1964: quando a música não cedeu à censura

A cultura faz parte do dia a dia das pessoas e pode servir como um refúgio da realidade, assim como pode servir como denúncia dessa mesma realidade. Exatamente por refletir diversos contextos, ela é capaz de alcançar uma audiência enorme e ter influência direta na relação do público com questões possivelmente abordadas, como na música, pelas canções.

Com um papel fundamental na comunicação, a música se tornou um dos principais veículos de delação ao assassinato da democracia no Brasil de 1964 a 1985. Foi em um ambiente de instabilidade econômica, fragilidade social e censura fervorosa, que a arte escolheu a liberdade e tomou a linha de frente em incentivo à busca dos cidadãos pela esperança e pela mobilização. Por conta de seu papel insubstituível, a intensidade do silenciamento não foi o suficiente para calar os artistas.

Brasil e as feridas do golpe de 1964

A história desse país é marcada por repressões em doses cíclicas. A Ditadura Militar que se estabeleceu com o golpe de 1964 durou 21 anos. Com a renúncia do presidente Jânio Quadros, após seu vice, João Goulart assumir, as forças militares que já programavam uma tomada de poder perceberam o ato como a oportunidade de dar o golpe. As motivações tinham relação com a polarização política entre os sistemas socioeconômicos do comunismo e capitalismo, geradas pela Guerra Fria, entre Estados Unidos e a antiga União Soviética. As forças militares eram contrárias aos ideais comunistas e acreditavam que Jango — apelido de Goulart —, por suas propostas, estaria alinhado à doutrina.

Em 1964, o primeiro presidente ditatorial, marechal Humberto Castelo Branco, assumiu o governo sem ser eleito ao cargo. Foi em seu mandato que o primeiro Ato Institucional — conhecido como AI — foi estabelecido. Esses atos foram criados para expandir determinadas ações políticas dos governantes, responsáveis por mantê-los no poder. O AI-1 foi o responsável pela abolição das eleições diretas à presidência da república, logo, a realização feriu o princípio mais importante da democracia e gerou, ainda, os populares protestos das Diretas Já anos depois.

No governo seguinte, de Costa e Silva, após outros três atos, o AI-5 tomou forma. Talvez o mais intenso, o decreto dava liberdade ao presidente da vez de ordenar recesso do Congresso Nacional, assim como sua reabertura limitada às vontades governamentais. A partir da força do ato, a censura ganhou potência e garantiu aos militares a responsabilidade de decidir o que seria liberado ao público e o que não era permitido, sem que houvesse dependência de coerência explícita. 

Com a entrada do general Emílio Médici, em 1969, os chamados “anos de chumbo” se iniciaram. Seu nome veio, principalmente, do controle rígido da cultura, o silenciamento dos meios de comunicação e a inibição dos protestos. Contrariar as ordens rendia em tortura, morte, exílio ou prisão.

Após anos e mais anos de crises econômicas, intensificação da desigualdade social, aumento expressivo da pobreza, contenção cultural e afastamento das noções de democracia, a ditadura que durou 21 anos teve fim em 1985, quando Tancredo Neves foi o primeiro presidente diretamente eleito à república, porém quem assumiu foi seu vice, José Sarney.

Canções que driblaram a censura

Como a arte foi usada ao longo da história como ferramenta política em busca da resistência a atos abusivos, durante o período ditatorial brasileiro, muitos artistas driblaram a censura com suas canções que incentivavam a esperança da população por dias melhores. Muitas delas fazem parte do cotidiano MPB atual.

Apesar de você, Chico Buarque 

Chico Buarque foi um grande inimigo da repressão do período. Com muitas das suas canções contra o contexto político, Apesar de Você (1970), a princípio, foi aprovada, mas após meses o governo percebeu a crítica e retirou de circulação.

Na letra, busca transparecer o senso de esperança que é necessário em momentos de tensão como o vivenciado no período. Tal rigidez é igualmente criticada na letra da canção.

Cálice, Chico Buarque e Gilberto Gil

Por outro lado, a música Cálice (1973), de Buarque e Gilberto Gil, foi vetada sem demora. O trecho “Pai, afasta de mim esse cálice” busca referência à frase bíblica de Jesus Cristo, porém, a palavra “cálice” soa como “cale-se” e leva ao entendimento do silêncio endossado pela censura.

O bêbado e o equilibrista, Elis Regina

A canção da grandiosa Elis Regina foi lançada em 1979. Composta por João Bosco e Aldir Blanc, é considerada o hino da Lei da Anistia, decreto estabelecido no mesmo ano após enorme mobilização popular. Ela trouxe de volta diversos brasileiro exilados pelo regime militar por desavenças políticas.

Aquele Abraço, Gilberto Gil

Um marco na música popular brasileira, Aquele Abraço (1969) está presente na memória de todos os cidadãos, sem restrição de gerações. Nos versos da canção, Gilberto Gil se despede do país quando está a caminho de seu exílio. Exalta as belezas de sua cidade, o Rio de Janeiro, e outras que conheceu durante sua vida.

Pra não dizer que não falei das flores, Geraldo Vandré

Uma das mais importantes de todas, Pra não dizer que não falei das flores (1979) representa com força o simbolismo de resistência da população — em especial dos movimentos civil e estudantil. Apesar de ter sido censurada, tornou-se o hino da resistência ao incentivar que houvesse mobilização contra o regime.

Existem muitas outras canções marcantes, como Vaca Profana (1984) e É Proibido Proibir (1988), ambas de Caetano Veloso. O movimento artístico foi incisivo, em muito, para garantir a volta à liberdade e ressaltar que essa deve ser valorizada.

Arte é política

[Imagem: Arquivo Nacional]

O papel da arte não pode estar somente ligado ao entretenimento, mas deve igualmente gerar alguma reflexão sobre o mundo. Ela é uma forma de gerar esperança e conforto, mas ao mesmo tempo, ser realista e ocasionar o máximo de desconforto possível. E, em momento sombrios, servir não como uma luz no fim do túnel, mas aquela feita no escuro e que será o lembrete constante de que há saída, sem deixar para trás a ideia do porquê ser necessário, naquele momento, buscar por uma saída.

O período ditatorial teve enorme impacto no Brasil. O passado desse país assombra gerações e mais gerações, porém recordar de quem o brasileiro foi, quando posto em uma situação de descrença, reforça a importância de que, em muito, a arte produzida pelo povo e para o povo teve impacto na queda do regime.

Hoje, não se pode ignorar o passado por medo do que aconteceu, senão compreender a importância da liberdade e da democracia para um lugar mais justo. Por isso, não há meios de negar que a música e todas as outras artes foram um combustível e tanto para que as pessoas tivessem suas vozes de volta e para que muitos outros tenham uma voz agora, que por muito tempo não puderam expressar.

A responsabilidade da indústria musical na pandemia

Desde o início da pandemia, com o enfrentamento de uma nova realidade que trouxe dor e melancolia, as pessoas buscaram maneiras de entretenimento que as mantivessem em casa. Muitos artistas da indústria musical, por exemplo, reforçaram a necessidade do distanciamento social, além do respeito às medidas de proteção estipuladas pelos principais órgãos de saúde, como a OMS, e desenvolveram distintos modos de levar a música ao seu público.

As premiações e os espetáculos tomaram formas inusitadas para que a arte chegasse à audiência e não que a audiência fosse até o consumo da arte. Para isso, surgiu a necessidade de tempo e paciência para ponderar as distintas faces que fossem verdadeiramente sustentáveis numa situação tão delicada.

Um modo que se popularizou foi a das lives no Youtube. Uma das primeiras foi a da rainha da sofrencia, Marília Mendonça, em abril de 2020. A “Live Local Marília Mendonça” bateu — e sustenta até hoje — o recorde de live com maior audiência simultânea com o número expressivo de 3,31 milhões de espectadores. Marília foi seguida pelas estrelas do sertanejo, a dupla Jorge e Mateus, que conquistou 3,2 milhões de usuários de olho na apresentação, e muitos outros artistas como Gusttavo Lima, Nando Reis, Anavitória e Sandy & Junior.

No Brasil, as conexões da música com seu público foram de imenso incentivo à estadia dentro dos lares. As lives, em muito, tiveram responsabilidade por oferecer a sensação de que ainda se podia ter alguma distração em meio à morbidez trazida pela pandemia ao considerar todas as perdas — e potenciais perdas — enfrentadas com a propagação do vírus.

A cultura possui um papel inegável na sociedade; ela tem um enorme domínio de influência naqueles que alcança. O papel das lives no início do cenário pandêmico pôde reforçar esse fato ao delinear que não era preciso sair para chegar ao lazer, algo que acabou por render uma resposta positiva nos meses iniciais do período.

As premiações também tiveram seu momento de pausa para refletir sobre como tornar o espetáculo coletivo em celebração à música em algo que ainda envolvesse o público e os premiados sem pôr ninguém em risco. O MTV Video Music Awards de 2020, por exemplo, ocorreu sem plateia e com apresentações de alguns dos artistas que usavam máscaras, como Ariana Grande e Lady Gaga em sua performance do hit Rain On Me — juntamente ao medley de outras canções do álbum Chromatica (2020). Todos eles faziam distanciamento social como nas medidas recomendadas pela Organização Mundial da Saúde.

A edição do Grammy de 2020 ocorreu no mesmo mês da declaração de estado de pandemia. Porém, o do ano seguinte foi adiado para que as medidas fossem melhor seguidas. As apresentações não contaram com plateia e os artistas indicados ficaram de máscara durante grande parte da cerimônia, além do endossamento constante pelos apresentadores da importância de seguir as estipulações da OMS.

A indústria musical e seu alcance assombroso tinham responsabilidade por como se comunicariam com seus consumidores acerca da situação. Uma palavra ou ato teriam a capacidade de fazer com que fossem reproduzidas por todo o mundo. Assim, a obrigação era — e ainda é — ter comprometimento com a segurança dos consumidores. Apesar de muitos dos membros dessa elite não terem sido adeptos a tal percepção de que suas cargas como figuras de representação cultural seriam refletidas nas ações da audiência, grandes nomes estavam alinhados à ciência.

As turnês foram canceladas a fim de não promover aglomerações, o incentivo à imunização ganhou potência e o uso de máscaras foi reforçado, tal qual o distanciamento social. Figuras públicas e os que estão por detrás das celebridades têm um papel indispensável na sociedade.

Olivia Rodrigo em discurso na Casa Branca [Imagem: Susan Walsh/Associated Press]

Olivia Rodrigo, a garota do momento na indústria musical, foi convidada por Joe Biden,  presidente dos Estados Unidos, para ajudar a promover o entendimento de que todos precisam se vacinar em nome da saúde coletiva. Essa é uma comunicação que dialoga, principalmente, com o público jovem.

No Brasil, a campanha foi orgânica: os tesouros nacionais usaram as redes para falar dos benefícios de se vacinar e no valor do SUS (Sistema Universal de Saúde).

Não apenas relacionada ao entretenimento e à indispensabilidade de um escape na realidade abrupta enfrentada atualmente, a indústria também comporta responsabilidade ao usar seu poder de influência para levar à compreensão geral de que seguir à ciência é a forma principal das coisas melhorarem. Vacina, distanciamento, máscaras de proteção e evitar aglomerações: essas são as formas de seguir a vida em segurança depois de tudo. Além disso, o exemplo que os artistas dão através de suas redes sociais, com seus milhões de seguidores de diversas idades, corrobora para que o exemplo seja seguido em nome da admiração e honra.

A  cultura deve ter compromisso em preservar a memória daqueles que se foram, fazer o possível para aproveitar como as coisas serão depois desse período e buscar respeitar a ciência e o público; o coletivo e o futuro livre desse momento tão devastador.

Reggaeton e cultura latina: da censura e marginalização ao reconhecimento mundial

A região latina, que compreende os países do continente Americano cujas línguas faladas estão entre o português, o espanhol e o francês — chamadas línguas românicas ou latinas —, é marcada por grande resistência frente ao contexto histórico da colonização. Por isso, a arte é usada como uma das principais ferramentas de denuncia a quaisquer tipos de repressões. A música não poderia ficar de fora.

Tal região é mãe de distintos gêneros, como tango, salsa e samba, por exemplo, mas o que tomou grande proporção nos últimos anos foi o reggaeton. Ele ganhou evidência mundial e foi popularizado mundo afora, até mesmo com artistas não-latinos a produzir canções nesse ritmo. Seu peso cultural pôde, ainda, entregar uma nova imagem da cultura latina que, em muito, é estereotipada pelo globo.

É ao considerar o espaço que conquistou, que conhecer sua origem com o relevante peso histórico se torna importante. Compreenda melhor toda a linha temporal que deu início ao seu sucesso e à força no cenário da indústria mundial.

Origem do Reggaeton

O Reggaeton está nas rádios, nas festas, nas feiras de rua, nas comemorações em família e, agora, nas principais premiações de música mundiais. Mas, apesar de seu sucesso repentino, tem uma história de grande valor com o significado de resistência que persiste até hoje.

O ritmo foi originalmente criado no Panamá, mas se desenvolveu em Porto Rico, ilha caribenha hoje pertencente aos Estados Unidos. Para poder entender o nascimento do reggaeton, é importante ter conhecimento de que, antes, a ilha costumava ser território espanhol por conta da colonização das Américas, mas desde 1898, após a derrota do país europeu na batalha Hispano-Americana, tornou-se terra de domínio estadunidense. Esse ponto transforma toda a história de Porto Rico em uma luta para permanecer de pé apesar da trajetória conturbada, pois as raízes de sua colonização fizeram da ilha latina, o que marca a marginalização de seu povo.

Foi em um cenário de instabilidade político-econômica, que a migração dos porto-riquenhos aos Estados Unidos ajudou a levar o hip-hop para terras caribenhas, ponto chave para a criação desse novo ritmo.

Devido a enorme influência de países latinos, a junção do Reggae, de origem jamaicana, e do Hip-hop, de berço estadunidense, ambos criados por volta dos anos 70, que nasceu o Reggaeton. Na época, tinha o nome de “Underground”,  o que rotulava sua imagem a um conteúdo considerado de baixa qualidade, vulgar e sexista.

O underground tinha origem de lugares de vulnerabilidade social e econômica. O espaço, apesar de todas as negativas associações feitas, era direcionado à criação de uma arte que servisse de denúncia ao racismo, à violência policial e à pobreza. Justamente por se estabelecer em um cenário desfavorável em meios sociais, a educação era prejudicada, logo, as letras eram baseadas unicamente nas vivências de seus cantores e compositores, e não havia meio de prolongá-las às perspectivas sociais da educação formal.

Ainda, por conta do conteúdo carregado nas canções — com ênfase na linguagem sexual, violência e menção a drogas ilícitas — havia reprovação intensa do governo, mas a tentativa de censura apenas gerou publicidade.

Um enorme marco na apresentação mundial do reggaeton foi, sem dúvida, com o lançamento épico de Gasolina, de Daddy Yankee, em 2004. Porém, alguns anos depois, o começou a perder a força, até ser resgatado por artistas colombianos, como J Balvin, e tomar gigantesca força em 2017.

O reconhecimento global

Karol G pasa la mejor noche de su vida al lado de J Balvin ¿Y Anuel AA?
Karol G e J Balvin [Imagem: Reprodução/Instagram]

Após uma trajetória marcada pela censura, restrição de domínio ao perfil masculino no cenário, a resistência da arte e a perda de sua força, uma nova geração de artistas resgatou o ritmo.

Na Colômbia, J Balvin em muito foi responsável por intensificar o retorno de um Reggaeton mais comercial. Seu primeiro sucesso, 6 AM (2014), em parceria com Farruko, conta hoje com mais de um bilhão de visualizações. Em 2016, lançou os hits Mi Gente e Ginza — cujo remix conta com a participação da cantora brasileira Anitta.

Foi em 2017, com a parceria entre Luis Fonsi e Daddy Yankee (de volta aos holofotes), que surgiu Despacito. O videoclipe da música é o segundo mais assistido de todo o Youtube com mais de sete bilhões de visualizações. O remix com Justin Bieber foi outro sucesso absoluto, até mesmo nas principais premiações de música.

Com o estouro do gênero, muitos artistas grandes da indústria iniciaram colaborações com artistas latinos ou lançaram suas próprias músicas. Além de Bieber, Cardi B, Nicki Minaj, Billie Elish e Ed Sheeran, por exemplo, estão entre remixes e canções originais estreadas no ritmo.

Hoje, o Reggaeton levou ao mundo um pouco da cultura latina e deu espaço e visibilidade a artistas do meio através da oportunidade de crescer junto à sua própria história.

Pioneiros do gênero

Victor Cabrera e Francisco Saldanã, os Lucy Tunes, respectivamente [Imagem: Jean Baptiste Lacroix/Getty Images]

Para falar sobre um gênero com raízes tão fortes, não se pode deixar de mencionar aqueles que foram responsáveis por sua resistência apesar dos anos. Conheça alguns dos principais nomes do Reggaeton e sua história na cultura porto-riquenha:

Vico C e Many Montes foram responsáveis pela busca de desfazer a visão pejorativa que se tinha daquela música em seu início. Outro nome de peso que tem presença até hoje é Daddy Yankee, ele teve influência, como mencionado, na democratização do ritmo. Além dele, Dom Omar, Wisin y Yandel, Tempo, Hector “El Father” e Nicki Jam, por exemplo, entregaram canções que estruturam a base do reggaeton.

Porém, é importante dar ênfase ao trabalho de produção feito por Francisco Saldanã e Victor Cabrera, conhecidos como Luny Tunes. Foram eles os responsáveis pelos álbuns Mas Flow (2003) e Mas Flow Dos (2005), que colaboraram com a sustentação da era de ouro do estilo. 

Mulheres no reggaeton

Marcado por uma história de sexismo e repleto de denúncias externas à sexualização das mulheres latinas — que, historicamente, já são bastante objetificadas e sofrem com estereótipos — o reggaeton teve seu cenário fortemente alterado desde que recebeu reconhecimento mundial nos anos 10.

Não se pode duvidar que essa mudança foi positiva, porém a sexualização feminina nos clipes ainda tem caráter consideravelmente incisivo e desfavorável às mulheres que o representam.

No início, poucas figuras femininas possuíam algum espaço nesse monopólio masculino. Nomes como Ivy Queen, La Sista, as participantes do La Factoria e Glory se destacam. Conheça as principais latinas que conquistaram seu trono na indústria:

Ivy Queen

Conhecida como “A rainha do reggaeton”, foi uma das primeiras do gênero, apesar de ter iniciado no rap. Brilhante, a artista teve três de seus álbuns certificados com ouro e diversas canções ocuparam lugares nas principais paradas da música latina. Destacam-se, entre os hits, Yo Quiero Bailar (2003) e La Vida Es Así (2010).

La Sista

A cantora porto-riquenha se lançou na música aos dezenove anos. Em 2006, lançou seu primeiro álbum, Majestad Negroide. No Reggaeton, também foi uma das primeiras mulheres a conquistar seu espaço.

Glory

Pode ser que, de nome, você não a conheça, mas ela esteve entre os responsáveis pelo triunfo do reggaeton em 2004 com Gasolina ao lado de Daddy Yankee. Esteve, ainda, envolvida no projeto Mas Flow, produzido pelos Luny Tunes e Noruega, juntamente a outros titãs do gênero. 

La Factoria

O grupo de origem panamense era liderado por Demphra, que colaborou com o fator marcante do triunfo ao lado de seus companheiros Marlen Romero, Johanna Mendoza, Edgardo Miranda e Pablo Maestre. Dentre seus maiores hits, está Perdoname (2007) com Eddy Love.

Becky G

Com descendência mexicana, Becky G nasceu nos Estados Unidos e iniciou sua carreira no pop. Seu primeiro grande hit esteve na cabeça de todos os jovens em 2014, quando Shower saiu. A canção de 2016, Can’t Stop Dancing, já possuía bastante influência de suas raízes, mas a trajetória no idioma espanhol começou com Sola (2016). A conquista no reggaeton foi garantido com Mayores (2017) com Bad Bunny, cujo clipe possui mais de dois bilhões de visualizações.

Natti Natasha

A cantora dominicana estudou música desde muito nova e assinou contrato com Orfanato Music Group, um nome de peso no reggaeton, em 2010. Sua primeira canção de sucesso, Dutty Love, foi em parceria com Don Omar, também bastante relevante no gênero. Tal parceria teve como resultado o reconhecimento em prêmios internacionais como o Billboard Music Awards. Em seus trabalhos mais recentes, destaca-se Criminal (2017) ao lado de Ozuna.

Karol G

A colombiana iniciou sua carreira no X Factor de seu país. O primeiro sucesso da carreira foi o feat Ahora Me Llama (2017) com Bad Bunny. A fama se concretizou quando colaborou com a rapper Nicki Minaj para a canção Tusa (2019).

Sexismo, falta de representatividade e apropriação

É comum que arte incite diversas polêmicas e com o Reggaeton não podia ser diferente. Contudo, suas polêmicas tem relação com contextos sociais que precisam ser revistos.

Sexismo marcado na objetificação e na exclusão

A princípio, o espaço do gênero era imensamente direcionado à participação quase que exclusiva de personalidades masculinas. La Sista, Glory e Ivy Queen eram os nomes femininos que melhor se destacavam. Entretanto, além de toda a carga excludente das mulheres no meio, quando possuíam espaço nos clipes, eram absurdamente sexualizadas.

Em contexto histórico, a mulher latina foi infligida a diversas violências raciais e de gênero. A objetificação reforçada dentro do reggaeton, seja nas composições ou nas representações visuais, em muito tem tom prejudicial às latinas. Ainda, as mulheres racializadas têm maior vulnerabilidade ao sexismo, com ênfase na sexualização agressiva.

Atualmente, pode-se dizer que a abertura de espaço às mulheres exprimiu a sensação de que, em suas próprias carreiras, decidem os limites de como preferem aparecer ao público. Porém, os artistas masculinos mais recentes prosseguem o reforço de usar o corpo feminino como objeto de desejo e a essência feminina como conquista oferecida pelos luxos do dinheiro e do sucesso.

A exemplo, o clipe Felices los 4 (2017), do colombiano Maluma, conta com 1,7 bilhão de visualizações no Youtube. Nas cenas, é perceptível que a atriz principal, em grande parte da duração do vídeo, usa roupas íntimas ou está nua, além da representação dela como uma espécie de troféu ao cantor. Já em Dákiti (2020), de Bad Bunny e Jhay Cortez, com mais de 950 milhões de visualizações, as imagens se dividem entre uma série de mulheres em biquinis, com ângulos a evidenciarem partes dos corpos das atrizes. Por outro lado, todos os homens no vídeo estão inteiramente vestidos.

Ao que é notável, o caráter sexista duramente criticado durante o crescimento do ritmo se perdeu em partes, mas há um enorme caminho para desestruturar essa idealização do corpo feminino latino.

Falta de representatividade que reforça o apagamento

A América Latina é uma região multiétnica. Grande parte dos países apresenta características históricas responsáveis pela miscigenação. Assim, além da xenofobia, pessoas negras de origem latina estão submetidas a violências raciais constantes. Por isso, o reggaeton, em sua criação, também servia, como comentado, como uma maneira de denunciar a realidade do racismo vivido no dia a dia.

Ao receber os holofotes em seu alcance mundial na última década, manteve o espaço para a apresentação, principalmente, de artistas brancos. São poucos os reggaetoneros negros que hoje têm espaço, como Ozuna e Rauw Alejandro.

A relação de presença de mulheres negras no cenário de hoje é mínima. Glory, La Sista, Demphra e Joisy Love — ambas as últimas de La Factoria — são algumas das mulheres negras que abriram espaço à presença feminina no reggaeton moderno, mas que não são mais representadas em um ambiente predominantemente embranquecido, bem como toda a diversidade racial existente na região não é refletida em como a cultura latina tem sido demonstrada ao mundo.

Apropriação

Desde que a proporção do reggaeton se expandiu a nível global, o epicentro da indústria musical começou a investir em remixes com artistas estadunidenses e ingleses e, posteriormente, parcerias e canções solo. Não há novidade no fato da indústria produzir canções de mainstream a partir de ritmos popularizados no momento, como tem feito com a volta do pop anos 90 e como fará com o próximo a surgir.

A polêmica de apropriação se deu quando artistas não-latinos começaram a ganhar prêmios dedicados à música latina e ocupar o espaço na música que deveria ser uma forma de reparação por meio da cultura. Com a cultura e o povo marginalizados, conseguir alcance mundial apesar das restrições impostas pelo meio musical é de extrema importância para desfazer as amarras do passado sem perdê-lo de vista.

Um exemplo, dentre as diversas vezes nas quais houve esse apagamento, ocorreu esse ano no MTV Video Music Awards, um dos prêmios mais aguardados do ano, no qual Rosalía, artista espanhola, e Billie Eilish, artista estadunidense, ambas sem nenhuma descendência latina, venceram na categoria de Melhor Clipe Latino. Todos os outros concorrentes ou eram artistas latinos solo ou estavam em parceria com artistas latinos. Como o VMA é baseado em voto popular, a vitória das duas cantoras foi menos insatisfatória que a indicação, já que os fãs votam em seus artistas favoritos de qualquer maneira. Portanto, a bancada do VMA indicar Rosalía e Billie gerou enorme descontentamento pois a visibilidade dos cantores que melhor se encaixam nesse prêmio foi ofuscada. A espanhola também recebeu diversos prêmios no Grammy Latino e esteve envolvida em polêmicas sobre outras acusações de apropriação pelo ritmo flamenco, de raízes ciganas.

A importância de manter a cultura viva e ressignificar o passado

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A porta da bandeira, em San Juan, Porto Rico [Imagem: J Amil Santiago/Unsplash]

O passado de países latinos é refletido em cada espaço do contexto atual, seja na política, na economia, na influência cultural externa ou nos comportamentos sociais. Apesar de todas as heranças deixadas pelo período de domínio de colonizadores serem marcantes hoje, cada um pôde buscar a construção de sua própria identidade através da arte, que é capaz de moldar uma sociedade.

Preservar o Reggaeton é garantir que cada pessoa responsável pelo seu desenvolvimento não se perca com influências externas à cultura latina, algo que muitas vezes pode alterar completamente o que havia no início. Reforçar suas raízes é manter viva a memória e deixar claro seu passado como forma de aprender com ele e reconhecer o que pode ser mudado sem que a origem deixe de existir.

Todas as mudanças de inclusão que agora marcam o gênero foram necessárias para que a representação de sua parte do continente fosse um pouco mais justa. Porém, não há maneira de deixar de lado que a passagem dos anos e a inserção de novas personalidades no meio também reforçou como, apesar das Américas serem fortemente miscigenadas, essa diversidade não representar, através da cultura, a realidade em sua totalidade. Para usar o reggaeton como ferramenta de resistência em chegar à nata da indústria e influenciar, também é necessário que ele mostre o máximo possível de onde vem ou criará nova face de exclusão ao elevar uns com base no esquecimento de tantos outros.

Ainda que tenha muito o que crescer em melhorias de pontos sociais, a força que conquistou hoje monta o palco para desconstruir estereótipos futuramente e dar oportunidades aos artistas e até a seu público. Da censura e marginalização aos mais importantes palcos da indústria musical e filmes de Hollywood, o reggaeton conquistou o mundo e está apenas no começo.

Taylor Swift: A Indústria Musical

Você já deve ter ouvido que Taylor Swift “é a indústria musical”, mas muito provavelmente duvidou disso. Entretanto, apesar de todas polêmicas que envolvem a artista, seu nome não está em alta por conta de tais relações controversas, mas porque seu poder na indústria tem alcance global — até mesmo quando não é diretamente citada.

Com uma carreira que completou, recentemente, 15 anos, Taylor é consolidada, hoje, como uma das artistas mais relevantes do século. Infinitas honrarias, canções que não saem da cabeça e a presença de quem será lembrada eternamente dão a ela os títulos que carrega.

Entenda um pouco sobre a trajetória da miss americana e como ela se tornou não parte da indústria, mas a indústria em si.

Versatilidade marcante

Um dos pontos que mais deixam em evidência toda a trajetória de Taylor certamente é a versatilidade dos gêneros musicais pelos quais transita e das distintas eras de cada álbum. Ao colocar um ao lado do outro, é possível notar uma forte divergência entre eles, sem a perda da essência da artista.

Em Taylor Swift (2006), o gênero musical era expressivamente country. Ainda, um dos motivos da saída de Taylor da sua cidade natal em mudança para Nashville foi a tentativa de ser evidenciada como um artista country, quando tinha 15 anos de idade. Ao assinar o contrato com a gravadora Big Machine Records, lançou seu primeiro álbum de estúdio, integralmente no estilo de seu objetivo. Com cabelos cacheados e uma estética que marcava tal temática, a adolescente conquistou o primeiro lugar nas paradas country ao lado de grandes nomes do meio.

Em 2009, Taylor lançou seu segundo álbum, Fearless, que a deu o primeiro vislumbre de sucesso mundial com os singles You Belong With Me e Love Story. Hoje, eles contam com mais de um bilhão de visualizações, ao todo, na plataforma do Youtube. Dessa vez, a jovem recebeu destaque em importantes premiações da indústria musical ao vences os Grammys de Álbum do Ano e Melhor Álbum Country naquele ano.

Os visuais ainda se assemelham aos do primeiro álbum, mas é possível perceber que Swift se aproximava de se tornar um símbolo no meio. Atualmente, Fearless é a primeira regravação dentre seus seis primeiros álbuns.

Após o sucesso do disco, Speak Now (2010) veio com uma turnê quase teatral, sem rastros de trivialidade. O uso do batom vermelho, uma marca de da artista, ganhou relevância intensa nessa era.

O lançamento de Red (2012) sublinhou o início da transição de Taylor para o pop. Ainda que o álbum conte com muito do country de sua origem, tornou-se o último do gênero. Os singles We Are Never Getting Back Together, 22 e I Knew You Were Trouble, por exemplo, foram decisivos ao delinearem a presença dela no pop. Além disso, houve uma alteração significativa na estética visual, principalmente quanto a seu cabelo, que, a partir desse ponto, já não é mais cacheado.

A era 1989 traz o primeiro disco completamente pop da cantora. A maior parte das faixas esteve no repeat por todo o mundo, o que a posicionou no topo da indústria musical em 2015, especialmente. Em consequência, toda a estética remetia fortemente a de uma popstar. Roupas metálicas casavam com a sonoridade mais eletrônica e moderna desse novo conceito de artista, bem como o brilho, que a deixava dentro da imagem luxuosa de maior cantora do momento.

Sem dúvidas, a era que se seguiu foi uma das mais marcantes não por uma reinvenção, mas pelo nascimento de uma nova Taylor. Após todas as polêmicas que a envolveram em 2016, o comeback de 2017 trouxe sua versão de quem não deixa nada passar em branco. Não somente nas letras das músicas, na estética de roupas e no visual dos clipes, Swift caprichou nas referências e respostas sobre todos os ataques. O álbum Reputation e sua turnê quebraram recordes e ofereceram uma perspectiva diferente da cantora.

Já em busca de oferecer sensações mais leves e calmas, à procura de reproduzir o momento romântico que presenciava, o álbum Lover (2019) é vivo, colorido e doce, completamente diferente de todo o visual e composição do Reputation, como irmãs de personalidades opostas. Mais uma vez, essa era extrai bastante do pop, porém ela chegou a arriscar um tom de jazz na canção False God.

Os álbuns evermore e folklore, ambos de 2020, trouxeram um cenário bastante próximo do cottagecore, em alta nos últimos anos. Canções alternativas, de folk e com certa presença raízes no country dominam os discos. Além de demonstrarem, mais uma vez, a versatilidade de Taylor, também vieram a evidenciá-la, fortemente, como uma compositora gigantesca.

Vale complementar que seu visual nas regravações de Fearless (Taylor’s Version) e Red (Taylor’s Version) trazem o contexto da época dos álbuns originais em casamento com quem a artista é agora, mais de dez anos depois.

Taylor vs Spotify e Apple Music

Atualmente, Taylor é uma das artistas mais ouvidas do mundo, principalmente nas plataformas de streaming —aquelas responsáveis por facilitarem o acesso do público ouvinte às músicas. Porém, apesar de muitas dessas plataformas serem pagas para o uso, o que é repassado para todos os que produzem o material final é mínimo. Essa foi a razão de, em 2014, Taylor Swift retirar toda a sua discografia da plataforma de streaming Spotify.

Para o The Wall Street Journal, Taylor escreveu: “Música é arte, e arte é importante e rara. Coisas raras e importantes são valiosas. Coisas valiosas devem ser pagas. É minha opinião que música não deveria ser gratuita, e a minha previsão é que os artistas individuais e suas gravadoras irão, algum dia, decidir qual é o valor de um álbum. Eu espero que eles não se subestimem ou menosprezem sua arte.”

Taylor Swift na 1989 Tour [Imagem: Getty Images]

No ano, a artista estava prestes a lançar seu primeiro álbum integralmente pop, 1989,  que a levaria ao auge de sua carreira. Em entrevista ao Yahoo! Music, Taylor comentou sobre o porquê da retirada dos seus álbuns da plataforma: “Tudo o que é novo, como o Spotify, me parece um pouco com um grande experimento. Eu não estou interessada em contribuir com o trabalho da minha vida a um experimento que não parece justo em compensar os compositores, produtores, artistas e os criadores dessa música. Apenas não concordo com perpetuar a percepção de que a música não possui valor e deveria ser gratuita.”

Após 3 anos, em 2017, voltou a disponibilizar suas produções no Spotify em agradecimento aos fãs pelo sucesso estrondoso de 1989. No entanto, a guerra contra o pagamento injusto pela música não se limitou ao Spotify, pois Taylor fez outra uma crítica pontual à Apple Music.

De volta a 2015, comunicou através de seu Tumblr oficial que o quinto álbum de estúdio não estaria na Apple Music. A motivação se deu por conta do período experimental concedido pela empresa para novos usuários, onde era possível ouvir música gratuitamente por 3 meses. A discordância de Taylor foi direcionada à Apple Music não pagar os artistas e seus colaboradores por esse período, fato considerado “chocante e decepcionante”, como escreveu em seu post.

Em resposta, a plataforma anunciou que mudaria sua política de compensação e começaria a pagar pelo período experimental.

Taylor reforçou, ainda em sua publicação, que esse ponto não é sobre ela, mas sim sobre novos artistas e bandas que não são pagos pelo seu trabalho, esforço e dinheiro investidos no que acreditam.

A reputação dela nunca esteve pior

Taylor Swift na Reputation Stadium Tour [Imagem: Getty Images]

Hoje, a cultura do cancelamento é muito comentada e difundida nas redes sociais. Com o crescimento da internet no dia a dia a fazer parte integral do mundo atual, a proporção das coisas é maior e pode ser estarrecedora para algumas pessoas… ou não.

Em 2016, uma onda de cancelamento atingiu a estrela do momento. Após conflitos iniciados no VMAs de 2009 entre Taylor e o rapper estadunidense Kanye West, o lançamento súbito do clipe Famous do cantor contava com uma boneca de cera nua da cantora e o trecho “Sinto que eu e Taylor ainda podemos fazer sexo. Por quê? Eu fiz aquela v**** famosa. Droga, eu fiz essa v**** famosa”.

À público, o artista afirmou que ela estava ciente da menção no single, porém foi desmentido pela equipe de Swift. A mesma reformulou o contexto ao dizer que ela não sabia do fragmento “eu fiz essa v**** famosa”, no qual o cantor a ofendia verbalmente.

Em resposta, a socialite e esposa do rapper, Kim Kardashian, publicou um vídeo nas redes no qual Kanye estava em ligação com Taylor e comentava sobre a música. Swift refutou, em publicação nas redes, ao declarar que a gravação não estava completa e que apenas gostaria de ser excluída da narrativa de conflitos na qual foi inserida contra a sua vontade em 2009.

A internet e a mídia se voltaram contra a artista, que desapareceu por um ano da vista pública. Durante sua exclusão da imprensa, Taylor estava no processo de composição de um novo álbum e a gravar o documentário Miss Americana (2019), da plataforma de streaming Netflix.

Sua volta ao estrelato se iniciou com o clipe de Look What You Made Me Do, em 2017. A partir do cenário conturbado, utilizou-se da imagem de mulher manipuladora e ardilosa construída em tom ostensivamente sexista pela mídia como forma de dar continuidade a seu legado, mas dessa vez, deu adeus à sua antiga versão e apresentou uma nova ao mundo.

A era Reputation foi marcada pela estética escura e de nuances vingativas, graficamente repleta de cobras, espinhos e papéis de jornal em alusão à participação negativa da imprensa no que chamou de “morte da sua reputação”. As composições, mais uma vez inteiramente pessoais, reforçavam como foi “jogada na fogueira” como uma bruxa na Inquisição – período histórico no qual pessoas, em massiva parte, mulheres, foram assassinadas em fogueiras pelo que instituições religiosas da época consideravam heresia.

Ainda que não se limite a esses pontos, pois possui faixas direcionadas ao seu atual parceiro, o ator Joe Alwyn, o contexto do Reputation é destacado pelo ar de revanche e renascimento das cinzas de uma reputação queimada.

Taylor transformou a imagem manchada e o “enterro” de sua reputação pública em uma publicidade que reforçou sua capacidade de reinvenção e a potência na indústria mundial. Com isso, o álbum foi responsável pelo retorno definitivo de seu sucesso após a pausa e a Reputation Stadium Tour se tornou a segunda turnê feminina mais lucrativa da história, onde Swift fica atrás apenas de Madonna.

Em Miss Americana, dirigido por Lana Wilson, é apresentada a narrativa de Taylor sobre todas as principais polêmicas nas quais esteve envolvida, as batalhas pessoais e familiares as quais precisou vencer, seu esforço incansável em busca de recuperar o que pensou ter perdido em 2016 e, posteriormente, em 2018, o preço alto que se paga pela fama e o momento em que encontra o amor, com seu atual parceiro.

É importante trazer que, em 2019, o vídeo integral da ligação de West a Swift foi vazado e comprovou a versão dos fatos da cantora, no qual foi clarificada sua não consciência sobre as ofensas verbais de Kanye e demonstrou desconforto sobre o contexto da canção.

Regravações: a luta pela sua arte

Ao longo da carreira, Taylor já se mostrou bastante alinhada aos direitos da arte que produz. A pessoalidade depositada nas composições e em tudo que ronda seu trabalho soa irremediavelmente significante, algo que torna sua batalha ainda mais completa em empenho.

Em 2019, um novo cenário tomou conta da menção de seu nome: a empresa Ithaca Holdings, do domínio de Scooter Braun, produtor e empresário com a qual Taylor possui inimizade, comprou a gravadora Big Machine Records – onde a artista gravou seus seis primeiros álbuns, desde Taylor Swift (2006) a Reputation (2017).

Ao tomar conhecimento do ocorrido, sua equipe buscou comprar novamente a discografia, porém o executivo exigiu que, se a vendesse, Taylor não poderia mais fazer alusões negativas a seu nome. Tais alusões estavam diretamente ligadas às acusações de Swift de bullying pela parte do empresário, além de alegar cooperação por parte de Braun com a situação de 2016, com Kanye West e Kim Kardashian.

Meio às turbulências contratuais e, em muito, pessoais, dois outros pontos decisivos vieram à tona. Para o American Music Awards de 2019, a cantora recebeu um comunicado de homenagem como Artista da Década. Para receber a honraria, Taylor planejava se apresentar com uma mistura de grandes sucessos da carreira, porém veio às redes anunciar que Braun e Scott Borchetta, fundador da antiga gravadora da artista, não a permitiram cantar canções dos seis primeiros álbuns pois seria uma maneira de regravá-las antes da permissão contratual — que apenas seria liberada a partir de 2020. Incluiu em seu depoimento que haveria permissão para a apresentação, mas deixariam, em sua palavras, somente: “Se eu concordar em não regravar versões imitando minhas músicas ano que vem (o que é algo que eu tenho tanto permissão para fazer quanto estou ansiosa para)”.

A gravadora desmentiu a informação, mas foi contrariada pela agente publicitária de Taylor, Tree Paine.

Performance de Taylor Swift no American Music Awards 2019 [Imagem: Reprodução/Instagram]

Em, seguida, no ano seguinte Taylor voltou a desabafar em seu Instagram sobre o lançamento de um álbum inédito, cujo conteúdo era uma apresentação de 2008 em uma rádio. Swift comentou que não aprovava o ato e que o lançamento era “de mau gosto, mas bastante transparente”.

Em face aos acontecimentos, Taylor e sua equipe foram informados de que a discografia voltou a ser vendida. Dessa vez, a negociação ocorreu entre o empresário e a companhia Shamrock Holding. O contrato estabelecido, por sua vez, garantia que Scooter ainda lucrasse com as obras da artista, o que não a agradou nem um pouco.

Em novembro de 2020, a decisão definitiva de regravação foi anunciada como uma forma de Taylor ser dona de sua própria arte construída por ela e todos os seus colaboradores. Apesar do esperado ser na ordem original de lançamentos, os fãs foram surpreendidos pela notícia de Fearless (Taylor’s Version) (Em tradução: Versão da Taylor) como a primeira regravação e que contaria com seis faixas extras. A seguir, o álbum anunciado foi Red (Taylor’s Version), disponibilizado sexta-feira (12) em todas as plataformas.

Ainda, a faixa All Too Well (10 Minute Version) (Taylor’s Version) (From The Vault), derivada da original All Too Well (Taylor’s Version), recebeu um curta-metragem estrelado por Sadie Sink e Dylan O’Brien. A produção dirigida, escrita e estrelada por Swift apresenta a história por detrás do track 5 de sua segunda regravação.

O talento em escrever narrativas

A indústria pop atual não conta com tantos cantores que compõem suas próprias músicas ou fazem parte desse processo, mas definitivamente esse não é o caso de Taylor Swift. Ela faz com que ouvir seus álbuns seja como ler sobre sua infância, sua família, seus amores fracassados, seu amor bem sucedido, seus amigos e as histórias que cria em sua mente. Talvez, um dos motivos para tamanha identificação com o que Taylor canta seja a transparência e a escrita sobre experiências reais, cotidianas. Mais do que qualquer coisa, sua música é como um espelho que reflete as coisas mais recorrentes da vida de cada um de seus ouvintes.

Entretanto, não é só o público que compartilha da opinião de que ela é uma ótima compositora. A NMPA (Nacional Music Publisher’s Association) a premiou com a Songwriter Icon Award, maior honraria dos compositores. Também ocupa um lugar, onde é a mais nova, na lista de melhores compositores de todos os tempos pela revista Rolling Stones, que evidencia a composição já comentada, All Too Well.

São muitas as críticas positivas e avaliações, sobretudo referentes à sua maneira de aproximar seus conflitos internos das de sua audiência. As suas narrativas, sejam verídicas e particulares ou folclores criados pela sua imaginação, como o triângulo amoroso de Betty, Augustine e James em folklore (2020), despertam sentimentos verídicos e apresentados com empatia por ela.

Afinal, por que Taylor Swift é a indústria musical?

Folklore: The Long Pond Studio Sessions [Imagem: TAS Rights Management]

Taylor não é um braço da indústria, mas a indústria em si. O seu poder é capaz de mover todas as estruturas de um espaço dominado por reproduções impessoais e sexismo absurdo.

Em sua vivência no meio musical, reforçou a importância indispensável de sua arte — e a de todos os outros artistas. Uma arte que deve ser compensada, respeitada e admirada. Os passos tomados durante sua trajetória demonstraram um amadurecimento que deve ser reconhecido e reverenciado.

Swift quebrou recordes de grandes nomes da indústria — e de si mesma — e se consolidou como imortal, longe de ser uma artista que se abate com a primeira queda. Inquebrável e imortal, Taylor não conhece o fracasso e nenhum de seus sinônimos. 

Apesar de todas as polêmicas, mostrou não ser definida por especulações e se pôs em defesa da sua integridade e orgulho, além da integridade e do orgulho de seu trabalho. A versão de si mostrada ao público com o decorrer dos anos, sem os óculos embaçados da mídia, e em seu documentário serviu para desmistificar a figura pública de pop star autocentrada que recebeu.

Talvez, os principais motivos para ela ser a indústria não se limitem à aparência padronizada — que, decerto, colaborou para o espaço que ocupa no meio — ou ao sucesso em números expressivos. Os motivos podem ter maior ligação à valorização imensurável que dá à arte e àqueles que a consomem. À sua maneira, sem tratar sua profissão como uma linha de produção musical, tudo o que é realizado tem consideração e dedicação de diversas pessoas. Taylor é a indústria porque tem poder e tem poder porque tudo o que faz é em respeito à arte.

Astroworld: O que aconteceu no festival de Travis Scott

Na última sexta-feira (5), o Astroworld Festival, fundado pelo rapper e produtor musical Travis Scott, foi palco de um cenário caótico que ocasionou a morte de 8 pessoas e o ferimento, do que se estima, 300 outras. O show ocorreu em Houston, Texas, nos Estados Unidos, e contou com um público de aproximadamente 50 mil pessoas.

A tragédia teve início em face à tumultuação decorrente do avanço dos espectadores em direção ao palco, quando Scott surgiu para sua apresentação. Em entrevista, o chefe dos bombeiros de Houston, Samuel Penã, deu um parecer sobre o número exato de óbitos e explicou a gravidade da situação. Ainda, afirmou que, frente ao pânico gerado pelo momento, houve uma quantidade expressiva de desmaios e pessoas pisoteadas.

À TMZ, um dos seguranças contratados para o policiamento do festival, Darius Williams, declarou que não houve treinamento adequado e os responsáveis pela proteção não estavam completamente cientes do que fariam.

Após o show, um ocorrido de 2017 veio à tona. O produtor foi detido pela polícia do Arkansas pela denúncia de incitar desordem no público presente. Sua prisão foi realizada ao fim da apresentação, mas houve liberação no mesmo dia. Duas pessoas ficaram feridas em consequência da fala do artista influenciar atos contra o código de segurança.

Um episódio semelhante se desenvolveu no Lollapalooza de 2015, em Chicago. Novamente, incitou que a audiência quebrasse os protocolos. Fãs subiram ao palco, empurraram as grades e desrespeitaram os seguranças. Scott foi preso pela polícia local por estimular desordem.

Relatos

Muitos dos presentes no incidente vieram a público em suas redes sociais comentar sobre o que presenciaram na noite do dia cinco.

A usuária de nome Jay publicou um relato em sua conta do Twitter sobre a experiência: “Na última noite, eu quase morri. (…) Travis subiu no palco e a multidão enlouqueceu. Eu fui imediatamente empurrada para o chão. Eu estava pressionada no chão e cerca de 5 pessoas estavam sobre mim. Eu estava bem no fundo. Eu não conseguia respirar”, escreveu.

Ao que alega, a jovem estava dentre os presentes feridos que foram levados ao hospital. Continuou: “Eu gritava por ajuda: ‘POR FAVOR, ME AJUDEM. VOCÊS ESTÃO ME MATANDO’, eu gritava com medo de que essa noite teria possibilidade de ter sido a minha última. Eu estava sendo esmagada, pisoteada continuamente por dois minutos inteiros. Eventualmente, um homem aleatório me viu sofrendo, os olhos dele se arregalaram e ele me segurou, puxando-me para cima e dizendo ‘você precisa sair daqui’. E isso foi o que eu fiz”.

Seu depoimento acompanha imagens suas na área hospitalar. Confira sua publicação na íntegra:

Ainda, em gravações disponibilizadas igualmente nas redes, é possível visualizar pessoas que subiram nos carros de seguranças que buscavam retirar os inconscientes e feridos do tumulto:

A seguir, assista o momento no qual duas pessoas alertam a um dos funcionários do local e gritam que “parem o show”. Em seu instagram, a jovem que aparece no vídeo comentou sobre o ocorrido: “Eu gritei que as pessoas estavam morrendo de novo e de novo. Ninguém ouvia”, escreveu na publicação. O vídeo capta os gritos repetidos da mulher no intervalo entre as músicas, mas interrompido pela faixa que se seguiu na voz de Travis:

À CNN, algumas vítimas deram entrevista e contaram sobre o ocorrido. Madeline Eskins relatou ao jornal: “Havia tão poucos recursos. Quero dizer, os médicos que estavam lá para ajudar, muitos deles não foram devidamente treinados”, sobre o escasso amparo profissional.

Investigação

A polícia de Houston iniciou uma investigação acerca de, essencialmente, dois pontos de primordial importância para o esclarecimento geral. Um deles tem referência às declarações de que um grupo de pessoas injetava drogas ilícitas indeterminadas nos presentes sem permissão.

Em declaração, o chefe da polícia de Houston, Troy Finner, alegou que um oficial, ao socorrer feridos, sentiu o que se parecia com uma aplicação de agulha, e posteriormente perdeu a consciência.

Não somente direcionada às suspeitas citadas, complementou sobre a urgência em saber qual o estopim gerou a efervescência do momento e o porquê da dificuldade de evacuação do local.

Nota de Travis Scott

À princípio, na noite do ocorrido, o rapper se pronunciou através da ferramenta de stories do seu Instagram, onde comentou estar trabalhando para entrar em contato com as famílias em luto para oferecer amparo.

Ressaltou, ainda, não ter consciência da situação, mas que trabalha com o departamento policial da cidade em busca de esclarecer o acontecido.

No sábado (6), Travis publicou uma nota em sua conta oficial do Twitter:

“Eu estou absolutamente devastado pelo o que ocorreu na noite passada. Minhas preces são dedicadas às famílias e a todos aqueles que foram impactados pelo ocorrido no Astroworld Festival”, escreveu. “O Departamento Policial de Houston tem todo o meu apoio para continuar a investigar as trágicas mortes. Eu estou comprometido a trabalhar juntamente à comunidade de Houston para curar e apoiar as famílias necessitadas. Obrigado, Departamento Policial de Houston, Corpo de Bombeiros e NRG Park por sua resposta e suporte imediatos. Amo todos vocês”.

Além de Travis, outras figuras públicas presentes no evento se manifestaram. Dentre elas, a socialite Kylie Jenner, com quem tem uma filha e espera por outra. Jenner estava presente na noite do ocorrido com a filha do casal, Stormi, e sua irmã, a modelo Kendall Jenner.

Na publicação, comenta: “Travis e eu estamos partidos e devastados. Meus pensamentos e preces estão com todos aqueles que perderam suas vidas, foram feridos ou afetados de qualquer forma pelo ocorrido de ontem. E também por Travis, que eu sei se importar profundamente com seus fãs e a comunidade de Houston. Eu quero deixar claro que nós não estávamos cientes das fatalidades até recebermos as notícias após o show e de nenhuma forma teríamos continuado a filmar e performar. Eu estou mandando minhas mais profundas condolências a todas as famílias durante esse momento difícil e estarei orando pela cura de todos aqueles que foram impactados.”

Quem são as vítimas?

De frente ao local do evento, as oito fatais vítimas foram homenageadas. Elas tinham entre 14 e 27 anos. Saiba quem foram:

Axel Acosta, de 21 anos; Brianna Rodriguez, de 16 anos; Danish Baig, de 27 anos; Franco Patino, de 21 anos; Jake Jurinek, de 20 anos; John Hilgert, de 14 anos; Madison Dubiski, de 23 anos; e Rudy Peña, de 23 anos.

Ocorrências posteriores à tragédia

Após o decorrer trágico do festival, o site TMZ informou que Travis garantiu se responsabilizar pelas despesas dos funerais das oito vítimas. Além disso, irá garantir apoio psicológico profissional aos presentes no festival.

Ainda, famílias de mortos e feridos entraram com ações legais contra o evento. Nesta segunda-feira (8), a NBC News afirmou que, até o momento, mais de 12 processos foram atribuídos a Scott. Uma das famílias é da vítima Ezra Blount, uma criança de 9 anos que se encontra em coma induzido. O processo legal intima os organizadores do evento e, sobretudo, o rapper criador do festival.

Diante da ocorrência, a imagem de Scott ao público geral não desenvolve mais agrado, logo, seus envolvimentos com marcas, anteriormente ao momento do dia 5, está fragilizado. Dior, marca francesa de luxo, por exemplo, possuía um projeto com o artista para o lançamento da linha Cactus Jack Dior. Especialistas comentaram à Rolling Stones que a melhor saída para a Dior e outros parceiros do criador do festival suspender a parceria, como a Nike e o Mc Donald’s, que também possuem contrato de lançamento futuro com o fundador do festival.

Nesse contexto, reforçam que as atitudes devem ser em respeito às vitimas e seus familiares, não apenas a negatividade trazida às empresas.

Taylor Swift para The Witch Collection do álbum Evermore (2020)

A música nas entrelinhas

“A arte existe porque a vida não basta”, disse o escritor brasileiro Ferreira Gullar. Sua reflexão leva ao sentido de que a vida sem arte é insustentável; um caminho à dormência. Talvez seja por isso que os artistas buscam fazer combinações delas entre si, a fim potencializar sua capacidade de transformar a realidade em um ambiente não apenas suportável, mas igualmente prazeroso.

As artes solitárias sustentam-se muito bem, mas unidas são mais poderosas. A música apenas como música, por si só, tem sua imensa influência, porém unida a outra expressão artística pode mudar absolutamente tudo, seja atada ao cinema, à fotografia, à dança ou à literatura. Juntas, todas elas são capazes de guiar uma pessoa ao imensurável e modificar completamente perspectivas e sentimentos.

Música e literatura, por exemplo, aparecem em diversas narrativas e composições entre elas. São parte de ambos os universos, ao transitar por suas entrelinhas como forma de intensificarem seus sentidos. Não se pode negar que possuem um objetivo em comum: alcançar o emocional do público. Emoções sensibilizadas e manipuladas, expostas ao toque do artista para te fazer sentir o que é necessário. Por terem tanto em comum, é importante reconhecer que uma influencia a outra de diversas maneiras… e ainda bem!

Influência mútua

Apesar da música e da literatura não serem artes pela metade, quando diretamente conectadas, complementam-se. A música, já apresenta muito da literatura em suas composições, além do fato de que diversos cantores são reconhecidos no meio literário.

Em 2016, o músico Bob Dylan recebeu o Nobel da Literatura. Popular no mundo da música, o recebimento do maior prêmio do meio literário exaltou esse elo e o fortificou. Já em 2019, Chico Buarque, patrimônio da música brasileira, foi homenageado com a maior honraria da literatura em língua portuguesa, o Prêmio Camões. Para compreender a magnitude dessa atribuição, autores como José Saramago, Jorge Amado e Lygia Fagundes Telles, primeira mulher brasileira indicada ao Nobel da Literatura, são alguns dos nomes consagrados pelo prêmio.

Tais contemplações da literatura, ao premiarem personalidades da música, apenas reforçam o que é impossível negar: tudo é melhor quando as artes se mesclam. Porém, essa dupla já caminha de mãos dadas há um bom tempo. Desde a Grécia Antiga, a poesia lírica era aclamada. Caracterizada por apresentações de pessoas que recitavam poemas em forma de canto e acompanhadas por instrumentos em segundo plano, essa maneira de expressão persiste até os dias atuais. 

Seu casamento tomou novas formas de se difundir, seja através de livros ficcionais com temáticas musicais, seja com as influências da literatura ou nas canções de grandes artistas pelo mundo.

Música nos livros

Ao reconhecer como há intervenção significativa de ambos os lados, a literatura em muito tem explorado o cenário musical para desenvolver narrativas interessantes. A seguir, conheça alguns livros cuja trama se desenvolve em meio à música:

Daisy Jones & The Six (2019)

Da mesma autora do extraordinário Os Sete Maridos de Evelyn Hugo (2018), Taylor Jenkins Reid, a obra Daisy Jones & The Six (2019) se tornou best-seller e está prestes a ganhar uma série pela Amazon Prime, já em produção.

A narrativa é desenrolada ao redor de uma famosa banda dos anos 70, aquela que dá nome ao livro. Todos queriam ser como eles: astros do rock. Queriam ter o sucesso, a personalidade e a sorte que eles tinham.. Isso até sua separação misteriosa em 1979. Por fim, quebram o silêncio sobre o fim súbito somente muitos anos depois, em uma série de entrevistas que constituem o decorrer da história.

Você irá mergulhar tão profundamente nas vidas de Daisy, Billy, Graham, Karen, Warren, Eddie e Pete, que irá acreditar que eles são reais.

Na Hora da Virada (2019)

O segundo livro de Angie Thomas, a mesma autora de O Ódio Que Você Semeia (2017), conta a história da jovem Brianna, apelidada de Bri. Seu pai era um astro do rap, cujo falecimento acarretou em um peso enorme à menina, que sonha em ser uma rapper grandiosa.

Contudo, a arte precisa ser deixada de lado por um tempo quando enfrenta situações financeiras comprometedoras e, para extravasar, deposita toda a frustração em uma música que viraliza e se torna um mártir à garota.

Não só com um forte elo com a música, que faz parte da vida de Bri e de suas aspirações para o futuro, Angie Thomas aborda, em Na Hora da Virada, questões indispensáveis sobre raça que precisam ser debatidas.

Gota D’Água (1975)

Essa obra é puramente composta por intertextualidades. A princípio, a peça escrita por Chico Buarque e Paulo Pontes como um musical foi adaptada da criação de Eurípides, Medeia. Repleta de canções marcantes na carreira de Chico, foi transformada em um livro de mesmo título publicado ainda em 1975, no ano de estreia da peça.

Os autores contam com a musicalidade para a fluidez de sua narrativa para apresentar, a princípio, a angústia de Joana, moradora da Vila do Meio-Dia e mãe de duas crianças. A mulher é abandonada por Jasão, homem de origem humilde que faz fama ao emplacar seu samba Gota D’água em todas as rádios. O sambista se envolve em um noivado com Alma, filha de Creonte, o homem rico a quem pertence a vila repleta de pessoas humildes que lutam para pagar suas prestações injustas.

Gota D’água veio ao mundo durante a época do Regime Militar, momento histórico marcado por censura. O livro desenvolve críticas à economia do país, principalmente relacionado ao aumento considerável da desigualdade social que o Brasil enfrentava arduamente no período. Paulo Pontes e Chico Buarque entregam tudo isso ao unir o teatro, a literatura e a música em forma de protesto.

O Fantasma da Ópera (1909)

O Fantasma da Ópera (1909) é um clássico da literatura mundial, escrito pelo jornalista francês Gaston Leroux. É também conhecido por sua adaptação para Broadway por Andrew Lloyd Webber e Richard Stilgoe, em 1988, que foi premiada diversas vezes pelo Tony Awards, maior honraria do teatro.

Posteriormente, o romance voltou a ser adaptado em 2004, mas desta vez para as telas de cinema. O filme homônimo não passou despercebido e foi indicado a três categorias do Oscar de 2005.

O enredo do livro se destrincha diante de Christine Daaé, uma jovem que ocupa o lugar da prima-dona, Carlotta, após rumores de um fantasma que assombra a Ópera de Paris.

Em sua noite de estreia, um antigo amigo de Christine, Raoul, ouve-a cantar em uma apresentação e se recorda de todas as emoções vividas. Contudo, o envolvimento de Daaé e Raoul sofre um abalo quando o fantasma se mostra amargo e ciumento sobre a relação do casal.

Se Eu Ficar (2009)

Aqui os clichês também têm vez! Por isso, um queridinho do mundo do romance não pode ficar de fora. O livro Se Eu Ficar (2009), da autora best-seller Gayle Forman, recebeu uma adaptação cinematográfica cinco anos após sua publicação, em 2013.

A trama conta a história de Mia Hall, uma adolescente que sonha em entrar para Juilliard School para estudar violoncelo, sua paixão desde criança. Em meio à sua luta por seu sonho, a jovem conhece Adam, vocalista de uma banda com gênero musical distinto bastante divergente do de Hall, com quem inicia um namoro.

O ponto principal da narrativa é o estado de Mia que, após sofrer uma acidente de carro juntamente aos pais e ao irmão, permanece em coma. Durante esse período, mergulha em memórias sobre sua vida e as pessoas que ama, o que leva o leitor a conhecer um pouco da trajetória da violoncelista, seu amor pela música e sua batalha para permanecer viva.

Livros nas músicas

Assim como a música tem uma grande influência sobre a literatura, o oposto acontece com ainda mais frequência. Muitos artistas musicais buscam inspiração nas páginas de um bom livro para colocar suas obras no mundo.

A seguir, algumas canções associadas a livros ou escritores:

hope is a dangerous thing for a woman like me to have, Lana Del Rey

Em seu álbum Norman F****** Rockwell (2019), Lana Del Rey trouxe a faixa hope is a dangerous thing for a woman like me to have que, apesar de não fazer citação direta a uma obra, exalta a ilustre poetisa, cronista e romancista estadunidense, Sylvia Plath, autora de A Redoma de Vidro (1963).

Em uma publicação de seu instagram, Lana contou que o nome da música seria o mesmo da poetisa, porém, após o lançamento do álbum, a faixa contava com um título diferente.

Além disso, a musicalidade melancólica em muito se assemelha com tom da escrita de Sylvia, cujos escritos são reconhecidos pela linguagem estarrecedora que traduzia sua depressão. Em 1963, aos 30 anos, Sylvia Plath cometeu suicídio, e suas obras se tornaram um marco na literatura moderna que ecoam debates acerca da saúde mental e, inclusive, de papéis de gênero, até os dias atuais.

This Is Why We Can’t Have Nice Things e happines, Taylor Swift

É difícil elencar somente duas músicas de Taylor Swift quando o assunto é literatura, já que suas composições estão sempre repletas de referências literárias. New Romantics, do álbum 1989 (2014), faz referência ao livro A Letra Escarlate (1850), de Nathaniel Hawthorne, por exemplo. O livro Rebecca (1938), de Daphne du Maurier, inspirou a artista a compor duas canções: no body, no crime, em parceria com a irmãs Haim, e tolerate it, ambas do mesmo álbum, evermore (2020).

Em This Is Why We Can’t Have Nice Things, faixa do disco Reputation (2017), Taylor faz referência a Jay Gatsby, protagonista do livro O Grande Gatsby (1925), de F. Scott Fitzgerald. Swift usa alusões ao relacionar o momento em sida vida, no qual vivia  em festas como as dadas por Gatsby, ao momento em que precisou trancar os portões, exatamente da mesma maneira que o protagonista faz durante o clímax do livro.

Por outro lado, na canção happiness, de seu já mencionado álbum evermore, há adaptações de trechos do mesmo livro. Taylor compõe ao usar algumas das citações de Daisy Buchanan, o par romântico de Jay Gatsby.

1984 e Big Brother, David Bowie

Com inspiração no romance distópico de George Orwell, 1984 (1949), David Bowie escreveu as canções 1984 e Big Brother para seu álbum Diamond Dogs (1974).

1984 faz referência direta ao título do livro de Orwell, e fala sobre uma sociedade ditatorial que vive sob vigilância contínua e transforma os seres humanos em robôs que reagem automaticamente a ordens, como no livro. Já Big Brother leva o nome de um dos personagens do romance. O Grande Irmão é como chamam o líder por detrás do Partido Interno, aquele que controla a sociedade criada por George.

Geni e o Zepelim, Chico Buarque

Novamente, Chico Buarque na lista da combinação entre música e literatura, coisa que faz muito bem. Dessa vez, com Geni e o Zepelim, canção escrita para a peça Ópera do Malandro (1978).

A faixa possui ligação com o conto Bola de sebo (1880), do escritor francês de Guy de Maupassant. Sua narrativa, apresentada por Chico, representa uma crítica à hipocrisia da sociedade e a maneira com a qual as pessoas tratam umas às outras com base nos seus interesses próprios. Além disso, se popularizou recentemente após a interpretação da atriz e cantora Letícia Sabatella em 2011.

Another Brick On The Wall, Pink Floyd

A memorável canção Another Brick On The Wall, da banda Pink Floyd, é uma crítica ao sistema educacional que permeia até a atualidade. Do disco The Wall (1979), ela expõe a maneira com a qual os alunos são tratados como itens materiais em uma linha de produção, a fim de censurá-los e padronizá-los.

A inspiração da composição veio do poema Mending Wall (1914), do poeta estadunidense Robert Frost. Ambos os escritos fundamentam suas mensagens em metáforas ao redor da construção de um muro e, ainda que com distintos objetivos, os recados são altamente intensos.

Além disso, em seu álbum Animals (1977), anterior ao The Wall, também se basearam na literatura com o livro A Revolução dos Bichos (1945), do já comentado autor, George Orwell. Ambas as obras contém críticas políticas claras, especialmente ao sistema socioeconômico capitalista. Para isso, concentram-se, mais uma vez, no uso de metáforas e comparações.

***Flawless, Beyoncé ft. Chimamanda Ngozi Adichie

Você se recorda da frase “Feminist: the person who believes in the social, olitical, and economic equality of the sexes“ (Em tradução: “feminista: a pessoa que acredita na vida social, igualdade política e econômica entre os sexos”)? Ela viralizou quando, na edição platina do marcante álbum Beyoncé (2013), a cantora uniu a música à literatura ao concretizar uma parceria extraordinária com a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, autora de Americanah (2013) e Hibisco Roxo (2003).

Essa versão de ***Flawless aborda a exaltação da feminilidade e da autoestima da mulher frente à sociedade patriarcal. Ngozi Adichie apresenta uma interpolação do discurso de Nós Deveríamos ser Todos Feministas, apresentado no TEDx Talks em 2012, e posteriormente deu origem ao livro Sejamos Todos Feministas (2014). As artistas exploram o conceito de feminismo e usam sua voz para, através da música e da literatura, difundirem a luta das mulheres em busca de igualdade e respeito.

A arte é o que basta

Sylvia Plath em Paris, 1956 [Imagem: Gordon Lameyer]

Há enorme conforto em se sentar em uma tarde e encontrar seu lugar no mundo dentro das páginas amareladas de um livro. Da mesma forma, a música é como uma consolação para dias difíceis. Colocar os fones de ouvido e emergir como se o mundo externo a si não tivesse mais sentido ou necessidade de existir. Juntas, são capazes de criar um ambiente que o faça encarar o fato de que a arte é o que basta. Ler livros sobre música ou ouvir músicas sobre livros, elas estão entrelaçadas como uma maneira de fazer a vida bastar. Isso é o suficiente.

Nicole Kidman e Ewan McGregor em Moulin Rouge (20010 [Imagem: Divulgação/Prime Video]

Trilha Sonora: A narrativa da música no cinema

Lá está você, na sala escura do cinema, rodeado por burburinhos de pessoas se acomodando para a exibição. A primeira coisa que provoca o silêncio dos murmúrios é o som de abertura do filme, que capta a atenção de todos em um aviso de que já vai começar. É naquele instante que se percebe que o clima de início é uma total atribuição da musicalidade.

Se você assistia animações musicais da Disney como O Rei Leão (1994) ou Toy Story (1994) na infância, sabe como suas canções fizeram esses filmes se tornarem atemporais. Até hoje, You’ve Got a Friend In Me e Hakuna Matata ecoam nas memórias e vivem em todos que assistiram os filmes enquanto crianças.

Eles são exemplos do poder que as trilhas sonoras têm de transformar totalmente as relações com o universo cinematográfico. Possuem responsabilidade por grande parte daquela sensação de proximidade que o espectador tem em relação ao filme e aos seus personagens. Assim, as soundtracks são selecionados ou até mesmo compostos para que sua experiência seja completa e, independentemente de em qual espaço você esteja assistindo, nada interfira no momento único que está presenciando.

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Uma breve história da música no cinema

Filmes são produções audiovisuais, o que significa que surgem da combinação entre áudio. Há mais de um século, quando o cinema ainda não era tão grande quanto hoje, não existia vínculo entre esses dois pontos.

Apresentado inicialmente em feiras abertas, as reproduções estavam expostas em meio a festivais multiculturais, ou seja, ninguém realmente estava absorto na narrativa como hoje, cuja realidade é de estarmos habituados a adentrar em salas totalmente preparadas, com o objetivo de assistir ao filme com atenção. Inclusive, as reproduções nem mesmo chegavam a possuir uma narrativa propriamente dita, o que, de fato, não exigia certo nível de concentração. Além disso, as obras eram completamente mudas.

Assim, com o desenvolvimento e crescimento da indústria cinematográfica, houve a necessidade de tornar o espectador imerso em um conceito narrativo posteriormente inserido no contexto da história do cinema. Como uma das táticas utilizadas para dar sentido àquela novidade, nasceu a ideia de fazer isso com o apoio da música.

Antes mesmo de sua exibição em salas de cinema, pianistas tocavam durante o desenrolar dos filmes, sendo eles os responsáveis por guiar a narrativa juntamente às imagens. Com os espaços específicos, a presença dos pianista se intensificou e desempenhou um papel essencial. Contudo, com o fim do cinema mudo no fim dos anos de 1920, diante de revoluções tecnológicas permitindo a sincronização de som e imagem, consequentemente a participação dos músicos deixou de ser requerida.

Mais a frente, com tal inovação na indústria, os cinemas gradativamente encontraram seus meios de transformar as narrativas no desejado. Dentro dessa ideia, não só diálogos audíveis foram inseridos, mas a música se consolidou como parte integral e indispensável.

O que há hoje em dia vem de um progresso significativo e da necessidade irremediável de se utilizar da banda musical como uma colaboradora que direciona o espectador ao objetivo daquela narrativa de distintas maneiras: acentua emoções, promove intensidade e age na submersão das pessoas dentro daquele contexto.

Uma melodia com tom misterioso oferece à cena a sensação de suspeita, bem como uma sonoridade que se apresenta com o intuito de causar medo e termina por provocar arrepios nervosos.

Para buscar exemplificar a marcação do tom inferido servindo para trazer enquadramento e pertinência, é cabível apresentar o longa Três Homens em Conflito (1966). A trilha composta por Ennio Morricone, consagrado compositor de Hollywood, é precisa ao delinear a entonação dos famosos filmes de “velho oeste”.

O impacto deixado por Morricone foi tão significativo, que até mesmo quem nunca chegou a assistir uma obra carregando a assinatura do compositor em sua trilha tem conhecimento de seu trabalho como um exemplo de canção memorável por conta, em principal, da canção The Good, The Bad and The Ugly.

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E se as trilhas sonoras não existissem?

Não está convencido de que a trilha sonora é um dos pontos mais importantes da construção de um filme? Então acredito que nunca tenha parado para pensar em como seria assistir uma produção cinematográfica sem música alguma.

A seguir, é possível compreender de que maneira uma das cenas mais célebres do cinema mundial, que fez e faz parte da infância de muitos ao redor do mundo, seria sem a canção tema. Assista a cena de The Circle Of Life sem a canção:

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Indo por uma outra vertente, também há a comparação de um filme que não é uma animação musical. Confira como certas cenas de Homem-Aranha (2002) seriam em a ausência de sua trilha:

Diferente, não? É inegável que, sem música, as cenas perdem a aderência do espectador. Além de, é claro, uma das coisas mais importantes: a magia. Há um sentido único em se sentar para assistir um filme, e a magia transmitida por eles faz parte do porquê de existir imensa paixão por esse universo.

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Nos bastidores das trilhas sonoras

Christine Baranski, Meryl Streep e Julie Walters, respectivamente, em Mamma Mia! (2008) [Imagem: Reprodução/Universal Pictures]

O filme como arte audiovisual é consideravelmente comum no dia a dia de muitos. Por isso, talvez alguns nunca tenham parado para pensar em quem seriam os responsáveis por selecionar cada música para cada momento. Essa responsabilidade usualmente é do chamado Supervisor Musical (também conhecido como Music Supervisor), cujo objetivo é unificar o contexto do filme ao objetivo da comunicação. Nas palavras do The Guild of Music Supervisors, o supervisor musical é “um profissional qualificado que analisa todos os aspectos musicais relacionados a filmes, televisão, publicidade, vídeo games e outras plataformas de mídias visuais emergentes, conforme necessário”.

O processo de seleção pode variar de diversas maneiras: No caso de musicais, as músicas podem ser originais, com todas ou a maioria das canções sendo compostas diretamente para o filme, como em La La Land (2017), o que viria a incluir outros profissionais como os compositores e produtores musicais, que exercem grandes papéis.

Quando no caso de musicais com canções não originais da obra, mas já existentes na indústria, como Mamma Mia (2008) da qual as faixas são sucessos da banda Abba, ou até mesmo Moulin Rouge (2001), de diversos artistas — apesar do longa apresentar, igualmente, uma canção original —, a seleção seria fruto da atuação quase que completa do supervisor musical, considerando intervenções do diretor da produção.

Leonardo DiCaprio em O Grande Gatsby (2013) [Imagem: Divulgação/Warner Bros]

Para trilhas sonoras de filmes que não do gênero musical, o mesmo esquema pode ocorrer. É mais comum que uma obra contenha canções já existentes e sejam selecionadas dependendo da ambientação das cenas, como em As Vantagens de Ser Invisível (2012) com Heroes, do David Bowie.

Por outro lado, múltiplas produções possuem uma música tema composta especialmente para ela. A popular trilha de Crepúsculo (2008) tem Decode, da banda Paramore, como canção tema da abertura da franquia, que chegou a ser indicada ao Grammy de Melhor Canção Escrita Para Filme em 2010. Enquanto isso, O Grande Gatsby (2013) conta com Young and Beautiful, da cantora Lana Del Rey, igualmente indicada ao prêmio supracitado, já no Grammy de 2014.

Se você tem interesse em saber um pouco mais sobre o que ocorre por detrás dos bastidores da escolha de trilhas sonoras, o documentário Into the Unknown: Making Frozen II, da Disney+, apresenta, em alguns de seus episódios, a demonstração do passo a passo do processo criativo e técnico da construção de uma trilha sonora.

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Trilhas sonoras marcantes do cinema

É claro que nós não poderíamos deixar de te levar a um passeio por algumas das trilhas mais marcantes da história do cinema. Pronto para uma dose de nostalgia?

Psicose (1960)

Assim que se ouve menção à produção, não há escapatória, senão seguir um caminho direto à cena do chuveiro em Psicose. As ricas composições de Bernard Herrmann não só marcaram a história do horror eternamente, mas colocaram sua criação entre as mais icônicas da trajetória do cinema mundial.

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O Poderoso Chefão (1972)

O Poderoso Chefão é uma obra aclamada pela crítica e sua trilha sonora não podia ser diferente. Constituída por doze faixas, as composições foram de atribuição do italiano Nino Rota, o responsável por transportar qualquer espectador de volta às cenas poderosas desse clássico.

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Star Wars (1977)

É inegável que a trilha sonora da franquia Star Wars ultrapassa a existência do filme para a qual foi criada, estando viva na memória até mesmo daqueles que nunca assistiram a nenhum dos filmes. Composta pelo ilustre John Williams — o mesmo que trouxe os soundtracks de Indiana Jones (1981), A Lista de Schindler (1993) e Harry Potter (2001) ao mundo —, ela foi vencedora do Oscar de Melhor Trilha Sonora Original em 1978 e esteve na décima posição da Hot 100 da Billboard dos Estados Unidos.

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O Guarda-Costas (1992)

Originalmente escrita por Dolly Parton, mas interpretada por Whitney Houston para o o longa O Guarda-Costas, I Will Always Love You faz igualmente parte do grupo de canções emocionantes e inesquecíveis.

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Titanic (1997)

Vencedor do Oscar de Melhor Canção Original em 1998, Titanic apresentou uma das trilhas sonoras mais memoráveis da trajetória cinematográfica mundial. Só de pensar na cena de Jack e Rose na proa do navio ao som de Celine Dion cantando My Heart Will Go On, somos levados a lugares profundos de nossa própria história com o cinema.

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Lisbela e o Prisioneiro (2003)

Se você achou que deixaríamos o cinema nacional de fora, aqui está uma das maiores produções do audiovisual brasileiro: Lisbela e o Prisioneiro. Essa trilha conta com canções ilustres como Espumas ao Vento, de Elza Soares, e Você Não Me Ensinou a Te Esquecer, de Caetano Veloso.

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Afinal, qual o objetivo de tudo isso?

A arte em si tem como objetivo tornar a vida menos densa e mais suportável. Assim, a ideia do cinema, como uma arte que une a escrita, a fotografia, a música e muitas outras esferas, é de te fazer mergulhar em novas perspectivas. Para isso, se utiliza de todos os sentidos que podem despertar o espectador. Essa união oferece um refúgio que, para garantir efetivação, precisa do mínimo de interferência possível. O recanto, quando concede a sensação de conforto e até mesmo um espaço lúdico, se utiliza da musicalidade para trazer algumas dessas características, que garantem a imersão.

O objetivo da música no cinema é não só promover seu mergulho intenso, mas também guiar seus sentidos e sentimentos ao objetivo principal. É nortear sua emoção a vacilar quando, por exemplo, ouvir Anne Hathaway cantando I Dreamed a Dream em Os Miseráveis (2012), ou entregar felicidade com as canções animadas de momentos célebres de comédias românticas populares. O ponto principal é te levar em uma viagem, geralmente inesperada, ao desconhecido; que você encare a face do velho e do novo de diversas formas.

Agora que você já sabe tanto sobre música nos filmes, não deixe de conferir a nossa playlist repleta de soundtracks incríveis! E se essa leitura te deixou curioso sobre o universo cinematográfico, tenho certeza de que vale a pena dar uma olhada no Manual do Cinéfilo.

BTS e a xenofobia da indústria ocidental

Há anos o grupo que liderou a popularização do K-Pop no mundo, o BTS, tem tomado proporções absurdas nas redes sociais e na mídia. É quase impossível  nunca ter visto nenhum produto dos artistas, uma hashtag no Twitter nos últimos tempos ou ouvido alguma música do grupo por aí. Porém, apesar de seu talento e do esforço dos fãs de darem boa visibilidade aos ídolos, com uma simples pesquisa por seu nome no Google você será recebido por uma enxurrada de notícias sobre o racismo e a xenofobia que a banda têm sofrido.

Composta por RM, Suga, J-Hope, V, Jin, Jimin e Jungkook, BTS apresenta atualmente o estilo de música Korean Pop. Ainda que o grupo seja oriundo de uma pequena gravadora, se tornou precursor da fama global do K-Pop, sendo o primeiro a receber diversos prêmios pelo globo (além de, aos poucos, garantir seu espaço no cenário ocidental).

O grupo se apresentou ao mundo em 2010, mas seu debut definitivo foi apenas em 2013 com o lançamento do clipe de No More Dream, que juntamente a outras canções garantiu o início do seu sucesso no continente asiático. Mas foi em 2016 que o início do seu sucesso internacional se deu, quando o segundo álbum de estúdio, Wings, começou a receber o destaque que lhe rendeu uma posição na Billboard 200.

Dispondo de um repertório de faixas que exaltam a autoestima de seus fãs e garantindo que a música seja um espaço de conforto, o septeto conquistou o coração de uma legião de todas as idades. Seu esforço os rendeu quebras incontáveis de recordes, uma discografia muito bem avaliada e reconhecimento mundial. A marca deixada por eles é incontestável, mas a indústria ocidental já conhecida por diversos preconceitos não deixou de atingir os jovens.

Por que o BTS é um alvo?

Photo of BTS.
[Imagem; Big Hit Music]

Sabe-se que tudo o que é diferente causa estranhamento, o que, em si, não é um problema, mas sim a forma como se reage a ele. A indústria da música é marcada por padronizações, e  ao representar na mídia apenas um tipo de figura, muitos crescem não vendo espaço para si em lugares como a música.

Como temos visto, aos poucos a inclusão de artistas anteriormente fugindo daquele padrão têm se mostrado felizmente presente. Porém, por mais que haja essa certa inserção, os preconceitos que mantinham essas pessoas fora dos holofotes, hoje as oprime publicamente. A surpresa causada por ver pessoas que sempre existiram sendo elas mesmas, mas não eram retratados na grande mídia mundial, quando não resulta em aceitação, resulta em ódio.

Nativos da Coreia do Sul, um país asiático, os integrantes do BTS têm sido submetidos a diversos ataques. Asiáticos foram, por muito tempo, apresentados sob perspectivas pejorativas repletas de estereótipos reproduzidos até hoje. O contexto histórico envolvendo o continente asiático marcou infinitamente a trajetória de uma representação midiática racista e xenofóbica que, agora, em muito atinge aos grupos de K-Pop. Infelizmente, esse cenário  preconceituoso não ficou para trás e essas questões ainda estão presentes absurdamente nessa  indústria musical.

Xenofobia e racismo na mídia

Sabemos como os canais midiáticos têm uma importância absurda na opinião pública e sua influência, ainda mais dos meios de comunicação comum como rádio e TV, alcança milhões de pessoas. Externar preconceitos em um espaço de grande alcance é colaborar com ele e normalizá-lo, por isso, figuras públicas devem assumir responsabilidade por comentários e ações criminosas. Contudo, a responsabilidade atribuída não impede infinitas situações assim.

Em março desse ano, Matthias Matuschik, um locutor alemão disse ao vivo em seu programa: “Esses idiotas se gabam por terem feito cover de Fix You, do Coldplay, que eu respondo: isso é uma blasfêmia, e olha que sou ateu! Isso é ofensivo. Por isso, vocês passarão suas férias na Coreia do Norte pelos próximos 20 anos!”, enquanto emitia sons de vômito ao falar sobre o cover. Além de associar os componentes e sua música a um vírus que seria ‘eliminado’ em breve. O motivo da indignação do locutor foi o cover feito pelo grupo no MTV Unplugged, onde artistas apresentam canções em versão acústica. A cantora Halsey, amiga dos integrantes, se manifestou deixando clara sua indignação e demonstrando apoio aos amigos.

Outro caso marcante foi em abril, no programa chileno Mi Barrio, um mês após o ocorrido na rádio alemã. Uma paródia considerada racista e repleta de estereótipos foi ao ar na TV aberta do país sob a justificativa de ser apenas comédia. Tendo em vista a reação de repulsa, fizeram um post no instagram no qual não se desculparam pela ação e só agradeceram pelas críticas e comentários positivos, logo, não houve atribuição de responsabilidade.

Preconceito e segregação nas premiações ocidentais

BTS no VMA 2019 [Reprodução/Twitter]

O BTS já faz barulho há um bom tempo, mas considerando que os mais notáveis e populares prêmios da música são estadunidenses, eles não foram incluídos nas premiações antes de 2019, quando indicados a 4 categorias no VMA (Video Music Awards). Na mesma edição, houve o anúncio de uma nova categoria: Melhor K-pop. Os fãs, em contrapartida, não gostaram nada da ideia, pois limitaria a competição com artistas ocidentais. É importante lembrar que a crítica tem como base a premiação contar com o voto público e que o BTS é bastante conhecido por sua extensa fanbase.

A criação de categorias como Melhor Latino e Melhor K-pop tem como justificativa a inclusão, mas isolar essas pessoas em categorias que se baseiam em de onde vieram não dá visibilidade, mas segrega. As principais categorias seguem com nomes, em maioria, do eixo EUA x Canadá x Reino Unido.

BTS no Grammy 2020 [Imagem: Getty Images]

Outra polêmica com premiações ocidentais é envolvendo o Grammy, considerado o mais importante prêmio da música.

Ainda que o sucesso mundial do BTS não seja recente, algo que se destaca no primeiro momento em que o Grammy abre espaço para o septeto.  Em 2020, foi  lançada a  primeira música inteiramente em inglês do grupo, Dynamite. Marcado por não ser muito inclusivo, a participação dos integrantes apenas com essa faixa levanta questões como a exaltação de canções na língua nativa do Grammy e uma integração não muito satisfatória de diversidade de idiomas.

Na mesma edição, receberam a indicação de Best Pop/Duo, apresentada na pré-cerimônia, cujas ganhadoras foram Lady Gaga e Ariana Grande por Rain On Me. As críticas de fãs sobre o anúncio da categoria não ter sido ao vivo, também se estendem ao fato de que eles foram os penúltimos a se apresentarem. A questão da perda de audiência das edições ao longo dos anos foi associada à decisão de colocar a performance mais aguardada da noite para o fim da cerimônia como uma forma de manter a grande audiência gerada por um grupo global.

Como os integrantes reagem a tudo isso?

Ainda que submetidos a situações desagradáveis e serem destratados pela indústria nociva, apresentam uma visão consideravelmente positivista. Em entrevista à revista estadunidense Rolling Stone, RM disse: “Agora, claro, não há utopia. Existe um lado iluminado; sempre haverá um lado obscuro. A forma como nós pensamos é que tudo o que fazemos, e nossa própria existência, estão contribuindo para a esperança de deixar essa xenofobia, essas coisas negativas, para trás. Também temos esperança que as pessoas das minorias irão tirar alguma energia e força da nossa existência. Sim, há xenofobia, mas também existem pessoas muito receptivas… O fato de que nós alcançamos sucesso nos Estados Unidos é bastante significativo por si só.”

Demonstrando uma visão de resistência na sua fala ao representar os parceiros, RM reitera que a ascensão do grupo colabora com a esperança e a fé de minorias. Além de considerar o avanço à indústria estadunidense um progresso nos passos para conquistar visibilidade mundial e espaço para não tão somente fazer música, mas que esse ato tenha uma significância ainda maior.