Crise humanitária Yanomami: entenda o cenário e saiba como doar

Na segunda-feira (16) da semana passada, uma força tarefa foi montada pelo Ministério da Saúde com o objetivo de realizar um diagnóstico sobre a saúde dos indígenas Yanomami e traçar ações futuras para manter a saúde e segurança deles. Após verificarem a absurda situação de desnutrição, o Ministério da Saúde declarou neste sábado (21) estado de emergência na saúde indígena do território.

Nos últimos dias, mais de mil indígenas foram resgatados em estado grave. Em fotos que circulam pelas redes sociais, indígenas em situações de extrema vulnerabilidade, sendo a maioria dos registros de idosos e crianças.

Os indígenas estão sendo resgatados e levados ao posto de Surucucu, uma unidade considerada de referência na região, também de estrutura precária. Os quadros gravíssimos são encaminhados para Boa Vista.

“É uma operação que envolve uma complexidade muito grande, uma estrutura, uma logística e nós precisamos cobrir todo o território, principalmente aquelas comunidades que estão muitas vezes refém das ações dos garimpeiros”, diz o secretário, definindo o cenário como de guerra.

Em 2022, 99 crianças, entre um e 4 anos morreram, sendo a maioria por desnutrição, pneumonia e diarreia. Além disso, foram registrados 11.530 casos de malária no Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami. O destaque foi para os casos na faixa etária de maiores de 50 anos, seguida pela dos 18 a 49 anos, e a dos cinco aos 11 anos de idade, como aponta o Ministério dos Povos Indígenas.

A Ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara ainda afirmou que pelo menos 570 crianças morreram de desnutrição nos últimos quatro anos.

No último sábado (21), o presidente Lula esteve presente em Roraima e discutiu sobre a crise humanitária no território, que possui 370 aldeias e 10 milhões de hectares, além de cerca de 28 mil indígenas isolados em áreas de difícil acesso — quase todas atingidas pelo garimpo. Ele também decretou a criação de um comitê para discutir medidas que devem ser tomadas. As ações do comitê durarão 90 dias e há chances de prorrogação do prazo.

O GARIMPO NA REGIÃO

O território Yanomami é localizado entre os estados de Roraima e Amazonas e tem sido alvo principal do garimpo, que trouxe conflitos e consequências severas para os indígenas da região.

Garimpo é o nome que se dá à exploração, mineração ou extração, manual ou mecanizada, de substâncias minerais. Na região Norte do Brasil, a prática é comum e acontece de forma ilegal, dentro de territórios indígenas.

O mercúrio, usado para a extração do ouro, possui o poder de poluir rios, contaminar peixes e foi responsável por impactar a principal fonte de água e alimento dos indígenas.

“O garimpo é parte constituinte do processo de colonização do Brasil e da Amazônia também”, pontua a pesquisadora France Rodrigues, professora da UFRR.

A garimpagem do ouro, do diamante, da borracha e todo o processo de exploração desses recursos naturais, tem uma carga transformadora da natureza. “Existem trabalhos que provam que o mercúrio derramado afeta diretamente o solo, os rios, e causa danos aos seres humanos, aos peixes, à vida marinha. Esse cenário também é extremamente danoso quando a gente pensa nos animais, na vegetação”.

“O mercúrio também pode causar cânceres e doenças irreversíveis ao ser humano. Aqui ou em qualquer lugar que você tenha garimpagem, você vai encontrar esses impactos direto na natureza e consequentemente na vida das pessoas que estão próximas”, continua ela, para o Brasil de Fato.

“A presença dos garimpeiros espalha malárias, Covid e outras doenças”, explica a ativista da Survival International, Priscilla Oliveira.

Acampamento de garimpeiros Créditos: Bruno Kelly/Relatório Yanomami Sob Ataque

A Hutukara estima que atualmente mais de 20 mil invasores estejam no território revirando o fundo dos rios e florestas em busca de ouro. Esse levantamento feito era tratado como “exagerado” pelo governo Bolsonaro, como afirmou o então vice-presidente, Hamilton Mourão.

SITUAÇÃO DURANTE O GOVERNO BOLSONARO

Numa carta enviada ao presidente Lula em dezembro de 2022, mulheres yanomami contam que, quando buscam ajuda médica nos postos de saúde, recebem como resposta lamentos sobre a falta de remédios que nunca chegavam, mesmo com a insistência junto às autoridades.

“Essa malária é muito forte e não tem medicamentos para tratá-la. O governo de Bolsonaro acabou com o estoque de cloroquina do Brasil e agora nós sofremos pela sua má gestão. Não queremos ficar chorando porque as pessoas morrem, não queremos ficar chorando até a madrugada. Já temos muitas cinzas mortuárias”, relata o documento redigido por elas.

Além de atos violentos, como o de um posto de saúde incendiado por garimpeiros, estupros de mulheres e meninas yanomamis eram constantes. “Garimpeiros assediam as meninas e outros querem pagar serviços maritais. Eles querem fazer assim, mas nós mulheres não queremos que nossas filhas e netas sejam entregues e abusadas por essas pessoas. Os garimpeiros aliciam os jovens e suas esposas. Esses jovens são atraídos e ficam dependentes dos poucos alimentos industrializados que recebem como pagamento.”

Em 2021, o G1 e o Fantástico registraram um editorial com cenas inéditas e exclusivas de crianças extremamente magras, com quadros aparentes de desnutrição e de verminose, além de dezenas de indígenas doentes com sintomas de malária nas três comunidades visitadas: Xaruna, Heweteu I e II.

Ainda de acordo com o portal, em novembro de 2022, a Polícia Federal e o Ministério Público Federal (MPF) deflagraram a operação Yoasi, contra a fraude na compra de remédios destinados ao Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami (Dsei-Y), em Boa Vista.

O esquema criminoso deixou pelo menos 10 mil crianças indígenas sem medicamentos, de acordo com as investigações. Elas também indicam que dois coordenadores de suas respectivas gestões firmaram o contrato com uma empresa para o fornecimento de 90 tipos de medicamentos. Entretanto, a companhia entregou menos de 30% do previsto.

Todos os fatos que levaram à crise humanitária foram denunciados há anos por lideranças indígenas, mas ignoradas pelo ex-presidente Jair Bolsonaro. Em recente pronunciamento no Telegram, Jair negou descaso de seu governo com os povos indígenas e destacou tal acusação como “uma farsa da esquerda”.

Entretanto, durante a pandemia de Covid-19, o ex-presidente acatou um pedido da ex-ministra Damares Alves, que solicitava o veto de medidas protetivas para os indígenas como o fornecimento de itens como água potável; materiais de limpeza, higiene e desinfecção; leitos de UTI; ventiladores pulmonares; e materiais informativos sobre a covid-19. O veto de Bolsonaro, no entanto, foi derrubado pelo Congresso Nacional.

A justificativa de Damares para o pedido era de que os povos não haviam sido “diretamente consultados pelo Congresso Nacional.”

Uma pesquisa divulgada pela Folha de S. Paulo em junho de 2022, mostrou que 43% dos brasileiros pensam que o governo Bolsonaro mais estimulou o desmatamento na região e a ação de caçadores e pescadores ilegais do que combateu as ilegalidades.

A DESNUTRIÇÃO É UM PROBLEMA ESTRUTURAL: SAIBA COMO AJUDAR

A antropóloga e sanitarista Fabiane Vinente faz um alerta: ela aponta que a desnutrição dos indígenas é um problema crônico de vários povos, não apenas dos Yanomami, portanto é uma questão estrutural. A desnutrição está relacionada a processos de desestruturação do modo de vida daquele povo, da forma como eles habitam o mundo.

“A invasão dos territórios por garimpos, madeireiros e outros (inclusive missões religiosas) alteram a forma de gestão territorial desses povos. Vi gente que passou a ser proibida de circular em determinados pontos do seu território para evitar os garimpeiros.

As alterações territoriais dos garimpos também envolvem perda de contingente de caça e pesca, além do risco de violência sexual contra meninas e mulheres. Alcoolização também entra nesse pacote.

Não é só a questão nutricional. As taxas de suicídio entre os indígenas são imensamente maiores que entre os não indígenas: (15,2 óbitos/100 mil habitantes), quando comparados com brancos (5,9/100 mil habitantes) e negros (4,7/100 mil habitantes).

Não apenas em saúde, mas em saúde indígena, que é algo específico. Por exemplo: o acompanhamento de grávidas, puérperas e crianças de 0 a 5 anos só é possível com insumos, equipes de saúde bem treinadas, com deslocamento e presença constante nos territórios.

Não é só empurrar comida, entendem? E que comida, né? Os Yanomami são um povo de contato relativamente recente. Possuem uma forma de ver o mundo muito própria. A pandemia deixou cicatrizes fortes por lá.

É preciso política pública, é preciso ação do Estado. Campanha de “cestas” vai render lindas fotos, mas pode ser só mais uma forma de tumultuar. E não, não vai resolver. Então eu acho que não é por aí.

Querem ajudar os Yanomami?

Colaborem com as organizações do movimento indígena que vêem denunciando esses problemas há anos: hutukara.org A Hutukara é de Roraima, gestada por Yanomami e têm campanhas abertas.

A Secoya, embora seja coordenada por não indígenas, têm um trabalho de mais de 30 anos com os Yanomami do Marauiá e Demini.

O CIR (Conselho Indígena de Roraima) é uma das primeiras organizações indígenas do Brasil cir.org.br/site/ Apoiem! Eles também representam os Yanomami de Roraima. E pressionem. Não deixem isso cair no esquecimento.

É como eu sempre digo: perguntem aos indígenas. Sempre perguntem aos indígenas como podem ajudar. Não caiam no conto do “branco bonzinho” que sabem o que é melhor para eles, eles já estão cansados disso.

No território Yanomami as aldeias podem ter dias de distância de uma para outra. A única forma de comunicação externa em alguns lugares é a radiofonia, que pode ser a diferença entre a vida e a morte em uma comunidade. Ajudem aí a ampliar a rede: hutukara.org/index.php/proj…

E SE as organizações indígenas acharem por bem distribuir comida, ok. Mas ELES SABEM que comida e onde distribuir. Então apoiem eles, gente. Muito mais garantido fortalecer o movimento indígena, que luta pela soberania dos territórios, do que ONGs externas (com todo respeito)”, finaliza ela, no Twitter.

Para acrescentar, um mutirão organizado pela CUFA e a FNA arrecada alimentos e doações para os indígenas Yanomami. Também estão sendo aceitas doações de todos os tipos de produtos de higiene, além de dinheiro. Existem cerca de 3 pontos para a arrecadação das doações: Parque Santo Antônio, na Zona Sul de São Paulo; e Paraisópolis e Heliópolis, também na Zona Sul da capital. A chave PIX para ajuda monetária é doacoes@cufa.org.br. Você também pode doar por meio do site ParaQuemDoar.

Fontes: Correio Braziliense, DW, g1

8/1 e o ataque terrorista bolsonarista aos Congresso

Neste final de semana, cerca de 4 mil pessoas chegaram em Brasília, para protestar contra a eleição do atual presidente Lula. Em um momento inicial, o ato golpista, que se iniciou pacífico, foi escoltado pela Polícia Militar até a Esplanada dos Ministérios. Após tentarem furar o bloqueio, a PM, com poucas equipes na Esplanada, tentou conter os golpistas, que estavam com pedaços de pau e pedra, apenas com o uso de spray de pimenta e bombas de efeito moral. Alguns policiais foram agredidos e até mesmo um cavalo da equipe da polícia teve de ser socorrido. Com o caos instaurado, os golpistas se direcionaram para os prédios dos três poderes e começaram os atos terroristas. Os golpistas depredaram o patrimônio público, quebraram móveis, vidraças e destruíram documentos e obras de arte.

Imagem: [Reprodução Twitter | @do_prisco]

Por volta das 15h da tarde, terroristas subiram na parte de cima do Congresso para alcançar a área interna da Câmara e Senado. Cadeiras foram jogadas para fora, o chão foi inundado por mangueiras de incêndio, salas de gabinetes destruídas e terroristas de extrema-direita flagrados evacuando. Os prédios já foram esvaziados, porém muitos golpistas ainda se reunem na parte exterior e estão sendo lentamente dispersados pela Tropa de Choque.

A Polícia Militar do DF foi alvo de críticas por não ter evitado os ataques. O jornal Brasil de Fato apontou motivos de que Ibaneis Rocha, governador do DF, possui responsabilidade nos atos golpistas. Um deles, é que durante o governo Bolsonaro, Ibaneis escalou um ministro da Justiça como secretário de segurança do DF, Anderson Torres, que foi autorizado a viajar à Orlando de férias, onde também está Bolsonaro. Além de que, a polícia escoltou os terroristas durante todo o trajeto — falta de resistência, que foi extremamente criticada por toda a imprensa.

O G1 mostrou com exclusividade um grupo de dez policiais militares do DF que foi filmado conversando com bolsonaristas e registrando imagens da invasão ao Congresso Nacional. Agora há pouco, Torres foi exonerado por Ibaneis, e fez um pedido de desculpas público, diretamente para os Três Poderes. A AGU reinvindicou prisão em flagrante de todos os envolvidos e de Anderson Torres, além de comunicar às plataformas, para que todo e qualquer conteúdo que incita atos golpistas, seja removido. O congresso americano questiona a permanência de Bolsonaro no país. Até a imprensa mundial se manifestou sobre o ato golpista.

Até o momento, o governo do DF afirma que cerca de 400 pessoas foram presas em flagrante, por depredação do patrimônio público.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que todas as pessoas serão encontradas e punidas. “Vamos descobrir quem são os financiadores”, comentou. “Se houve omissão de alguém do governo federal que facilitou isso, também será punido.” Lula disse que houve “incompetência, má-fé ou maldade” das forças de segurança do Distrito Federal.

O presidente decretou intervenção federal na segurança do Distrito Federal e nomeou Ricardo Garcia Cappelli como responsável pela segurança pública na capital. Cappelli é secretário-executivo do Ministério da Justiça, braço direito do ministro Flávio Dino.

Segundo o G1, a intervenção está prevista para durar até o dia 31 de janeiro. Com ela, os órgãos de segurança pública do Distrito Federal ficam sob responsabilidade de Cappelli, com subordinação a Lula. “O objetivo da intervenção é pôr termo a grave comprometimento da ordem pública no Estado no Distrito Federal, marcada por atos de violência e invasão a prédios públicos”, diz o decreto.

Dentre inúmeros políticos, grandes personalidades e especialistas, a antropóloga Lilia Schwarz comentou sobre a tentativa de golpe: “O silêncio de Bolsonaro é muito eloquente. O silêncio do procurador geral da república, Augusto Aras, também é revelador. Ele que passou 4 anos passando pano por sobre os atos bárbaros de Jair Bolsonaro.”

O diretor de redação da Revista Piauí, André Petry, também disse em nota: “É fato que boa parte deles passou dois meses penando sob sol e chuva em defesa de um golpe na frente do quartel- general do Exército, em Brasília. Mas sempre foram tratados com aquele carinho desabrido pelos militares e pelas demais forças de segurança. Nunca se viu um aparato de segurança tão gentil, tão respeitoso. Os golpistas eram gente amiga, aliados do peito. Por isso, puderam se organizar com tranquilidade, escolher a data adequada para agir e transformar Brasília num vexame internacional.”

Conheça os indicados aos ministérios do novo governo Lula

Imagem: [Reprodução]

Foi concluído o anúncio dos nomes que irão compor os 37 ministérios do novo governo. Na última quinta-feira (29), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva também anunciou nomes como Simone Tebet e Marina Silva. Segundo o G1, o presidente eleito anunciou que o deputado José Guimarães (PT-CE) será líder do governo na Câmara, que o senador Jaques Wagner (PT-BA) será o líder do governo no Senado e o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) será líder do governo no Congresso.

Confira os nomes anunciados para cada ministério da gestão Lula:

Fazenda: Fernando Haddad (PT)

Imagem: [Reprodução UOL]

Haddad é professor de ciência política da Universidade de São Paulo (USP), é bacharel em direito, mestre em economia e doutor em filosofia, pela mesma instituição.
Foi Subsecretário de Finanças e Desenvolvimento Econômico da Prefeitura de São Paulo, integrou, ainda, o Ministério do Planejamento no Governo Lula, sendo nomeado como ministro da Educação em julho de 2005 até 2012.

Em 2012, foi eleito prefeito do município de São Paulo, além de ter sido candidato à presidência em 2018, perdendo para Jair Bolsonaro. Sua recente candidatura foi em 2022, para o governo de São Paulo, perdendo para Tarcísio de Freitas, no segundo turno.

Justiça: Flávio Dino (PSB)

Imagem: [Reprodução oGlobo]

Dino formou-se em Direito pela UFMA em 1991 e também possui mestrado na mesma área. Foi juiz, mas deixou o cargo assim que se candidatou para deputado federal no Maranhão (2007-2011). Foi diretor da Escola de Direito de Brasília do Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP) e presidente do Instituto Brasileiro de Turismo (Embratur), cargo que ocupou de junho de 2011 até março de 2014.

Em 2014, Flávio Dino se elegeu pela primeira vez para o governo do estado, e se reelegeu em 2018, no primeiro turno.

Defesa: José Múcio Monteiro (PTB)

Imagem: [Reprodução Twitter]

Formado em Engenharia Civil pela Universidade de Pernambuco (UPE), José Mucio Monteiro foi ministro e presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), além de ter experiência no cargo de ministro das Relações Internacionais. Natural de Recife, no Pernambuco, foi deputado federal por cinco mandatos, além de secretário de Transportes e Planejamento de Rio Formoso e na capital.

Relações Exteriores: Mauro Vieira

Imagem: [Reprodução O Antagonista]

Embaixador do Brasil na Croácia desde 2018, Vieira já ocupou o mesmo cargo entre 2015 e 2016 durante o governo Dilma Rousseff, mas foi exonerado após o impeachment da ex-presidente.
Além disso, ele já esteve à frente alguns dos principais postos no exterior, como a embaixada na Argentina, em Washington e a representação do Brasil nas Nações Unidas, em Nova York.
Diplomata de carreira, formado pelo Instituto Rio Branco, também estudou no Colégio Salesiano Santa Rosa, em Niterói, e é bacharel em direito pela Universidade Federal Fluminense.

Casa Civil: Rui Costa (PT)

Imagem: [Reprodução Partido dos Trabalhadores (PT)]

Rui Costa é natural de Salvador, na Bahia. Graduou-se em Economia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Foi diretor do Sindicato dos Químicos e Petroleiros da Bahia, entre os anos de 1984 e 2000, e diretor da Confederação Nacional dos Químicos, entre 1992 e 1998. Seu primeiro mandato político foi como vereador em 2004, se tornando deputado federal em 2006 e secretário de Relações Institucionais da Bahia em 2007. Além disso, Rui Costa foi governador da Bahia por dois mandatos.

Relações Institucionais: Alexandre Padilha (PT)

Imagem: [Reprodução O Antagonista]

Formado em Medicina pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), foi coordenador geral da Direção Executiva Nacional dos Estudantes de Medicina em 1990, coordenador do Diretório Central de Estudantes da Unicamp e membro do Diretório Estadual do Partido dos Trabalhadores (PT) de São Paulo entre 1991 e 1993.

Já foi diretor de Saúde Indígena da Fundação Nacional de Saúde (Funasa). No ano seguinte, foi conduzido para a Secretaria de Relações Institucionais (SRI) da Presidência da República, onde permaneceu até 2010. Nas eleições de 2014, foi candidato a governador do estado de São Paulo, tendo sido derrotado e chegando em terceiro lugar. Foi secretário municipal da saúde de São Paulo, em 2018, concorreu nas eleições ao cargo de deputado federal e foi eleito.

Secretaria-Geral: Márcio Macêdo (PT)

Imagem: [Reprodução Partido dos Trabalhadores (PT]

Márcio Costa Macêdo nasceu no município de Esplanada, na Bahia, Ingressou na Universidade Federal de Sergipe (UFS) em 1989, onde concluiu sua graduação em Ciências Biológicas e depois o mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente. Filiado ao Partido dos Trabalhadores (PT), ocupou o cargo de presidente dos Diretórios Municipal de Aracaju e Estadual de Sergipe do partido.

Foi ainda secretário municipal de Participação popular de Aracaju e superintendente do Ibama em Sergipe. Entre 2007 e 2010, foi secretário do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos do estado de Sergipe, na gestão do então governador Marcelo Déda. Foi eleito deputado federal em 2010 e assumiu o cargo de tesoureiro do PT em 2015.

Advocacia-Geral da União: Jorge Messias

Imagem: [Reprodução Veja]

Jorge Messias, atualmente procurador da Fazenda Nacional, também foi subchefe para Assuntos Jurídicos (SAJ) da Presidência, entre outras posições jurídicas. Foi subchefe para assuntos jurídicos da Casa Civil, de 2015 a 2016; secretario de regulação da educação superior no Ministério da Educação, entre 2012 e 2014; e consultor jurídico nos Ministérios da Educação e da Ciência e Tecnologia, em 2011 e 2012.

Saúde: Nísia Trindade

Imagem: [Arquivo Fiocruz]

Nísia Trindade Lima é a primeira mulher a chefiar o Ministério da Saúde. integrou o Grupo Técnico da Saúde no governo de transição. Graduada em Ciências Sociais e com doutorado em Sociologia, Nísia Trindade Lima tem sua obra intelectual como referência na área de pensamento social brasileiro, história das ciências e saúde pública. É pesquisadora da Fiocruz desde 1987 e ocupou os cargos de diretora da Casa de Oswaldo Cruz (1998-2005), unidade da Fiocruz, e vice-presidente de Ensino, Informação e Comunicação da Fiocruz (2011-2016).

Como presidente da Fundação, Nísia liderou as ações da Fiocruz no enfrentamento da pandemia, como a criação de um novo Centro Hospitalar no campus de Manguinhos; o aumento da capacidade nacional de produção de kits de diagnóstico e processamento de resultados de testagens; promoção de iniciativas junto a populações vulneráveis; criação do Observatório Covid-19 e da Rede Fiocruz de Vigilância Genômica; e inauguração do Biobanco Covid-19 (BC19-Fiocruz). Em sua gestão, a Fiocruz tornou-se referência para a Organização Mundial da Saúde (OMS) nas Américas para o diagnóstico de Covid-19.

No campo das vacinas contra a Covid-19, Nísia coordenou o acordo da Fiocruz de encomenda tecnológica. Com a conclusão da transferência de tecnologia da AstraZeneca, a Fiocruz tornou-se a primeira instituição do Brasil a produzir uma vacina contra a Covid-19 de forma 100% nacional. A Fundação já forneceu ao Ministério da Saúde mais de 200 milhões de doses de vacinas contra Covid-19 e foi selecionada pela Opas/OMS como centro regional de vacinas de mRNA, ainda em desenvolvimento.

Educação: Camilo Santana (PT)

Imagem: [Reprodução G1]

Camilo Santana Formou-se em Agronomia pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e como mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela mesma instituição. Durante a graduação, exerceu a função de diretor do Diretório Central dos Estudantes da UFC.

Foi candidato a prefeito de Barbalha em 2000 e 2004, mas não obteve sucesso em nenhuma das disputas. Foi professor e coordenador da FATEC Cariri e ocupou, como servidor público federal por concurso, a superintendência adjunta do IBAMA no Ceará em 2003 e 2004. Também foi Secretário do Desenvolvimento Agrário do Estado do Ceará no governo de Cid Gomes, de 2007 a 2010. Camilo também foi eleito governador do Ceará em 26 de outubro de 2014.

Gestão: Esther Duek

Imagem: [Arquivo UFRJ]

Duek é economista, professora da UFRJ e trabalhou no Ministério do Planejamento no governo Dilma. Por conta das poucas informações presentes sobre a carreira profissional e acadêmica dela, não pode-se reunir muitas descrições.

Portos e Aeroportos: Márcio França (PSB)

Imagem: [Arquivo Partido Socialista Brasileiro (PSB)]

Advogado, Márcio França foi vereador, duas vezes eleito prefeito de São Vicente (SP), deputado federal e vice-governador do Estado, na gestão de Geraldo Alckmin, em 2014.

Estudou direito na Universidade Católica de Santos e presidiu o diretório acadêmico da instituição. Trabalhou como oficial de justiça do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo entre 1983 e 1992. Em 1989, assumiu o cargo de vereador de São Vicente, cidade da qual foi eleito prefeito em 1996 e reeleito em 2000, com 93% dos votos válidos. Em 2006, elegeu-se deputado federal, reelegendo-se em 2010. Em 2011, foi nomeado secretário de Esporte, Lazer e Turismo do Estado de São Paulo, no governo de Geraldo Alckmin (PSDB).

Ciência e Tecnologia: Luciana Santos (PCdoB)

Imagem: [Reprodução Partido Comunista do Brasil (PCdoB)]

Luciana é vice-governadora de Pernambuco e presidente nacional do partido. Ela será a primeira mulher e a primeira pessoa negra a ocupar a posição de forma efetiva.
A engenheira foi eleita deputada federal por dois mandatos, e ocupou o cargo entre 2011 e 2019. Integrou comissões de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática, de Desenvolvimento Urbano e de Cultura. Na área da pasta que estará à frente, também foi secretária estadual em Pernambuco no governo de Eduardo Campos (PSB) de 2009 a 2010.

Em 2000, ela foi eleita prefeita de Olinda (PE), onde permaneceu por dois mandatos. Nas eleições de 2016, ela disputou novamente a prefeitura, mas terminou em quarto lugar.

Mulheres: Cida Gonçalves (PT)

Imagem: [Arquivo Partido dos Trabalhadores (PT)]

Moradora de Campo Grande, Aparecida Gonçalves já foi secretária nacional do enfrentamento à violência contra mulher nos governos de Lula e Dilma.

Cida trabalha como consultora em políticas públicas para o enfrentamento da violência doméstica e dá workshops a prefeituras e governos estaduais para atuação na área. Com atuação na militância dos diretos das mulheres, Cida coordenou o processo de articulação e fundação da Central dos Movimentos Populares no Brasil. Nos grupos de base, a militante sempre fez parte dos cargos de direção estadual em Mato Grosso do Sul.

Aparecida Gonçalves chegou a se candidatar pelo Partido dos Trabalhadores (PT) à deputada constituinte, em 1986, sendo a única mulher a disputar esse espaço. Nos anos de 1988 e 2000, também foi candidata pelo PT à vereadora no Mato Grosso do Sul.

Desenvolvimento Social: Wellington Dias (PT)

Imagem: [Reprodução Veja]

Wellington Dias é graduado em letras portuguesas da Universidade Federal do Piauí (1982) e especializado em políticas públicas e governo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Dias iniciou na militância política ainda jovem, atuando no movimento estudantil da universidade, envolvendo-se com as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e também no movimento sindical. Em 1985, filiou-se ao Partido dos Trabalhadores (PT) e participou como integrante da Central Única dos Trabalhadores, tornando-se presidente da APCEF (Associação de Pessoal da Caixa Econômica Federal) entre os anos de 1986 e 1989 e presidente do Sindicato dos Bancários do Estado do Piauí entre 1989 e 1992. Também entre os anos de 1987 e 1988, Dias presidiu o conselho deliberativo da Fenae Corretora de Seguros e, entre 1988 e 1989, foi secretário do conselho fiscal da instituição.

Foi eleito vereador de Teresina. Em 1994, optou por renunciar ao mandato municipal para concorrer a um cargo na Assembleia Legislativa do Piauí, conseguindo eleger-se deputado estadual e tornando-se o primeiro presidente da Comissão de Direitos Humanos no legislativo do estado. Na mesma época, também foi presidente regional do PT entre 1995 e 1997, e chegou a se candidatar ao cargo de vice-prefeito do município Teresina na chapa de Nazareno Fonteles, mas não conseguiu chegar ao segundo turno. Nas eleições estaduais de 1998, foi eleito deputado federal pelo PT sendo o primeiro parlamentar do estado eleito pelo partido. Também foi governador do estado por três mandatos.

Cultura: Margareth Menezes

Imagem: [Reprodução GNT]

Margareth nasceu em 1962, em Salvador (BA). Iniciou a carreira como artista em 1980, no teatro. Lançou o seu primeiro álbum em 1988 e atualmente soma 14 discos lançados. Já recebeu várias indicações ao Grammy e conquistou dois troféus Caymmi e quatro troféus Dodô e Osmar.
Em 2004, fundou a Associação Fábrica Cultural, destinada a combater o trabalho infantil, exploração sexual e violações de direitos. Um pouco depois, sem interromper a carreira artística, ela lançou o Movimento Afropop Brasileiro, um bloco sem cordas para festejo da cultura negra no Brasil.

Um movimento cultural que reúne exposições fotográficas e artísticas, manifestações, apresentações de bandas, grupos e cantores independentes, e tem a participação de jovens de organizações não-governamentais de Salvador. Além disso, o projeto une ritmos de raízes afro-brasileiras com a sonoridade mundial, como o rock, reggae, o funk, entre outros.

Através de um convênio de parceria firmado com a Secretaria Municipal da Educação e Cultura, da Prefeitura de Salvador, iniciou o “Programa Circulando Arte”, além de outros projetos no campo da arte, educação e cultura. A organização não governamental, atua desde 2008, na Ribeira – bairro onde Margareth Menezes nasceu – e outros bairros da Península de Itapagipe, oferecendo cursos profissionalizantes para jovens e oficinas de arte-educação para crianças. Em 14 de julho de 2010, a organização, que desenvolveu o projeto “Na Trilha da Cidadania”, formou 500 jovens, através de um cerimônia que contou com a presença de Menezes. O projeto formou alunos nas áreas de produção musical, comunicação, estamparia. criação em costura e designer gráfico.

A cantora participou do projeto “Lê Pra Mim?”, que ocorreu em 12 de outubro de 2010, no Centro Cultural Correios, do Pelourinho. A cantora leu um livro infantil para cinquenta crianças assistidas por instituições filantrópicas.
Margareth também dirige o Mercado Iaô, uma agência de produção cultural na Bahia, e é embaixadora da IOV-UNESCO, grupo que busca fomentar e preservar a produção cultural. Neste ano, foi eleita pela lista Most Influential People of African Descent como uma das pessoas negras mais influentes do mundo.

Trabalho: Luiz Marinho (PT)

Imagem: [Reprodução Globo]

Em 1984 foi eleito tesoureiro do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Nas gestões seguintes assumiu os cargos de secretário-geral e vice-presidente. Em 1996, foi eleito presidente do sindicato, cargo para o qual foi reeleito mais duas vezes (1999-2002 e 2002-2003).

Em 2002 foi candidato a vice-governador do Estado de São Paulo, na chapa encabeçada por José Genoino, do Partido dos Trabalhadores. Em março de 2018 foi confirmado como candidato do PT ao Governo do Estado de SP, mas foi derrotado derrotado, ficando em quarto lugar.

Em 7 de junho de 2003 foi eleito presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), quinta maior central sindical do mundo, durante o 8o Congresso Nacional da CUT, com 74% dos votos dos delegados presentes.

Em 12 de julho de 2005 assumiu o Ministério do Trabalho no lugar do seu companheiro de partido, Ricardo Berzoini, e comandou uma negociação histórica com representantes de todas as centrais sindicais para definir o valor do salário mínimo a partir de abril de 2006.

Em 29 de março de 2007 assumiu o Ministério da Previdência Social, e em 26 de outubro de 2008 foi eleito prefeito de São Bernardo do Campo para o mandato de 2009 a 2012.

Igualdade Racial: Anielle Franco

Imagem: [Arquivo pessoal]

Nascida na comunidade carioca da Maré, ela é graduada e mestra em inglês e jornalismo. Mestranda em Relações Étnico-Raciais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Ativista feminista e antirracista, ela cofundou o Instituto Marielle Franco após o homicídio da irmã, então vereadora no Rio de Janeiro, em 2018.
Hoje, ela é diretora do Instituto. Além de preservar a trajetória da irmã e atuar para que as investigações tenham um desfecho com responsabilizações, a organização desenvolve ações sociais com foco em mulheres negras e jovens periféricos.

Nessa linha, em 2020, o Instituto lançou a plataforma Plataforma Antirracista nas Eleições, para apoio a candidaturas negras nas eleições municipais; em 2021, deu início ao projeto Escola Marielles, para formação política de meninas e mulheres negras, periféricas e LGBTQIA+.

Direitos Humanos: Silvio Almeida

Imagem: [Reprodução Twitter]

Silvio Almeida é advogado e professor na FGV (Fundação Getúlio Vargas) e na Universidade Presbiteriana Mackenzie. É participante ativo do debate racial e das políticas em favor da diversidade no Brasil.

É o atual presidente do Instituto Luiz Gama, uma associação civil sem fins lucrativos composta por juristas, acadêmicos e militantes dos movimentos sociais com atuação “na defesa das causas populares, com ênfase nas questões sobre os negros, as minorias e os direitos humanos”.
É graduado em filosofia pela USP (Universidade de São Paulo) e pós-doutor em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela Faculdade de Direito da USP. Foi professor visitante da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, e é pesquisador da Universidade Duke (EUA). Almeida é autor da obra “Racismo Estrutural” e contribuiu para o livro “Marxismo e questão racial: Dossiê Margem Esquerda”, da editora Boitempo. Desde 2020, é colunista do jornal Folha de São Paulo.

Indústria e Comércio: Geraldo Alckmin (PSB)

Imagem: [Reprodução Instagram]

Lula voltará a ter seu vice na equipe ministerial. Ele chegou a convidar o empresário Josué Gomes, filho de José Alencar, para o cargo, porém ele declinou. A escolha final foi Alckmin, ex-governador de São Paulo, principal polo da economia brasileira e experiente administrador público.

Controladoria-Geral da União: Vinícius Marques de Carvalho

Imagem: [Reprodução JOTA]

Vinicius Marques de Carvalho é advogado há 25 anos, formado pela Universidade de São Paulo (USP), com doutorado em direito comercial também pela USP e em direito público comparado pela Universidade Paris I (Pantheon-Sorbonne).

Integrou o governo federal de 2005 a 2016. Neste período, foi chefe de gabinete do Secretário Especial de Direitos Humanos, de 2007 a 2008, conselheiro do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), de 2008 a 2011, secretário de Direito Econômico, de 2011 a 2012, e presidente do Cade, de 2012 a 2016.

Foi chefe de gabinete da Secretaria Especial dos Direitos Humanos do Governo Federal (2007 a 2008), participando da elaboração de políticas públicas associadas à agenda de direitos humanos e direitos de minoria. Sua experiência inclui ainda ter atuação como assessor legislativo no Senado Federal, na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) e na Secretaria de Habitação e Desenvolvimento Urbano da cidade de São Paulo. É professor de direito comercial da USP e foi professor visitante na Universidade Paris 1 Pantheón-Sorbonne e na Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP). Fundou seu escritório de advocacia especializado em defesa da Concorrência e também proteção de dados pessoais, o VMCA.

Planejamento: Simone Tebet (MDB)

Imagem: [Reprodução G1]

Tebet é advogada e professora. Nascida em Três Lagoas (MS), formou-se em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e obteve o título de mestrado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
Elegeu-se deputada estadual pelo seu estado em 2022 e, dois anos depois, tornou-se a primeira mulher eleita prefeita de Três Lagoas, cargo para o qual foi reconduzida no pleito seguinte. Foi eleita vice-governadora do Mato Grosso do Sul em 2011 e senadora em 2015.

No Legislativo federal, angariou reconhecimento nacional através de sua participação na CPI da Pandemia. Ela foi uma das responsáveis por fazer com que o deputado Luís Miranda (Republicanos-DF) citasse o nome do líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR), quando os senadores investigavam o escândalo da Covaxin.
Terceira colocada no pleito presidencial, Simone Tebet teve a preferência de 4.915.423 eleitores, o que correspondeu a 4,16% dos votos válidos. No segundo turno, decidiu apoiar Lula e se tornou um símbolo da frente ampla que congregou críticos ao PT para impedir a reeleição de Jair Bolsonaro.

Meio Ambiente: Marina Silva (Rede)

Imagem: [Reprodução Twitter]

Nascida em um seringal no Acre, Marina Silva foi alfabetizada na adolescência e se graduou-se em História na Universidade Federal do Acre. Ao lado do seringueiro, ambientalista e sindicalista Chico Mendes, liderou o movimento sindical no estado e filiou-se ao PT — após uma passagem pelo Partido Revolucionário Comunista. Em 1988, elegeu-se vereadora da capital Rio Branco; em 1990, a deputada estadual. Conquistou uma vaga no Senado em 1994 e foi reeleita em 2002, ano em que foi escolhida por Lula para o Ministério do Meio Ambiente.

Especialistas atribuem à sua gestão no Ministério do Meio Ambiente a queda expressiva do desmatamento na Amazônia, fruto do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCdam), lançado em 2004. Depois de deixar o governo e retornar ao Senado, Marina Silva se candidatou à Presidência da República pelo PV em 2010 e ficou em terceiro lugar, com 19% dos votos válidos.

Em 2014, Marina se lançou a vice-presidente na chapa do então governador de Pernambuco Eduardo Campos (PSB). Com a morte de Campos em um acidente aéreo naquele ano, ela se tornou a candidata do partido e chegou a liderar as intenções de voto. Em 2022, finalmente optou por lançar sua candidatura para deputada federal para ajudar a Rede a superar a cláusula de barreira. Foi eleita com 237.526 votos.

Esportes: Ana Moser

Imagem: [Reprodução Instituto Esporte&Educação]

Ana Moser integrou o time que levou a primeira medalha olímpica no vôlei feminino, em 1996, nos Jogos de Atlanta, nos Estados Unidos, quando o Brasil levou bronze. Cinco anos depois, ela fundou o Instituto Esporte e Educação, uma organizacão não-governamental que busca difundir o esporte e que já atendeu mais de 6 milhões de crianças no país. Ela dirige a ONG até hoje.

O Instituto Esporte & Educação usa a prática esportiva como ferramenta para ensino sobre diversidade, inclusão e coletividade, com o objetivo de formar crianças e adolescentes periféricos para terem autonomia. O projeto também treina profissionais de educação física a transmitir essas habilidades. O órgão nasceu do projeto Ana Moser Sports, que visava a formação de atletas baseado no ensino de vôlei em escolas públicas e privadas.

A ex-atleta de 54 anos é conhecida pela sua trajetória de engajamento fora das quadras, marcada pelo desenvolvimento de projetos educacionais. Desde então, Ana Moser, que não é filiada a nenhum partido político, teve o seu nome especulado para chefiar a pasta.

Integração e Desenvolvimento Regional: Waldez Góes (PDT)

Imagem: [Reprodução G1]

Antônio Waldez Góes da Silva nasceu no município Gurupá, no estado do Pará, em 1961. O governador é um técnico agrícola e formado em Políticas Públicas pela Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Góes se filiou ao PDT em 1989. Um ano depois se elegeu deputado estadual e foi reeleito quatro anos depois. Em 2002, se elegeu pela primeira vez ao governo do Amapá e foi reeleito em 2006. Ele deixou o cargo em 2010 para concorrer a uma vaga no Senado, mas perdeu a disputa para Gilvam Borges (MDB) e Randolfe Rodrigues (Rede). Em 2014, o político foi eleito pela terceira vez para o governo estadual e foi reeleito para um quarto mandato em 2018. Aliado do senador Davi Alcolumbre (União Brasil), o parlamentar articulou dentro do partido para que o governador fosse o indicado da sigla para o ministério. Ele deverá deixar o PDT em breve e migrar para o União Brasil.

Agricultura: Carlos Fávaro (PSD)

Imagem: [Reprodução Extra]

Carlos Henrique Baqueta Fávaro, 53 anos, nasceu em 19 de outubro de 1969 no município Bela Vista do Paraíso (PR). Atualmente o parlamentar cursa Tecnologia em Gestão Pública no Centro Universitário da Grande Dourados (UNIGRAN).
Em 2010, o agropecuarista tornou-se vice-presidente da Associação dos Produtores de Soja do Brasil (Aprosoja Brasil). No período de 2012 a 2014, foi presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado de Mato Grosso (Aprosoja-MT).

Ainda em 2014, Fávaro, então filiado ao Partido Progressista (PP) foi eleito vice-governador do estado do Mato Grosso (MT). Dois anos mais tarde, foi nomeado secretário de Estado de Meio Ambiente de Mato Grosso, cargo no qual permaneceu até 2017. Fávaro tomou posse como senador interino até a eleição suplementar do Senado convocada pelo Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso (TRE-MT) em 2020, na qual se elegeu. O mandato vai até 2027.

Povos Indígenas: Sônia Guajajara (PSOL)

Imagem: [Reprodução PSOL]

Sônia Guajajara nasceu na terra indígena de Araribóia, no estado do Maranhão, e faz parte do povo Guajajara/Tentehar. Por sua luta pelo reconhecimento dos direitos dos povos indígenas, em maio deste ano foi eleita pela revista Time como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo.

Filha de pais analfabetos, aos 15 anos de idade Sônia recebeu ajuda da Fundação Nacional do Índio (Funai) para poder cursar o ensino médio em Minas Gerais. A ativista é formada
em Letras e Enfermagem pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) e pós-graduada em Educação Especial. Guajajara ainda desempenha o papel de Coordenadora Executiva da APIB, finalizando o seu segundo mandato (2017/2022) e compõe o Conselho da Iniciativa Inter-religiosa pelas Florestas Tropicais do Brasil, iniciativa que integra um programa das Nações Unidas.

Em 2018, Guajajara foi a primeira indígena a compor uma chapa presidencial no Brasil. A ativista foi candidata à vice-presidente do país pelo PSOL, ao lado do agora também deputado federal eleito Guilherme Boulos. Nas eleições de outubro de 2022, a líder indígena teve mais de 150 mil votos válidos e foi eleita deputada federal por São Paulo. Em novembro, Guajajara esteve presente na COP-27 (Conferência do Clima da ONU), no Egito, ao lado de Marina Silva e Izabella Teixeira — representantes de organizações ambientalistas — e outras lideranças indígenas, e cobrou a criação do Ministério dos Povos Originários e maior participação dos indígenas no governo.

Secretaria de Comunicação Social: Paulo Pimenta (PT)

Imagem: [Reprodução Twitter]


Paulo Pimenta é jornalista de formação. Ele graduou-se pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), onde iniciou sua trajetória política. Lá, ele assumiu a presidência do DCE e foi vice-presidente da União Estadual de Estudantes.

Em 1988, foi eleito vereador em Santa Maria, tendo sido reconduzido em 1992. Chegou à Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul em 1998 e, quatro anos depois, à Câmara dos Deputados. Foi reeleito em 2006, 2010, 2014, 2018 e 2022, com o maior número de votos para um candidato do PT no estado desde 2010.

Previdência Social: Carlos Lupi, presidente do PDT

Imagem: [Arquivo PDT]

Natural de Campinas (SP), Lupi nasceu em 1957 e se mudou ainda jovem para o Rio de Janeiro, onde fundou primeiro grêmio estudantil de seu colégio e entrou para a militância política.
Filiou-se ao então Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) enquanto ainda era aluno do curso de administração da Faculdade de Formação Profissional Integrada. Após uma disputa política entre os herdeiros do trabalhismo brasileiro e do varguismo, o partido mudou de nome e segue com ele até hoje, PDT. Lupi foi um dos fundadores da Juventude Socialista da legenda.
Em 1990, elegeu-se deputado federal, cargo do qual se licenciou para assumir a chefia da Secretaria Municipal de Transportes do Rio de Janeiro. No partido, atuou como vice-líder na Câmara, secretário da Executiva Regional e tesoureiro da Executiva Nacional.
Carlos Roberto Lupi já foi ministro de Lula. Em seu segundo mandato presidencial, o político assumiu o Ministério do Trabalho e Emprego, cargo que exerceu até 2011, durante o mandato de Dilma Rousseff (PT).
Atualmente, é o vice-presidente da Internacional Socialista, fórum mundial de diálogo entre partidos de esquerda.

Pesca: André de Paula (PSD)

Imagem: [Arquivo Câmara dos Deputados]

André de Paula é deputado federal pelo estado de Pernambuco e está atualmente em seu sexto mandato. No partido, ele exerce a função de presidente regional pelo estado em que foi eleito, e é o 2° vice-presidente da Câmara dos Deputados. Além de sua carreira política, André possui formação em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco.

O deputado ingressou na vida política na juventude, enquanto ainda era estudante. Seu primeiro partido foi o Partido Democrático Social (PDS). No antigo Democratas (DEM), ele conquistou o seu primeiro cargo eletivo, como vereador. Em 1991, tornou-se deputado estadual. O advogado chegou à Câmara dos Deputados em 1999, quando elegeu-se pela primeira vez.
Em sua carreira, de Paula exerceu o cargo de secretário de Produção Rural e Reforma Agrária pelo estado, entre 1999 e 2002. Entre 2015 e 2016, o deputado licenciou-se do cargo para assumir a Secretaria das Cidades do estado de Pernambuco.
No Congresso Nacional, o deputado votou a favor do processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Durante o governo do ex-presidente Michel Temer (MDB), André votou a favor da Reforma Trabalhista, da PEC do Teto dos Gastos Públicos e também foi um dos parlamentares a votar a favor da abertura de investigação contra Temer.

Gabinete de Segurança Institucional: general da reserva Marco Edson Gonçalves Dias

Imagem: [Reprodução Instagram]

Marco Edson Gonçalves Dias é natural de Americana (SP).Ele entrou para o Exército em 1969, por meio da Escola Preparatória de Cadetes do Exército. Cursou a Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais em 1986 e a Escola de Comando e Estado Maior do Exército em 1994.

Chegou a ocupar o cargo de Comandante da Sexta Região Militar e a comandar o 19° Batalhão de Infantaria Motorizado. Foi alçado ao cargo de general e, atualmente, está na reserva (como os militares chamam a sua aposentadoria). Dentro do governo, já foi Secretário de Segurança da Presidência da República do governo Lula e chefe da Coordenadoria de Segurança Institucional da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).

Cidades: Jader Filho (MDB)

Imagem: [Reprodução Instagram]


Filho do senador Jader Barbalho e irmão do governador reeleito do Pará, Helder Barbalho, ambos do MDB, ele preside o diretório estadual da legenda desde setembro de 2021 e atua no setor de comunicações.

Jader Filho é de uma família com longa tradição no estado. Assim como o pai e o irmão, seu avô, Laércio Barbalho, foi uma figura de expressão. Ele foi deputado estadual em várias legislaturas e idealizou o projeto do Diário do Pará, que hoje Jader dirige. O jornal pertence ao Grupo Rede Brasil Amazônia (RBA), que também possui emissoras de rádio e televisão em seu guarda-chuva. O controle acionário do conglomerado está com a família Barbalho.

A indicação de Jader Filho é uma vitória do irmão e governador Helder Barbalho, um dos principais cabos eleitorais de Lula nas eleições deste ano, e da bancada de seu partido na Câmara federal.

Turismo: Daniela do Waguinho (União Brasil)

Imagem: [Arquivo pessoal]

A futura ministra é pedagoga, já foi professora do ensino fundamental e trabalhou na Secretaria Municipal de Educação do Rio. Possui pós-graduação em Psicomotricidade pela Universidade Cândido Mendes. Ela também passou pela Secretaria de Assistência Social e Cidadania, também do Rio, e na Secretaria Municipal de Assistência Social e Cidadania de Belford Roxo.

Como deputada, tomou posse pela primeira vez em 2019 pelo MDB e foi reeleita com a maior votação do Rio pelo União Brasil. Atualmente ingressa na Comissão de Educação, Comissão de Seguridade Social e Família e na Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher.

Minas e Energia: Alexandre Silveira (PSD)

Imagem: [Arquivo pessoal]

Alexandre Silveira de Oliveira nasceu em Belo Horizonte (MG) em 15 de julho de 1970 e é o segundo dos cinco filhos de Adilson de Oliveira e de Maria da Conceição Aparecida Silveira. Técnico em contabilidade e advogado, também exerceu as funções de delegado da Polícia Civil e comerciante. Começou sua carreira política em 2002 ao concorrer, pelo Partido Liberal (PL), a uma vaga na Câmara dos Deputados pelo estado de Minas Gerais. Naquele pleito acabou se elegendo apenas como suplente. Em 2003, Silveira foi convidado pelo então vice-presidente José Alencar a ocupar o cargo de coordenador-geral de Infraestrutura Terrestre do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT).

No ano seguinte foi nomeado por Lula a diretor-geral do DNIT, onde permaneceu até 2006. Chefiou obras como: o Anel Rodoviário de Ipatinga e projetos de modernização de trechos da BR, dentre eles o da BR-381 entre Belo Horizonte e Ipatinga e da BR-262 no acesso a São Domingos do Prata.

Em 2006, já filiado ao antigo Partido Popular Socialista (PPS), Alexandre Silveira se elegeu deputado federal por Minas Gerais e nas eleições de 2010 foi reeleito. Em 2011, Silveira e outros políticos fundaram o Partido Social Democrático (PSD). Ele foi presidente da sigla no estado mineiro de 2014 a 2015. Nas eleições de 2014, o parlamentar foi convidado a ser o primeiro suplente no Senado, do ex-governador Antonio Anastasia, que foi eleito como senador por Minas Gerais. Como Anastasia renunciou ao cargo de senador para tomar posse como ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), Silveira foi empossado no Senado em fevereiro de 2022. No pleito de outubro, o futuro ministro de Minas e Energia concorreu a um novo mandato ao Senado de Minas pelo PSD, com apoio à campanha do presidente eleito Lula, mas não foi conseguiu se eleger.

Transportes: Renan Filho (MDB)

Imagem: [Reprodução G1]

José Renan Vasconcelos Calheiros Filho, conhecido como Renan Filho, nasceu em Murici (AL) no dia 8 de outubro de 1979. Ele é o filho mais velho de Maria Verônica Rodrigues Calheiros e do senador Renan Calheiros, um dos principais políticos do MDB.

Renan Filho se formou em 2003, no curso de Ciências Econômicas, pela Universidade de Brasília (UnB). Em 2013 concluiu um curso de extensão em Políticas Públicas na Universidade de Harvard, em Cambridge, nos Estados Unidos.
Como governador de Alagoas, Renan Filho colocou o estado no topo do ranking das melhores rodovias públicas do país. De acordo com a Confederação Nacional dos Transportes (CNT) mais de 70% das rodovias alagoanas são consideradas boas ou ótimas. O fato foi levado em consideração para que Renan Filho fosse o escolhido para a pasta dos Transportes.

A sua trajetória política começou em 2004. Com 25 anos de idade ele foi eleito prefeito do município de Murici (AL), cargo para o qual foi reeleito em 2008. Em 2010, deixou a Prefeitura para disputar uma vaga na Câmara dos Deputados, pelo MDB, para a qual foi eleito.
Quatro anos depois, em 2014, lançou a sua campanha para governador de Alagoas, e foi eleito como o mais jovem governador do estado. Em 2018, foi reeleito. Na campanha de 2022, Renan Filho se lançou ao Senado pelo estado de Alagoas e também acabou se reelegendo.

Comunicações: Juscelino Filho (União Brasil)

Imagem: [Reprodução Poder360]

José Juscelino dos Santos Rezende Filho nasceu em 1984 no município de São Luís (MA). Formou-se médico pelo Centro Universitário do Maranhão (Uniceuma) e é vice-líder de seu partido na Câmara dos Deputados. Atualmente, está em seu segundo mandato e foi reeleito para o terceiro nas eleições de outubro. O parlamentar é filho de José Juscelino dos Santos Rezende, ex-prefeito de Vitorino Freire (MA).

Na Câmara dos Deputados, trabalhou pela aprovação da PEC da Transição, mas em 2016, votou a favor do processo de impeachment da então presidente Dilma Rousseff (PT). “Deus nos abençoe! Vamos aprovar o impeachment!,” disse em abril daquele ano.

Desenvolvimento Agrário: Paulo Teixeira (PT)

Imagem: [Reprodução Correio do Povo]

Teixeira nasceu em maio de 1961 em Águas da Prata, no interior de São Paulo, e mudou-se para a capital paulista na década de 1970. Ele cursou Direito na Universidade de São Paulo e obteve o título de mestre em Direito Constitucional pela mesma instituição.

Filiou-se ao Partido dos Trabalhadores ainda jovem, em 1980. Antes de se tornar parlamentar, presidiu o diretório zonal no bairro de São Miguel Paulista, na Zona Leste da capital, tornando-se depois subprefeito no governo de Luiza Erundina. Também foi monitor da Fundação do Bem-Estar do Menor (Febem) e chefe de gabinete do prefeito do município de Franco da Rocha (SP).

Elegeu-se deputado estadual por São Paulo na eleição de 1994 e foi reeleito no pleito seguinte. Depois, em 2001, foi nomeado secretário de Habitação e Desenvolvimento Urbano, cargo que exerceu até 2004, durante o mandato de Marta Suplicy na prefeitura da capital paulista. Naquele ano, foi eleito vereador do município de São Paulo.

Sentou pela primeira vez em uma cadeira da Câmara dos Deputados em 2007 e de lá não havia saído até hoje. Como deputado federal, foi um dos autores dos projetos que deram origem às leis como a do Vale-Gás e a de apoio a artistas e trabalhadores da cultura (Lei Aldir Blanc). Também compôs diversas comissões, entre as quais a de Comunicação e Informática.
Reeleito em outubro para cumprir seu quinto mandato consecutivo, Teixeira é reconhecido pelo bom trânsito na área jurídica.

FONTE: G1, Jota, Fiocruz, Poder360, CNN Brasil, VEJA, Valor, Extra.

Dor e medo do futuro: por que mulheres negras estão desistindo de ter filhos

“A gente vê hoje em dia as coisas que acontecem, tanto de abordagem como de morte, e eu sempre fico muito mal e acabo imaginando: se com o filho dos outros já me dói tanto, como seria se isso acontecesse com um filho meu?”, diz a designer de moda, Lorena Vitória, após ver os seus namorados, todos negros, serem abordados de forma violenta pela Polícia Militar. A entrevista foi dada para a Folha de S. Paulo.

O caso de Lorena não é isolado. Cada vez mais, as escolhas e necessidades das mulheres negras têm sido pautadas pela violência racial e, na maioria das vezes, abrem mão de um sonho por falta de opção e assistência do Estado. De acordo com o Atlas da Violência 2021, realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), desde a década de 80 o aumento de homicídios foi mais acentuado entre a população negra, especialmente os mais jovens.

O medo de ser mãe se torna ainda maior se o filho for homem. Um levantamento realizado pelo FBSP com microdados do Anuário de Segurança Pública mostra que os negros são 78,7% do total de mortes violentas intencionais entre homens. Isso significa que um homem negro tem 3,7 vezes mais chance de morrer do que um não negro.

O estudo “A cor da dor: iniquidades raciais na atenção pré-natal e ao parto no Brasil”, publicada nos Cadernos de Saúde Pública em 2017, mostra que as mulheres pretas são mais propensas do que as brancas a terem um pré-natal inadequado, ausência de acompanhantes no parto e menos anestesia local quando praticada a episiotomia, que consiste num corte na região da vagina para facilitar a saída do bebê.

“Imagine a dor de uma mãe que precisa dar como conselhos de sobrevivência ao filho que tanto ama, frases como: ‘não corra pela rua, não faça gestos bruscos, não ande de boné, corte esse cabelo’, entre outros comportamentos que seriam normais para qualquer cidadão, mas que para negros se tornam motivos da desconfiança da sociedade, gerando violência e até a morte”, diz o colunista do UOL, André Santana, em matéria assinada por ele.

Mesmo com todos esses cuidados, a educadora e ativista norte-americana Mamie Till, enfrentou a dor de perder o seu único filho, Emmett Till, em um crime bárbaro nos anos 50, durante as férias na casa do tio e primos, em Mississipi. O garoto negro de 14 anos, sofreu acusações de que havia assobiado para uma mulher branca, chamada Carolyn Bryant. Emmett foi sequestrado e assassinado brutalmente pelo marido e cunhado da mulher. A dor de ver o corpo de seu filho irreconhecível, despertou a vontade de Mamie em deixar que todos observassem o que dois homens brancos fizeram com ele. O velório de Emmett teve o caixão aberto e despertou a visita de mais de 10 mil pessoas.

Apesar dos cuidados constantes das famílias negras, novos sentidos de urgência surgem com o maior conhecimento sobre a perigosa engrenagem que move e sedimenta o racismo estrutural. […] A maternidade ainda é concebida pela sociedade como ferramenta válida para o acirramento da opressão

e da violência contra mulheres, a partir da constatação sobre a existência do que Biroli (2014) chama de “treinamento social para o cuidado com os outros”, sejam estes os mais velhos ou os filhos. (Barbosa, 2017, p. 116).

Souza e Gallo (2002), a partir da obra de Foucault, também afirmam que […] o racismo é o mecanismo pelo qual o Estado justifica seu direito de matar, numa sociedade biopolítica, fundada na afirmação da vida. E o que é mais interessante: o direito de matar é justificado como uma afirmação da própria vida, uma vez que a eliminação do diferente, do menos dotado, do menos capaz, implica a purificação da raça, o melhoramento da população como um todo. A cada um que morre, o conjunto resultante é melhor que o anterior.

O racismo é motor de sofrimento psíquico, afirma Marizete Gouveia, doutora em psicologia pela Universidade de Brasília e autora da tese “Onde se esconde o racismo na psicologia clínica?”. Segundo a especialista, o sofrimento causado pelo preconceito racial faz com que mulheres negras criem mecanismos de proteção à saúde mental. Não ter filhos é um deles, uma vez que não precisariam se preocupar com as violências que viriam a sofrer. Pode ser uma medida de autoproteção, no sentido de não ter que se preocupar com a criança, mas vai além disso. É também não trazer uma criança para esse mundo violento. Eu vou me poupar de não ter essa preocupação, mas também é um alívio não vivenciar essa criança sendo exposta a esse mundo.”

De acordo com a pesquisa “Justiça dos Homens” à “Justiça Divina”: Experiências públicas de familiares vítimas em Campos de Goytacazes coordenada por Jussara Freire, as mães entrevistadas tinham medo de algo de ruim acontecer com seus filhos e esse sentimento era recorrente, pois elas acreditavam “que a maldade dos ‘outros’ havia crescido nos últimos anos”. Apesar de não explicitarem inicial e nitidamente o motivo de seus medos, ao longo da entrevista, explicavam que era justamente pelo fato de temerem o que poderia acontecer com seus filhos negros. Estar fora de casa, para elas, é visto como uma exposição ao risco de ser vítima de violência e, portanto, de perigo. Neste sentido, as mães desdobravam uma série de cuidados constantes para a segurança e preservação da vida dos filhos.

A maternidade no contexto das mulheres negras, é um elemento que se relaciona à resistência, quando associada com a luta do gestar e do maternar desejado e/ou autorizado. Ela assim, configura-se como um elemento do (re) existir, significada como uma reivindicação histórica. Neste contexto, ressalta-se também que o racismo e sexismo atuam historicamente na perpetuação de uma representação da negra que serve e cuida dos outros, isto é, vistas como corpos sem mentes. Para ela, “(…) os corpos femininos negros são postos numa categoria, em termos culturais, tida como bastante distante da vida mental” (hooks, 1995, p. 469).

E esses aspectos também abrangem os filhos, como a demarcação da infância construída historicamente, que são as concepções de “criminalização”, “delinquência”, “problema social”, sendo que essa definição se refere, em especial, às crianças pobres e negras. Esta visão surgiu no Brasil, tendo como referência o modelo francês, fazendo com que as crianças fossem recolhidas da sociedade, mascarando assim a Questão Social e a existência da pobreza (BENEVIDES, et al, 2014).

Um exemplo disso, foram os casos no Parque da Vila Sésamo, onde o personagem abraça crianças brancas e não as negras; e de Titi e Bless, filhos de Gio Ewbank e Bruno Gagliasso, que junto com crianças angolanas em um hotel, foram xingados de “pretos imundos”.

Vale-se questionar além dos fatores exemplificados que, o Estado vem colaborando para um plano de eliminação do povo negro, desde a violência policial à evolução biológica. Enquanto políticas cabíveis não forem executadas, mais mulheres terão medo da próxima geração, abrirão mão de seus sonhos, perderão seus filhos para cruel mortandade que assola as periferias e serão estatísticas num extermínio cuidadosamente planejado. O higienismo e branqueamento racial não são parte do passado, eles estão sendo executados aqui e agora.

REFERÊNCIAS

“MATERNIDADE NEGRA E A VALORAÇÃO DA VIDA DE JOVENS NEGROS

FRENTE AO HORIZONTE DE VIOLÊNCIA” por Carolina Nascimento de Melo; NA ENCRUZILHADA DA MATERNIDADE NEGRA por Jade Alcântara Lôbo e Izabela Fernandes de Souza; RACISMO E A IDENTIDADE DAS CRIANÇAS NEGRAS: UM LEVANTAMENTO BIBLIOGRÁFICO SOBRE AS RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS EM CONTEXTO ESCOLARES por Cássio Manuel Baêta Mendes e Gisely Pereira Botega; CUIDADO, MATERNIDADE E RACISMO: REFLEXÕES ENTRE PSICOLOGIA E ASSISTÊNCIA SOCIAL por Thais Gomes de Oliveira, Bruna Moraes Battistelli e Lílian Rodrigues da Cruz.

Hitlerismo esotérico: entenda o que é o movimento seguido peloautor de atentado contra Cristina Kirchner


Na última semana, o mundo assistiu as imagens do atentado contra a vice-presidente argentina, Cristina Kirchner. As cenas mostravam um homem se aproximando da vice com uma arma apontada diretamente para seu rosto. Ele tentou atirar duas vezes, mas a arma falhou. Ao fugir, foi pego por apoiadores de Cristina que estavam em frente à sua casa protestando contra o pedido de prisão feito pelo Ministério Público argentino, acusando-a de desviar dinheiro público. A namorada do atirador também foi presa, por suspeita de envolvimento no atentado.


A imprensa argentina não demorou para divulgar o nome do responsável pelo atentado: Fernando André Sabag Montiel, de 35 anos. Cidadão brasileiro, filho de pai chileno e mãe argentina, Fernando mora na Argentina desde 1993. Na primeira imagem do atirador divulgada pela imprensa, um detalhe chamou a atenção: uma tatuagem no cotovelo de um sol negro, símbolo nazista conhecido mundialmente por ter sido usado pelo Batalhão Azov, agrupamento neonazista da Ucrânia. Grupos neonazistas de caráter contracultura como o Misatropic Division já utilizavam o símbolo há anos em diversos países europeus.


Segundo a Revista Fórum, a jornalista Letícia Oliveira, que pesquisa justamente o crescimento de grupos de extrema direita no Brasil, encontrou os perfis de Sabag Montiel nas redes sociais. No Facebook e Instagram as contas não mostraram qualquer interesse na política brasileira, mas as suas fotos e curtidas revelaram que ele se alinha ideologicamente com o que pesquisadores da extrema-direita conhecem como “hitlerismo esotérico”. Tatuagens, símbolos e referências que ligam o autor do atentado frustrado a grupos neonazistas ativos no país vizinho, foram encontrados nas redes sociais pela jornalista.

Tudo indica que Fernando está ligado a uma linha do hitlerismo esotérico criada pelo esotérico e escritor argentino Luis Felipe Cires Moyano Roca.

Letícia explicou que esse tipo de hitlerismo ocultista não está atrelado ao nazismo histórico (que envolve a ascensão e a duração regime nazista e fascista), mas que foi resgatado por neonazistas do pós-guerra uma vez que, ao mesmo tempo que funciona como resgate de um suposto “passado idílico”, também se apropria e dialoga com interesses típicos da cultura Pop com o intuito de se propagar entre fãs. Basta olhar para o quanto esses temas vêm sendo explorados nos últimos anos, sobretudo em séries de grandes plataformas ou em pequenos canais do Youtube: fantasmas, alienígenas e portais interdimensionais.


É comum o uso da simbologia por grupos neonazistas que se aproximam de visões místicas e esotéricas inspiradas na mitologia hindu – sobretudo nas histórias que tratam das origens da suposta “raça ariana”. Há uma aproximação com o famoso Tradicionalismo de Julius Evola que serviu de base filosófica para o nazifascismo no século XX e hoje alenta pensadores como o russo Aleksander Dugin e o ex-trumpista Steve Bannon, além, é claro, de apresentar semelhanças e aproximações com o falecido brasileiro Olavo de Carvalho.


Nazismo crescente


Na América Latina, criaram-se condições políticas favoráveis para o surgimento de movimentos fascistas no período compreendido entre as duas Guerras Mundiais na maioria dos países. Conforme Hélgio Trindade, a principal questão não diz respeito à existência da presença fascista na América Latina, mas sim à extensão de suas manifestações. Em outras palavras, o problema seria distinguir as imitações, dos movimentos autênticos.

Resultado de uma longa história de atuação da extrema-direita, a Argentina é atualmente o país latino-americano com a maior quantidade de sites neofascistas na internet. Com o crescimento desses grupos nos países vizinhos, o Brasil não fica para trás. Um mapa elaborado pela antropóloga Adriana Dias apontou que as células de grupos neonazistas cresceram 270,6% no Brasil entre janeiro de 2019 e maio de 2021, e se espalharam por todas as
regiões do país, impulsionadas pelos discursos de ódio e extremistas contra as minorias representativas, amparados pela falta de punição.


A pesquisadora afirma que, no ano de 2022 existem 530 núcleos extremistas no país, que reúnem até 10
mil pessoas. Para especialistas e estudiosos que se dedicam a investigar o discurso de ódio no Brasil, a falta de leis claras contra práticas abomináveis, como a apologia ao nazismo e outras intolerâncias, é o principal obstáculo para que estes crimes deixem de acontecer no país.


Queima de arquivo


O celular do autor de atentado contra a vice-presidente da Argentina, Cristina Kirchner, pode se tornar uma prova inútil. Segundo o jornal Clarín, ao desbloquear o aparelho, especialistas encontraram a mensagem
“redefinição de fábrica” – o que indica que o telefone voltou a ter as configurações originais e perdeu os dados armazenados. Com isso, a Justiça da Argentina está analisando se o aparelho pode ser enviado aos Estados Unidos para ser submetido a uma tecnologia superior e, assim, recuperar as informações.


Segundo o jornal, a Polícia Federal argentina tentou desbloquear o celular com um software, mas
não conseguiu. Então, encaminharam o telefone para a PSA (Polícia de Segurança
Aeroportuária). Até ser entregue, o aparelho da marca Samsung, teria ficado em um cofre, em
modo avião. Na PSA, o telefone foi conectado mais uma vez a um computador, mas com um
sistema mais moderno do que os usados até então. Foi quando apareceu a mensagem de
“redefinição de fábrica”.


Fontes consultadas pelo portal argentino Infobae disseram que o telefone foi recebido pela PSA
“dentro de um envelope aberto” e o aparelho não estava mais em modo avião.


O suspeito tem antecedentes


Em março de 2021, Fernando Andrés Sabag Montiel, de 35 anos, foi processado por contravenção. Ele foi preso por portar uma faca de 35 centímetros. Na ocasião, ele teria sido abordado pela polícia da cidade de La Paternal, na região metropolitana de Buenos Aires, por dirigir um carro sem placa.


O suspeito disse ser o dono do veículo e afirmou ter perdido a placa em uma batida de trânsito dias antes. Durante a revista, os policiais pediram que Sabag Montiel abrisse a porta do passageiro. Ao cumprir a determinação, a arma branca caiu. O brasileiro afirmou que o objeto era para sua defesa pessoal. A infração foi registrada e ele foi liberado.

O suspeito trabalha como motorista de aplicativo e tem um Chevrolet Prisma registrado em seu nome (o mesmo modelo que consta no processo). O brasileiro vive na Argentina desde 1993.

As informações são do Clarín, citando como fonte o ministro da Segurança, Aníbal Fernández.


FONTE: Ponte Jornalismo, Revista Fórum, UOL, G1, Poder360.


REFERÊNCIAS: A Serpente na rede: extrema-direita, neofascismo e internet na Argentina por
Fábio Chang de Almeida.

Glamourização da Violência no Jornalismo

Nesta semana, Olena Zelenska, esposa do presidente da Ucrânica, recebeu uma enxurrada de críticas após fazer um ensaio para a Vogue, ao lado do marido, em um cenário de guerra. Na publicação da revista intitulada “Retrato de bravura: a primeira-dama da Ucrânia, Olena Zelenska”, o principal líder da Ucrânia posa com sua esposa em diferentes locais, incluindo as ruínas do aeroporto de Kiev e a residência oficial dos principais governantes do país. A fotógrafa do editorial foi a Annie Leibovitz, ex-esposa de Susan Sontag – que é autora do livro “Diante da dor dos outros”, que discute a reprodução de imagens de dor e guerra na mídia. O texto da publicação, de Rachel Donadio, revela detalhes sobre a invasão da Rússia à Ucrânia, destaca a atuação das mulheres na guerra, a vida em tempo de guerra, seu casamento e história compartilhada e sonhos para o futuro do país.

O jornal Firstpost fez questão de discutir sobre o assunto: “A Ucrânia, comandada por um ex-comediante, infelizmente se tornou o alvo de uma sessão fotográfica bastante cruel e auto-estima que pertence à imaginação de um adolescente ou a um filme escrito por Tom Cruise. Zelensky já ganhou aplausos por sua bravura, por seu dom de falar e praticamente cair em eventos de elite como Cannes com a provável esperança de ganhar uma cinebiografia dele. Mas, ei, isso é guerra, morte, destruição e colapso econômico global que pode levar o mundo a um passado do qual trabalhou duro para superar. […] A banalização pode ser sua aliada quando você está na defensiva, mas o uso da mídia como uma vela reluzente de jantar no meio da guerra é, como diriam na moda, estupidez sob medida.”

Não é a primeira vez que a revista se apropria de um cenário caótico para um editorial. Anos atrás, durante a guerra na Síria, uma reportagem de Asma Assad, primeira-dama da Síria, foi divulgada – num momento em que os crimes de Bashar al-Assad estavam vindo à tona. Apesar das críticas, a publicação não foi apagada.

Segundo Sepulveda (2016), a história da imprensa sensacionalista tem dois momentos marcantes. De acordo com o jornalista Danilo Angrimani, em seu livro “Espreme que sai sangue” (1995), um deles ocorreu na França, entre 1560 e 1631, com o surgimento dos primeiros jornais impressos franceses, o Nouvelles Ordinaires e o Gazette de France. Os dois periódicos exploravam em suas páginas notícias trágicas e principalmente histórias sobre crimes ou pessoas defeituosas. Antes disso, era possível encontrar brochuras de aproximadamente 16 páginas, chamadas de “occasionnel”, em que já se relatavam notícias desse tipo.

Com a popularização da imprensa, aliada à criação da máquina ao vapor que permitiu um aumento na tiragem, foram criados jornais populares, destinados a atrair as massas. Um desses jornais era chamado de “canards”, que em francês significa pato, mas também pode ser usada para designar algo falso. Logo a fotografia foi utilizada como registro, para ser armazenada e consultada por profissionais de diversas áreas, e por volta de 1990, o sensacionalismo se aproveitou da tecnologia para fazer a transição entre os diferentes tipos de veículos de comunicação. Segundo Linfield, a fotografia, – tanto quanto a mídia em si (acrescento), tem ‘contribuído muito para o espetáculo, para a excitação retinal, para o voyeurismo, para o terror, inveja e nostalgia, e só um pouco para o entendimento crítico do mundo social.’ […].

O meio de comunicação sensacionalista se assemelha a um neurótico obsessivo, um ego que deseja dar vazão a múltiplas ações transgressoras […] É nesse pêndulo (transgressão-punição) que o sensacionalismo se apoia (ANGRIMANI, 1995, p. 17).Já Arbex Jr. (2001, p.103) escreve que, a mídia cria diariamente a sua própria narrativa e a apresenta aos telespectadores – ou aos leitores – como se essa narrativa fosse a própria história do mundo. Os fatos, transformados em notícia, são descritos como eventos autônomos, completos de si mesmos. Os telespectadores, embalados pelo ‘espaço hipnótico’ diante da tela da televisão, acreditam que aquilo que veem é o mundo em estado ‘natural’, é ‘o’ próprio mundo.

A primeira-dama reagiu às críticas após o ocorrido. “Milhões leem a Vogue e falar diretamente para eles era o meu dever. E essa foi uma experiência interessante […] As primeiras-damas não têm oportunidades de influenciar politicamente, mas nós temos uma influência emocional. Nós entendemo-nos e sentimos o mesmo”, disse em declarações à ‘BBC’.

Para o jornalista Gabriel Fusari, o jornalismo – tanto de moda ou em geral, tem atuado como conteúdo publicitário fantasiado de jornalismo. “Quando não, ele descarta seu papel noticioso e de relevância pública para fortalecer as estruturas do capital, mesmo que sendo hipócrita ao trazer um dito conteúdo político, que na verdade é só uma ferramenta na manutenção de greenwashing ou de uma falta inclusão social. […] Será que esse editorial faz sentido num conflito como esse? Será que essa tentativa de glamourizar a figura da Ucrânia faz bem?”, ele questiona.

Brasil: um país que não respeita as mulheres

Uma menina de 11 anos foi estuprada no início deste ano e, para evitar que fizesse um aborto autorizado, foi mantida pela Justiça em um abrigo de Santa Catarina. Ela só descobriu a gravidez com 22 semanas, quando foi encaminhada para o Hospital Universitário de Florianópolis e onde teve o procedimento para interromper a gestação negado. A suspeita é a de que a violência sexual contra menina tenha ocorrido na casa dela. As informações foram divulgadas pelo site do G1.

O Código Penal permite o aborto em caso de violência sexual, sem impor qualquer limitação de semanas da gravidez e sem exigir autorização judicial. A equipe médica, no entanto, se recusou a realizar o abortamento, permitido pelas normas do hospital só até a semana 20. Por conta disso, o caso chegou nas mãos da juíza Joana Ribeiro Zimmer e da promotora Mirela Dutra Alberton.

Mesmo com o laudo psicológico da garota comprovando que a mesma não queria manter a gravidez, a juíza e promotora tentaram convencê-la a continuar com a gestação. Joana teria perguntado a menina se ela “suportaria mais um pouquinho”. A jurista, Deborah Duprat, afirma que o código penal permite o aborto em qualquer época, ainda mais em uma criança que, além de sofrer o impacto psicológico do abuso, não possui a integridade física preparada para uma gravidez.

A psicóloga, Thais Micheli Setti, funcionária da prefeitura de Tijucas, que fez o acompanhamento da vítima, registrou no laudo de maio que ela “Apresentou e expressou medo e cansaço por conta da quantidade de consultas médicas e questionamentos, além do expresso desejo de voltar para casa com a mãe. Relatou estar se sentindo muito triste por estar longe de casa e que não consegue entender o porquê de não poder voltar para o seu lar”.

Na terça-feira (21) da semana passada, a Justiça de Santa Catarina determinou que a menina fosse liberada do abrigo que estava sendo mantida sob medida protetiva e voltasse à casa da mãe.  No dia seguinte (22) ela conseguiu interromper a gravidez, segundo Ministério Público Federal (MPF).

Diálogo impactante travado entre juíza e a vítima menor de idade:

– Qual é a expectativa que você tem em relação ao bebê? Você quer ver ele nascer? – pergunta a juíza.

– Não – responde a criança.

– Você gosta de estudar?

– Gosto.

– Você acha que a tua condição atrapalha o teu estudo?

– Sim.

Faltavam alguns dias para o aniversário de 11 anos da vítima. A juíza, então, pergunta:

– Você tem algum pedido especial de aniversário? Se tiver, é só pedir. Quer escolher o nome do bebê?

– Não – é a resposta, mais uma vez.

Após alguns segundos, a juíza continua:

– Você acha que o pai do bebê concordaria pra entrega para adoção? – pergunta, se referindo ao estuprador.

– Não sei – diz a menina, em voz baixa.

A audiência com a mãe da vítima seguiu no mesmo tom.

– Hoje, há tecnologia para salvar o bebê. E a gente tem 30 mil casais que querem o bebê, que aceitam o bebê. Essa tristeza de hoje para a senhora e para a sua filha é a felicidade de um casal – afirma Ribeiro.

Ela responde, aos prantos:

– É uma felicidade, porque não estão passando o que eu estou.

Após ser questionada pela juíza sobre qual seria a melhor solução, a mãe segue:

– Independente do que a senhora vai decidir, eu só queria fazer um último pedido. Deixa a minha filha dentro de casa comigo. Se ela tiver que passar um, dois meses, três meses [grávida], não sei quanto tempo com a criança… Mas deixa eu cuidar dela? –  suplicou. – Ela não tem noção do que ela está passando, vocês fazem esse monte de pergunta, mas ela nem sabe o que responder!

Juíza é promovida e segue em silêncio em relação à sua conduta

Desde 2016, o Comitê Latino Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher, denuncia que a gravidez infantil forçada é um tratamento cruel e degradante, equivalente à tortura. Apesar da repercussão negativa, a juíza se retirou do caso alegando ter sido promovida, por um convite feito bem antes do caso. A conduta de Joana tem sido investigada desde semana passada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Já o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) instaurou um procedimento para apurar a conduta da promotora, Mirela Dutra.

Sem aborto, sem adoção — o problema é o corpo feminino

Ainda nesta semana, outro caso chamou a atenção da mídia. Segundo o G1, tudo começou com um post do jornalista Matheus Baldi, no dia 24 de maio, dizendo que a atriz Klara Castanho teria dado à luz a uma criança. A pedido da mesma, esse post foi apagado, mas a notícia se espalhou.

Na última quinta-feira (23), a apresentadora Antônia Fontenelle incitou ainda mais os comentários contra Klara na internet. E, para completar, o jornalista Léo Dias gerou repercussão sobre o assunto no programa The Noite e, ainda, publicou um texto do caso na sua coluna do Metrópolis, fazendo o caso viralizar ainda mais.  

Foi então que Klara decidiu se pronunciar e, por meio de uma carta aberta ao público, revelou que foi estuprada, engravidou e entregou legalmente o bebê para adoção.

“Fui violentada não só pelo homem que me estuprou, mas também pelo julgamento das pessoas”, escreveu a atriz de 21 anos. “Esse é o relato mais difícil da minha vida. Pensei que levaria essa dor e esse peso somente comigo.”

Além da invasão de privacidade, Klara contou que foi abordada e ameaçada por uma enfermeira na sala de cirurgia com as seguintes palavras: “Imagine se tal colunista descobre essa história”. Quando voltou para seu quarto do hospital, já havia mensagens no seu celular do colunista com todas as informações.

Antônia Fontenelle, candidata a vereadora e o jornalista Léo Dias, publicaram vídeos pedindo desculpas diante toda a repercussão negativa. O Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo e o Conselho Federal de Enfermagem estão apurando a denúncia, e a enfermeira já foi demitida. O Hospital Brasil se solidarizou.

A atriz também vem sendo criticada nas redes por levar a criança para a adoção. Várias mulheres se solidarizaram, inclusive a jornalista de moda Lele Santhana que disparou: “Ninguém se preocupa com as vítimas dos crimes, pouco se importa se irão decidir pelo aborto ou pela adoção. Elas serão condenadas de todo o jeito. Nunca foi sobre ser pró-vida. Sempre foi sobre o controle total dos corpos femininos”.

86% dos profissionais transexuais sofreram discriminação no trabalho, diz pesquisa

Nesta terça-feira (28), foi celebrado o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+. Para dar ainda mais sentido a data, diversos estudos sobre esse público e eventos especiais foram realizados no mês de junho. Um levantamento inédito chamado “LGBTI+ no Mercado de Trabalho Brasileiro 2022” foi realizado pela Santo Caos com o objetivo de divulgar dados recentes e relevantes sobre esse tema, que ainda é pouco discutido.  

Um dos resultados mais alarmantes mostra que 65% dos profissionais LGBTQIA+ já sofreram discriminação no ambiente de trabalho e 28% deles já foram assediados. O índice de casos de discriminação é ainda maior quando analisadas apenas as pessoas trans e bissexuais: 86% e 72%, respectivamente.

Importante ressaltar que, de acordo com a classificação do estudo, a discriminação compõe todo o tipo de atividade preconceituosa, mesmo que feita de maneira velada, como piadas, ironias, comentários e insinuações jocosas. Já o assédio é o ato de ofender direta e explicitamente alguém por conta de sua característica.

O conteúdo completo se encontra no site da Santo Caos, uma instituição brasileira de consultoria em Diversidade & Inclusão. Para a pesquisa, a organização coletou informações de quase 20 mil trabalhadores de todas as faixas etárias, entre novembro de 2020 e abril de 2022.

LGBTQIA+ no mercado de trabalho

Somente 48% do público LGBTQIA+ se sente confortável para falar sua identidade de gênero ou orientação sexual para alguém no trabalho. As pessoas bissexuais são as que menos falam abertamente sobre sua orientação sexual (60%), seguida das trans (52%). Em conformidade, esses são os grupos com menores porcentagens na saúde emocional.

Já as que mais falam são as lésbicas (75%) e gays (69%).

Outro ponto de destaque é que apenas 8% dos líderes das empresas são pessoas

LGBTQIA+. O que talvez explique o índice é que este público costuma ficar aproximadamente 3 anos em uma companhia, já os não LGBTQIA+ permanecem nas empresas, em média, de 4 a 13 anos. Vale ressaltar que, de acordo com os dados da pesquisa, o público LGBTI+ têm renda média abaixo de quatro salários mínimos, frente a 36% das pessoas que não fazem parte desse grupo.

59% das pessoas LGBTQIA+ têm menos de 31 anos

Há uma maior concentração de pessoas com idade entre 25 a 38 anos. Em relação à população idosa, cerca de 3% das pessoas com 50 anos ou mais, são LGBTQIA+. Segundo um estudo da Carta Capital de 2019, esses indivíduos têm maiores chances de estarem morando sozinhos, de não terem filhos e de não apresentarem alguém para chamar em caso de uma emergência. Infelizmente, nem mesmo as instituições de longa permanência estão preparadas para receber a população idosa LGBTQIA+, pois são ambientes em que a violência e a intolerância contra essas pessoas são altas.

Ser quem você realmente é, ainda é um tabu

Entre as pessoas LGBTQIA+, 41% sentem que podem ser quem realmente são no ambiente de trabalho, entre os que não fazem parte desse público, o número sobe para 53%. Quanto maior o tempo de casa – no âmbito profissional, mais as pessoas LGBTQIA+ sentem que podem ser quem são (44% em menos de 6 meses e 64% a mais de 15 anos).

As minorias são maiorias

Há uma maioria de mulheres, pessoas negras, PCD e não brancos no grupo de LGBTQIA+. Das pessoas bissexuais, 71% são mulheres. Mais de 50% das pessoas trans/travestis, assexuais e outros são negras. Há uma baixa proporção de pessoas com deficiência e pessoas 50+ na amostra.

Pordeus e Viana (2021), enfatizam a necessidade de o indivíduo que sofre de discriminação e preconceito encontrar grupos com os quais se identifique, pois o apoio e o compartilhamento de experiências semelhantes são muito importantes entre os que dividem lutas específicas. Além disso, para que as minorias não se dispersem e se vejam vítimas do preconceito enraizado no seio social, elas precisam de proteção e força para superar os obstáculos e conscientizar a sociedade acerca de quão prejudiciais são os conceitos de distinção e segregação (que ocorrem quase de maneira automática nos contextos familiar e laboral).

No que diz respeito ao ambiente de trabalho, para que esse público se sinta mais acolhido e menos discriminado, é preciso promover uma cultura de diversidade, respeito e desconstrução. Algumas empresas já oferecem apoio psicológico, assistência jurídica para os que sofrem de LGBTfobia, folga remunerada para aqueles que estão fazendo transição de gênero, palestras para os funcionários da empresa sobre o tema e programas específicos de contratação. Mas é preciso que a maioria das companhias se mobilizem e façam essa transformação.

Urgência de ações

Segundo a pesquisa, mulheres lésbicas e homens gays são os grupos que mais acreditam ser importante priorizar o tema e, em conjunto com outros, são os mais interessados em participar. Em contrapartida, pessoas trans/travestis apresentam a menor porcentagem em ambas questões. O grupo acredita que o tema deve ser priorizado, mas não têm muito interesse em participar, isso porque eles não veem as ações como efetivas ou não se sentem representadas nelas.

Ainda assim, pessoas NÃO LGBTQIA+ se sentem menos preparados para lidar com diversidade e, ainda, não tem interesse em saber mais. As mesmas mostram-se pouco interessadas na temática de diversidade e inclusão, assim como, veem como menos prioritário, em comparação com pessoas LGBTQIA+.

“A leitura dos dados nos permite inferir que a rotatividade maior da população LGBTQ+ é consequência direta da discriminação e do assédio, que tornam o ambiente de trabalho mais tóxico para essas pessoas” comenta Jean Soldatelli, sócio-diretor da Santo Caos. “Essa informação trazida pelo estudo corrobora a urgência de ações que promovam diversidade e inclusão nas empresas, criando melhores condições para esse grupo manter suas atividades profissionais”, finaliza.

Não só nas empresas, mas em todos os ambientes existe a necessidade de pessoas NÃO LGBTQIA+ se interessarem sobre a diversidade e inclusão, pois somente dessa forma enxergaremos mudanças políticas, sociais e culturais em todo o movimento.

A cidade e mulheres: como a pólis também pode ser instrumento de opressão

Reprodução: CSA Images | Créditos: Getty Images

“Toda opressão cria um estado de guerra”, disse a ativista, escritora e filósofa feminista Simone de Beauvoir. Uma sociedade construída para a constatação da inferioridade feminina colabora para a opressão patriarcal ainda existente. Os homens foram responsáveis pelas narrativas da civilização Ocidental, da Bíblia e aos códigos de leis da maioria dos países — que também diz respeito sobre a política e a pólis.

Cidades não foram feitas para mulheres. A maioria dos problemas urbanos atinge-as, principalmente se forem negras, transsexuais e pobres. Segundo o levantamento do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, o Brasil é o 5º no ranking mundial de países onde mais matam mulheres. O índice de assédios e agressões sexuais também cresce em um índice exarcerbado, mas mesmo assim, deve haver um corte de 33% no orçamento de políticas públicas para mulheres, neste ano de 2022.

A limitação de serviços e infraestrutura próximos a moradia implicam em mais tempo de deslocamento, dificuldade de acesso ao mercado de trabalho e menos tempo livre. Cerca de mais de 10 milhões de mulheres ocupam o posto de chefes de família, e políticas e programas habitacionais como o ‘Minha Casa Minha Vida’ dão preferência da titularidade do imóvel à mulheres de baixa renda — critério que tem reconhecimento internacional como política de diminuição de desigualdade para mulheres. Porém, a grande maioria dos conjuntos habitacionais construídos pelo poder público estão localizados em regiões periféricas das cidades, e reproduzem ou acentuam a mesma lógica de urbanização excludente e segregadora dos bairros periféricos autoconstruídos.

Políticas públicas para a população feminina envolvem certos fatores como a segurança pública, desigualdade de gênero, saúde, mobilidade, estrutura, investimento em programas de apoio, acesso à vagas de emprego, políticas para mães, e se faz necessário a inclusão de leis a favor de uma cidade ainda mais feminina.

Em uma matéria para a semana da mulher da Casa Vogue em 2020, arquitetas e urbanistas abriram o debate apontando que a falta de iluminação no espaço público, a existência de muitas ruas com fachadas cegas (apenas muros e cercas, por onde muitas vezes a mulher precisa passar sozinha), e opções insuficientes de transporte público acabam afetando mais as moradoras das cidades, além de contribuirem para a insegurança. A insuficiência nas redes de transporte público e a falta de linhas que circulem dentro de um único bairro ou região atrapalha e em alguns casos até impossibilita que a mulher realize um trabalho remunerado. Falta de vagas em creches públicas e em hospitais também impactam mais as mulheres neste sentido, já que elas acabam acumulando a responsabilidade de cuidar de crianças, idosos e doentes dentro do núcleo familiar.

Em um ensaio clássico de 1980, intitulado “O que seria uma cidade não sexista?”, a urbanista americana Dolores Hayden defendeu cidades que “transcendam as definições tradicionais de casa, bairro, cidade e local de trabalho”.

Por isso, as instituições de gestão tem um enorme papel no processo de deliberação, normatização, fiscalização e execução de políticas relativas aos direitos da mulher. Enfatiza-se também, a necessidade de representação feminina nas principais esferas públicas.

Defender a representatividade de gênero na política brasileira vai além do processo eleitoral. É sobre apoiar mulheres que construam as cidades de acordo com as necessidades reais de suas vidas, no campo da habitação, mobilidade, segurança nos espaços públicos, divisão do trabalho, e tudo que envolve usar, ocupar e identificar-se com a cidade que vivemos (MEDINA, FERREIRA, LAGET, PILL; 2020).

O racismo cada vez mais violento e explícito no Brasil

Na última segunda-feira (24), o Brasil se deparou com mais uma situação de violência explícita. Moïse Mugenyi Kabagambe, um jovem congolês de 24 anos, foi brutalmente espancado até a morte após cobrar ao seu patrão o pagamento por duas diárias atrasadas. Moïse trabalhava em um quiosque na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, área fortemente dominada por narcomilícias.

O jovem Moïse Kabagambe, de 24 anos. | Imagem: [Instagram]

A vítima apanhou por 15 minutos por 5 homens que, segundo testemunhas, usaram pedaços de madeira e um taco de beisebol. O corpo foi encontrado em uma escada, próxima ao quiosque, amarrado e já sem vida. Segundo o laudo do IML, Moïse sofreu hemorragia e contusão pulmonar, traumatismo torácico, além de broncoaspiração no sangue. Os familiares só foram avisados da morte da vítima no dia seguinte. A DHC do Rio de Janeiro já investiga o crime.

Após assistir ao vídeo das câmeras de segurança, Yannick, primo de Moïse, afirmou que os agressores foram embora e apenas o gerente do quiosque (que também participou da tortura) permaneceu no local. “Ele [Moïse] ficou deitado no chão, como se nada estivesse acontecendo. Trabalhando, atendendo cliente. E o corpo lá”, completou. “Uma pessoa de outro país que veio ao seu país (Brasil) para ser acolhido. E vocês vão matá-lo porque ele pediu o salário dele? Porquê ele disse: ‘Estão me devendo’?”, questionou Chadrac Kembilu, outro primo de Moïse, em entrevista para o G1.

 A vítima deixou sua terra natal em direção ao Brasil em 2011, fugindo, com a família, da guerra e da fome. Apesar do país ser um receptor dos refugiados, com a obrigação de acolher e proteger vidas, o racismo e a xenofobia contra os imigrantes é constante.

Uma matéria da BBC Brasil afirma que, de acordo com o Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), os congoleses são o segundo maior grupo a ter a solicitação de refúgio acolhida pelo governo brasileiro depois da Síria, com 953 pedidos reconhecidos entre 2007 e 2017, o equivalente a 13% dos refúgios acatados no período.

A noção de que o Brasil é um país hospitaleiro, onde todos os estrangeiros e imigrantes são bem-vindos, não passa de um “mito”, diz o pesquisador Gustavo Barreto, para o Brasil de Fato, após analisar mais de 11 mil edições de jornais e revistas entre 1808 e 2015.

Em entrevista à jornalistas em Madri, no ano de 2018, Angela Davis já previa o esperado: O racismo estava voltando a ser violento e explícito. Na época, o Brasil e os EUA estavam interligados pelo regime nacionalista supremacista — que continua até hoje em uma cultura de ódio e frequente extermínio da população negra.

Segundo Willians de Jesus Santos, mestre em Sociologia pela Unicamp e pesquisador da Fapesp, toda essa violência presente nos atuais processos de deslocamento para o país tem uma base política, cultural e racista histórica. A estética da modernidade foi até a década de 1930, o modelo político que pautou as imigrações. 

Contudo, o tipo de suspeito padrão no caso dos imigrantes e refugiados é perceptível nos estereótipos presentes nas narrativas cotidianas de brasileiros e da grande mídia: torna-se a principal vítima dos espancamentos; das tentativas de homicídio; do abuso de autoridade ou omissão institucional; e das estratégias para exclusão social segundo a lógica do inimigo interno e externo, que traduzem a existência de problemas sociais que não são resolvidos.

A barbárie da última segunda, que tirou a vida de Moïse, gerou repercussão nas redes sociais. Lideranças do movimento negro cobram por justiça e a punição dos envolvidos. Apesar do envolvimento dos agressores com o tráfico e a milícia, conforme afirmações de denúncias, ativistas ainda possuem esperança de que esses grupos sejam punidos.