Por que o mês de Setembro é considerado o “fashion month”

Setembro é considerado o janeiro do mundo fashion; neste mês, é dado ‘start’ numa nova temporada, com novas coleções nas passarelas e, lançamento das mais importantes edições das revistas de moda. 

Capa da Edição de Setembro – 1939 da antiga Vogue Paris (atual Vogue França) [Imagem: Reprodução/Join Reel]

Essa sistemática foi estabelecida a partir do século XIX, quando a Alta Costura foi instituída pelo estilista inglês Charles Frederick Worth e, então, criado o calendário da moda, em 1857. A programação proposta por Worth, consistia em promover os lançamentos das coleções em duas temporadas (primavera-verão e outono-inverno) mas, foi apenas em setembro, que as revistas passaram a divulgá-las. 

[Imagem: Reprodução / Balenciaga Archives Paris]

Atualmente,  este cronograma continua sendo seguido, afinal, a indústria percebeu que a procura por novas peças de roupa, se intensifica com a mudança de estações (mesmo em países onde as variações climáticas não são tão bruscas, a exemplo do Brasil); além disso, no hemisfério norte, é durante este mês, que inicia-se um novo ano escolar e, a volta às aulas, após as férias de verão, influencia o desejo por um guarda-roupa renovado e re-adaptado ao clima invernal. 

Cena do filme “Os Delírios de Consumo de Becky Bloom” [Imagem: Reprodução / Pinterest]

As principais semanas de moda (Nova Iorque, Paris, Londres e Milão) também ocorrem em setembro, quando são desfiladas as coleções de Primavera/Verão, que ditam o que estará “em alta” durante as respectivas temporadas do ano seguinte; o surgimento de novas tendências, somado ao impacto dos ‘fashion shows’, acaba impulsionando, também, as vendas neste período.

Desfile de Yves Saint Laurent na Paris Fashion Week Spring 2021  [Imagem: Reprodução / Harper’s Bazaar]

Como mostra o documentário “The September Issue”, produzido por R. J. Cutler, em 2009 – que acompanha a rotina da editora-chefe da Vogue USA, Anna Wintour, durante o período pré-lançamento da edição de setembro – as publicações deste mês são maiores, apresentam um maior número de anúncios publicitários e, geralmente, contam com celebridades mais influentes nas capas, sendo planejadas cerca de 6 meses antes de sua publicação; tudo isso, acaba refletindo num maior interesse do público. 

Cena do documentário “The September Issue” – Reprodução / Amazon Prime Video

Os Efeitos do Male Gaze na Moda: contexto, psicologia e a female gaze

O “gaze” (em tradução livre, olhar / contemplar com fixação) é um termo relacionado à cultura visual, se refere à uma perspectiva empregada no cinema, no teatro e em demais manifestações artísticas: O “male gaze”, então, pode ser definido como o olhar masculino (heteronormativo), que dirige a cena e controla a câmera (e assim, o gaze), satisfazendo tal público, através de ideologias e discursos patriarcais – feito por e para homens – mas além disso, reflete a forma como estes enxergam e lidam com o mundo ao seu redor.

Laura Mulvey, crítica cinematográfica britânica, foi quem deu origem ao termo “Male Gaze” em 1975, utilizado pela primeira vez em seu ensaio, intitulado “Visual Pleasure and Narrative Cinema”, no qual ela utiliza da psicanálise para questionar a imagem feminina no cinema, ao analisar os tradicionais filmes de Hollywood, dos anos 40 e 50. Criados por uma indústria controlada exclusivamente por homens, Mulvey sugere que este olhar classifica as mulheres como objeto passivo das narrativas, incluídas nas tramas apenas para satisfazer o desejo masculino, sem agregar valor ao enredo, em cenas hipersexualizadas, através de aparências codificadas por forte impacto visual erótico. 

Apesar de o termo em questão ter surgido a partir de uma perspectiva cinematográfica, o male gaze pode ser identificado nas demais indústrias que apresentam relação direta com a arte. Na publicidade, a mulher se torna o objeto de desejo a ser vendido para o público masculino, enquanto para o público feminino, vende-se a ideia de que só serão dignas de apreço ao seguir determinado padrão, pautado em um ideal (físico e comportamental) socialmente imposto. Até mesmo na indústria dos games, podemos usar o exemplo da icônica personagem Lara Croft, que nos leva a questionar se a mesma, seria uma heroína feminista – visto que foi uma das primeiras personagens femininas com um papel ativo em jogos de ação – ou, mais uma representação da objetificação feminina – desenhada com um apelo sexual intrínseco.

Campanha publicitária do cereal PEP by Kellogs – 1939 [Reprodução / Pinterest
Suitsupply Spring/Summer 2014 [Reprodução / Pinterest]

Como o figurino é um dos elementos essenciais para a construção de uma personagem, a hipersexualização acaba sendo também transmitida para o estilo desta; se “a vida imita a arte”, esses códigos são incorporados pela sociedade e refletem na moda; o mesmo acontece com os padrões estéticos irreais, que são assimilados pela população, distorcendo a forma como enxergamos o mundo e a nós mesmas. O impacto gerado pelo male gaze pode ter passado despercebido por gerações anteriores, possivelmente, pelo fato de que a quebra de antigos costumes nos deu uma falsa sensação de liberdade e empoderamento. Porém, recentemente, foi levantado um questionamento por criadores de conteúdo no aplicativo “TikTok”, ao indagar: por quê quando mulheres optam por roupas mais extravagantes / fluidas / coloridas / diferentes, que não são consideradas sensuais, geralmente percebem olhares de admiração vindo de outras mulheres e, olhares de reprovação vindo de homens? Foi então, que os impactos do olhar masculino começaram a ser notados, também, na moda, pela geração Z. Rapidamente, outras trends que abordam esta temática, também tomaram conta das redes sociais; uma das mais populares consiste em representar personagens em situações cotidianas ou hipotéticas, sob o ponto de vista do male gaze, a partir de uma análise, acerca de sua aparência, estilo e comportamento, o que comprova sua influência em nossas personalidades.

Em entrevista concedida à Frenezi, a stylist e produtora de moda, Lívia Cady (@liviacady) reconhece que o olhar masculino sobre a mulher e, a objetificação sexual de sua imagem, implicam numa auto observação deturpada, além de influenciar também no lifestyle e preferências individuais (que infelizmente, acabam sendo generalizadas), relacionados com o estilo pessoal, que também pode ter seu desenvolvimento e construção prejudicados .

“Essa é uma herança histórica que está enraizada e muito presente no nosso dia-a-dia, lidamos com isso o tempo inteiro. Como profissional, meu papel é justamente, conduzir o/a cliente nesse processo de autoconhecimento e empoderamento de sua própria imagem, para que ele/ela não permaneça refém dessa dinâmica machista e, que o seu estilo não seja moldado de acordo a satisfazer às expectativas alheias e sim, às suas próprias”, ela explica.

Discussões acerca da feminilidade, também foram levantadas em debates sobre o male gaze na internet; comparações generalizadas e sem fundamentação teórica, que a relacionam à futilidade contribuem para a repreensão do feminino e afirmação de discursos patriarcais. O estereótipo ‘pick-me girl’, também foi bastante citado e, apesar de divergir (teoricamente) dos padrões hipersexualizados, impostos pelo male gaze, acaba por fomentar a rivalidade feminina, a partir da premissa de superioridade de quem despreza aspectos e elementos considerados “de mulherzinha” e se diz “diferente das outras garotas”, por basear seus interesses em elementos compreendidos socialmente, como masculinos, o que pode se tratar de mais um reflexo da inferiorização do feminino, pela construção social patriarcal.

Com uma extensa bagagem de campanhas publicitárias misóginas, a fast fashion estadunidense, American Apparel, fundada por Dov Charney (o qual já recebeu inúmeras acusações de assédio sexual), entrou em alerta de falência, em 2015, após uma série de boicotes à marca. Em 2021, foi anunciado o fechamento de todas as suas 110 lojas pelos Estados Unidos – porém, suas peças continuam à venda através da atacadista Gildan Brands, após um acordo que custou 88 milhões de dólares; mas (felizmente), é inegável o apagamento da marca, que teve o seu auge durante os anos 2000. 

American Apparel, catálogo da coleção Fall 2013 – Unissex Clothing [Reprodução / Feminist Film Studies Fall 2018]

Já a coleção outono / inverno 2022 da Roberto Cavalli, apesar de ter sido desenhada por Fausto Puglisi, em seu primeiro desfile como diretor criativo da casa, apresentado na Semana de Moda de Milão, trouxe um olhar feminino acerca da sexualidade. A marca conhecida por peças extremamente sexys e extravagantes, ganhou uma nova “mulher Cavali”, com um toque de romantismo, marcado pelos florais e, intelectualidade, simbolizada pelas estampas xadrez (utilizadas pela primeira vez na Cavalli). Puglisi conseguiu equilibrar sensualidade, feminilidade e conforto, numa releitura moderna do tão comentado empoderamento feminino.

Roberto Cavalli Fall Winter 2022 – Milan Fashion Week [Reprodução / Pinterest]

O Female Gaze, baseado em teoria feminista, surge em contraponto ao olhar masculino, numa busca pelo desvencilhamento destes padrões; a moda aparece como forma de subversão e escapismo. Em um mundo onde o conceito de ‘gênero’ é fluido, há quem ache irrelevante esta dicotomia, porém, é imprescindível que atentemos a essas representações e seus significados, para que nossa autonomia seja mantida dentro e fora das telas. Mas, numa sociedade onde mulheres são objetificadas de todas as formas possíveis – e independentemente da roupa que se veste – é possível lutar contra o male gaze?


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Como os festivais impactaram a moda

Os festivais de música vão além de simples compilados de shows, são eventos que carregam símbolos geracionais, reunindo-os em representações culturais. A união entre música e moda sempre foi evidente, elementos que caracterizam ritmos como rock, country, pop, rap e suas variações, são constantemente introduzidos no meio fashion, influenciando não apenas o público-alvo desses estilos, mas sendo incorporados nos demais.

Tommy Hilfiger Spring 2015 [Reprodução/Dazed]

Estes eventos surgiram na Grécia Antiga, com caráter competitivo, como uma forma de cultuar o deus Apolo, ligado à música e às artes, durante os Jogos Píticos. Durante a Idade Média, foram dissociados dos esportes, mas mantiveram a competitividade. Só após a Revolução Francesa, os músicos e compositores ganharam admiração e prestígio na alta sociedade, esta, que enfrentava longas viagens para escutar os seus “ídolos”, o que influenciou a criação do Bayreuth Festival,na Alemanha, no ano de 1876, o primeiro a apresentar a música como ponto principal, reunindo performances de óperas e dramas musicais, do compositor Richard Wagner; seu impacto foi tanto, que se tornou um evento anual, que acontece até a atualidade — sua mais recente edição ocorreu em agosto de 2021.

Foi apenas no século XX, com a disseminação da música popular, principalmente, do jazz, que os festivais ganharam o formato similar ao que vemos hoje. Não demorou para que o rock e outros ritmos alternativos, também aderissem ao modelo. Um grande marco para a contracultura, da década de 60, foi o festival de Woodstock, que ocorreu em agosto de 1969, iniciando a “Era de Aquário”. Os “3 dias de paz e música”, questionavam os costumes e valores morais do tradicional estilo de vida estadunidense, através do movimento hippie, que estava em seu auge e, não por coincidência, caracterizou a moda dos anos 70. O lema “seja você mesmo” de Woodstock, serviu como inspiração para diversos festivais, que levam a liberdade como preceito principal, como o Coachella, também nos Estados Unidos e, o Lollapalooza e Rock in Rio, aqui no Brasil. 

Há quem os considere ‘semanas de moda ao ar livre’, por abrirem espaço para manifestações de estilo, que vão além do simples street style. Através de produções cheias de personalidade, o público divide os holofotes com os artistas; encontram nesses eventos, a liberdade de expressão que não lhes é possível no dia-a-dia. Desta forma, o Coachella conseguiu chamar a atenção de marcas, como Lacoste, Adidas, Revolve e H&M e, de veículos como Harper’s Bazaar, que já prestigiaram e patrocinaram o evento. A partir do exemplo internacional, C&A, Chilli Beans e Adidas, fizeram suas apostas em festivais nacionais, como Rock in Rio e Lollapalooza. 

Mas o sucesso dos shows não traz lucros apenas para seus investidores, lojas de departamento perceberam o ‘boom’ nas vendas, durante os períodos pré-festivais; a procura por roupas e acessórios nos estilos Grunge e Boho Chic costuma ser tão grande, em datas próximas ao Coachella, que a Forever 21, frequentemente, lança coleções inspiradas no evento – franjas, bandanas, kimonos e  jeans são indispensáveis. 

Os estilos Rocker, Grunge, Indie, Punk, Hipster (que marcou a era Tumblr) e Boho Chic – variação do Hippie, com um toque Country – são característicos desses eventos, mas engana-se quem pensa que eles se restringem aos festivais; celebridades como Bella Hadid, Kesha, Cara Delevingne e Jaden Smith, levaram franjas, spikes e tecidos flanelados, também para os tapetes vermelhos.

Kendall e Kylie no Coachella de 2016 [Reprodução/Pinterest].

Nas passarelas, estes estilos já apareceram inúmeras vezes, mas, ao falar em festivais, precisamos mencionar a coleção Spring 2015 da Tommy Hilfiger, durante a New York Fashion Week, que foi inspirada nos festivais de Rock da década de 70, homenageando The Beatles, Jimmy Hendrix e The Who; Hilfiger apresentou elementos icônicos, como pele (sintética), vinil, coletes, calças flare, patchwork, metalizados e composições all jeans, além dos motivos de estrelas e caveiras, que estampavam as peças. O desfile contou com presenças ilustres de Georgia May Jagger – filha do astro Mick Jagger – que abriu o catwalk e, Ella Richards – neta do guitarrista Keith Richards, também da The Rolling Stones.

Tommy Hilfiger Spring 2015 [Reprodução/Pinterest].

Com o avanço da vacinação contra a COVID-19, controle da pandemia e consequente retorno dos shows, após 2 anos de eventos cancelados, percebe-se, atualmente, a volta destes estilos e tendências – antes do esperado – simbolizando o anseio, pela tão aguardada, retomada das programações musicais. 

Old Money: Fascínio entre a riqueza geracional

Em 2021, entre os vídeos verticais em nossas timelines um estilo de vida – e de roupas – foi popularizado entre a geração Z. Uma saia plissada clássica de tenistas, que foi resgatada dos guarda-roupas dos anos 90, foi uma das primeiras peças a serem popularizadas em massa entre a juventude, uma porta de entrada para que meses depois a estética “Old Money” estava em um dos estilos mais procurados no mundo digital. O estilo pode ser resumido em um mix entre o preppy – abreviado de “preparative school” – faz referência aos uniformes de internatos e colégios particulares, como representado nas séries Gilmore Girls, Elite, Gossip Girl, etc – Também como o esporte chique, muito associado aos country clubs, exalando luxo e sofisticação através de tecidos limpos e peças de modelagem casual, mas que exalam qualidade. Como os suéteres, coletes de tricot e as tradicionais camisas de gola polo, quais foram criados por René Lacoste, em meados dos anos 20, em uma união entre estilo e conforto, com o intuito de melhorar sua performance no tênis, que logo se popularizou, estabelecendo firmemente os fundamentos da marca. 

Além de Lacoste, Tommy Hilfiger e Ralph Lauren são alguns dos nomes que ajudaram o estilo a se estabelecer no imaginário popular, conseguiram principalmente,  transformá-lo em um estilo clássico sem perder o ar esportivo, mesmo em suas composições mais formais, inspirado principalmente pelo tênis, golfe e hipismo – esportes praticados exclusivamente pela elite – A popularidade também pode ser associada às Olimpíadas de 2020 em Tóquio (2021), que nesta edição, contou com um maior alcance do público jovem.

Campanha publicitária da Lacoste [Imagem: Reprodução / Pinterest]

O estilo aparentemente despretensioso, camufla o preconceito de classes que há por trás dele. O conservadorismo é mascarado pela “simplicidade” em suas produções, apesar de compostas por peças de luxo. Relacionada à burguesia majoritariamente branca, a estética constrói uma fiel representação da sigla WASP – Branco, Anglo-Saxão e Protestante. O termo “Old Money” refere-se aos membros das elites norte-americanas e europeias, cujo poder e prestígio social são passados entre seus descendentes. 

O “dinheiro antigo” é associado a riqueza geracional, mantida e protegida  por múltiplas gerações da família com grandes patrimônios financeiros, mas principalmente uma instituição social por trás do sobrenome que trás, um termômetro de poder social dentro dessas famílias da alta sociedade. São códigos de riqueza conhecidos por um grupo pequeno de pessoas que os entendem, grande parte do fascínio entre os estilos dessas pessoas vêm de entender como eles se reconhecem entre si, como um grupo fechado.

Campanha publicitária da Ralph Lauren – Abril 1989 [Imagem: Reprodução / Vanity Fair]

Old Money X New Money

Um produto de luxo é caracterizado não apenas pelo seu aspecto físico, mas pelo conjunto de sensações e conceitos que o envolvem, como mencionado por Gilles Lipovetsky e Elyette Roux no livro “O Luxo Eterno”, além de um objeto ou serviço, o consumidor se dispõe a pagar um valor mais elevado, pelo poder que este representa. Para os que alcançaram a ascensão social, a posse desses bens está atrelada à conquista e reconhecimento, por isso, fazem questão de exibi-los; enquanto os ricos “de berço” buscam a privacidade, sem necessidade de autoafirmação, mas ainda assim, procurando se distinguir dos demais. 

Um popular ditado que foi colocado a tona em conjunto com a popularidade do estilo, revivendo é que “o dinheiro fala, mas a riqueza sussurra”, nisso se baseia o estilo de vida conservador, caracterizado pela aversão à ostentação, sensualidade e extravagância dos novos ricos, sendo estes, em sua maioria, latinos, negros e asiáticos, que conquistaram a ascensão, principalmente por meio da arte (rappers, cantores, atores, modelos), escancarando assim, a segregação social, o racismo e a xenofobia. 

Curiosamente, a estética Old Money vem sendo consumida tanto pela classe média, quanto pelos ricos emergentes, o que pode indicar uma necessidade de apropriação e ocupação deste contexto que lhes foi negado, mas que hoje possuem condição de usufruir, mesmo que apenas visualmente, ou porque acreditam que assim, serão aceitos mais facilmente neste cenário social, seguindo o lema “fake it until you make it”.

Estética Old Money X Estética New Money – Street Style  [Imagens: Reprodução / Pinterest]
Estética Old Money X Estética New Money – Street Style  [Imagens: Reprodução / Pinterest]

Análise Social

O acúmulo de capital é um dos principais fatores contribuintes para a desigualdade social e a taxação das grandes fortunas vem sendo discutida, como uma possível solução para esse problema; neste contexto de pandemia e crise socioeconômica, é inaceitável a exaltação de uma estética tão contrastante com a realidade atual da maioria, além de estar associada a um grupo elitista, cercado por privilégios e que flerta com a extrema direita. 

O luxo velado durante épocas de crise – econômica, ambiental, guerras, epidemias, entre outras – é mais comum do que se pode imaginar; em entrevista concedida à Frenezi, Gabriel Fusari (@fvsari), jornalista de moda especializado em ramificações político-sociais na indústria da moda. Ele associou a valorização do Old Money, que ocorre no contexto atual, ao período pós Segunda Guerra Mundial, que contou com aquecimento no mercado financeiro, e indaga: “Pode ser que essa estética de ostentação, dentro de um sistema de competição, seja pra ver quem está melhor depois do furacão, sabe?” Mas afirma que o apreço ao luxo em situações de instabilidade é algo constante na sociedade: “Essa supervalorização do luxo é apenas o rico vivendo seu injusto cotidiano, a classe média aspirando um dia viver aquilo, e os pobres percebendo que é incabível. Mas pra estética como um todo, isso não faz muita diferença. Desde sempre ela esteve na Zara e na Tommy Hilfiger”, ele complementa. 

Campanha Publicitária Tommy Hilfiger – Primavera 2011 [Imagem: Reprodução / Pinterest]

Quando questionado sobre qual o principal fator que pode ter desencadeado o interesse da Gen Z pela estética Old Money, Fusari argumenta que trata-se de uma situação complexa, com forte influência midiática e política: 

A moda é uma forma de reflexo de gostos e comportamentos dentro de nossa sociedade. Há alguns anos, com os avanços das discussões sobre acúmulo de riqueza, inclusão e segregação social e principalmente com o avanço do conservadorismo e políticas neoliberais, de alguma maneira, propôs um protagonismo midiático para esses personagens. A gente vê séries como Gossip Girl, The Royals, Sucession… que colocam esses personagens ricos, que vivem de suas heranças e dividendos, em holofotes, isso de alguma maneira acaba incentivando. Esses produtos midiáticos são carismáticos, eles acabam apresentando essa estética que é parte de um universo que dá dinheiro. A indústria da moda acaba aderindo a essas tendências e assim, fica mais fácil de encontrar essas roupas.  E se a gente parar pra pensar onde foi o estopim, acho que é tudo sobre o algoritmo, sabe? Uma coisa leva a outra dentro das redes, fazendo com que as coisas fiquem maiores. A gente via a Lana Del Rey com essa estética, de alguma forma usando para crítica a um comportamento que nos EUA estava crescendo muito. Essa cultura conservadora que é originária do rico, branco, cristão e conservador. Inclusive, muito atrelado à ascensão política de Donald Trump, né? ”.

Os chamados aesthetics, consistem num conjunto de símbolos, cores, estilos, músicas, etc. que refletem desejos e sonhos, mas além de apenas um moodboard, representam e comunicam um estilo de vida que se deseja alcançar ou manter; entender o contexto atrelado a eles, é essencial para evitar frustrações ou a disseminação de princípios conflitantes; neste caso, com o enaltecimento de um aesthetic que remete à riqueza centralizada numa parcela elitista da sociedade, em tempos de insegurança financeira, podemos afirmar que “a crise também é estética”

Gabriel Fusari reitera que a utilização de uma estética pode ter diversos significados, a depender da compreensão de cada indivíduo: “Tem gente que veste aquelas roupas e tem total comportamento conservador, elitista e versado a pautas de austeridade. Mas também tem aqueles que só reproduzem a estética por onda, por apreço a estética (muitas vezes, construído por um elitismo social estrutural em algum grau). Tem quem segue essa trend só como a “trend de Gossip Girl no TikTok”, tem quem sabe que é Old Money, tem quem (como eu, até alguns dias atrás) conhecia ela como Preppy ou WASP mesmo, tem quem também acha que é só o estilo que aprendeu na família”.

Outra discussão levantada a partir do polêmico Old Money, é acerca do consumo consciente, visto que é caracterizado por um estilo atemporal, prezando pela qualidade das peças e seus materiais, mas que acaba invalidando a desigualdade social, seja pela estética segregacionista em si, ou mesmo pela fragilidade econômica que abrange grande parte da população, que acaba recorrendo ao fast fashion como única saída. Gabriel Fusari rebate:

 “Qual a certeza que esse estilo tem origem de brechó ou de “herança”, que seja? O estilo pode ter uma estética sustentável, mas quem consome isso como estilo de vida é uma quantidade muito pequena de pessoas, que tem isso desde sempre, passado de mãe pra filha e por aí em diante. As pessoas que hoje fazem a estética Old Money acontecer, são da classe média, que se acha rica e usa do Old Money como um certificado de autenticidade de riqueza, ou a classe média que compra na Zara e faz disso apenas uma estética do momento, futuramente comprando outro estilo, outra estética, e por aí vai. A classe média muda de estilo visual como se troca de roupa (rs). O deslumbre dela faz com que ela consuma o mercado. Ela não vai seguir aquele estilo pra sempre e vai manter essas peças… Se hoje elas são Old Money, amanhã podem ser Hipster futurista, Gótico trevoso…”.

Moodboard Old Money Aesthetic [Imagens para a colagem retiradas do Pinterest]

Apesar de viver um momento em que se tem liberdade de passear por diversos estilos, é necessário entender como estes foram criados, para qual finalidade e o que eles expressam; em geral, essa percepção pode nos auxiliar na compreensão da sociedade como um todo, de forma a assimilar como somos influenciados e como podemos influenciar, nos diversos aspectos; desvendando assim, o porquê dos nossos desejos de consumo e o que há por trás deles.  

A moda é um ótimo recurso para a comunicação visual, mas quando descontextualizada, pode reproduzir uma ideia extremamente contrária aos nossos princípios, como é o caso dessa geração, que desenvolveu apreço acerca de um contexto social, que ela mesma critica; ignorou o Old Money como uma problemática socioeconômica, sem relacioná-lo com uma cultura conservadora e segregacionista, conflitando com seu discurso.