Dor e medo do futuro: por que mulheres negras estão desistindo de ter filhos

“A gente vê hoje em dia as coisas que acontecem, tanto de abordagem como de morte, e eu sempre fico muito mal e acabo imaginando: se com o filho dos outros já me dói tanto, como seria se isso acontecesse com um filho meu?”, diz a designer de moda, Lorena Vitória, após ver os seus namorados, todos negros, serem abordados de forma violenta pela Polícia Militar. A entrevista foi dada para a Folha de S. Paulo.

O caso de Lorena não é isolado. Cada vez mais, as escolhas e necessidades das mulheres negras têm sido pautadas pela violência racial e, na maioria das vezes, abrem mão de um sonho por falta de opção e assistência do Estado. De acordo com o Atlas da Violência 2021, realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), desde a década de 80 o aumento de homicídios foi mais acentuado entre a população negra, especialmente os mais jovens.

O medo de ser mãe se torna ainda maior se o filho for homem. Um levantamento realizado pelo FBSP com microdados do Anuário de Segurança Pública mostra que os negros são 78,7% do total de mortes violentas intencionais entre homens. Isso significa que um homem negro tem 3,7 vezes mais chance de morrer do que um não negro.

O estudo “A cor da dor: iniquidades raciais na atenção pré-natal e ao parto no Brasil”, publicada nos Cadernos de Saúde Pública em 2017, mostra que as mulheres pretas são mais propensas do que as brancas a terem um pré-natal inadequado, ausência de acompanhantes no parto e menos anestesia local quando praticada a episiotomia, que consiste num corte na região da vagina para facilitar a saída do bebê.

“Imagine a dor de uma mãe que precisa dar como conselhos de sobrevivência ao filho que tanto ama, frases como: ‘não corra pela rua, não faça gestos bruscos, não ande de boné, corte esse cabelo’, entre outros comportamentos que seriam normais para qualquer cidadão, mas que para negros se tornam motivos da desconfiança da sociedade, gerando violência e até a morte”, diz o colunista do UOL, André Santana, em matéria assinada por ele.

Mesmo com todos esses cuidados, a educadora e ativista norte-americana Mamie Till, enfrentou a dor de perder o seu único filho, Emmett Till, em um crime bárbaro nos anos 50, durante as férias na casa do tio e primos, em Mississipi. O garoto negro de 14 anos, sofreu acusações de que havia assobiado para uma mulher branca, chamada Carolyn Bryant. Emmett foi sequestrado e assassinado brutalmente pelo marido e cunhado da mulher. A dor de ver o corpo de seu filho irreconhecível, despertou a vontade de Mamie em deixar que todos observassem o que dois homens brancos fizeram com ele. O velório de Emmett teve o caixão aberto e despertou a visita de mais de 10 mil pessoas.

Apesar dos cuidados constantes das famílias negras, novos sentidos de urgência surgem com o maior conhecimento sobre a perigosa engrenagem que move e sedimenta o racismo estrutural. […] A maternidade ainda é concebida pela sociedade como ferramenta válida para o acirramento da opressão

e da violência contra mulheres, a partir da constatação sobre a existência do que Biroli (2014) chama de “treinamento social para o cuidado com os outros”, sejam estes os mais velhos ou os filhos. (Barbosa, 2017, p. 116).

Souza e Gallo (2002), a partir da obra de Foucault, também afirmam que […] o racismo é o mecanismo pelo qual o Estado justifica seu direito de matar, numa sociedade biopolítica, fundada na afirmação da vida. E o que é mais interessante: o direito de matar é justificado como uma afirmação da própria vida, uma vez que a eliminação do diferente, do menos dotado, do menos capaz, implica a purificação da raça, o melhoramento da população como um todo. A cada um que morre, o conjunto resultante é melhor que o anterior.

O racismo é motor de sofrimento psíquico, afirma Marizete Gouveia, doutora em psicologia pela Universidade de Brasília e autora da tese “Onde se esconde o racismo na psicologia clínica?”. Segundo a especialista, o sofrimento causado pelo preconceito racial faz com que mulheres negras criem mecanismos de proteção à saúde mental. Não ter filhos é um deles, uma vez que não precisariam se preocupar com as violências que viriam a sofrer. Pode ser uma medida de autoproteção, no sentido de não ter que se preocupar com a criança, mas vai além disso. É também não trazer uma criança para esse mundo violento. Eu vou me poupar de não ter essa preocupação, mas também é um alívio não vivenciar essa criança sendo exposta a esse mundo.”

De acordo com a pesquisa “Justiça dos Homens” à “Justiça Divina”: Experiências públicas de familiares vítimas em Campos de Goytacazes coordenada por Jussara Freire, as mães entrevistadas tinham medo de algo de ruim acontecer com seus filhos e esse sentimento era recorrente, pois elas acreditavam “que a maldade dos ‘outros’ havia crescido nos últimos anos”. Apesar de não explicitarem inicial e nitidamente o motivo de seus medos, ao longo da entrevista, explicavam que era justamente pelo fato de temerem o que poderia acontecer com seus filhos negros. Estar fora de casa, para elas, é visto como uma exposição ao risco de ser vítima de violência e, portanto, de perigo. Neste sentido, as mães desdobravam uma série de cuidados constantes para a segurança e preservação da vida dos filhos.

A maternidade no contexto das mulheres negras, é um elemento que se relaciona à resistência, quando associada com a luta do gestar e do maternar desejado e/ou autorizado. Ela assim, configura-se como um elemento do (re) existir, significada como uma reivindicação histórica. Neste contexto, ressalta-se também que o racismo e sexismo atuam historicamente na perpetuação de uma representação da negra que serve e cuida dos outros, isto é, vistas como corpos sem mentes. Para ela, “(…) os corpos femininos negros são postos numa categoria, em termos culturais, tida como bastante distante da vida mental” (hooks, 1995, p. 469).

E esses aspectos também abrangem os filhos, como a demarcação da infância construída historicamente, que são as concepções de “criminalização”, “delinquência”, “problema social”, sendo que essa definição se refere, em especial, às crianças pobres e negras. Esta visão surgiu no Brasil, tendo como referência o modelo francês, fazendo com que as crianças fossem recolhidas da sociedade, mascarando assim a Questão Social e a existência da pobreza (BENEVIDES, et al, 2014).

Um exemplo disso, foram os casos no Parque da Vila Sésamo, onde o personagem abraça crianças brancas e não as negras; e de Titi e Bless, filhos de Gio Ewbank e Bruno Gagliasso, que junto com crianças angolanas em um hotel, foram xingados de “pretos imundos”.

Vale-se questionar além dos fatores exemplificados que, o Estado vem colaborando para um plano de eliminação do povo negro, desde a violência policial à evolução biológica. Enquanto políticas cabíveis não forem executadas, mais mulheres terão medo da próxima geração, abrirão mão de seus sonhos, perderão seus filhos para cruel mortandade que assola as periferias e serão estatísticas num extermínio cuidadosamente planejado. O higienismo e branqueamento racial não são parte do passado, eles estão sendo executados aqui e agora.

REFERÊNCIAS

“MATERNIDADE NEGRA E A VALORAÇÃO DA VIDA DE JOVENS NEGROS

FRENTE AO HORIZONTE DE VIOLÊNCIA” por Carolina Nascimento de Melo; NA ENCRUZILHADA DA MATERNIDADE NEGRA por Jade Alcântara Lôbo e Izabela Fernandes de Souza; RACISMO E A IDENTIDADE DAS CRIANÇAS NEGRAS: UM LEVANTAMENTO BIBLIOGRÁFICO SOBRE AS RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS EM CONTEXTO ESCOLARES por Cássio Manuel Baêta Mendes e Gisely Pereira Botega; CUIDADO, MATERNIDADE E RACISMO: REFLEXÕES ENTRE PSICOLOGIA E ASSISTÊNCIA SOCIAL por Thais Gomes de Oliveira, Bruna Moraes Battistelli e Lílian Rodrigues da Cruz.

Hitlerismo esotérico: entenda o que é o movimento seguido peloautor de atentado contra Cristina Kirchner


Na última semana, o mundo assistiu as imagens do atentado contra a vice-presidente argentina, Cristina Kirchner. As cenas mostravam um homem se aproximando da vice com uma arma apontada diretamente para seu rosto. Ele tentou atirar duas vezes, mas a arma falhou. Ao fugir, foi pego por apoiadores de Cristina que estavam em frente à sua casa protestando contra o pedido de prisão feito pelo Ministério Público argentino, acusando-a de desviar dinheiro público. A namorada do atirador também foi presa, por suspeita de envolvimento no atentado.


A imprensa argentina não demorou para divulgar o nome do responsável pelo atentado: Fernando André Sabag Montiel, de 35 anos. Cidadão brasileiro, filho de pai chileno e mãe argentina, Fernando mora na Argentina desde 1993. Na primeira imagem do atirador divulgada pela imprensa, um detalhe chamou a atenção: uma tatuagem no cotovelo de um sol negro, símbolo nazista conhecido mundialmente por ter sido usado pelo Batalhão Azov, agrupamento neonazista da Ucrânia. Grupos neonazistas de caráter contracultura como o Misatropic Division já utilizavam o símbolo há anos em diversos países europeus.


Segundo a Revista Fórum, a jornalista Letícia Oliveira, que pesquisa justamente o crescimento de grupos de extrema direita no Brasil, encontrou os perfis de Sabag Montiel nas redes sociais. No Facebook e Instagram as contas não mostraram qualquer interesse na política brasileira, mas as suas fotos e curtidas revelaram que ele se alinha ideologicamente com o que pesquisadores da extrema-direita conhecem como “hitlerismo esotérico”. Tatuagens, símbolos e referências que ligam o autor do atentado frustrado a grupos neonazistas ativos no país vizinho, foram encontrados nas redes sociais pela jornalista.

Tudo indica que Fernando está ligado a uma linha do hitlerismo esotérico criada pelo esotérico e escritor argentino Luis Felipe Cires Moyano Roca.

Letícia explicou que esse tipo de hitlerismo ocultista não está atrelado ao nazismo histórico (que envolve a ascensão e a duração regime nazista e fascista), mas que foi resgatado por neonazistas do pós-guerra uma vez que, ao mesmo tempo que funciona como resgate de um suposto “passado idílico”, também se apropria e dialoga com interesses típicos da cultura Pop com o intuito de se propagar entre fãs. Basta olhar para o quanto esses temas vêm sendo explorados nos últimos anos, sobretudo em séries de grandes plataformas ou em pequenos canais do Youtube: fantasmas, alienígenas e portais interdimensionais.


É comum o uso da simbologia por grupos neonazistas que se aproximam de visões místicas e esotéricas inspiradas na mitologia hindu – sobretudo nas histórias que tratam das origens da suposta “raça ariana”. Há uma aproximação com o famoso Tradicionalismo de Julius Evola que serviu de base filosófica para o nazifascismo no século XX e hoje alenta pensadores como o russo Aleksander Dugin e o ex-trumpista Steve Bannon, além, é claro, de apresentar semelhanças e aproximações com o falecido brasileiro Olavo de Carvalho.


Nazismo crescente


Na América Latina, criaram-se condições políticas favoráveis para o surgimento de movimentos fascistas no período compreendido entre as duas Guerras Mundiais na maioria dos países. Conforme Hélgio Trindade, a principal questão não diz respeito à existência da presença fascista na América Latina, mas sim à extensão de suas manifestações. Em outras palavras, o problema seria distinguir as imitações, dos movimentos autênticos.

Resultado de uma longa história de atuação da extrema-direita, a Argentina é atualmente o país latino-americano com a maior quantidade de sites neofascistas na internet. Com o crescimento desses grupos nos países vizinhos, o Brasil não fica para trás. Um mapa elaborado pela antropóloga Adriana Dias apontou que as células de grupos neonazistas cresceram 270,6% no Brasil entre janeiro de 2019 e maio de 2021, e se espalharam por todas as
regiões do país, impulsionadas pelos discursos de ódio e extremistas contra as minorias representativas, amparados pela falta de punição.


A pesquisadora afirma que, no ano de 2022 existem 530 núcleos extremistas no país, que reúnem até 10
mil pessoas. Para especialistas e estudiosos que se dedicam a investigar o discurso de ódio no Brasil, a falta de leis claras contra práticas abomináveis, como a apologia ao nazismo e outras intolerâncias, é o principal obstáculo para que estes crimes deixem de acontecer no país.


Queima de arquivo


O celular do autor de atentado contra a vice-presidente da Argentina, Cristina Kirchner, pode se tornar uma prova inútil. Segundo o jornal Clarín, ao desbloquear o aparelho, especialistas encontraram a mensagem
“redefinição de fábrica” – o que indica que o telefone voltou a ter as configurações originais e perdeu os dados armazenados. Com isso, a Justiça da Argentina está analisando se o aparelho pode ser enviado aos Estados Unidos para ser submetido a uma tecnologia superior e, assim, recuperar as informações.


Segundo o jornal, a Polícia Federal argentina tentou desbloquear o celular com um software, mas
não conseguiu. Então, encaminharam o telefone para a PSA (Polícia de Segurança
Aeroportuária). Até ser entregue, o aparelho da marca Samsung, teria ficado em um cofre, em
modo avião. Na PSA, o telefone foi conectado mais uma vez a um computador, mas com um
sistema mais moderno do que os usados até então. Foi quando apareceu a mensagem de
“redefinição de fábrica”.


Fontes consultadas pelo portal argentino Infobae disseram que o telefone foi recebido pela PSA
“dentro de um envelope aberto” e o aparelho não estava mais em modo avião.


O suspeito tem antecedentes


Em março de 2021, Fernando Andrés Sabag Montiel, de 35 anos, foi processado por contravenção. Ele foi preso por portar uma faca de 35 centímetros. Na ocasião, ele teria sido abordado pela polícia da cidade de La Paternal, na região metropolitana de Buenos Aires, por dirigir um carro sem placa.


O suspeito disse ser o dono do veículo e afirmou ter perdido a placa em uma batida de trânsito dias antes. Durante a revista, os policiais pediram que Sabag Montiel abrisse a porta do passageiro. Ao cumprir a determinação, a arma branca caiu. O brasileiro afirmou que o objeto era para sua defesa pessoal. A infração foi registrada e ele foi liberado.

O suspeito trabalha como motorista de aplicativo e tem um Chevrolet Prisma registrado em seu nome (o mesmo modelo que consta no processo). O brasileiro vive na Argentina desde 1993.

As informações são do Clarín, citando como fonte o ministro da Segurança, Aníbal Fernández.


FONTE: Ponte Jornalismo, Revista Fórum, UOL, G1, Poder360.


REFERÊNCIAS: A Serpente na rede: extrema-direita, neofascismo e internet na Argentina por
Fábio Chang de Almeida.

Glamourização da Violência no Jornalismo

Nesta semana, Olena Zelenska, esposa do presidente da Ucrânica, recebeu uma enxurrada de críticas após fazer um ensaio para a Vogue, ao lado do marido, em um cenário de guerra. Na publicação da revista intitulada “Retrato de bravura: a primeira-dama da Ucrânia, Olena Zelenska”, o principal líder da Ucrânia posa com sua esposa em diferentes locais, incluindo as ruínas do aeroporto de Kiev e a residência oficial dos principais governantes do país. A fotógrafa do editorial foi a Annie Leibovitz, ex-esposa de Susan Sontag – que é autora do livro “Diante da dor dos outros”, que discute a reprodução de imagens de dor e guerra na mídia. O texto da publicação, de Rachel Donadio, revela detalhes sobre a invasão da Rússia à Ucrânia, destaca a atuação das mulheres na guerra, a vida em tempo de guerra, seu casamento e história compartilhada e sonhos para o futuro do país.

O jornal Firstpost fez questão de discutir sobre o assunto: “A Ucrânia, comandada por um ex-comediante, infelizmente se tornou o alvo de uma sessão fotográfica bastante cruel e auto-estima que pertence à imaginação de um adolescente ou a um filme escrito por Tom Cruise. Zelensky já ganhou aplausos por sua bravura, por seu dom de falar e praticamente cair em eventos de elite como Cannes com a provável esperança de ganhar uma cinebiografia dele. Mas, ei, isso é guerra, morte, destruição e colapso econômico global que pode levar o mundo a um passado do qual trabalhou duro para superar. […] A banalização pode ser sua aliada quando você está na defensiva, mas o uso da mídia como uma vela reluzente de jantar no meio da guerra é, como diriam na moda, estupidez sob medida.”

Não é a primeira vez que a revista se apropria de um cenário caótico para um editorial. Anos atrás, durante a guerra na Síria, uma reportagem de Asma Assad, primeira-dama da Síria, foi divulgada – num momento em que os crimes de Bashar al-Assad estavam vindo à tona. Apesar das críticas, a publicação não foi apagada.

Segundo Sepulveda (2016), a história da imprensa sensacionalista tem dois momentos marcantes. De acordo com o jornalista Danilo Angrimani, em seu livro “Espreme que sai sangue” (1995), um deles ocorreu na França, entre 1560 e 1631, com o surgimento dos primeiros jornais impressos franceses, o Nouvelles Ordinaires e o Gazette de France. Os dois periódicos exploravam em suas páginas notícias trágicas e principalmente histórias sobre crimes ou pessoas defeituosas. Antes disso, era possível encontrar brochuras de aproximadamente 16 páginas, chamadas de “occasionnel”, em que já se relatavam notícias desse tipo.

Com a popularização da imprensa, aliada à criação da máquina ao vapor que permitiu um aumento na tiragem, foram criados jornais populares, destinados a atrair as massas. Um desses jornais era chamado de “canards”, que em francês significa pato, mas também pode ser usada para designar algo falso. Logo a fotografia foi utilizada como registro, para ser armazenada e consultada por profissionais de diversas áreas, e por volta de 1990, o sensacionalismo se aproveitou da tecnologia para fazer a transição entre os diferentes tipos de veículos de comunicação. Segundo Linfield, a fotografia, – tanto quanto a mídia em si (acrescento), tem ‘contribuído muito para o espetáculo, para a excitação retinal, para o voyeurismo, para o terror, inveja e nostalgia, e só um pouco para o entendimento crítico do mundo social.’ […].

O meio de comunicação sensacionalista se assemelha a um neurótico obsessivo, um ego que deseja dar vazão a múltiplas ações transgressoras […] É nesse pêndulo (transgressão-punição) que o sensacionalismo se apoia (ANGRIMANI, 1995, p. 17).Já Arbex Jr. (2001, p.103) escreve que, a mídia cria diariamente a sua própria narrativa e a apresenta aos telespectadores – ou aos leitores – como se essa narrativa fosse a própria história do mundo. Os fatos, transformados em notícia, são descritos como eventos autônomos, completos de si mesmos. Os telespectadores, embalados pelo ‘espaço hipnótico’ diante da tela da televisão, acreditam que aquilo que veem é o mundo em estado ‘natural’, é ‘o’ próprio mundo.

A primeira-dama reagiu às críticas após o ocorrido. “Milhões leem a Vogue e falar diretamente para eles era o meu dever. E essa foi uma experiência interessante […] As primeiras-damas não têm oportunidades de influenciar politicamente, mas nós temos uma influência emocional. Nós entendemo-nos e sentimos o mesmo”, disse em declarações à ‘BBC’.

Para o jornalista Gabriel Fusari, o jornalismo – tanto de moda ou em geral, tem atuado como conteúdo publicitário fantasiado de jornalismo. “Quando não, ele descarta seu papel noticioso e de relevância pública para fortalecer as estruturas do capital, mesmo que sendo hipócrita ao trazer um dito conteúdo político, que na verdade é só uma ferramenta na manutenção de greenwashing ou de uma falta inclusão social. […] Será que esse editorial faz sentido num conflito como esse? Será que essa tentativa de glamourizar a figura da Ucrânia faz bem?”, ele questiona.

Brasil: um país que não respeita as mulheres

Uma menina de 11 anos foi estuprada no início deste ano e, para evitar que fizesse um aborto autorizado, foi mantida pela Justiça em um abrigo de Santa Catarina. Ela só descobriu a gravidez com 22 semanas, quando foi encaminhada para o Hospital Universitário de Florianópolis e onde teve o procedimento para interromper a gestação negado. A suspeita é a de que a violência sexual contra menina tenha ocorrido na casa dela. As informações foram divulgadas pelo site do G1.

O Código Penal permite o aborto em caso de violência sexual, sem impor qualquer limitação de semanas da gravidez e sem exigir autorização judicial. A equipe médica, no entanto, se recusou a realizar o abortamento, permitido pelas normas do hospital só até a semana 20. Por conta disso, o caso chegou nas mãos da juíza Joana Ribeiro Zimmer e da promotora Mirela Dutra Alberton.

Mesmo com o laudo psicológico da garota comprovando que a mesma não queria manter a gravidez, a juíza e promotora tentaram convencê-la a continuar com a gestação. Joana teria perguntado a menina se ela “suportaria mais um pouquinho”. A jurista, Deborah Duprat, afirma que o código penal permite o aborto em qualquer época, ainda mais em uma criança que, além de sofrer o impacto psicológico do abuso, não possui a integridade física preparada para uma gravidez.

A psicóloga, Thais Micheli Setti, funcionária da prefeitura de Tijucas, que fez o acompanhamento da vítima, registrou no laudo de maio que ela “Apresentou e expressou medo e cansaço por conta da quantidade de consultas médicas e questionamentos, além do expresso desejo de voltar para casa com a mãe. Relatou estar se sentindo muito triste por estar longe de casa e que não consegue entender o porquê de não poder voltar para o seu lar”.

Na terça-feira (21) da semana passada, a Justiça de Santa Catarina determinou que a menina fosse liberada do abrigo que estava sendo mantida sob medida protetiva e voltasse à casa da mãe.  No dia seguinte (22) ela conseguiu interromper a gravidez, segundo Ministério Público Federal (MPF).

Diálogo impactante travado entre juíza e a vítima menor de idade:

– Qual é a expectativa que você tem em relação ao bebê? Você quer ver ele nascer? – pergunta a juíza.

– Não – responde a criança.

– Você gosta de estudar?

– Gosto.

– Você acha que a tua condição atrapalha o teu estudo?

– Sim.

Faltavam alguns dias para o aniversário de 11 anos da vítima. A juíza, então, pergunta:

– Você tem algum pedido especial de aniversário? Se tiver, é só pedir. Quer escolher o nome do bebê?

– Não – é a resposta, mais uma vez.

Após alguns segundos, a juíza continua:

– Você acha que o pai do bebê concordaria pra entrega para adoção? – pergunta, se referindo ao estuprador.

– Não sei – diz a menina, em voz baixa.

A audiência com a mãe da vítima seguiu no mesmo tom.

– Hoje, há tecnologia para salvar o bebê. E a gente tem 30 mil casais que querem o bebê, que aceitam o bebê. Essa tristeza de hoje para a senhora e para a sua filha é a felicidade de um casal – afirma Ribeiro.

Ela responde, aos prantos:

– É uma felicidade, porque não estão passando o que eu estou.

Após ser questionada pela juíza sobre qual seria a melhor solução, a mãe segue:

– Independente do que a senhora vai decidir, eu só queria fazer um último pedido. Deixa a minha filha dentro de casa comigo. Se ela tiver que passar um, dois meses, três meses [grávida], não sei quanto tempo com a criança… Mas deixa eu cuidar dela? –  suplicou. – Ela não tem noção do que ela está passando, vocês fazem esse monte de pergunta, mas ela nem sabe o que responder!

Juíza é promovida e segue em silêncio em relação à sua conduta

Desde 2016, o Comitê Latino Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher, denuncia que a gravidez infantil forçada é um tratamento cruel e degradante, equivalente à tortura. Apesar da repercussão negativa, a juíza se retirou do caso alegando ter sido promovida, por um convite feito bem antes do caso. A conduta de Joana tem sido investigada desde semana passada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Já o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) instaurou um procedimento para apurar a conduta da promotora, Mirela Dutra.

Sem aborto, sem adoção — o problema é o corpo feminino

Ainda nesta semana, outro caso chamou a atenção da mídia. Segundo o G1, tudo começou com um post do jornalista Matheus Baldi, no dia 24 de maio, dizendo que a atriz Klara Castanho teria dado à luz a uma criança. A pedido da mesma, esse post foi apagado, mas a notícia se espalhou.

Na última quinta-feira (23), a apresentadora Antônia Fontenelle incitou ainda mais os comentários contra Klara na internet. E, para completar, o jornalista Léo Dias gerou repercussão sobre o assunto no programa The Noite e, ainda, publicou um texto do caso na sua coluna do Metrópolis, fazendo o caso viralizar ainda mais.  

Foi então que Klara decidiu se pronunciar e, por meio de uma carta aberta ao público, revelou que foi estuprada, engravidou e entregou legalmente o bebê para adoção.

“Fui violentada não só pelo homem que me estuprou, mas também pelo julgamento das pessoas”, escreveu a atriz de 21 anos. “Esse é o relato mais difícil da minha vida. Pensei que levaria essa dor e esse peso somente comigo.”

Além da invasão de privacidade, Klara contou que foi abordada e ameaçada por uma enfermeira na sala de cirurgia com as seguintes palavras: “Imagine se tal colunista descobre essa história”. Quando voltou para seu quarto do hospital, já havia mensagens no seu celular do colunista com todas as informações.

Antônia Fontenelle, candidata a vereadora e o jornalista Léo Dias, publicaram vídeos pedindo desculpas diante toda a repercussão negativa. O Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo e o Conselho Federal de Enfermagem estão apurando a denúncia, e a enfermeira já foi demitida. O Hospital Brasil se solidarizou.

A atriz também vem sendo criticada nas redes por levar a criança para a adoção. Várias mulheres se solidarizaram, inclusive a jornalista de moda Lele Santhana que disparou: “Ninguém se preocupa com as vítimas dos crimes, pouco se importa se irão decidir pelo aborto ou pela adoção. Elas serão condenadas de todo o jeito. Nunca foi sobre ser pró-vida. Sempre foi sobre o controle total dos corpos femininos”.

86% dos profissionais transexuais sofreram discriminação no trabalho, diz pesquisa

Nesta terça-feira (28), foi celebrado o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+. Para dar ainda mais sentido a data, diversos estudos sobre esse público e eventos especiais foram realizados no mês de junho. Um levantamento inédito chamado “LGBTI+ no Mercado de Trabalho Brasileiro 2022” foi realizado pela Santo Caos com o objetivo de divulgar dados recentes e relevantes sobre esse tema, que ainda é pouco discutido.  

Um dos resultados mais alarmantes mostra que 65% dos profissionais LGBTQIA+ já sofreram discriminação no ambiente de trabalho e 28% deles já foram assediados. O índice de casos de discriminação é ainda maior quando analisadas apenas as pessoas trans e bissexuais: 86% e 72%, respectivamente.

Importante ressaltar que, de acordo com a classificação do estudo, a discriminação compõe todo o tipo de atividade preconceituosa, mesmo que feita de maneira velada, como piadas, ironias, comentários e insinuações jocosas. Já o assédio é o ato de ofender direta e explicitamente alguém por conta de sua característica.

O conteúdo completo se encontra no site da Santo Caos, uma instituição brasileira de consultoria em Diversidade & Inclusão. Para a pesquisa, a organização coletou informações de quase 20 mil trabalhadores de todas as faixas etárias, entre novembro de 2020 e abril de 2022.

LGBTQIA+ no mercado de trabalho

Somente 48% do público LGBTQIA+ se sente confortável para falar sua identidade de gênero ou orientação sexual para alguém no trabalho. As pessoas bissexuais são as que menos falam abertamente sobre sua orientação sexual (60%), seguida das trans (52%). Em conformidade, esses são os grupos com menores porcentagens na saúde emocional.

Já as que mais falam são as lésbicas (75%) e gays (69%).

Outro ponto de destaque é que apenas 8% dos líderes das empresas são pessoas

LGBTQIA+. O que talvez explique o índice é que este público costuma ficar aproximadamente 3 anos em uma companhia, já os não LGBTQIA+ permanecem nas empresas, em média, de 4 a 13 anos. Vale ressaltar que, de acordo com os dados da pesquisa, o público LGBTI+ têm renda média abaixo de quatro salários mínimos, frente a 36% das pessoas que não fazem parte desse grupo.

59% das pessoas LGBTQIA+ têm menos de 31 anos

Há uma maior concentração de pessoas com idade entre 25 a 38 anos. Em relação à população idosa, cerca de 3% das pessoas com 50 anos ou mais, são LGBTQIA+. Segundo um estudo da Carta Capital de 2019, esses indivíduos têm maiores chances de estarem morando sozinhos, de não terem filhos e de não apresentarem alguém para chamar em caso de uma emergência. Infelizmente, nem mesmo as instituições de longa permanência estão preparadas para receber a população idosa LGBTQIA+, pois são ambientes em que a violência e a intolerância contra essas pessoas são altas.

Ser quem você realmente é, ainda é um tabu

Entre as pessoas LGBTQIA+, 41% sentem que podem ser quem realmente são no ambiente de trabalho, entre os que não fazem parte desse público, o número sobe para 53%. Quanto maior o tempo de casa – no âmbito profissional, mais as pessoas LGBTQIA+ sentem que podem ser quem são (44% em menos de 6 meses e 64% a mais de 15 anos).

As minorias são maiorias

Há uma maioria de mulheres, pessoas negras, PCD e não brancos no grupo de LGBTQIA+. Das pessoas bissexuais, 71% são mulheres. Mais de 50% das pessoas trans/travestis, assexuais e outros são negras. Há uma baixa proporção de pessoas com deficiência e pessoas 50+ na amostra.

Pordeus e Viana (2021), enfatizam a necessidade de o indivíduo que sofre de discriminação e preconceito encontrar grupos com os quais se identifique, pois o apoio e o compartilhamento de experiências semelhantes são muito importantes entre os que dividem lutas específicas. Além disso, para que as minorias não se dispersem e se vejam vítimas do preconceito enraizado no seio social, elas precisam de proteção e força para superar os obstáculos e conscientizar a sociedade acerca de quão prejudiciais são os conceitos de distinção e segregação (que ocorrem quase de maneira automática nos contextos familiar e laboral).

No que diz respeito ao ambiente de trabalho, para que esse público se sinta mais acolhido e menos discriminado, é preciso promover uma cultura de diversidade, respeito e desconstrução. Algumas empresas já oferecem apoio psicológico, assistência jurídica para os que sofrem de LGBTfobia, folga remunerada para aqueles que estão fazendo transição de gênero, palestras para os funcionários da empresa sobre o tema e programas específicos de contratação. Mas é preciso que a maioria das companhias se mobilizem e façam essa transformação.

Urgência de ações

Segundo a pesquisa, mulheres lésbicas e homens gays são os grupos que mais acreditam ser importante priorizar o tema e, em conjunto com outros, são os mais interessados em participar. Em contrapartida, pessoas trans/travestis apresentam a menor porcentagem em ambas questões. O grupo acredita que o tema deve ser priorizado, mas não têm muito interesse em participar, isso porque eles não veem as ações como efetivas ou não se sentem representadas nelas.

Ainda assim, pessoas NÃO LGBTQIA+ se sentem menos preparados para lidar com diversidade e, ainda, não tem interesse em saber mais. As mesmas mostram-se pouco interessadas na temática de diversidade e inclusão, assim como, veem como menos prioritário, em comparação com pessoas LGBTQIA+.

“A leitura dos dados nos permite inferir que a rotatividade maior da população LGBTQ+ é consequência direta da discriminação e do assédio, que tornam o ambiente de trabalho mais tóxico para essas pessoas” comenta Jean Soldatelli, sócio-diretor da Santo Caos. “Essa informação trazida pelo estudo corrobora a urgência de ações que promovam diversidade e inclusão nas empresas, criando melhores condições para esse grupo manter suas atividades profissionais”, finaliza.

Não só nas empresas, mas em todos os ambientes existe a necessidade de pessoas NÃO LGBTQIA+ se interessarem sobre a diversidade e inclusão, pois somente dessa forma enxergaremos mudanças políticas, sociais e culturais em todo o movimento.

A cidade e mulheres: como a pólis também pode ser instrumento de opressão

Reprodução: CSA Images | Créditos: Getty Images

“Toda opressão cria um estado de guerra”, disse a ativista, escritora e filósofa feminista Simone de Beauvoir. Uma sociedade construída para a constatação da inferioridade feminina colabora para a opressão patriarcal ainda existente. Os homens foram responsáveis pelas narrativas da civilização Ocidental, da Bíblia e aos códigos de leis da maioria dos países — que também diz respeito sobre a política e a pólis.

Cidades não foram feitas para mulheres. A maioria dos problemas urbanos atinge-as, principalmente se forem negras, transsexuais e pobres. Segundo o levantamento do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, o Brasil é o 5º no ranking mundial de países onde mais matam mulheres. O índice de assédios e agressões sexuais também cresce em um índice exarcerbado, mas mesmo assim, deve haver um corte de 33% no orçamento de políticas públicas para mulheres, neste ano de 2022.

A limitação de serviços e infraestrutura próximos a moradia implicam em mais tempo de deslocamento, dificuldade de acesso ao mercado de trabalho e menos tempo livre. Cerca de mais de 10 milhões de mulheres ocupam o posto de chefes de família, e políticas e programas habitacionais como o ‘Minha Casa Minha Vida’ dão preferência da titularidade do imóvel à mulheres de baixa renda — critério que tem reconhecimento internacional como política de diminuição de desigualdade para mulheres. Porém, a grande maioria dos conjuntos habitacionais construídos pelo poder público estão localizados em regiões periféricas das cidades, e reproduzem ou acentuam a mesma lógica de urbanização excludente e segregadora dos bairros periféricos autoconstruídos.

Políticas públicas para a população feminina envolvem certos fatores como a segurança pública, desigualdade de gênero, saúde, mobilidade, estrutura, investimento em programas de apoio, acesso à vagas de emprego, políticas para mães, e se faz necessário a inclusão de leis a favor de uma cidade ainda mais feminina.

Em uma matéria para a semana da mulher da Casa Vogue em 2020, arquitetas e urbanistas abriram o debate apontando que a falta de iluminação no espaço público, a existência de muitas ruas com fachadas cegas (apenas muros e cercas, por onde muitas vezes a mulher precisa passar sozinha), e opções insuficientes de transporte público acabam afetando mais as moradoras das cidades, além de contribuirem para a insegurança. A insuficiência nas redes de transporte público e a falta de linhas que circulem dentro de um único bairro ou região atrapalha e em alguns casos até impossibilita que a mulher realize um trabalho remunerado. Falta de vagas em creches públicas e em hospitais também impactam mais as mulheres neste sentido, já que elas acabam acumulando a responsabilidade de cuidar de crianças, idosos e doentes dentro do núcleo familiar.

Em um ensaio clássico de 1980, intitulado “O que seria uma cidade não sexista?”, a urbanista americana Dolores Hayden defendeu cidades que “transcendam as definições tradicionais de casa, bairro, cidade e local de trabalho”.

Por isso, as instituições de gestão tem um enorme papel no processo de deliberação, normatização, fiscalização e execução de políticas relativas aos direitos da mulher. Enfatiza-se também, a necessidade de representação feminina nas principais esferas públicas.

Defender a representatividade de gênero na política brasileira vai além do processo eleitoral. É sobre apoiar mulheres que construam as cidades de acordo com as necessidades reais de suas vidas, no campo da habitação, mobilidade, segurança nos espaços públicos, divisão do trabalho, e tudo que envolve usar, ocupar e identificar-se com a cidade que vivemos (MEDINA, FERREIRA, LAGET, PILL; 2020).

O racismo cada vez mais violento e explícito no Brasil

Na última segunda-feira (24), o Brasil se deparou com mais uma situação de violência explícita. Moïse Mugenyi Kabagambe, um jovem congolês de 24 anos, foi brutalmente espancado até a morte após cobrar ao seu patrão o pagamento por duas diárias atrasadas. Moïse trabalhava em um quiosque na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, área fortemente dominada por narcomilícias.

O jovem Moïse Kabagambe, de 24 anos. | Imagem: [Instagram]

A vítima apanhou por 15 minutos por 5 homens que, segundo testemunhas, usaram pedaços de madeira e um taco de beisebol. O corpo foi encontrado em uma escada, próxima ao quiosque, amarrado e já sem vida. Segundo o laudo do IML, Moïse sofreu hemorragia e contusão pulmonar, traumatismo torácico, além de broncoaspiração no sangue. Os familiares só foram avisados da morte da vítima no dia seguinte. A DHC do Rio de Janeiro já investiga o crime.

Após assistir ao vídeo das câmeras de segurança, Yannick, primo de Moïse, afirmou que os agressores foram embora e apenas o gerente do quiosque (que também participou da tortura) permaneceu no local. “Ele [Moïse] ficou deitado no chão, como se nada estivesse acontecendo. Trabalhando, atendendo cliente. E o corpo lá”, completou. “Uma pessoa de outro país que veio ao seu país (Brasil) para ser acolhido. E vocês vão matá-lo porque ele pediu o salário dele? Porquê ele disse: ‘Estão me devendo’?”, questionou Chadrac Kembilu, outro primo de Moïse, em entrevista para o G1.

 A vítima deixou sua terra natal em direção ao Brasil em 2011, fugindo, com a família, da guerra e da fome. Apesar do país ser um receptor dos refugiados, com a obrigação de acolher e proteger vidas, o racismo e a xenofobia contra os imigrantes é constante.

Uma matéria da BBC Brasil afirma que, de acordo com o Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), os congoleses são o segundo maior grupo a ter a solicitação de refúgio acolhida pelo governo brasileiro depois da Síria, com 953 pedidos reconhecidos entre 2007 e 2017, o equivalente a 13% dos refúgios acatados no período.

A noção de que o Brasil é um país hospitaleiro, onde todos os estrangeiros e imigrantes são bem-vindos, não passa de um “mito”, diz o pesquisador Gustavo Barreto, para o Brasil de Fato, após analisar mais de 11 mil edições de jornais e revistas entre 1808 e 2015.

Em entrevista à jornalistas em Madri, no ano de 2018, Angela Davis já previa o esperado: O racismo estava voltando a ser violento e explícito. Na época, o Brasil e os EUA estavam interligados pelo regime nacionalista supremacista — que continua até hoje em uma cultura de ódio e frequente extermínio da população negra.

Segundo Willians de Jesus Santos, mestre em Sociologia pela Unicamp e pesquisador da Fapesp, toda essa violência presente nos atuais processos de deslocamento para o país tem uma base política, cultural e racista histórica. A estética da modernidade foi até a década de 1930, o modelo político que pautou as imigrações. 

Contudo, o tipo de suspeito padrão no caso dos imigrantes e refugiados é perceptível nos estereótipos presentes nas narrativas cotidianas de brasileiros e da grande mídia: torna-se a principal vítima dos espancamentos; das tentativas de homicídio; do abuso de autoridade ou omissão institucional; e das estratégias para exclusão social segundo a lógica do inimigo interno e externo, que traduzem a existência de problemas sociais que não são resolvidos.

A barbárie da última segunda, que tirou a vida de Moïse, gerou repercussão nas redes sociais. Lideranças do movimento negro cobram por justiça e a punição dos envolvidos. Apesar do envolvimento dos agressores com o tráfico e a milícia, conforme afirmações de denúncias, ativistas ainda possuem esperança de que esses grupos sejam punidos.

Como será o final do ano para os brasileiros que perderam entes queridos para a Covid-19?

Ninguém sabe a resposta. Aliás, parte da “naturalização” dos mais de 600.000 mortos pela doença, são mais que um gatilho para a população, ainda mais para aqueles que perderam amigos e família.

O caloroso retorno das atividades presenciais — o famoso “novo normal”, não aquece o suficiente os corações dos familiares das vítimas. A estudante de psicologia, Julia Bonomo, destrincha este processo e diz que, primeiramente, é preciso que o luto seja vivido e não reprimido.

“Não é saudável esconder certos tipos de sentimentos, eles precisam ser externados, além disso, o luto é um processo necessário que aflora o amadurecimento e autoconhecimento. A psiquiatra suíço-americana Elisabeth Kübler-Ross em seu livro “Sobre a Morte e o Morrer” de 1969, descreve cinco estágios do luto, são eles:

1o – negação
2o – raiva.
3o – barganha
4o – depressão
5o – aceitação”

Julia ainda ressalta: “Apesar de cada indivíduo ter seu tempo de viver o luto, ele tem inicio meio e fim, se o processo da depressão se prolongar e não chegar o estágio da aceitação ou houver muita dificuldade de se adaptar a nova realidade é importante buscar ajuda psicológica. Esse estado é chamado luto patológico, ele ignora todas as etapas que necessitam ser vividas, nele o processo de luto não termina e isso acaba interferindo negativamente na vida e nas atividades diárias da pessoa.”

Para Butler, as diferentes formas de viver o luto também demonstram as desigualdades sociais — enquanto algumas pessoas têm amplo direito de serem enlutadas, outras não o têm e, por isso, as suas mortes seriam mais naturalizadas.

É possível pensar que a morte de uma pessoa não é somente um acontecimento clínico, mas também algo que diz respeito à política e à ética, já que o modo de tratar essas perdas varia a depender de quem morreu, diz Carla Rodrigues, professora de Filosofia na UFRJ ao Estadão.

O luto no contexto da Covid ainda traz uma peculiaridade que, para a mesma, se assemelha à de uma situação de guerra. A experiência de perder sucessivamente um ou diversos entes queridos, como aconteceu com algumas famílias, gera situações muito específicas e diferentes do normal.

Luiz Carlos Azedo, jornalista do Correio Braziliense, em sua coluna relata que, o luto ocorre porque a perda física do ente querido não elimina o afeto. É uma ausência de difícil aceitação no tempo em que ocorre, porque o amor sobrevive. Isso gera uma negação, que se manifesta de forma silenciosa, muitas vezes, como fuga da realidade; num segundo momento, vem a revolta, muitas vezes inconsciente e inexplicável. Leva tempo para que as pessoas superem a depressão subsequentemente e aceitem a perda, para que a vida plena se restabeleça. Mas não existe esquecimento. Aceitar não é deixar de sentir. O luto se torna um marco na vida pessoal. A resiliência diante da morte também gera simpatia ou engajamento em movimentos que sejam antítese da sua causa. Na pandemia, a naturalização das mortes pode ser também uma fase de um luto coletivo. Muito mais amplo e profundo.

A entrevistada, Julia Bonomo, sugere algumas maneiras saudáveis de lidar com o luto.
• Não se cobre pelo tempo tirado para viver o luto, dê tempo a si mesmo
• Ignorar a dor pode trazer consequências piores no futuro, portanto não menospreze
seus sentimentos
• Se ocasionalmente você se sentir confortável, passe seu tempo com amigos e familiares, caso contrário, não há problema em se distanciar um pouco e garantir sua privacidade. Mas nunca deixe, mesmo que aos poucos, de tentar voltar a rotina, procure hobbies novos, se exercite e ocupe sua mente com coisas que goste.

Na pandemia, a AVICO Brasil foi criada, para dar apoio emocional às pessoas que ainda
não conseguem sair do luto.

“Alguns desejam apenas compartilhar a dor enquanto outros pedem apoio para lutar judicialmente por direitos — seja porque perderam seus empregos após curar-se da doença, por não conseguirem provar suas sequelas para alcançar uma licença pelo INSS ou porque perderam parentes que eram as principais fontes de renda e que agora correm até risco de despejo por não conseguirem pagar o financiamento de casa”, diz Paola, assistente social em entrevista ao El País.

“A associação foi fundada em 08 de abril de 2021, na cidade de Porto Alegre/RS, a partir da indignação de dois defensores dos Direitos Humanos, Gustavo Bernardes e Paola Falceta, com a ineficiência e negligência do Estado diante das múltiplas consequências da pandemia de covid-19 na vida dos brasileiros.

Promover debates e discussões sobre o enfrentamento à pandemia da Covid-19 e suas consequências físicas e emocionais; Promover e defender a saúde pública, o Sistema Único de Saúde (SUS) e o Sistema Único de Assistência Social (SUAS); Promover e defender a Política Nacional de Imunização (PNI); Apoiar a pesquisa e o desenvolvimento de ações de enfrentamento a Covid-19; Promover o apoio jurídico e psicossocial para as vítimas (sobreviventes) e familiares de vítimas da Covid-19, através dos grupos de apoio”, segundo a história da empresa, disponível no site.

Por fim, para Mariel Corrêa de Oliveira, os atravessamentos causados pela pandemia podem implicar diretamente nos mediadores do luto podendo interferir de forma negativa nas tarefas do mesmo, trazendo assim implicações para a saúde mental dos indivíduos enlutados e a atenção primária à saúde, por sua atuação territorial, bem como por suas características essenciais de acesso aberto e cuidado longitudinal. Considerando que nesse
contexto aumentam suas possibilidades, entendendo esse luto como um processo mais intenso e duradouro, pois “em pandemia temos o processo de luto sofrendo atravessamentos, com desdobramentos que potencializam o risco de agravar os sofrimentos psíquicos individuais e coletivos” (Fiocruz, 2020, p.2).

[…] Entender que todos estamos vivenciando um luto coletivo e como podemos agir com respeito aos nossos próprios sentimentos e com a dor do outro é de extrema importância para que possamos enfrentar melhor o sofrimento que a pandemia vem produzindo, como o luto abordado neste ensaio.

Mica: os bastidores do brilho da indústria da beleza

Lábios carnudos, pele aveludada e rosto simétrico são atributos de dar inveja à Geração Z nos dias de hoje. O segmento da beleza é uma das áreas mais exploradas de criação de conteúdo da internet – um exemplo disso são as inúmeras trends nos aplicativos de compartilhamentos de vídeo, como Instagram e TikTok. A influência das blogueiras no ramo também aumenta significativamente o consumo dos itens de maquiagem e skincare.

O grande sucesso da indústria da beleza é capaz de ‘maquiar’ as atrocidades que acontecem durante a produção do brilho e do glamour de cada produto.

Um dos ingredientes mais presentes nos iluminadores, sombras e brilhos labiais é a mica, um mineral escamoso natural, muito comum na Índia. Mas, antes que a mica seja processada e acabe em produtos de beleza, ela precisa ser extraída. O que muitos não sabem é que, na maior parte das vezes, os responsáveis por extraí-la do solo são as crianças.

Apesar do fato de que a mineração da mica representa sérias ameaças à saúde e segurança das crianças, as famílias dependem de sua extração para obter renda. A maioria das comunidades que vivem nas proximidades das minas de mica estão presas em um ciclo interminável de pobreza, exploração e abuso, no qual todos os dias são uma luta para sobreviver. Muitas famílias vivem à beira da fome, portanto não é incomum que as crianças abandonem a escola e se envolvam no trabalho infantil.

Estima-se que 22.000 crianças de até quatro anos trabalham em minas de mica em Jharkhand e Bihar e, devido à natureza ilegal e secreta do trabalho infantil, os números exatos são desconhecidos. A maioria das crianças que trabalham nas minas ganha cinquenta rúpias por dia, o equivalente a cerca de setenta centavos. Por outro lado, os atacadistas podem ganhar mais de mil dólares por 1 kg de mica de boa qualidade. Isso ilustra a escala de exploração e horrendas violações dos direitos humanos que ocorrem nas jazidas.

Trabalho infantil nas minas de mica em Madagáscar. Foto: Jan Joseph Stok, Terre des Hommes
Trabalho infantil nas minas de mica em Madagáscar. Foto: Jan Joseph Stok, Terre des Hommes.

A mineração ilegal de mica está associada a vários perigos para a saúde e segurança das crianças. A exposição constante à poeira pode causar doenças respiratórias e passar horas cavando o solo com as mãos desprotegidas coloca-os em risco de infecções e cortes de pele. Além disso, as minas frequentemente desabam, ameaçando a vida das crianças.

Quando os poços de mineração desabam, as crianças ficam presas sob as rochas e, com os locais sem supervisão, não há como obter ajuda adequada a tempo. As famílias vivem com medo constante de perder seus filhos e, como a mineração não é regulamentada, elas não têm direito a qualquer indenização em caso de acidentes. Trabalhar em minas ilegais também torna as crianças vulneráveis ao abuso sexual e físico ou ao tráfico de pessoas.

“Corri até a mina e vi minha filha deitada ali. Havia uma grande pedra em cima dela, e ela já estava morta”, conta uma mãe arrasada. A mulher é mãe de uma menina que perdeu a vida por conta do desabamento de um túnel numa mina. Ainda assim, a mãe acrescenta que como eles não têm outras opções, o resto da família, incluindo sua segunda filha, continuou a trabalhar no local após o acontecimento doloroso.

A Reuters, maior agência de notícias do mundo, informou que o governo de Jharkhand quer legalizar o setor, mas o processo está se arrastando. Se mais regulamentos fossem implementados, a mineração de mica criaria mais oportunidades de emprego para os moradores, dando-lhes melhores salários e diminuindo a necessidade de envolvimento das crianças. Por sua vez, as crianças teriam uma chance de um futuro que não envolva a sua própria exploração.

Para ajudar a acabar com o ciclo de abuso na mineração, algumas empresas de beleza têm explorado o uso da substância sintética. À primeira vista, parece uma solução sustentável: como a mica sintética é feita em laboratório, não há necessidade de trabalho infantil. Na realidade, porém, sua cadeia de suprimentos nem sempre é transparente e não há garantia de que o tipo alternativo do material seja totalmente livre de trabalho infantil.

Além disso, pode-se pensar que, como usuários finais que compram cosméticos de mica, nos tornamos responsáveis por contribuir para o trabalho infantil. Embora certamente haja alguma verdade nisso, na Índia, a vida de comunidades inteiras gira em torno da extração de mica. Portanto, abandonar completamente esses produtos significaria privar as famílias de sua única atividade geradora de renda.

Por mais explorador que seja o trabalho na mineração, ele permite que milhares de famílias sobrevivam. Sem a mica, a pobreza e o sofrimento em Bihar e Jharkhand atingiriam níveis inimagináveis. Portanto, em vez de apenas boicotar produtos que contenham mica, devemos intensificar os esforços para que sejam estabelecidos uma cadeia de abastecimento limpa, regulamentos para as minas de mica e uma remuneração justa para que as crianças não tenham que trabalhar.

Fonte: Fairplanet/Tradução e Adaptação por Louize Lima

Independência do Brasil: Por um Brasil independente da anti-democracia

Antidemocracia em fracasso

Por conta do 7 de setembro, Dia da Independência do Brasil, manifestações contra e a favor do presidente Bolsonaro foram realizadas em todo o país. As de maior destaque foram nas cidades de Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro. Este tema ganhou repercussão nas últimas semanas, devido à tensão política no país, provocada por ameaças de intervenção militar pelo presidente e seus apoiadores.

No Rio de Janeiro, manifestantes protestaram a favor da liberdade e contra o passaporte da vacina, que valerá a partir do dia 15. O ato foi em Copacabana, com direito à música e discursos anti-democráticos. Cartazes também pediam por uma nova constituição, a criminalização do comunismo, o fim do pedágio e do IPVA para motociclistas.

Em Brasília, todos os militares se reuniram para garantir a segurança da cidade. Os manifestantes chegaram na parte da noite do dia anterior (6), no palácio do Itamaraty e invadiram o bloqueio, para ocupar a Esplanada dos Ministérios. Apesar do acesso de veículos estar interrompido, carros e caminhões também se transferiram para o local. Vídeos divulgados pela imprensa e que circulam nas redes sociais, mostram que a retirada das grades de contenção e barricadas não parece ter encontrado forte resistência por parte dos policiais. Na parte da manhã (7), houve discurso de Bolsonaro, que apostou em um tom messiânico nas palavras, com direito a chegada na Esplanada em um Rolls-Royce, dirigido pelo ex-piloto da Fórmula 1, Nelson Piquet.

Imagem: Paulo Lopes/São Paulo

Na capital paulista, a Polícia Militar estimou que cerca de 125 mil pessoas foram às ruas por conta do Dia da Independência e também demonstrar apoio ao atual governo. Houve na parte da tarde um discurso do presidente, que insistiu em pautar ações anti-democráticas e atacar o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes. Trajados com as cores da bandeira e com cartazes contra a imprensa, o STF, e a esquerda, a maioria dos manifestantes não fizeram uso de máscara. Duas pessoas foram presas por furto de celular, e uma foi ferida por um drone.

Em Belo Horizonte, a concentração no Mineirão reuniu apoiadores do presidente usando camisas com os dizeres “Meu partido é o Brasil”, “sorria, não se mate” e “a vontade do povo é soberana”. Também exibiram cartazes evidenciando “STF com juízes de carreira”. A jornalista Malu Gaspar, do O Globo, informou que as manifestações impediram que chegassem cerca de 280 mil doses de vacina na capital, por temerem “represálias”. Cerca de 2,6 milhões de doses estão aguardando liberação para estados do país todo.

Na Bahia, manifestantes se reuniram no Farol da Barra, em Salvador, e pediram reformulação do Supremo, uso da força e voto auditável. O calor da manhã fez com que duas mulheres passassem mal, e foram atendidas pelo Corpo de Bombeiros. Os manifestantes caminharam até o Morro do Cristo, onde encerraram o evento.

Em Santa Catarina, a chuva não impediu que os manifestantes caminhassem. Quatro rodovias foram bloqueadas, inclusive importantes acessos em diferentes cidades do estado. Manifestantes também pediram por ações anti-democráticas. 

Em Goiás, manifestantes usaram máscara e diziam que Bolsonaro era a esperança do Brasil. O evento acabou às 13:30 da tarde.

Apesar dos discursos e cartazes que feriam a Constituição Brasileira, e poucas ocorrências nas manifestações, autoridades garantem que os protestos pelo país foram pacíficos. Embora o público atraído seja de apenas 6% do esperado.

 O Grito dos Excluídos pelo país

Em todo o país, também foram organizadas manifestações contra o governo Bolsonaro. O “Grito dos Excluídos” é um ato que denuncia as condições brasileiras há quase 30 anos. Os protestos pelo “Fora, Bolsonaro” são convocados pela Campanha Nacional Fora Bolsonaro, composta pelas frentes Povo Sem Medo e Brasil Popular, além de partidos políticos, centrais sindicais e movimentos populares.

Imagem: Mídia Ninja/São Paulo

Ações de solidariedade e criatividade foram o marco nas manifestações democráticas. No vale do Anhangabaú, a CUT-SP e organizações parceiras promoveram uma ação contra a fome, com doação de alimentos orgânicos para a população. Grandes personalidades políticas, como Fernando Haddad, garantiram presença na passeata.

No Rio Grande do Sul, o mau tempo fez com que as manifestações fossem canceladas em algumas cidades, como em Jaraguá do Sul, que mensagens críticas ao presidente foram espalhadas pelo centro. Já em Florianópolis, manifestantes passaram pelo centro e se concentraram num terminal da cidade. O movimento estudantil e o MST marcaram presença no ato.

Em Belo Horizonte, Porto Velho e no Ceará, as manifestações foram em defesa da vida, da democracia e pelo direito à comida, educação e saúde.

Imagem: Mídia Ninja/Belo Horizonte

Em Campo dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, houve feijoada e atividades culturais. As manifestações tiveram apoio de organizações, como o MST e centrais sindicais. 

Em Niterói, houve roda de conversa e distribuição de cestas de alimentos agroecológicos.

Já na capital carioca, cartazes e bandeiras diziam “Fora Bolsonaro” e defendiam a cultura, educação e saúde. Pelo percurso, diversos vendedores divulgavam produtos irônicos contra o governo. Pano de chão, camisa do presidente Lula, e outros artigos contrários a Bolsonaro, são destaques nas manifestações.

Um dos importantes artistas em destaque é Roosivelt Pinheiro, amazonense, radicado no Rio de Janeiro. É interessado em refletir o contexto político e social desde 2016 estrategicamente. Cria gravuras em serigrafia com textos e imagens de políticos corruptos envolvidos no Golpe parlamentar contra a presidenta Dilma Rousseff, e as imprime em panos de chão. Atuando diretamente nos espaços urbanos em ações diretas, vende esses panos de chão nas feiras livres e manifestações de rua a R$ 10,00 a unidade. Roosivelt conta que o trabalho iniciou em 2016 com o “Temer Golpista”. 

“A idéia é trabalhar com o conceito de #artedoméstica, que me permite entrar no espaço doméstico, lugar de muita violência. Faço panos de prato, de chão, camisetas e ecobags. As mensagens são de conscientização contra a violência, apesar de o pano de chão ser um tanto violento. 

A ideia é conscientização de liberdade, como a estampa de um pano de prato na que é com os desenhos da minha filha e o Artigo 5 da Constituição. Pretendo também trabalhar com a Lei Maria da Penha e o Estatuto da Criança e do Adolescente, dentre outras.”

Ele também conta que as vendas, como a do pano do Temer tiveram bastante saída, assim como o do “Bolsonazi”, que iniciou em 2017.  

“Agora com toda essas desgovernanças acrescentei o texto Genocida e as vendas aumentaram um pouco.”

Mesmo após um Dia da Independência intenso, o Pós-7 de Setembro foi marcado pela permanência de centenas de bolsonaristas que ameaçaram o bloqueio da Polícia Militar e ir até o prédio do STF. Com a chegada de um grupo de militares, a situação foi controlada. 

Durante o 7 de Setembro, diversas personalidades se posicionaram sobre o assunto. Apesar do fracasso, os atos do 7 de Setembro foram uma forma de circular ideologias fascistas livremente. Contudo, histórias como a de Roosivelt, devem ser somadas às dos brasileiros que foram à luta pela dignidade do país. Inclusive àqueles que participaram do panelaço contra o Governo, que ocorreu na noite de terça-feira (7) pelo país. Doando, criando, gritando. 

São formas de luta e retratos de resistência contra ataques à integridade brasileira, do qual insistem em dizer que é sobre liberdade de expressão. A liberdade e democracia que é estampada, e esconde a realidade de um país em pedaços, só é recuperada com a real consciência social-política de um povo. E essas histórias serão parte da recuperação da nossa bandeira.