Como será o final do ano para os brasileiros que perderam entes queridos para a Covid-19?

Ninguém sabe a resposta. Aliás, parte da “naturalização” dos mais de 600.000 mortos pela doença, são mais que um gatilho para a população, ainda mais para aqueles que perderam amigos e família.

O caloroso retorno das atividades presenciais — o famoso “novo normal”, não aquece o suficiente os corações dos familiares das vítimas. A estudante de psicologia, Julia Bonomo, destrincha este processo e diz que, primeiramente, é preciso que o luto seja vivido e não reprimido.

“Não é saudável esconder certos tipos de sentimentos, eles precisam ser externados, além disso, o luto é um processo necessário que aflora o amadurecimento e autoconhecimento. A psiquiatra suíço-americana Elisabeth Kübler-Ross em seu livro “Sobre a Morte e o Morrer” de 1969, descreve cinco estágios do luto, são eles:

1o – negação
2o – raiva.
3o – barganha
4o – depressão
5o – aceitação”

Julia ainda ressalta: “Apesar de cada indivíduo ter seu tempo de viver o luto, ele tem inicio meio e fim, se o processo da depressão se prolongar e não chegar o estágio da aceitação ou houver muita dificuldade de se adaptar a nova realidade é importante buscar ajuda psicológica. Esse estado é chamado luto patológico, ele ignora todas as etapas que necessitam ser vividas, nele o processo de luto não termina e isso acaba interferindo negativamente na vida e nas atividades diárias da pessoa.”

Para Butler, as diferentes formas de viver o luto também demonstram as desigualdades sociais — enquanto algumas pessoas têm amplo direito de serem enlutadas, outras não o têm e, por isso, as suas mortes seriam mais naturalizadas.

É possível pensar que a morte de uma pessoa não é somente um acontecimento clínico, mas também algo que diz respeito à política e à ética, já que o modo de tratar essas perdas varia a depender de quem morreu, diz Carla Rodrigues, professora de Filosofia na UFRJ ao Estadão.

O luto no contexto da Covid ainda traz uma peculiaridade que, para a mesma, se assemelha à de uma situação de guerra. A experiência de perder sucessivamente um ou diversos entes queridos, como aconteceu com algumas famílias, gera situações muito específicas e diferentes do normal.

Luiz Carlos Azedo, jornalista do Correio Braziliense, em sua coluna relata que, o luto ocorre porque a perda física do ente querido não elimina o afeto. É uma ausência de difícil aceitação no tempo em que ocorre, porque o amor sobrevive. Isso gera uma negação, que se manifesta de forma silenciosa, muitas vezes, como fuga da realidade; num segundo momento, vem a revolta, muitas vezes inconsciente e inexplicável. Leva tempo para que as pessoas superem a depressão subsequentemente e aceitem a perda, para que a vida plena se restabeleça. Mas não existe esquecimento. Aceitar não é deixar de sentir. O luto se torna um marco na vida pessoal. A resiliência diante da morte também gera simpatia ou engajamento em movimentos que sejam antítese da sua causa. Na pandemia, a naturalização das mortes pode ser também uma fase de um luto coletivo. Muito mais amplo e profundo.

A entrevistada, Julia Bonomo, sugere algumas maneiras saudáveis de lidar com o luto.
• Não se cobre pelo tempo tirado para viver o luto, dê tempo a si mesmo
• Ignorar a dor pode trazer consequências piores no futuro, portanto não menospreze
seus sentimentos
• Se ocasionalmente você se sentir confortável, passe seu tempo com amigos e familiares, caso contrário, não há problema em se distanciar um pouco e garantir sua privacidade. Mas nunca deixe, mesmo que aos poucos, de tentar voltar a rotina, procure hobbies novos, se exercite e ocupe sua mente com coisas que goste.

Na pandemia, a AVICO Brasil foi criada, para dar apoio emocional às pessoas que ainda
não conseguem sair do luto.

“Alguns desejam apenas compartilhar a dor enquanto outros pedem apoio para lutar judicialmente por direitos — seja porque perderam seus empregos após curar-se da doença, por não conseguirem provar suas sequelas para alcançar uma licença pelo INSS ou porque perderam parentes que eram as principais fontes de renda e que agora correm até risco de despejo por não conseguirem pagar o financiamento de casa”, diz Paola, assistente social em entrevista ao El País.

“A associação foi fundada em 08 de abril de 2021, na cidade de Porto Alegre/RS, a partir da indignação de dois defensores dos Direitos Humanos, Gustavo Bernardes e Paola Falceta, com a ineficiência e negligência do Estado diante das múltiplas consequências da pandemia de covid-19 na vida dos brasileiros.

Promover debates e discussões sobre o enfrentamento à pandemia da Covid-19 e suas consequências físicas e emocionais; Promover e defender a saúde pública, o Sistema Único de Saúde (SUS) e o Sistema Único de Assistência Social (SUAS); Promover e defender a Política Nacional de Imunização (PNI); Apoiar a pesquisa e o desenvolvimento de ações de enfrentamento a Covid-19; Promover o apoio jurídico e psicossocial para as vítimas (sobreviventes) e familiares de vítimas da Covid-19, através dos grupos de apoio”, segundo a história da empresa, disponível no site.

Por fim, para Mariel Corrêa de Oliveira, os atravessamentos causados pela pandemia podem implicar diretamente nos mediadores do luto podendo interferir de forma negativa nas tarefas do mesmo, trazendo assim implicações para a saúde mental dos indivíduos enlutados e a atenção primária à saúde, por sua atuação territorial, bem como por suas características essenciais de acesso aberto e cuidado longitudinal. Considerando que nesse
contexto aumentam suas possibilidades, entendendo esse luto como um processo mais intenso e duradouro, pois “em pandemia temos o processo de luto sofrendo atravessamentos, com desdobramentos que potencializam o risco de agravar os sofrimentos psíquicos individuais e coletivos” (Fiocruz, 2020, p.2).

[…] Entender que todos estamos vivenciando um luto coletivo e como podemos agir com respeito aos nossos próprios sentimentos e com a dor do outro é de extrema importância para que possamos enfrentar melhor o sofrimento que a pandemia vem produzindo, como o luto abordado neste ensaio.

Mica: os bastidores do brilho da indústria da beleza

Lábios carnudos, pele aveludada e rosto simétrico são atributos de dar inveja à Geração Z nos dias de hoje. O segmento da beleza é uma das áreas mais exploradas de criação de conteúdo da internet – um exemplo disso são as inúmeras trends nos aplicativos de compartilhamentos de vídeo, como Instagram e TikTok. A influência das blogueiras no ramo também aumenta significativamente o consumo dos itens de maquiagem e skincare.

O grande sucesso da indústria da beleza é capaz de ‘maquiar’ as atrocidades que acontecem durante a produção do brilho e do glamour de cada produto.

Um dos ingredientes mais presentes nos iluminadores, sombras e brilhos labiais é a mica, um mineral escamoso natural, muito comum na Índia. Mas, antes que a mica seja processada e acabe em produtos de beleza, ela precisa ser extraída. O que muitos não sabem é que, na maior parte das vezes, os responsáveis por extraí-la do solo são as crianças.

Apesar do fato de que a mineração da mica representa sérias ameaças à saúde e segurança das crianças, as famílias dependem de sua extração para obter renda. A maioria das comunidades que vivem nas proximidades das minas de mica estão presas em um ciclo interminável de pobreza, exploração e abuso, no qual todos os dias são uma luta para sobreviver. Muitas famílias vivem à beira da fome, portanto não é incomum que as crianças abandonem a escola e se envolvam no trabalho infantil.

Estima-se que 22.000 crianças de até quatro anos trabalham em minas de mica em Jharkhand e Bihar e, devido à natureza ilegal e secreta do trabalho infantil, os números exatos são desconhecidos. A maioria das crianças que trabalham nas minas ganha cinquenta rúpias por dia, o equivalente a cerca de setenta centavos. Por outro lado, os atacadistas podem ganhar mais de mil dólares por 1 kg de mica de boa qualidade. Isso ilustra a escala de exploração e horrendas violações dos direitos humanos que ocorrem nas jazidas.

Trabalho infantil nas minas de mica em Madagáscar. Foto: Jan Joseph Stok, Terre des Hommes
Trabalho infantil nas minas de mica em Madagáscar. Foto: Jan Joseph Stok, Terre des Hommes.

A mineração ilegal de mica está associada a vários perigos para a saúde e segurança das crianças. A exposição constante à poeira pode causar doenças respiratórias e passar horas cavando o solo com as mãos desprotegidas coloca-os em risco de infecções e cortes de pele. Além disso, as minas frequentemente desabam, ameaçando a vida das crianças.

Quando os poços de mineração desabam, as crianças ficam presas sob as rochas e, com os locais sem supervisão, não há como obter ajuda adequada a tempo. As famílias vivem com medo constante de perder seus filhos e, como a mineração não é regulamentada, elas não têm direito a qualquer indenização em caso de acidentes. Trabalhar em minas ilegais também torna as crianças vulneráveis ao abuso sexual e físico ou ao tráfico de pessoas.

“Corri até a mina e vi minha filha deitada ali. Havia uma grande pedra em cima dela, e ela já estava morta”, conta uma mãe arrasada. A mulher é mãe de uma menina que perdeu a vida por conta do desabamento de um túnel numa mina. Ainda assim, a mãe acrescenta que como eles não têm outras opções, o resto da família, incluindo sua segunda filha, continuou a trabalhar no local após o acontecimento doloroso.

A Reuters, maior agência de notícias do mundo, informou que o governo de Jharkhand quer legalizar o setor, mas o processo está se arrastando. Se mais regulamentos fossem implementados, a mineração de mica criaria mais oportunidades de emprego para os moradores, dando-lhes melhores salários e diminuindo a necessidade de envolvimento das crianças. Por sua vez, as crianças teriam uma chance de um futuro que não envolva a sua própria exploração.

Para ajudar a acabar com o ciclo de abuso na mineração, algumas empresas de beleza têm explorado o uso da substância sintética. À primeira vista, parece uma solução sustentável: como a mica sintética é feita em laboratório, não há necessidade de trabalho infantil. Na realidade, porém, sua cadeia de suprimentos nem sempre é transparente e não há garantia de que o tipo alternativo do material seja totalmente livre de trabalho infantil.

Além disso, pode-se pensar que, como usuários finais que compram cosméticos de mica, nos tornamos responsáveis por contribuir para o trabalho infantil. Embora certamente haja alguma verdade nisso, na Índia, a vida de comunidades inteiras gira em torno da extração de mica. Portanto, abandonar completamente esses produtos significaria privar as famílias de sua única atividade geradora de renda.

Por mais explorador que seja o trabalho na mineração, ele permite que milhares de famílias sobrevivam. Sem a mica, a pobreza e o sofrimento em Bihar e Jharkhand atingiriam níveis inimagináveis. Portanto, em vez de apenas boicotar produtos que contenham mica, devemos intensificar os esforços para que sejam estabelecidos uma cadeia de abastecimento limpa, regulamentos para as minas de mica e uma remuneração justa para que as crianças não tenham que trabalhar.

Fonte: Fairplanet/Tradução e Adaptação por Louize Lima

Independência do Brasil: Por um Brasil independente da anti-democracia

Antidemocracia em fracasso

Por conta do 7 de setembro, Dia da Independência do Brasil, manifestações contra e a favor do presidente Bolsonaro foram realizadas em todo o país. As de maior destaque foram nas cidades de Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro. Este tema ganhou repercussão nas últimas semanas, devido à tensão política no país, provocada por ameaças de intervenção militar pelo presidente e seus apoiadores.

No Rio de Janeiro, manifestantes protestaram a favor da liberdade e contra o passaporte da vacina, que valerá a partir do dia 15. O ato foi em Copacabana, com direito à música e discursos anti-democráticos. Cartazes também pediam por uma nova constituição, a criminalização do comunismo, o fim do pedágio e do IPVA para motociclistas.

Em Brasília, todos os militares se reuniram para garantir a segurança da cidade. Os manifestantes chegaram na parte da noite do dia anterior (6), no palácio do Itamaraty e invadiram o bloqueio, para ocupar a Esplanada dos Ministérios. Apesar do acesso de veículos estar interrompido, carros e caminhões também se transferiram para o local. Vídeos divulgados pela imprensa e que circulam nas redes sociais, mostram que a retirada das grades de contenção e barricadas não parece ter encontrado forte resistência por parte dos policiais. Na parte da manhã (7), houve discurso de Bolsonaro, que apostou em um tom messiânico nas palavras, com direito a chegada na Esplanada em um Rolls-Royce, dirigido pelo ex-piloto da Fórmula 1, Nelson Piquet.

Imagem: Paulo Lopes/São Paulo

Na capital paulista, a Polícia Militar estimou que cerca de 125 mil pessoas foram às ruas por conta do Dia da Independência e também demonstrar apoio ao atual governo. Houve na parte da tarde um discurso do presidente, que insistiu em pautar ações anti-democráticas e atacar o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes. Trajados com as cores da bandeira e com cartazes contra a imprensa, o STF, e a esquerda, a maioria dos manifestantes não fizeram uso de máscara. Duas pessoas foram presas por furto de celular, e uma foi ferida por um drone.

Em Belo Horizonte, a concentração no Mineirão reuniu apoiadores do presidente usando camisas com os dizeres “Meu partido é o Brasil”, “sorria, não se mate” e “a vontade do povo é soberana”. Também exibiram cartazes evidenciando “STF com juízes de carreira”. A jornalista Malu Gaspar, do O Globo, informou que as manifestações impediram que chegassem cerca de 280 mil doses de vacina na capital, por temerem “represálias”. Cerca de 2,6 milhões de doses estão aguardando liberação para estados do país todo.

Na Bahia, manifestantes se reuniram no Farol da Barra, em Salvador, e pediram reformulação do Supremo, uso da força e voto auditável. O calor da manhã fez com que duas mulheres passassem mal, e foram atendidas pelo Corpo de Bombeiros. Os manifestantes caminharam até o Morro do Cristo, onde encerraram o evento.

Em Santa Catarina, a chuva não impediu que os manifestantes caminhassem. Quatro rodovias foram bloqueadas, inclusive importantes acessos em diferentes cidades do estado. Manifestantes também pediram por ações anti-democráticas. 

Em Goiás, manifestantes usaram máscara e diziam que Bolsonaro era a esperança do Brasil. O evento acabou às 13:30 da tarde.

Apesar dos discursos e cartazes que feriam a Constituição Brasileira, e poucas ocorrências nas manifestações, autoridades garantem que os protestos pelo país foram pacíficos. Embora o público atraído seja de apenas 6% do esperado.

 O Grito dos Excluídos pelo país

Em todo o país, também foram organizadas manifestações contra o governo Bolsonaro. O “Grito dos Excluídos” é um ato que denuncia as condições brasileiras há quase 30 anos. Os protestos pelo “Fora, Bolsonaro” são convocados pela Campanha Nacional Fora Bolsonaro, composta pelas frentes Povo Sem Medo e Brasil Popular, além de partidos políticos, centrais sindicais e movimentos populares.

Imagem: Mídia Ninja/São Paulo

Ações de solidariedade e criatividade foram o marco nas manifestações democráticas. No vale do Anhangabaú, a CUT-SP e organizações parceiras promoveram uma ação contra a fome, com doação de alimentos orgânicos para a população. Grandes personalidades políticas, como Fernando Haddad, garantiram presença na passeata.

No Rio Grande do Sul, o mau tempo fez com que as manifestações fossem canceladas em algumas cidades, como em Jaraguá do Sul, que mensagens críticas ao presidente foram espalhadas pelo centro. Já em Florianópolis, manifestantes passaram pelo centro e se concentraram num terminal da cidade. O movimento estudantil e o MST marcaram presença no ato.

Em Belo Horizonte, Porto Velho e no Ceará, as manifestações foram em defesa da vida, da democracia e pelo direito à comida, educação e saúde.

Imagem: Mídia Ninja/Belo Horizonte

Em Campo dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, houve feijoada e atividades culturais. As manifestações tiveram apoio de organizações, como o MST e centrais sindicais. 

Em Niterói, houve roda de conversa e distribuição de cestas de alimentos agroecológicos.

Já na capital carioca, cartazes e bandeiras diziam “Fora Bolsonaro” e defendiam a cultura, educação e saúde. Pelo percurso, diversos vendedores divulgavam produtos irônicos contra o governo. Pano de chão, camisa do presidente Lula, e outros artigos contrários a Bolsonaro, são destaques nas manifestações.

Um dos importantes artistas em destaque é Roosivelt Pinheiro, amazonense, radicado no Rio de Janeiro. É interessado em refletir o contexto político e social desde 2016 estrategicamente. Cria gravuras em serigrafia com textos e imagens de políticos corruptos envolvidos no Golpe parlamentar contra a presidenta Dilma Rousseff, e as imprime em panos de chão. Atuando diretamente nos espaços urbanos em ações diretas, vende esses panos de chão nas feiras livres e manifestações de rua a R$ 10,00 a unidade. Roosivelt conta que o trabalho iniciou em 2016 com o “Temer Golpista”. 

“A idéia é trabalhar com o conceito de #artedoméstica, que me permite entrar no espaço doméstico, lugar de muita violência. Faço panos de prato, de chão, camisetas e ecobags. As mensagens são de conscientização contra a violência, apesar de o pano de chão ser um tanto violento. 

A ideia é conscientização de liberdade, como a estampa de um pano de prato na que é com os desenhos da minha filha e o Artigo 5 da Constituição. Pretendo também trabalhar com a Lei Maria da Penha e o Estatuto da Criança e do Adolescente, dentre outras.”

Ele também conta que as vendas, como a do pano do Temer tiveram bastante saída, assim como o do “Bolsonazi”, que iniciou em 2017.  

“Agora com toda essas desgovernanças acrescentei o texto Genocida e as vendas aumentaram um pouco.”

Mesmo após um Dia da Independência intenso, o Pós-7 de Setembro foi marcado pela permanência de centenas de bolsonaristas que ameaçaram o bloqueio da Polícia Militar e ir até o prédio do STF. Com a chegada de um grupo de militares, a situação foi controlada. 

Durante o 7 de Setembro, diversas personalidades se posicionaram sobre o assunto. Apesar do fracasso, os atos do 7 de Setembro foram uma forma de circular ideologias fascistas livremente. Contudo, histórias como a de Roosivelt, devem ser somadas às dos brasileiros que foram à luta pela dignidade do país. Inclusive àqueles que participaram do panelaço contra o Governo, que ocorreu na noite de terça-feira (7) pelo país. Doando, criando, gritando. 

São formas de luta e retratos de resistência contra ataques à integridade brasileira, do qual insistem em dizer que é sobre liberdade de expressão. A liberdade e democracia que é estampada, e esconde a realidade de um país em pedaços, só é recuperada com a real consciência social-política de um povo. E essas histórias serão parte da recuperação da nossa bandeira.

Entenda a mobilização indígena e a sua importância

No domingo (22) teve início a maior mobilização nacional indígena desde a redemocratização do país, a “Luta pela Vida”. Cerca de 176 povos indígenas se reuniram na entrada do Palácio do Planalto em um acampamento organizado pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib).

A mobilização conta com uma programação intensa de plenárias, agendas políticas em órgãos do governo, embaixadas, marchas e manifestações. As atividades buscam reivindicar direitos e promover atos contra a agenda anti-indígena que está em curso no Congresso Nacional e no Governo Federal.

O principal foco do movimento é o julgamento que está em pauta no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o Projeto de Lei 490, que criou uma nova tese: “Marco Temporal”. Essa nova tese determina que uma terra indígena só pode ser demarcada se os povos indígenas originários comprovarem que estavam ocupando a área desde 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição Federal. 

“O pior é que este Marco Temporal acaba com o direito dos indígenas em relação às terras onde já vivemos. É o fim de todos os direitos que temos registrados em Constituição… Então, é como se estivessem reivindicando a nossa existência e a posse de mais de 300 territórios indígenas.” Conta Zaya, modelo de 20 anos, natural de Porto Velho (RO) e herdeira de raízes indígenas do povo Kamurape. Ela estreou na SPFW N51, que aconteceu em julho de 2021, pela coleção do estilista Isaac Silva.

Entenda mais sobre a PL 490 e a sua problemática

Outro ponto significativo na PL 490 que será alterado na Constituição caso seja aprovada é quanto ao uso exclusivo das áreas pelos povos tradicionais. As novas regras abrem espaço para a exploração hídrica, energética, mineral e garimpeira, e para a expansão da malha viária. Além disso, caso haja interesse do governo, a entrada e permanência das Forças Armadas e da Polícia Federal será liberada, sem a necessidade de consultar as etnias que estiverem habitando o local.

É importante salientar que a PL 490 é apoiada massivamente por ruralistas, madeireiros, latifundiários e garimpeiros, por conta da possibilidade de exploração de recursos e pelo fim da demarcação dessas terras. Já os territórios indígenas, que abrigam 80% da biodiversidade, são conhecidos culturalmente por preservarem as terras, a natureza e as diferentes formas de vida. O desmatamento e a extração de recursos destas terras podem colaborar significativamente para a devastação do país.

“O pior de tudo é que é a Bancada Ruralista que está por trás disso, são os garimpeiros, os latifundiários e eles querem tomar as terras… Isso vai aumentar o desmatamento no Brasil… Nós indígenas, além da nossa cultura, além da gente já lutar pela vida… Nós também temos uma preocupação com a mãe natureza.” Afirma Zaya.

Povos indígenas em risco

Atualmente, há 421 terras indígenas homologadas que somam mais de 106,6 milhões de hectares, nos quais vivem 466 mil indígenas, o que representa 13% do território brasileiro. Já as grandes propriedades rurais existentes ocupam mais de 20% do território do país, o que significa que existem mais terras nas mãos de empresários do que nas mãos de indígenas.

Muitos desses povos sofrem violências e remoções forçadas de seus próprios territórios. Durante a pandemia, estes atos aumentaram 135%. Até setembro de 2020 foram notificadas 33 ameaças de morte, 34 ameaças variadas, 20 homicídios culposos, 24 tentativas de assassinato, 10 casos de violência sexual, 13 casos de lesão corporal dolosa e 16 situações de racismo e discriminação étnico cultural.

Na última quinta-feira (26), o Ministro Fux adiou o julgamento pela 4ª vez em menos de dois meses, para a quarta feira (01).

“É um retrocesso do Governo Bolsonaro e o que a gente tá tentando fazer em Brasília é lutar, sabe? Para que não tomem as nossas terras, para que não terminem de matar o resto da população indígena que ainda existe no Brasil… A gente tá vivendo um momento muito sério, temos mais de 600 etnias em Brasília lutando pelas terras, lutando pela vida, então assim, é muita coisa em jogo.”

Povos indígenas ao redor do país, também manifestaram pela queda da PL 490. Todos estão em busca de preservar sua história de resistência, em meio ao genocídio indígena que acontece desde a colonização.

A aprovação deste projeto será entregar os recursos ambientais e territórios indígenas do país nas mãos de empresários do agronegócio, que não estão nem um pouco preocupados com a preservação da mãe natureza e, muito menos com a história brasileira.

“No dia do índio, as pessoas querem se vestir homenageando a nossa cultura, mas no dia de ir lá protestar, no dia de ir lá fazer a luta acontecer, as pessoas não se importam, então assim, a gente tá vivendo um momento que a gente não pode contar com ninguém, sabe? Ninguém desse governo quer nos ajudar… Nós somos minorias, nós não somos escutados. Eu sou uma das primeiras modelos na indústria da moda indígena aqui no Brasil. Além de eu ter nascido uma mulher indígena, eu tenho uma luta muito maior, sabe? Por sobrevivência, por inclusão, por diversidade, representatividade.”

Finaliza Zaya, que também é co-fundadora do coletivo @indigenasmodabr.

Confira um resumo, feito pela Zaya, de cada pauta que está em processo de aprovação

Marco Temporal: A tese do marco temporal, defendida por ruralistas e atores interessados em áreas de comunidades tradicionais, se baseia na ideia de que as populações indígenas só teriam direito à terra que estivessem ocupando em  5 de outubro de 1988. A data em questão marca a promulgação da atual Constituição Federal. Isso é um absurdo, pois todo território brasileiro é indígena e os invasores tentam decidir qual terra podemos ocupar, mas isso não cabe a eles.

PL 490: Indo contra a Constituição Federal Brasileira, o Projeto de Lei 490/2007, elaborado pela bancada ruralista, usa a ideia do Marco Temporal em sua estrutura e propõe que a demarcação das terras indígenas seja flexibilizada através de leis. O artigo 231 da Constituição reconhece que “as terras tradicionalmente ocupadas pelos índios destinam-se à sua posse permanente, cabendo-lhes o usufruto exclusivo das riquezas do solo, dos rios e dos lagos nelas existentes”. Joenia Wapichana, lembra que os direitos indígenas sobre suas terras são cláusula pétrea da Constituição e que, portanto, não podem ser alterados por interesses individuais.  Além disso, o projeto também prevê a abertura das terras indígenas para o garimpo que está destruindo cada vez mais a Amazônia Brasileira.

PL 191:  Esse projeto de lei legaliza a mineração ilegal e autoriza os crimes que já acontecem dentro de terras indígenas como a construção ilegal de hidrelétricas, que já atinge a Amazônia em Belo Monte, no Rio Xingu. Usinas instaladas em áreas de floresta tropical emitem quantidades consideráveis de gases de efeito estufa – dióxido de carbono e metano – como resultado, temos a degradação da vegetação alagada e do solo, além de rios poluídos. As comunidades sofrem com esses crimes que passam por cima da Constituição.

PEC 215: Uma das principais bandeiras da bancada ruralista, a PEC 215 transfere do Governo Federal (poder executivo) para o Congresso (poder legislativo) a atribuição de regularizar as Terras Indígenas, Territórios Quilombolas e Unidades de Conservação. Essa nova sistemática, se aprovada, deverá paralisar de vez o processo de oficialização dessas áreas protegidas, deixando-as vulneráveis para exploração.

PL 2633: O PL 2633/2020 não é apenas oriundo da MP 910, é um projeto de lei contaminado e permanece como “Pacote de Crimes Ambientais”, agora, “PL da Grilagem”.  A bancada ruralista deixa claro seu interesse no patrimônio nacional quando permite, por meio do PL, que criminosos que desmataram tenham direito a compra da terra a preço de “banana”. O projeto mantém a mesma linha de interesse da MP 910 que favorece o desmatamento, a grilagem e principalmente a violação de direitos dos povos originários com a invasão em áreas de preservação.

Apoie e acompanhe as manifestações:

@coiabamazonia

@apiboficial

@midianinjaoficial

@casaninjaamazonia

As Mulheres no Afeganistão

Há 4 meses, as tropas americanas começaram a deixar o Afeganistão e, desde então o grupo Talibã ganhou força.  Oficialmente reconhecido como um grupo terrorista pela União Europeia, Rússia, Canadá, Cazaquistão e Emirados Arábes Unidos, o Talibã ocupou o palácio presidencial, neste domingo (15), horas depois do presidente, Ashraf Ghani, deixar o país.

Milhares de afegãos correram para o aeroporto de Cabul para fugir do país, temendo pelo próprio futuro. O medo despertado na população, principalmente nas mulheres, diz respeito à interpretação radical e estrita da lei islâmica que o Talibã impõe, limitando diversos direitos das mulheres.

A linha do tempo

Os Estados Unidos e a URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) travaram uma imensa batalha política, social, econômica e tecnológica, que teve início no final da década de 1940, chamada Guerra Fria (1947-1991), a qual gerou intensos combates em várias partes do mundo.

Em 1979, se iniciou, entre os grupos extremistas e o governo, a Primeira Guerra do Afeganistão (1979-1989). Basicamente uma disputa entre os aliados ao marxismo-leninismo e os conservadores religiosos.  A URSS decidiu apoiar os primeiros, pois os mesmos estavam dentro da sua área de influência e então, invadiu o Afeganistão. Os EUA decidiram também tomar partido na guerra e começaram a auxiliar a oposição com apoio militar e econômico, como forma de deter o comunismo naquela região.

Em 1988, Mikhail Gorbachev, político russo, deu ordens para os soldados abandonarem o território, após a morte de 15 mil pessoas. Em 1994, o grupo Talibã se formou a partir de seminários religiosos e fundamentalistas. Foi então que, em 1996 ele assumiu o poder do país e passa a impor leis islâmicas estritas.

Os anos seguintes foram marcados por guerras civis e intervenções internacionais, mas foi por consequência do atendado das torres gêmeas, no dia 11 de setembro de 2001, que se iniciou a Segunda Guerra do Afeganistão (2001-2021). Osama Bin Laden, identificado como responsável, era chefe do grupo extremista Al-Qaeda, o qual matinha alianças com o Talibã.

Além dos Estados Unidos, a França, Alemanha e o Reino Unido entraram em guerra em apoio aos americanos. Então, juntos, eles conseguiram estabelecer, em Cabul, um governo apoiado pelo Ocidente. Porém, o grupo Talibã continuou com os ataques, atendados e expandiu sua influência política.

A guerra, que provocou 238 mil mortes, durou até o mês de julho de 2021, quando o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, decidiu retirar as tropas militares com o argumento de que “não havia nada mais a fazer”.

As Mulheres no Afeganistão

Antes da Guerra do Afeganistão em 1979 e a entrada do regime Talibã, o cenário no país parecia europeu. Cenas com mulheres de minissaia, crianças a dançar no recreio e balões coloridos nas ruas eram comuns, como mostram as fotografias de Bill Podlich, um professor catedrático norte-americano que em 1967 viajou para o Afeganistão a serviço da UNESCO durante dois anos.

Fotografia: Bill Podlich

Com a tomada do grupo entre 1996 e 2001, a educação das meninas e o trabalho feminino, foram proibidos no país. Para sair de casa ou viajar, elas precisavam ser acompanhadas por algum parente do sexo masculino, além de serem obrigadas a usar burcas em público. Mesmo após a retirada do grupo depois deste período, flagelações e execuções (incluindo penas como apedrejamento por adultério) continuam sendo práticas comuns em praças e estádios da capital.

O retorno do Talibã atualmente faz ressurgir, além deste fato, o aumento de imigrações para várias partes do mundo – sendo 80% mulheres e crianças. Apesar dos sinais da opressão já presente na sociedade afegã, há relatos de mulheres que pretendem resistir: a jovem Khurram, representante da juventude afegã na ONU, afirma que o mundo e os líderes afegãos abandonaram o país da maneira mais cruel que eles poderiam imaginar.

Já no primeiro dia de ocupação, existem relatos de agressão às mulheres, apagamento de suas imagens em espaços públicos, ameaça de casamentos arranjados, sequestros, além das horrendas imagens de cidadãos desesperados e caindo do avião da força aérea americana em decolagem.

Parafraseando Sabrina Fernandes, se a sua análise não é movida por solidariedade, ela sai e chega ao lugar errado. É inegável que as mulheres do Afeganistão precisam de ajuda internacional, assim como todos os cidadãos do país.

Não existe um movimento feminista justo quando e as mulheres oprimidas não recebem a devida atenção e apenas o padrão branco capitalista é priorizado. Cidadãs afegãs são vítimas de todas as atrocidades possíveis desde a tomada do país pelos Estados Unidos, que financiaram grupos extremistas como o Talibã. É necessário pensar coletivamente em políticas que possam ajudar essas mulheres, pois como dizia Audre Lorde, “não seremos livres enquanto outra mulher for prisioneira, mesmo que as correntes dela sejam diferentes das nossas”. 

Formas de Ajudar

De acordo com Bushra Ebadi, em uma thread no Twitter:

● Se você não é expert na história do Afeganistão, e não consegue entender o conflito político, não compartilhe as suas opiniões ideológicas sem base. 

● É importante ampliar vozes, trabalhos, e iniciativas de ativistas, líderes, jornalistas, artistas e pesquisadores no Afeganistão. 

● Descubra se o seu governo está deportando afegãos de volta para o Afeganistão. 

● Muitos governantes vêm deportando imigrantes, mas apenas a pouco tempo, vem parado. 

● Evite narrativas simplistas que maquiam a situação como se fosse uma disputa entre tribos e facções. 

● Cobre esforços dos EUA e seus aliados, para que eles possam ajudar os cidadãos afegãos e suas famílias. 

● Buscar profissionais da área da saúde mental para atuar no recebimento desses imigrantes também é essencial. 

● Contribua financeiramente os fundos de ativistas pelo mundo inteiro.

Mais informações e links para doações, acesse a thread no Twitter da @bushra_ebadi.