O Homem, o Bruxo, o Defunto

Texto por Felipe P. Marcondes

Por que ler Machado de Assis?

Inquieto leitor, pediram-me que tratasse contigo do porquê deverias ler a obra de Joaquim Maria Machado de Assis. Ao final dessas mal traçadas linhas, verás (ao menos é este o meu intento) que a pergunta é bem outra: Como não ler Machado de Assis!? Este espaço, apesar de muito estreito para tamanha matéria, e essas garatujas, embora fugazes demais para dar conta dela satisfatoriamente, podem proporcionar-te não menos que um vislumbre desse autor-abismo e da importância de seus escritos, pois, como diria um efêmero poeta nosso, uma folha bem escrita, ainda que pequena, tem muito valor [1].

I – O Homem

            A vinte um de junho de mil oitocentos e trinta e nove, nascia, no pobre morro do Livramento, em casa de agregados anexa à chácara do cônego Felipe, o franzino, doentio, tímido e gago Joaquim. Era filho de Francisco José de Assis, pintor e dourador, e de Maria Leopoldina Machado de Assis, lavadeira na casa do senhorio. Aquele, na realidade, à inclinação literária do filho não via com bons olhos, supondo que o ofício de homem das letras conservá-lo-ia na miséria. Sua infância, parte mais nebulosa de sua recatada existência, transcorreu no arruar traquinas com os companheiros de mesma idade. Foi quando começou a ter os primeiros sinais do mal que acompanhá-lo-ia e atormentaria por toda a vida, a epilepsia.

            Ainda bem pequeno, morreu-lhe a mãe. Viúvo, Francisco de Assis casou-se com uma mulata, Maria Inês. Esta, com as poucas letras que possuía, assistia aos estudos do enteado, ensinando-lhe todas as noites, às escondidas de Francisco, aquilo que sabia. Parece ter sido ela quem arranjou que o forneiro imigrante da Madame Gallot (dona de padaria na rua S. Luiz Gonzaga) ensinasse o francês a Joaquim – posteriormente, aprenderia ainda o inglês e o alemão. Frequentou a escola primária, mas após esses parcos primeiros estudos, será autodidata, recorrendo a centros literários e relações ilustradas para lograr conhecimento e livros – tome-se, como exemplo, o Gabinete Português de Leitura e a loja de livros do mulato Francisco de Paula Brito que frequentava assiduamente. Sem empregos fixos, e necessitando conquistar o pão diário após a morte do pai, foi vendedor de balas e sacristão na igreja da Lampadosa (o que é convenção, pois não encontrou-se seu nome nos registros da igreja) até que, aos dezessete anos, tornou-se aprendiz de tipógrafo na Imprensa Nacional. Lá permaneceu dois anos (1856-1858), sempre lendo pelos cantos, com os bolsos recheados de livros – conduta que, aliás, garantiu-lhe a simpatia e proteção do então diretor da Imprensa, Manoel Antônio de Almeida, autor de Memórias de um sargento de milícias.

            Trabalhador dedicado, foi também caixeiro e revisor de provas da Livraria de Paula Brito (responsável pela publicação de alguns dos primeiros versos de Machado, lançados em sua revista bimensal, a Marmota Fluminense); colaborador e revisor no Correio Mercantil; redator, aos 21 anos (1860), do jornal de seu amigo, Quintino Bocaiúva, Diário do Rio de Janeiro. Neste, passou a produzir crônicas semanais e crítica literária (valendo-se sempre de pseudônimos como Manassés, Eleazar, Dr. Semana, Jó, Gil, etc.) , antes de ser destacado da redação para atuar como representante da folha junto ao Senado – talvez sua produção mais larga seja essa, a das colaborações em jornais e revistas,  e um dos principais motivos da vulgarização de sua obra, haja visto que, levando em conta só o período de sua mocidade, escreveu para quase todos os veículos impressos de então: O Futuro, A Marmota, Diário do Rio, Correio Mercantil, Jornal das Famílias, Semana Ilustrada, Cruzeiro, O Globo, Almanaque Garnier e paro por aqui, pois a lista é extensa. Foi ainda diretor de publicação no Diário Oficial (a partir de abril de 1867), primeiro oficial nomeado para a reformada Secretaria de Agricultura(dezembro de 1873), tornando-se, nesta, Chefe de Seção, por decreto da Princesa Isabel, em dezembro de 1876; oficial de gabinete do Ministro da Agricultura, Buarque de Macedo, em 1880; diretor da Diretoria de Comércio em 1889 (seria dispensado desta em fins de 1897); presidente da Academia Brasileira de Letras em 1896; secretário do Ministro da Viação, S. Vieira, em 1898 e Diretor Geral da Contabilidade do Ministério da Viação em 1902.

            Como se vê, labutou, sem nunca descuidar de sua vocação literária, galgando a melhora de suas condições materiais e os degraus socioeconômicos da sociedade brasileira oitocentista – auxiliado, sem dúvidas, pelo círculo de relações e amizades que cultivou ao longo de toda a vida: dentre vários, citemos Francisco Otaviano, Casimiro de Abreu, José de Alencar, Joaquim Nabuco e Graça Aranha. Apesar disso, foi modesta sua existência, como modesto era seu temperamento. Repudiando toda publicidade que não dissesse respeito aos seus textos, era avesso à confidências (tomemos sua correspondência como prova: sucinta e objetiva, atenuado um pouco esse modo de escrita ao fim da vida, quando inicia alguma revelação, interrompe-a, ora justificando que não deseja enfadar seu interlocutor, ora suspendendo-a simplesmente) e jamais almejou, quem o diz é o amigo José Veríssimo, que suas humildes condições de origem servissem para realçar-lhe a estima com o público. Exteriormente, como acertadamente pondera Antonio Candido, sua vida não excedeu em sofrimentos aos de toda gente (aos 29 anos já tinha feito um nome como jornalista e havia recebido o Título de cavaleiro da Ordem Rosa), nem aos de seus semelhantes mestiços (que, levadas em consideração as condições dessa realidade histórica, no Império Liberal alcançaram postos representativos). Sua verdadeira luta não era exterior ou estrepitosa, como as polêmicas que lidava com altivez: ela era silenciosa, invisível, interior. Era metido consigo mesmo, com seus livros, refletindo e esculpindo sua arte, com vagarosa paciência, mas continuadamente – Um sonho… As vezes cuido conter cá dentro mais do que a minha vida e o meu século… Sonhos… Sonhos [2].  

II – Bruxo ou Defunto?

            É verdade, sua biografia eram os seus livros, a sua arte era a sua prosápia [3].   A primeira publicação de Machado de que temos notícia, foi o soneto à Dona Petronilha, lançado em 1854 no Periódico dos Pobres, interrompendo-se sua atividade intelectual apenas com a eventualidade de sua morte, em 29 de setembro de 1908. Cinquenta e quatro anos de uma carreira multifacetada que trabalhou a poesia (Crisálidas, 1864; Falenas, 1864; Americanas, 1875; Ocidentais, 1901; Outras Relíquias, 1920; Novas Relíquias, 1932), a crônica, a crítica literária, a dramaturgia (Hoje Avental, Amanhã Luva, 1860; Desencantos, 1861; O Caminho da Porta, 1863; O Protocolo, 1863; Quase Ministro, 1864; As Forcas Caudinas, 1865/1956; Os Deuses de Casaca, 1866; O bote de rapé, 1878; Tu, só Tu, Puro Amor, 1880; Não Consultes Médico, 1896; Lição de Botânica, 1906), a tradução, a arte do conto (Contos Fluminenses, 1870; Histórias da meia-noite, 1873; Papéis Avulsos, 1882; Histórias sem data, 1884; Várias histórias, 1896; Páginas Recolhidas, 1899; Relíquias da Casa Velha, 1906; Outras Relíquias, 1920; Novas Relíquias, 1932) e o romance (Ressurreição, 1872; A mão e a Luva, 1874; Helena, 1876; Iaiá Garcia, 1878; Memórias Póstumas de Brás Cubas, 1881; Casa Velha, 1885; Quincas Borba, 1891; Dom Casmurro, 1899; Esaú e Jacó, 1904; Memorial de Aires, 1908).  

            Não é só multifacetada sua produção, é polissêmica também. Ler Machado de Assis é como jogar uma partida de xadrez (no que, diga-se de passagem, ele era exímio: além de ser o primeiro brasileiro a publicar um problema de xadrez, no primeiro torneio de xadrez disputado em nossa terra, 1880, obteve ele o terceiro lugar): quando parece que essa seguirá um curso natural e esperado, um movimento muda todo o cenário, tornando-se imprevisível. Mestre do humor, narrador que conversa com o leitor, colocando-se entre este e a narrativa, tratou de uma miríade de temas: da graciosidade romântica à vaidade; da traição, da crueldade, da tolice, do cinismo, da insânia, do pessimismo benevolente, do ceticismo e da irônica falta de sentido de nossa existência, da doença que corrói o corpo e subjuga o espírito, dos tipos, costumes e idiossincrasias brasileiras do oitocentos, porém, e sobretudo, tratou da alma humana. Trata a dor e a ilusão com gracejos, ensinando-nos a não levar a vida muito a sério. Nele, a fantasia torna-se verossímil e a realidade é retratada com a acuidade e penetração de observador atento, meticuloso. Tudo isso com uma linguagem prosaica, insinuativa e desabusada; é vernácula e artificiosa sem ser pedante, como que falando ao pé do ouvido do leitor, provocando-o, zombando-o, dissecando-o.

            Quando sua esposa, a portuguesa Carolina, morreu em outubro de 1904, sentia, atesta-o o Soneto à Carolina (1906), que a melhor parte de sua vida acabara, que já era meio defunto – era irmã do editor da revista O Futuro, Xavier de Novaes, que se opôs ao relacionamento dos dois por ser Machado mulato. Companheira fiel, lia para ele jornais e livros quando este teve uma enfermidade nos olhos e passou-lhe para o papel uma narrativa que este ditou à ela durante sua convalescença, eram as Memórias Póstumas. A frágil saúde de Machado foi debilitando-se cada vez mais, ainda assim escreveu e viu seu último livro sair a prelo, o comovente Memorial de Aires – sabia e dizia que seria o derradeiro, estava cansado. Foi, além da epilepsia e da doença dos olhos, acometido por um câncer na língua que atacava também a garganta; sentia dores reumáticas – contudo, não gemia de dor, pois não queria incomodar quem o cercava. Era cuidado com muito zelo pelas amigas da esposa e pelos companheiros que assistiram-no até o leito de morte. Na noite em que expirou, conta Euclides da Cunha em artigo lançado no Jornal do Comércio logo no dia seguinte, que estando reunidos ele e outros amigos do autor na sua casa em Laranjeiras, um garoto desconhecido de cerca de 18 anos bateu, cauteloso, à porta. Não conhecia o mestre, mas havia lido-o, queria vê-lo, pois sabia pelos jornais que seu estado era grave. Foi conduzido ao quarto do doente, e, sem dizer uma palavra sequer, ajoelhou-se, tomou-lhe a mão, beijou-a e aconchegou-o brevemente ao peito. Saiu sem dizer palavra. Veríssimo perguntou-lhe o nome, era Astrojildo Pereira. No entanto, tem uma segunda e representativa identidade esse garoto, soube-a entrever o próprio Euclides: somos nós, a posteridade.  Machado morreu às 3:45 a.m. do dia 29 de setembro de 1908. Tornara-se autor-defunto. Morreu o homem, vive a obra. Oh, aflito leitor, uma vida e obra inteiras resumidas à essas poucas e pobres palavras… Sinto que cometi um crime! Faça-me um favor, sim? Apanhe essa folha e queime-a.  


[1] Carta de Álvares de Azevedo a Domingos Jacy Monteiro, Rio, 09 de setembro de 1850. In: Álvares de Azevedo – Obra Completa. Editora Nova Aguilar S.A., Rio de Janeiro, 2000.

[2] Tu, só Tu, Puro Amor, 1880, Machado de Assis.

[3] J. Veríssimio, História da Literatura Brasileira, p. 182 (1915).

Destaque

Conheça o artista: Thamires Ribeiro

Texto por: Alexandre Araujo.

Nesta semana, o quadro ‘Conheça o Artista – FRENEZI X Projeto Orgulharte’ chega ao fim e apresenta a última artista do projeto universitário carioca em parceria com a revista: Thamires Ribeiro, de 21 anos. 

Nascida em Minas Gerais e atual moradora de São Paulo, a artista é formada em maquiagem profissional. Contudo, as práticas e habilidades não se resumem apenas nisso. Conheça mais sobre a mineira. 

O interesse e admiração por maquiagem vem desde muito cedo, quando ainda era apenas uma criança. Thamires conta que sempre foi fã da cantora Lady Gaga e admirava a forma em que a artista se expressava de forma autêntica e segura de si mesma. “Eu amava todas as suas maquiagens excêntricas e chamativas”. Já atualmente, a inspiração vem de mulheres empoderadas, além de Tom Savini, um famoso maquiador, técnico em efeitos especiais de cinema, ator e cineasta norte-americano.

Como nem tudo são flores, a maquiadora enfrentou diversos desafios ao longo desses anos como profissional. Ela conta que o maior desafio foi no começo da pandemia, em 2020. “Foi um momento muito complexo onde eu enfrentei a síndrome do pânico e recebi meu diagnóstico de transtorno bipolar. Eu não conseguia clientes por não ter condições de trabalhar e, além disso, as clientes não tinham razões para me contratar, já que não tinham eventos durante a pandemia”, contou. 

Em contrapartida a isso, a jovem relatou que mesmo diante às barreiras e dificuldades, percebeu que é capaz de ser uma grande maquiadora. “A maquiagem, pra mim, é a minha forma de me expressar”, completou.

Confira a entrevista com Thamires Ribeiro:

  1. Quem é Thamires Ribeiro?

Sou formada em maquiagem profissional, mas também faço maquiagens artísticas, como a criação de personagens, Drag Queens, maquiagem de terror e sfx (próteses cênicas e efeitos especiais).

  1. Acha que a sua sexualidade interfere ou pode interferir futuramente nos seus planos/carreira? 

Acredito que minha sexualidade interfira em algumas questões. Por ser bissexual, a sociedade leva em conta de que sou apenas uma pessoa “confusa”. Alguns clientes já cancelaram comigo assim que souberam da minha sexualidade. Segundo eles, eu iria dar em cima.

  1. A indústria brasileira da sua área, na sua concepção, vem acolhendo a diversidade?

Acredito que, por ser um trabalho na área da beleza, o acolhimento da diversidade seja um pouco “aceito”, já que existem muitas pessoas LGBTQIAP+ trabalhando na área.

  1. Apesar de todas as circunstâncias, você pretende seguir com a carreira de maquiadora ou existe um plano B profissional?

Eu pretendo continuar com a carreira e tenho objetivos de trabalhar fora do país.

  1. Quer deixar uma mensagem para os nossos leitores?

Não tenha receio de continuar a fazer algo que gosta por medo de não ser aceito. Lembre-se, você se aceitar é um ótimo começo.

  1. Onde podemos conhecer mais sobre o seu trabalho?

No meu instagram, @succubgirl.

Virada Cultural: a importância de ocupar espaços públicos

Nesta última sexta- feira (20), a Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo divulgou a programação oficial da Virada Cultural que ocorre neste final de semana, nos dias 28 e 29 de maio. O evento anual é oferecido pela prefeitura do município de São Paulo desde 2005, sendo inspirado no festival parisiense Nuit blanche que ocorre também anualmente desde 2002. A Virada Cultural tem o propósito de promover diversas áreas da arte 24h pela cidade: música, dança, peças teatrais, manifestações populares, exposições de arte e história.

Este ano, o objetivo também é descentralizar o evento, levando-o para outras regiões espalhadas pela cidade que não apenas o Centro Histórico e Centro Novo. Com isso, discute-se a importância da acessibilidade cultural para além da gratuidade do evento, a proximidade com o público se dá, sobretudo, com a ocupação de espaços próximos a ele. A descentralização do evento vem sendo recente, considerando também a realização de forma online nos últimos dois anos devido à pandemia da COVID-19. 

Ocupar esses espaços públicos é essencial para a manutenção da democracia, uma vez que, atinge uma maior diversidade de audiência quando é facilitado o acesso aos palcos que estão em todas as regiões da cidade e também com o consequente aumento da variedade de gêneros musicais e atividades para todos os gostos.

Além disso, há como questão econômica uma grande movimentação para pequenos empreendedores que se locomovem para atender ao público, assim como o comércio em volta dos espetáculos. A democratização da arte e a utilização desses espaços públicos como meio de promoção cultural são de extrema importância para que a cidade se mantenha viva e com propósito. Apesar da crescente violência metropolitana, a manifestação artística não deixa de ser um ato de resistência popular que deve ser mantido, possibilitando a esperança de transformação social.

 Serão sediadas mais de 300 apresentações com grandes nomes, como Ludmilla, Luiza Sonza, Criolo e Glória Groove. Oficinas literárias e saraus serão também grandes atrativos pelas bibliotecas da cidade. Os palcos estarão espalhados por todas as Zonas da cidade e receberam nome indicativo da região:

Zona Sul: 

  • Palco Campo Limpo | LIBRAS
  • Palco Rio Diniz
  • Palco M’Boi Mirim LIBRAS
  • Palco Piraporinha
  • CC Grajaú. Rua Prof. Oscar Barreto Filho, 252.

 Zona Leste:

  • Palco Itaquera | LIBRAS
  • Palco Ribeirão. Av. Nagib Farah Maluf, s/n (Conjunto Habitacional José Bonifácio)
  • Palco São Miguel Paulista | LIBRAS
  • Palco Itaqueruna
  • CC Cidade Tiradentes | LIBRAS
  • Palco Penha

Zona Norte:

  • Palco Parada Inglesa | LIBRAS
  • Palco  Luiz Dumont Villares
  • Palco Freguesia do Ó | LIBRAS
  • Palco Rio das Pedras

Zona Oeste:

  • Palco Butantã | LIBRAS
  • Palco Pirajussara
  • CC Butantã

Centro:

  • Palco Viaduto do Chá | LIBRAS
  • Palco Praça das Artes
  • Festa Praça das Artes. Boulevard São João, 281
  • Palco Praça Ramos
  • Arena Vale, em frente ao Prédio dos Correios

A programação completa com todos os endereços e horários pode ser encontrada no site oficial da Virada Cultural (link). Para mais informações em tempo real acesse o Instagram da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo (link).

Conheça o Artista: Kaio Michel

Nesta semana, o quadro ‘Conheça o Artista – FRENEZI X Projeto Orgulharte’ apresenta o penúltimo artista do projeto universitário carioca em parceria com a revista. 

Kaio Michel, de 24 anos, nascido no estado do Ceará e carioca de coração, é ator de teatro e foi indicado ao prêmio de melhor ator coadjuvante, além de já ter conquistado um prêmio de melhor ator.

A admiração e aspiração à carreira de artista começou quando ainda era criança. Kaio conta que era apaixonado por novelas e se imaginava atuando como os personagens que assistia. No entanto, o contato com o mundo da encenação só aconteceu em 2014, quando foi fazer uma aula experimentou e realmente viu que queria aquilo para a vida. ‘’A partir desse dia, nunca mais larguei! Um ano depois desse curso, eu já comecei a estudar o teatro profissional’’, concluiu. 

O ator se inspira nos grandes nomes das telas de cinema, TV e dos palcos de teatro, como a atriz e escritora Fernanda Montenegro. No Festival Monovídeo, em 2018, foi premiado na categoria de melhor ator. Já na peça ‘Nós, Idiotas’, no Teatro Grande Atores, em 2019, recebeu indicação para o prêmio de melhor ator coadjuvante. 
O intérprete que atualmente também trabalha como vendedor, pretende seguir com a carreira de ator e aprimorar ainda as técnicas de dramatização, focando também nos estudos de TV e cinema. Para ele, tudo isso apesar de desafiador, é acima de tudo, transformador. ‘’O teatro me transformou em um ser humano melhor, me mostrou que todo mundo pode ser quem quiser.  Ele me deu uma expectativa de vida e me transformou em uma pessoa mais determinada e segura’’, ressaltou.

Confira a entrevista com Kaio Michel: 

  1. Pode nos contar mais um pouco quem é o Kaio?

O Kaio é uma pessoa extremamente louca por viver a vida da maneira mais leve. Ama estar em contato com a natureza, com as pessoas que ama e conquistar os seus objetivos.

  1. Acha que sua sexualidade interfere na carreira?

Acredito que a minha sexualidade não interfere na minha carreira, mas é muito particular. Algumas pessoas já sofrem muito com essa questão, por existir ainda um preconceito em alguns trabalhos específicos.

  1. A indústria brasileira de filmes/telenovelas vem acolhendo a diversidade?

Atualmente eu acredito sim. Cada vez mais pessoas LGBTQIAP+ vem ganhando espaços, mas ainda uma grande parte sofre com a falta de oportunidade.

  1. Quais foram os maiores desafios enfrentados nesses anos como um artista de teatro?

Meu maior desafio foi me manter financeiramente. É um espaço pouco valorizado e as oportunidades, infelizmente, são poucas. Então eu nunca podia ficar dependendo só dele, tinha que ter uma outra opção com renda. Ficar longe do teatro é muito doloroso pra mim!

  1. Quer deixar uma mensagem para os nossos leitores?

Façam aquilo que ame, independente do retorno financeiro. Não tem nada mais prazeroso do que fazer o que realmente ama! 

  1. Onde podemos te encontrar?

No meu Instagram, @omichel__

Conheça o Artista: Marina Ramos

Nesta semana, o quadro ‘Conheça o Artista – FRENEZI X Projeto Orgulharte’ apresenta a cantora e luthier, Marina Ramos, de 29 anos. Nascida em São Paulo e moradora do Grande ABC Paulista, na cidade de Santo André, a musicista toca e interpreta as canções de seus artistas favoritos em bares e casas noturnas.

Marina teve a influência da música desde muito jovem por conta da irmã mais velha, que ouvia muito a dupla Sandy e Júnior. Ela conta que também chegou a pedir um violão igual ao dos sertanejos Chitãozinho e Xororó para a mãe:

‘’Minha irmã mais velha vivia escutando Sandy e Junior. Consequentemente, acompanhava todos os lançamentos e programas de TV. Fui tentando imitar a voz da Sandy e um tempo depois pedi para minha mãe um violão igual ao do Xororó. No entanto, por não ter condições de bancar um violão tão bom quanto o dele, arrumamos um bem antigo, mas que foi suficiente’’, contou. 

Além das eventuais apresentações em casas de show aos finais de semana, a cantora também mescla o talento da voz com a habilidade das mãos, trabalhando como luthier em uma loja de instrumentos em São Paulo. Para ela, essas características juntas ao termo “resiliência’’, a descrevem. Ela diz que atuar nessas áreas nas quais a figura masculina e heteronormativo é predominante, requer o dobro de esforço, seja técnico ou artístico, e faz parte de sua rotina de trabalho. “Por se tratar de uma ‘mina’ atendendo, fazendo um som ou apenas dominando determinado assunto, mexe com o ego alheio. E isso te faz escutar coisas, ainda que mínimas, mas que machucam’’, relatou.

Marina também comentou sobre a vivência enquanto mulher e lésbica no cenário musical. A musicista já perdeu as contas de quantas vezes teve que lidar com o assédio do público masculino. “Não quero ser apenas o estereótipo da lésbica que canta e toca violão, mas não consigo contar nos dedos a quantidade de homens que se aproximam de mim com intuitos sexuais, quase que como uma tentativa de ‘me converter a heterossexualidade’, esclareceu. 

Apesar das dificuldades, a jovem se considera uma pessoa resiliente e capaz de ‘dar a volta por cima’ das situações nem tão boas. Ela reforça que a música tem a capacidade de transformar vidas e que não pretende desistir dos sonhos. “Seguir seus sonhos nunca será uma escolha errada, ninguém tira isso de você!”, salientou. 

A artista pode ser encontrada através do Instagram @marinarmusic. 

Conheça o Artista: Jessy Barroso

Conheça nesta quarta-feira (04), no quadro ‘Conheça o Artista – FRENEZI X Projeto Orgulharte’ a ilustradora e pintora Jessy Barroso, de 24 anos. Natural de Brasília e moradora do Rio de Janeiro desde os 8 anos, a vendedora e artista se dedica à pintura há muito tempo. Além de trabalhar em uma loja de shopping, a ex-estudante de moda estampa roupas para vender e já conquistou algumas pessoas.

Apesar da experiência, Jessy diz que opta por fazer trabalhos para pessoas próximas e conhecidas para evitar qualquer tipo de discriminação e preconceito que pode vir a sofrer por conta de sua sexualidade. ‘’A principal dificuldade que eu vejo agora é o receio de ampliar meus horizontes e vender para pessoas que são só do meu círculo de convívio’’, esclarece. 

A artista possui uma pintura específica, marcante e com bastante significado. Para ela, os desenhos representam a forma como se sente e a pintura se resume à “cor” que chegou à vida para tirar a “sensação cinza” em que vivia. ‘’Minhas pinturas sempre expressam sentimentos, sejam eles muito bons ou ruins. Eu sempre tento transmitir alguma mensagem através deles’’.

Em entrevista, ela contou sobre os direcionamentos que vem tomando na vida. Para a jovem, as incertezas ainda são muitas. “Sou uma pessoa que ainda está em uma jornada de descobrimento, tanto profissional como pessoal. A única certeza que eu sempre tive, é de ser lésbica”, disse Jessy.

Leia a entrevista com Jessy Barroso: 

  1. Quem é a Jessy?

Essa é uma pergunta difícil. Eu acho que estamos sempre em constante evolução e que somos altamente mutáveis, então o que posso afirmar é apenas que a Jessy de ontem não será a mesma de amanhã.

  1. Quando e de que forma a pintura começou a fazer parte da sua vida?

A pintura começou como uma fuga pra mim. Através dos meus desenhos sempre tive mais autonomia para expressar meus sentimentos e esse processo sempre foi muito natural. 

  1. Como uma pessoa que faz parte da comunidade LGBTQIA+, quais são os principais problemas enfrentados na vida artística? 

Acho que a maior parte dos meus sentimentos ruins motivaram a criação de alguns desenhos. Sempre foram as consequências de algum constrangimento, sofrimento e dificuldade de aceitação, até mesmo pela família, por ser LGBTQIA+. 

  1. Quais serão seus próximos passos como artista e profissional?

Pretendo comprar uma máquina para começar a transferir meus desenhos para a pele, mas não pretendo parar a confecção das roupas. Quer coisa melhor que ver alguém carregar a minha arte para sempre? Isso é maneiro demais!

Mais informações e contato pode ser feito através do Instagram da artista: @artwesty_

Destaque

Projeto ‘Orgulharte’ e ‘Conheça o Artista’ em parceria

Grupo de alunos de comunicação e moda faz ação com apoio a artistas e profissionais LGBTQIA+ 

Nesta quarta-feira (27), a Frenezi traz a iniciativa de um grupo universitário do Rio de Janeiro cujo intuito é, através da arte, ação e diversidade, impactar positivamente a realidade artística e profissional de pessoas LGBTQIA+. 

O Projeto Orgulharte, o qual o lema é ‘Orgulhe-se da sua arte’, surgiu com a proposta de trazer visibilidade aos talentos que, muitas vezes, por questão de preconceito e discriminação, são limitados de se expressarem e manifestarem suas habilidades.

‘’Desenvolvemos esse programa para que o atual cenário de uma sociedade preconceituosa mude. Nosso objetivo principal é dar oportunidade aos LGBTQIA+, chance que talvez nunca tiveram. Sabemos o quão difícil é ser parte da comunidade e viver no país que é responsável pelo maior índice de crimes contra ela’’, esclarece Alexandre Machado, integrante do grupo.

O projeto conta com a colaboração de 4 artistas e profissionais que terão a oportunidade de divulgar seu trabalho nas plataformas digitais do ‘Orgulharte’ e através do quadro semanal ‘Conheça o Artista’ da revista. Para os organizadores, o quadro – que já existia antes, no entanto, agora direcionado à comunidade LGBT+ –  foi uma oportunidade tanto para os artistas, quanto para eles.

“Existem muitas pessoas talentosas e criativas na comunidade. Geralmente somos mais engajados em projetos artísticos e musicais do que o restante, talvez seja por termos vivido tanto tempo embaixo de um cenário de ‘opressão’. Entretanto, ironicamente, vemos pouca representatividade, seja na mídia ou até mesmo em ambientes corporativos”, acrescenta Nicolly Fabris, uma das idealizadoras do projeto. 

O primeiro artista junto com a Frenezi e o projeto será apresentado na próxima quarta-feira, 04 de maio. Não deixe de conferir. 

Quem foi Nise da Silveira?

No dia 10 de outubro foi comemorado o Dia Mundial da Saúde Mental e a Frenezi traz uma das figuras femininas nacionais mais importantes para a psiquiatria.

Nise da Silveira nasceu no dia 15 de fevereiro de 1905, em Maceió, e foi casada com o seu primo sanitarista Mário Magalhães. Filha única, o pai era professor de matemática e jornalista, quanto à mãe, pianista. Aos 15 anos, Nise ingressou no curso de medicina e foi a primeira mulher a se formar na Faculdade de Medicina da Bahia, sendo a única figura feminina em uma classe de 157 homens — nem mesmo banheiro feminino havia na universidade. Aos 21 anos, quando concluiu os estudos e voltou para Maceió, enfrentou a perda de seu pai e, junto a Mário, mudou-se para o Rio de Janeiro.  

Sua jornada de convivência com os pacientes começa em 1932, quando passa a morar no Hospício da Praia Vermelha e se prepara para o concurso de médico psiquiatra: uma trajetória que durou a vida toda e revolucionou o modo como as doenças psiquiátricas eram tratadas. Contudo, em 1936, sua afinidade ao comunismo a levou à prisão no governo de Getúlio Vargas. Enquanto estava em detenção, Nise conheceu outras presas políticas importantes como Olga Prestes, Maria Werneck e Elisa Berger, além do seu conterrâneo Graciliano Ramos.

”Depois de um ano na prisão, fiquei com mania de liberdade.” — Nise da Silveira

Posterior a isso, em 1944, Nise passa a compor o corpo clínico da primeira instituição psiquiátrica do país, o Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II. Lá, Nise se recusa a utilizar as técnicas de tratamento cruéis como forma de cuidado de seus ”clientes” — maneira como nomeava os internos. Nise queria substituir doentes dopados e alienados por pessoas assistidas e afetadas. Desse modo, em vez de choques, camisa de força, encarceramento e serviços, Nise usou a arte como método de tratamento. 

A psiquiatra foi homenageada com o filme Nise – O Coração da  Loucura, dirigido por Roberto Berliner e interpretado pela atriz Glória Pires, no qual retrata essa nova realidade e o primeiro contato dos doentes mentais com a arte através de ferramentas artísticas — o que resultou em verdadeiras obras —, além do tratamento terapêutico por meio da interação com os animais. 

Assista ao trailer:

As artes foram armazenadas no Museu de Imagens do Inconsciente e, nesse momento, estão sendo exibidas no Centro Cultural Banco do Brasil até o dia 15 de novembro. A exposição se chama Nise – a revolução pelo afeto e tem o objetivo de mostrar algumas das artes dos pacientes e contar a história de uma das médicas brasileiras mais importantes na história da psiquiatria.  

Confira as imagens da exposição:

Mulher, militante, médica e nordestina, Nise faleceu em 1999, aos 94 anos, vítima de uma pneumonia. A médica enfrentou toda a sociedade conservadora da época e, com inteligência, afeto, resistência e luta, mudou a vida de muita gente e trouxe um novo rumo à ciência.

Imagens: Divulgação

OSGEMEOS: dupla que levou o estilo brasileiro do grafite para o mundo

O grafite chegou ao Brasil na década de 70 pela maior metrópole do país, São Paulo, influenciados pelo crescimento do movimento nos Estados Unidos. Os artistas se arriscavam com o cenário de um país que vivia um contexto político de ditadura, a manifestação era criminalizada pelo Estado — foi institucionalizado em 2011 e assegurado pela por lei. Através do Sudeste, a prática foi se espalhando para os demais centros urbanos do país. O Brasil é um dos países mais reconhecidos pela arte do grafite, cultura retratada como marginalizada por ser uma arte urbana.

Conhecidos internacionalmente com obras presentes em diversas galerias e museus, Otávio e Gustavo Pandolfo são uma dupla de irmãos gêmeos grafiteros de São Paulo, nascidos em 1974, conhecidos como OSGEMEOS. 

Pintura de OSGEMEOS em muro da cidade de São Paulo.

Quando crianças, viveram no tradicional bairro do Cambuci (SP), desenvolveram um modo distinto de brincar e se comunicar através da arte. Começaram como dançarinos de break, com o apoio da família, e com a chegada da cultura Hip Hop no Brasil nos anos de 1980, eles começaram a pintar grafites em 1987, gradativamente tornaram-se uma das influências mais importantes na cena paulistana, e ajudaram a definir um estilo brasileiro de grafite. As ruas eram o principal ateliê e lugar de estudo dos irmãos. 

Em 1995 surgiu a oportunidade da primeira exposição experimental de arte de rua no Museu da Imagem e do Som, o MIS em São Paulo. No início dos anos 2000, eles foram convidados a participar de um projeto para criação de murais em estações ferroviárias e metrô de São Paulo, o que normalmente não é feito no país. Depois disso, o reconhecimento da dupla cresceu de forma que fossem reconhecidos nacionalmente e internacionalmente, com mostras individuais e coletivas em museus e galerias ao redor do mundo, como Cuba, Chile, Estados Unidos, Itália, Espanha, Inglaterra, Alemanha, Lituânia e Japão. Em 2014, criaram e executaram a pintura de um avião em um projeto da empresa de aviação Gol, que transportou a seleção de futebol do Brasil durante a Copa do Mundo.

Avião da seleção brasileira, arte pelo OSGEMEOS. [Imagem: Divulgação]

Os temas vão de retratos de família à críticas sociais e políticas onde retratam a realidade vivida nas grandes metrópoles. O estilo obteve referência através do hip hop tradicional e pela pichação. Por o grafite ser considerado uma arte marginalizada, as obras referenciam e criticam também esta característica. A presença de cores vivas, fantasias, lúdicas e a música fazem parte de sua arte. Algumas de suas apresentações em museus contam a história de como começaram, com a presença de músicas, danças de hip hop, cadernetas e desenhos de rascunhos além de obras com críticas sociais.

Mural em Vancouver Biennale-Canadá. [Imagem: Divulgação]

Nunca pararam de fazer sua arte, e com o passar dos anos, este cenário no qual sonhavam foi tomando forma de forma natural, até que conquistaram seu espaço se transformando numa linguagem própria com referências e influências por novas culturas.

Colaboração de OSGEMEOS e Banksy. [Imagem: Divulgação]

Jean-Michel Basquiat: O precursor do início do grafite e da arte urbana

Na última semana de agosto, a Tiffany & Co divulgou sua nova campanha About Love com os Carters traz para cena o diamante Tiffany, e quase ofusca outra obra de arte tão incrível quanto, que faz parte dessa produção, a Equals Pi, quadro de Jean-Michel Basquiat. Mas quem é o grande nome e autor desta obra avaliada em quase US$ 20 milhões?

Jean-Michel Basquiat- Equalps Pi, 1982.

Jean-Michel Basquiat nasceu em 22 de dezembro de 1960 no Brooklyn (NY). Desde pequeno desenhava nos papéis que seu pai trazia do escritório de contabilidade, sua mãe o levava em museus e lugares artísticos. Aos 7 anos sofreu um acidente que precisou ficar um tempo no hospital, ainda lá, sua mãe o presenteou com um livro de Grey´s Anatomy, o qual no futuro os desenhos anatômicos inspirariam sua arte. 

Sem título (crânio) da série de anatomia, 1982

Nos anos de 1970, a arte predominante nos Estados Unidos era a pop art, artistas como Andy Warhol e Roy Lichtenstein eram referências, além da arte minimalista e conceitual. 

Enquanto isso, na Alemanha, acontecia um movimento que foi chamado de “Die Jungen Wilden”, do portugês “Os jovens rebeldes”. Em todas as partes do mundo era possível ver jovens reagindo a um frizz intelectual que o minimalismo e a arte conceitual costumavam propor diretamente ou indiretamente.

O mercado de arte estava em alta, artistas produzindo arte apenas para vender. Nos EUA as pessoas passaram a consumir mais galerias do que museus. Muitas vezes essas galerias brincavam entre o que era considerado uma cultura elevada e outra mais trivial. Basquiat entra com o equilíbrio, a cultura do gueto, a chamada arte marginalizada (grafite) e a cultura da aristocracia. Nasce a linha tênue entre isso, o movimento do novo. 

Em 1980, aconteceu o desenvolvimento da West Village. Estavam promovendo o marketing da arte do grafite, a divulgação para o mundo, seja em marcas, galerias ou vestimentas, a vez da ascensão do grafite. Basquiat entrou e foi notado por críticos e historiadores. Desde o colegial pichava com seu amigo Al Diaz a palavra SAMO© (abreviatura de “same old shit”), entre 1977 e 1980. Muros, cafés, galerias e lojas passaram a ser telas deste pseudônimo com frases poéticas, chamando ainda mais atenção nos lugares onde a alta renda estava concentrada. 

Boom for Real: The Late Teenage Years of Jean-Michel Basquiat.

“Escolhia os lugares da moda de Nova York que frequentava, como o Mudd Club, para chamar atenção”. No meio da década de 80, triunfou no meio artístico da cidade. Com o tempo, as artes de rua, os grafites e as escritas passaram a não atrair mais policiais e a diminuição dessa arte como marginalização. Grandes nomes no grafite como Kenny Scharf, Fred Brathwaite e Rammellzee, já não eram nomes ligados a jovens delinquentes, mas sim nomes respeitados e conhecidos, tudo devido ao crescimento do grafite e sua enorme onda de marketing.

Não só suas obras eram negociadas como marca, mas ele mesmo. Os artistas visuais estavam no mainstream e era algo considerado cult. Basquiat conheceu Glenn O´Brien que o convidou para ser personagem principal de um filme chamado New York Beat, baseado na arte de Nova Iorque e no próprio Basquiat. Porém, só foi lançado nos anos 2000 com o nome de Downtown 81. A obra Cadillac Moon, participou de um evento chamado New York, New Scene, mostrando que algo novo estava acontecendo na cidade. Ela representava o fim do Basquiat, do Samo. Uma obra importante que risca o pseudônimo. 

Jean- Michel Basquiat, Cadillac Moon, 1981.

Uma época na qual ainda os artistas eram vistos como marginais, assim como Jackson Pollock ou Van Gogh que não foram reconhecidos como tais durante sua vida, Basquiat era um artista marginalizado pela sociedade, ainda mais pela sua cor de pele. Um dos poucos artistas da época que vendeu milhões. Seus desenhos muitas vezes eram vistos como infantis, retratando a vida urbana; namorou Madonna; teve uma banda chamada Gray que tocava noise music e se apresentavam em clubs que o próprio Basquiat tocava como dj; passou a vender cartões postais desenhados a mão para ganhar dinheiro; viveu no subsolo de colecionadores e galeristas em troca de tintas e telas, que muitas vezes eram vendidas sem nem terem sido finalizadas. 

O seu “fim” estava associado na cena artística da cidade, também a uma postura racista da cena artística de Nova Iorque, e como os brancos reagiram à cor da pele do Basquiat. Jean-Michael Basquiat morreu em Manhattan (NY) aos 27 anos de overdose. Hoje suas obras são leiloadas e avaliadas em milhões, algumas em museus e em acervos particulares espalhados pelo mundo, alguns como França e Jerusalém.