Violência obstétrica: o que é e como denunciar

Ontem (11) o anestesista Giovanni Quintella Bezerra foi preso após ser pego em flagrante estuprando uma grávida durante a cesariana. A equipe de enfermeiras que trabalhavam com ele desconfiaram de seu comportamento, principalmente por conta da alta dosagem de anestesia que ele aplicava nas pacientes, e decidiram gravá-lo durante o trabalho de parto da gestante. Assim que as funcionárias viram o conteúdo gravado, denunciaram a Polícia Civil e Giovanni foi indiciado por estupro de vulnerável, cuja pena varia de 8 a 15 anos de reclusão. 

A repercussão do crime gerou questionamentos sobre se havia ou não acompanhante no momento em que ocorreu o estupro. Em nota oficial emitida pelo Hospital da Mulher Heloneida Studart, de São João de Meriti (RJ), foi informado que a paciente estava sim acompanhada do marido. Porém, após o nascimento do bebê, o pai deixou o centro cirúrgico para acompanhar o filho até o berçário. Foi neste momento que o anestesista abusou sexualmente da vítima. 

Segundo a Lei Federal nº 11.108, de 07 de abril de 2005, mais conhecida como a Lei do Acompanhante, os serviços de saúde do SUS, da rede própria ou conveniada, são obrigados a permitir à gestante o direito à presença de acompanhante durante todo o período de trabalho de parto, parto e pós-parto. E, mesmo durante a pandemia da Covid-19, a OMS emitiu uma recomendação para que todas as gestantes, mesmo aquelas com suspeitas de contaminação ou até mesmo com a confirmação da infecção, teriam sim o direito ao acompanhante antes, durante e depois do parto.

Você sabe o que é a violência durante o parto?

A violência durante o parto ou a violência obstétrica é o termo utilizado para caracterizar abusos sofridos por mulheres durante a gestação, o parto e o pós-parto. Pode-se manifestar por meio da violência verbal, física, sexual ou por meio de intervenções e procedimentos desnecessários e realizados sem consentimento.  

Importante ressaltar que este termo não se aplica somente aos profissionais da saúde como médicos, enfermeiros e obstetrizes, mas também às falhas estruturais de clínicas e hospitais. 

Segundo pesquisa divulgada pela Fiocruz em 2021, a violência obstétrica atinge 36% das mulheres, tanto na rede pública quanto privada. Mesmo assim, o termo violência obstétrica não aparece no código penal ou civil nem é citado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e a Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia (FIGO).

Alguns exemplos de violência obstétrica:

  • Humilhações, xingamentos, comentários constrangedores e atos discriminatórios;
  • Episiotomia (corte na lateral da vagina) sem necessidade, sem anestesia e sem informar a mulher;
  • Ocitocina sem necessidade;
  • “Ponto do marido” para apertar a vagina após o parto;
  • Negar anestesia;
  • Manobra de Kristeller (pressão sobre a barriga da mulher);
  • Dificultar o aleitamento materno na primeira hora;
  • Cirurgia cesariana desnecessária;
  • Impedir a mulher de beber água ou se alimentar durante o parto;
  • Amarrar a mulher impedindo-a de se movimentar;
  • Abusar, importunar ou assediar sexualmente;
  • Alterar ou omitir informações. 

Como denunciar?

Caso a mulher sofra violência obstétrica, ela pode denunciar no próprio hospital que estava sendo atendida, nas secretarias Municipal, Estadual ou Distrital, CRM (Conselho Regional de Medicina) quando se tratar de profissional médico ou COREN (Conselho Regional de Enfermagem) quando a abordagem violenta venha de enfermeiro ou técnico de enfermagem. Denúncias também podem ser feitas pelo número 180 ou pelo Disque Saúde 136. O caso pode exigir a abertura de um boletim de ocorrência (BO) e a procura do Ministério Público, que tem o dever de fiscalizar os hospitais. 

A cultura patriarcal por trás da violência doméstica contra a mulher 

por Livia Mota e Sofia Marchetti

O isolamento social e confinamento aos quais a população brasileira foi submetida nos últimos dois anos por conta da pandemia de Covid-19, promoveu um aumento significativo nos casos de violência doméstica contra a mulher e, consequentemente, nos casos de feminicídio, que é o homicídio praticado contra a mulher em decorrência do fato de ela ser mulher (misoginia e menosprezo pela condição feminina ou discriminação de gênero, fatores que também podem envolver violência sexual) ou em decorrência de violência doméstica.

A violência doméstica é um fenômeno que não distingue raça, classe social, religião, etnia, gênero, orientação sexual, idade ou grau de escolaridade. Qualquer um pode passar por essa situação. Até mesmo Johnny Depp, ator consagrado e indicado ao Oscar três vezes, denunciou sua ex-namorada de agredi-lo verbalmente e fisicamente na antiga relação. No entanto, na maioria dos casos, as vítimas são mulheres – e essas ocorrências estão diretamente e, na maioria das vezes, ligadas ao feminicídio.

Uma pesquisa realizada pela Rede Nossa São Paulo em agosto de 2021, menos de um ano atrás, mostrou que 85% da população paulistana acredita que tenha aumentado a violência doméstica e familiar contra as mulheres na cidade. Mais de um terço alegou, também, ter presenciado ou ouvido falar de agressões contra mulheres próximo do local onde moram. 

Em contraponto a este fato, segundo um levantamento do G1, as denúncias de casos de feminicídio recebidas pelo Disque Denúncia cresceram 35% em São Paulo durante o mês de março de 2022. Em 2022, foram registradas o total de 57 denúncias contra 42 em março de 2021.

Porém, embora todas as mulheres possam ser alvo e sejam vítimas mais frequentes de casos de violência doméstica, há aquelas que se destacam; e números alarmantes são registrados.

A violência contra a mulher negra

Dentre os círculos mais vulneráveis, estão as mulheres pretas e pardas que se destacam com o maior número de casos. 

Elas representam 55% da população feminina da cidade. Na pesquisa realizada pela Rede Nossa São Paulo, é maior a quantidade de pessoas que se autodeclaram pretas ou pardas e que afirmam ter presenciado ou ouvido falar de casos de violência contra conhecidas.

Segundo informações do Mapa da Violência 2015, no período entre 2003 e 2013, o número de homicídios de mulheres negras saltou de 1.864, em 2003, para 2.875, em 2013. Em contraposição, houve recuo de 9,8% nos crimes envolvendo mulheres brancas, que caiu de 1.747 para 1.576 entre os anos. A maioria das vítimas de crimes violentos são mulheres jovens, pobres e negras. Embora esses dados sejam antigos, ainda se refletem nos dias atuais: segundo os dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2020, 17 milhões de mulheres foram vítimas de alguma forma de violência no Brasil – ao menos é o que afirma a Agência Câmara de Notícias.

Os gráficos a seguir mostram a porcentagem por segmento de sexo, idade e raça, de paulistanos que presenciaram ou souberam de casos de violência doméstica contra mulheres:

Fonte: Gráfico da pesquisa “Mulheres” feita pela Rede Nossa São Paulo
Fonte: Gráfico da pesquisa “Mulheres” feita pela Rede Nossa São Paulo

A deputada Tereza Nelma (PSDB-AL) lembrou, como parte dos 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra a Mulher, que esse tipo de agressão atinge 52% das mulheres pretas, 40% das mulheres pardas e 30% das mulheres brancas. A pandemia, ainda, afetou mais as mulheres negras, que são responsáveis por 61% dos 11 milhões de lares, regidos apenas por um dos pais. “Para além dos índices de violência, as mulheres negras também foram as mais afetadas pelos impactos socioeconômicos da pandemia, com a perda de emprego e renda e a impossibilidade de trabalhar fora de casa.”

A Coordenadora da Delegacia de Defesa da Mulher de São Paulo, Dra. Jamila Ferrari, também reforçou a informação. Segundo ela, as denúncias de violência doméstica são maiores entre vítimas negras ou pardas: 

Em uma análise superficial, considerando o público que nós atendemos, acredito que os motivos sejam históricos e sociais. Nós sabemos que a maioria das mulheres negras e pardas ainda vivem em comunidades, favelas e são de uma classe social mais baixa. Não significa que na classe mais alta não haja violência contra a mulher, existe, mas são formas diferentes de pedir ajuda. As mulheres socialmente mais pobres ou com baixa escolaridade só têm a polícia a recorrer. As mulheres de nível social mais alto, muitas vezes procuram outras formas de denúncia”.

A causa cultural

A violência contra a mulher não é um problema exclusivo do Brasil. Ela acontece ao redor do mundo todo e é resultado de uma cultura patriarcal que está intrinsecamente vinculada aos fundamentos da nossa sociedade. Essa cultura existe desde o início da humanidade e é responsável por privilegiar o homem em todos os sentidos e tratar com desigualdade as mulheres, considerando-as de gênero inferior. 

Por isso, durante muito tempo, o ser feminino foi tratado como um objeto, que servia apenas em benefício ao marido e aos filhos. Foi somente em 1970 que se começou a falar de feminismo em termos mundiais. Desde então, existe uma luta pela qual praticamente todas as mulheres participam pela igualdade de direitos. Mas, infelizmente, ainda existem inúmeros comportamentos e ideologias machistas que estão presentes no cotidiano e que são refletidos nos altos números de violência contra a mulher descritos acima. 

O problema é tão profundo, que se inicia na criação das mulheres: ensina que elas são dependentes de um homem, precisam ser ‘’salvas” por ele e construir uma família juntos. Por conta disso, a maioria dos relacionamentos entre homens e mulheres se constroem na ideologia de que o homem precisa “mandar” e a mulher “obedecer”. Não à toa são repletos de discussões e brigas causadas por comportamentos machistas que são praticados inconscientemente pelo homem e, por reflexos de uma criação patriarcal, absorvidos pela mulher como algo comum. 

Não é no início de um relacionamento que se inicia a agressão física. O abuso, muitas vezes, começa a partir de uma agressão verbal e psicológica. A psicóloga clínica, Joceline Conrado, explica que o relacionamento abusivo começa quando o outro começa a ter exigências demais com seu parceiro, ao ponto de praticar uma violência de gênero:

“Excesso de amor, excesso de cuidado, as limitações, comentários como ‘troca essa roupa’, ‘não vai nesse encontro’, são essas imposições que vão demarcando um processo em que o outro quer se apropriar das escolhas do seu parceiro, anulando totalmente a sua subjetividade.”

Crises de ciúmes, camufladas por “eu te amo muito, te quero só para mim” ou tentativas de anular a mulher como “eu te amo tanto, não quero que você trabalhe, vou te dar tudo o que quiser”. Assim, aos poucos, a mulher deixa de ter independência e não consegue ter o direito de ir e vir porque tudo vira briga.  E, em nome do amor, como a ensinaram, ela abre mão das mínimas coisas. 

É nessa hora que o abusador, ao perceber suas demandas aceitas, cria mais liberdade na relação e começa a se expressar de maneira mais autoritária, falando mal da família e amigos da mulher, tirando toda a sua rede de apoio. Junto disso, vem o gashlighting, que significa fazer a mulher acreditar que perdeu o senso crítico. Um claro exemplo é a famosa frase “eu te chamei de gorda, mas estava brincando, você parece uma louca”. Assim, ela vai desacreditando da própria percepção e ficando cada vez mais fragilizada dentro da relação.  

Portanto, são nessas atitudes que surgem os sinais de um relacionamento abusivo e, possivelmente, surge também o início de um ciclo de violência doméstica, descrita pela Jamila Ribeiro como “qualquer ação ou omissão baseada no gênero que cause à mulher morte, lesão, sofrimento físico, sexual, psicológico e dano moral ou patrimonial.”. 

Mas, para a mulher perceber que está dentro de um relacionamento, ela tem que passar por um processo difícil, pois existe a dependência financeira, a emocional, a psicológica, algumas vezes existem filhos e outras variáveis que tornam o término mais complicado. 

Joceline ainda explica que existem questões étnico raciais, de classe e de gênero, que dificultam a saída de um relacionamento abusivo e, também, implicam nos traumas que dele virão. 

“Se a gente pegar por exemplo uma perspectiva étnico racial: como é que mulheres pretas vivenciam o afeto? E, dentro de uma relação abusiva, como isso pode traumatizá-las ainda mais a se permitir e se perceber enquanto sujeito digno de ser amado? Existem diferentes traumas que podem implicar na mesma pessoa, inclusive traumas físicos como não conseguir ter outras relações, ter medo de se relacionar, de não confiar, de ter uma fragilidade do laço social com o outro. Essas questões ficam bem demarcadas.”

As consequências da violência contra a mulher são inúmeras. Mas, em geral, a maioria das vítimas são acometidas por quadros de depressão, ansiedade, síndrome do pânico, podendo chegar até ao suicidio. Por isso, é muito importante que elas percebam os sinais de um relacionamento abusivo no início e busquem ajuda, antes dele progredir para a agressão física.

O combate

Precisamos, juntas, diminuir a porcentagem de casos de violência doméstica. Por questões sociais, políticas, educativas, culturais e de proteção social. 

As Delegacias de Defesa da Mulher passaram a existir em 1985 e São Paulo foi o primeiro Estado no Brasil a contar com uma delegacia especializada no atendimento de mulheres vítimas de violência física, moral e sexual. Embora em 1996 as delegacias tenham aberto, também, para casos de violência contra crianças e adolescentes, o cerne é o mesmo: apoiar aqueles em situação de vulnerabilidade e promover a segurança a quem precisa. “Não tenham medo de denunciar. Quando você denuncia, você permite que o Estado esteja de olho nesse agressor, através das medidas protetivas de urgência. Assim, o Estado irá conseguir te proteger efetivamente.”, defende Jamila.

A Coordenadora da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) ainda ressalta que a culpa nunca é da vítima. Caso ela não queira se dirigir diretamente a delegacia, que ela ao menos procure um familiar, uma amiga ou uma assistente social que possa oferecer amparo, “para se sentir forte o suficiente para conseguir registrar esse boletim de ocorrência, pedir medida protetiva e ser, a partir de então, protegida pelo governo.”

Existem leis e programas que, assim como as DDMs, buscam fornecer apoio às mulheres em situação de risco. Jamila afirma que “no Estado de SP, pelo menos, nós temos diversas políticas públicas, tanto voltadas para a assistência social, quanto para saúde, quanto na segurança, que, de alguma forma, surtem efeito.”

A famosa Lei Maria da Penha, por exemplo, instituiu novas formas de reduzir esses tipos de violência de gênero e ainda criou providências que tendem a um atendimento mais rápido. As antigas medidas emergenciais de proteção, como o afastamento do agressor, não eram tão rápidas, porque as mulheres precisavam de um advogado para fazer qualquer pedido ao juiz; mas agora, o próprio delegado manda a solicitação e faz com que todos os trâmites do processo sejam mais rápidos e diretos.

Outro exemplo é o Programa Bem-Me-Quer, desenvolvido pela Secretaria de Segurança Pública em conjunto com a Secretaria da Saúde. O principal objetivo do projeto é dar atendimento a vítimas de estupro, atentado violento ao pudor, sedução ou outros crimes relacionados. São usadas integrações entre polícia, serviço médico, psicológico e jurídico, além de sempre levar a mulher ao Hospital Pérola Byington, o Centro de Referência da Saúde da Mulher.

Dados: Pesquisa “Mulheres” da Rede Nossa São Paulo

Segundo a pesquisa da Rede Nossa São Paulo, as mulheres defendem que a melhor maneira de combater a violência doméstica é o aumento das penas ao criminoso, seguido de uma maior aumento na proporção de mulheres que pedem por um treinamento mais adequado de funcionários, para que possam melhor acolher aquelas que procuram os canais de denúncia.

No entanto, o ideal seria que esses crimes não existissem. Queremos que os números e porcentagens cheguem a zero e, para isso, é necessário voltar a bater em uma tecla que sempre é levantada: a educação.

“A melhor maneira, na minha opinião, para se enfrentar a violência doméstica é a educação. Nós sabemos que políticas públicas salvam vidas, mas quando a política pública existe, normalmente o crime já aconteceu. Então nós precisamos impedir que o crime aconteça e, para impedir que o crime aconteça, nós precisamos modificar paradigmas principalmente com relação ao machismo, ao patriarcado e à ideia de que mulher é um ser inferior ao homem.”, defende Jamila.

A exploração das costureiras na indústria da moda em São Paulo

A indústria da moda é a que mais recebe denúncias por recrutar pessoas em situação insalubre e por utilizar mão de obra análoga à escravidão ou informalidade na legislação. Segundo dados sistematizados pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), mais de 1 milhão de mulheres trabalhadoras no setor têxtil do Brasil são informais.

A cadeia de produção das peças de roupas é complexa e longa, passa por etapas intensas desde o plantio de insumo, tratamento dos fios, tecelagem, tinturaria até a confecção. Em busca de minimizar os custos da mão de obra, grande parte das empresas terceirizam a sua produção e as terceirizadas também “quarteirizam” o trabalho.

A superexploração do setor têxtil é recorrente desde o século passado no Brasil, mas, em São Paulo, o crime está fortemente vinculado a questão da imigração: 93,1% das mulheres resgatadas entre 2003 e 2018 eram imigrantes.

Na grande maioria dos casos isso se dá na atividade da costura, fundamental para a indústria da moda e tradicionalmente conhecida como feminina, porém é uma das etapas menos valorizadas por fazer uso extensivo de mão de obra. Por conta dessa desvalorização, a costura é considerada uma das grandes portas de entrada da mulher pouco qualificada para o mercado de trabalho. Não é mera coincidência que grande parte dos trabalhadores resgatados de condições análogas à escravidão inseridos na indústria da moda seja feminina, imigrante e indígena. 

Elaine Paixão, nascida em Belém do Pará e morando em São Paulo há 16 anos, conta que começou a ter interesse pela costura ao fazer roupas para as duas filhas, descosturando as peças e aprendendo a fazer os moldes por conta própria. Seu primeiro trabalho como costureira foi a venda de panos, mas hoje em dia, já conta com um ateliê próprio.

Elaine Paixão. [Imagem: Reprodução Instagram PROVOKE, @prvk]

Sua jornada em São Paulo no ramo da costura foi grande e ainda continua, porém, de acordo com Elaine, é uma história de superação. Em um de seus primeiros trabalhos, ganhava de R$ 30 a R$ 40 reais por dia, só que a pressão para trabalhar é a que mais pesava. No seu primeiro dia, a dona do local se colocou em frente a máquina de costura para observá-la trabalhando. Mesmo com 1h de almoço, Elaine não costumava ficar fora, pois tinha medo de não receber seu pagamento no fim do dia.

“Eu precisava trabalhar porque a minha filha era muito pequena e eu sou sozinha, não tenho marido, se eu não trabalho, eu não tenho dinheiro.”, conta.

 No trabalho atual, Elaine ganha por peça, mas afirma que a pressão continua sendo muito grande. Com uma alta demanda e um curto prazo de tempo para entrega, teve que trabalhar em finais de semana, madrugadas e, algumas vezes, tendo que ir dormir apenas no período da manhã.

Ela já recebeu propostas para trabalhar em lojas grandes de departamento, mas não aceitou pelo salário baixo. Alguns lugares chegavam a oferecer como pagamento 25 centavos por peça.

“Tem lojas grandes que, por exemplo, vendem uma calça por 300 reais, mas a costureira ganha R$4 pela peça.”

Mas, o que Elaine mais sente falta mesmo, é a valorização do trabalho da costureira. A solução que ela encontrou foi investir em seu próprio ateliê porque percebeu que as marcas valorizam mais quando a costura não é realizada em casa e sim, em um micro comércio.

Em uma pesquisa feita através de um questionário, foi relatado que 46,2% das pessoas antes de comprar uma peça de roupa, não questionam quem costurou e em quais condições. E, mesmo que soubessem que a roupa foi confeccionada com mão de obra em condições análogas à escravidão, 19,2% das pessoas compraria a peça, se a quisessem muito.

A falta de uma fiscalização rigorosa é o que acarreta nos inúmeros casos de exploração na indústria da moda em São Paulo. Mas também é imprescindível destacar que, além de ser responsabilidade social das marcas garantirem condições justas às costureiras, é papel do consumidor cobrar atitudes das empresas. Afinal, são as mudanças no comportamento dos consumidores que traçam o caminho à construção de uma moda e sociedade mais justa e sustentável.

A História das Paralimpíadas: O Brasil e o mundo

Em 1944, o médico alemão Ludwig Guttman foi chamado pelo governo britânico para chefiar o Centro Nacional de Traumatismos do hospital Stoke Mandeville, que ficava em uma vila no sudeste da Inglaterra. Lá ele passava a maior parte do tempo acolhendo um grande número de soldados feridos pelos combates da 2ª Guerra Mundial.

Guttman, empenhado em encontrar novas maneiras de tratar os ferimentos e os casos de paraplegia dos soldados, começou a usar o esporte como tratamento e ferramenta de motivação para seus pacientes. Os arremessos de bola eram praticados como exercício para os membros superiores e, logo produziram um aumento de resistência física e de autoestima nos feridos.

Jogos Paralímpicos
Roma, 1960

Foi então que, em 1948, na cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Londres, Ludwig Guttman organizou a primeira competição esportiva exclusiva para pessoas com deficiências físicas, chamada Jogos de Stoke Mandeville, em homenagem ao hospital.

Em 1952, a Holanda aderiu ao movimento e os Jogos se tornaram internacionais. Este fez com que os jogos no estilo olímpico, para atletas deficientes, ganhassem bastante notoriedade e, em 1960, em Roma, foram realizados os primeiros Jogos Paralímpicos oficiais da história, com 400 atletas de 23 países.

A História do Brasil nos Jogos

No início dos anos 50, Robson Sampaio de Almeida, um alagoano que vivia nos Estados Unidos, sofreu um acidente e ficou paraplégico. Ele passou por diversos tratamentos no hospital, mas o que realmente o transformou, foi o basquete em cadeira de rodas. Motivado em ajudar brasileiros, Robson voltou ao Brasil e, em 1958, fundou no Rio de Janeiro o Clube de Otimismo, o primeiro movimento organizado de prática esportiva para pessoas com deficiência. 

Mesmo a prática já sendo comum no Brasil, o país só participou de sua primeira Paralimpíadas em 1972, em Heidelberg, na Alemanha. 20 atletas homens embarcaram para participar nas competições de tiro com arco, atletismo, natação e basquete com cadeira de rodas.

Mas o país só subiu ao pódio na edição de 1976, em Toronto, no Canadá, quando justamente Robson Sampaio, acompanhado de Luiz Carlos Costa, ganharam a medalha de prata em uma prova de Lawn Bowls.

Em 1995, após o Brasil ter conquistado 63 medalhas nos Jogos Paralímpicos, o Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) foi fundado no Rio de Janeiro. Até hoje ele atua como Confederação Nacional de cinco modalidades esportivas paralímpicas: atletismo, esgrima em cadeira de rodas, halterofilismo, natação e tiro esportivo. Tem como missão promover o esporte Paralímpico da iniciação ao alto rendimento e a inclusão da pessoa com deficiência na sociedade.

Em 2001, foi sancionada a Lei Agnelo/Piva, que estabelece o repasse de parte da arrecadação das loterias federais para os comitês olímpico e paralímpico, proporcionando diversos avanços estruturais e técnicos ao paradesporto nacional.

O Primeiro Centro de Treinamento Paralímpico do Brasil foi construído quando o país foi escolhido para sediar os Jogos Paralímpicos de 2016. A obra foi orçada em cerca de R$ 260 milhões e fez parte do Plano Brasil Medalhas do Governo Federal. O CT Paralímpico conta com instalações esportivas indoor e outdoor, para competições, intercâmbios e treinamentos de atletas de seleções em 15 modalidades.

Lorena Silva Spoladore e Renato Ben Hur
[Imagem: Alessandra Cabral]

É essencial salientar a importância da visibilidade do esporte paralímpico, pois em um país desigual como o Brasil, no qual pessoas com deficiência ainda sofrem preconceitos, ele carrega consigo valores fundamentais para toda sociedade como acessibilidade, representatividade e inclusão. O movimento paralímpico reitera o caráter democrático do esporte.

Felizmente, a representatividade do Brasil no esporte cresce ano a ano. Ao longo das 12 edições, os atletas brasileiros já conquistaram 301 medalhas, sendo 87 de ouro, 119 de prata e 95 de bronze.

Na edição de 2021 dos Jogos Paralímpicos realizados em Tóquio o Brasil, com 260 atletas, tem a 5ª maior delegação. Os atletas buscam o sonho de conquistar a 100ª medalha de ouro da história das Paralímpiadas.

As competições já estão sendo transmitidas pelos canais Globo e SporTV.

Bora torcer, Brasil?

A publicidade da beleza

A indústria da beleza no Brasil cresce ano a ano, sendo o país considerado o quarto maior mercado mundial de cosméticos e cuidados pessoais. Chegou a atingir R$34.718 bilhões em 2020, de acordo com pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Franchising (ABF).

Com as redes sociais e as influencers digitais ganhando força, meninas de todas as idades se deparam 24h por dia com uma variedade imensa de cosméticos, produtos e procedimentos estéticos, desde o preenchimento labial até a lipoaspiração. Essa venda desenfreada de produtos que deixam as mulheres “mais lindas”, acarreta na consequente problematização dos corpos femininos. Ao se olharem no espelho, as mulheres encontram diversos “defeitos” que fogem do padrão divulgado pela imprensa.

Kim Kardashian e sua influência na mídia fez com que o procedimento de lifting de glúteos aumentasse 256% de 2000 para 2018, de acordo com a American Society. Um estudo feito em 2019 na Aesthetic Plastic Surgery constatou que após Kylie Jenner confessar que fez aumento labial em 2015, as pesquisas por preenchimento labial aumentaram 3.233%.

Já no Brasil, Flávia Pavanelli e Virginia Fonseca, ambas influencers digitais, são conhecidas por promoverem um padrão de beleza que só pode ser alcançado através de cirurgias estéticas. Ambas contam com mais de 18 milhões de seguidores no Instagram.

Junto da venda desse ideal de beleza vem a promessa de que a mulher alcançará sucesso, felicidade e amor ao adquirir essa aparência estética impecável. A publicidade passou a exercer um poder sobre as mulheres, reforçando estereótipos e contribuindo para a expansão da indústria dos cosméticos, da dieta e das cirurgias plásticas. A aparência se tornou uma dimensão fundamental na configuração feminina.

(Novo logo e slogan da Clarins 2021, “viva lindamente”)

Mas você já se perguntou quem inventou que as mulheres deveriam modificar seus traços, seus corpos, se esconder atrás de maquiagem e passar por procedimentos que afetam sua saúde mental e física por ordem da beleza?

A CRIAÇÃO DO MITO

 Até a metade do século XX as mulheres eram apenas donas de casa e as revistas femininas cobriam matérias sobre como ser uma boa mãe, uma boa esposa e divulgavam diversos produtos domésticos. Mas com o início da Segunda Guerra Mundial e a necessidade da mão de obra feminina nas fábricas, iniciou-se um novo período na história.

Com o fim da Guerra, as mulheres não quiseram mais voltar para dentro de casa e abdicar da liberdade de conquistar o próprio dinheiro. Por isso, as revistas femininas sofreram uma grande queda de vendas e as mulheres pararam de comprar os produtos domésticos que sustentavam a renda dos anunciantes. A cultura patriarcal e os anunciantes das publicações se depararam com um problema.

A inserção de uma nova ideologia na vida das mulheres se tornou necessária, uma neurose portátil que andaria junto delas no trabalho. Uma cultura de substituição foi criada para evidenciar um “problema” que não existia até então: a indústria do emagrecimento e a do rejuvenescimento ganhou vez. Antes, a mulher não podia parar de ter filhos e cuidar da casa. Hoje, a mulher não pode parar de ser linda.

(Anúncio veiculado no ano de 1957)

As revistas femininas há mais de um século vêm sendo uma das forças mais atuantes no sentido de alterar os papéis das mulheres, e durante todo esse período – hoje mais do que nunca – elas sempre emprestaram charme àquilo que o sistema econômico, seus anunciantes e, durante a guerra, o governo precisavam obter das mulheres naquele momento.” (O Mito da Beleza, p.100)

A indústria passou a investir em matérias que problematizavam o corpo feminino. O rosto e o corpo ideal surgiram e permearam através da mídia. Foram criadas narrativas em filmes, séries e programas, nas quais apenas a mulher “linda” conquista o sucesso e o amor que almeja. A maquiagem e a boa aparência passaram a ser exigidas no trabalho e as mulheres começaram a ser apresentadas umas às outras como rivais.

O tom das publicidades passou a ser intimista, individualista e otimista, dizendo para a mulher que ela deve estar em sua melhor forma e nada deverá impedi-la. Os cosméticos para a pele e corpo foram e continuam sendo vendidos como um ato de amor próprio e cuidado com si mesma.

(Nivea / Reprodução Instagram)
(Jeunesse / Reprodução Instagram)

Mas será que as mulheres precisam gastar tanto em produtos para que se amem e pratiquem o autocuidado?

Hoje, em pleno 2021, quase 40 anos após a criação do mito da beleza, nos deparamos com uma realidade em que cresce (apenas num período de 10 anos) em mais de 141% o número de procedimentos estéticos realizados entre jovens de 13 a 18 anos, segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP). Além disso, as mulheres têm 9 vezes mais anorexia e bulimia do que os homens e duas vezes mais compulsão alimentar. 

As mulheres estão cada dia mais insatisfeitas com seus rostos e corpos, comprando mais produtos e procedimentos para que se adequem a esse ideal e cada vez que chegam mais perto, ele muda.

Mas, será que as mulheres precisam mesmo apagar suas expressões e cortar seus corpos em nome da beleza, do sucesso e do amor? Ou será que todos nós devemos de uma vez por todas enxergar que a beleza não passa de um mito e que devemos nos unir e lutar pela liberdade do corpo feminino?!