada em um cenário de rua, a coleção é inteiramente apresentada em uma atmosfera cotidiana, inserida nos arredores de ‘Coachville’ (cidade imaginária onde se narra a história urbana da marca). A apresentação ainda conta com a participação de peças tradicionais da casa: T-shirts com grafites lúdicos, casaco clássico de shearling, peças em couro reaproveitado 一 com cortes que referenciam os anos 1970 一  e vestidos em renda e crochês, evidenciando a influência do dia-a-dia nas veias da Coach.

Fotos retiradas para a montagem do Vogue Runway.

Apesar de ser considerado novo na indústria da moda, Connor Mcknight aparentemente tem feito um ótimo trabalho autoral para sua marca homônima. Para a sua coleção de Outono/Inverno 2022, o estilista tem buscado mergulhar em sua própria originalidade para confeccionar suas peças, produzindo suéteres de lã feitos à mão e algumas produções em malha 一 como vestidos, por exemplos 一, que são assinatura e clássicas de Connor. Além disso, a coleção ainda assina uma pegada sutil composta de muita elegância dos anos 1950 sem perder sua atemporalidade e atualidade.  

Diferentemente da última coleção de Outono/Inverno, para esta temporada de 2022 de sua marca homônima, Tory Burch reúne uma apresentação altamente nova-iorquina, embalada pelo próprio cenário 一 que faz referência ao título ‘Nova Yorker’ 一, e expressa, especialmente através da diferença na composição dos looks, que variam desde silhuetas mais acentuadas e passam por terninhos mais fluídos, composições com pegadas mais esportivas, vestidos longos e justinhos, suéteres em lã, cardigans e criações portando linhas horizontais, a caracterização da diversidade, originalidade e liberdade nos quais os nova-iorquinos expressam em seu modo de se vestir.

Apesar de parecer convencional, o streetwear proposto por Maryam foge do habitual quando a mesma propõe a junção de cores e recortes nas peças de uma maneira única, assim como aconteceu em sua mais nova coleção de Outono/inverno, apresentada nesta segunda-feira (14). Para esta temporada, Zadeh recorreu ao estilo moderno e atual reunindo-o em uma coleção majoritariamente em tons de creme e contendo peças em estampa xadrez, forro em anágua, jaquetas de couro, ternos em alfaiataria, transparência e saias sobrepondo calças.

Após dois anos longe das passarelas, Dion Lee retorna à Semana de Moda de Nova York com sua marca homônima honrando de maneira exemplar aquilo que ele sabe fazer muito bem: roupas andróginas. Conhecido por vestir personalidades como Lil Nas X e Troye Sivan, o estilista traz para sua nova coleção de Outono/Inverno peças que reúnem o olhar único de Lee para transformar suas criações em vestimentas sexys (sem serem vulgares) 一 expressas pelas peças criadas a partir do ‘sex appeal’ ou exposição da pele. Uma outra assinatura de Dion que marca presença nesta temporada são os corsets (espartilhos) recortados e suas silhuetas esculpidas, além de peças e acessórios em couro que adicionam ainda mais personalidade à sensualidade de sua marca e coleção.

A figura feminina de Laquan Smith é sensual, exuberante, moderna, livre e empoderada. Em outras palavras, a forma como Smith desenha e expõe suas peças traduz o espírito feminino em sua representação mais literal. Para esta temporada, a sua representação é mais vívida como nunca: os 37 looks apresentados por LaQuan nesta segunda-feira (14), abrigam uma coleção repleta de cores, festividades e muita jovialidade. O desfile foi dedicado ao jornalista André Leon Talley e reuniu looks de pele, calças cargo de couro, minissaias, lantejoulas em diferentes cores e jaquetas de motoqueiros.

DIA 5

Inspiradas e criadas a partir das formas e silhuetas masculinas, a nova coleção de Outono/Inverno da uruguaia Gabriela Hearst embarca na proposta de peças andróginas 一 vestimentas que possuem traços de ambos os sexos, se diferindo da proposta ‘genderless’ (sem gênero). Segundo a estilista, em uma entrevista concedida à Vogue um dia anterior à apresentação de sua nova coleção, a androginia surge nos mesmos períodos em que novos pensamentos ocorrem. O tema proposto é claramente refletido nas criações para esta exposição, que se alinham muito bem aos ideais da casa. 

Embora seja fortemente influenciada pelo conceito minimalista 一 o que é expresso principalmente através da ausência de detalhes exacerbados por toda a coleção 一, as vestimentas apresentadas por Hearst nesta temporada brincam com o uso de cores ao longo de toda a coleção. É possível observar um jogo de cores entre o amarelo, vermelho, rosa e preto 一 em sintonia com a passarela, inclusive 一 simbolizando o otimismo sugerido por Gabriela aos novos tempos, que marcam a transição entre a pandemia e seu eventual momento ‘pós’. 

Este sentimento de otimismo comporta-se praticamente como uma assinatura da estilista. No entanto, nesta temporada fica ainda mais evidente através da forte presença de tons brilhantes em amarelo (que para muitos atribuem ao significado de luz, otimismo e prosperidade, por exemplo) e laranja 一 ligada ao significado de vitalidade, alegria e sucesso. 

Fotos retiradas para a montagem do Vogue Runway.

Um outro ponto que também sempre esteve alinhado às propostas de Gabriela Hearst para sua marca homônima tem sido a preocupação da designer com tópicos sociais e ecológicos. A pauta entrou oficialmente em vigor na casa a partir do ano de 2017. 

Desde então, a estilista tem sempre buscado abordar essa temática, seja através de suas coleções ou do cenário de seus desfiles. Este ano não foi diferente: cerca de metade da coleção é oriunda de materiais reciclados 一 valor este que Hearst pretende dobrar até o final do ano, apesar de ser um compromisso árduo a ser cumprido 一 e as cores utilizadas nas peças (como os tons de amarelo, laranja, dentre outros) são originais de corantes orgânicos, que alinham-se perfeitamente à abordagem da casa. 

Fotos retiradas para a montagem do Vogue Runway.

Outro fator que é bastante aparente nas inspirações de Gabriela para esta coleção compreende as suas raízes uruguaias. Nesta coleção é possível observar peças em crochês, ponchos fabricados artesanalmente 一 bastante utilizados no país de origem da estilista 一, botas em cano mais longo, vestidos plissados e em estampas, criações em couro, cintos que lembram o guaiaca (bastante presente na cultura uruguaia), uso do tricô, além do uso da alfaiataria 一 que finca a presença da marca no mundo moderno, sofisticado e clássico 一 e da beleza (maquiagem e acessórios) da coleção, que relembram os nativos da região provinciana na qual Hearst morava. 

Outro detalhe que chama a atenção na marca Gabriela Hearst é a recorrente presença de aspectos naturais em suas coleções. Para a temporada de Outono/Inverno de 2022, Gabriela buscou demonstrar sua conexão com o tópico ‘natureza’ através da colaboração com o artista Amo que, segundo as próprias palavras da designer, costuma pintar a alma das árvores e da natureza. Além disso, as filhas da estilista também colaboraram na construção das estampas florais presentes na coleção. 

Para o âmbito social, Gabriela voltou a trabalhar com projetos bastante atuantes quando o assunto é o impacto social. A designer colaborou com artesãos independentes de seu país, Uruguai, e também com artistas bolivianos. O cenário de apresentação da coleção foi criado pela Groundswell, uma fundação sem fins lucrativos da cidade de Nova York que apoia o trabalho de jovens. Além disso, colaborou também com o Centro Ali Forney, que oferece ajuda aos jovens LGBTQIA+ que lutam para encontrar um lar para viverem. 

Ademais, a coleção apresentada por Gabriela Hearst nesta terça-feira (15) foi extremamente cativante e altamente alinhada aos propósitos e ideais da diretora-criativa enquanto pessoa e marca. Com um show repleto de boas vibrações, otimismo e alegria, a casa de Hearst conseguiu, mais uma vez, confirmar sua responsabilidade e maneira criativa, além de reafirmar seus princípios. 

Em uma pegada aparentemente um pouco mais melancólica, Peter Do apresenta uma coleção de alta qualidade nesta terça-feira (15). Após uma pausa de duas coleções voltadas à temporada de Outono/Inverno 一 visto que a última exposição para este período foi lançada em 2019 一, o designer retorna às passarelas e à estação mais potente do que nunca. 

Para esta temporada o estilista apresenta ao público aquilo que ele sabe fazer de melhor e em qualidade aparentemente inquestionável: a alfaiataria fina. Um outro detalhe que volta 一 e ainda mais forte 一 nesta nova série apresentada por Do é a sua paleta de cores simplista e sua silhueta atemporal, que contrasta muito bom com o agito da capital nova-iorquina e atribui à cidade das grandes luzes uma calmaria revestida em sofisticação e classe. 

Intitulada ‘Fundação’, a nova exposição de Peter Do revisita o passado e as coleções inaugurais da casa, de forma que estabeleça as bases para a ‘casa’ que eles buscam construir, concentrando-se de maneira mais precisa na inovação acima daquilo que é ‘’novo’’. 

A paleta de cores presente nesta galeria representa uma coleção linear, cimentada, mas escolhida categoricamente e de um modo altamente criterioso adiciona um toque especial de sobriedade na coleção que comporta-se de maneira tão elegante. As 36 peças expostas nesta coleção, segundo o próprio Peter Do, simbolizam uma conversa inteiramente íntegra e resiliente, além de encenarem um encontro entre passado e presente, o que indica ser sua exposição mais interpessoal até o momento. 

A figura feminina de Peter Do é símbolo de poder, elegância, classe, categoria e, acima de tudo, atemporal. E estes adjetivos são todos reproduzidos em forma de vestimentas. 

Enquanto algumas marcas preocupam-se com a entrega de trabalhos resumidos ao exagero na adoção de detalhes, Peter Do com seu trabalho simplista, casual e minimalista entregam peças que resultam em um ótimo trabalho 一 seja no que se diz respeito à sua costura no momento de confecção ou pelo desenho em si.  A nova coleção de sua marca homônima comporta-se como um presente aos amantes de uma boa alfaiataria e com um apreço pela praticidade do cotidiano. Apesar de parecerem simples, as peças desenhadas por Peter são impactantes e resultam em um trabalho praticamente impecável. 

Ainda chama a atenção a presença de peças que, em sua própria composição, contrastam nas cores entre si. Blazers em alfaiataria e oversized também foram componentes marcantes nesta temporada de Peter Do, bem como os cintos triplos, a sobreposição de roupas e peças apresentando pontilhados 一 simbolizando o rascunho 一 deixados ali propositalmente. A sensualidade na coleção aparece de forma não-óbvia (à la Peter Do) e fica por conta de fendas, decotes profundos e recortes laterais, sem abrir mão do requinte de sua assinatura. 

A coleção como um todo, ao mesmo tempo em que demonstra revisitar a história e estar intrinsecamente ligada aos aspectos passado-presente, comporta-se de modo eminentemente moderno e atual, contribuindo ainda para reafirmar o grande potencial de Peter Do como designer e o seu poder em se sobressair como um grande estilista.   

Backstage de Michael Kors Collection, retirada do Instagram da marca.

Determinado a deixar a pandemia para trás, Michael Kors trouxe uma certa ‘simplicidade’ para sua coleção. Descomplicar as coisas para Kors significa looks monocromáticos dos pés a cabeça — vimos coral, rosa e amarelo em tons neutros, assim como chocantes neons. A aposta de Kors ficou para o outerwear: “em Nova York é seu cartão de visita”.

DIA 6: 

Hillary Taymour, criadora e designer criativa da Collina Strada, em todas as coleções faz roupas que lisonjeiam todos os corpos e todos os modos de vida, além de apresentações e looks que fujam do normal. Nesta temporada de outono- inverno 2022, Taymour apresenta sua coleção de forma diferente e divertida (como costuma fazer). Com “The Collinas”, um filme com tema de reality show estrelado por Tommy Dorfman, apresentado no cinema Angelika. Muito da estética e formato se compara ao icônico reality show “The Hills” dos anos 2000, que coincidentemente – ou não – “Hills” significa “Colinas”, e ao Keeping Up With The Kardashians. 

Fotos retiradas para a montagem do Vogue Runway.

Tommy sai de Los Angeles e vai à Nova York para uma oportunidade de estágio na Collina Strada. Nos bastidores é possível ver as roupas da coleção, depois apresentadas em estilo passarela durante os créditos, onde aparecem os nomes de mais de 30 modelos. 

A coleção remete muito aos anos 2000, com saias e calças em cintura baixa com detalhes no cinto, estampas e cores vibrantes em vestidos de babados em camadas sobre calças largas, moletons psicodélicos e tie-dye. Algumas ideias da primavera/verão de 2022 estão presentes, como a camiseta com estampa de anjo e peças de camadas de malha. Hillary também inclui na coleção jaquetas de veludo amassado com enchimento de penugem de flores, feitas com listras de zebra ou costura em estrela.

As dobras das calças são combinadas com tops e capas de tons brilhantes, do rosa ao verde e azul, com mangas bufantes. Calças são apresentadas em couro, nylon e outros tecidos, com os cintos brilhantes ou tênis de várias silhuetas e modelos. 

Quando se fala em sustentabilidade na moda, a marca tem se tornado referência e um dos nomes mais importantes nesse quesito. No outono/inverno de 2021, Hillary utilizou de sobras de matérias-primas e ressignificou peças antigas de estações passadas, além de se unir à plataforma americana de resale The Real Real, transformando peças impróprias para venda em novos tops, calças e vestidos.

Nessa temporada, a designer usa de seu questionamento sustentável na apresentação em quase todo o filme desta coleção. A nova estagiária é zombada e questionada pelos colegas do estúdio ao comer um sanduíche à base de carne enquanto todas da mesa se alimentam de legumes e frutas. Além de, beber café em um copo descartável quando as outras meninas usam seus próprios squeezes, e também de tirar muitas selfies. 

Por mais que muitas das coleções da marca apresentando uma estética Y2K,  “mais é mais”, muitas cores presentes, e até um excesso de material, as roupas de Collina Strada são feitas conscientemente. Hillary faz questão de sempre trazer diversidade à frente da marca, como os modelos sempre diversos, com idade, etnia, gênero e capacidade física. A mãe de 70 anos de seu colaborador, Charlie Engman, é apresentada no The Collinas, assim como Aaron Philip, o modelo negro, transgênero e deficiente. Ambos apareceram  junto com modelos. 

Hillary pretende expandir os negócios para calçados, oque custaria US$250.000 para iniciar a produção do design usando práticas sustentáveis. E, admite que o desafio é este, crescer um negócio se mantendo fiel a sua consciência ambiental. 

Quando a pandemia começou, instituições de moda estavam procurando maneiras de apoiar pequenas marcas, o que resultou a levar avanços para a Collina Strada. A marca foi incluída no programa Vaul da Gucci para jovens designers.  

Ademais, a coleção apresentada por Hillary Taymour nesta quarta-feira (16) seguiu as ideias da marca. Divertida, alinhada aos propósitos e ideais conscientes de Taymour para sua marca. Apresentada de forma diferente e leve, reforçou ser possível passar uma mensagem transparente sobre consciência ambiental, o que a marca deseja seguir daqui para frente.

Designer nascido em Singapura, mas criado no Nepal, Prabal Gurung sempre fez referência às  suas origens e passado em suas coleções. Devido à pandemia, não pode retornar sempre a sua terra natal como fazia de costume. Para esta coleção de outono/inverno 2022, Gurung relata que “é um conto de duas cidades”, se referindo à Nova Iorque e ao Nepal. Ele traz referências e cores que fazem referência aos dois lugares. 

Para essa coleção, Prabal mergulha na sensibilidade do espírito nova-iorquino.  Apresenta tops de seda, botas cano alto e vestidos compridos. As cores vão do preto, rosa, amarelo, verde e vermelho. Estampas florais que remetem a sua herança do Nepal, um enorme apego emocional aos rododendros. Nessa temporada, o designer admitiu que quis inspirar o desejo de viajar, ainda mais após dois anos de pandemia. “Sempre ando na linha tênue entre esperança e pragmatismo”, relata. 

Fotos retiradas para a montagem do Vogue Runway.

Prabal relata que faz a celebração das mulheres “aqui e ali”, com cores e silhuetas, contando a história visual das mulheres que definem a nação. Em sua coleção de primavera/verão 2022, o designer também fala sobre as referências e celebração às mulheres, propondo uma grande reflexão sobre todas as forças por trás da chamada vulnerabilidades femininas. 

Dessa vez, optou por não abordar temas sociais ou políticos como havia feito anteriormente. Nesta coleção, ele não faz uso de grandes construções ou formas elaboradas, mas busca looks confortáveis para a silhueta feminina. 

Prabal não exagera em seus designs, opta por algo que entregue sua mensagem desenvolvida e que não faça grandes reflexões para compreender o que foi apresentado. 

Mesmo assim, seus looks chamam a atenção pela beleza e cor. Vestidos com lantejoulas, recortes, tamanhos diversos. Indo desde algo mais despojado e largo, ao mais justo e festeiro. Pragal continua seguindo sua linha de desenvolvimento com looks de cores chamativas, mas que mantém sua elegância. 

Frenezi na semana de Alta-Costura

A semana de Alta-Costura, personificação da maior forma de apreciação de moda possível, teve o início para sua temporada de Primavera/Verão 2022 na segunda-feira (24) — e marca também a volta oficial da semana de moda mais opulenta e escapista para as passarelas presenciais.

Começando pelo começo, o que é Alta Costura? Quais as diferenças desta para as outras semanas de moda?

Existia-se um tempo no qual as roupas da aristocracia local eram produzidas como peças individuais dentro do estilo popularizado entre a classe social, peças extremamente caras e de difícil acesso, feitas manualmente.

O primeiro designer a realmente apresentar coleções sazonais como conhecemos hoje foi Charles Frederick Worth — um homem inglês que se tornou o pai da Alta Costyra francesa. Aos treze, Worth foi aprendiz na firma londrina de comerciantes de tecidos Swan & Edgar, mas o verdadeiro começo de seu sucesso foi quando um vestido de corte desenhado por ele para a companhia de sedas de alta qualidade Gagelin- Opigez, foi premiado na exposição universal de 1855, logo depois deixou a carreira em tecidos para se estabelecer como estilista sob seu próprio nome em Paris. E com a ajuda se sua persistente esposa em mostrar os desenhos do Marido Charles Frederick Worth conquista sua maior e mais leal cliente, a Imperatriz Eugênia:

Pintura de Franz Winterhalter de Imperatriz Eugênia e suas Damas e companhia.

“Tal apoio garantiu a Worth uma posição única como costureiro de uma imperatriz, que podia decretar o comprimento de uma bainha segundo seus caprichos.” 

Cronologia da Moda de N.J Stevenson.

A Maison Worth foi o primeiro estabelecimento de alta-costura, ao invés de ter uma costureira que ia nas casas das mulheres, suas clientes visitavam seu prestigioso salão e os vestidos eram feitos sob medida, mediante a uma série de provas, também tornou-se o primeiro costureiro a produzir coleções sazonais que eram depois mostradas as clientes.

O negócio florencia, mas Charles Frederick Worth teve sua morte em 1895, a Maison Worth expandiu-se para Londres e os filhos Gaston e Jean-Philippe se asseguraram que a companhia continuasse crescendo e conservasse a influência do nome da marca na moda de luxo, e em 1910 Gaston Worth fundou la Chambre Syndicale de la Haute Couture, para proteger os direitos de autor e os padrões de qualidade da indústria.

A questão que o Sindicato acabou aumentando de tamanho, abrangendo para um grupo seleto de marcas, essas que foram divididas em três grupos: Membros fixos – que contém nomes como Chanel, Christian Dior, Schiaparelli e Givenchy – Membros Correspondentes – Giorgio Armani Privé, Elie Saab, Fendi Couture e Valentino – e os Membros convidados – Azzaro Couture, Zuhair Murad e Guo Pei. Os membros devem seguir uma série de normas e qualificações organizacionais como da qualidade material e artesanal da produção de suas coleções, para se apresentarem na semana de alta-costura de Paris.

Atualmente a alta-costura representa muito mais que uma apresentação de vestidos de festa para algumas senhoras burguesas, é a maior forma de apreciação de moda como forma de arte uma forma escapista de fazer e desenhar modas, com recursos e alcance que só realmente a alta-costura pode ter.

Schiaparelli coleção de alta-costura de Primavera Verão 2022.

Confira a cobertura completa da Semana de Alta-Costura de Primavera-Verão:

DIA 1

Começamos o primeiro dia de alta-costura desta temporada com o desfile assinado por Daniel Roseberry para a marca, Schiaparelli, os que não estão familiarizados com a visão do designer para a casa centenária. Roseberry entrou na Schiaparelli com uma grande liberdade criativa, essa ele criou uma própria identidade estética para a marca.  

Historicamente Elsa Schiaparelli é um dos nomes mais reconhecidos na história da moda desde beber com Jean Cocteau e colaborar com Salvador Dalí, a designer foi uma grande bonvivant dos anos boêmios em Paris na década de 1930. Existia um amor e fascinação de Elsa pela arte surrealista, o legado da moda Schiaparelli aparecem cheios de códigos que borram as linhas entre o real e o estético. Nesse cenário Daniel Roseberry olha para a história tão rica da marca e sua fundadora e consegue trazê-la para a atualidade, com seus vestidos de alfaiataria extremamente bem estruturados com placas de acessórios em dourado que conseguem seguir o amor surrealista que existe no DNA da marca e arrecadar a atenção dos amantes de moda.

Schiaparelli coleção de alta-costura de Primavera Verão 2022.

A coleção marca a volta da Schiaparelli para as passarelas parisienses depois de um hiato que começou em conjunto com a pandemia, em 2020, a grande inspiração da coleção em si, Roseberry como um grande fã de surrealismo começa a flertar com a outra face da mesma moeda, o existencialismo. A coleção conversa diretamente com o que seria o vazio e qual a relação do mesmo com os cosmos. 

Montagem feita com os desfiles do dia 1, imagens retiradas do Vogue Runway.

Daniel Roseberry conversou sobre com o jornalista Anders Christian Madsen “Existe essa palavra em francês para quando você está dirigindo em um penhasco e sente uma vontade repentina de sair da estrada.  É chamado de ‘o chamado do vazio”’, disse ele durante uma prévia no dia anterior.  “Acho que foi assim que senti o espaço”, explicou ele cercado por vestidos orbitais e bolsas planetárias em seus salões Place Vendôme.  “O vazio é a ausência dessa realidade.”

A inspiração voltada para o escapismo de filmes de ficção científica e galáxias distantes   (Os citados para inspiração da coleção foram: Dune, Prometheus, Interstellar e A chegada), ele se recolhe pensando em outro plano justamente pq alta-costura talvez é a forma com maior escapismo dentro da moda.

“Continuamos dizendo ‘Planeta Schiaparelli’: eu queria fazer algo que parecesse totalmente diferente de qualquer outra pessoa.  Nada mais deveria ser assim.”

Em conjunto pela apreciação recorrente do designer com os arquivos de Schiaparelli, semelhanças como uma capa de 1938 inspirada na fonte do Palácio de Versalhes “Apollo”, e da coleção de Elsa Schiaparelli Zodiac e Cosmique de 1938 também, que entra no tema da coleção atual e seus cosmos.

Schiaparelli coleção de alta-costura de Primavera Verão 2022 e as inspirações originais de 1938.

Seguindo para o segundo desfile do dia aconteceu no Museu de Rodin em Paris para a apresentação de Maria Grazia Chiuri na Christian Dior. A designer faz referência ao artesanato nessa coleção de alta-costura, uma paixão provinda de suas raízes italianas. Utilizou de uma paleta simples girando em torno do preto, branco e cinza, com roupas básicas expressadas em alfaiataria, vestidos longos, macacões e capas com costuras simples. 

Atmosfera desfile da Dior no Museu De Rodin.

Uma releitura do minimalismo aos olhos de Chiuri, a frente de uma das marcas com um dos maiores legados dentro da alta-costura, a sede dos amantes de moda por esplendor e exuberância cresce cada vez mais principalmente na Dior, o minimalismo pode não ser o que é esperado para a marca, mas temos que admitir que ainda existe uma qualidade manual e maestria no artesanato que acontece na Dior.

Christian Dior coleção de alta-costura de Primavera Verão 2022.

Terminamos o dia com Azzaro Couture, após dois anos de isolamento Oliver Theyskens faz sua previsão para as festas e a vida pós-pandemia, vale relevar que o designer que hoje assina a coleção para a casa não era um grande fã de lantejoulas e grandes momentos ligados a festas, durante essa temporada ele explica como é libertador a confiança que se tem em um ateliê de alta-costura para a jornalista Ellie Pithers:

Fotos de todos os desfiles do dia 1: Schiaparelli, Azzaro e Christian Dior. Retiradas do Vogue Runway.

Adoro a possibilidade de brincar com coisas que antes era mais tímido: paillettes, cristais, lantejoulas, disse ele, em prévia na sede da casa no oitavo arrondissement. Isso é uma coisa típica da Azzaro, e estou descobrindo  como pode ser bonito.  Parte disso se deve ao bom relacionamento de trabalho com a equipe do ateliê.  Quando você entende a cultura, o que [o atelier] sabe fazer, você pode ter certeza que quando você faz um design, ele será feito corretamente.”

De uma alfaiataria envolvendo texturas e bordados diversos, com conjuntos de mangas longas e calças que poderiam ter saído do guarda-roupa de Jane Birkin nos anos 70, recebemos uma coleção bem interessante no quesito de roupas agênero dentro da alta-costura, ternos coloridos em um metálico líquido, de veludo e com cristais fazem parte da coleção. Vestidos com caimentos estratégicos e bordados bem posicionados também fazem parte da coleção de Theyskens, afinal ainda é alta-costura.

DIA 2

O segundo dia da semana de alta-costura começa com uma atmosfera imersiva na Chanel de Virginie Viard, para o cenário de apresentação a marca colaborou com o artista Xavier Veilhan para transformar a sala de desfiles. A coleção de Viard tem como sua maior inspiração a década de 1920, o que foi o bastante para inspirar o artista plástico na produção, se baseando nas Wold Fairs da década de 20 e em artistas como Sonia e Robert Delaunay: “Acho que na moda há sempre essa ideia de relação com a história, mas também de sempre renovar constantemente.  Como artista, senti que poderia fornecer outra relação com o tempo.” Ele explica para o jornalista Hamish Bowles.

Atmosfera desfile da Dior no Museu De Rodin.

Apesar de uma atmosfera que realmente tem a grandiosidade e o peso de uma marca de décadas na alta-costura como a Chanel, mesmo com a Princesa Charlotte de Mônaco literalmente galopando em um cavalo na passarela com um terninho de tweed chanel – a coleção é confusa.

Talvez sejam suas precursoras, durante o ano de 2021 foi possível observar uma grande mudança na Chanel de Virginie Viard, ao invés de olhar para o legado do falecido Karl Lagerfeld, a designer se encontrou mesmo retratando e tirando inspirações de movimentos jovens e mulheres fortes – Pre-Fall, Resort e Primavera Verão 2022 – esse afastamento permitiu o amadurecimento das ideias e a direção clara para a marca, que estavam sendo coleções interessantes e que lhe deixavam animada para ver qual seria a próxima. Infelizmente esse sentimento não é muito perceptível nas coleções de alta-costura.

Montagem feita com os desfiles do dia 2, imagens retiradas do Vogue Runway.

Inspirado na estética dos anos 20, na menina interior e na modalidade esportiva de hipismo. A presença de looks de chiffon, organza, com penas e os clássicos tweeds de Coco Chanel foram indispensáveis neste universo criado por Virginie Viard, em parceria com Xavier Veilhan – o maior problema dessa coleção talvez fosse exatamente que as principais fontes de inspiração para a coleção não são um conceito claro, com alguns looks com diversas características diferentes perdendo um pouco a coesão e fluidez.

Chanel coleção de alta-costura de Primavera Verão 2022.

Contudo, seguimos em um ano que esperamos ser forte para Viard em sua trajetória na Chanel, com suas inspirações em mulheres fortes e honrando o atelier de gerações da marca.

O designer Alexis Mabille explicou no backstage para a jornalista Tina Isaac-Goizé que sua coleção de 25 looks poderia ser delicada a primeira vista mas sua primeira inspiração para a confecção da coleção foi o desejo “It’s all about desire”, com tons neutros, formas que se assemelham a lingeries e rendas, mas ainda não consegue se desprender das amarras delicadas de sua marca, sendo o look final uma capa com um laço estruturado bem na cabeça.

Alexis Mabille soube encontrar a feminilidade e graça para navegar entre os tons de rosa, bege, preto e dourado. Sua mistura de drapeados, vestidos sanfonados, laços de cetim, rendas e paetês descreveu bem o tom que a coleção foi capaz de passar.

Alexis Mabille coleção de alta-costura de Primavera Verão 2022.

O dia termina com a coleção de Alexandre Vauthier, a marca é membro recorrente da semana de alta-costura desde 2014 – quando entrou para o Sindicato Francês de alta-costura e moda – com seu DNA amarrado no evening wear, em roupas de festas com uma alfaiataria forte e complexa, Vauthier é ombros altos, mini comprimentos, fendas, metálicos e lantejoulas.

Nesta coleção não foi diferente, com o designer falando ao WWD sobre sua inspiração nas histórias e narrativas que retratam as festas e a liberdade dos anos 20 em Paris, com decotes em triângulo, cinturas baixas, camadas de chiffon nas bainhas e bordados, como por exemplo no primeiro look da coleção já conseguimos entender exatamente onde a inspiração foi.

Alexandre Vauthier coleção de alta-costura de Primavera Verão 2022.

Além de um olhar moderno e muito bem executado sobre o visual de festas para agora em diante, um sexy velado, com recortes estratégicos, plumas, capas e vestidos turquesa cobertos de cristais. A  marca trás um diálogo sobre a mulher moderna, que usaria um terno ou plumas para trabalhar até a noite de festa, e ninguém sabe vestir para uma noite em claro como Alexandre Vauthier.

Fotos de todos os desfiles do dia 2: Chanel, Alexis Mabille, RDK e Alexandre Vauthier. Retiradas do Vogue Runway.

Elevando o patamar da palavra “vanguarda”, Ronald Van Der Kemp explora as inúmeras possibilidades de formas, silhuetas, cores e materiais com sua admirável criatividade. O holandês se destacou mais uma vez pela sinergia de ideias em sua coleção. O designer já foi reconhecido pela comunidade da alta-costura como sendo exatamente a vanguarda dentro do Sindicato, diferente das casas made-to-order tradicionais, a marca utiliza de diferentes materiais e tecidos para suas coleções de alta-costura, até mesmo materiais que já haviam sido utilizados antes.

O holandês ao mesmo tempo traz um respiro necessário para a semana, cheia de vestidos limpos e minimalistas de chiffon, em contraste com seus grandes e coloridos momentos. Alguns exemplos de roupas como, um vestido pintado à mão com ombros esculturais no Look 2,  um macacão de pássaro disco assimétrico de perna única com asas de organza de seda no Look 5, uma jaqueta combinando e jeans feitos de jeans descartados emendados e moldados em um motivo de escama de jacaré no Look 11,  e para fechar um vestido de festa feito de fatias geométricas entrelaçadas de feltro ecológico no Look 34.

Quem mais conseguiria uma clientela base para esses looks sem ser Ronald Van Der Kemp? Mas apesar disso há certa admiração pela harmonia improvável entre a coleção, cada peça de roupa é pensada individualmente e duramente trabalhada e construída individualmente mas, é possível entender a linha de pensamento do designer olhando para a coleção como um grupo, uma linha de raciocínio de um cliente específico e fechado mas com uma identidade visual clara.

Alexandre Vauthier coleção de alta-costura de Primavera Verão 2022.

DIA 3

Uma coisa podemos confirmar com certeza no coração, Zuhair Murad é um romântico de mão cheia, os anos de pandemia não foram os mais fáceis para a marca, de problemas financeiros que a pandemia afeta especificamente a clientela de Murad – os clientes para vestidos de gala e festas – em conjunto com o ateliê na cidade natal do designer Beirute no Líbano ter sido destruído na explosão no porto da cidade em agosto de 2020.

Montagem feita com os desfiles do dia 3, imagens retiradas do Vogue Runway.

Mesmo com problemas parece que o coração e esperança continuam no mesmo lugar, tomando inspiração em histórias aventureiras e românticas de piratas no século XVIII, deixando sua inspiração clara no começo da coleção com o primeiro look exibindo um grande chapéu de pirata preto e um terno de alfaiataria desconstruído sendo seus ombros e bainha cobertos por correntes douradas e pedrarias.

Zuhair Murad coleção de alta-costura de Primavera Verão 2022

Murad não é reconhecido como um grande vanguardista ou um estilista de conceito, ele faz vestidos de festas que são campeões de vendas e extremamente bem executados, o que acontece retirando o primeiro look, o número 4 e 5. A inspiração se detém a chapeus de pirata e faixas de cabelo atravessadas que combinam com as cores dos vestidos, como qualquer outra coleção do designer o romantismo, os vestidos esvoaçantes de pedrarias e cores sólidas e limpas tomam conta de grande parte da coleção.

Isso não é exatamente uma dura crítica Zuhair Murad sempre deixou claro a estética da sua marca, mesmo que variando os “temas” entre coleções, apesar de uma temporada atordoada para o designer ele mantém suas esperanças e deixa claro que essa coleção é para sua clientela com saudades de uma grande festa e amor no coração: .  “Precisamos viajar com nossa imaginação, esquecer um pouco de nós mesmos e das dificuldades que nossa realidade está nos colocando”. E como todo bom romântico ele escolhe um tema de uma história grandiosa e extravagante, assim como seu vestido de noiva no final da coleção, perfeito para uma noiva princesa de Dubai.

Zuhair Murad coleção de alta-costura de Primavera Verão 2022

As apresentações da  Valentino são sempre ansiosamente aguardadas, especialmente quando falamos de alta-costura. O responsável por essa comoção tem sido, há mais de 5 anos, Pierpaolo Piccioli. Em seus anos na maison, o mesmo vem construindo um forte legado para si, marcado pelo seu audacioso uso de cores e suas arrojadas silhuetas. Entretanto, Piccioli não virou queridinho do tapete vermelho apenas por isso em sua visão progressista e sua vontade de ‘mudar os valores’ são o que fazem dele um dos mais inovadores designers dos últimos tempos.

Valentino coleção de alta-costura de Primavera Verão 2022

Em sua apresentação (26) com apenas 65 convidados, que respeitavam o distanciamento social e vestiam preto dos pés à cabeça, Pierpaolo demonstrou como a alta-costura consegue construir estonteantes silhuetas em qualquer tipo físico. ‘Keep the codes, but change the values’ uma referência clara em manter a qualidade no trabalho artístico e manual da alta-costura sem as amarras culturais dos valores do termo.

Seu talento de capturar beleza independente do formato do corpo ficou ainda mais evidente nesta coleção. O vestido de tule chocolate coberto por dois quilos de miçangas de vidro Veneziano que abraça e faz jus ao formato de corpo tão ‘fora dos padrões’ da alta-costura. O grande diferencial da visão de Piccioli para a Valentino, é justamente o fato de realmente celebrar corpos reais na passarela, os dando espaço, voz e sensualidade. Piccioli disse, em entrevista, tem usado 10 ‘modelos da casa’ para a criação de sua coleção e não apenas uma – como é tradicionalmente. Desta maneira, ele pode trabalhar em diferentes proporções e lisonjear suas diferentes silhuetas.

Além da grande – e magnífica – diversidade entres modelos femininas. Piccioli deu aos homens espaço na alta-costura com direito a transparência, brilho, luvas de ópera, silhueta marcada e impecável alfaiataria. Seu trabalho em ‘capturar as modificações do corpo’ vem sendo feito com maestria, especialmente ao convidar modelos mais velhas do que o ‘padrão’ na alta-costura. Kristen McMenamy, Marie Sophie Wilson, Lara Stone, Violetta Sanchez, Lynn Koster e Jon Kortajarena levaram confiança aos seus looks e se fundiram perfeitamente com o cast. Afirmando a narrativa de Pierpaolo: alta-costura é para todos.

Valentino coleção de alta-costura de Primavera Verão 2022

Em setembro de 2021 foi anunciado que Glenn Martens, diretor criativo da Y/Project, seria o próximo designer convidado para comandar a coleção de alta-costura em 2022 – depois de uma colaboração não tão impressionante com a designer japonesa Chitose Abe, criadora da marca Sacai.

O que não esperávamos é que essa seria umas das melhores e mais certeiras colaborações dos últimos tempos. Além de umas das coleções mais marcantes dessa temporada de alta-costura. Glenn Martens deixou todos fascinados e de queixos caídos com sua coleção, que contou com 36 looks – desde exagerados vestidos de baile à exaltação de uma silhueta com torso marcado, (muito) tule drapeado e quadris em movimento.

Jean Paul Gaultier coleção de alta-costura de Primavera Verão 2022

Logo após seu recente sucesso com sua coleção de menswear do Y/Project, Martens volta aos holofotes e nos entrega um delicioso gosto nostálgico misturado com inovação e um manual de como a alta-costura e marcas tão celebrados no passado, como JPG, podem se adaptar aos dias de hoje.

Com menções a coleções passadas, Glenn trouxe para as passarelas a força dos corsets – que além de serem marca registrada de JPG, vêm também marcados presenças como um trend recente. Trabalhos impecáveis com tules que envolvem e abraçam a silhueta, também esconde a face e traz volume dramático. Transparência nos lugares e dos jeitos certos.

Referências de arquivo nos desfiles de alta-costura Primavera Verão 2022: Em ordem Valentino e Jean Paul Gaultier.

Entretanto, além de trazer referências do passado – 1991, 1997, 2002 – ele também traz sua assinatura, que pudemos testemunhar através de seu trabalho com Y/Project, como as saias que parecem se movimentar por conta própria, estampas hipnóticas e flores de metal em 3d.

Jean Paul Gaultier coleção de alta-costura de Primavera Verão 2022

O designer belga recrutado pela primeira vez por Gaultier em 2008, hoje (26) nos trouxe um show de exuberância em cada um de seus looks. Sensualidade, silhuetas anatômicas, tridimensionalidade, tudo isso acompanhado por uma passarelas com modelos que se mantinham sérias e andavam vagarosamente nos dando o tempo necessário para ‘digestão’ de cada modelito.

‘Tem somente uma vez na minha vida que posso fazer um vestido com uma cauda de 15 metros’, diz Glenn Martens.

Jean Paul Gaultier coleção de alta-costura de Primavera Verão 2022.

Falando em histórias grandiosas, vamos para a dupla Viktor & Rolf, que assim como RDVK são reconhecidos entre a área mais vanguardista dentro da alta-costura, e ao contrário do último desfile as roupas da dupla holandesa não são construídas visando vendas e números, elas apresentam sempre um conceito e a apresentação de um tema forte, qual é levado sempre aos extremos. Misturando silhuetas e cores que podem torcer o nariz mas a dupla sempre consegue surpreender o público.

Ao pensar em alta-costura dificilmente associamos com o terror e uma imagética exótica do gênero, mas na verdade, como provamos no texto especial de halloween entre moda e horror, os filmes do gênero já foram utilizados inúmeras vezes como fonte primária de inspiração dentro da moda de luxo. Para seu desfile de Primavera Verão 2022, os fundadores e diretores criativos da marca Viktor Horsting and Rolf Snoeren se voltaram para o vampiresco, com ombros altos e costas largas, uma imagem não só lembrada pelo Tio Fester em Família Addams como uma referência  a forma dos filmes da antiga Hollywood de retratar o vampiro mais famoso do cinema – Conde Drácula – a inspiração em todos os elementos dessa estética ficam bem claros ao decorrer da coleção, principalmente entre os looks de ternos com os ombros exagerados nos looks 1 e 13.

Viktor & Rolf coleção de alta-costura de Primavera Verão 2022.

A estética da marca como um todo sempre brinca com as linhas do real e do imaginário, quase sempre entre do estilo camp em conjunto com a qualidade da confecção de alta-costura, entre o vestido de Wednesday Addams, com colar Peter Pan e trancinhas duplas – look 5 – e os vestidos em tons pastéis a coleção pode ter ficado perdida no meio, mesmo com uma oportunidade muito boa de um tema tão genioso e uma marca que emerge o espectador em seu conceito. Entre família Addams e Drácula era possível ter entregado uma grande coleção de alta-costura com essas referências, não apenas ombros altos e algumas golas.

Viktor & Rolf coleção de alta-costura de Primavera Verão 2022

O libanês Elie Saab retornou com seu primeiro desfile em dois anos da melhor maneira possível: reforçou a sua estética e entregou exatamente o que a sua clientela espera e consome. Internacionalmente conhecido pelo maximalismo, a coleção  não foge à ideia: mangas bufantes, volumes escandalosos e bordados executados com maestria são os destaques do desfile, que se utilizou de cores solares para recriar um verão no Mediterrâneo como inspiração primordial do desfile.

Assim como Murad, a Elie Saab é reconhecida internacionalmente por seus vestidos de festa e gala, suas roupas não necessariamente tem um storytelling claro ou forte, mas são lindos vestidos feitos com a atenção artesanal quase impecável. Esses vestidos de festa são destinados a um público maior de vendas, mesmo que ainda estamos falando de um dos ramos mais caros da alta-costura, continua sendo mais fácil vender para um evento um vestido de brilhos com silhueta marcada e sensual de Saab, ao invés dos ombros nas alturas de Viktor & Rolf. 

Elie Saab coleção de alta-costura de Primavera Verão 2022.

A grande característica desse desfile talvez tenha sido a liberdade criativa do designer ao criar essa coleção, mesmo que não seja o gosto pessoal de todos um vestido com uma cauda enorme de flores rosa-choque como no primeiro look, ainda apresenta as características dominantes da marca, como corpetes, cristais e fendas. É uma coleção que conquista a sua clientela de longa data, e ao mesmo tempo pode conquistar novos clientes que estão ansiosos por algo novo ou diferente. E até mesmo algo quase tão escapista da realidade geral que se torna romântico.

Um dos nomes mais novos na Alta Costura, o designer Charles de Vilmorin possui uma estética única que vem conquistando admiradores ao redor do mundo — e que recentemente lhe garantiu o posto de diretor criativo da Rochas. Seus já clássicos desenhos e proporções teatrais marcaram presença na temporada (inspirada por alegorias de vida e morte; e sua própria jornada criativa) reforçando a sua estética que mescla fantasia e obscuridade.

Charles De Vilmorin coleção de alta-costura de Primavera Verão 2022.

DIA 4

Para a mais nova coleção de alta-costura de sua marca homônima, Julie de Libran reuniu vestidos que expressam a feminilidade com um toque único de sutileza. Com um acabamento preciso e uma produção rica em detalhes 一 o que remonta à uma das características mais precisas e fiéis às criações de Libran 一, a coleção ainda conta com a presença de overcoats, vestidos em cores vibrantes e plumas mais simplistas. 

Julie de Libran apresenta para sua coleção de Primavera Verão uma clara demonstração de lealdade ao seu cliente base, com roupas pensadas para o consumo que honram as características claras da marca, rica em detalhes e ainda com uma surpresa de algumas das grandes tendências para 2022 em vestidos de festas. Uma coleção organizada, com detalhes bem pensados e bem comercial.

Montagem feita com os desfiles do dia 4, imagens retiradas do Vogue Runway.

A terceira coleção de Alta Costura de Kim Jones para a Fendi segue a mesma estética das anteriores: roupas  com forte apelo ao clássico e em modelagens e silhuetas já vistas antes. De fato este é um novo território para o designer, mas devemos levar em consideração que fazer Alta Costura é a epítome dos estilistas — justamente pelas inúmeras possibilidades de criação e a capacidade manual de uma grande equipe especializada em moda como arte — e Kim parece não estar aproveitando muito bem seu novo cargo.

A coleção tem como inspiração Roma, cidade que também deu os trilhos da última apresentação de Couture e onde a marca foi fundada, e traz elementos da antiguidade em estampas e motivos — como as estátuas do Palazzo della Civiltà Italiana, que foram estampadas em veludo nas peças; e os bordados que lembram colunas e estruturas arquitetônicas romanas. Para trazer as referências para a atualidade Jones mesclou elementos sci-fi e celestiais, que estavam presentes tanto nos arranjos luminosos do cenário quanto na paleta da coleção, composta majoritariamente por preto, marinho e vermelho.

Fendi coleção de alta-costura de Primavera Verão 2022.

A paleta é mais um dos elementos questionáveis do design de Kim para a Fendi: se por um lado a escolha de cores da sua Dior masculina é tida como certeira e perfeita, na Fendi o estilista parece não se arriscar ao optar por tons e composições “fáceis”, que no final entregam um resultado pouco comovente. Levando em consideração os diferentes tons que estavam tão presentes no trabalho de Silvia Venturini e Karl Lagerfeld — e obviamente considerando as diferenças entre o imaginário dos três diretores —, o produto final de Jones é bem desanimador.

Montagem feita com os desfiles do dia 4, imagens retiradas do Vogue Runway.

O fato da marca ser ainda “novata” na Alta Costura (Karl desfilou apenas quatro coleções Couture e Silvia uma) em comparação a outras maisons deveria servir de motivação para o designer, já que dá carta branca para que Kim possa desenvolver uma estética própria livre de códigos clássicos. A alfaiataria aclamada pela crítica em suas coleções, por exemplo, dialoga perfeitamente com a mulher contemporânea — ao contrário dos vestidos em silhuetas monásticas e corte reto que ele vem apresentando — mas não passa nem perto da temporada apresentada hoje.

Encerrando a semana de alta-costura e fazendo sua estréia oficialmente no calendário como membro da comunidade, a marca da russa Yulia Yanina apostou em uma paleta de cores totalmente colorida 一 paleta na qual faz uma referência às cores do arco-íris 一 variando entre tons vibrantes e mais pastéis, além do uso preciso da transparência e leveza na maioria de suas peças. Apesar dos esforços de Yanina em encerrar a semana num espírito animador e vibrante, a única vontade verdadeira quando se olha para os enormes vestidos de tule em cores vibrantes – quase neons- de arco-íris é de fechar os olhos.

Yanina Couture coleção de alta-costura de Primavera Verão 2022.

Como começar a estudar moda?

Indiscutivelmente uma das dúvidas mais frequentes quando falamos sobre estudar moda didaticamente é por onde começar. A palavra “moda” é um termo abrangente que entra em diversos espectros da vida em sociedade, tanto quando é uma referência direta a indústria têxtil ou não; pode ser até mesmo um modo de falar dentro de um discurso como algo que vemos repetidamente em alguma área. As ramificações de semântica da palavra em si, não importam muito por aqui, mas é um dos exemplos de como uma área é abrangente, com inúmeros focos de estudo e diferentes profissionais.

Elizabeth Wilson escreveu: “fashion is dress in which the key feature is rapid and continual changing of styles. Fashion in a sense is change”. A Moda é um sistema que coloca valor no que é novo. Moda não é um estilo, é um processo de acordo de quais estilos se substituem é a regra que proíbe qualquer estilo de se tornar muito durável. Por isso, a moda estabelece uma certa relação com o tempo e, principalmente, com o tempo presente e a ideia de contemporaneidade.

Desfile Fall 2020 da Saint Laurent: Foto retirada do Vogue Runway.

O “produto” que as marcas de moda entregam e as lojas de consumidores de moda pertencem a uma categoria híbrida, sendo ao mesmo tempo um objeto material dedicado à cobertura ou adorno do corpo do usuário, um objeto imaterial carregado de valores simbólicos, até mesmo agindo como um termômetro de valores e colocações sociais como vemos no livro O Luxo Eterno de Gilles Lipovetsky e Elyette Roux: “Um produto de luxo é um conjunto: um objeto ou serviço, mais um conjunto de representações: imagens, conceitos, sensações, que são associados a ele pelo consumidor, portanto, o consumidor compra o objeto pelos quais está disposto a pagar um preço superior ao que aceitaria pagar por um objeto ou serviço de características funcionais equivalentes, mas sem essas representações associadas.”

Em suma, existem tantas áreas de estudo que podemos tocar dentro da moda que o início pode parecer confuso, e acredite, se você é uma das pessoas que entrou nesse texto porque está perdido e quer ajuda para começar, você não está sozinho: até mesmo os grandes historiadores, pesquisadores e jornalistas do tema tiveram que começar de algum lugar. É necessário acrescentar também que nunca é tarde para aprender — mesmo que passivamente — um pouco mais sobre algo que ama, mesmo não sendo sua área de trabalho. Hobbie ou não, é uma trajetória de aprendizado contínuo sem pressão.

O valor real desse texto é explicar como comecei a minha trajetória e alguns passos que me ajudaram ao longo do tempo mas, antes, deixo claro que o seu repertório pessoal e interno, o que você já viu, leu e escutou durante sua vida tem uma grande diferença no papel de estudos. Talvez tenha a sensibilidade de entender a emoção interna de um artista melhor que outros, ou talvez alguém muito interessado em política e movimentos sociais consiga ver uma oportunidade de abranger essa área dentro da moda. Seja o que for, você pode encontrar até um grupo de pessoas que têm o mesmo interesse nesse nicho — aprender com a troca de experiências, ouvir diferentes perspectivas e desenvolver seu pensamento juntos através de diálogos é algo realmente mágico.

Sem mais demora, aqui estão os três passos básicos para começar a aprender mais sobre moda, um guia desenvolvido pela Editoria de Moda da Frenezi:

1. Transformar todo o seu consumo de informação passiva sobre moda

Começando com uma das dicas mais básicas de todas: transformar todo o seu consumo de informação passiva sobre moda. Isso quer dizer desde as suas escolhas do que assistir no seu streaming favorito até a timeline de suas redes sociais se liguem a indústria da moda. O que isso pode ajudar? Mesmo que seja um consumo de informação não-didático isso te ajuda a reconhecer e entender um pouco sobre como a indústria funciona. Comece a seguir criadores de conteúdo de moda no Youtube como Haute Le Mode, Descomplicando a Moda e The Fashion Archive; veja as novas coleções no Vogue Runway; fazer uma maratona de sua marca de documentários de moda que você tem fácil acesso (como na Netflix ou na HBO Max ou até mesmo no Youtube por exemplo) ou ouvir um podcast enquanto estuda são apenas algumas opções de como isso pode ser um começo divertido e fluído, sem muito estresse.

Foto retirada do Pinterest.

É como começar a se apaixonar por um hobby. Você começa pelo básico, se adaptando às informações que você tem facilidade em receber e processar. A verdade é que existe uma certa pressão entre os amantes de moda sobre sempre saber da informação primeiro, sempre ter o melhor conteúdo didático e essa expectativa sobre você mesmo pode só atrapalhar seus estudos (digo por experiência própria). Não é preciso começar lendo os livros mais complicados ou ver os documentários mais raros logo de cara, entender aos poucos como a indústria funciona pode te ajudar a também encontrar seu próprio caminho.

Para te ajudar a compreender melhor o que estamos dizendo fizemos uma lista de alguns conteúdos desse tipo entre documentários, criadores e livros mais “básicos”, para que você tenha opções práticas sobre onde começar:

Documentários:

Franca: Chaos & Creation (disponível na Netflix).

McQueen (disponível no Telecine Play).

Alber & Lanvin (disponível no Youtube).

Diana Vreeland: The Eye Has to Travel (disponível no Vimeo).

The True Cost (disponível no Vimeo).

Ralph Lauren: Vida e Obra de Ralph Lauren (disponível na HBO Max).

Valentino: o Último Imperador (disponível no Youtube).

Dior e Eu (disponível na Apple Tv).

Arquivos sobre Franca Sozzani.

Livros básicos:

Cronologia da Moda – JW Anderson

Moda no Século XX – Valerie Mendes e Amy De La Haye

100 Anos de Moda – Cally Hayman

100 Anos de Moda Masculina – Cally Hayman

História da Moda no Brasil – João Braga

História Social da Moda – Daniela Calanca

Batalha de Versalhes – Robin Givhan

Criadores de Conteúdo:

Haute Le Mode (Youtube)

The Fashion Archive (Youtube)

Mina Le (Youtube)

Descomplicando a Moda (Youtube)

Harry Ciotto (TikTok e Instagram)

Mitcho Mezzomo (TikTok e Instagram)

Marco Quadros (TikTok e Instagram)

Gabriel Fusari (Instagram)

Rener Oliveira (Instagram)

Carol Stauch (TikTok e Instagram)

Lele Santhana (Instagram)

Podcasts:

Elle News

Projeto Piloto

Dressed

Fashion Victims

Teoria(s) da Moda

I Hate Fashion People

Esse não é um podcast fashion.

Foto do documentário Dior e Eu.

2. Delinear uma área de estudo

Afinal, o termo “moda” é algo extremamente abrangente, com uma indústria maior ainda. Portanto encontrar um ramo de estudos de uma área que você se identifica num espectro pessoal torna o real estudo didático algo mais fácil. No começo as coisas vão parecer confusas e um pouco complexas, mas focando em um objetivo claro — como começar a entender o mercado e a indústria de moda de luxo começando pela história das casas como Louis Vuitton, Prada e Saint Laurent e ir abrindo os ramos de estudo até para como essas marcas estão hoje, como elas mudaram seu sistema para o mundo digital — as coisas lentamente se descomplicam.

Foto retirada do Pinterest.

Entender a sua área de estudo ao máximo é um processo: envolve pesquisa em livros mais acadêmicos de nicho próprio, mas principalmente se você pensa em seguir no futuro uma carreira nessa área específica da indústria é mais do que necessário entender o máximo possível da onde quer trabalhar. Pegando o meu exemplo com o jornalismo de moda para melhor entender esse processo:

1- Entender a história do seu ramo (ex: Como e quando surgiram as grandes revistas?).

2- Pesquisar a história de grandes profissionais do seu meio (ex: Ler biografias de grandes jornalistas de moda como André Leon Talley, Diana Vreeland, etc…).

3- Como é financiado? Entender como o trabalho se mantém em pé é uma importante parte de tudo, afinal a indústria da moda é uma das que mais movimentam dinheiro no mundo, entender quem financia a sua área e porque é necessário.

Foto retirada do Pinterest.

Existe um enorme leque de áreas dentro da indústria que abrangem desde comunicação (como marketing, propaganda, jornalismo, relações públicas) até as áreas de criação (como diretores criativos, fotógrafos, ilustradores e stylists). Isso é apenas uma pequena faceta de como podemos entrar em diferentes áreas de estudo apenas falando sobre o ramo. O mercado de luxo, a moda sustentável… O seu repertório pessoal afeta diretamente a área de escolha — ele tem muito entre quem você é, o que você vê, ouve, lê e estuda até hoje e seus interesses que conversam com o seu espectro interno e emocional.

Foto retirada do Pinterest.

3. Construção de senso crítico

Com o avanço dos estudos e livros, você vai começando a entender melhor o que de fato acontece e não acontece na indústria. Você também começa a ensaiar o seu próprio senso crítico da mesma, não é necessário ser um especialista formado para dialogar e fazer perguntas de como verdadeiramente funcionam as coisas no meio onde você trabalha, ou quer trabalhar.

Esse texto não passa de um conjunto de dicas que funcionaram quando eu começava a aprender sobre moda, então quando digo que esse talvez foi o maior passo para começar a desenvolver meu senso crítico e estético eu realmente coloco ênfase nisso: aprender e escutar fontes diferentes. Ler livros sobre temáticas parecidas de autores diversos, ler e ouvir jornalistas e historiadores diferentes, ouvir novas opiniões, dialogar com pessoas da mesma área de estudo que às vezes não tem a mesma visão do que você. É um conjunto de experiências em uma comunidade que está aprendendo sobre moda juntos e cada dia tenta melhorar e ouvir mais pessoas.

Arquivos sobre Franca Sozzani.

Dou tamanha importância para esse tópico por um motivo (e repitam comigo): todo repertório pessoal é diferente. Desde sua história familiar, seu relacionamento com o dinheiro, as coisas que te cativam — mesmo que pareçam frívolas — afetam a forma de olhar para um assunto específico. Você olha pelo seus olhos e, na maioria das vezes, ver de diferentes perspectivas ajuda a apurar seu senso crítico.

Construir aos poucos esse senso crítico é um processo sem fim, todo o conteúdo que você consome pode influenciá-lo, ter certeza que você está consumindo um conteúdo de qualidade de fontes sérias para o seu estudo didático é uma das prioridades na hora de estudar, por isso fizemos uma lista de jornalistas e livros para começar a aprofundar a sua jornada:

Livros:

História Social da Moda – Daniela Calanca

O Brasil na Moda 1 e 2 – Paulo Borges e Giovanni Bianco

Shocking Live – Elsa Schiaparelli

D.V – Diana Vreeland

The Chiffon Trenches – André Leon Talley

Glossy: The story of Vogue – Nina Sophia Miralles

Fashion Journalism: History, Theory and Practice – Peter McNeil e Sandra Miller

The History of Fashion Journalism – Kate Nelson Best

Uncovering Fashion: Fashion Communication Across the Media – Marian Frances Wolbers

O Império do Efêmero – Gilles Lipovetsky

O Casaco de Marx: Roupas, Memória, Dor – Peter Stallybrass

O Luxo Eterno – Gilles Lipovetsky e Elyette Roux

A Estetização do Mundo: Viver na Era do Capitalismo Artista – Gilles Lipovetsky e Jean Serroy

Moda: Uma Filosofia – Lars Svendsen.

Teoria da Classe Ociosa – Thorstein Veblen.

Filosofia da Moda e Outros Escritos – George Simmel.

Moda com Propósito: Manifesto Pela Grande Virada – André Carvalhal

Jornalistas:

Pierre A. M’Pelé;

Vanessa Friedman

Cathy Horyn

Tyler Mccall

Luigi Torre

Giu Mesquita

Bárbara Poener

Isis Vergilio

Lucas Assunção

Colagem feita a partir de fotos do pinterest.

Tudo o que você precisa saber sobre a SPFW N52 

Francamente esse texto não foi um dos mais fáceis que já escrevi. Na verdade, acredito que foi um dos que mais me deixou em um limbo criativo. Levá-lo para o espectro de textos críticos impessoais, quais costumo escrever a cada temporada de moda para a Frenezi não faria sentido, afinal esta foi a minha primeira semana de moda cobrindo de perto — foi extremamente pessoal.

Voltando um pouco ao passado, minha relação com meu trabalho de jornalista de moda era complicada e mesmo sempre estudando muito e fazendo pesquisas, ainda tinha internamente uma grande síndrome de impostora. Na realidade, tirei o Instagram do privado e comecei a discutir sobre moda na plataforma em 2020, no começo da quarentena, o que eu não imaginava era que com a crescente popularidade do tiktok e as semanas de moda se adaptando para o digital que eu encontrei muitas pessoas que também estavam começando a falar sobre uma moda diferente, uma que eu acreditava.

É uma experiência meio irreal ver essas pessoas se juntando para um evento em função da moda nacional, fica bem claro quem realmente ama e se dedica a moda é uma das melhores experiências disso tudo foi poder sentir isso de perto. No começo de tudo tive medo de ter a mesma decepção que tive com as semanas de moda internacionais, aquele sentimento na moda de ‘voltar ao normal’ como se nada tivesse acontecido, como se os últimos anos de eventos traumáticos e aprendizados que trouxeram com eles não tivessem significado muita coisa, que a verdadeira ansiedade pós-pandêmica era diminuída apenas a voltar a sair e se divertir.

E até os primeiros desfiles do Projeto Sankofa esse era um medo que quase se tornou realidade, durante os anos presentes o SPFW foi denunciado por diversas práticas questionáveis, felizmente o pós-pandemia apresenta uma nova fase do evento e da moda nacional, uma fase que ouve e respeita jovens criativos, e principalmente da espaço para narrativas diferentes pois reconhece que são elas que constroem uma moda para se acreditar. Em outras palavras, estamos em um momento essencial da moda nacional contemporânea e estou ansiosa por ter o privilégio de acompanhar esse momento de perto.

Fotos retiradas dos sites oficiais do SPFW e FFW.

DIA 1 – 16 de Novembro:

 Abrimos a semana de moda de São Paulo com a ansiosamente esperada estreia no evento – Pedro Andrade, que contou com o cenário da Pinacoteca de São Paulo, em seu primeiro desfile presencial desde o lançamento oficial da marca em 2020. A marca é assinada pelos diretores criativos Pedro Andrade e Laura Kim, a dupla traz um novo significado para uma alfaiataria moderna, misturando elementos do streetwear e uma inspiração profunda em grandes artistas nacionais como Lina Bo Bardi e Oscar Niemeyer.

De regatas vazadas combinadas com calças de alfaiataria temos uma coleção concisa e muito bem executada, tanto no plano de qualidade material e precisão quanto na construção das roupas em si. Como na forma que a coleção foi estruturada passando de diversas inspirações e referências importantes que ajudaram ao desenvolvimento da mesma, da versão brasileira das famosas botas Tabi até uma apreciação pela arte e folclore nacional de uma forma nada óbvia e até versátil para seus consumidores, foi um dos melhores começos que poderia pedir iniciamos a semana com uma das melhores coleções da temporada.

Fotos retiradas dos sites oficiais do SPFW e FFW.

DIA 2 – 17 de Novembro:

No segundo dia já estávamos presencialmente acompanhando o evento, mas não vou mentir que meus sentimentos são divididos em torno desse dia específico. Começamos o segundo dia num passo um pouco mais lento do que o primeiro, e como dito anteriormente além de Pedro Andrade ter colocado as expectativas altas para os próximos também existia um medo da decepção eminente da ‘volta ao normal’ sem significar muita coisa, e como foi o primeiro dia presencial com muitos desfiles no evento em si alguns deixaram a desejar. A primeira coisa do evento foi a apresentação do projeto cria costura, a segunda foi o desfile da Torinno para a estreia de seu primeiro desfile feminino Luis Fiod traz para sua passarela um verdadeiro esquadrão de estrelas que incluíam Marlon Teixeira e Lais Ribeiro. A coleção apresenta uma visão clássica do streetwear com silhuetas mais estruturadas que abraçam o sangue esportivo da marca, com diferença de alguns tons neons e vibrantes que trouxeram nossa atenção.

Depois de Torinno as próximas apresentações até a noite eram majoritariamente digitais começando com Ronaldo Fraga, o estilista conta sua história através dos tecidos e cria arte com seus acessórios, com um ar esperançoso e positivo. Fraga apresenta momentos que fizeram parte da história brasileira, com uma coleção feita 100% de bases de jacquard em fios de algodão, seda, linho e viscose. E em um fashion film emocionante ele conta um pouco da história da indústria têxtil no Brasil. Um tema que deveria ser mais explorado tanto por sua riqueza histórica quanto pela importância do mesmo para nosso estado atual da moda nacional, mas parece que além das inspirações básicas nas riquezas naturais Ronaldo Fraga leva a um passo à frente em pensar nas ramificações sociais e no contexto histórico disso tudo.

Fábio Souza e Alexandre Herchcovitch trazem uma inspiração que já discutimos muito aqui na Frenezi, principalmente no texto especial de Halloween que conversamos sobre como os estilistas conseguem tirar suas inspirações do que não é tradicionalmente belo. A marca À La Garçonne Traz filmes de terror como inspiração bruta da coleção, mas fogem do óbvio e do gore, misturando elementos românticos com o sinistro, estampas de fotos dos filmes em camisetas brancas em conjunto com florais e jogos de texturas, os designers exploraram uma nova visão para o workwear com o upcycling.

Chegamos em uma das minhas coleções favoritas do dia, com um fashion film impecavelmente produzido a coleção ‘Uma noite e meia’ da marca Anacê apresenta peças com recortes e silhuetas sensuais em tricôs, é um clima de festa e provocação muito bem executado que vai além de saias mini e vestidos bordados, é uma exibição de desejo e vontades da nova geração, a sensualidade sendo repensada a forma que ‘voltamos ao normal’.

A Mnisis é a mais nova marca estreante na SPFW, ela trás em  sua coleção de forma nostálgica e brincalhona sem comprometimentos ou desejo de seriedade — uma visão romântica da infância.  Seu fashion film que apresenta a coleção é uma confirmação de que a visão aqui é uma carta de amor às lembranças de infância e a criança interior que vive em cada um de nós. Composta por camisas e  vestidos com plumas, peças em cores vibrantes e texturas interessantes, a despretensão é entregue em peso. 

Agora voltando para os desfiles presenciais tivemos uma das colaborações mais interessantes da semana, o SPFW N’GAME uma colaboração entre o evento e o jogo Free Fire borrou as linhas entre o real e o virtual, ao que parece os recentes diálogos sobre o metaverso nunca estiveram tão em pauta como agora. A edição marca a volta dos desfiles presenciais no Brasil e a parceria entre o SPFW e o jogo, como muitas marcas internacionais como Balenciaga e Gucci já se aventuraram, mostram como uma representação visual pode incluir o real e o virtual. Na passarela foram observados 20 das ‘skins’ que o jogador pode trocar e destrocar mais populares do jogo, trazendo a vida real para um universo exclusivamente virtual e uma apresentação muito bem organizada e bem feita.

Terminando o dia com o desfile da marca Lilly Sarti, as estilistas mesclam o passado com o presente e o futuro com estampas de pinturas rupestres e figuras de animais em tons terrosos mesclados com brilhos, silhuetas dramáticas e ousadas que carregam o desejo e vontade de festa após dois anos em uma pandemia global. As peças de alfaiataria em conjunto com o conforto com a festa são, sem dúvidas, vibrantes o suficiente para roubar os holofotes.

Fotos retiradas dos sites oficiais do SPFW e FFW.

DIA 3 – 18 de Novembro:

Depois de um ano conturbado para o evento, com denúncias de racismo e a adaptação para o meio digital, os primeiros desfiles do dia que pertenciam ao Projeto Sankofa deram o respiro necessário para os dias a diante. Aquele sentimento claustrofóbico de ansiedade pós-pandemia de voltar tudo ‘ao normal’ sem mesmo se questionar se esse normal funcionava foi destruído assim que o primeiro modelo de Meninos Rei apareceu na passarela.

E claro, ainda tivemos desfiles tradicionais e com o mesmo sentimento durante o evento, mas a mudança e impacto que os dois primeiros deste dia Meninos Rei e Ateliê Mão de Mãe provocaram foi emocionante, dando outros olhos para o evento em si.

A Primavera-Verão de Meninos Rei pode ser traduzida como uma carta de amor. Para quem? Para a Bahia, a África, as raízes familiares dos fundadores e a ideia de uma moda cada vez mais diversa e inclusiva, apresentando o casting mais diverso da temporada com modelos dos mais variados corpos possíveis, é um sentimento de inclusão, de amor e de inclusão que deram esse respiro necessário. Em modelagens oversized e cortes imaginados para criar peças únicas, com tecidos em cores gritantes vindos diretamente da África, a Meninos Rei de Céu e Junior Rocha entrega mais do que “apenas” roupas — a coleção é uma aula sobre respeito à própria ancestralidade.

No segundo desfile do Projeto Sankofa, Ateliê Mão de Mãe apresentou a coleção ‘Profundo’, inspirada pelo mar e motivos tropicais para a temporada que está por vir. Provando mais uma vez sua excelência, a dupla de diretores Vini e Patrick Fortuna criou peças trabalhadas em  crochê e técnicas artesanais numa paleta praiana, é uma demonstração clara de respeito pela qualidade do trabalho manual brasileiro, que lembram os perfumes do verão e da boa qualidade.

Um dos designers brasileiros mais reconhecidos, João Pimenta apresentou uma coleção que completa um ciclo de sua narrativa, durante a pandemia após duas coleções que refletiam sobre a pandemia o sufocamento e o escapismo que vieram com ela, ele apresenta uma contramão a sua estética base da marca. Com uma coleção de alfaiataria estruturada e muito bem ajustada, com uma paleta de cores em tons terrosos e monocromáticos. Porém ele não abre mão de seu próprio twist nas peças com mangas volumosas, lapelas desconstruídas mini saias masculinas com volumes estratégicos, é uma visão clássica do estilista em uma coleção um pouco mais adaptada ao dia-a-dia indicando o fechamento de uma fase conturbada, uma estratégia genial de atrair consumidores mais minimalistas a uma marca reconhecida por seu maximalismo, ainda é João Pimenta isso fica claro nas maquiagens com próteses para parecerem aliens ou nas mini bolsas de isqueiros de contas, mas é num novo contexto pós pandemia marcado pela preferência de peças coringa pelo consumidor em decorrência da crise econômica.

Não muito diferente do próximo desfile do dia Weider Silverio, desenvolve sua coleção com ângulos precisos e alfaiataria digna de livros de arquitetura se misturam ao bom humor e leveza, ele cria uma coleção fresca, que nos transmite tudo o que passamos meses esperando, looks versáteis e que testam o tempo com algumas tendências jovens incluídas como a cor rosa chiclete e o corset aparecem de uma forma mais sóbria mas bem executada para trazer nova vida a uma coleção cheia de sofisticação.

Terminamos o dia com Walério Araújo fazendo uma celebração de seus 30 anos de carreira, ele recorreu a fonte base da marca, que deram nome a seu legado no mercado, as baladas, sair a noite, toda a estética de grandes festas. Entre bordados e aplicações exercidas com maestria e uma alfaiataria bem editada com customizações inteligentes a coleção intitulada “Noite Ilustrada” foi uma homenagem à coluna de mesmo nome escrita pela jornalista Érika Palotina entre os anos 90 e 00, e foi a mesma a responsável por trazer ao mainstream nomes da cena noturna paulistana, entre eles, Walério. 

Com Drag Queens tomando a passarela, couros, vinyls e vestidos bordados de pérolas, Walério Araújo mostra claramente sua precisão em sua área favorita, as roupas de festa prontas para o próximo clube.

Fotos retiradas dos sites oficiais do SPFW e FFW.

DIA 4 – 19 de Novembro:

Começando o dia com Ponto firme em sua coleção intitulada ‘Um Bando’ e que inaugura o ateliê-escola-estúdio (para atender e capacitar mais pessoas), Gustavo Silveira, estilista frente à criação das peças da marca, se aventura em técnicas que o projeto conhece e trabalha muito bem: a tricotagem e o crochê, criando rendados belíssimos. A apresentação ainda conta com bonés feitos também a partir da técnica do crochê, casacos e camisas feitos a partir de materiais descartáveis e tons que remetem à brasilidade e seu tropicalismo.

A nova coleção apresentada por Fernanda Yamamoto em colaboração com membros da comunidade Yuba 一 grupo criado por imigrantes japoneses 一 nesta edição da SPFW carrega consigo as origens de Fernanda e de sua família, bem como suas relíquias. Tendo como base uma peça chave e fortemente tradicional no Japão, os quimonos são os grandes protagonistas da nova cápsula da marca de Yamamoto junto com vestidos antigos bordados em aplicação de seda e morin, que ainda englobam um toque de leveza, suavidade, sofisticação e muita elegância em toda a coleção. Como um todo, a série apresentada por Yamamoto comporta-se como uma viagem cultural em minutos aos telespectadores.

Voltando para o evento principal os desfiles começam com mais dois do Projeto Sankofa Naya Violeta e Santa Resistência, marcas que apesar de seu desenvolvimento jovem tem uma grande apreciação pelo trabalho manual. Começando por Naya Violeta que foi marcada principalmente pela celebração à ancestralidade, a coleção exposta pela estilista comemora as diferentes raízes que existem no país, uma celebração animada com cores vibrantes marcando um otimismo e uma esperança por dias melhores.

No segundo desfile do Sankofa o Santa Resistência  sua coleção intitulada ‘Jóias do Recôncavo’, a coleção liderada por Mônica Sampaio busca abordar a pluralidade da moda afro em suas peças, de forma a representar o espaço interiorano brasileiro. A coleção, que é traduzida em peças com uma diversidade de cores vibrantes, contemplada especialmente pela bagagem cultural brasileira em cada estampa e tom apresentados, bem como pelos modelos que dão atitude às peças confeccionadas pela marca. Um outro ponto muito marcante na coleção da Santa Resistência é a forte presença das memórias afetivas da estilista pelo Recôncavo Baiano local de origem de sua família, firmada pela apresentação ilustre do Olodum, um grupo musical de muita tradição na Bahia, na trilha sonora do desfile.

Agora passando para um das principais coleções da temporada com Misci em sua história de amor e paixão pela cultura nacional, o diretor criativo Airon Martin relembrou um marco na cultura popular brasileira – o Boteco de Rua – juntando a estética popular brasileira com a qualidade a alfaiataria de sua marca mesclando a tradição com um marco nacional, um show de brasilidade elevado à máxima potência.

A Misci pode ser uma das novas grandes marcas estabelecidas brasileiras, com uma alfaiataria bem construída, acessórios pontuais que já se provaram ser um sucesso de vendas entre um grande público o que pode estabelecer bem uma marca em conjunto com uma sincera paixão pela cultura brasileira e suas várias diversidades, um storytelling necessário. Misci pode ser descrita como uma alfaiataria mais comercial, com produtos e acessórios que claramente tem o objetivo de atingir um grande público, 

Com sua nova coleção intitulada ‘De Volta para a Casa’ e apresentada de forma digital, a LED celebra a abertura de sua loja física, a Casa Led, em Belo Horizonte. Reunida em peças vívidas e alegres, a coleção exposta por Celio Dias, o responsável pela parte criativa da marca, conversa de forma eficaz com o momento vivido pela LED de celebração. As peças foram desenvolvidas especialmente em tecidos de algodão, seda e viscose, alinhando-se com o tecido tecnológico, contando também com a presença do crochê.

Igor Dadona mergulhou de cabeça nos reflexos da pandemia à humanidade. Em sua nova coleção ‘House Couture’ de Outono/Inverno para a marca, ele busca reproduzir de maneira singular como o período pandêmico tem afetado a vivência social e o quê ela tem representado. Contrastando entre o universo sombrio e o otimismo, Igor simboliza o passado, reproduzido pela atmosfera sombria e caótica herdadas pelo coronavírus e o presente, caminhando pelo futuro expresso pelos tons mais alegres e otimistas, que buscam sinalizar a chegada de dias e momentos melhores.

O ano de 2020 foi marcado por incertezas e medo para os designers independentes, tendo sua primeira loja física inaugurada a pouco menos de um mês parece que Rafaella Caniello, a diretora criativa da marca Neriage, conseguiu atravessar águas turbulentas com sucesso. Esse comportamento fica visível mesmo quando analisamos sua mais recente coleção para a marca intitulada “Argos”. A coleção carrega todos os traços reconhecíveis da marca como plissados, drapeados e silhuetas flutuantes, ao contrário de seu trabalho prévio, parece que a designer encontrou seu equilíbrio perfeito entre suas grandes ideias e expectativas criativas e o comercial. Em uma coleção quase monocromática em branco, preto e vermelho promovendo a atenção principalmente as diferentes texturas, recortes e modelagens em suas roupas somando tudo isso com um conceito ligado à libertação de paradigmas e ideais instaurados na forma do ‘saber-conhecer humano’.

O recifense André Namitala é o diretor criativo e fundador da Handred, que sempre foi uma marca muito mais ligada à moda comercial do que moda de passarela conceitual, por isso que foi uma grande surpresa quando vimos a coleção de estreia para a SPFW desta temporada. A primeira vez que ele se aprofunda de verdade no significado da moda como arte e com um mini documentário exibido antes do desfile fica claro o paralelo entre artista e a marca, e sua nova fase na moda. 

As roupas podemos observar uma apreciação e homenagem a suas raízes pernambucanas com estampas de aju, rendas, tecidos e bordados em linho e em organza de seda, tirando as coleção completamente branca, o que foi outra surpresa vindo da Handred, tudo ficou completo com o show de Lia de Itamaracá durante a apresentação. 

Fotos retiradas dos sites oficiais do SPFW e FFW.

DIA 5 – 20 de Novembro.

Começamos o dia com uma apresentação um tanto agridoce, a estreia da marca do humorista brasileiro Carlinhos Maia na SPFW, tirando os designs sem inspiração, esforço ou aquele sentimento prévio de já te vi antes, parece que máscaras são uma coisa do passado principalmente para os convidados da marca. Com o susto da cena, o fundador e organizador do SPFW, Paulo Borges, pegou o microfone e fez um apelo para que colocassem suas máscaras para a apresentação começar.

Agora em ares completamente diferentes e voltando aos desfiles no evento principal, começamos a tarde com mais uma apresentação do Projeto Sankofa, com Silvério e sua alfaiataria precisa e criativa, e AZ Marias com uma apresentação que faz reverência ao trabalho manual. Mas foi Milie Lab que conta com a direção criativa de Milena Nascimento, não fez um desfile, fez um verdadeiro show e manifesto.

Dia 20 de Novembro é comemorada o dia da consciência negra, com poesias e um discurso de arrepiar Milena deixa bem claro para cada um ali presente que valoriza o funk e a cultura periférica, ela representa de forma clara as dores e dificuldades de ocupar espaços como uma marca preta e periférica.

É sempre emocionante quando um designer apresenta uma coleção que faz uma ligação direta com sua trajetória pessoal, também foi possível observar essa sensibilidade em Angela brito que em seus seis meses que voltou sua casa de infância no Cabo Verde devido às restrições da quarentena, se viu revisitando álbuns e fotos de família, se ligando fortemente a essas fotos tiradas por seu pai um amante da fotografia.

As mesmas fotos estampam sua coleção para esta edição do evento, com uma alfaiataria leve, com sobreposições que remetiam a algo leve e natural com roupas de cores leves e mutadas, é uma lapidação de seu trabalho em qualidade de vestuário e emoções primárias que nos invadiram durante esse período.

A Apartamento 03 por Luiz Cláudio Silva é reconhecida por sua alfaiataria impecável e suas roupas precisas, com uma atenção a detalhes, cores e técnicas que têm. Sua mais nova coleção embarca no sentimento de Cura, pensando assim como Angela Brito no período da pandemia com respeito e consideração, uma luz no final do túnel após tempos de breu em que vivemos, segundo o estilista. Flores, folhas, estampas de escritas e poesias caracterizaram o uso das técnicas medicinais naturais, uma apreciação pelas técnicas manuais de confecção e tecidos preciosos, como as sedas plissadas, alfaiataria em linhos e acetato e cores iluminadas.

Acredite no seu axé! A coleção “Cores da Bahia” de Isaac Silva, em parceria com a Havaianas encerrou o quinto dia de SPFW numa apresentação multissensorial na qual a música, as roupas e a energia dos modelos transmitiam a celebração, a vida que Isaac queria transpassar. Com inspiração no Sol que marcou sua presença na estamparia, e claro nas vibrantes cores da Bahia.

Fotos retiradas dos sites oficiais do SPFW e FFW.

DIA 6 – 21 de Novembro

Fomos transportados para Niterói, no Rio de Janeiro, para encerrar essa São Paulo Fashion Week edição 52, Lenny Niemeyer toma o famoso caminho Niemeyer para o cenário de sua coleção, essa que celebra 30 anos da fundação da marca em grande estilo. Uma coleção fluida cheia de estampas e segundo a estilista, os prints foram inspirados em feixes de luz que atingem o fundo dos oceanos, referências ao futurismo corpos celestes e a botânica em modelagens pensadas para vestir diferentes tipos de corpos.

Parece que quase todos os planos foram cobertos por Niemeyer durante a coleção o terrestre, os oceanos e o espacial, todos se unindo em uma coleção harmônica e fluída com uma construção das roupas em si muito bem pensada, é a junção da natureza e do ciclo da vida com uma moda que pensa no mesmo.

Em suma, foi um privilégio enorme poder ver a maioria de todas as coleções de perto, sentir a atmosfera, a ansiedade, ouvir as conversas de canto e a frenesi de não saber sobre o próximo desfile foi uma experiência única que sempre vou levar comigo. Algumas marcas principalmente as presentes no Projeto Sankofa e as novas marcas independentes trouxeram diálogos importantes demais que espero que durem por muitas outras coleções, ouvir novos criativos talvez seja a saída do período sombrio do evento e renascer como um aliado, com uma perspectiva da moda que faz a diferença e se liga diretamente com a arte, posso afirmar que no mínimo é um tempo extremamente interessante para a moda nacional.

Fotos retiradas dos sites oficiais do SPFW e FFW.

Histórias assustadoras para olhar na passarela

Entre os tecidos transparentes incluindo bordados em proporções minis e ousadas observados nas coleções durante a temporada de Primavera/Verão 2022, apresentada no mês de setembro deste ano, foi possível observar outra qualidade estética que indiscutivelmente serviu de inspiração evidente para estilistas, algo não relacionado às correntes de otimismo pós-pandêmico e a ansiedade em voltar para grandes eventos — na verdade justamente se opõe a essa característica tão presente na indústria atual: a estética que se assemelha ao horror, que tira inspiração do tema central, e também em filmes do gênero que marcaram um espaço importante na cultura popular.

Fotos para colagem retiradas da plataforma Pinterest ou Vogue Runway.

Primeiro é necessário entender que a formação do conceito de belo por trás de uma obra de arte nunca foi fácil. Na verdade, entender o que a beleza significa é um dos grandes assuntos e temas da filosofia, de Platão até Immanuel Kant. O autor Paulo Euron em seu livro “Estética, Teoria e Interpretação da Obra Literária” explica que os povos da Grécia e da Roma antigas não tinham uma definição para o que chamamos de “belas-artes”, na realidade a tentativa de definir um termo como “beleza”, “percepção” ou “verdade” relacionado a diferentes obras de arte é um esforço moderno.

Diante de uma pintura, ou de um edifício hoje considerado uma obra de arte, um grego ou romano antigo só veria uma pintura, ou um edifício, ou seja, o resultado da atividade de um artesão. Na Grécia antiga havia  obras de arte, e havia a experiência da obra de arte, mas essa experiência não estava relacionada a categorias como “beleza” ou “qualidade estética”. “

Entendendo isso, durante anos estudamos como um tipo de produção artística consegue inspirar outros artistas de ramos e áreas diferentes a produzirem sua própria visão criativa. O belo das obras na antiguidade clássica sempre foi uma mística entre beleza e arte sendo ainda a referência ocidental de beleza, inspirando inúmeros trabalhos até o presente. Agora que é possível entender uma linha clara entre a relação da qualidade estética e a inspiração criativa: o que acontece quando algo que é justamente a oposição do espectro da beleza tradicional inspira inúmeras visões artísticas?

Alexander McQueen Outono Inverno 1998 RTW

Uma verdade clara da cultura contemporânea é como gêneros visuais e estéticos subversivos ao belo tradicional podem cativar um grande público, talvez por serem justamente a oposição dessa noção estética. O feriado originalmente celta que ficou internacionalmente famoso por um grande conjunto de vestimentas com referências ao conceito de terror em geral — o Halloween hoje é um dos maiores eventos tanto entre grandes celebridades (quais o público espera ansiosamente por suas fantasias) como também entre indivíduos que apenas querem uma noite temática entre amigos… O que depois de quase dois anos em casa, parece ser uma boa alternativa.

É inegável a influência do terror como um conceito completo estético na cultura pop moderna, mas é ainda mais possível observá-la nos grandes filmes de terror que deixaram sua marca na indústria do cinema inspirando fantasias e até mesmo mudando sensos estéticos do que é beleza, desde o famoso vestido preto apertado de Anjelica Huston como Morticia Addams no filme de comédia Família Addams de 1991 que virou uma grande referência da época até a maquiagem azulada da animação Noiva Cadáver de Tim Burton estreada pela primeira vez em 2005, qual este ano virou inclusive inspiração de coleção de maquiagem da marca Makeup Revolution.

Considerando que, desde a maquiagem até os figurinos, os filmes de terror conseguem ser um grande portal de inspiração visual para diferentes recriações. Conversamos com a designer de figurino Alice Alves para esclarecer um pouco se existe uma relação direta entre os figurinos dos filmes em pauta com a cultura pop:

“Existe uma ligação super direta porque é o que vai ser reproduzido dos filmes de terror e de qualquer outra categoria de filme. No Halloween as fantasias mais procuradas são sempre as de filmes, ou seja, são os figurinos que fazem sucesso e perpetuam o filme, os tornam pop. Uma boa figurinista não se forma da noite pro dia, precisa ter bagagem e experiência que vai sendo aprendida nos anos trabalhados como estagiária e depois como assistente.”

Christian Dior Primavera Verão 2006 Alta-Costura

Existe um fenômeno notável de grandes designers de dentro da indústria da moda de luxo que se inspiram nos figurinos ou estéticas gerais desses filmes como inspiração primária para a criação de suas coleções, mais recentemente na última temporada de moda em setembro deste ano. Na coleção de Primavera/Verão 2022 da marca MM6 Maison Margiela entre bebidas de gin em um terraço na cidade de Milão, o designer André Breton em uma colaboração com os artistas surrealistas Leonora Carrington e Claude Cahun apresentaram uma coleção definidamente inspirada em um dos clássicos da literatura de terror que se tornou um filme sucesso e com sequência: A coisa (2017) de Stephen King. 

Entre as estampas quadriculadas em referência ao figurino do palhaço e uma modelo entrando na passarela com um balão flutuante na mão, o designer deixa claro que a inspiração vem não só de uma recriação ligada aos figurinos do filme mas sim da própria trama em si.

Como foi possível perceber, a maioria se deriva de grandes filmes de terror que marcaram épocas e se tornaram populares como O Iluminado (1980), Bebê de Rosemary (1968), Laranja Mecânica (1971) entre outros. Os figurinistas, diretores e ambientações desses filmes foram especialmente utilizados para a criação dessas coleções. Nossa entrevistada explica um pouco sobre a trajetória como figurinista para executar um trabalho que marque desde do popular traçando seu caminho como referência plena em cultura pop e até mesmo se inspirando em outros filmes: 

“A inspiração de cada figurinista é única porque depende da bagagem que ela traz, de quem é o diretor do filme, porque ele vai nortear a figurinista para que ela crie figurinos dentro de uma estética que ele goste, o diretor de arte também tem muitas conversas com a figurinista. E uma das várias fontes que uma figurinista utiliza para criar figurino são os próprios filmes.”

A ligação entre o terror e a moda não é um fenômeno recente, na apuração e pesquisa deste artigo foi possível perceber inúmeros exemplos de diferentes épocas da moda que bebem da mesma fonte de inspiração, desde dos vestidos rígidos e pretos da época vitoriana que até se tornaram uma grande referência de terror em geral até chegar nas coleções de Alexander McQueen — internacionalmente conhecido por seu intrínseco trabalho misturando a emoção, arte e moda. McQueen era fascinado em inspirações estéticas que causavam êxtase e desconforto dentro de coleções teatrais e com habilidade técnica.

Algumas das inspirações em cenários grotescos como sua coleção de graduação de 1992 intitulada “Jack The Ripper stalks his victims”; quando colocou um esqueleto humano na primeira fila junto com os jornalistas para a coleção de Outono/Inverno 1996 inspirada no Inferno na Divina Comédia de Dante; quando, no final do show, tinha uma mulher nua com cabeça de alien num cenário inspirado em um asilo mental vitoriano; ou finalmente quando McQueen aprendeu sobre a história de suas ancestrais que foram executadas nos julgamentos de bruxas de Salém e fez uma coleção inteira referenciando bruxas para a coleção de Outono/Inverno de 2007.

Moschino Resort 2020 Menswear

Alexander McQueen trilhou um caminho muito diferente de seus compatriotas na indústria da moda de luxo na época, ele conseguia fazer coleções completamente teatrais e experimentais serem sucessos entre críticos e consumidores — abrindo as portas para quem encontra o belo dentro de cenários e estéticas inusitadas. Alguns exemplos de coleções mais recentes que seguiram dessa fonte de inspiração são Undercover Primavera/Verão 2018 com o filme O Iluminado, Moschino Resort 2020 com o filme Pânico  (1996), Gareth Pugh Primavera/Verão 2015 em bruxas e Rick Owens com o filme francês de terror Os Olhos Sem Rosto (1960).

Em suma, os tópicos de fontes de inspirações que servem para designers produzirem suas coleções são sempre muito comentados e discutidos dentro da indústria, mas a possibilidade de que os mesmos podem se inspirar em criar uma arte visual e apreciativa tomando como partida uma estética que não relacionamos com algo tradicionalmente belo ou agradável é um espectro fascinante de dentro das criações.

Fotos de desfiles com a temáticas comentada retiradas da plataforma Vogue Runway.

Uma lista de coleções que utilizam da inspiração:

Alexander McQueen Spring Summer 1995 – inspirada no filme de Alfred Hitchcock “Os Pássaros”

Alexander McQueen: primeira coleção em 1992 – A coleção de graduação ” Jack The Ripper Stalks His Victims”.

Alexander McQueen Fall Winter 1996 – inspirada por “Inferno” de Dante.

Alexander McQueen Fall Winter 1998 – Joana d’Arc e bruxas.

Alexander McQueen Fall Winter 2001 – O personagem Pennywise.

Junya Watanabe Fall Winter 2006 – O filme de 1987 Hellraiser.

Alexander McQueen Fall Winter 2007 – Bruxas.

Saint Laurent Spring Summer 2013 – Bruxas e serviu de inspiração do figurino da temporada Coven de American Horror Story.

The Blonds Fall Winter 2013 – O iluminado

Gareth Pugh Spring Summer 2015 – Bruxas

Rick Owens Fall Winter 2016 – O filme francês de terror Eyes Without a face

Calvin Klein Spring Summer 2018 – Os filmes Carrie e o bebê de Rosemary

Undercover Spring Summer 2018- O iluminado

Calvin Klein Spring Summer 2019: O filme Jaws

Comme Des Garçons Fall Winter 2019: A estética horror num plano geral.

Thom Browne Spring Summer 2019: O personagem Jason Vorhees.

Prada Fall Winter 2019: O filme e livro de Dr. Frankenstein e Família Addams.

Undercover menswear Fall Winter 2019 – O filme Laranja Mecânica.

Moschino Resort 2020 – O filme Scream.

Maison Margiela Fall 2020 Couture – A estética no geral.

MM6 Maison Margiela Spring Summer 2022 – O filme “IT” principalmente do personagem Pennywise.

Undercover Primavera Verão 2018

Tudo o que você precisa saber sobre a PFW

Existe uma ligação simbólica entre a cidade da luz e a indústria da moda, um pacto velado entre duas instituições para o benefício financeiro de ambas. Não só meramente simbólico mas historicamente, a história de amor entre as duas partes tem um começo claro na corte real francesa de Louis XIV. Os franceses sempre tiveram uma habilidade na indumentária aristocrática, mas nesse período específico foi quando a vestimenta saiu de apenas um status quo social para representar verdadeiro poder bruto.

Jogos de superioridade envolvendo produtos de luxo como jóias e vestidos como uma moeda de troca que mostrava sua posição social e financeira, foi quando entenderam principalmente que os costureiros sob-medida de Paris conseguiam ganhar muito mais do que outro com mesma habilidade artística, desde então os franceses não são só conhecidos unicamente pela arte indumentária ou tendências da época, foi um dos primeiros lugares que viu a possibilidade de lucro real como commodity.

É possível colocar que a moda prosperou tanto em Paris pois lá foi o primeiro lugar que viu a prática como uma indústria completa com um potencial de lucro enorme reinando nas casas de luxo. Desde Charles Frederick Worth criando a prática completa da alta-costura, que logo depois teve a criação de seu próprio sindicato a fim de fiscalizar a prática. Até o presente com o empresário Bernard Arnault tornando essas grandes casas de luxo em um dos maiores conglomerados modernos, sendo a LVMH a segunda empresa que mais transita dinheiro na Europa segundo o “The State of Fashion 2020: Coronavirus Update” realizado e apurado pelo site Business of Fashion.

Paris reina clamando ser o epicentro da moda: uma cidade de alta-costura e bom gosto, com a reputação histórica de suas marcas, em seu livro Capital da moda Valerie Steele qual ela explica o significado da cidade para os amantes de moda pelo globo “A história da moda de Paris se confunde inexplicavelmente em mito e lenda.”

Apesar da prática de grandes maisons de moda convidarem uma condição seleta de clientes para a apresentação de suas coleções, como Paul Poiret ou até o grande precursor de alta-costura Charles Worth, assim como Coco Chanel e Elsa Schiaparelli nos anos 30, até nas grandes visões das coleções o opulentas de Christian Dior.

Mas depois dos anos 60, com grandes designers como Yves Saint Laurent e Pierre Cardin abrindo suas versões de prêt-à-porter, a moda de luxo tinha que se estruturar como diferente das suas concorrentes em lojas de departamentos da época.

O primeiro grande evento da moda como um todo na indústria na cidade e oficialmente a primeira Semana de Moda de Paris, foi a infame Batalha de Versalhes que aconteceu em 1973 organizada pela Fédération Française de la Couture. O evento oficialmente era para arrecadar fundos para restaurar o Palácio de Versalhes, uma batalha dramática entre designers tradicionais franceses e os novos e modernos designers americanos, contou com designers como Yves Saint Laurent, Emanuel Ungaro, Christian Dior (então desenhado por Marc Bohan), Pierre Cardin e Hubert de Givenchy no lado francês, contra Anne Klein, Halston, Oscar  de la Renta, Bill Blass e Stephen Burrows representando a América.

Hoje, a Paris Fashion Week segue com suas teatralidades dramáticas, e conta com os desfiles mais importantes da temporada — já que a maioria dos grandes conglomerados ainda estão situados em Paris, assim como a alta-costura. A cidade respira a moda durante essa semana com ruas engarrafadas, atrações turísticas sendo fechadas para desfiles e bolhas nos pés de correr e andar pela cidade, pelo menos é assim que reza a lenda.

Depois de um mês caótico e animado terminamos nossa jornada de cobertura das coleções na temporada de Primavera Verão 2022, no Instagram da Frenezi vocês ainda conseguem encontrar nossa cobertura por inteiro com resumos de todos os desfiles nos posts de overviews diários, até guias explicativos das coleções mais importantes de cada semana do Big Four — Nova Iorque, Londres, Milão e Paris — além dos textos em nosso site cobrindo a beleza e com resumos de cada dia específico.

Imagens dos desfiles comentados da PFW, todas as fotos retiradas do Vogue Runway.

Dia 1 – 24 de Setembro

Começamos o primeiro dia com a jovem e apocalíptica Marine Serre que conquistou celebridades por todo o globo com sua estampa de meia lua colorida. A designer optou novamente por um grande e bem produzido fashion film, em colaboração com seus aliados de longa data Sacha Barbin e Ryan Doubiago. Desde do advento da pandemia do Covid 19, Serre diminuiu um pouco a inspiração distópica tão característica de sua marca para um trabalho um pouco mais familiar e confortável. 

Nesta coleção intitulada de Ostal 24, é possível observar um pouco dos dois mundos familiares de Serre, ainda com peças que serão sem dúvidas sucessos de vendas, afinal toda marca precisa pensar também no lado financeiro. O filme é perfeitamente desconfortável, constrói uma coleção da marca muito bem com a harmonia perfeita entre o trabalho conceitual e comercial da designer, com ares de filho pródigo do apocalipse que vai em raves dos anos 90.

A marca ainda consegue surpreendentemente criar peças originais que revitalizam o look familiar que dá nome a sua marca a cada temporada. Sem comentar seus esforços de utilizar a maior quantidade de material reciclado possível: 45% eram materiais regenerados e 45% reciclados para esta coleção de Primavera Verão, a  maior porcentagem já usada pela designer.

Terminando o primeiro dia com Kenneth Ize, uma dos times das marcas jovens e independentes que conseguiram sobreviver a Pandemia do Covid 19, Ize conseguiu não só isso como prosperou em um momento crítico na moda mundial. É um dos designers para olhar com atenção nas próximas temporadas — não apenas pelo fato dele ter a benção da supermodelo Naomi Campbell ou ter colaborado com a marca autoral de Karl Lagerfeld, mas da precisão de seu trabalho e seu olhar crítico para materiais de qualidade.

Vimos também, como uma projeção da pandemia no mercado, que cada vez mais compradores de luxo preferem um material verdadeiramente de qualidade — como o de Ize, que construiu uma fábrica na Nigéria onde as peças são tradicionalmente feitas de linho produzido à mão tomando 80% de todos os tecidos da coleção, os toques finais do tecido são produzidos na Itália. Isso é um luxo velado produzido com propriedade e precisão local, uma virtude que coloca o designer em outro patamar entre seus contemporâneos.

Imagens dos desfiles da esquerda para a direita: Marine Serre e Kenneth IZE, retiradas do site oficial das marcas ou da plataforma Vogue Runway.

Dia 2 – 25 de Setembro

Começamos o dia com uma das marcas mais importantes da história, com sua diretora criativa que faz sucesso nas vendas mas não tanto nas críticas. A mulher da Christian Dior pensada por Maria Grazia Chiuiri é versátil, com roupas descomplicadas para o dia-a-dia feminino moderno e, segundo muitos clientes, é uma das poucas grandes marcas que também se preocupa com o conforto dentro de suas roupas – esses são alguns fatores do sucesso de vendas que a diretora trouxe para a marca desde sua entrada.

Ao mesmo tempo, os designs de Chiuri são descritos como não originais, sem muita mudança aparente entre coleções. Desta vez, ela olha para um passado rico da trajetória da marca e traz de volta os anos de 1960 às passarelas da Dior, com olhar para o legado do diretor criativo na época, Marc Bohan. Com uma atmosfera inspirada em jogos de tabuleiro, a marca apresentou uma coleção que revisita sua própria história buscando por elementos lançados na época por Bohan como silhuetas retas e tons fortes e vibrantes.

A inspiração da coleção é muito bem pensada, afinal a década de 60 é marcada como um dos maiores avanços no guarda-roupa feminino e uma década decisiva para a marca historicamente. Não foi nada fácil para Marc Bohan homenagear o falecido Christian Dior que era justamente o epicentro da moda de cinquenta com suas crinolinas, corpetes e com as novas formas de vestimenta mais utilitárias da década, mas prosperou na Dior durante o tempo. 

É possível ver uma linha clara entre o trabalho de Bohan e Chiuri em alguns looks que, principalmente, fazem menção a alfaiataria da época — mas a execução da coleção em geral é fraca mesmo com um conteúdo de moda tão grande por trás. As segundas peles aterrorizantes por baixo de quase todos os looks também não ajudaram na boa execução da coleção.

Passamos logo depois para uma das coleções que expressam todas as grandes tendências que são possíveis de observar no mundo pós-pandemia: as transparências, recortes bem posicionados e cores vibrantes. A marca Ottolinger sob a direção criativa de Christa Bösch e Cosima Gadient, com características jovens que conta com alças assimétricas e modelos quase nuas são traduzidos para a geração Z com excelência. Apesar de uma coleção ligada ao corpo e sua forma, ao contrário de outros que tomaram a mesma inspiração durante essa temporada, Ottolinger se preocupa em deixar claro que existem mais de um tipo de corpo e que todos merecem ser sensuais e aproveitarem ao máximo as festas depois do tempo caótico.

Thebe Magugu faz uma homenagem emocional a mulheres que inspiraram sua trajetória criativa, como sua avó e sua mãe. O otimismo é uma das maiores características da indústria da moda no movimento pós-pandemia e Magugu prova exatamente isso com uma coleção divertida, alfaiataria feminina, silhuetas elegantes e volumes esculpidos na vestimenta e no corpo. 

A atmosfera do desfile deu lugar á uma instalação onde é possível encontrar referências da homenagem a famílias do designer, como vestidos usados por sua tia e cartas de sua mãe que dão um sentimentalismo e uma sensibilidade para a coleção emocionantes. Ver um designer honrar suas raízes e homenagear algo tão pessoal e sentimental é sempre um momento único.

Terminamos o segundo dia em uma localização simbólica de Paris: a Torre Eiffel. A Saint Laurent volta para sua atmosfera clássica com uma iluminação digna de um verdadeiro show — e a chuva descendo calmamente durante o desfile provam como Anthony Vaccarello ainda consegue entregar um grande momento para a marca. Escolher voltar para o ponto turístico é muito mais que uma decisão meramente simbólica, ela representa um novo rumo para a Saint Laurent.

O diretor criativo finalmente encontrou seu passo entre a harmonia ideal da estética característica criada por Heidi Slimane na marca anos antes e os ricos arquivos do trabalho de Yves Saint Laurent, toma como inspiração principalmente o desfile Outono/Inverno 2001 Couture.

Se desprender um pouco da estética criada por Slimane e criar seu próprio mundo em homenagem a uma história tão rica de um dos maiores criativos da indústria se mostrou uma ótima estratégia, alcançada com blazers de alfaiataria precisa e luvas de cores vibrantes, ele apresenta uma coleção polida, sensual e com uma costura rígida e precisa.

Imagens dos desfiles da esquerda para a direita: Christian Dior, Ottolinger, Thebe Magugu, Saint Laurent, retiradas do site oficial das marcas ou da plataforma Vogue Runway.

Dia 3 – 26 de Setembro.

Começando o dia com uma releitura do passado, Nicolas Di Felice mantém a herança da Courrèges viva com seus cortes retos em linha-A que remetem aos tempos de glória da marca nos anos de 1960. Assim como na última temporada, o designer revisita elementos do passado com a integração de itens e releituras atuais. É possível descrever o trabalho de André Courrèges entre o filho perfeito de Mary Quant e Paco Rabanne, o precursor da moda futurista da época, mas ainda com elementos claramente ligados à moda de rua e aos movimentos sociais que aconteciam.

Em uma coleção trabalhada em couro — e em sua maior parte coberta de tons neutros —, Di Felice entrega itens bem estruturados e similares a peças tanto de coleções atuais como arquivos da marca. A marca também pode se tornar uma das principais do atual fascínio entre as décadas de 1960 e 1970 que está presente na indústria contemporânea, e de quebra manter a importante herança da marca, revigorando seu logo.

Em uma das poucas estreias da temporada, Charles De Vilmorin faz seu primeiro desfile presencia  para a marca Rochas como seu diretor criativo atual. Ele é um jovem designer recém graduado da Escola do Sindicato da Alta-Costura Parisiense e sua coleção de graduação fez tamanho sucesso durante o verão passado que ele foi um dos membros convidados para a semana de alta-costura em janeiro e julho de 2021. 

As características claras do trabalho De Vilmorin são barulhentas, ousadas e chamativas, trabalha com silhuetas volumosas que são elevadas ao extremo com a escolha de estampas e tecidos igualmente dramáticos e bem parecidos com sua primeira coleção na alta-costura. A estreia foi no mínimo memorável com designs que tendem até para um gótico romântico e uma abordagem jovial e chamativa. Um nome e proposta que prometem grandiosidade para o diretor criativo.

Acne Studios é uma marca que ganhou notoriedade pelo streetwear e apreço do público jovem, era de se esperar que o diretor criativo Jonny Johansson apresentasse uma coleção recheada de tendências e referências modernas e realmente, foi o que aconteceu. A coleção é o sonho da geração Z na passarela com calças de cintura baixa de couro, sapatos plataformas, corsets e blusas fluídas com transparência direto dos anos 1970 até peças de crochê e detalhes bordados, a coleção de Primavera/Verão é pelos jovens. 

Com leves elementos e inspirações na moda dos anos 2000, Johansson apresenta a nova visão do sensual e faz a própria interpretação do papel que a moda tem hoje para as novas gerações. 

Patou apresenta uma coleção repleta de alfaiataria moderna que grita o estilo parisiense de um jeitinho especial. Guillaume Henry — diretor criativo da marca — cria uma fantasia acerca da mulher independente. Com elementos extremamente femininos, desde golas até rendas e laços, Patou apresenta a visão da mulher romântica moderna que ama golas exageradas e mangas bufantes. O drama está presente nas silhuetas — como nas coleções passada s—, mas desta vez de forma mais controlada e acompanhada de logos. 

O desfile final do terceiro dia foi emocionante, a coleção marca o aniversário de 10 anos do diretor criativo da Balmain na marca. Olivier Rousteing reviveu a marca, trouxe  seus maiores sucessos de vendas e campanhas publicitárias memoráveis com seu time de celebridades. A coleção toda teve 116 looks entre womenswear e menswear. Na primeira parte da coleção é possível olhar uma homenagem clara à trajetória criativa de Rousteing, com cortes assimétricos e sensuais, silhuetas oversized, acessórios pesados e jogos de texturas entre tecidos que mantêm as vestimentas interessantes.

Na segunda parte o estilista resolveu apresentar 16 looks que são recriações de coleções passados, as peças foram desfiladas por algumas das musas do designer como Naomi Campbell, Mila Jovovich, Carla Bruni e Imaan Hammam, foi nessa parte da coleção que é lembrado o incrível artesão que Olivier Rousteing é, consegue juntar bordados e estampas maximalistas com uma precisão perfeita e sempre pensando na qualidade e amor pelo seu trabalho.

Imagens dos desfiles da esquerda para a direita: Courrèges, Rochas, Patou, Acne Studios, Balmain, retiradas do site oficial das marcas ou da plataforma Vogue Runway.

Dia 4 – 27 De Setembro

Começamos o dia com um dos desfiles que se destaca na multidão, durante essa temporada vimos inúmeras referências ao otimismo pós-pandemia, alguns desses feitos com uma mentalidade bem desligada da atualidade onde muitas pessoas ainda não se recuperaram do ocorrido para pensar em sair e se divertir.

Rick Owens fala exatamente sobre isto em sua nova coleção de Primavera Verão 2022: passamos por algo traumático juntos, algo que deveria ter ensinado diversas lições a sociedade moderna. “Esse desfile deveria ser sobre humildade e uma lição aprendida ou carpe diem?”, questionou o designer em seu primeiro desfile presencial após meses apresentando coleções em seu próprio quintal. Owens sempre dá uma lição no quesito de sensibilidade com eventos atuais, e ainda leva grandes características de sua marca para a coleção com um toque gótico, beleza andrógina, peças que repensam o que é a sensualidade hoje e até uma mistura de tecidos e silhuetas que conseguem transpassar uma ambiguidade de fluidez e rigidez ao mesmo tempo. O trabalho de Rick Owens questiona, e principalmente nos faz questionar.

Falar sobre o que significa sensualidade hoje não é um assunto novo, durante esse ano vimos tendências que estudavam e se despedem da Male Gaze e começavam a se vestir para expressão pessoal e diversão criativa, não exatamente para agradar o olhar masculino. Dá pra sentir esse espírito nas coleções da Coperni, com comprimentos mini, transparência, calcinha de strass e decotes profundos Arnaud Vaillant e Sébastien Meyer definitivamente mostram toda a ousadia da mulher Coperni.

Entre os blazers quase nus e a atmosfera do desfile ser construída entre 70,000 caules de hemp, qual é uma iniciativa sustentável para tecidos que os designers estão envolvidos. A coleção tem um ar futurista característico da marca, tanto que foi nomeada como Spring Summer 2033 é uma utopia festeira e sensual para fugir da realidade que vivemos, assim como toda coleção da marca.

Gabriela Hearst tem pouco tempo como diretora criativa da Chloé mas já deixa sua visão para a marca bem clara: é uma versão mais feminina e romântica da sua marca autoral, ainda com apreço pelos mesmos valores como alfaiataria bem feita e produção de qualidade, mas ainda é possível sentir um sabor Boho característico da história da Chloé com o uso de franjas, miçangas e macramê. A coleção de Hearst investe em cores sóbrias e foco nos detalhes para uma conjunção elegante sem perder a jovialidade. Comprimentos longos marcam as peças, seja em vestidos que vestem das praias às festas, saias ou maxi casacos. É a Afrodite de sua Atena — até mesmo as coleções passadas de Outono/Inverno foram intituladas assim.

Raf Simons tem uma queda por referências não tradicionalmente belas, inspirado pelos movimentos gótico e do rock, a marca autoral do designer trouxe novamente as mãos de esqueletos ao lado das roupas, estampas gráficas que parecem merchandise de bandas de rock e uma paleta de cores escuras. As silhuetas amplas revisitam uma atitude de roupas unissex que vemos pontualmente em trabalhos do designer, e com uma inspiração em movimentos que não ligam para as regras tradicionais de gênero ou vestimenta.

Terminando o dia no museu do Louvre com Isabel Marant, que assim como muitos outros designers se inspiraram durante essa temporada, a designer resgata novamente o boho chic em busca de inspiração. O resultado são peças com silhuetas e estruturas modernas, aliadas às cores, estampas e acessórios que remetem ao estilo hippie sem perder a classe.

Imagens dos desfiles da esquerda para a direita: Rick Owens, Chloé, Coperni, Raf Simmons, Isabel Marant, retiradas do site oficial das marcas ou da plataforma Vogue Runway.

Dia 5 – 28 de Setembro 

Começamos um dia ensolarado com Loewe de Jonathan Anderson trazendo uma luz necessária para a temporada de Primavera Verão, o designer se inspira em se divertir com a moda novamente e apresenta desta vez uma coleção fora da caixa com silhuetas, tecidos e texturas diferentes do que já apresentadas anteriormente.

O poder financeiro tem sido uma das grandes discussões entre as grandes marcas modernas (infelizmente ainda não é possível pagar as contas com uma coleção meramente conceitual), Anderson consegue executar uma harmonia perfeita entre o experimental e o utilitário. Na coleção o designer apresenta sua visão para uma nova Loewe divertida e alegre, com um discurso experimental desde looks com placas de peito de plástico à la Barbarella, vestidos de paetês e saias com volumes estruturais.

Falando de formas experimentais e cores vibrantes, quase impossível de não lembrar de Issey Miyake que apresenta uma coleção cheia de formas experimentais, em tecidos e texturas variadas brincando com as formas e variantes dos corpos diferentes que apresenta, em conjunto com toques de cores vibrantes quase neon em sua coleção que aparecem principalmente para enfatizar seus detalhes inusitados na vestimenta.

Esta temporada marca muitos aniversários especiais, entre eles o aniversário de 40 anos da marca autoral de Yohji Yamamoto, designer reconhecido internacionalmente como um dos precursores do anti-fashion e do minimalismo japonês de qualidade, pela sobriedade em roupas que valorizam a qualidade dos tecidos e a precisão entre a construção da vestimenta são características claras de seu trabalho.

A coleção foi toda monocromática em preto, o que deixa claro que a atenção deve ser voltada para a construção de suas silhuetas, com os últimos looks exuberantes com a creolina à mostra, consegue-se observar o vestido por dentro e fora. É uma coleção que homenageia seu passado entendendo e honrando sua trajetória e repensando-a de uma forma interessante.

Entre um dos desfiles mais esperados dessa temporada, temos Pierpaolo Piccioli em sua diretoria criativa na Valentino que conquistou os corações dos amantes de moda por suas coleções opulentas e glamourosas de alta-costura. Durante a pandemia do COVID 19, o designer viu que não era o momento certo para coleções como símbolo de riquezas como eram anteriormente e mudou sua visão criativa para se encaixar em um novo contexto social que vivemos hoje – ainda com menção honrosa de características clássicas típicas da marca mas com um tom um pouco mais prático.

Suas criações não tem uma grande linha de storytelling clássica dentro de uma coleção, mas o designer tem uma grande sensibilidade em entender o estado do mundo atual e que talvez aquelas coleções não sejam mais o adequado para o momento.

Em sua conta pessoal do Instagram ele conta como olhou para os arquivos da marca e seu passado como uma forma de força interna a fim de entender a trajetória como um todo. O primeiro vestido da coleção é uma cópia e homenagem a um vestido feito por Valentino para Marissa Berenson em 1968. O resto da coleção segue entre a linha nostálgica de antigos modelos da marca e características claras do trabalho de Piccioli atualmente na marca — uma ótima representação de respeito pela história até juntando-a com o contexto moderno. 

Imagens dos desfiles da esquerda para a direita: Loewe, Valentino, Issey Miyake,Yohji Yamamoto, retiradas do site oficial das marcas ou da plataforma Vogue Runway.

Dia 6 – 29 De Setembro

Quem mais conseguiria um hangar de um aeroporto perto de Paris fechado para a apresentação de um desfile se não a Hermès? A diretora criativa da marca, Nadège Vanhee-Cybulsk, faz uma homenagem à história ligada a uma tradição no esportivo de luxo e repensa sua mulher moderna, ela vê a moda ideal para sua cliente hoje não sendo subversiva do conforto. 

É tudo sobre poder se movimentar livremente mas ainda fazendo esforço para estar elegante. A harmonia entre o conforto, a sensualidade feminina e a praticidade de uma forma muito sofisticada, com uma paleta em tons refinados terrosos entre laranjas, amarelos fechados e caramelos estão trabalhados em altíssima qualidade em couro — marca registrada da marca.

Alexandre Vauthier apresenta uma coleção com peças em que definitivamente é possível observar a qualidade de seu ateliê, meticulosamente e precisamente esculpidas, como um dos seus sucesso de vendas: o blazer ampulheta. 

A alfaiataria sofisticada e suas linhas fortes marcantes eram nítidas durante toda a coleção, o próprio designer declarou que sua coleção de Primavera/Verão foi “intensa em termos de trabalho, mas sincera e para frente criativamente falando”. Também reconhecido por seu vestuário noturno, looks de festas não foram deixados de lado, com bordados brilhantes bem posicionados.

E provavelmente uma das apresentações mais importantes da temporada: Balenciaga sob a direção criativa de Demna Gvasalia — que desde sua coleção de alta-costura mostra um trabalho genuíno entre a história da casa e a essência criativa do próprio designer. 

Já é uma das características claras de Gvasalia romper barreiras entre o digital e o real, como sua coleção de Outono/Inverno 2021 em que fez uma espécie de realidade digital entre clonagem de modelos.

Nesta temporada, o designer optou por fazer uma sátira divertida em colaboração com um amado desenho norte-americano Os Simpsons com um episódio especial do desenho animado como um desfile da Balenciaga, com direito a Anna Wintour na primeira fila foi uma diversão cômica necessária o episódio foi exibido logo antes do desfile. 

Os convidados se instalaram dentro do Le Théâtre du Châtelet enquanto assistiam as modelos, que desfilavam os looks oversized da coleção, no tapete vermelho. E após as modelos se juntarem aos convidados na plateia, já não se sabia quem era quem, mas agora já não importava por que o show iria começar. 

Depois de um ano traumático e com a indústria da moda tendo que se reinventar para adentrar as temporadas digitais, muito se especulou sobre como seriam as apresentações pós-pandemia, e muitas marcas decidiram lidar com a situação como “business as usual” — com desfiles presenciais quase sem conteúdos digitais —, mas não a Balenciaga que trouxe uma experiência imersiva entre o digital e o real.

A coleção em si foi composta por modelagens claras da identidade visual atual da marca, principalmente com referência a coleção de alta-costura com vestidos com cintura marcadas em tecidos bordado e, assim como Yohji Yamamoto, Gvasalia preferiu por apresentar looks majoritariamente monocromáticos, principalmente em preto, o que ajuda a perceber detalhes suntuosos da construção e qualidade dos mesmos. Foi um bom respiro de novidade cômica em meio a uma semana de moda tão tradicional como Paris.

Imagens dos desfiles da esquerda para a direita: Hermés, Balenciaga, Alexandre Vauthier, retiradas do site oficial das marcas ou da plataforma Vogue Runway.

Dia 7 – 30 de Setembro

Bruno Sialelli sempre deixou claro quem era a sua musa moderna para sua visão criativa sobre a marca francesa Lanvin: uma pessoa festeira e glamourosa. Deixou essa identidade visual da marca clara com sua criatividade em campanhas e apresentações digitais, do fashion film da coleção de Outono/Inverno ter sido ao som de Rich Girl de Gwen Stefani em uma festa privada em um opulento hotel parisiense e também uma campanha publicitária com o rosto que é a carteirinha oficial das garotas ricas e festeiras desde 2000, Paris Hilton. 

O designer afirmou sobre a nova clientela da marca: “A maioria dos clientes que estão nos procurando procuram por produtos glamourosos e fabulosos. Procuram por uma versão mais elevada e confiantes deles mesmos. Partindo dessa, ele cria uma coleção exatamente para esses clientes com enfeites dourados, tecidos e caimento que lembram um robe e vestidos de cocktail, noite e festa. Além de trazer silhuetas que abusam dos trench coats e tinhas linhas mais nítidas e pesadas – vide o look final desfilado por Naomi Campbell: movimento, alfaiataria, brilho e muito tecido. 

Em sua primeira coleção para a Givenchy no ano passado, Matthew Williams deixou a indústria ansiosa para o que mais ele poderia fazer, mas a linha de alfaiataria limpa e sensual com alguns elementos fortes de seu streetwear futurista em alguns acessórios foi deixada de lado. 

Nessa coleção ele apresenta um trabalho sem nenhum apreço pela qualidade da história do ateliê da marca. Pontua na apresentação do desfile que gostaria de destacar a elegância Givenchy de uma forma jovial e atraente para compradores da geração Z, mas infelizmente não consegue traduzir o conceito criado por ele mesmo. Com um problema desde a escolha dos tecidos até silhuetas confusas e repetidas, tudo tem um ar que poderia ter saído de um desfile em 2011 — não num bom sentido de nostalgia.

Terminando um dia de altos e baixos com Ludovic De Saint Sernin, durante essa temporada inteira ouvimos os discursos de otimismo pós-pandemia e sensualidade pronta para as novas festas, Saint Sernin é o próprio rei dessa estética. A marca sempre foi extremamente ligada a seus brilhos em vestidos de proporções mínimas porém, em uma temporada que podemos observar isto como uma das maiores tendências atuais a vir, era quase necessário ver a coleção do designer.

E ele deixa isso claro em todos os looks. Não importa se são masculinos ou femininos, estão irreverentemente sexys e chamativos, como um look inteiro de strass num vestido mini com recortes por ele todo deixa claro como o dia para quem a coleção foi pensada. Como Blumarine, é bem difícil criticar a utopia criativa de Saint Sernin porque queremos essa ousadia e diversão com brilhos depois de quase dois anos de isolamento — fantasia até meio necessária em períodos caóticos.

Mas o culto ao corpo da marca é meio preocupante, não é apenas um sexy indiferente, é uma atitude quase ligada ao pornografico, bem parecido com o que Tom Ford fazia em seu tempo para a Gucci. Conseguimos hoje ter a mesma atitude ousada sem nenhuma diversidade de corpos?

Imagens dos desfiles da esquerda para a direita: Lanvin, Ginvenchy, Ludovic De Saint Sernin, retiradas do site oficial das marcas ou da plataforma Vogue Runway.

Dia 8 – 1 De Outubro

Começamos o dia com uma volta de aquecer o coração, Stella McCartney retorna às passarelas e coloca em prática uma ideia de transição. A estilista é notavelmente conhecida por suas criações que abordam a sustentabilidade e a fusão entre a moda de luxo e a saúde do planeta para os próximos anos, tem também uma das maiores pesquisas de couro e outros materiais veganos sem o uso de plástico e toxinas. 

Sua marca está diretamente ligada a questionamentos sobre o futuro, essa coleção marca o retorno de uma identidade mais sensual da mulher de McCartney com recortes bem posicionados em silhuetas bodycon, em conjunto a uma atmosfera esportiva e de conforto dá a ideia de ambiguidade e transição da coleção em conjunto com peças festivas de bordados. 

Um outro ponto marcante foi a quantidade de peças feitas a partir de materiais ecológicos: quase 63% — como poliéster e elastano reciclados, náilon regenerado, viscose e um corante inovador feito a partir de elementos reciclados.

Passando para uma dos designers mais aclamados da semana de moda de Paris hoje: Daniel Roseberry na Schiaparelli, isso deve-se ao fato de como o designer consegue homenagear a fundadora excêntrica da casa juntando moda e arte surrealista em roupas intrinsecamente bem produzidas e acessórios mais que atraentes para novos consumidores.

Detalhes definitivamente não são um problema para a Schiaparelli de Roseberry, Nesta temporada exalta a forma humana na apresentação de sua nova coleção e mantém a ousadia, luxo e surrealismo da fundadora da casa, Elsa Schiaparelli. 

Com um toque mais pessoal, Roseberry reúne peças de joalheria e acessórios, como óculos e bolsas, totalmente imagináveis, estampando as partes do corpo — orelhas, lábios, olhos, nariz, etc —, ainda com referências a Salvador Dalí com o bolero inflável de couro preto que relembra o artista, e referencia também uma das criações da marca: o vestido ‘esqueleto’. Além de um designer que foi uma das suas grandes inspirações artísticas para sua trajetória na moda, Jean Paul Gaultier com o couro e as sedas dispostas em redemoinhos formando pétalas de uma flor, além da aparição dos jeans com bordados suntuosos em dourado.

A visão da Schiaparelli de Roseberry é clara e concisa, é possível vê-la de longe mas seu verdadeiro trunfo é conseguir conciliar diferentes áreas cruciais em uma coleção como a história rica da casa, a sua própria trajetória e uma harmonia ideal entre o conceito exuberante e peças individuais e acessórios individuais que conseguem ser traduzidos para o lucro financeiro, coisa que a Schiaparelli estava necessitada antes da entrada do designer.

Para o desfile da temporada, Giambattista revelou uma coleção imensamente floral e com um mix de cores — em tons de vermelho, sorbet, etc — seguido de estampas. Com a busca de seguir fielmente a proposta para a coleção de Primavera/Verão 2022, Valli destacou-se pela presença de peças em conjuntos que referenciam o verão europeu — principalmente o italiano e o francês em questão — e vestidinhos mais justos, que casam perfeitamente com a temporada. Um outro ponto marcante foi a aparição de lábios coloridos — em diversos tons distintos de gloss —, além de acessórios que remetem à época do verão. 

Em sua coleção Co-Ed, John Galliano enfatizou, mais uma vez, o quão inspirado ele é nos ”sonhos do futuro que os jovens estão tendo, e tornando-os realidade’’ — a principal temática da coleção. 

O trabalho experimental de Galliano para a Margiela flui em uma coleção inventiva com texturas românticas e utilitárias, silhuetas novas, casacos gigantes e arrebatadores, além da ilustre presença de botas de pesca que vão até a coxa e que geralmente são uma grande sensação nas lojas da maison, e a própria tabi boots

Tudo sem deixar o toque misterioso, sensível e erótico que são características fundamentais de Galliano, mas que casam muito bem com a assinatura da Margiela, com características semidestruídas e reconfiguradas em suas peças. 

Imagens dos desfiles da esquerda para a direita: Stella McCartney, Schiaparelli, Giambattista Valli, Maison Margiela, retiradas do site oficial das marcas ou da plataforma Vogue Runway.

Dia 9 – 2 De Outubro

E finalmente, o último nascer do sol acontece em Paris. O primeiro desfile que é de uma casa reconhecida por ser francesa, famosa por ser quase obrigatória para as elegantes e despretensiosas parisienses. Ela mesma: a Chanel.

Para a Primavera/Verão 2022, Virginie Viard decide atender às preces dos amantes de moda e apreciadores da casa e trazer um pedacinho das passarelas cheias de atitude e confiança dos anos de 1990 de volta. A designer é notavelmente muito ligada a seu mentor, sempre referenciando-o quando consegue. Decidir homenagear uma era especial na história da Chanel, uma das épocas de ouro de Karl Lagerfeld recheada de modelos andando na passarela com charme e sensualidade, Viard apresenta uma coleção nostálgica, jovem e ousada ao mesmo tempo.

Com peças que remetem aos tempos de glória da marca, como swimwear cheios de acessórios, blazer estruturados de tweed, silhuetas mais justas ao corpo em conjunto com brilhos e bordados pontuados mas não em excesso — uma elegância típica da Chanel em conjunto com acessórios que tem potencial de serem os mais vendidos da temporada.

Para fechar com chave de ouro, os fotógrafos foram posicionados no final da passarela, modelos puderam mostrar seu carisma com poses, sorrisos e desfiles diferentes, tudo para acentuar as roupas divertidas e vibrantes que parecem encaminhar Viard para um novo caminho, talvez, para melhor.

Se em Prada é possível observar uma elegância jovial e o sexy repensado de uma forma única e feminina por Raf Simons e Miuccia Prada, em sua irmã mais nova, Miu Miu — que tem apenas Miuccia como diretora criativa —, sempre há uma diversão jovial e até ousada dos designs.

A “irmã mais nova” da Prada, que desde o seu princípio foi baseada nas garotas da escola que Miuccia Prada sonhava em ser, agora tomou sua forma final e madura em uma coleção que junta o preppy com o sexy. Miuccia Prada é reconhecida internacionalmente pelo seu trabalho com dicotomias criativas — uma das características únicas e reconhecíveis de seu trabalho — e nesta coleção não é diferente. Se na anterior ela juntou uma montanha de neve e botas de pelos com vestidos slip com strass, nessa ela faz um workwear reconhecível mas cortado no meio sem acabamento parecendo rasgado de propósito e tudo toma uma proporção mínima.

É interessante ver também como sua colaboração tão densa e sincera com Raf Simons tem influenciado o trabalho de ambos. Nesta coleção tem algumas camisas e momentos um pouco menos ousados da coleção que remetem bastante ao trabalho de Simons na Lanvin. 

Ainda é uma coleção extremamente fiel às características claras da Miu Miu, com bordados em vestidos justos, jaquetas e acessórios que são exatamente tudo aquilo que sua cliente é: jovem, preppy, chique, divertida e ousada. Uma direção que repensa sobre os desejos de uma nova geração do que é ser sexy e como se vestir na nova década.

Lacoste mais uma vez une o estilo preppy com o atlético, com uma pitada de streetwear nas veias. A coleção de Primavera/Verão é uma constante na marca. Carrega um pouco dos elementos de streetwear que com os anos acabaram se misturando com a visão clássica da Lacoste sem deixar de lado a estética do típico “country club”, um pouco da história clássica da marca direcionada para um público novo. 

Louise Trotter se preocupa em mesclar a herança da casa com o contemporâneo em busca de uma coleção que remete ao movimento e a necessidade de ir e vir em um mundo que fica cada vez mais rápido.

Como previamente estabelecido, a temporada de Primavera/Verão 2022 marca diferentes datas importantes em várias marcas, em uma delas a joia da coroa do grande conglomerado de luxo LVMH, recebe um aniversário que foi comemorado a sua altura.

No ano que o fundador da maison, Louis Vuitton completaria 200 anos, o diretor criativo Nicholas Ghesquière toma como grande inspiração elementos da moda na época, as peças são uma junção do trabalho prévio do designer na marca e esses elementos, vestidos com bainhas de creolina e movimento fluidos são uma das ambiguidades bagunçadas que são impossíveis de ignorar na coleção.

Mas o verdadeiro momento que é lembrado do desfile é que ele foi brevemente interrompido por ativistas que traziam faixas com os escritos Overconsumption = Extinction, os ativistas foram retirados da passarela rapidamente mas não é uma escolha meramente simbólica fazer isso no desfile da Louis Vuitton, uma das marcas mais lucrativas e que leva o nome das primeiras siglas do maior conglomerado de luxo moderno — a LVMH.

Terminamos a temporada com um dos momentos mais sentimentais, um incrível fechamento para o mês da moda e mostra uma colaboração de toda indústria por alguém especial, essas que são bem difíceis de acontecer por questões financeiras e contratuais mas quando acontecem são um momento único a ser lembrado.

A coleção da AZ Factory foi um tributo ao fundador e diretor criativo Alber Elbaz, que faleceu em abril deste ano. Para o desfile, 45 designers se uniram para criar peças únicas em homenagem à carreira e trajetória criativa do designer, referenciando desde de seu estilo pessoal até algumas referências dos seus 14 anos na Lanvin.

Por que a indústria toda parou para homenagear Alber Elbaz? Algumas pessoas nos tocam, mesmo que elas não tenham a intenção inicial disso, Elbaz era um espírito alegre que se alimentava da sua paixão sincera por seu trabalho, a moda é a indústria dos sonhos e ele sempre nos lembrava que para ele tudo isso ainda era um sonho realizado, se referenciando a própria indústria da moda como sua família disfuncional que mesmo com problemas se amava e se acolhia.

Essa paixão e amor honesto pelo o que fazia tocou inúmeras pessoas diferentes do ramo, que se juntaram para homenageá-lo como o criativo brilhante que era. Uma infelicidade que apenas foi visto uma coleção da sua marca autoral, a AZ Factory tinha acabado de ser lançada, mesmo nessa coleção ficou clara a diversão que teve ao desenhar para sua própria marca.

Com um final extremamente sentimental é onde finalmente terminamos o mês da moda, com altos e baixos e marcado pela volta dos desfiles presenciais, ele deixa um gosto amargo na boca. 

Tanto se foi falado sobre a democratização da moda durante a pandemia e como a criatividade de se reinventar deu um propósito diferente para as tradicionais fashion weeks, e trouxe  até a tona pequenos designer que entregaram isso com excelência no digital. Ao voltar para o presencial, parece que as rachaduras na indústria não foram o bastante para perceberem o senso de mudança que afeta inúmeras camadas sociais pós-pandemia, o lado da moda de sempre voltar como business as usual não é mais realista no presente como tentam parecer.

Imagens dos desfiles da esquerda para a direita: Chanel, Miu Miu, Lacoste, Louis Vuitton e AZ Factory, retiradas do site oficial das marcas ou da plataforma Vogue Runway.

Tudo o que você precisa saber sobre a MFW

A semana de moda de Milão é uma das quatro grandes semanas de moda internacionais, mas também é reconhecida por ser uma das mais internacionais entre suas colegas — uma reverência à qualidade do trabalho manual e artesanal de fazer roupas. Apenas perde para sua outra concorrente europeia (a PFW) quando o assunto é opulência e glamour. Milão é uma das cidades que não só respira cultura mas também a moda — que é um dos núcleos que fazem a cidade se mover.

Para a volta dos desfiles presenciais não era esperado nada menos que um grande evento, com desfiles e momentos memoráveis — porém lembrando que ainda não estamos ”de volta ao normal“: para entrar nos desfiles presenciais é necessário o comprovante de vacinação completa e o uso de máscaras é obrigatório.

Mesmo assim, com a ansiedade de ver os desfiles ao vivo novamente, o momento parece único. No último ano houve um grande movimento de democratização da moda, editores e convidados especiais ainda recebiam alguns presentes exclusivos como amostras de tecidos ou uma caixa inteira para explicar o conceito da coleção — sim, Loewe, isso é sobre você — porém praticamente o conteúdo que essas pessoas tão importantes viam era o mesmo que os pequenos amantes de moda que acompanhavam de casa. 

Muitos se apaixonaram ainda mais pela indústria dos sonhos, mas fica o pensamento de como isso vai se desenrolar nas próximas temporadas. As grandes marcas realmente vão esquecer do enorme público digital e deixá-los sem fotos até que um certo app consiga colocá-las, horas depois da apresentação? A prática de manter a moda como uma atividade velada a que poucos têm acesso ainda é uma estratégia (notavelmente utilizada por Daniel Lee na Bottega Veneta), mas isso tem algum lugar claro no mundo globalizado de hoje?

Imagens dos desfiles comentados da MFW, todas as fotos retiradas do Vogue Runway ou dos sites oficiais das marcas.

Dia 1 – 22 De Setembro 

Começamos o primeiro dia da Semana de Moda de Milão com o primeiro desfile presencial de Kim Jones. Desde sua estreia na Fendi em janeiro de 2021, existia um problema claro na visão da marca pelo diretor criativo: apesar de apresentar roupas femininas agradáveis ao olhar, o acabamento e qualidade de seu trabalho não traduzia o verdadeiro histórico da marca, com silhuetas interessantes mas que ao sair do papel pareciam tão rígidas quanto blocos de mármore italiano — já que a Fendi é uma casa tradicionalmente romana.

A inspiração e homenagem ao trabalho do famoso ilustrador dos anos 60, Antonio Lopez, não foi uma decisão meramente simbólica da história do artista com a marca, e sim um movimento calculado que trouxe um novo espectro do trabalho de Kim Jones para a coleção. 

Ele precisava de leveza, suavidade e diversão em suas roupas, e quem é melhor para isso que um artista com o trabalho ligado diretamente a formas repensadas e cores vibrantes? É uma colaboração de referências. Muito depois de seu falecimento, o trabalho de Lopez ainda tem o poder de inspirar e fazer mudanças estéticas no trabalho de um grande designer.

A jornalista Cathy Horyn fala com Jones para seu artigo sobre a coleção. O designer admite que ainda está se adaptando ao trabalho que não é mais sobre ele e sim sobre uma marca com uma enorme história por trás, e cita como o trabalho que admira de Antonio Lopez o ajudou a encontrar a harmonia necessária para execução da coleção.

É possível dividir em três partes a coleção da Fendi: a primeira sendo de momentos monocromáticos em branco, com uma ótima alfaiataria (que é uma das melhores qualidades confortáveis do trabalho de Jones) é uma mistura de cores naturais como marrons e estampas em peles, em que já conseguimos detectar o trabalho de Antonio Lopez; então chegando aos alegres e vibrantes vestidos fluidos que parecem algo diretamente do armário da Bianca Jagger nos anos de 1970, com estampas diretamente do arquivo do artista na época; a última parte é completa por looks que possuem uma renda preta com o próprio padrão do tecido sendo uma obra do artista, semelhantes a beijos de batom vermelho no papel.

Fomos do branco que é representativamente a junção de todas as cores com uma apresentação do bom trabalho de Jones em produzir alfaiataria, para uma ótimo momento colorido e vibrante com vestidos fluidos e divertidos, alguns momentos em cetim e peles que são texturas famosas dentro da Fendi, terminando a coleção com preto que é justamente a ausência de cor mas em harmonia com looks de renda delicada. Em geral, é a melhor coleção que foi vista de Kim Jones em sua trajetória para a Fendi até hoje, com momentos que fazem jus a história e trajetória da marca, uma inspiração forte e emocionante de arte dentro da moda e uma mudança bem-vinda nas silhuetas e modelagens de seus designs.

Ainda com inspirações fortes da década de 60, Vivetta Ponti entrega uma incrível apresentação de patinadores de gelo vestindo as peças para uma produção dentro do esporte, uma demonstração de energia, suavidade e movimento da vestimenta que Ponti pretendia transpassar.

Com uma enorme inspiração do filme Barbarella (1968), um ícone da onda futurista na moda da época com Jane Fonda como protagonista e Paco Rabanne fazendo parte da produção de figurino, o filme é um clássico dos amantes de moda. Apesar da referência clara à moda de 1960, Ponti teve um espaço para uma versão mais experimental, futurista e sensual do que a que Barbarella representa. Um espaço que não foi tão bem executado durante a pesquisa de referência…

A coleção de Primavera/Verão 2022 de Alberta Ferretti deixa claro um jogo entre ambiguidades que podem trabalhar juntas em uma coleção. É uma temporada definitivamente feminina, com uma sensualidade que se aproxima muito mais do imaginário feminino de sexy — ela explicou na apresentação que percebeu uma grande ansiedade de voltar a se vestir para sair novamente. 

As roupas variam entre modelos mais casuais e boêmios com texturas, macramê e crochê em tons terrosos e neutros como duas chaves principais desta parte da coleção. Depois, passamos por vestidos em tons de joias vibrantes, com bordados em pedrarias e técnicas diferentes para a marca. Uma característica mantida por toda a coleção que trouxe a harmonia entre esses dois estilos foi que todas as escolhas de modelagens e tecidos são leves e fluídos, perfeitos para o verão europeu.

Segundo as entrevistas de Alessandro Dell’Acqua sobre sua coleção na diretoria criativa da NO.21, o designer deixa claro que tem uma paixão ardente por positividade corporal e que sempre acreditou no poder da expressiva e sensualidade na quase nudez — mas ainda sem glamourizar ou ostentar o corpo em si. Ele disse no backstage para a jornalista Tiziana Cardini: “Não gosto do que é abertamente provocativo”.

Realmente, Dell’Acqua apresentou uma coleção com muita alusão a pele à mostra, desde os tons utilizados nas roupas até a forma que foram desenhadas (alguns looks com adoção de tecidos quase transparentes e com recortes marcantes). 

É indiscutivelmente complicado falar de uma coleção ligada à positividade de corpos sem diversidade dos mesmos. Apesar de Dell’Acqua ter feito um bom trabalho nessa versão de sensualidade despretensiosa, essa falta de diversidade em conjunto ao culto ao corpo deixa um amargor na boca. Os designs mais simples que fecham a coleção são os melhores executados, e as vestimentas mais trabalhadas ficam perdidas no meio da coleção.

A nova coleção de Jil Sander assinada pelos diretores criativos Lucie e Luke Meier é um desenvolvimento aberto da história e trajetória da marca em uma nova direção. 

Uma reorganização do próprio conceito minimalista, com decisões expressivas durante a coleção — como cores mais vibrantes, adoção pelo estilo oversized como referência de silhueta, crochês e até algumas estampas florais mais fluídas entre os designs. Em geral, pode ser denominada como um grande sinônimo de classe, elegância e talvez o mais importante: inovação dentro da estética minimalista.

Fausto Puglisi apostou — mais uma vez — na sensualidade e no mundo exótico em sua coleção de Primavera/Verão 2022. Suas novas criações contam com peças portando estampas de animais (onças, tigres e zebras) e cores que remetem ao mundo selvagem. Ítens em cores vívidas, luminosas, com brilho e silhuetas bem marcadas também marcam presença — dão um toque de exuberância à sensualidade que está sempre presente na história e no imaginário da Cavalli. 

É uma coleção que olha claramente para o período de ouro da marca nos anos 2000. Com silhuetas familiares de recortes na barriga e costas, com bordados, strass e suas formas provocantes. A Cavalli de Puglisi parece pronta para reviver grandes momentos sensuais da casa.

Imagens dos desfiles da esquerda para a direita: Fendi, Vivetta, Alberta Ferrareti, No.21, Jil Sander, Roberto Cavalli, retiradas do site oficial das marcas ou da plataforma Vogue Runway.

DIA 2 – 23 de Setembro

Começamos o segundo dia com uma coleção concisa e confortável da Max Mara, uma visão contemporânea da consumidora da casa. Aos passos que voltamos lentamente ao “novo normal”, marcas se posicionam ou para a opulente faceta de anseio festeiro; ou como o diretor criativo Ian Griffiths da Max Mara estabeleceu, “uma ligação a uma nova forma de vestuário de trabalho”.

Com elementos da alfaiataria clássica e precisa que a marca é reconhecida mas com silhuetas retas que se preocupam com o conforto e uma paleta de tons neutros, relembra uma sofisticada musa da marca que ainda gosta de se sentir confortável e jovial.

Veronica Etro trás sua visão de Primavera/Verão farta em estampas, cores e peças de crochê. Em um cenário hippie, as roupas trazem elementos que remetem ao movimento do início dos anos de 1970, mas claro, com toques e releituras modernas. A diretora criativa conta para o jornalista Luke Leitch que encontrou um período de felicidade e reencontro espiritual através das práticas de yoga e meditação durante a quarentena que também encontra com o movimento hippie da década de setenta.

Como esperado de Etro, os adornos e styling da coleção são, como um todo, o perfeito balanço entre uma estética despojada e a marca de alta moda com clientes boêmios que ainda precisam do meio termo entre o frugal e o sofisticado.

A coleção da Emporio Armani marca o aniversário de 40 anos da casa. Em um desfile que junta a moda feminina e masculina, Giorgio Armani apresentou um trabalho extremamente familiar: looks de alfaiataria clássica em cores neutras e silhuetas sóbrias, com uma junção de uma estética Italiana estilosa mas datado como antiga, looks que podem ser facilmente encontrados em suas coleções mais velhas no Armani Silos. Em 122 looks, a casa mantém a tradição de apresentar mais do mesmo com inúmeras referências a criações anteriores do designer.

Partindo para uma coleção que se destaca como diferente de todas as outras do dia, Blumarine de Nicola Brognano segue com suas referências e inspirações dos anos 2000 e transforma a sua musa em algo ainda mais sensual, com modelos com glitter pelos corpos, transparências e tops de borboletas. 

É fácil se apaixonar pela utopia Blumarine dos anos 2000 – o brilho e sua atmosfera rosa-Barbie transportam a maioria da geração Z à uma época feliz, sem preocupações (e comparando com o mundo sociopolítico, atual às vezes roupas podem ser o escapismo que precisamos).

Porém, o conceito dessa estética específica parece estar cada vez mais perdendo força nas mídias sociais – onde a tendência teve seu renascimento. Fica a pergunta: quantas vezes o mesmo conceito e modelagens conseguem ser reciclados por Brognano? Uma luz no final do túnel é que, com uma leve reorganização, é possível produzir a estética de maneiras e com referências diferentes.

Na MM6 Maison Margiela o clima foi de celebração às pequenas coisas: André Breton, Leonora Carrington e Claude Cahun buscaram transmitir a essência de peças simples mas com grande importância, como um aperitivo dividido entre amigos em um bar. A  comemoração vem para o retorno da vida gastronômica em Milão, a possibilidade de visitar bares e restaurantes depois de tanto tempo em pandemia. Uma clara referência a filmes de terror também, com balão na mão e roupa xadrez – quase uma reimaginação do personagem Pennywise, do clássico de terror ‘It’ de Stephen King.

Falando em celebrações em uma das inclinações da moda pós-pandemia, a GCDS traz a sensualidade e irreverência para a passarela. Com sapatos super plataformas, peças em crochê e tricô, e inspiração na praia e no mar, muitos dos elementos do desfile são os já conhecidos da temporada, mas com toques de ousadia e sensualidade. De bolsas com designs super futuristas até bucket hats de crochê, a coleção reafirma o presente e o que o futuro pode ser. Tudo isso, claro, sem perder a aura sexy da marca.

Imagens dos desfiles da esquerda para a direita: Max Mara, Etro, Emporio Armani, Blumarine, Margiela, GCDS, retiradas do site oficial das marcas ou da plataforma Vogue Runway.

DIA 3 – 24 de Setembro

Walter Chiapponi parece ter encontrado uma visão clara para sua Tod’s. Fazendo menção a trajetória da marca como uma grande potência em couro e alfaiataria, ele mistura os dois para uma coleção bem trabalhada. Uma temporada mais ligada ao comercial e ser atraente para o consumidor fiel a qualidade da marca, e ao mesmo tempo em trazer novos clientes que querem diferentes silhuetas e texturas.

O designer também tirou uma grande inspiração da moda na década de 1960, principalmente do movimento Mod’s, silhuetas retas, vestidos minis são exatamente a mistura entre o sportswear e sofisticação com uma inspiração clara do filme O Vale das Bonecas de 1967, ele admite que tudo na marca é ligado diretamente ao sportswear mas em conjunto com uma decoração técnica que trás outro espectro da vestimenta.

O desfile da Missoni de Primavera/Verão marca a primeira coleção do novo diretor criativo – Alberto Caliri – ele apresentou uma sensualidade entre características claras da marca, como suas estampas de chevron em tricô, saídas quase de praia e muito glitter entre as tramas de tecido.

É uma coleção segura e apropriada, principalmente que remete aquele otimismo pós-pandêmico com ansiedade de voltar a grandes festas, a coleção é uma homenagem à vida noturna com um toque de adoração e apreciação pela marca.

Uma coisa é clara sobre as coleções da Sunnei – Simone Rizzo e Loris Messina gostam de um grande gesto – a coleção teve a atmosfera de uma enorme armazém, os dois brincam com diferentes formas de apresentação de uma coleção, foram conhecidos pelas modelos CGI e outros tipos de realidades virtuais para seus shows digitais.

Em sua apresentação física não passa muito longe, um show de luzes e sons e os convidados de pé, a coleção apresentou composições, texturas e brincadeiras com volumes e proporções diferentes que parece ser uma das maiores características da marca.

Eles trouxeram uma nova ornamentação dentro do minimalismo contemporâneo da Sunnei fez a diferença na coleção com franjas e bordados, que deram um movimento necessário a modelagens quase estáticas e duras. Um dos exemplos de como um bom adorno e styling podem mudar o sentimento da coleção.

Entramos em mais um capítulo entre a história colaboração entre Miuccia Prada e Raf Simons, a coleção teve uma dupla apresentação em Milão e Shanghai. A ideia de apresentação vem em conjunto com o otimismo pós-pandêmico que tanto é visível nessa temporada por inteiro, aqui os dois designers se juntam para explorar todas as possibilidades possíveis que o novo mundo aguarda – novos talentos, ideias, valores – é uma experiência global, assim como nosso mundo ficará cada vez mais globalizado através do tempo.

Entre as roupas polidas e bem ajustadas, uma das características mais intrigantes da colaboração é como conseguimos ver momentos importantes da trajetória criativa de ambos designer em um mesmo look, referências claras do trabalho de Miuccia Prada nos anos 90 – principalmente da coleção “Ugly chic” de Spring Summer 1996 em conjunto a jaquetas gastas de motocicleta que lembram uma grande coleção de Raf Simons de Fall 2001 a “Riot Riot Riot”.

Ainda é Prada, tudo isso é unido em um equilíbrio clássico entre roupas sofisticadas e femininas, com uma sensualidade velada não abertamente exposta, Miuccia escreveu nas notas do desfile: “Nós pensamos em palavras como elegante – mas isso parece tão antiquado.  Na verdade, trata-se de uma linguagem de sedução que sempre leva de volta ao corpo.  Usando essas ideias, essas referências a peças históricas, a coleção é uma investigação do que elas significam hoje.”

Em geral, mais uma boa coleção de ambos e ver e acompanhar a parceria dos dois têm sido uma experiência única de entendimento e concordância entre dois grandes designers contemporâneos.

Imagens dos desfiles da esquerda para a direita: Tods, Missoni, Prada, Sunnei, Versace, retiradas do site oficial das marcas ou da plataforma Vogue Runway.

DIA 4 – 25 de Setembro

Massimo Giorgetti presta homenagem à cidade de Milão em sua coleção de Primavera/Verão, não é a primeira vez que é possível tirar inspiração da cidade nas coleções da marca. Mas nessa é um pouco mais específica ele olha para o espectro da metrópole italiana na década de 1980, um tempo energizado por criatividade e possibilidade de renovação nas comunidades culturais e artísticas.

É uma versão bem editada da MSGM com peças animadas, cores vibrantes de verão e entrando também a previsão do sexy e da pele à mostra que foi vista durante toda a temporada.

Alicia Keys abriu o show virtual da Moncler. Mostrando a criatividade de não um, mas onze estilistas parceiros da marca como JW Anderson e Veronica Leoni. O show é transicional entre New York, Seoul, Tokyo e Shanghai. Com displays imaginativos e interagem com formas de arte diferentes – dança, filme, música, moda – muitos com oportunidade interativa.

Desde a saída do diretor criativo Paul Andrew em Janeiro deste ano, a Salvatore Ferragamo se encontrou em uma mudança de cadeiras durante esse meio tempo.  A transição do novo CEO da marca Marco Gobbetti é esperada para começar durante esse mês, e o designer Guillaume Meilland, que tem sido o designer de Menswear da marca e se aventurou na temporada principal.

É difícil comparar com o último desfile de Andrew, com referências da história da marca como a plataforma arco-íris produzida para Judy Garland com uma apresentação digna de um filme Sci-Fi. Mas deu um ar de juventude necessário para a marca, a estreia de Meilland foi exatamente ao contrário, olha para uma tradição sofisticada e antiquada de pensar da marca com silhuetas quadradas, esportivas e cores neutras.

Essa coleção foi um pouco mais emocional para a Giorgio Armani, foi o aniversário de 40 anos da marca e voltamos às suas origens em um desfile intimista com trilha sonora marítima vimos o azzurro (azul-claro) da marca e  modelos sorrindo como se estivessem na praia. De uma progressão de peças brancas e marinhas à acinzentadas, azuladas e cada vez mais leves.

E vestidos de festas em tule e cristais azuis, rosas e roxos pastéis quase etéreos, com uma execução digna da celebração da marca, com silhuetas extremamente familiares, de coletes com saias de tule, até blazers com lenços nos pescoços tudo gritava Giorgio Armani no coração de seu trabalho.

Apesar de existirem tendências que já são possíveis de compreender desta temporada como a sensualidade, o culto ao corpo e o anseio pela abertura da vida novamente, uma também é bem clara: muitas marcas tiraram um período introspectivo para olharem suas trajetórias e histórias e referenciarem isso de alguma forma em suas coleções. 

Bem, aconteceu exatamente ao contrário na Philosophy di Lorenzo Serafini: em uma completa reviravolta da sua coleção de Outono/Inverno de 2021 (que tinha como centro o estilo preppy em uma homenagem a alunos escolares que perderam parte de sua experiência acadêmica), sua Primavera/Verão decide olhar para uma linha quase de lingeries. O designer explicou nas notas do desfile que era sobre o poder do movimento, querer mostrar mais pele e um renascimento da vida. É meio difícil se concentrar nisso quando estamos olhando para designs que são uma mistura entre toureiros espanhóis, o grunge de Los Angeles e florais diretamente saídos da Urban Outfitters.

Foi uma coleção confusa, muito menos refinada e sofisticada dentro do tema de escolha do que sua predecessora. Marcas estão focando em referenciar a própria história como um toque poderoso de reafirmar sua identidade visual. O que leva as perguntas: quem é a mulher Philosophy? Ela mudará com a marca a cada temporada? 

Em sua apresentação da coleção de Primavera/Verão 2022, Francesco Risso deu um verdadeiro espetáculo: nos dias que antecipavam a coleção da Marni, o designer organizou mais de 400 provas de roupas. Não recebemos uma coleção de 400 peças, mas sim uma prova que voltar para a prática dos desfiles presenciais é um privilégio que deve ser aproveitado ao máximo – todos os convidados vestiram roupas feitas pela Marni.

Além disso, foi o primeiro designer da temporada a falar sobre as injustiças sociopolíticas que tanto foram conversadas nos protestos do Black Lives Matter em maio de 2020. A indústria da moda disse querer mudar e virar uma aliada ativa do movimento, mas é a primeira vez que falamos disso no mês da moda – na penúltima semana. 

Risso teve um time incrível de apoiadores para ajudá-lo com o conceito e execução de toda a coleção: “Dev Hynes foi o responsável pela música, o poeta Mykki Blanco fez uma performance de palavra falada, e a cantora Zsela foi acompanhada por um coro celestial.  Nas notas do programa, Babak Radboy, que é conhecido por seu trabalho com Telfar Clemens, compartilhou a direção criativa.  O elenco tinha a diversidade racial, a inclusão corporal e a fluidez de gênero que se tornaram a norma na Nova York de Telfar.  “Finalmente, Milan acordou”, disse um colega no caminho para a porta.”. São roupas utilitárias, versáteis e esteticamente alinhadas com a marca que carregam um significado simbólico. 

Imagens dos desfiles da esquerda para a direita: MSGM, Moncler, Salvatorre Ferragamo, Philosophy di Lorenzo Serafini, Giorgio Armani, Marni, retiradas do site oficial das marcas ou da plataforma Vogue Runway.

DIA 5 – 25 de Setembro

Começamos o último dia com uma apresentação digital em meio a um armazém abandonado e pichado, com Dean e Dan Caten como anfitriões da nova era grunge chic da Dsquared2 que eles apresentaram em sua coleção de Primavera/Verão 2022.

A atmosfera ajudou a dar o tom principal da coleção, sendo citada pelos designers como sua versão de grunge vindo diretamente de Milão. Estéticas opostas se atraindo pela construção dos looks em si, desde jeans desbotados e peças que parecem quase inacabadas até momentos claros de noites opulentes são ambiguidades apresentadas durante toda a temporada da marca.

Segundo o relatório de vendas da LVMH do primeiro semestre de 2021, parece que a Emilio Pucci conquistou os corações das gerações mais novas… Com suas estampas psicodélicas  e vibrantes em seda pura até seus looks minimalistas e sensuais como apresentado nesta última coleção pela nova diretora criativa Camille Miceli, a marca entende a demanda de uma aproximação dos designs com uma estética mais da vida noturna jovem, harmonizando o ideal moderno com a história e características claras de cada.

Mas a cereja de toda a semana foi o evento que prosseguiu com o encerramento, um dos segredos mais bem guardados de Milão que começou a virar um rumor no meio do evento: a colaboração de designers entre Versace e Fendi. Donatella Versace, como diretora criativa da marca, pegou a tarefa de reinterpretar elementos da Fendi; e Kim Jones, o diretor criativo, da Fendi assumiu o trabalho de dar sua reinterpretação a Versace.

Um evento recheado de celebridades (nos assentos e na passarela), Fendace realmente fechou Milão com chave de ouro com uma verdadeira mistura de logos. Porém, essa não é a primeira vez que vemos a colaboração de dois grandes designers de marcas diferentes juntos: tivemos no meio do ano a “Gucci Area” caracterizada por um hacking da Balenciaga de Demna Gvasalia.

Em Gucci, conseguimos ver uma harmonia na história e logos das duas casas. Foi uma experiência para trazer um público adorador da logomania? Sim, mas foi possível ver claramente o que era referência à Gucci e o que era Balenciaga. O que não aconteceu em Fendace, qual parecia apenas que o brasão da Fendi havia sido adicionado a alguns designs da Versace. Os acessórios, que são o maior caminho de consumo de luxo, foram muito melhor pensados.

Na pós-modernidade, com tantos meios de comunicação e tanta informação sendo bombardeada a cada minuto, não é muito longe se fazer o questionamento do porquê essas colaborações aconteceram; se estamos todos virando reféns de momentos virais e qual a verdadeira consequência disso refletida na qualidade do trabalho.

Imagens dos desfiles da esquerda para a direita: Emilio Pucci, DSQUARED 2 e Fendace , retiradas do site oficial das marcas ou da plataforma Vogue Runway.

Tudo o que você precisa saber sobre a LFW

Como parte do Big Four — as quatro grandes fashion weeks internacionais — Londres têm uma grande importância para o mercado internacional, mas é principalmente reconhecida por suas inovações criativas e designers fora da curva.

The British Fashion Council, uma organização sem fins lucrativos com a intenção de impulsionar a moda britânica, foi criado em 1983 e a London Fashion Week oficialmente abriu suas portas em 1984.

A cidade é o berço das revoluções contracultura: Mary Quant levantou as bainhas das saias em seus vestidos coloridos e retos para vestir os Mods em 1960; já na década de 1970 a BIBA se tornou um ícone entre lojas de departamento do mundo inteiro; no primeiro ano de LFW, em 1984, um jovem e recém-formado John Galliano faz seu desfile de inauguração; Alexander McQueen faz sua estreia em 1992 e segue em ser um dos estilistas mais importantes na história da moda moderna.

O impacto cultural que a moda da cidade tem é indiscutível. Existem duas Londres dependendo do seu ponto de vista: a Londres fechada e com títulos, que leva extremamente a sério seu legado em uma alfaiataria precisa, com cortes e silhuetas praticados a perfeição; e a Londres experimental e artística, a qual abraça os seus recém formados alunos de moda e impulsiona as tentativas e ideias diferentes. Apesar de grandes perdas devido a pandemia na cidade, um dos maiores valores do evento são justamente os novos jovens criativos, que fizeram parte desta temporada.

A semana começa com um dia cheio de comemorações — afinal, estamos no tão esperado pós-pandemia no hemisfério norte — como a festa de Onitsuka Tiger com a revista Dazed e o evento de graduação da Condé Nast College. A maioria dos eventos foi privado para convidados e por isso começamos a cobertura da Frenezi, a qual você também pode acompanhar em tempo real em nosso Instagram, com o segundo dia onde tiveram início de fato a apresentação de coleções.

Imagens dos desfiles comentados da LFW, todas as fotos retiradas do Vogue Runway.

DIA 2 – 17 De Setembro

Começamos o primeiro dia de coleções com uma emocionante apresentação em Halpern, onde o designer Michael Halpern relembra momentos emocionantes de sua infância quando conseguia observar de perto os ensaios do Centro de Artes de sua cidade. Ele conta para o jornalista Anders Christian Madsen uma memória de sua mãe vendo ele entrar por baixo dos tutus ainda pequeno para entender como eram feitos.

A apresentação da coleção foi feita por meio de um emocionante e belo número de ballet filmado no Royal Opera House com bailarinos-estrelas da companhia como Fumi Kaneko, Sumina Sasaki, Sae Maeda e Leticia Dias, para citar alguns nomes. Uma rara colaboração entre o ballet e a moda elaborada da melhor forma possível, apesar de algumas silhuetas opulentas que é costume por parte da Halpern, como o vestido globo e o macacão de paetês que fizeram sucesso nas últimas temporadas. 

Talvez o verdadeiro triunfo desta coleção sejam as roupas que parecem ser feitas para serem apreciadas em movimento, de vestidos em seda com cores e padronagens pensadas para a apresentação, franjas bem posicionadas, fendas que acompanham os corpos das dançarinas, saias rodadas e tecidos que parecem quase flutuantes… É uma coleção que definitivamente desafiou o ateliê da marca, a confecção da vestimenta em si foi muito bem executada.

Quando se fala do legado de Londres como uma das semanas que apoia jovens criativos, experimentais e irreverentes, o nome que vem à mente é Matty Bovan. Essa coleção leva o título de Hypercraft e começou com arquivos de imagens da família do designer nos anos de 1970. De crochês da vovó a papel de parede retrô, até uma inspiração clara do cenário usado no filme O iluminado (1980). 

Entre silhuetas desconexas e tecidos diferentes, até a forma que a coleção é filmada e fotografada realmente faz uma imersão total do trabalho de Bovan, e talvez por isso ele ainda prefira os meios digitais para apresentar suas coleções — uma aproximação maior entre o público e o conceito da coleção.

Falar de LFW sem Vivienne Westwood é quase imoral. Durante os últimos anos houve uma redescoberta da trajetória de Westwood pelo público jovem, principalmente pelos amantes de peças vintage. Durante suas últimas coleções, ela também percebeu essa nova preferência nascente do seu próprio público e tornou sua linha principal uma forma de reviver essas coleções, se ajustando a iniciativas sustentáveis para sua marca.

Nesta coleção há, principalmente, referência a sua temporada histórica de Primavera/Verão de 1998 Tied to the Mast (Amarrados ao Mastro, em português), uma coleção quase de fantasia que olha para a história dos piratas ingleses no século XIX e todos os contos e conceitos entre essa estética marinha punk, a qual foi traduzida para um consumidor contemporâneo com modelagens famosas principalmente entre a nova geração: plataformas, jeans largos, corsets repensados, os famosos colares de pérolas e bolsas mini.

Nensi Dojaka é uma nova e emergente designer que na temporada passada estava nas plataformas da LFW em intermediação com o coletivo do Fashion East. Com a sua iminente vitória no prêmio da LVMH — um dos mais ansiados por novos designers na indústria hoje — ela escolheu uma coleção segura, e mostrou exatamente o ponto forte de seu trabalho, afinal é sua primeira semana do evento com seu nome, de fato.

O look de Dojaka já conquistou celebridades e amantes durante a última temporada, com sua silhueta sexy, transparências e recortes que modelam o corpo em formas e sentidos diferentes do comum. Porém, após o lançamento de sua coleção, muitos críticos e comentaristas de moda em geral se perguntaram se as roupas da designer seriam bem traduzidas para pessoas com corpos diferentes do padrão de modelos — essa é uma dúvida que entra na questão do próprio potencial de comercialização da nova marca.

David Koma teve uma ascensão grande durante o último ano também, vestiu celebridades como Beyoncé, Jennifer Lopez, Cardi B e em eventos mais recentes Madison Beer. Suas roupas party-friendly com fendas sexys, aplicações em glitter e proporções mini conquistaram uma boa base de clientes, fazendo seu negócio crescer exponencialmente.

Mas essa coleção é no mínimo uma confusão dentro de estéticas e modelagens trabalhadas pela marca anteriormente. Koma disse em sua apresentação que era como casar a moda praia e o Old Hollywood glamour e, sinceramente, seria um conceito mais claro e conciso entregar glamour Hollywoodiano de uma forma que se aproximasse da sua estética própria dentro do conceito por inteiro.

Imagens dos desfiles da esquerda para a direita: Halpern, Matty Bovan, Vivienne Westwood, Nensi Dojaka e David Koma retiradas do site oficial das marcas ou da plataforma Vogue Runway.

Dia 3 – 18 De Setembro

O caso de Sarah Everard foi um momento decisivo para discussões de feminicídio e direitos da mulher no Reino Unido. No mesmo mês do assassinato, num evento na House Of Commons, o ministro britânico do trabalho Jess Phillips leu uma lista surpreendentemente longa de casos ocorridos no último ano e o nome de Sarah apareceu como um símbolo de luta.

A designer Yuhan Wang sentiu uma forte ligação com os movimentos da causa sociopolítica, que a inspiraram na criação de sua coleção de Primavera/Verão a tomar o termo “feminilidade” como sinônimo de força misturando vestidos que são o espelho do feminino ideal em seus babados, tecidos fluidos e estampas florais com cores pastéis com o peso dos acessórios de couro, passados por cima das peças parecendo um boldrié. A coleção da designer é uma carta aberta para uma discussão sobre a força feminina.

Palmer Harding também fez sua aparição na data, apresentou sua temporada de Primavera/Verão por meio de uma sessão de fotos disponibilizadas online. É uma coleção segura e atraente para seus clientes, o que não é possível criticar depois de um ano conturbado para pequenas marcas. 

A qualidade de sua alfaiataria nunca fica velha, a valorização do corpo por meio de modelagens precisas. É o que ele deixa claro para quem está desenhando suas roupas, apesar de que as vestimentas em tecido metálico são uma boa nova adição para uma coleção clássica e minimalista.

Charlotte Knowles e Alexander Arsenault agora assinam juntos a direção criativa da KNWLS, e nesta coleção decidem explorar o termo “adrenalina” com a ansiedade e felicidade dos desfiles presenciais estarem voltando para a cidade de Londres. O desfile foi descrito como uma experiência amplificada ao vivo, com luzes, som alto e um parque de carros perto da estação de metrô Oxford Circus como uma atmosfera industrial e longa para o desfile.

Grandes marcas registradas da casa — como bustiers que marcam a cintura, calças de tecido quase transparente com recortes e a mistura de roupas de baixo com roupas de sair — seguem como tradições, mas o verdadeiro triunfo acontece na harmonia de diferentes referências e inspirações dentro de uma coleção.

Molly Goddard passou por uma grande mudança desde sua última coleção, agora é mãe e isso é claramente uma nova inspiração em seu trabalho criativo. Sempre foi possível perceber uma apreciação por símbolos denominadamente infantis no trabalho de Goddard (seu vestido assinatura é uma versão de um que tinha quando era pequena). Agora é possível ver referências principalmente a roupas de bebês, em tons brancos e rosas pálidos, em conjunto com um apelo mais utilitário e versátil que não é possível enxergar nas últimas coleções.

Imagens dos desfiles da esquerda para a direita: Yuhan Wang, Palmer Harding, KNWLS, Molly Goddard retiradas do site oficial das marcas ou da plataforma Vogue Runway.

Dia 4 – 19 de Setembro

Rejina Pyo é também do time de novas mães da London Fashion Week, mas ao contrário de Goddard, a designer se encontra confortável em silhuetas mais sensuais e descoladas. Pyo citou para a jornalista Sarah Harris: Não acho que as mulheres precisam fingir que são fisicamente tão fortes quanto os homens;  tudo bem ser gentil às vezes e aceitar isso. Eu não sei… talvez seja porque eu vou ter uma menina.”

Algo memorável do trabalho de Pyo é como ela compreende tendências fortes de hoje, mas seu trabalho não depende delas. Consegue captar a essência mas ainda assim entende como a mesma pode morrer a qualquer minuto. É quase como uma balança, difícil de utilizar: um pouco é bom para aproveitar o momento, mas não exageradamente para não ser dada como uma coleção datada. Normalmente o trabalho da designer é reconhecido por tecidos, estruturas e silhuetas mais rígidas, nessa coleção vemos uma suavidade — muito bem-vinda.

Erdem é uma das marcas londrinas que reverencia seu legado e trajetória em qualidade dos processos manuais de vestimenta e alfaiataria clássica por associações claras de tradições da casa, como a estamparia floral e maxi vestidos. A coleção também pontua o aniversário de 15 anos da casa. Erdem Moralioglu agora olha para a história da marca para mais do que os bordados de flores: é uma mulher que vive e trabalha além de seu tempo presente, misturando a história do vestuário inglês para ressignificá-lo.

Richard Malone entrega uma incrível e criativa coleção nesta temporada, com diferentes formas, silhuetas e trabalhos com tecidos bordados e plissados por toda a coleção. Deixa claro o esforço em conjunto do trabalho manual de seu time com o uso de diferentes materiais, como restos de couro providenciados em colaboração com a Mulberry. 

O desfile foi uma verdadeira obra de arte, em conjunto com sua atmosfera geral, apresentado no museu Victoria e Albert — reconhecido pelo seu instituto de figurinos — as formas circulares em formas de rosas no meio das roupas é homenagem a sua avó, que fazia essa técnica com tecidos para comemorar as vitórias da Associação da Atlética Gaélica.

Imagens dos desfiles da esquerda para a direita: Rejina Pyo, Erdem, Richard Malone, retiradas do site oficial das marcas ou da plataforma Vogue Runway.

Dia 5 – 20 de Setembro

Simone Rocha é um dos nomes mais esperados da LFW atualmente. Ela conquistou um público fiel com seus vestidos volumosos de tule entre jaquetas de alfaiataria reconstruídas. Na última temporada, foi possível ver um pouco do aspecto romântico e a suavidade feminina de Rocha se mesclando com o peso de peças de couro e acessórios em tons fortes. Esse inteligente balanço se mantém firme durante a coleção, somado a outro novo estímulo: o início de sua maternidade.

Não é de hoje que designers usam movimentos em suas vidas como inspiração. Num trabalho majoritariamente criativo, as referências e inspirações pessoais de cada artista sempre aparecem. Vestidos de tule, jaquetas de couro, bolsas de pérola, sutiãs de maternidade bordados em cristais e pendentes surgem para homenagear tarefas diárias de novas mães.

É uma homenagem à sua nova perspectiva, o olhar por outros olhos enquanto ainda entende a essência principal de seus designs anteriores que fizeram o nome da marca crescer e se tornar indispensável para a semana de moda londrina.

Supriya Lele é a última da semana que nos promete uma releitura do que é sexy, com tecidos quase transparentes em conjunto com um tipo de trama em rede e strass por cima de maiôs e tops.

E falando em previsões que nasceram nessa semana, Roksanda — assim como Richard Malone — se aventura em diferentes formas e tecidos para criar roupas que se assemelham a verdadeiras obras de arte. Similar a Halpern, suas roupas foram apresentadas numa imersão entre vestimenta e movimento, utiliza formas criativas e cores vibrantes para amplificar a experiência como um todo.

O Fashion East sempre apresenta incríveis novos designers para a LFW. Nensi Dojaka foi participante do projeto até uma temporada atrás, antes de ganhar o prêmio LVMH. Outro grande designer independente da plataforma é Maximilian, com criações que já foram utilizadas por personalidades importantes na indústria como a modelo Naomi Campbell. 

Ele realmente se inspirou em aproveitar o verão da melhor forma possível, com roupas que lembram a água e o oceano — muitos tecidos molhados cintilantes e macacões que se assemelham a maiôs. Maximiliam também entende a necessidade comercial, mistura técnicas de alfaiataria clássica em vestidos com recortes precisos, tecidos semi-transparentes e blazers bem cortados como terceira peça em vários looks. Deixa claro que não há limitações para os seus talentos e que consegue transitar entre uma vasta categoria de consumidores.

Imagens dos desfiles da esquerda para a direita: Simone Rocha, Supriya Lele, Roksanda, Fashion east, retiradas do site oficial das marcas ou da plataforma Vogue Runway.

Dia 6 – 21 de Setembro

Quando os desfiles digitais começaram durante o ano passado, muitas questões foram levantadas sobre as apresentações digitais por meio de fotos. Lookbooks parados em fundos brancos se tornaram um técnica batida e com ajuda da estética da marca em conjunto com um bom time criativo, há inúmeras versões de diferentes fotografias de coleções hoje.

No último dia do evento, Ashlyn foi uma das marcas a apresentar uma coleção que junta em perfeito balanço as formas geométricas e o estudo da costura contemporânea e moderna, pensada para uma mulher minimalista que também gosta de tomar riscos, tudo fotografado de uma forma criativa e inteligente para apresentar. 

Richard Quinn apresentou há pouco o que foi possivelmente o melhor fashion film que a indústria viu em muito tempo, com um ritmo musical, figuras de látex e uma construção de atmosfera sem precedentes. Essa coleção parece a irmã conservadora comparada à apresentada no filme de trinta minutos.

O designer se emocionou ao voltar a apresentar seus desfiles presencialmente na cidade de Londres. Não só seu otimismo com o futuro é notável entre a coleção, mas também um esforço de voltar às raízes de sua marca. Das estampas florais às silhuetas quase que de estátuas góticas, a coleção emana o nome de Richard Quinn.

Não tivemos a rigidez de suas segundas peles de látex preto ou muitas menções a seu estilo beirando o dominatrix, que deram lugar a looks cobertos da cabeça aos pés em enormes vestidos florais e sobretudos de spikes e couro. Essa coleção é a sua volta ao formato presencial de uma maneira quase reconfortante.

Por mais que não se pense na palavra conforto para explicar os designs de Quinn, há algo de aconchegante em ver um designer em sua cidade de origem depois de tempos conturbados, com estilos que são claramente assinaturas breves de sua marca e trajetória.

Desde os bordados maximalistas as silhuetas que não fazem muito sentido para um olho despreparado é, possível fazer uma observação sobre a temporada na capital britânica como um todo: todos estão emocionados e animados, com teorias transbordando de otimismo por estarem de volta aos desfiles presenciais, quase um grito de “não voltamos os mesmos dessa experiência traumática, mas estamos aqui e ainda fazendo roupas incríveis”.

Imagens dos desfiles da esquerda para a direita: Richard Quinn, Ashlyn, retiradas do site oficial das marcas ou da plataforma Vogue Runway.

Tudo o que você precisa saber sobre a NYFW

Recordando da ilustre frase do editor de moda Candy Pratts Price no documentário The September Issue de 2009, “September is the January of fashion” (“setembro é o janeiro da moda”, em português). O documentário acompanha a redação da Vogue estadunidense durante o fechamento da edição do mês de Setembro, também conhecida por ser a edição mais importante do ano.

Durante esse mês, amantes, comentaristas e jornalistas de moda são bombardeados por novidades e coleções. As temporadas de Primavera-Verão acontecem em sequência durante todo o mês, começando pela NYFW – que este ano teve início no dia 7 de Setembro e terminou no dia 12. Neste artigo serão examinadas as coleções que ocorreram durante o evento, seguindo por ordem cronológica dos acontecimentos.

Imagens dos desfiles comentados da NYFW, todas as fotos retiradas do Vogue Runway.

 DIA 1 – 07 de Setembro;

Se o começo da temporada estabelece o tom das próximas semanas, apesar das poucas coleções, o primeiro dia da NYFW fez seu impacto inicial esperado. Desde Collina Strada e suas cores vibrantes, volumes contraditórios e o mais importante de toda a coleção – um dos castings mais inclusivos em algum tempo. A mensagem é clara: inclusão e diversidade são a base a moda de Nova Iorque. São relíquias não reconhecidas oficialmente, mas sabemos que sempre estiveram lá – do streetwear que foi para as passarelas, até a vitória na famosa Batalha de Versalhes – mesmo que por algumas (muitas) vezes esquecidas entre coleções.

Nada impede absolutamente ninguém de desfilar para a Strada – impedimentos físicos e estéticos não são o problema, as roupas são mostradas em corpos reais em situações reais. Temos modelos a vista, mas conseguimos perceber a versatilidade do casting bem apurado. Christian Siriano não passa muito longe num casting diversificado, mas em inovação em design e construção de coleção? Talvez.

Infelizmente foram apuradas diversas ‘semelhanças’ entre a coleção de Siriano e trabalhos prévios de outros designers. Mesmo assim não salvam a coleção: parece que se é desejado um grande momento de Siriano, o conceito das coleções é bom mas a junção da vestimenta em si é que normalmente não consegue traduzir o mesmo. São alguns vestidos individualmente bons, juntos numa coleção que não parece uniforme ou nem mesmo conversa entre si… Os próprios tecidos e técnicas do designer lembram um projeto de competição de reality show, não um grande momento de vestidos de baile na NYFW.

Imagens dos desfiles da esquerda para direita: Collina Strada e Christian Siriano fotos retiradas do Vogue Runway ou site oficial das marcas.

DIA 2 – 08 de Setembro;

O dia começa com a coleção de Ulla Johnson, um ar fresco, leve e boêmio no meio de Manhattan graças a elementos claros do design de Johnson – como florais, babados volumosos, bordados, tecidos fluídos em tons alegres e neutros. Já é uma característica visual da marca procurar apresentar coleções que refletem sua calma e a busca por um estado de paz.

Completamente diferente da coleção que a antecede, Willy Chavarria leva o conceito de ‘Maxi’ um pouco ao pé da letra com calças de cinturas altíssimas e camisas oversized. O importante de se analisar essa coleção é como o streetstyle de subculturas latinas – principalmente da cidade de Nova Iorque – que normalmente são associadas a falta de estilo ou refinamento foram uma das maiores inspirações para o designer que criou bombers acetinadas, jaquetas estilo motociclista, cintos com maxi fivelas e cores vibrantes.

Proenza Schouler tem um histórico de roupas descomplicadas e versáteis desde sua fundação em 2002 por Jack McCollough e Lazaro Hernandez, mas nesta temporada os maiores traços da coleção são “roupas alegres para voltar a sair para o mundo”, como disseram os designers para a jornalista Nicole Phelps. São roupas utilitárias facilmente vistas em armários do consumidor contemporâneo como blazers, trench coats, ternos e vestidos fluídos em cores vibrantes – afinal, ainda é uma coleção de primavera-verão – porém a habilidade desses elementos tão comuns de se destacarem de uma forma única é o verdadeiro e principal atributo da coleção.

Não muito diferente de um dos favoritos da semana, Peter Do apresenta uma coleção honrando a identidade criativa de sua marca, atribuindo silhuetas de alfaiataria tão fortes e reconhecidas de seu trabalho em conjunto com tecidos e texturas surpreendentes que trazem uma leveza e fluidez necessárias para sua coleção, além de valorizar suas raízes vietnamitas com uma releitura do tradicional ÁO DÀI.

Terminamos o forte dia com Prabal Gurung, que na temporada passada foi um dos poucos designers a embarcar completamente no tema de otimismo e uma saudades de glamour para o próximo ano. Nesta coleção, ele diminui um pouco esses elementos e olha novamente para a “garota americana”, pensando em como trazer um ar cosmopolita e de poder para a roupa em si, explorando silhuetas bem marcadas mas com uma ambiguidade de escolher cores majoritariamente vibrantes para a coleção.

Imagens dos desfiles da esquerda para direita: Ulla Johnson,Willy Chavarria, Peter Do, Proenza Schouler, Prabal Gurung fotos retiradas do Vogue Runway ou site oficial da marca.desfiles

DIA 3 – 09 de Setembro;

Gabriela Hearst é um novo grande nome de Nova Iorque. A uruguaia foi apontada como diretora criativa da Chloé e teve sua estreia durante a temporada passada. Existe uma linha clara entre o trabalho de sua marca autoral e na grife francesa. O jornalista Anders Christian Madsen fez um ponto claro em sua crítica: é como ver duas crianças diferentes de pais que você conhece crescerem diante de seus olhos – e uma analogia: Hearst nomeou sua coleção de estreia na grife de “Afrodite”, para complementar de uma forma diferente a coleção da marca autoral que chamou de “Atena”. Pode ser uma boa previsão para Paris daqui a algumas semanas…

Agora falando sobre a coleção desta temporada, elementos de alfaiataria clássica e cortes precisos ainda marcaram presença, mas o surpreendente foram os looks em crochet de tons vivos e formas diferenciadas produzidos em colaboração com as comunidades Navajo pelo Uruguai. Destoam das características sóbrias do trabalho de Hearst da melhor forma possível, trazendo um novo elemento e dimensão para a coleção.

Seguindo para o desfile mais oposto de todos: Moschino assinada por Jeremy Scott. Desde sua primeira coleção para a marca em 2014 é possível afirmar uma coisa: Ele ama um tema. Todas as coleções têm uma forte ideia central e são trabalhadas ironicamente ou não – já que ironia é uma das bases fundadoras da Moschino. Nesta temporada o tema são brinquedos e símbolos infantis com uma dicotomia de silhuetas ligadas a alfaiataria clássica, é uma ambiguidade quase engraçada que talvez seja uma dos maiores legados de Scott na marca.

Carolina Herrera celebra 40 anos e seu diretor criativo Wes Gordon não faz passar batido com uma homenagem emocionante a desfiles que fazem parte da história da marca, principalmente os da década de 80 quando a designer venezuelana começava sua carreira na moda. São referências claras mas traduzidas de uma forma despretensiosa sendo atraente para os consumidores jovens.

E terminamos o dia em um marco turístico de Nova Iorque, subindo alto para onde nenhum outro designer foi antes. LaQuan Smith é o primeiro designer a desfilar no Empire State Building, em live com o NYT Fashion o designer explica sua atitude de “Go Big or Go Home” e as roupas refletem este exato pensamento. A mulher de Smith é sensual e de personalidade forte, ela é quem veste as roupas – e não o contrário. De vestidos transparentes a plumas e cristais, nada passa em branco. É uma mistura cosmopolita e sensual de roupas para sair.

Imagens dos desfiles da esquerda para direita: Gabriela Hearst, Moschino, Carolina Herrera, LaQuan Smith fotos retiradas do Vogue Runway ou site oficial da marca.

DIA 4 – 10 de Setembro;

Michael Kors sabe exatamente para quem são suas coleções e entende como ninguém que identidade visual das roupas não é necessariamente sobre logos ou características visuais – são roupas bem feitas, com especialidade em conseguir incluir em apenas uma coleção ótimos momentos para o dia-a-dia da mulher contemporânea do designer e acompanhá-la até o traje de noite.

Stuart Vevers está provando cada vez mais seu valor com sua visão para a Coach. O sucesso de vendas das bolsas e suas campanhas de marketing são os maiores medidores disso e durante essa temporada ele decidiu homenagear uma das principais designers a participar da trajetória da marca – Bonnie Cashin, uma pioneira no sportswear norte-americano que fazia roupas descomplicadas, utilitárias e modernas para as mulheres independentes no pós-guerra. Com o legado de Cashin em mente, Vevers faz uma coleção marcada por influências diretas do sportswear, especialmente sobre a cena skatista dos anos 90, e referências claras da subcultura grunge da época são possíveis de observar.

Helmut Lang é uma marca com uma história tão forte que acaba impactando suas coleções recentes. Mesmo que Lang não tenha envolvimento com a marca desde 2005, o atual diretor criativo Thomas Cawson entende seus clientes – mas ainda não consegue traduzir para um grande momento da marca hoje e se situa muito no legado do designer na década de 90. Por mais que as roupas sejam bem feitas e estruturadas já faz algum tempo, até mesmo como a coleção foi fotografada lembra a marca em seu ápice.

Liberdade é a palavra que define a coleção de Eckhaus Latta, desde cortes estratégicos que deixam do torso aos mamilos a mostra até roupas que pareciam visualmente confortáveis nas modelos. É a liberdade de vestir o que quiser e ser quem quiser sem preocupar-se com reações externas, uma coleção ligada a discussões entre os conceitos de gênero discutidos principalmente entre a geração Z. Mike Eckhaus e Zoe Latta conseguiram entender o ponto central da conversa e ascender transformando isso em uma boa coleção.

Christian Cowan adora transformar seus desfiles em verdadeiras experiências – de Teddy Quinlivan jogando o casaco de forma bruta em cima da plateia em um conjunto roxo até grandes chapéus de plumas com mini vestidos colados, é tudo sobre comemorar, sobre reconectar-se com uma grande festa depois de tanto tempo. Mas se falarmos sobre as roupas em si, talvez fiquem um ou dois pontos faltando: Quinlivan é um designer experimental e com uma queda pelo erótico, e às vezes peca na construção de uma coleção estável. Tem muitos looks bons e muitos ruins na mesma leva, o que faz duvidar-se da intuição sobre gostar ou não da temporada.

Brandon Maxwell é um dos ‘tradicionais’ designers no evento, uma aparição indispensável para a volta presencial da NYFW. Contudo, enquanto as previsões ansiavam por uma coleção com modelos famosas e vestidos longos, lisos e bem ajustados, foi apresentado algo bem diferente. Em seus cinco anos de passarelas, Maxwell ainda não havia produzido um momento de estamparia. Agora, onde o designer se encontrou na posição criativa de stylist e criador, foi possível sentir a diferença entre suas roupas, entre texturas metálicas e vestidos fluídos com estampas psicodélicas. É uma faceta diferente de Brandon que até agora não era possível ver – mas é sempre revigorante um designer se aventurar em experimentações (mesmo que algumas delas não sejam sempre certeiras).

Imagens dos desfiles da esquerda para direita: Michael Kors, Coach, Helmut Lang, Eckhaus Latta, Christian Cowan e Brandon Maxwell fotos retiradas do Vogue Runway ou site oficial da marca.

DIA 5 – 11 De Setembro:

Começamos o dia com uma experiência física e espiritual em Rodarte – uma mistura de sentimentos, uma declaração das irmãs Kate e Laura Mulleavy sobre se encontrar espiritualmente e se aproximar da natureza, e também declararam a liberdade de seu espaço criativo confortável para impulsos diferentes de criação. Isso explica a coleção que tinha um pouco de tudo um pouco – dos vestidos de noite femininos pelos quais a marca é conhecida com rendas e franjas, um pouco de alfaiataria, estampas de cogumelos e terminando com uma série de vestidos leves de cores claras e modelos descalços. Realmente foi uma mistura de experiências.

O legado de Anna Sui gira em torno de ser uma das poucas designers que entende o balanço necessário entre a moda experimental e a moda de luxo utilitária. Se divertir e se expressar pela vestimenta parece ser um tema recorrente do evento por inteiro mas Anna Sui carrega esse patrimônio há anos, entregando agora uma coleção que consegue facilmente dialogar com gerações mais novas que procuram novas marcas para abraçarem e continuar uma conversa fixa com o seu próprio consumidor de anos, já que esses atributos sempre estiveram ligados a marca.

Falando em experiências, Thom Browne sempre entrega muito mais que um desfile: faz um show completo até mesmo quando estava limitado ao digital seu fashion film na Fall 2021 RTW – um dos mais interessantes e bem produzidos de toda a temporada. De repensar o que significam ternos e alfaiataria hoje, mas ainda mantendo uma precisão impecável em seus cortes e ajustes, pinturas de rosto que combinavam com enormes vestidos florais, vestidos com um relance de abdômen definido pintado, Browne não decepciona em entregar grandes experiências que unem a moda e a arte.

Imagens dos desfiles da esquerda para direita: Rodarte, Anna Sui, Thom Browne fotos retiradas do Vogue Runway ou site oficial da marca.

DIA 6 – 12 De Setembro;

Com a data do Met Gala se aproximando e a exibição do Costume Institute tomando forma, é uma decisão inteligente criar uma coleção com forte conexão e inspiração na história de uma das grandes designers americanas como Claire McCardell – principal inspiração de Tory Burch para sua coleção.

McCardell foi uma das pioneiras do sportswear, pensando na utilidade e versatilidade de suas roupas no cenário pós-guerra. A visão de Burch para a coleção foi justamente encontrar o equilíbrio de sua mulher cosmopolita e moderna (que nunca largou mão do seu charme boêmio) e a trajetória de McCardell. Das silhuetas precisas às estampas surpreendentes, a coleção foi bem executada em todos os sentidos da palavra.

Joseph Altuzarra volta para sua marca autoral depois de um hiatus desde 2017, quando embarcou em uma experiência transicional de designers mais estabelecidos que procuravam novas oportunidades no mercado internacional de Paris. Sua primeira coleção de volta para a marca foi um momento muito esperado.

A coleção foi descrita por ele como eclética com um toque de escapismo, uma ótima colocação – temos características claras do trabalho prévio do designer na silhueta e construção da roupa em si, mas os detalhes de styling, texturas e até estampas de tie-dye são adicionados às produções a fim de criar algo novo. É uma coleção jovem, boêmia e chique, de uma forma ambígua da palavra.

No pôr-do-sol final da NYFW com coleções que deixaram mais do que claro a ansiedade pela vontade de viver e se divertir com as roupas, a Staud fez literalmente uma enorme bola de Disco em seu desfile. Parecia uma grande festa: a designer Sarah Staudinger explicou para a jornalista Sarah Spellings que a Staud não se caracteriza como uma marca que deixa claro, no preto e no branco, suas tendências e referências da coleção. O mais importante para Staudinger seriam os momentos envolvidos no processo criativo, sentimentos que florescem desde na hora do rascunho da coleção até o animado desfile.

Com o tema da exibição do Costume Institute, os esforços do CFDA, uma NYFW cheia de novos talentos e nomes, fica bem claro que tem algum estímulo fiscal ou até mesmo sentimental para o revival da moda Americana – mas estamos prontos para isso? Apesar de alguns ótimos momentos, o evento foi morno, sem quebras de barreiras ou situações inesperados. Como fazer o revival da moda americana se mais da metade dos designers tem que se concentrar em pagar as contas no final do mês depois de um tempo conturbado é uma decisão complicada.

Mas fechamos a NYFW com um dos maiores nomes da cidade, o co-chair do CFDA: Tom Ford, que faz agora sua volta para às passarelas de Nova Iorque. Se a moda americana tem um rosto, é discutível que Tom Ford talvez seja ele. Ford mostra o otimismo máximo da melhora do cenário atual da melhor forma que pode; desenhando roupas prontas para festa.

Lantejoulas, lamê, cores vibrantes e silhuetas confortáveis se compararmos com o repertório antigo do designer, são peças para realmente serem tiradas da passarela e irem direto para algum clube exclusivo na cidade. É uma enorme representação de ansiedade em voltar a sair, se divertir e talvez o mais importante: retomar o fluxo de vendas.

Imagens dos desfiles da esquerda para direita: Tory Burch, Altuzarra, Staud e Tom Ford fotos retiradas do Vogue Runway ou site oficial da marca.

Met Gala 2021 – América: uma antologia da moda

Opera como um relógio que badala toda primeira segunda-feira de maio, uma das poucas tradições e instituições intocadas que subsistem na indústria da moda. Desde do primeiro baile em 1948 o baile de gala do Costume Institute dentro do Metropolitan Museum of Art , permanece como um dos maiores eventos de moda até hoje e esperamos ansiosamente toda primeira segunda-feira de maio momentos inigualáveis de extravagância e arte.

O objetivo inicial no ano de fundação era ser um baile de arrecadação de fundos e divulgação da exposição anual para o até então recém fundado Instituto de figurinos do Metropolitan Museum of Art. A primeira edição foi um jantar à meia-noite e cada ingresso agregava o valor de cinquenta dólares, mas o que começou como uma festa apenas para apoiar a instituição se tornou a joia da coroa da sociedade Nova-Iorquina.

Vídeo oficial da primeira parte da exposição

Logo depois ficou conhecido entre esse universo como a “festa do ano” e hoje as associações não são muito diferentes se você gosta ou trabalha com moda, devemos isso bastante a uma editora-chefe extremamente especial da Vogue US que também foi consultora especial do instituto de figurinos entre os anos de 1972-1989 já sabemos de quem estamos falando, de Diana Vreeland. 

Vreeland era conhecida como a editora que levou a Vogue a ficar conhecida oficialmente como a bíblia da moda, quando ela sentia uma visão ia com a mesma até o melhor resultado possível custe  o que custar, o que segundo o livro Glossy – The inside story of Vogue de Nina-Sophia Miralles esse espírito perfeccionista e extravagante não a fez ficar muito popular entre a gestão financeira da Condé-Nast. Mas o mesmo espírito convenceu as maiores celebridades da época como Jacqueline Kennedy Onassis e Pat Buckley a irem prestigiar o baile, fazendo por consequência ele ficar cada vez mais influente.

Bianca Jagger em Halston na edição de 1977 [Imagem: Arquivo/Vogue US]

No ano de 1988 Anna Wintour se torna a editora-chefe da revista Vogue e respeitando a tradição de suas predecessoras em 1995 ela assume como copresidente do evento como um todo;  “Ela transformou o evento em uma das campanhas de arrecadação de fundos mais visíveis e bem-sucedidas do mundo, atraindo convidados dos mundos da moda, cinema, sociedade, esportes, negócios e música”. – Nancy Chilton, diretora de relações externas do The Costume Institute do MET.

Wintour fez o baile ser uma verdadeira mistura entre as maiores celebridades conhecidas no mundo moderno em conjunto com grandes famílias endinheiradas tradicionais, essa mistura com uma campanha de marketing incrível dentro dos próprios looks que são usados durante o baile. A visibilidade que uma marca pode ter estando ali é enorme, porque as celebridades são rostos conhecidos mas as verdadeiras estrelas do eventos são as roupas  sensacionalmente confeccionadas. No Met Gala vale tudo dentro do tema da exposição para ganhar uma boa atenção.

Mas o que acontece quando o mundo pressiona o botão de pausa um mês antes do evento? 

Em 2020 o baile foi cancelado em decorrência da Pandemia do Coronavírus que abalou profundamente o funcionamento das sociedades modernas durante esse primeiro período. A exposição ‘About Time; Fashion and Duration’ chegou a acontecer mas o baile foi inteiramente cancelado. Com uma volta em novos ares em 2021, com a vacinação nos Estados Unidos desenrolando-se foi decidido que o novo baile aconteceria durante o mês de Setembro marcando o aniversário de 75 anos do Instituto de figurino e também marcando o começo da NYFW da temporada de primavera-verão e caso você não esteja familiarizado com o mês de Setembro vale como o ano-novo de toda indústria com as temporadas internacionais acontecendo em ordem, e começando por Nova-Iorque.

Ok… Mas e o tema?

No vídeo divulgado pelo próprio museu sobre a exposição já é possível reconhecer algumas criações de nossos designers contemporâneos favoritos como Christopher John Rogers e Prabal Gurung, muito feliz que nos primeiros glimpses já conseguimos identificar designers não-brancos na exposição.

Prabal Gurung Fall 2021 RTW [Imagem: Leeor Wild / Prabal Gurung]

O Costume Institute apresentará uma exposição de duas partes para 2021, “In America: A Lexicon of Fashion” e “In America: An Anthology of Fashion”. Basicamente, depois de um ano conturbado, o curador da exibição Andrew Bolton decide olhar para a história da moda Estadunidense, a primeira parte tem previsão de ser sobre um dos grandes triunfos da moda americana hoje, trazer para os holofotes novos, independentes e incríveis designers. 

A moda estadunidense além de ter sido historicamente muito ligada a movimentos da cultura pop e Hollywood do filme noir até o glamour de Edith Head em seus figurinos para o cinema, como tem um passado calcado no racismo estrutural dentro do país, muitas costureiras pretas que faziam um trabalho inspirado na alta-costura parisiense para a alta-sociedade eram extremamente descredibilizadas na época. Um enorme exemplo foi o vestido de  casamento de Jacqueline Kennedy feito pela Ann Lowe que assinava vestidos dos Kennedys aos Rockefellers e mesmo assim tinha problemas de reconhecimento na época.

Edith Head [Imagem: Getty Images]

Não muito longe, Willi Smith quebrou barreiras na moda americana que tiveram impactos em âmbitos internacionais e infelizmente ainda algumas vezes é negligenciado ele é reconhecido por ser um dos primeiros a trazer o streetwear para as coleções de moda de luxo juntando o versátil e utilitário com códigos de vestimenta da época. Mas algumas previsões sobre a exposição espero ver nomes de indivíduos geniais que formaram a moda americana como como Halston, Zac Posen, Bob Mackie, Stephen Burrows, Ralph Lauren, Oscar De La Renta, Marc Jacobs, Tom Ford e Ann Lowe.

Durante a legendária batalha de Versalhes, que colocou os estilistas franceses tradicionais contra os novos, jovens e idealistas americanos numa batalha de coleções em um evento beneficente com objetivo de arrecadar fundos para recuperação do palácio. A modernidade e diversidade que os americanos trouxeram levou a própria vitória, isso é um dos muitos exemplos do quanto a indústria pode se beneficiar com representatividade criativa trazendo novas experiências de vida, amor e criatividade para as coleções. Um dos exemplos históricos dentro da moda norte-americana que é esperado tanto para a própria curadoria das exposições como no red carpet.

Willi Smith à direita e Ann Lowe à esquerda. [Imagem: Arquivo / L’Officiel US]

Mas explicando um pouco do que já nos foi informado sobre o evento em si, todos os anos o baile tem vários co-presidentes que ajudam a hospedar o evento. Para o de 2021 temos  Timothée Chalamet, Billie Eilish, Amanda Gorman e Naomi Osaka irão co-presidir, enquanto Tom Ford, Adam Mosseri do Instagram e Anna Wintour servirão como presidentes honorários.

Este ano tivemos o primeiro convidado preto na semana de alta-costura de Outono Inverno 2021 com Kerby Jean-Raymond apresentando em sua marca autoral Pyer Moss. O próprio tema da coleção de Raymond circulou entre sonhos e invenções pretas, o quanto eles foram importantes para a cultura e indústria Estadunidense. Além de designers que fizeram história novas marcas independentes, modernas e jovens que estão trilhando muito bem o mercado como a Pyer Moss também devem ser levadas muito em conta nesta edição. Nomes já conhecidos e amados pelos amantes de moda como Area, Christopher John Rogers, Christian Cowan, Dion Lee e Peter Do para citar alguns.

Lembrando que não podemos esquecer do legado de estilistas Norte-Americanos em grandes casas tradicionais de moda de luxo, Marc Jacobs inaugurando a primeira coleção de pronto-para-vestir na Louis Vuitton, Tom Ford renascendo uma Gucci sexy e campeã de vendas e um exemplo um pouco mais recente é o sucesso que Daniel Roseberry tem conquistado a cada apresentação nova de coleção na Schiaparelli – Misturando elementos de alta-costura, arte surrealista e vestimentas muito bem trabalhadas ele continua o legado que seus predecessores deixaram, criou-se até o ditado; “Nenhum Americano falhou em Paris”.

Schiaparelli Spring 2021 Couture [Imagem: Daniel Roseberry / Schiaparelli]

Aprenda mais:

https://www.vogue.com/article/everything-we-know-about-met-gala-2021

https://www.metmuseum.org/blogs/now-at-the-met/2020/met-gala-costume-institute-benefit-brief-history

https://www.metmuseum.org/exhibitions/listings/2021/in-america

https://www.theguardian.com/fashion/2020/jun/08/willi-smith-williwear-african-american-streetwear-catwalk