Acessibilidade dentro do mercado da beleza

Uma das maiores popstars da geração, Selena Gomez, foi sofre com Lúpus, doença autoimune que causa enfraquecimento das articulações, entre outros efeitos no corpo. Pensando nisso, a cantora trabalhou para que as embalagens de produtos de sua marca Rare Beauty, sejam anatômicas e não demandem força, para a fácil utilização por pessoas com a mesma condição médica. 

No Brasil, o maquiador e comunicador Tassio Santos criou em 2020 o podcast Sentidos da Beleza, com objetivo de ensinar maquiagem e levar mais autonomia para pessoas cegas ou com baixa visão. Dois importantes passos no mercado da beleza e avanços na visibilidade para a causa. Ainda assim, muito trabalho deve ser feito para termos uma indústria de faro inclusiva.

Relatório de 2020 do World Health Organization (WHO) mostra que no mundo existem cerca de 1 bilhão de pessoas com algum tipo de deficiência, já o IBGE aponta que 17,3 milhões estão no Brasil – o que representa cerca de 8,4% da população. E é lógico que, como qualquer um, essas pessoas têm interesse em maquiagem, skincare, cabelos, e querem se sentir bonitas e cuidadas. Mas então, por que é tão difícil vê-las representadas como parte desse universo? E mais do que isso, onde estão os produtos que abraçam esse público?

A jornalista e criadora de conteúdo Ana Clara Moriz reproduz maquiagem

A experiência de compra na beleza

A P&G pensou em deficinetes visuais e incluiu descrição em braile em embalagens da Herbal Essences, que, por enquanto, estão disponíveis nos EUA e Canadá, mas a ideia a longo prazo é incentivar a fabricação e expandir a venda. LOccitane e Bioderma são outras marcas que utilizam a linguagem. Já a Too Faced, segundo pesquisa da Vogue Business, é bastante popular dentro deste público graças a facil identificação de alguns de seus best sellers pelos cheiros marcantes.

Embalagem da com gravação do nome do produto em braille. Imagem: LOccitane en Provence

Vale destacar, porém, que os exemplos citados são minoria no mercado e PCDs ainda enfrentam muitos desafios de compra

Mackenzie Strong, nadadora universitária norte-americana, relatou a Allure seus maiores desafios enquanto legalmente cega (definição para pessoas que possuem 0,05 de visão no melhor olho, mesmo com correção). Para a jovem, é mais fácil fazer compras online, já que em sites ela pode aumentar o tamanho do texto, usar o zoom e pesquisar mais fotos e descrições. Em lojas físicas, os letreiros não costumam ser grandes o suficiente e as informações disponíveis são poucas, além de serem escritas em letras pequenas, o que impossibilita a leitura.

Temos, porém, um destaque positivo Made in Brazil. Da embalagem de produtos, ao site e redes sociais, a Natura carrega diversidade e equidade como dois de seus carros chefes.

Mais avanços no mercado

Um importante ponto para acessibilidade é lembrar que existem diversas deficiências e necessidades de inclusão. Pessoas são diferentes e as diferenças devem ser vistas e respeitadas. 

A Kohl Kreatives, criada pela blogueira de viagem Emma Muldoon, portadora de distrofia muscular cintura, doença que causa enfraquecimento dos músculos, é um belo exemplo. A marca comercializa pincéis feitos com cerdas pensadas para peles mais sensíveis, além de ter um kit com cabos que flexionam para frente e para trás, o que facilita a rotina de pessoas com desafios de mobilidade. Os produtos também tem descrição para deficientes visuais

Já a atriz Salma Blair, portadora de esclerose múltipla, foi anunciada diretora criativa da Guide Beauty, criada pela maquiadora Terri Bryant em 2020, após diagnóstico de Parkinson. Guide conta com um extenso portfólio, as embalagens são de fácil abertura e manuseio, e o design deixa as mãos mais firmes e seguras, um facilitador para quem tem tremores e fraqueza no membro. Para a Vogue US, Blair relatou a satisfação pessoal em ter uma linha enxerga e respeita sua condição: “Quando conheci a Terri, eu tinha realmente parado de me olhar no espelho. Cortei o cabelo curto porque nem sempre conseguia levantar a mão acima da cabeça, pintei de loiro para ajudar a esconder minhas manchas de alopecia, e quando não conseguia aplicar delineador de manhã, me martirizava e meu dia estava arruinado, então eu meio que parei de dar espaço para a beleza. Mas quando comecei a usar Guide e maquiagem novamente, realmente me despertou.”

Os exemplos acima mostram também como é importante ter PCDs em cargos de liderança e criação dentro das companhias. E que, apenas das importantes mudanças listadas, ainda é necessário evoluir mais. Mackenzie pontua: “Eu amo a maquiagem e a confiança que ela me dá. Espero que, com o tempo, nós, como comunidade da beleza, consigamos achar mais maneiras da maquiagem seja mais inclusiva para pessoas com deficiências porque nós todos deveríamos poder nos sentir bonitos”

Por dentro dos produtos multifuncionais de beleza

Os cuidados com a beleza já fazem parte do dia a dia, e para isso, a utilização de diversos produtos se tornou algo natural para muitos. E seria um sonho conseguir manter a rotina com mais rapidez, praticidade e produtos de bom custo benefício.

Para ajudar nessa missão, cada vez mais as marcas apostam no lançamento de produtos multifuncionais. Disponíveis para cabelo, rosto, corpo e maquiagem, são soluções mais utilitárias e sustentáveis, que alinham múltiplas funções e ações – normalmente presentes em 2 ou mais produtos – e diferentes ativos em um único cosmético, além de contarem com novas tecnologias agregadas.

Vale apostar em cosméticos multifuncionais?

A ideia não é nova, e é provável que você já tenha utilizado, mesmo sem perceber. Mas se fortaleceu na necessidade em priorizar saídas mais eficientes, funcionais e menos complicadas. Soma-se a isso o  aumento nas buscas de ideias compatíveis com  conceitos de compra inteligente, negócios com impacto e minimalismo, já que o consumo desse formato diminui produção de  embalagens, consumo exacerbado de beauty products , além da vantagem financeira que um 2 em 1 oferece, tanto para o produtor – que otimiza aos custos de produção de dois ou mais cosméticos – quanto ao consumidor. Todos esses fatores mostram que a tendência é o aumento na demanda de multifunções e que vale sim, experimentar.

É sempre importante , porém, se atentar aos ativos combinados  e compreender as vantagens e desvantagens que cada um deles traz a você. Entender se o cosmético realmente funciona para seu tipo de corpo, rosto ou cabelo, e até mesmo se  possível combinação com mais soluções pode causar efeito reverso ou anular os benefícios. Aliar o uso a consultas com especialistas é sempre a melhor opção.

Selecionamos alguns itens incríveis para conhecer:

Óleo Multifuncional Kálice Inoar Cosméticos

O produto alia vitamina E com 7 óleos vegetais e pode ser aplicado no cabelo (sozinho ou misturado ao shampoo, condicionador ou máscara), rosto e corpo. R$72,90

Sérum Uniformizador Sallve

Usado para o tratamento de hiperpigmentação de todos os níveis e em todos os tipos de pele (inclusive as mais sensíveis). Eficaz contra olheiras, manchas e linhas finas, pode ser usado em corpo e rosto. R$89,90

Base Tint Alta Cobertura Quem Disse, Berenice?

Base que garante 12 horas de duração. Além de corrigir a pele, tem fórmula hidratante, que previne oleosidade, protege dos raios solares e luzes de aparelhos eletrônicos. R$74,90

Palette Multifuncional Intense O Boticário

Paleta com 8 tons rose acetinados, que podem ser utilizados com sombra, blush e bronzer. R$89,90

Creme de Limpeza Derco Sensi Care

Indicado para todos os tipos de cabelo e sem sulfatos e parabenos, substitui shampoo e condicionador. Limpa, hidrata, produto e acalma cabelos mais sensíveis. R$116,30

Creme Multifuncional Yamasterol

Sem parafinas e silicones, pode ser usado por todos os tipos de cabelo como creme sem enxágue, co-wash, pós shampoo e misturado com máscaras e óleos hidratantes. R$4,95

Bastão Multifuncional com Cor Ollie

Protetor solar em bastão que protege e cuida da pele, enquanto oferece cobertura de manchas, inclusive de melasma. R$129,00

Stick Tudo Vic Beaute

Disponível em 5 cores e, com textura cremosa, funciona como batom, blush e sombra e possibilita diversas camadas de aplicação, ara resultado mais ou menos sutil. R$129,00

Lápis Delineador Avon

Colorido e versátil, o produto pode ser utilizado nos olhos ou na boca, e permite efeito marcado e esfumado. É resistente a água, suave, hidratante e não tem fragrância. R$10,99

Pink é o novo preto: o Barbiecore no universo da beleza

Quando Valentino apresentou sua coleção Inverno 22/23 em um impactante (e exclusivo) rosa, entendemos que o mundo tinha ganho uma nova cor preferida.

Isso, somado à retomada das tendências dos anos 2000 – época que valorizava um estética hiper feminilizada, com muito rosa, brilho, e personagens icônicos como Sharpay Evans, Elle Woods, London Tipton (e sua versão real, Paris Hilton), e até mesmo o filme Barbie de Greta Gerwig – formou o cenário perfeito para o rosa voltar mais forte do que nunca! Não demorou para que a cor dominasse tapetes vermelhos e não tinha como o universo da beleza não se render a essa tendência.

Imagem: Pinterest

Chamada de Barbiecore, a estética, como bem ressalta a comunicadora de moda e tendências Verena Figueiredo, aparece numa roupagem mais moderna e democratizada, que busca acabar com a visão diminuta que a ideia de gostar de rosa, strass e elementos mais delicados e ludicos antes carregava, e é mais ousada e inclusiva. Essa também pode ser encarada como uma continuidade natural do já muito discutido look Dopamine, que utiliza cores, brilhos e outros elementos vibrantes para comunicar frescor, alegria, se contrapõe ao momento difícil que experienciamos enquanto sociedade – quase como uma válvula de escape – e tem tudo a ver com o momento que de retomada pós pandêmica que ainda vivemos. E é claro, a beleza se cercou de elementos divertidos e criativos em sua interpretação destas tendencias.

Como apostar na tendência

Criativo

Aqui temos duas formas de levar elementos criativos na maquiagem. A maquiagem de Thalita remete ao romantismo graças aos elementos mais delicados, porém a lagrima desenhada e as unhas coloridas dão o tom. Já Josy saiu do obvio e apostou em tranças e sobrancelhas cor de rosa para um look mais único e fashionista.

Olhos

Dois exemplos de como apostar na cor apenas nos olhos. Selena torna o look mis interessante com um degrade de tom mais acesso ao mais frio, enquanto Kamila aposta rosa brilhante e desenho gráfico

Boca

Nos lábios, o acabamento pode ir do batom matte ao gloss sempre traz um ponto de destaque a mais no look, mesmo quando somados a mais elementos de atenção.

Bochechas

As bochechas podem estar em um rosinha mais suave, mas essa também é a hora do blush bem marcado brilhar. A técnica leva um toque glow ao look, principalmente se combinada ao iluminador. Lele somou ao batom vermelho e Livia optou por olhos mais suaves, o que mostra que as possibilidades não estão limitadas.

All Pink

Que tal se jogar na cor?!

Olhos, cabelo, boca, unhas…aqui vale tudo e o resultado é incrível, ousado e original

Beauty Tech: como a beleza trabalha com a tecnologia

Diferentes situações de rotina e ambiente podem afetar o que pensamos, buscamos e desejamos em termos de beleza e estética. Ainda neste raciocínio, ambientes podem também afetar a forma que nós vemos, idealizamos nossa imagem e o que gostaríamos de consumir. Dentro disso, também entra o uso da tecnologia,  já onipresente em nosso dia a dia.

Especificamente no segmento de beleza, tech é muito sobre a experiência e autoafirmação. Faz parte do mercado analisar, evoluir, crescer e inovar para atender essa nova demanda, mas também entender até onde essa relação é respeitosa para cada indivíduo e para o ambiente.

A tecnologia em produtos

Quando o tema é tecnologia aliada a beleza, pensa- se muito em inovações relacionadas a tratamentos estéticos – lasers, imagem, ultrassom e outros. Sim, esse é um formato com grandes e constantes avanços e pleno crescimento, porém a inovação pode ser encontrada também em produtos.

A norte-americana Biossance é um ótimo exemplo de uso de avanços tecnológicos no segmento. A marca surgiu com o propósito de oferecer cuidados para pele com “biotecnologia inovativa para causar um impacto positivo no mundo”.

Dessa forma,  Biossance impulsiona o Clean Beauty (beleza limpa, ao pé da letra) movimento que cada vez mais forte e procurado por consumidores de beleza, que cada vez mais procuram soluções que tragam bons resultados sem deixar a sustentabilidade e responsabilidade social. Clean Beauty apresenta fórmulas não tóxicas e processos benéficos para a pele e o meio ambiente, da embalagem à formulação dos produtos, e chegar nesse resultado exige profunda pesquisa e desenvolvimento de novas fórmulas com ingredientes complexos. O Preenchedor lançado recentemente, por exemplo, contém Peptídeo de Cobre, que estimula a produção natural de colágeno, e diferentes tipos de ácido, todos de baixo risco de toxicidade.

Aplicativos, filtros e a relação da beleza com as redes

Outro importante fator quando se pauta a união de beleza é tecnologia é o poder das redes sociais nesta relação.

O consumo é incentivado pelas redes sociais. Técnicas estão sendo incansavelmente reproduzidas e produtos esgotam de lojas após um conteúdo a respeito se tornar viral. A título de comparação, é como uma música que pega #1 em todas as plataformas após uma trend.

Recentemente, o vídeo da criadora Georgia Barratt ensinando a “passport photo makeup” alcançou 11M de views no TikTok,  o conteúdo de resultado final tem mais de 15 milhões . Variações do conteúdo ensinando como reproduzir o look não param de ser postados e também acumulam números expressivos. 

Conteúdo da brasieleira Renata Santti inspirada no video da Georgia

Ano passado, o Almost Lipstick, tonalidade Black Honey, da Clinique – lançado nos anos 70 – esgotou das lojas após ser utilizado em diversos conteúdos na mesma rede. E surpreendentemente, a Nivea acabou se beneficiando disso, já que muitos criadores e sites especializados em beleza passaram a apontar o lip balm Amora da marca como uma alternativa de fácil acesso ao batom.

Videos sobre Black Honey têm milhões de views e resultaram na gigante procura do batom e divulgação de similares

Por outro lado, temos o debate sobre filtros e autoimagem. Essa, claro, não é uma pauta nova, porém se renova de tempos em tempos. E esse talvez seja o lado mais danoso da relação beleza & tech.

Estudos já provaram que selfies alteram a percepção do rosto, e pesquisa realizada em 2021 pela  Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética mostrou que o Brasil foi o país que mais realizou procedimentos de face em 2020, muito por conta de filtros e outros recursos que alteram a autoimagem, “adiantando” os resultados das cirurgias e servindo como referência de imagem ideal para levar aos consultórios . Também em 2021, a Dove divulgou que 84% das brasileiras a partir dos 13 anos já haviam utilizado filtros e programas de edição, 78% já tentaram mudar ou ocultar alguma parte do corpo antes de postar uma foto, e 60% delas assumem ter baixa auto estima.

Em 2022, porém, a trend Tears in My Heart mostrou uma nova face dessa questão, principalmente entre a Gen Z e Millenials. A ideia é “trocar” sua versão editada por uma imagem natural, como uma manifestação de aceitação ao real, e foi adotada inclusive por grandes celebridades digitais.

@beca

amei mt essa trend, confesso que ambos são lindos 💗

♬ Tear in My Heart – twenty one pilots

No finalentender como os avanços de produtos e técnicas de beleza, e mais, como a imagem criada por ambientes virtuais agem no alcance da imagem dita ideal é importante para sabermos o que estamos gerando e para onde vamos. Com isso enxergamos os resultados, positivos e negativos, que essa união carrega.

Beleza no audiovisual: O papel da caracterização nas artes cênicas

Em 1981, o aclamado O Homem Elefante de David Lynch saiu do Oscar de mãos vazias, apesar de suas 8 indicaçoes. A indignação da crítica com a falta de reconhecimento da Academia ao filme foi tamanha, especialmente pelas técnicas impactáveis de caracterização que a película mostra, que a Organização estruturou a nova categoria para premiar profissionais de cabelo e maquiagem.

A caracterização desperta atenção dos espectadores e tem seu espaço próprio nas grandes premiações. Mas muito mais que uma categoria no Oscar, é um importante elemento na narrativa de uma peça, produção cinematográfica e televisiva ao complementar outros aspectos e pode ser até mesmo ser parte ativa na história de um personagem.

Breve história sobre a maquiagem cênica

O teatro se popularizou na Grécia Antiga e, ainda que peças fossem encenadas com as famosas máscaras de Comédia e Tragédia, existem evidências de que chumbo branco e vermelho, material extremamente tóxico, chegaram a ser utilizados na época como parte da caracterização de atores. Na Europa, com o passar dos séculos, a maquiagem passou a ser bastante utilizada por atores – ainda que fosse discriminada pela Igreja, principalmente na Idade Média – até ser plenamente aceita no século XX e a função de maquiador ser vista como profissão. 

Mas foi no oriente que a técnica se popularizou. Os shows de encenação chineses tinham os “cara pintada”, figuras que como o nome já indica apareciam com rosto inteiramente pintado de branco. Já no Japão, os tradicionais teatros Kabuki se utilizavam de forte maquiagem (kumadori) para encenar personagens e mostrar símbolos.

Em Hollywood, a família Westmore revolucionou a área. O britânico George Westmore fundou o primeiro departamento da área no local e seis de seus filhos trilharam o mesmo caminho, cada um deles liderou trabalhos nos maiores estudos e foram responsáveis por clássicos como Rebecca, E O Vento Levou, Casablanca, Guerra dos Mundos, Sabrina entre outros. Já são quatro gerações de atuantes no segmento.  Um dos integrantes mais recente, Michael Westmore já ganhou 9 Emmys e 1 Oscar por Marcas do Destino.

O papel da caracterização no cênico

Primeiramente é importante entender as diferenças entre maquiagem para TV, cinema e palco.

No que diz respeito à maquiagem, existe uma diferença importante entre o que é visto na tela e o que é visto pessoalmente. O maquiador de Cinema e TV se preocupa com os mínimos detalhes, principalmente com a tecnologia de alta definição. Qualquer falha ou exagero é visível. Principalmente no cinema, onde a tela é gigantesca e as proporções aumentam drasticamente. Já no teatro, quanto mais você destacar e exagerar, mais será possível o público enxergar a arte e as expressões. Mesmo que esteja sentado nas últimas poltronas.”, aponta Mirella Oliveira, maquiadora de cinema e fundadora do portal Maquiagem No Cinema.

Por conta disso, as técnicas utilizadas também, se diferem.

[…] as técnicas de envelhecimento costumam ser diferentes para teatro e vídeo. No vídeo, a preocupação é sempre com o realismo, o espectador não deve enxergar a maquiagem. Geralmente são utilizadas técnicas de efeitos especiais (que envolvem próteses, produtos químicos que encolhem a pele, próteses capilares e de pelos postiços, lentes de contato e até próteses dentárias). Já no teatro é mais comum o uso de técnicas de luz e sombra e perucas, que, mesmo de longe, podem ser vistas. As marcas e linhas de expressão podem ser feitas através de um jogo de cores, gerando um efeito de ilusão de ótica. Além disso, no cinema e na TV, as cenas são rodadas diversas vezes, em ângulos diferentes, muitas vezes numa cronologia diferente do roteiro e, por fim, são editadas.  As maquiagens podem ser retocadas a cada corte de câmera e existe uma preocupação com a continuidade de cenas. No teatro, tudo acontece ao vivo.”

O papel da maquiagem é, em conjunto com outros elementos, comunicar a narrativa proposta para a produção. Por meio da caracterização entendemos não apenas a aparência do personagem – no sentido mais literal – mas seu espírito, ambiente, motivações e impressões. A maquiadora completa: “A criação de um personagem parte da concepção de suas características físicas e psicológicas descritas no roteiro, somadas à construção estética por parte dos departamentos de arte, figurino e caracterização, trazendo elementos físicos que contribuem para a atuação. Os personagens são criados a partir desta somatória de especialidades e a caracterização é, na minha opinião, tão importante quanto as demais.”

Moonrise Kingdom, de Wes Anderson, conta a história de dois pré-adolescentes que se sentem deslocados em seus meios, e após se conhecerem em uma apresentação de teatro, se apaixonam, passam a trocar cartas e decidem fugir. Suzy Bishop, a jovem protagonista do filme, é vista por seus pais como depressiva e problemática. A personagem usa maquiagem mais escura nos olhos e o cabelo levemente bagunçado, que trazem ar rebelde, impulsivo, uma certa tentativa de parecer madura no meio de adultos disfuncionais, e contrastam com o ambiente aparentemente harmônico (e um tanto exaustivo) que a garota vive. Suzy é o ponto fora da curva da família, é não apenas compreensível, mas perfeitamente planejado, que seus elementos visuais fujam do senso comum dos locais que passam.

Esse é só um exemplo de trabalho dentro de produções cinematográficas, trabalho de caracterização do filme é reconhecido justamente por carregar tantos simbolismos dentre outros presentes em roteiro, trilha e direção de arte.

Com tudo isso, é fácil notar quer  trabalho que equipe de maquiagem de uma produção é mais complexa do que pode-se imaginar, visto que a caracterização é um elemento essencial para se contar uma história e deve ser minuciosamente pensada para atender o plataforma que a história é contada, fazer sentido para toda a equipe envolvida, ajudar atores no processo de encenação e abraçar todas as características de um personagem.  

Mirella concorda: “Eu mesma só fui entender a proporção da importância do maquiador quando realizei meu primeiro trabalho em um set. Até então, como espectadora, eu acreditava que as pessoas estavam daquela forma por mero acaso e que o maquiador de cinema só cuidava das grandes transformações. Quando entendi que tudo é estudado nos mínimos detalhes, desde os figurantes até os protagonistas, e que cada um desses elementos é minuciosamente pensado e criado, me fascinei! E é essa a minha iniciativa com o portal, contribuir para que o mundo entenda a importância do nosso trabalho. Questionar o porquê de, na maioria das vezes, os créditos do maquiador estarem entre os últimos a serem apresentados, enquanto o figurino, por exemplo, é um dos primeiros. Não os desmerecendo, muito pelo contrário. Ambos são importantes, na mesma proporção.”

Quando a beleza sai do audiovisual

Muitas vezes o trabalho é tão marcante que ultrapassa as barreiras da tela não somente como fantasia (o que sempre foi bastante comum) mas como parte da vida de seus espectadores.

O exemplo recente – e já clássico – é o de Euphoria. Por um lado, temos Cassie, uma personagem cuja beleza é um elemento de autoaceitação tão grande que se torna quase uma tortura. A jovem acorda de madrugada para seguir longo processo de skincare, e se certifica de estar sempre chamando atenção, linda, sexy e adequada mesmo que isso a coloque em um lugar destrutivo O ritual da personagem, porém, viralizou nas redes e hoje é fácil encontrar postagens que explicam e ensinam os passos.

Esse é só um exemplo da influência que a série tem no meio. As produções estilo Euphoria (delineados ousados, cores, pedras, brilhos) hoje são comuns de se ver, e a maquiadora do show, Doni Davy, lançou uma linha de beleza. Além disso, outras produções também inspiraram linhas de beleza em parceria com marcas de cosméticos, como Bridgerton, Stranger Things, Pantera Negra e Capitão América.

Euphoria. Imagem/Reprodução HBO

Alguns trabalhos marcantes

Embaixadores de Beleza: a estratégia de marketing favorita do mercado

Sempre se falou muito sobre garotos-propaganda, representantes – famosos ou não – escolhidos para representar marcas dentro de um contexto publicitário, mas que muitas vezes ficam tão populares e familiares ao público que virão espécies de rostos e vozes oficiais. Temos exemplos em vários nichos.

Dentro disso, podemos inserir o conceito de embaixador da marca, conhecido como brand ambassador, uma celebridade, um criador de conteúdos ou até mesmo uma figura anônima que, de alguma forma, represente bem o produto. A ideia é ter um contrato de longo prazo que liga os envolvidos em uma parceria que traga autoridade e familiaridade, diferente de um contrato pontual em que o perfil é escolhido para uma ativação mais específica e não necessariamente criará um vínculo do merca. 

Não necessariamente uma marca de beleza precisa chamar um especialista no assunto, como um maquiador, cosmetologista ou pesquisador da área. Mas é importante que o nome escolhido conheça e se identifique, e que ele e o contratante compartilhem valores básicos que o público já conhece em ambos os lados. Um dos principais motivos para apostar no formato é a consistência: o consumidor irá associar os envolvidos, seus gostos, hábitos e princípios e ver essa parceria estampada em todo lugar.  

Tendo todos esses pontos entende-se a diferença de um contrato mais simples para esse formato, e principalmente a essencialidade da sinergia entre todas as pontas. Exemplo nacional é o de Juliette Freire com a Avon. No anúncio, Danielle Bibas, vice-presidente de marketing da Avon, declarou ao Meio e Mensagem que a escolha veio pois “a paraibana carrega muitos propósitos de Avon, como o empoderamento feminino e a luta pela equidade e diversidade”. As características e a ligação organicamente construída entre a personalidade e os produtos durante o BBB – o batom vermelho da marca, por exemplo, virou uma das marcas registradas da participante na casa – foram grandes fatores.

A escolha ideal

O que você quer? Pretende chamar atenção de quem? Do que? Qual é a imagem que se quer passar? Bella Hadid é a escolha da Dior Beauty para aproximação com a GenZ, geração antenada e com grande poder de compra. Tantas celebridades coreanas estão sendo contratadas (especialmente no luxo) nos últimos anos pois o mercado asiático é conhecido pelo grande alcance de grifes.

No final, cada empresa tem questões que pesam na escolha de um embaixador, mas critérios em comum que podemos listar são: identificação genuína, popularidade e poder de marketing e venda. É sempre interessante também analisar o background, pois isso interfere diretamente em como a escolha pode refletir interna e externamente.

Jojo Toddynho foi nomeada embaixadora de Jean Paul Gaultier no Brasil. Pensando que JPG é um criativo, provocador, que aposta no mais inclusivo e expressivo, ter a cantora como parte do time faz muito sentido. A recepção foi bastante positiva, e a popularidade da Jojo resultou numa repercussão dentro e fora dos mercados de beleza e marketing. A cantora até mesmo foi chamada para integrar uma campanha global da marca. Todos os pontos listado podem ser visualizados aqui e  se encaixa muito bem.

Jojo Toddynho para Jean Paul Gaultier. Reprodução/Instagram

A Pantene é famosa por trabalhar com squad, estratégia que vem da preocupação da P&G em mostrar que os produtos podem ser usados por todos. A ideia é refletir  “todo cabelo é um Cabelo Pantene” – frase destaque na comunicação digital da marca. Por isso o casting é composto por celebridades e criadoras de conteúdo de diferentes portes, e diversidade nos tipos de fios, forma de trabalho, alcance e origem.

O trabalho pode ser realizado por campanhas digitais, tv, mídia impressa. É parte do processo alinhar os passos de forma que os conteúdos tenham um bom timing e que a marca seja mostrada como parte real do dia a dia e trajetória do protagonista da campanha.

Na beleza de luxo, que costuma ser mais criteriosa e menos agressiva na abordagem, é uma oportunidade de fazer uma publicidade mais sutil e natural, ainda assim muito certeira. O MET Gala é um grande momento para isso, Kaia Gerber de YSL Beauty e Cara Delevigne para Dior Beauty são dois exemplos da última edição.

Um passo além

A vezes a parceria dá tão certo que criar uma linha exclusiva se torna um passo natural. Os números já conquistados somados ao potencial de vendas desse próximo passo, claro, são alguns dos principais fatores. Mas é essencial que a linha carregue características, gostos e histórias para atrair a atenção do público e passar um sentimento de proximidade. Empolga os fãs saber que seu ídolo se envolveu, foi ouvido durante o processo.

A já citada parceria de Juliette com a Avon resultou em uma edição especial, composta por produtos que já faziam parte do portfólio da marca Avon e agradam a cantora e ex-bbb. Gigi Hadid e Maybelline trabalham juntos desde 2015, e em 2017 a coleção Gigi x Maybelline, inspirada na cidade natal e estilo de vida da modelo, chegou às lojas. Lisa do Black Pink ganhou sua própria linha com a MAC em 2021, um ano após ser anunciada como primeira idol embaixadora da marca. Talento, ousadia e confiança da artista são características que guiaram o trabalho.

Em todos os aspectos, o que pode-se entender é que o trabalho com embaixadores não é simples! Não somente pelo volume de trabalho, mas porque faz parte da construção de imagem e comunicação de uma empresa.

Wellness: a beleza alinhada com o bem-estar

Recentemente, a Galeries Lafayette, um dos mais icônicos e tradicionais centros de compra da Europa, anunciou a abertura de uma área dedicada ao wellness. Com inauguração prevista para julho, o departamento terá funcionalidades e venda de produtos ligados ao relaxamento e bem estar de dentro pra fora – beauty & care, medicina alternativa, suplementos. Além disso, contará com serviços como massagens, academia com horário de funcionamento estendido e um restaurante. Esse é só mais um passo do movimento do investimento em well being de espaços físicos, virtuais e marcas nos últimos anos.

Galeries Lafayette. Imagem: Arrivals Guide

Será coincidência tantos estarem apostando na mesma ideia? De jeito nenhum! O wellness de fato não é um conceito novo, porém é notável a popularização da ideia nos últimos anos e os pesquisadores de tendências apontam os desdobramentos disso. Hoje, o público procura bens e serviços que não apenas trazem benefícios estéticos, mas também sensação de cuidado, autoestima e conforto. Consequentemente, a área passou a perceber que, a cada dia mais, a beleza é sobre bem pessoal além da aparência e consumo.

TRADUZINDO O CONCEITO

Wellness ao pé da letra significa bem estar. Na prática, a ideia que trazemos aqui se relaciona a um estilo de vida satisfatório e estimulante. É sobre conhecimento e consciência corporal, saúde física e mental, e momentos de relaxamento, alimentos benéficos. Dentro dessa pauta, cabe também a discussão sobre processos de produção éticos e preocupação com ingredientes.

SEXUAL WELLNESS

Neste mesmo segmento, surge a prática que ganha cada vez mais importância: o sexual wellness, bem estar sexual, que propõe o prazer aliado à saúde, educação e liberdade para falar e conhecer o próprio.

Ainda que tabus existam, principalmente se tratando de mulheres cis e corpos trans, atualmente busca-se tratar o assunto com muito mais abertura e respeito. Até mesmo empresas que não são especialistas no segmento, como Amaro, Sephora e Simple Organic já investem na categoria, enquanto veículos diversos têm editorias e plataformas próprias para o assunto.

A Simple Organic lançou uma série de produtos de sexual care.
Imagem: Divulgação/Simple Organic 

EXISTEM PONTOS NEGATIVOS?

É difícil (e parece um pouco improvável) pontuar os malefícios de uma rotina de bem estar próprio. Porém, é inegável que criou-se um ambiente muito idealizado de estilo de vida, que é falsamente dado como correto. A utilização dessa falsa perfeição ser ligada ao wellness é prejudicial e desfoca a ideia real.

De repente, pareceu fácil se equilibrar entre obrigações, lazer e outras demandas do dia, é imprescindível ter um ritual incrementado de skin e bodycare, tempo para longos banhos, momento com velas, incensos e óleos essenciais. A indústria de beleza, por muitas vezes, incentiva tudo isso com lançamentos, anúncios e postagens, enquanto as redes sociais se encheram de pessoas que supostamente vivem esse lifestyle “ideal”. Na vida real, fatores como rotina, local, oportunidades ou realidade financeira nem sempre permitem que quem recebe a mensagem possa realmente se inspirar no que vê, o que pode gerar inúmeras frustrações. Viver influenciado por essa imagem erroneamente vendida como ideia é o problema. Mas precisamos pontuar que esse problema é causado por quem vende essa imagem, e fazer uma separação é importante.

Clássico e Gótico se Encontram na MFW

Sempre festiva, sofisticada e interessante, a Milão Fashion Week aconteceu de 23 a 28 de fevereiro e exibiu elementos de beleza já familiares, porém numa nova roupagem, mostrando ao público evoluções e novas interpretações do momento. 

Thomas de Kluyver, consultor global de maquiagem da Gucci, descreveu seu trabalho nessa temporada como brincalhão, divertido, irrestrito e não clássico. A grife, que lançou sua collab inédita com a Adidas, aproveitou elementos presentes em muitos outros desfiles da temporada, como olhos e boca marcados, e pele iluminada. Porém com vivacidade, brilhos, pedras, resultando em uma interpretação única às tendências.

O trabalho de Inge Grognard na Blumarine foi mais sombrio e ousado, com destaque total à boca vermelha e preta. Os penteados idealizados por Anthony Turner têm como proposta mesclar sensualidade, romantismo, e um certo ar de mistério com o véu.

Armani também usou cores, porém mais delicadas e combinadas a delineado gráficos pretos. A beleza idealizada por Linda Cantello veio do desejo de Giorgio Armani de apresentar um olhar alongado. Segundo a maquiadora, o batom líquido rosa, aplicado nos olhos como uma  sombra forte, aparece para dar um toque jovem e contemporâneo dentro do punk. Nos lábios, apenas um lápis com tom próximo ao natural.

Ainda na linha do gráfico, a Versace foi um dos grandes destaques de Beauty da MFW. Liderado pela dupla querida do mês da Moda, Pat McGrath e Guido Palau, o look Versace teve as sobrancelhas platinadas presentes nos produções mais alternativos dos anos 90, fazendo um interessante contraste com olhos super marcados, a la Julia Fox (que vale destacar, teve seu seu visual criado por Daniel Kolaric, maquiador da equipe de McGrath, e se utilizou de referências criadas e passadas pela própria Pat. Sem coincidências aqui). O cabelo é o super liso repartido já visto em outros shows da casa.

Na contramão, a Missioni apostou numa beleza fácil. Para o cabelo, a ideia de Mustafa Yanaz foi um look “imperfeito”, que se aproximou das texturas naturais dos modelos. Enquanto Jen Myles entregou uma maquiagem descomplicada, com tons terrosos e pontos de luz.

O cabelo molhado, já se tornou parte quase obrigatória dos looks de passarela e em Milão apareceu para levar um toque moderno e fresco aos desfiles. Este foi marcante no trabalho de Guido Palau para a Fendi de Kim Jones, que no caso também utilizou a técnica para dar um ar mais maduro à coleção. A maquiagem assinada por Peter Philips foi natural e iluminada, conversando com os fios.

Palau também levou o wet hair para a Prada numa proposta mais noventista, que misturou o coque clássico e o minimalismo pedido por Miuccia Prada e Raf Simons, com referências futuristas e arquitetônicas vistas no volume do penteado e acabamento. Tudo combinado com a proposta, também futurista, da maquiagem de Pat McGrath: iluminada, leve e muito natural.

O que podemos tirar é, que entre referência a décadas passadas e elementos futuristas, teremos uma beleza vanguardista e ainda assim chic e leve, para transmitir força e confiança. Uma ótima combinação para a Semana Italiana.

Do Y2K ao autocuidado: O que Dominou a Indústria da Beleza em 2021

Se 2020, para a indústria da beleza, foi um ano que começou com cores, glitters e criatividade e terminou incerto, com números incomuns e certa esperança de retomada, 2021 veio com um clima de adaptação aos tempos que se seguem e sinais de otimismo.

É impossível não destacar a influência da pandemia em nossas vidas. O cenário totalmente atípico que (ainda) vivemos modificou a forma que nos enxergamos e comportamos enquanto indivíduos, e isso claramente refletiu no universo da beleza.

Existe um interesse maior em rituais caseiros, o que impulsionou a busca e lançamentos de produtos de higiene pessoal e autocuidado, além de produtos de unha, cabelo, maquiagem e skincare práticos para utilizar em casa, sem auxílio profissional.

A sustentabilidade virou foco de atenção em todas as áreas. Na beleza, isso se reflete com o aumento na procura de produtos sem formulações nocivas, veganos, que não testam em animais, tem propósito consciente e ética como carro chefe. O público está mais atento ao que consome e faz questão de passar esse conceito para frente, indicando a seus amigos e seguidores. Em um estudo desenvolvido pela Avon e divulgado em Setembro, 81% das mulheres entrevistadas disseram acreditar que ingredientes naturais são mais seguros para a pele. Daniela Penteado, Gerente de contas e Especialista de tendências na WGSN, empresa líder em tendências de comportamento e consumo, concorda que a tendência foi observada “Os consumidores estão procurando desperdiçar menos produtos para aumentar a relação custo-benefício e reduzir seu impacto no meio ambiente, esta foi uma tendência bem forte observada neste ano”. Ela também pontua que isso caminha de mãos dadas com a busca por praticidade “Os consumidores passaram a determinar o valor de um produto com base em sua eficácia e eficiência, priorizando opções minimalistas que prometem reduzir a quantidade de resíduos gerados. Além disso, produtos híbridos e multifuncionais foram potencializados no mercado, pois simplificam as rotinas de beleza, algo que se tornou ainda mais relevante para os consumidores. […]A demanda por maquiagens multifuncionais, produtos que também tratam a pele, está crescendo à medida que o público busca opções melhores para o bolso e o planeta.”

A CARE Natural Beauty trabalha com “Dermocosméticos Minimalistas” com vários benefícios agregados e segue os pilares da sustentabilidade. Imagem/Divulgação CARE

E não podemos deixar de destacar a interferência das redes sociais, especialmente do TikTok. Do descobrimento de novos talentos, que aproveitaram o alcance da plataforma para criar conteúdo e mostrar seu trabalho, ao surgimento de trends no mínimo curiosas, como o uso do Roacutan para mudança no formato do nariz e utilização de lubrificantes na base – duas tendências que devem sumir tão rápido quanto surgiram, visto que não tem qualquer respaldo profissional e cresceram em nichos muito específicos – a rede de vídeos se provou, mais uma vez, uma grande influenciadora.

2001 ou 2021?

Mais do que nunca, millennials e integrantes mais velhos da geração Z passaram a relembrar filmes, séries e músicas que estiveram em alta durante os anos 2000. Paris Hilton, Megan Fox, Lindsay Lohan, Travis Baker e Britney Spears são algumas das personalidades que, por motivos diferentes, ganharam mais destaque na mídia. O revival de Gossip Girl e Sex & The City chegam para completar o pacote.

Assim como a moda, a beleza também apresenta um comportamento cíclico e se rendeu a este comportamento, abraçando os anos 2000 e trazendo de volta penteados, cores e técnicas de maquiagem populares há mais de 20 anos.

Misturando o ar vintage com uma roupagem mais moderna, a estética, chamada de Y2K, foi provavelmente o grande hit do ano. Divertido, o look mistura cores, texturas, tons metálicos e brilhosos com toque clássico, já que esse visual é muito familiar a todos que viveram ou não essa época.

Imagens: Reprodução/Instagram

Cabelo

Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC), o consumo de produtos para cabelo cresceu em 2021 devido à ascensão do autocuidado em tempos de isolamento social. 

Saímos de uma época de adaptação à falta de salão e visitas presenciais a lojas de cosméticos e entramos numa era de aceitação ao natural e explorar novas possibilidades. E apesar da alta dos anos 2000, houve um aumento no uso do cabelo sem química ou coloração –  assumir o grisalho é cada vez mais observado – e com volumes, texturas descontraídas, looks que nada combinam com o liso perfeito da década. Tranças, esculturas, baby hair, cachos bagunçados e mullets aparecem como consequência dessa descoberta.

Miley Cyrus. Imagem: Alberto E. Rodriguez/Getty Images

Cuidados com o corpo

O skincare está cada vez mais forte. Com mais tempo em casa e as frequentes reuniões e aulas em vídeo – que boa parte da população participa durante o período de isolamento -, indivíduos passaram a se enxergar mais, dessa vez pela câmera de seus dispositivos. Consequentemente, encontram pontos que gostariam de melhorar na própria imagem, passam a se preocupar mais em como se apresentam e o desejo de cuidar da aparência do rosto se intensifica.

O aumento da atenção com a pele também tem relação com maior tempo livre que muitos ganharam ao serem obrigados a ficar em casa, e o senso de rotina e autocuidado que isso transmite. Daniela explica que esse hábito é observado como algo feito aos poucos durante o dia a dia e deve se manter para os próximos anos, de acordo com a nova realidade e a retomada da rotina “[…]Os consumidores criaram pequenos momentos de autocuidado espalhados ao longo do dia, e isso será cada vez mais comum. As novas jornadas de trabalho e o abandono da longa rotina matinal de cuidados com a pele aumentarão a procura por produtos práticos que podem ser aplicados durante o trabalho, nos momentos de lazer ou durante deslocamentos.”

Não à toa, marcas e celebridades passaram a se dedicar ao skincare. Salon Line, Eudora & Niina Secrets e Amaro são algumas marcas nacionais que decidiram explorar esse nicho de mercado, enquanto as internacionais expandiram seu alcance global e desembarcaram em novos países. Fenty Skin, de Rihanna, cada vez mais amplia seu leque de produtos e a modelo Hailey Bieber promete lançar seus próprios cosméticos ano que vem.

Mas os cuidados não se limitam ao rosto, cresceu o interesse e debate com produtos para o corpo, região íntima (que sim, é um assunto que ainda gera certa resistência e dúvidas, mas tem sido cada vez mais explorado com liberdade e respeito por marcas e consumidores) e pelos “Mais consumidores estão se voltando para produtos para remoção de pelos em casa, substituindo as idas aos salões. Com isso, cresce o número de marcas independentes que oferecem preços acessíveis, produtos multiuso sustentáveis, uma visão positiva sobre os pelos corporais e fórmulas para peles sensíveis” explica Daniela. 

A especialista também lembra que sabonetes em barra “renasceram”, muito por conta da necessidade redobrada de ter a pele limpa e protegida.

A B.O.B – Bars Over Bottle – vende uma beleza limpa de ingredientes nocivos, plastic e cruelty free, natural e vegana. Imagem: Divulgação/B.O.B

Maquiagem

Na maquiagem, a praticidade também ganhou espaço, segundo observado pela especialista da WGSN “A demanda por maquiagens multifuncionais, produtos que também tratam a pele, está crescendo à medida que o público busca opções melhores para o bolso e o planeta.”

Os olhos, que ganharam protagonismo do rosto em 2020 em consequência do uso de máscaras, seguiram firmes em 2021. Cores e técnicas diferentes de maquiagem, que no ano anterior muito se fortaleceram pela série Euphoria, esse ano se mantiveram pela sensação de alegria e criatividade que exalam. Foi a forma encontrada para se expressar, transmitir frescor e festa em tempos desafiadores. Ariana Grande lançou sua própria linha no último trimestre do ano e garantiu que o primeiro ciclo fosse focado nos olhos.

Ariana Grande para a R.E.M. Imagem: Reprodução/Instagram

Mas a boca não foi esquecida, contornos, gloss voltaram a aparecer, mesmo que nos poucos momentos que é possível ficar sem máscara. As bochechas seguem super marcadas.

Unhas

Depois de um 2020 fraco, o setor de produtos para unhas ganhou destaque em 2021. Segundo a ABIHPEC, a indústria de produtos teve crescimento de 8,7% comparado ao mesmo período em 2020.

A retomada já era esperada por pesquisadores e observadores de tendências, visto que a flexibilização de certas atividades foi decretada esse ano, porém parte da população ainda sente receio em retomar visitas a salões e receber profissionais à domicílio, enquanto muitos adquiriram o hábito de cuidar das unhas em casa e pretendem manter, surgindo assim a necessidade de adquirir novos produtos – o que inspirou marcas a investirem em lançamentos e publicidade.

As nail arts aparecem fortíssimas e mais do que nunca representam uma forma de expressão. Em relatório anual, o Pinterest relatou aumento nas buscas por “unhas ousadas”, verdes, marmorizadas e baddie nails – os acrílicos gigantescos com desenhos e acessórios . 

Cardi B. Imagem: Reprodução/Instagram

E agora, o que esperar de 2022?

Daniela lista certos comportamentos que irão continuar: “As tendências de beleza que surgiram durante o lockdown continuarão a evoluir em 2022. Rotinas de skincare sem água, produtos multitarefa e ‘snacks’ de beleza estão entre as tendências escolhidas por nossa equipe de especialistas.”

“Os consumidores de beleza vão priorizar a eficácia e a eficiência conforme eles buscam fazer compras inteligentes que não prejudicam o planeta. A skinimalism, tendência de skincare minimalista que promove as rotinas simplificadas de cuidado com a pele, vai unir frugalidade e sustentabilidade em produtos híbridos.

No pós pandemia, o público consumidor de ‘produtos limpos’ irá buscar itens com fórmulas cuidadosamente elaboradas e respaldo científico. 

A beleza e a saúde vão andar juntas com produtos e tratamentos formulados para promover o bem-estar físico e mental.

Depois do início tumultuado da década, os consumidores desejam uma nova revolução de beleza que exige o uso de refil, adotando modelos de negócios sustentáveis e criando alternativas de produto para gerar mudanças positivas.”

É sempre notável que o ambiente interfere diretamente em todos os âmbitos e cenários,e a beleza não poderia ser diferente. O que foi visto esse ano e é esperado para o futuro é uma beleza mais limpa, consciente, saudável e expressiva. Com tantas mudanças e evoluções, mal podemos esperar para ver o que vem por aí!

Esculturas Capilares: O Cabelo com Forma de Expressão e Arte

Nas antigas sociedades africanas, o cabelo era grande parte da identidade pessoal e societária de um indivíduo. Pelo penteado, comprimento, corte, adornos e forma de utilizar, era possível identificar tribo, status social, estado civil, alguns penteados eram feitos especialmente para eventos e cerimônias importantes. O corpo (e cabelo) eram vistos como parte ativa da manifestação artística, de prestígio e poder de uma pessoa e sua comunidade.

No cenário atual, as esculturas de cabelo se fazem presentes em ocasiões como o MET Gala a campanhas de moda, passando por grandes publicações nacionais e internacionais, e se provam como algo maior que uma simples tendência – são uma forma de reconexão. Em Black is King, Beyoncé utiliza perucas que recriam esculturas de antigas civilizações como parte de um contexto de celebração da cultura. No MET Gala de 2021, Lupita Nyongo utilizou o cabelo para homenagear Lorna Simpson, fotógrafa e artista norte-americana. Neste mesmo ano, a hairstylist carioca Janice Mascarenhas foi reconhecida como Artista do Ano pela Dazed, carregando o conceito de afrofuturismo, em que “a herança ancestral africana não é apenas uma coisa do passado, mas do futuro”. Todas essas mulheres têm um grande papel na atenção que as esculturas capilares ganharam nos últimos meses.

Entretanto, a artista marfinesa, Laetitia Ky, é provavelmente a grande responsável pelo desponte global das esculturas capilares nos últimos anos. Vaidosa, a jovem sempre se interessou em produzir penteados e tranças nos próprios cabelos desde os 5 anos de idade. Em 2016, durante um período de reconexão com suas raízes africanas, Ky passou a experimentar novas formas. Desde então, ela usa de sua arte para advocar pelas causas político-sociais que defende. 

Para a artista, faz parte de seu trabalho estimular a criatividade, defender o amor próprio e inspirar outras mulheres negras a se orgulharem de si. Princípios que compartilhar com cerca de seus 470 mil seguidores no Instagram e quase 6 milhões no TikTok. Sua arte também despertou atenção de grandes marcas, permitindo que Ky estrelasse campanhas para Marc Jacobs, Giuseppe Zanotti, Donna Karan. A artista também pretende lançar um livro no próximo ano. 

A composição das esculturas depende do que será feito. São utilizados fios de metal, agulhas, lã e extensões de cabelo, e as obras demoram de 30 minutos a 3 horas para serem feitas. Segundo Laetitia, elas não são exatamente confortáveis para se manter no dia a dia e podem causar dores na cabeça, por isso prefere mantê-las apenas pelo tempo necessário para realizar fotos, vídeos e outros conteúdos. 

No Brasil, a afrohairstylist, empresária e criadora de conteúdo Jacy Carvalho encanta com seu projeto Escultura Crespa, iniciado em 2020 no Instagram a partir da ideia de resgatar e valorizar traços da negritude. Jacy contou à Frenezi que a inspiração surge de diversas formas – o processo é livre, e a partir daí pensa em quais matérias serão necessárias e começa com o que diz ser a melhor parte: desenhar, testar cores e texturas, até ter algo que faça sentido com o que está pensando. Assim como Laetitia, as raízes e a valorização da estética têm grande papel em seu trabalho:

“Eu venho de uma família de artistas e artesãos, minha mãe sempre cuidou dos nossos cabelos, fazia artesanatos, costurava, fazia obras em casa, tenho ela como inspiração. Por causa dela sempre fui muito artística também, fazia artesanato, esculturas com jornal, biscuit, bijuterias. Quando comecei a trabalhar com tranças eu queria aprender e ensinar novas técnicas e possibilidades para os cabelos crespos, até que olhando pras minhas próprias criações eu vi que poderia ser algo a mais, eu queria mostrar que tinha beleza e arte naquele trabalho”

Para quem vê de fora, parece inimaginável criar algo tão complexo. A artista concorda que a impressão existe, mas pontua que o sentimento vindo de seu público é bom: “[…]a parte mais artística desse trabalho ainda gera um estranhamento, de forma positiva, como se as pessoas não acreditassem que seria possível fazer esculturas com cabelos, e ao mesmo tempo ficam maravilhadas com a possibilidade”

Sobre o papel de carregar essa mensagem, Jacy afirma que trabalhar com a internet – como influenciadora digital – é uma responsabilidade que pode gerar ansiedade. Entretanto, destaca que ponto de seu trabalho não é fazer algo que mude a cabeça de toda uma geração. Influenciar positivamente a forma de uma única pessoa ver cabelos crespos já a deixa feliz. Porém, por suas palavras, vemos que o impacto positivo é maior que isso: “Com as redes sociais o interesse pelas tranças teve um aumento, meus vídeos no YouTube ensinando técnicas de tranças têm milhões de visualizações com milhares de feedbacks sensacionais. Pessoas que aprenderam a fazer tranças em si mesmas, nos familiares e pessoas que criaram um negócio próprio por causa dos meus vídeos.” É um movimento que cresce e inspira outras manifestações. Podemos esperar para o futuro mais formas de inspiração e celebração chegando a novos espaços e conquistando gerações.